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17 de setembro de 2026

Fotografias que mudaram padrões

 




 

Fashion is about who you want to be, not who you are.

(Moda é sobre quem você quer ser e não sobre quem você é.)

–– Richard Avedon.  


Um dos mais importantes teóricos da fotografia, e também um dos pensadores da cultura mais influentes desde a segunda metade do século 20, o francês Roland Barthes nunca concluiu sua tese de doutorado. Uma parte dela foi publicada em 1967 no livro “O Sistema da Moda” – análise minuciosa a partir de revistas para tentar decifrar a moda como um sistema de significados, um código retórico de imagens e palavras que estabelecem gostos de consumo e tendências culturais. “O Sistema da Moda” não propõe uma história da indumentária e muito menos uma sociologia da moda ou uma psicologia da moda. O que Barthes apresenta é uma semiótica da moda, um estudo sobre a linguagem e os sentidos do que seja a moda e do que seja “estar na moda”.

Alguns dos pressupostos de Barthes, que deram à moda um verniz de assunto nobre e universitário, poderiam servir como epígrafe para uma retrospectiva em formato de reportagem fotográfica feita recentemente pelo jornal The New York Times em sua revista “T” (abreviação para The New York Times Style Magazine – veja link para a reportagem no final desta página). Um dos editores da revista, Nick Haramis, convidou um time de especialistas, que incluiu fotógrafos, estilistas, designers de moda, jornalistas e modelos, para elaborar uma lista com as fotografias de moda mais influentes do último século. Tendo como critérios para a seleção as questões de impacto e de originalidade, a proposta partiu de um desafio potencialmente impossível: nomear uma seleção de imagens que mudaram padrões sobre beleza, estilo e comportamento.










Fotografias que mudaram padrões: no alto da página,
a capa do álbum “Homogenic”, de Björk, lançado em 1997,
com fotografia de Nick Knight que teve direção de arte
do estilista Alexander McQueen. Acima, a
fotografia
original de Björk antes da pós-produção. A foto, na
verdade, é uma recriação, com poucas alterações,
de outra foto que Knight e McQueen produziram,
também em 1997, para a revista Visionaire,
com a modelo Devon Aoki (uma das imagens
que estão nesta seleção de 25 fotografias).

Abaixo, a 
capa desdobrável de julho de 2005
da Vogue Itália com
fotografia de Steve Meisel









Nomes de referência


Como em toda lista, as imagens selecionadas estão sujeitas aos mais variados questionamentos e podem levar a argumentos sobre rejeições e dúvidas diante de outras fotografias igualmente marcantes que não foram incluídas. As possíveis ressalvas também servem para confirmar que esta não é uma lista definitiva e sim um conjunto mais ou menos memorável para reforçar alguns nomes como referência e apresentar um acervo de imagens e mensagens que provocaram polêmicas e rupturas em sua época e que foram normalizadas, realmente adotadas como norma ou diluídas pela profusão de imitadores que veio depois. A lista não está restrita à publicidade nem a editoriais de moda, desde que a foto tenha de alguma forma inspirado o mundo da moda ou promovido alterações importantes nos critérios sobre estilo e comportamento.

A lista das 25 fotografias marcantes que mudaram padrões sobre beleza e estilo, segundo os critérios da reportagem, inclui imagens muito conhecidas que vêm de fotojornalismo, fotos autorais sobre temas diversos, fotos que se tornaram capas de disco, ou que foram produzidas com esta finalidade, e até um registro feito por um paparazzo. Pelos critérios de votação, em que cada convidado escolhia 10 fotografias sem ordem de classificação, houve o caso do fotógrafo Steven Meisel, que aparece selecionado com mais de uma fotografia.

Na lista, a fotografia mais antiga é de 1951, de Irving Penn, e a mais recente é de Deana Lawson, de 2009. No conjunto de imagens selecionadas, as décadas mais lembradas são a de 1990, com sete fotografias, seguida dos anos 1970, com seis, e dos anos 1980, com cinco imagens selecionadas. Os perfis dos fotógrafos e as análises sobre cada fotografia, reproduzidas a seguir, em ordem cronológica, foram feitos por mim. E, sendo uma revista norte-americana, nenhuma surpresa pela constatação de que tanto a maioria dos fotógrafos como a maior parte das fotografias serem dos Estados Unidos.

 



Irving Penn, “Manga larga em Sunny Harnett”, Nova York, 1951


O norte-americano Irving Penn (1917-2009), um dos nomes mais importantes da fotografia de moda do século 20, muitas vezes copiado e tomado como referência por sua trajetória de excelência, trabalhou por mais de 60 anos para a revista Vogue e ficou conhecido tanto por seus enquadramentos inesperados como pelas suas perspectivas e seus enquadramentos incomuns que trouxeram mudanças radicais em relação à tradição centralizada que sempre dominou as fotos do mundo da moda. Nesta foto de 1951, a modelo Sunny Harnett tem o rosto cortado na altura dos olhos e o destaque vai para os detalhes da roupa que aparecem de forma quase inevitável.




Robert Frank, “Rodeio”, Nova York, 1954


Nascido na Suíça e radicado nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra,
Robert Frank (1924-2019) conseguiu uma bolsa da Fundação Guggenheim para viajar por 30 estados do país fotografando pessoas comuns. Seu primeiro trabalho, depois da guerra, foi como fotógrafo de moda para a Harper’s Bazaar e outras revistas, mas ele não se ajustava às limitações das pautas e partiu para a fotografia documental, registrada em sua obra-prima “The Americans” – livro de 1958 que virou obra de referência e inclui a foto do cowboy anônimo de chapéu, jeans e botas e couro encostado na cesta de lixo na cidade grande. 





Melvin Sokolsky, “Bolha no Sena” para a Harper's Bazaar, 1963


Nascido em Nova York, Melvin Sokolsky (1933-2022) dedicou-se a fotografias de moda e de publicidade. Em 1963, produziu um editorial de moda de 12 páginas para a
revista Harper’s Bazaar que tornou-se um acontecimento: inspiradas em um detalhe da pintura monumental “O Jardim das Delícias Terrenas” (1490), do holandês Hieronymus Bosch, as fotos apresentavam a modelo Simone D'Aillencourt, vestindo peças da coleção do estilista Philippe Venet, dentro de uma bolha de plástico, em vários cenários das ruas de Paris.





