Mostrando postagens com marcador arte contemporânea. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arte contemporânea. Mostrar todas as postagens

17 de setembro de 2026

Fotografias que mudaram padrões

 




 

Fashion is about who you want to be, not who you are.

(Moda é sobre quem você quer ser e não sobre quem você é.)

–– Richard Avedon.  


Um dos mais importantes teóricos da fotografia, e também um dos pensadores da cultura mais influentes desde a segunda metade do século 20, o francês Roland Barthes nunca concluiu sua tese de doutorado. Uma parte dela foi publicada em 1967 no livro “O Sistema da Moda” – análise minuciosa a partir de revistas para tentar decifrar a moda como um sistema de significados, um código retórico de imagens e palavras que estabelecem gostos de consumo e tendências culturais. “O Sistema da Moda” não propõe uma história da indumentária e muito menos uma sociologia da moda ou uma psicologia da moda. O que Barthes apresenta é uma semiótica da moda, um estudo sobre a linguagem e os sentidos do que seja a moda e do que seja “estar na moda”.

Alguns dos pressupostos de Barthes, que deram à moda um verniz de assunto nobre e universitário, poderiam servir como epígrafe para uma retrospectiva em formato de reportagem fotográfica feita recentemente pelo jornal The New York Times em sua revista “T” (abreviação para The New York Times Style Magazine – veja link para a reportagem no final desta página). Um dos editores da revista, Nick Haramis, convidou um time de especialistas, que incluiu fotógrafos, estilistas, designers de moda, jornalistas e modelos, para elaborar uma lista com as fotografias de moda mais influentes do último século. Tendo como critérios para a seleção as questões de impacto e de originalidade, a proposta partiu de um desafio potencialmente impossível: nomear uma seleção de imagens que mudaram padrões sobre beleza, estilo e comportamento.










Fotografias que mudaram padrões: no alto da página,
a capa do álbum “Homogenic”, de Björk, lançado em 1997,
com fotografia de Nick Knight que teve direção de arte
do estilista Alexander McQueen. Acima, a
fotografia
original de Björk antes da pós-produção. A foto, na
verdade, é uma recriação, com poucas alterações,
de outra foto que Knight e McQueen produziram,
também em 1997, para a revista Visionaire,
com a modelo Devon Aoki (uma das imagens
que estão nesta seleção de 25 fotografias).

Abaixo, a 
capa desdobrável de julho de 2005
da Vogue Itália com
fotografia de Steve Meisel









Nomes de referência


Como em toda lista, as imagens selecionadas estão sujeitas aos mais variados questionamentos e podem levar a argumentos sobre rejeições e dúvidas diante de outras fotografias igualmente marcantes que não foram incluídas. As possíveis ressalvas também servem para confirmar que esta não é uma lista definitiva e sim um conjunto mais ou menos memorável para reforçar alguns nomes como referência e apresentar um acervo de imagens e mensagens que provocaram polêmicas e rupturas em sua época e que foram normalizadas, realmente adotadas como norma ou diluídas pela profusão de imitadores que veio depois. A lista não está restrita à publicidade nem a editoriais de moda, desde que a foto tenha de alguma forma inspirado o mundo da moda ou promovido alterações importantes nos critérios sobre estilo e comportamento.

A lista das 25 fotografias marcantes que mudaram padrões sobre beleza e estilo, segundo os critérios da reportagem, inclui imagens muito conhecidas que vêm de fotojornalismo, fotos autorais sobre temas diversos, fotos que se tornaram capas de disco, ou que foram produzidas com esta finalidade, e até um registro feito por um paparazzo. Pelos critérios de votação, em que cada convidado escolhia 10 fotografias sem ordem de classificação, houve o caso do fotógrafo Steven Meisel, que aparece selecionado com mais de uma fotografia.