Diane Arbus, “Jovem com bobes em casa”, Nova York, 1966


Fotógrafa e escritora, Diane Arbus (1923-1971) começou trabalhando para revistas de moda, produzindo editorias e anúncios publicitários com o marido, Allan Arbus, mas terminou abandonando a parceria para fotografar as ruas de Nova York e ficou conhecida por seus registros sobre pessoas anônimas e marginalizadas. Na fotografia de 1966, feita com uma câmera Rolleyflex, muito próxima do personagem, a impressão é que estamos presenciando a conversa.








Ed van der Elsken, “Zwitserland”, Alpes Suíços, 1967


O fotógrafo e cineasta holandês Ed van der Elsken (1925-1990)
trabalhou com Henri Cartier-Bresson e Robert Capa na Agência Magnum, em Paris, e viajou por diversos países. Seu foco principal eram as pessoas comuns em cenas urbanas e os marginalizados, abrangendo da Segunda Guerra até os anos 1980. Nesta foto enigmática de 1967, publicada em um editorial sobre viagens da revista Avenue, de Amsterdã, a jovem com a perna engessada contempla a paisagem na janela com uma sensualidade que era incomum para a época. Sofia Coppola reproduz esta imagem nos fotogramas iniciais do filme de 2003 "Lost in Translation" (Encontros e Despedidas).




Ron Galella, “Jackie ao Vento”, Nova York, 1971 

Chamado de “padrinho da cultura dos paparazzi dos Estados Unidos”, Ron Galella (1931-2022) era considerado o paparazzo mais controverso de todos, com várias desavenças e processos judiciais movidos por celebridades como Jacqueline Kennedy Onassis, Marlon Brando, Elvis Presley ou o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, entre outros. Ele dizia que a foto da ex-primeira dama passeando em Nova York era sua “Mona Lisa”, depois de permanecer como uma presença incômoda durante anos na vida cotidiana de Jackie.





Helmut Newton, “Yves Saint Laurent, Rue Aubriot”, 1975


O fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) ficou conhecido por seus estudos de nu feminino que são associados, com muita frequência, aos mais variados fetiches. Depois da Segunda Guerra, ele fixou residência na Austrália, mas seguiu durante décadas trabalhando em editoriais para revistas de moda, especialmente para a Vogue francesa. Nesta foto emblemática, a modelo Vibeke Knudsen está inteiramente vestida, em uma pose em estilo andrógino, para o catálogo da Saint Laurent, em uma rua deserta do centro histórico de Paris, tarde da noite ou de madrugada.





Robert Mapplethorpe, “Patti Smith”, Nova York, 1975


Patti Smith e o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) foram amantes, no final da década de 1960, quando moravam no lendário Chelsea Hotel e iniciavam suas carreiras, e depois foram amigos muito próximos. Nesta foto, produzida para a capa de “Horses”, álbum de estreia de Patti Smith, é notável a complexidade da composição por trás de um retrato aparentemente simples. No contraste suave entre preto e branco, a luz ilumina somente metade do rosto de Patti e os punhos da camisa foram cortados. Uma fita pende do seu pescoço até a cintura, como se fosse uma gravata desfeita e o paletó masculino está jogado sobre o ombro. Patti declarou, em uma entrevista, que a foto “tem um pouco de Baudelaire, um pouco de garoto católico, um pouco de Frank Sinatra e muito de Robert”.






Joseph Szabo, “O Beijo”, Nova York, 1977

Nascido em Ohio, em 1944, Joseph Szabo concluiu seu mestrado em Belas Artes no Pratt Institute, no Brooklyn, e começou a trabalhar como professor em uma escola pública de ensino médio em Long Island. Suas fotos mais conhecidas registram seus alunos em situações cotidianas e junto de outros adolescentes e jovens suburbanos, namorando ou passeando por Nova York, segundo ele próprio com inspiração nas célebres fotos dos libertinos e modernos parisienses nas décadas de 1920 e 1930 feitas pelo húngaro Brassaï. As atitudes rebeldes presentes em suas fotos foram reproduzidas por diversos anúncios publicitários e estilistas de moda.






Cindy Sherman, “Fotografia sem título nº 21”, Nova York, 1978


A fotógrafa Cindy Sherman também é a modelo nesta fotografia de 1978, da série de retratos sem título em que a ela interpreta diferentes atrizes promovendo filmes fictícios. Nascida em 1954 em Nova Jersey, Cindy especializou-se em criar personas fictícias para criticar estereótipos de gênero, papéis sociais e hábitos de consumo. Embora ela tenha colaborado com publicações de moda em editoriais de sátira, seu foco central é a reflexão sobre identidade e representação visual, como neste retrato da jovem que tem os arranha-céus emoldurando seu rosto preocupado e seu olhar fixo em algo fora do enquadramento da fotografia.








Guy Bourdin, “Mulher com um retrato de John Travolta”, 1979


O francês Guy Bourdin (1928-1991) ficou conhecido por suas fotos publicadas em revistas como a Vogue e a Harper’s Bazaar, mas também conquistou reconhecimento por sua obra experimental e fora dos padrões do mercado da moda e da publicidade. Influenciado pelas experiências estéticas dos mestres do surrealismo, especialmente por Man Ray, Bourdin criou fotos ousadas por seus enredos enigmáticos, eróticos, com cores fortes e provocantes – como nesta imagem, feita para um anúncio publicitário da marca francesa de calçados Charles Jourdan, em que a modelo está reclinada sobre o sofá em uma pose provocante e tem uma foto emoldurada de John Travolta entre suas pernas. Madonna reproduz a pose e a cena no videoclipe de "Hollywood", sob a direção de Jean-Baptiste Mondino.





Nan Goldin, “O Abraço”, Nova York, 1980


Nascida em 1953 em Washington, Nan Goldin tinha 20 anos quando começou a fotografar a si e a seus amigos anônimos, artistas, músicos e drag queens em situações cotidianas de intimidade. Seu diário visual resultaria nas imagens confessionais de uma exposição, apresentada pela primeira vez em 1979 e como fotolivro em 1986, com o título “A Balada da Dependência Sexual” – uma coleção de centenas de fotos que causaram polêmica e a consagraram como uma das fotógrafas e artistas visuais mais importantes de sua geração. Nesta fotografia, a luz do flash projeta a sombra das figuras e dissolve as fronteiras entre documento e autobiografia.





Richard Avedon, “Brooke Shields para Calvin Klein Jeans”, 1980


Talvez Richard Avedon (1923-2004) tenha feito uma concessão ao fotografar Brooke Shields em cores para uma campanha da Calvin Klein Jeans em 1980, já que ele sempre foi conhecido por suas fotos em preto e branco para editoriais de moda, anúncios de publicidade e retratos de celebridades. Na foto, ela tinha apenas 15 anos e a exposição do anúncio na mídia e em outdoors intensificou as controvérsias sobre a sexualização de menores na mídia – Brooke Shields já estava no centro da polêmica, por seu papel de criança coagida à prostituição quando tinha 12 anos no filme de 1978 “Pretty Baby”, de Louis Malle. Não é a foto mais marcante na trajetória de Avedon, mas foi um divisor de águas na publicidade, destacando um estilo de campanhas com foco na provocação e no erotismo que traria fama e fortuna para fotógrafos e publicitários que vieram depois, como o italiano Oliviero Toscani e suas fotos polêmicas criadas
para a grife Benetton. No Brasil houve um episódio semelhante em 1987, com a campanha publicitária “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto para a marca de lingerie Valisére; Patricia Lucchesi, atriz dos anúncios, na época tinha 12 anos.





Jean-Paul Goude, “Grace Jones, Azul-Preto sobre Marrom”, 1981

Nascido em 1938 na França, o fotógrafo, designer e cineasta Jean-Paul Goude conheceu a jamaicana Grace Jones nos anos 1970, quando ele era um respeitado diretor de arte da revista “Esquire” e ela se apresentava no Les Mouches, um bar e discoteca que era um reduto da comunidade LGBT em Nova York. Eles se tornaram um casal inseparável. Goude passou a produzir seu estilo estético e a apresentou a artistas como Andy Warhol e Keith Haring. “Ela se tornou minha obsessão”, declarou Goude em entrevista recente. Foram muitas colaborações entre os dois, de videoclipes a shows e capas de álbum. Esta imagem foi a capa de “Nightclubbing”, quinto disco de Grace Jones, lançado em 1981. O corte de cabelo geométrico, a maquiagem, o smoking Armani e a pele pintada com pigmento azul brilhante mudaram o visual de Grace Jones e da beleza negra desde então.





Andy Warhol, “Jean-Michel Basquiat”, Nova York, 1982


Multiartista, produtor cultural e principal referência da Pop Art, Andy Warhol (1928-1987) trabalhou em todas as mídias e todas as formas da arte em seu tempo, o que inclui o universo da moda através de seu estúdio The Factory, que misturava arte, música e publicidade. Também produziu milhares de fotografias de celebridades, algumas delas com câmeras Polaroid, que revelam e imprimem a imagem segundos após o clique fotográfico. Este retrato em Polaroid foi feito após o primeiro encontro do jovem e desconhecido Basquiat, aos 21 anos, com o marchand de arte suíço Bruno Bischofberger. O marchand levou o trabalho de Basquiat para a Europa e o transformou em uma lenda das artes plásticas.

 




Hans Feurer, “Susan Hess para Comme des Garçons”, 1983


O fotógrafo suíço Hans Feurer (1939-2024) era um nome de referência no mundo da moda quando produziu esta foto surpreendente para um catálogo da estilista japonesa Rei Kawakubo e sua grife Comme des Garçons em 1983. A silhueta do vestido preto perde a forma e esconde o corpo da modelo Susan Hess, que usa luvas pretas e calça tênis; na pose do salto, uma echarpe de cor clara enrolada em várias voltas cobre totalmente o rosto da modelo. A foto foi tão imprevisível e tão marcante que colocou a Comme des Garçons no radar da moda mundial e alterou o estilo de Rei Kawakubo, que passou a adotar roupas desconstruídas e ousadas que desafiam os cânones da alta-costura e as formas tradicionais do corpo.





Carrie Mae Weems, “Série Mesa de Cozinha”, Nova York, 1990


Nascida em 1953 no Oregon, a fotógrafa e artista multimídia produziu um ensaio com 20 fotografias em que ela própria é personagem diante de uma mesa transformada em palco da vida de uma mulher. Ao redor da mesa, sob a luz de uma luminária suspensa, Weems abordou temas conceituais profundos como maternidade, racismo, sexismo, gênero, identidade e classe social. As fotos deste ensaio de 1990 deram visibilidade para o trabalho de Weems, que em 2014 seria a primeira mulher negra a ter sua obra apresentada em uma retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York.





Corinne Day, “O 3º Verão do Amor”, revista The Face, 1990


A britânica Corinne Day (1965-2010) atuava como modelo, fotógrafa e documentarista quando realizou este ensaio
com Kate Moss, na época uma modelo desconhecida de 16 anos, para a revista londrina The Face. As fotos foram um sucesso e provocaram alterações nos padrões da produção de moda ao rejeitar a maquiagem, os cabelos penteados e o glamour tradicional, introduzindo luz natural e imperfeições que criaram um estilo polêmico, seguido por outros fotógrafos como Craig McDean, Glen Luchford e David Sims. O novo estilo passou a ser chamado de forma pejorativa de “heroin chic” e rompeu drasticamente com o padrão de beleza anterior. 





Peter Lindbergh, “Os anos 1990”, Vogue britânica, 1990


Fotógrafo de moda e cineasta, o alemão Peter Lindbergh (1944-2019) foi responsável por lançar e consagrar super-modelos como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Christy Turlington, que nesta foto sintetizam o estilo de Lindbergh: uso de matizes em preto e branco, sem excesso de retoques e com pouca maquiagem. A foto, feita à luz do dia no Meatpacking District de Nova York, famoso por suas lojas de luxo e sua vida noturna agitada, foi feita para a primeira Vogue britânica da década de 1990. O fotógrafo dispensou os figurinos de grife e cada modelo posou com suas roupas cotidianas. A foto foi capa da revista e inspiração para George Michael gravar também em 1990 o videoclipe de “Freedom' 90” com as cinco modelos em cena e direção de David Fincher.