Na lista, a fotografia mais antiga é de 1951, de Irving Penn, e a mais recente é de Deana Lawson, de 2009. No conjunto de imagens selecionadas, as décadas mais lembradas são a de 1990, com sete fotografias, seguida dos anos 1970, com seis, e dos anos 1980, com cinco imagens selecionadas. Os perfis dos fotógrafos e as análises sobre cada fotografia, reproduzidas a seguir, em ordem cronológica, foram feitos por mim. E, sendo uma revista norte-americana, nenhuma surpresa pela constatação de que tanto a maioria dos fotógrafos como a maior parte das fotografias serem dos Estados Unidos.

 



Irving Penn, “Manga larga em Sunny Harnett”, Nova York, 1951


O norte-americano Irving Penn (1917-2009), um dos nomes mais importantes da fotografia de moda do século 20, muitas vezes copiado e tomado como referência por sua trajetória de excelência, trabalhou por mais de 60 anos para a revista Vogue e ficou conhecido tanto por seus enquadramentos inesperados como pelas suas perspectivas e seus enquadramentos incomuns que trouxeram mudanças radicais em relação à tradição centralizada que sempre dominou as fotos do mundo da moda. Nesta foto de 1951, a modelo Sunny Harnett tem o rosto cortado na altura dos olhos e o destaque vai para os detalhes da roupa que aparecem de forma quase inevitável.




Robert Frank, “Rodeio”, Nova York, 1954


Nascido na Suíça e radicado nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra,
Robert Frank (1924-2019) conseguiu uma bolsa da Fundação Guggenheim para viajar por 30 estados do país fotografando pessoas comuns. Seu primeiro trabalho, depois da guerra, foi como fotógrafo de moda para a Harper’s Bazaar e outras revistas, mas ele não se ajustava às limitações das pautas e partiu para a fotografia documental, registrada em sua obra-prima “The Americans” – livro de 1958 que virou obra de referência e inclui a foto do cowboy anônimo de chapéu, jeans e botas e couro encostado na cesta de lixo na cidade grande. 





Melvin Sokolsky, “Bolha no Sena” para a Harper's Bazaar, 1963


Nascido em Nova York, Melvin Sokolsky (1933-2022) dedicou-se a fotografias de moda e de publicidade. Em 1963, produziu um editorial de moda de 12 páginas para a
revista Harper’s Bazaar que tornou-se um acontecimento: inspiradas em um detalhe da pintura monumental “O Jardim das Delícias Terrenas” (1490), do holandês Hieronymus Bosch, as fotos apresentavam a modelo Simone D'Aillencourt, vestindo peças da coleção do estilista Philippe Venet, dentro de uma bolha de plástico, em vários cenários das ruas de Paris.





Diane Arbus, “Jovem com bobes em casa”, Nova York, 1966


Fotógrafa e escritora, Diane Arbus (1923-1971) começou trabalhando para revistas de moda, produzindo editorias e anúncios publicitários com o marido, Allan Arbus, mas terminou abandonando a parceria para fotografar as ruas de Nova York e ficou conhecida por seus registros sobre pessoas anônimas e marginalizadas. Na fotografia de 1966, feita com uma câmera Rolleyflex, muito próxima do personagem, a impressão é que estamos presenciando a conversa.








Ed van der Elsken, “Zwitserland”, Alpes Suíços, 1967


O fotógrafo e cineasta holandês Ed van der Elsken (1925-1990)
trabalhou com Henri Cartier-Bresson e Robert Capa na Agência Magnum, em Paris, e viajou por diversos países. Seu foco principal eram as pessoas comuns em cenas urbanas e os marginalizados, abrangendo da Segunda Guerra até os anos 1980. Nesta foto enigmática de 1967, publicada em um editorial sobre viagens da revista Avenue, de Amsterdã, a jovem com a perna engessada contempla a paisagem na janela com uma sensualidade que era incomum para a época. Sofia Coppola reproduz esta imagem nos fotogramas iniciais do filme de 2003 "Lost in Translation" (Encontros e Despedidas).