Rineke Dijkstra, “Kolobrzeg", Polônia, 1992


O portfólio “Beach Portraits”, com centenas de adolescentes anônimas de maiô e biquini nas praias cidades da Europa, na década de 1990, trouxe prestígio à fotógrafa Rineke Dijkstra, nascida em 1959 na Holanda, e há quem destaque em sua obra referências à tradição dos mestres da pintura holandesa, como Vermeer e Rembrandt. A série fotográfica nas praias teve início como uma encomenda para um jornal holandês e terminou impulsionando o trabalho de Rineke Dijkstra. Na imagem, a modelo demonstra timidez e vulnerabilidade, em evidente situação de desconforto. A iluminação com flash na maioria das fotos da série destaca cada personagem e traz um equilíbrio entre figura e fundo que remete à composição clássica de retratos muito conhecidos na história da arte.





Steven Meisel, “Atitude Anglo-Saxônica”, Vogue britânica, 1993


Nascido em Nova York, em 1954, Steven Meisel é um dos mais influentes fotógrafos de moda e de retratos de celebridades, com trabalhos marcantes para a revista Vogue, edições da Itália e do Reino Unido, para as quais fotografou muitas capas e os principais editoriais das últimas três décadas. Esta foto foi a estreia da modelo Stella Tennant, que vivia em uma fazenda de criação de cabras na Escócia. A editora de moda Isabella Blow acrescentou à beleza original da modelo um estilo andrógino com cabelos curtos, maquiagem com contorno preto nos olhos e um piercing no nariz, na época um acessório usado apenas pelos punks mais radicais. Quando a revista foi lançada, Stella Tennant surgiu como novo padrão de beleza, o estilo passou a ser imitado por modelos e fotógrafos influentes e ela ganhou exclusividade com a Versace.





David LaChapelle, “Tupac Shakur: Solitário II”, 1996


Nascido em Connecticut, em 1963, David LaChapelle foi contratado por Andy Warhol, quando estava no começo da carreira, e ficou conhecido por suas fotografias de produção irreverente, de cores intensas, em cenários surreais que muitas vezes misturam temas religiosos ou renascentistas, trabalhando com frequência para grifes do primeiro time e para uma variedade de publicações, da Vanity Fair à Interview, Vogue, The Face e Rolling Stone. Neste retrato de 1996, sob encomenda para a revista Details, o rapper Tupac Shakur, recém-libertado da prisão por abuso sexual, e que seria assassinado em Las Vegas em setembro daquele ano, mostra a tatuagem “Thug Life” (Vida de bandido) deitado dentro da banheira, em uma pose provocante, com a nudez coberta apenas por muitas joias de ouro.
 




Nick Knight, “Devon Aoki”, revista Visionaire, 1997


O britânico Nick Knight, nascido em 1958 em Londres, atua como fotógrafo de moda e como professor na University of the Arts de Londres, sendo um pioneiro no uso de manipulações digitais e entusiasta de recursos tecnológicos de ponta como escaneamento 3D e intervenções por Inteligência Artificial. Nesta foto, produzida para a revista Visionaire, a modelo Devon Aoki veste uma criação de Alexander McQueen. Em um de seus olhos, uma lente de contato; na testa, um alfinete gigante indica um corte profundo com flores, tudo adicionado em pós-produção. A mistura de fragilidade e estranheza levou Björk a contratar Knight e McQueen para recriar a imagem com ela própria como modelo para a capa do disco “Homogenic”, lançado também em 1997.
 

 



Steven Meisel, “Febre de transformação”, Vogue italiana, 2005


Na foto da capa da revista e no ensaio editorial de Steven Meisel, as modelos estão em ambiente de hospital ou em camas de quartos luxuosos com bandagens e curativos, e algumas se contorcem em agonia ou êxtase em cenas de lipoaspiração, injeções faciais, cirurgias estéticas e implantes. O que era provocativo e chocante em 2005, hoje soa como quase banal: as intervenções no corpo deixaram de ser segredo ou exceção e se tornaram símbolos de status. O que talvez pudesse parecer estranho e incomum em 2005, na atualidade se tornou procedimento corriqueiro em nome da beleza.






Deana Lawson, “Binky & Tony Forever”, 2009


Nascida em Nova York, em 1979, Deana Lawson segue a pauta identitária da estética negra em temas como família, sexualidade e espiritualidade com detalhes de composição que fogem aos padrões tradicionais da fotografia de moda. Embora não produza com frequência fotos para revistas do mundo da moda ou para o mercado publicitário, seu trabalho como fotógrafa e artista visual já foi pauta de diversas reportagens em revistas como a Vogue ou a Vanity Fair. A foto de 2009 expressa o que Lawson chamou de “uma cena de amor de jovens negros” e faz parte de um projeto mais amplo que registra momentos de beleza na vida cotidiana que tenham relação com questões políticas e históricas da diáspora negra. Em 2016, esta foto estampou a capa do disco de jazz experimental “Freetown Sound”, de Blood Orange.


por José Antônio Orlando.

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Fotografias que mudaram padrões. In: Blog Semióticas, 17 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/fotografias-que-mudaram-padroes.html (acesso em .../.../…).


 Para acessar a fotorreportagem da  T  Magazine,  clique aqui








Fotografias que mudaram padrões: acima,
Diane Arbus em autorretrato em Nova York, 1968.

Abaixo, Ron Galella perseguindo Jackie Onassis
nas ruas em 1971 (Ron Galella Collection)









3 de setembro de 2026

Feminismo por Gloria Steinem

 




Revoluções, como árvores, crescem de baixo para cima.

–– Gloria Steinem

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Assisti há alguns dias ao filme “As Vidas de Gloria” (“The Glorias”, de 2020) e fiquei pensando no capítulo importante que a jornalista, ativista, líder e pioneira do feminismo Gloria Steinem representa para o movimento feminista e para a autoestima de mulheres no mundo inteiro nas batalhas contra o sexismo, contra o preconceito, pelo respeito e pela igualdade no trabalho, em casa e na vida em sociedade. Hoje sou surpreendido com a notícia da morte de Gloria, aos 92 anos, e recordei algumas cenas do filme. A questão central, que a diretora e roteirista Julie Taynor destaca, em quatro fases da vida da ativista, é a complexidade do que seja o feminismo e como Gloria Steinem consegue incorporar esta complexidade do movimento feminista durante décadas.