Ron Galella, “Jackie ao Vento”, Nova York, 1971 

Chamado de “padrinho da cultura dos paparazzi dos Estados Unidos”, Ron Galella (1931-2022) era considerado o paparazzo mais controverso de todos, com várias desavenças e processos judiciais movidos por celebridades como Jacqueline Kennedy Onassis, Marlon Brando, Elvis Presley ou o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, entre outros. Ele dizia que a foto da ex-primeira dama passeando em Nova York era sua “Mona Lisa”, depois de permanecer como uma presença incômoda durante anos na vida cotidiana de Jackie.





Helmut Newton, “Yves Saint Laurent, Rue Aubriot”, 1975


O fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) ficou conhecido por seus estudos de nu feminino que são associados, com muita frequência, aos mais variados fetiches. Depois da Segunda Guerra, ele fixou residência na Austrália, mas seguiu durante décadas trabalhando em editoriais para revistas de moda, especialmente para a Vogue francesa. Nesta foto emblemática, a modelo Vibeke Knudsen está inteiramente vestida, em uma pose em estilo andrógino, para o catálogo da Saint Laurent, em uma rua deserta do centro histórico de Paris, tarde da noite ou de madrugada.





Robert Mapplethorpe, “Patti Smith”, Nova York, 1975


Patti Smith e o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) foram amantes, no final da década de 1960, quando moravam no lendário Chelsea Hotel e iniciavam suas carreiras, e depois foram amigos muito próximos. Nesta foto, produzida para a capa de “Horses”, álbum de estreia de Patti Smith, é notável a complexidade da composição por trás de um retrato aparentemente simples. No contraste suave entre preto e branco, a luz ilumina somente metade do rosto de Patti e os punhos da camisa foram cortados. Uma fita pende do seu pescoço até a cintura, como se fosse uma gravata desfeita e o paletó masculino está jogado sobre o ombro. Patti declarou, em uma entrevista, que a foto “tem um pouco de Baudelaire, um pouco de garoto católico, um pouco de Frank Sinatra e muito de Robert”.






Joseph Szabo, “O Beijo”, Nova York, 1977

Nascido em Ohio, em 1944, Joseph Szabo concluiu seu mestrado em Belas Artes no Pratt Institute, no Brooklyn, e começou a trabalhar como professor em uma escola pública de ensino médio em Long Island. Suas fotos mais conhecidas registram seus alunos em situações cotidianas e junto de outros adolescentes e jovens suburbanos, namorando ou passeando por Nova York, segundo ele próprio com inspiração nas célebres fotos dos libertinos e modernos parisienses nas décadas de 1920 e 1930 feitas pelo húngaro Brassaï. As atitudes rebeldes presentes em suas fotos foram reproduzidas por diversos anúncios publicitários e estilistas de moda.






Cindy Sherman, “Fotografia sem título nº 21”, Nova York, 1978


A fotógrafa Cindy Sherman também é a modelo nesta fotografia de 1978, da série de retratos sem título em que a ela interpreta diferentes atrizes promovendo filmes fictícios. Nascida em 1954 em Nova Jersey, Cindy especializou-se em criar personas fictícias para criticar estereótipos de gênero, papéis sociais e hábitos de consumo. Embora ela tenha colaborado com publicações de moda em editoriais de sátira, seu foco central é a reflexão sobre identidade e representação visual, como neste retrato da jovem que tem os arranha-céus emoldurando seu rosto preocupado e seu olhar fixo em algo fora do enquadramento da fotografia.








Guy Bourdin, “Mulher com um retrato de John Travolta”, 1979


O francês Guy Bourdin (1928-1991) ficou conhecido por suas fotos publicadas em revistas como a Vogue e a Harper’s Bazaar, mas também conquistou reconhecimento por sua obra experimental e fora dos padrões do mercado da moda e da publicidade. Influenciado pelas experiências estéticas dos mestres do surrealismo, especialmente por Man Ray, Bourdin criou fotos ousadas por seus enredos enigmáticos, eróticos, com cores fortes e provocantes – como nesta imagem, feita para um anúncio publicitário da marca francesa de calçados Charles Jourdan, em que a modelo está reclinada sobre o sofá em uma pose provocante e tem uma foto emoldurada de John Travolta entre suas pernas. Madonna reproduz a pose e a cena no videoclipe de "Hollywood", sob a direção de Jean-Baptiste Mondino.