Julie Taynor vem de filmes notáveis, especialmente a cinebiografia de Frida Kahlo com Salma Hayek (“Frida”, de 2002) e um conto musical de guerra e paz e romance que tem as canções dos Beatles como fio condutor (“Across the Universe”, de 2007). Em “As Vidas de Gloria”, com roteiro baseado no livro autobiográfico “My Life on the Road”, publicado no Brasil como “Minha Vida na Estrada” (Editora Bertrand Brasil), são quatro atrizes para interpretar períodos da história de Gloria: na infância e na adolescência, Ryan Kiera Armstrong e Lulu Wilson; na juventude e na maturidade, Alicia Vikander e Julianne Moore. Também são notáveis as participações de duas cantoras e atrizes: Bette Midler, no papel da deputada feminista Bella Abzug, e Janelle Monáe como Dorothy Pitman Hughes, parceira de Gloria na fundação da publicação que foi um divisor de águas, a revista Ms. (abreviação para “senhorita”).










Feminismo por Gloria Steinem: no alto,
Gloria e sua parceira na fundação da revista M
s.,
Dorothy Pitman Hughes
, em um evento em 1971.
A
cima, Gloria na marcha do Dia da Mulher,
em 7 de março de 1985 em Nova York.

Abaixo, Julianne Moore no papel de Gloria no
filme
“As Vidas de Gloria” (The Glorias) e o cartaz
original
do filme dirigido por Julie Taymor








Viagem no tempo


“As Vidas de Gloria” salta para frente e para trás na trajetória dos personagens, com Julianne Moore na maioria das cenas, vivendo a protagonista a partir dos anos 1970, mas as outras fases da vida da ativista são fundamentais. São elas que iluminam sua formação a partir de algumas experiências que resultam no seu idealismo e sua sabedoria no papel de liderança no movimento pela igualdade e pela liberação feminina. Uma destas experiências é um episódio célebre: em 1963, Gloria trabalhou no anonimato, disfarçada como coelhinha da Playboy, em uma das casas noturnas do poderoso império de Hugh Hefner durante 11 dias – para escrever uma longa reportagem que expõe os dramas e as baixarias a que todas as trabalhadoras da empresa eram forçadas. A reportagem conquistou prêmios e reconhecimento para o trabalho da jornalista.

O
 episódio da reportagem sobre as casas noturnas da Playboy em Nova York foi transformado em 1985 no filme “Diário de uma Coelhinha” (A Bunny’s Tale), com equipe técnica em maioria feminina, caso raro naquela época – com roteiro de Deena Goldstone e Lynn Roth, direção de Karen Arthur e com Kirstie Alley como protagonista no papel de Gloria. Produzido pela rede ABC, o filme foi lançado apenas no formato VHS no mercado brasileiro, no final da década de 1980, e atualmente não está disponível nos serviços de streaming no Brasil.

A trajetória de Gloria Steinem também surgiu em outras produções na última década. A primeira foi “Gloria: Em suas próprias palavras”, de 2011, documentário dirigido por Peter W. Kunhardt para a HBO (disponível no Brasil pelo Prime Vídeo), com imagens raras de arquivo e entrevistas com a jornalista, na época com 77 anos. Um outro documentário, “Makers: Women Who Make America”, de 2013, com roteiro e direção de Barak Goodman, disponível pela MUBI, tem três episódios, com narração de Meryl Streep e depoimentos de Gloria em destaque, apresentando uma retrospectiva sobre as últimas décadas do século 20.






Feminismo por Gloria Steinem: acima,
o cartaz do documentário de 2011 sobre
a trajetória da jornalista, nomeada como
“a feminista mais famosa do mundo”.

Abaixo, Gloria (Rose Byrne) e outras
lideranças feministas em cenas da série
“Mrs. América”, ambientada nos anos 1970



       






Direitos iguais


Além dos documentários,
há uma 
minissérie, “Mrs. América”, de 2020, com criação e roteiro de Dahvi Waller para o canal FX/Hulu (disponível no Brasil pela Disney+). São nove episódios, em formato de ficção, com a trama baseada em um acontecimento histórico que na época alcançou grande repercussão: a mobilização nacional organizada por Gloria Steinem e outras lideranças feministas (Betty Friedan, Shirley Chisholm, Bella Abzug, Jill Ruckelshaus), no começo da década de 1970, para enfrentar a militância conservadora na luta pela aprovação da Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment).

A emenda em questão tornou-se um capítulo à parte na história do movimento feminista e dos direitos humanos e as discussões políticas que ela motivou tiveram repercussão no mundo inteiro. Escrita e apresentada ao Congresso dos EUA em 1923 pela sufragista Alice Paul, a emenda estabelecia garantias para a igualdade de gênero – igualdade legal de direitos de homens e mulheres, proibindo qualquer discriminação baseada no sexo do cidadão. Foi apresentada em 1923, mas só foi aprovada após décadas de debates, em 1972, e até atualmente, mais de 50 anos depois, ainda enfrenta obstáculos e controvérsias sobre sua aplicação. “Mrs. América” conta com Rose Byrne no papel de Gloria Steinem e um elenco de estrelas vivendo personagem que ganharam destaque naquele momento histórico, incluindo Cate Blanchett, Tracy Ullman, Sarah Paulson, Melanie Lynskey, Elizabeth Banks, Margo Martindale e Uzo Aduba.









Feminismo por Gloria Steinem: no alto,
Gloria no palanque
como única mulher a
discursa
r na Convenção Nacional Democrata,
em julho de 1972 na cidade de Miami, Flórida.
Naquele evento, Gloria teve papel fundamental
ao liderar e articular demandas políticas
voltadas para os direitos das mulheres.

Acima, a partir da esquerda, Gloria, as deputadas
feministas 
Bella Abzug (de pé) e Shirley Chisholm,
e a escritora e ativista 
Betty Friedan em Nova York,
em 1971, no evento de fundação da Bancada
Nacional das Mulheres na Política.
Abaixo, Gloria e Betty Friedan em 1971






Mulheres na política


Polêmica e corajosa, Gloria Steinem se transformou aos poucos em uma referência, um ícone do feminismo, uma ativista de um amplo espectro de mobilizações sobre questões femininas no movimento social em muitas lutas e causas, incluindo desde os direitos reprodutivos às batalhas pela igualdade e pela participação das mulheres na política, além de criar diferentes organizações e publicações que marcaram época e continuam em plena atuação. No informe publicado como obituário nas redes sociais pela fundação que leva seu nome, Gloria é nomeada como expoente da “segunda onda” do feminismo – “com quase um século de vida bem vivido, trabalhando pela igualdade até o fim”.