Nan Goldin, “O Abraço”, Nova York, 1980


Nascida em 1953 em Washington, Nan Goldin tinha 20 anos quando começou a fotografar a si e a seus amigos anônimos, artistas, músicos e drag queens em situações cotidianas de intimidade. Seu diário visual resultaria nas imagens confessionais de uma exposição, apresentada pela primeira vez em 1979 e como fotolivro em 1986, com o título “A Balada da Dependência Sexual” – uma coleção de centenas de fotos que causaram polêmica e a consagraram como uma das fotógrafas e artistas visuais mais importantes de sua geração. Nesta fotografia, a luz do flash projeta a sombra das figuras e dissolve as fronteiras entre documento e autobiografia.





Richard Avedon, “Brooke Shields para Calvin Klein Jeans”, 1980


Talvez Richard Avedon (1923-2004) tenha feito uma concessão ao fotografar Brooke Shields em cores para uma campanha da Calvin Klein Jeans em 1980, já que ele sempre foi conhecido por suas fotos em preto e branco para editoriais de moda, anúncios de publicidade e retratos de celebridades. Na foto, ela tinha apenas 15 anos e a exposição do anúncio na mídia e em outdoors intensificou as controvérsias sobre a sexualização de menores na mídia – Brooke Shields já estava no centro da polêmica, por seu papel de criança coagida à prostituição quando tinha 12 anos no filme de 1978 “Pretty Baby”, de Louis Malle. Não é a foto mais marcante na trajetória de Avedon, mas foi um divisor de águas na publicidade, destacando um estilo de campanhas com foco na provocação e no erotismo que traria fama e fortuna para fotógrafos e publicitários que vieram depois, como o italiano Oliviero Toscani e suas fotos polêmicas criadas
para a grife Benetton. No Brasil houve um episódio semelhante em 1987, com a campanha publicitária “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto para a marca de lingerie Valisére; Patricia Lucchesi, atriz dos anúncios, na época tinha 12 anos.





Jean-Paul Goude, “Grace Jones, Azul-Preto sobre Marrom”, 1981

Nascido em 1938 na França, o fotógrafo, designer e cineasta Jean-Paul Goude conheceu a jamaicana Grace Jones nos anos 1970, quando ele era um respeitado diretor de arte da revista “Esquire” e ela se apresentava no Les Mouches, um bar e discoteca que era um reduto da comunidade LGBT em Nova York. Eles se tornaram um casal inseparável. Goude passou a produzir seu estilo estético e a apresentou a artistas como Andy Warhol e Keith Haring. “Ela se tornou minha obsessão”, declarou Goude em entrevista recente. Foram muitas colaborações entre os dois, de videoclipes a shows e capas de álbum. Esta imagem foi a capa de “Nightclubbing”, quinto disco de Grace Jones, lançado em 1981. O corte de cabelo geométrico, a maquiagem, o smoking Armani e a pele pintada com pigmento azul brilhante mudaram o visual de Grace Jones e da beleza negra desde então.





Andy Warhol, “Jean-Michel Basquiat”, Nova York, 1982


Multiartista, produtor cultural e principal referência da Pop Art, Andy Warhol (1928-1987) trabalhou em todas as mídias e todas as formas da arte em seu tempo, o que inclui o universo da moda através de seu estúdio The Factory, que misturava arte, música e publicidade. Também produziu milhares de fotografias de celebridades, algumas delas com câmeras Polaroid, que revelam e imprimem a imagem segundos após o clique fotográfico. Este retrato em Polaroid foi feito após o primeiro encontro do jovem e desconhecido Basquiat, aos 21 anos, com o marchand de arte suíço Bruno Bischofberger. O marchand levou o trabalho de Basquiat para a Europa e o transformou em uma lenda das artes plásticas.

 




Hans Feurer, “Susan Hess para Comme des Garçons”, 1983


O fotógrafo suíço Hans Feurer (1939-2024) era um nome de referência no mundo da moda quando produziu esta foto surpreendente para um catálogo da estilista japonesa Rei Kawakubo e sua grife Comme des Garçons em 1983. A silhueta do vestido preto perde a forma e esconde o corpo da modelo Susan Hess, que usa luvas pretas e calça tênis; na pose do salto, uma echarpe de cor clara enrolada em várias voltas cobre totalmente o rosto da modelo. A foto foi tão imprevisível e tão marcante que colocou a Comme des Garçons no radar da moda mundial e alterou o estilo de Rei Kawakubo, que passou a adotar roupas desconstruídas e ousadas que desafiam os cânones da alta-costura e as formas tradicionais do corpo.





Carrie Mae Weems, “Série Mesa de Cozinha”, Nova York, 1990


Nascida em 1953 no Oregon, a fotógrafa e artista multimídia produziu um ensaio com 20 fotografias em que ela própria é personagem diante de uma mesa transformada em palco da vida de uma mulher. Ao redor da mesa, sob a luz de uma luminária suspensa, Weems abordou temas conceituais profundos como maternidade, racismo, sexismo, gênero, identidade e classe social. As fotos deste ensaio de 1990 deram visibilidade para o trabalho de Weems, que em 2014 seria a primeira mulher negra a ter sua obra apresentada em uma retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York.





Corinne Day, “O 3º Verão do Amor”, revista The Face, 1990


A britânica Corinne Day (1965-2010) atuava como modelo, fotógrafa e documentarista quando realizou este ensaio
com Kate Moss, na época uma modelo desconhecida de 16 anos, para a revista londrina The Face. As fotos foram um sucesso e provocaram alterações nos padrões da produção de moda ao rejeitar a maquiagem, os cabelos penteados e o glamour tradicional, introduzindo luz natural e imperfeições que criaram um estilo polêmico, seguido por outros fotógrafos como Craig McDean, Glen Luchford e David Sims. O novo estilo passou a ser chamado de forma pejorativa de “heroin chic” e rompeu drasticamente com o padrão de beleza anterior. 





Peter Lindbergh, “Os anos 1990”, Vogue britânica, 1990


Fotógrafo de moda e cineasta, o alemão Peter Lindbergh (1944-2019) foi responsável por lançar e consagrar super-modelos como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Christy Turlington, que nesta foto sintetizam o estilo de Lindbergh: uso de matizes em preto e branco, sem excesso de retoques e com pouca maquiagem. A foto, feita à luz do dia no Meatpacking District de Nova York, famoso por suas lojas de luxo e sua vida noturna agitada, foi feita para a primeira Vogue britânica da década de 1990. O fotógrafo dispensou os figurinos de grife e cada modelo posou com suas roupas cotidianas. A foto foi capa da revista e inspiração para George Michael gravar também em 1990 o videoclipe de “Freedom' 90” com as cinco modelos em cena e direção de David Fincher.






Rineke Dijkstra, “Kolobrzeg", Polônia, 1992


O portfólio “Beach Portraits”, com centenas de adolescentes anônimas de maiô e biquini nas praias cidades da Europa, na década de 1990, trouxe prestígio à fotógrafa Rineke Dijkstra, nascida em 1959 na Holanda, e há quem destaque em sua obra referências à tradição dos mestres da pintura holandesa, como Vermeer e Rembrandt. A série fotográfica nas praias teve início como uma encomenda para um jornal holandês e terminou impulsionando o trabalho de Rineke Dijkstra. Na imagem, a modelo demonstra timidez e vulnerabilidade, em evidente situação de desconforto. A iluminação com flash na maioria das fotos da série destaca cada personagem e traz um equilíbrio entre figura e fundo que remete à composição clássica de retratos muito conhecidos na história da arte.