Convém lembrar que se convencionou dividir o feminismo em “ondas”, cada uma com pautas específicas, como o direito ao voto, a libertação sexual, a igualdade no mercado de trabalho e as discussões sobre raça e classe social. A primeira onda, também nomeada como “precursoras”, inclui ativistas e escritoras com foco de atuação nos direitos civis das mulheres, no direito à educação formal e no direito ao voto feminino, movimento que surgiu na Inglaterra, no século 19, e no qual as militantes, conhecidas como sufragistas, chamavam a atenção em público com marchas, greves e protestos. O primeiro país a garantir o voto das mulheres foi a Nova Zelândia, em 1893. Mais de três décadas depois, em 1928, o voto foi aprovado no Reino Unido. No Brasil, as mulheres conquistaram o direito de votar em 1932.

No período considerado como começo dos ideais pelos direitos femininos, a partir do século 17 e até o começo do século 20, alcançam destaque nomes como Sor Juana Inés de la Cruz (1648–1695), pioneira do protofeminismo nas Américas, nascida no México, que transformou a vida religiosa no convento em dedicação para estudar e escrever poesias, peças de teatro e ensaios que desafiavam o patriarcado e defendiam o direito das mulheres ao conhecimento; ou Mary Wollstonecraft (1759-1797), escritora nascida na Inglaterra, esposa do célebre precursor do anarquismo, o filósofo William Godwin, e mãe da também escritora Mary Shelley, autora de “Frankenstein”. Considerada a fundadora da filosofia feminista, Mary foi defensora de uma educação igualitária para homens e mulheres, de uma rejeição ao papel único de vida doméstica e de submissão aos homens, que era uma imposição para as mulheres em sua época. Em sua obra mais famosa, “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, de 1792, ela argumentava que as mulheres não são naturalmente inferiores aos homens, mas pareciam ser por falta de acesso à educação.






Feminismo por Gloria Steinem: acima,
Gloria e outras ativistas participam de
um ato público em Washington em 1979.
Abaixo, as sufragistas
Annie Kenney e
Christabel Pankhurst, lideranças do movimento
pelo voto feminino no Reino Unido em 1903







Antecedentes na História


Entre outros nomes, sempre lembradas como pioneiras do feminismo, estão Olympe de Gouges (1748-1793), pseudônimo de Marie Gouze, também escritora, nascida na França, com importante atuação na Revolução Francesa, militante da democracia e da atuação das mulheres na política; e Sojourner Truth (1797-1883), nascida escravizada em Nova York, que conseguiu escapar com sua filha pequena para a liberdade em 1826 e conquistar considerável projeção como abolicionista e ativista dos direitos das mulheres afro-americanas. Dos seus textos mais conhecidos, é especialmente comovente seu discurso “E não sou uma mulher?”, que expôs a exclusão das mulheres negras dentro dos primeiros movimentos feministas.

Há alguns livros publicados no Brasil que ajudam a entender a cronologia, os conceitos e os nomes que moldaram cada onda do feminismo e os principais nomes por trás de cada período, com destaque para “Feminismo em Comum: Para todas, todes e todos” (Editora Rosa dos Tempos, 2018), da filósofa Marcia Tiburi; e “O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras” (Editora Rosa dos Tempos, 2018), de bell hooks, pseudônimo adotado por Gloria Jean Watkins (1952-2021) para homenagear sua avó chamada Bell Blair Hooks, uma mulher conhecida por falar a verdade sem medo. A autora, nascida em Kentucky, Estados Unidos, decidiu adotar o pseudônimo, em letras minúsculas, para tentar, segundo ela própria, colocar o foco de seus leitores nas suas ideias e não na fama de seu nome ou de sua imagem pessoal.






Feminismo por Gloria Steinem: acima,
Gloria em fotografia da década de 1970.
Abaixo, em fotografia da década de 1920,
a sufragista
Alice Paul, que apresentou
ao Congresso dos EUA, em 1923,
a emenda constitucional que estabelecia
garantias para a igualdade
de gênero







O Segundo Sexo


Também merece recomendação, entre os estudos didáticos sobre o tema, “Feminismos: Uma história global” (Companhia das Letras, 2022), da historiadora britânica Lucy Delap, que parte de oito grandes temas ― sonhos, ideias, espaços, objetos, visuais, sentimentos, ações e canções ― para examinar as diferentes formas pelas quais mulheres se mobilizaram pela igualdade de gênero ao redor do mundo, abrangendo diversas revoluções, religiões e lutas anticoloniais. Há outros livros importantes, que se tornaram referência sobre o feminismo, escritos por autoras da “segunda onda”.

Entre as autoras deste período, que produziram obras que ganharam a condição de clássicos sobre a questão feminina, estão a filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), autora de “O Segundo Sexo”, de 1949, publicado pela editora Nova Fronteira; a historiadora austríaca Gerda Lerner (1920-2013), autora de “A Criação do Patriarcado” e “A Criação da Consciência Feminista”, ambos publicados pela Editora Cultrix; e a escritora e ativista do feminismo Betty Friedan (1921-2006), nascida em Illinois, EUA, autora de “A Mística Feminina”, de 1963, publicado pela Rosa dos Tempos.

Outra escritora e pensadora do mesmo período é Susan Sontag (1933-2004), que não era considerada uma militante tradicional do feminismo, mas sim uma intelectual independente e “dissonante”. Embora sempre tivesse apoiado publicamente e de maneira firme as causas da emancipação feminina e a autonomia das mulheres, Sontag, que recusava a militância organizada, publicou ensaios brilhantes que são referências fundamentais sobre o tema. A maioria destas reflexões foi escrita e publicada na década de 1970, em jornais e revistas, durante a segunda onda do feminismo, e depois reunida no livro póstumo de 2023 “Sobre as Mulheres” (On Women), organizado por seu filho David Rieff e publicado no Brasil pela Companhia das Letras.