Steven Meisel, “Atitude Anglo-Saxônica”, Vogue britânica, 1993


Nascido em Nova York, em 1954, Steven Meisel é um dos mais influentes fotógrafos de moda e de retratos de celebridades, com trabalhos marcantes para a revista Vogue, edições da Itália e do Reino Unido, para as quais fotografou muitas capas e os principais editoriais das últimas três décadas. Esta foto foi a estreia da modelo Stella Tennant, que vivia em uma fazenda de criação de cabras na Escócia. A editora de moda Isabella Blow acrescentou à beleza original da modelo um estilo andrógino com cabelos curtos, maquiagem com contorno preto nos olhos e um piercing no nariz, na época um acessório usado apenas pelos punks mais radicais. Quando a revista foi lançada, Stella Tennant surgiu como novo padrão de beleza, o estilo passou a ser imitado por modelos e fotógrafos influentes e ela ganhou exclusividade com a Versace.





David LaChapelle, “Tupac Shakur: Solitário II”, 1996


Nascido em Connecticut, em 1963, David LaChapelle foi contratado por Andy Warhol, quando estava no começo da carreira, e ficou conhecido por suas fotografias de produção irreverente, de cores intensas, em cenários surreais que muitas vezes misturam temas religiosos ou renascentistas, trabalhando com frequência para grifes do primeiro time e para uma variedade de publicações, da Vanity Fair à Interview, Vogue, The Face e Rolling Stone. Neste retrato de 1996, sob encomenda para a revista Details, o rapper Tupac Shakur, recém-libertado da prisão por abuso sexual, e que seria assassinado em Las Vegas em setembro daquele ano, mostra a tatuagem “Thug Life” (Vida de bandido) deitado dentro da banheira, em uma pose provocante, com a nudez coberta apenas por muitas joias de ouro.
 




Nick Knight, “Devon Aoki”, revista Visionaire, 1997


O britânico Nick Knight, nascido em 1958 em Londres, atua como fotógrafo de moda e como professor na University of the Arts de Londres, sendo um pioneiro no uso de manipulações digitais e entusiasta de recursos tecnológicos de ponta como escaneamento 3D e intervenções por Inteligência Artificial. Nesta foto, produzida para a revista Visionaire, a modelo Devon Aoki veste uma criação de Alexander McQueen. Em um de seus olhos, uma lente de contato; na testa, um alfinete gigante indica um corte profundo com flores, tudo adicionado em pós-produção. A mistura de fragilidade e estranheza levou Björk a contratar Knight e McQueen para recriar a imagem com ela própria como modelo para a capa do disco “Homogenic”, lançado também em 1997.
 

 



Steven Meisel, “Febre de transformação”, Vogue italiana, 2005


Na foto da capa da revista e no ensaio editorial de Steven Meisel, as modelos estão em ambiente de hospital ou em camas de quartos luxuosos com bandagens e curativos, e algumas se contorcem em agonia ou êxtase em cenas de lipoaspiração, injeções faciais, cirurgias estéticas e implantes. O que era provocativo e chocante em 2005, hoje soa como quase banal: as intervenções no corpo deixaram de ser segredo ou exceção e se tornaram símbolos de status. O que talvez pudesse parecer estranho e incomum em 2005, na atualidade se tornou procedimento corriqueiro em nome da beleza.






Deana Lawson, “Binky & Tony Forever”, 2009


Nascida em Nova York, em 1979, Deana Lawson segue a pauta identitária da estética negra em temas como família, sexualidade e espiritualidade com detalhes de composição que fogem aos padrões tradicionais da fotografia de moda. Embora não produza com frequência fotos para revistas do mundo da moda ou para o mercado publicitário, seu trabalho como fotógrafa e artista visual já foi pauta de diversas reportagens em revistas como a Vogue ou a Vanity Fair. A foto de 2009 expressa o que Lawson chamou de “uma cena de amor de jovens negros” e faz parte de um projeto mais amplo que registra momentos de beleza na vida cotidiana que tenham relação com questões políticas e históricas da diáspora negra. Em 2016, esta foto estampou a capa do disco de jazz experimental “Freetown Sound”, de Blood Orange.


por José Antônio Orlando.