Feminismo por Gloria Steinem: acima,
a partir da esquerda, Gloria, o comediante
Dick Gregory
, a escritora Betty Friedan e
a ativista
Patricia Roberts Harris na marcha
da Emenda da Igualdade de Direitos,
em Washington, 1978.
Abaixo, Gloria na
redação da
revista Ms. com as jornalistas
Freada Klein e Karen Savigne






Questões de gênero


Nas vertentes contemporâneas, também chamadas de terceira e quarta ondas do feminismo, no período que vem da segunda metade do século 20 à atualidade, além das autoras e ativistas já citadas, conquistaram destaque nomes como Angela Davis, filósofa, professora e militante de esquerda nascida em 1944 no Alabama, EUA, autora de “Mulheres, Raça e Classe”, de 1981, publicado no Brasil pela Boitempo Editorial. Na sua militância política e no livro, que também se tornou uma referência fundamental sobre o assunto, Angela Davis demonstra como a opressão pelas mulheres não pode ser separada da exploração econômica e do racismo estrutural.

Também são destaque no cenário contemporâneo nomes como Judith Butler, filósofa e professora nascida em 1956 em Ohio, EUA, autora de “Problemas de Gênero”, de 2003 (publicado pela editora Civilização Brasileira), que apresenta uma crítica à questão da identidade, um dos fundamentos do feminismo, argumentando que o gênero é uma performance construída socialmente e culturalmente, e não uma essência biológica; e Naomi Wolf, jornalista nascida em San Francisco, EUA, em 1962, autora de “O Mito da Beleza”, de 1990, publicado no Brasil pela Rosa dos Tempos, em que revela como as imagens de beleza e juventude são cruelmente usadas contra as mulheres para evitar que sejam cumpridos os ideais feministas de emancipação intelectual, sexual e econômica conquistados a partir dos anos 1970.

Outra jornalista importante nas questões do feminismo é a italiana Oriana Fallaci (1929-2006), que embora tenha dedicado toda sua trajetória profissional para debater a condição da mulher e questionar o machismo estrutural, rejeitava a militância no movimento feminista, com o argumento de que várias correntes feministas organizadas de seu época copiavam os piores defeitos dos homens ou simplesmente tratavam as mulheres como vítimas frágeis. Além de entrevistas que fizeram história por confrontar importantes líderes mundiais, escreveu livros importantes sobre o papel feminino, como “O Sexo Inútil: Viagem em torno da mulher” (1961) e “Carta a um filho que nunca nasceu” (1975), nos quais abordou dilemas profundos da maternidade e da condição feminina.





Feminismo por Gloria Steinem: acima,
Gloria em uma conferência em Nova York
em 1979. Abaixo, uma policial revista e
prende Gloria
durante um protesto
contra
o apartheid do lado de fora da embaixada
da África do Sul em Washington, 1984





América Latina


Além das ativistas e autoras da Europa e dos Estados Unidos, há as autoras da América Latina e do Brasil que abordam as questões do feminismo e da condição feminina, incluindo as pioneiras no século 19 e no começo do século 20, entre elas a brasileira Nísia Floresta (1810-1885), considerada a primeira feminista do Brasil, autora de “Direitos da Mulheres e Injustiças dos Homens” (1832), defendendo que a educação era a chave para a libertação feminina; Ana Betancourt (1832-1901), ativista da independência de Cuba que, em pleno século 19, discursou perante a Assembleia Constitucional exigindo que a libertação dos escravizados e a emancipação das mulheres fossem colocadas no mesmo patamar; Paulina Luisi (1875-1950), nascida no Uruguai, primeira mulher a se formar em medicina e uma das maiores líderes sufragistas da América Latina; e Teresa de La Parra (1889-1936), nascida na Venezuela, autora do romance revolucionário “Ifigênia” (1924), uma crítica severa e fundamentada contra a sociedade patriarcal.

Questões da interseccionalidade entre raça e classe social, diversidade cultural, identidade de gênero, feminismo decolonial, combate à violência e resistência às ditaduras militares no Brasil e em países da América Latina também surgem em obras teóricas e no ativismo de várias brasileiras nas últimas décadas. Um dos nomes de destaque é Lélia Gonzalez (1935-1994), que formulou o conceito de Amefricanidade para argumentar que o feminismo precisava “falar português com sotaque africano”. Entre outros livros publicados por Lélia sobre o tema estão “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira” (1983), “A Mulher Negra no Brasil” (1984) e a coletânea de ensaios “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano” (1988).

No Brasil, outra referência é Heloísa Buarque de Hollanda (1939-2025) — que no final da vida adotou o nome de Heloísa Teixeira — uma das principais e mais importantes autoras e teóricas feministas.
Sua atuação como ensaísta, crítica literária e professora emérita da UFRJ foi fundamental para introduzir, traduzir e consolidar os estudos de gênero e as teorias críticas no ambiente acadêmico e cultural brasileiro. Em sua obra “Explosão Feminista” (Companhia das Letras, 2018), ela analisou detalhadamente a força da "quarta onda" do feminismo no Brasil, abrindo espaço para o diálogo com a nova geração de ativistas digitais, periféricas e identitárias. Em 2023, coerente com sua própria trajetória de combate às estruturas patriarcais, ela decidiu abrir mão do sobrenome Buarque de Hollanda (herdado do ex-marido) e adotou oficialmente o sobrenome materno, passando a assinar como Heloísa Teixeira, nome com o qual tomou posse na Academia Brasileira de Letras (ABL).






Feminismo por Gloria Steinem: acima,
Glória em novembro de 1977 em San Francisco,
em fotografia de
Janet Fries, que acompanhou
diversas jornadas de ativismo de Gloria na década
de 1970. Abaixo, em uma entrevista coletiva
em 1978, Gloria declarava que o primeiro ano de
mandato do presidente
Jimmy Carter havia sido
decepcionante para a agenda feminista. Ao fundo,
um pôster da capa da
Ms. Magazine que trazia
uma imagem satírica mostrando Carter “grávido”
e listava as promessas não cumpridas de seu
governo em relação à igualdade de gênero





Outro nome importante neste cenário é Eunice Paiva (1929-2018), advogada e ativista que se tornou um símbolo de resistência à Ditadura Militar após a prisão, a tortura e o desaparecimento de seu marido Rubens Paiva (tema do filme de Walter Salles “Ainda Estou Aqui”), atuando na defesa dos direitos indígenas e na luta por justiça e memória. Por sua trajetória de liderança e resiliência, sua militância pelos direitos humanos, sua resistência contra a ditadura militar e sua mobilização pela criação da Comissão Nacional da Verdade, somando-se à história das mulheres que lideraram os movimentos de familiares de mortos e desaparecidos políticos na América Latina, Eunice pode ser considerada uma expressão prática e profunda do feminismo emancipatório e da resistência feminina.

No cenário contemporâneo também alcançam destaque escritoras como Ana Maria Machado, militante feminista desde o final dos anos 1960, exilada pela ditadura militar e autora de “A Audácia desta Mulher”, de 1999, que apresenta personagens que questionam imposições machistas e que tem um diálogo crítico com “Dom Casmurro”, que Machado de Assis publicou em 1899; Ana Maria Gonçalves, alinhada com as bases teóricas e práticas do feminismo negro, autora do romance épico “Um Defeito de Cor”, de 2006; e Conceição Evaristo, autora de “Ponciá Vicêncio” (2003) e outras obras que retratam as marcas da escravidão e do machismo na vida das mulheres negras do Brasil.





Feminismo por Gloria Steinem: acima, Gloria
durante um comício em Nova York, em 1968.
Abaixo, a capa da primeira edição da
Ms. Magazine,
lançada em 1972, e a capa da edição de setembro/
outubro de 1993 com a manchete
"No, Feminists
Don't All Think Alike" (Não, nem todas as feministas
pensam da mesma forma)
e uma foto que reúne
importantes ativistas e teóricas do movimento
feminista:
Gloria Steinem, bell hooks,
Naomi Wolf e Urvashi Vaid











Memórias da transgressão


A lista de nomes de autoras e ativistas do feminismo na América Latina, do final do século 19 à atualidade, é extensa e inclui mulheres da Argentina (María Lugones, Rita Segato, Dora Barrancos, Samanta Schweblin, Mariana Enriquez, Chicha Mariani), do Uruguai (Idea Vilariño, Armonía Somers, Silvia Rodríguez Villamil, Lilian Celiberti, Mónica Michelena, Constanza Moreira), da Bolívia (Julieta Paredes), da Nicarágua (Gioconda Belli), de Honduras (Berta Cáceres), da República Dominicana (Yuderkys Espinosa Miñoso, Ochy Curiel), do México (Laureana Wright González, Hermila Galindo, Rosario Castellanos, Marcela Lagarde, Marta Lamas), de Cuba (Mariblanca Sabas Alomá, Vilma Espín, Haydée Santamaría, Teresa Díaz Canals, Mariela Castro Espín). Para concluir, retornamos à ativista e jornalista Gloria Steinem, que motivou este artigo, e que também tem importantes livros publicados sobre as questões e as lutas políticas do movimento feminista.

Dois dos principais livros de Gloria Steinem têm traduções no Brasil. O mais recente é “Minha Vida na Estrada” (Editora Bertrand Brasil), adaptado para o filme “As Vidas de Gloria”, relato autobiográfico e memorialista que apresenta sua jornada como jornalista e ativista da revolução feminista. O outro livro é “Memórias da Transgressão” (Outrageous Acts and Everyday Rebellions), de 1983, publicado pela Rosa dos Tempos em 1997, reunindo uma coleção de ensaios e artigos mais provocativos, incluindo a reportagem de 1963, de quando trabalhou disfarçada como coelhinha da Playboy para denunciar a exploração das mulheres, e o ensaio satírico e polêmico “Se os homens pudessem menstruar”, publicado em 1978 na revista Cosmopolitan.





Feminismo por Gloria Steinem: acima,
Gloria no apartamento em que morava,
em Nova York,
na década de 1970.
Abaixo,
participando de um protesto
nas ruas na década de 1980

No final de página, Gloria Steinem durante
uma
manifestação em Washington em 2004,
organizada p
or uma das entidades que ela
ajudou a criar,
a Equality Now, que luta pela
igualdade de direitos e equidade de gênero;
a editora da Vogue,
Anna Wintour, ao lado de
Gloria em um evento em Nova York em 2023;
e
Gloria com Kirsten Alley, atriz do filme
"Diário de uma Coelhinha”
, na redação da
Ms. Magazine, na época do lançamento do filme,
em 1985, com um pôster da foto de
1963 com
Gloria disfarçada de coelhinha da Playboy






Revolução e autoestima


Há ainda os célebres discursos de Gloria Steinem em manifestações e eventos, reportagens em jornais e revistas, e outros livros que aguardam publicação no Brasil, entre eles um estudo sobre o mito de Marilyn Monroe (“Marilyn: Norma Jean”, de 1986); um longo ensaio sobre a construção da autoestima e da autonomia das mulheres (“Revolução Interior: Um Livro sobre Autoestima”, de 1992); uma seleção de ensaios sobre questões de gênero, raça, idade e relações de poder (“Moving Beyond Words”, de 1994); um estudo sobre maturidade e envelhecimento (“Doing Sixty & Seventy”, de 2006); “James Baldwin, An Original”, perfil biográfico sobre o escritor e ativista, resultado de uma série de reportagens nos anos 1960 para a revista Vogue, editado em livro em 2016; e “The Truth Will Set You Free, But First It Will Piss You Off!” (“A verdade vai te libertar, mas primeiro vai te deixar uma fera!”), de 2019, com reflexões e palavras de ordem sobre o feminismo, a rebeldia e o ativismo social, com ilustrações de Samantha Dion Baker.

“Muitos procuram a pessoa certa, mas poucos se esforçam para ser a pessoa certa” – a frase que foi um dos lemas de Gloria em várias ocasiões, está no início do livro de 2019. O recorte de algumas destas frases isoladas talvez possa levar os mais apressados, nos dias atuais, a confundir seu ativismo e suas palavras de mobilização política com o conteúdo dos famigerados manuais de autoajuda ou com a epidemia de “coaches” que infestam as redes sociais da internet, mas apenas um pouco de atenção será suficiente para entender que cada uma de suas frases ou palavras de ordem traduz a perspectiva de encanto e coragem que ela veio construindo desde sua adolescência e juventude no final dos anos 1940. As ideias de Gloria Steinem também podem soar como diagnóstico e estímulo para o futuro. Um exemplo: “Os homens são mais apreciados quando vencem; as mulheres são mais apreciadas quando perdem; é assim que o patriarcado se impõe todos os dias”.


por José Antônio Orlando. 

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Feminismo por Gloria Steinem. In: Blog Semióticas, 3 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/feminismo-por-gloria-steinem.html (acesso em .../.../…).





 

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