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Fotografias que mudaram padrões. In: Blog Semióticas, 17 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/fotografias-que-mudaram-padroes.html (acesso em .../.../…).


 Para acessar a fotorreportagem da  T  Magazine,  clique aqui








Fotografias que mudaram padrões: acima,
Diane Arbus em autorretrato em Nova York, 1968.

Abaixo, Ron Galella perseguindo Jackie Onassis
nas ruas em 1971 (Ron Galella Collection)









5 de fevereiro de 2026

A trilha da arte urbana até Banksy





O novo define-se em resposta ao que já está estabelecido;
ao mesmo tempo, o estabelecido tem de se reconfigurar em
resposta ao novo. A tradição não serve para nada quando não
é mais contestada e de algum modo modificada. E uma cultura
que é apenas
preservada, na verdade não é cultura alguma.

–– Mark Fisher em “Realismo Capitalista: Não há alternativa?”  


 


Grafites, murais, cartazes e outras possibilidades nas formas de expressão da arte urbana ganham uma retrospectiva importante com a mostra “Arte urbano. De los orígenes a Banksy”, aberta ao público na Fundação Canal de Madri (link para a exposição no final desta postagem). Como as obras originais estão em paredes e muros de diversas cidades, ou em muitos casos sobrevivem apenas como lembrança em fotografias, a curadoria estabeleceu um suporte único para todas as peças, que são apresentadas em serigrafia sobre papel. Há também fotografias que registram as obras em seu espaço original e registros sobre os artistas em ação nas ruas e nas redes sociais da internet, que transformaram radicalmente a circulação da arte urbana.

Com curadoria de Patrizia Cattaneo Moresi, a exposição propõe um passeio internacional por um fenômeno nascido fora das instituições, na rua e para a rua, que tem questionado radicalmente os limites da arte tradicional. A arte urbana redefiniu a relação entre criação artística, espaço público e sociedade, mantendo uma tensão permanente entre o ilegal e o legitimado, entre rebelião e reconhecimento institucional, sem perder de vista as mudanças constantes que continuam a definir o movimento. É uma exposição ambiciosa que lança luzes sobre uma interface fundamental da arte contemporânea, cobrindo um percurso de seis décadas com uma amostragem de mais de 60 obras de alguns de seus artistas mais influentes e consagrados, entre eles Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Bigtato, Blek le Rat, Ernest Pignon-Ernest, JR, Invader, Suso33, El Xupet Negre, PichiAvo, Ozmo, Wedo Goás e os brasileiros Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como Os Gêmeos. Banksy está em destaque.










A trilha da arte urbana até Banksy: no alto
da página,
Choose your weapon (Escolha
sua arma), grafite de 2010 de
Banksy nas
ruas de Londres, com a silhueta do artista
em autorretrato e o
ícone de um cachorro
inspirado no
“Barking Dog” (cão latindo)
que surgiu nos anos 1980 em um grafite
criado por 
Keith Haring. Acima, visitante
anônima em uma das salas dedicadas 
às
obras
de Banksy na exposição em Madri.

Abaixo, a inscrição pioneira Taki 183 que ganhou
as ruas de Nova York, em fotografia do final dos
anos 1960; um trabalho recente do artista, com
intervenções em spray sobre o mapa do metrô de
Nova York; e um retrato do autor,
Demétrius, que
se tornou uma celebridade depois d
a repercussão
d
e uma reportagem sobre ele, publicada em 1971
n
o The New York Times. O artista, porém, nunca
revelou seu nome completo e preferiu o anonimato





















A decisão da curadoria pela apresentação das obras em serigrafias sobre papel contorna várias questões de ordem técnica e jurídica, porque garante uma qualidade de reprodução que mantém as características visuais dos trabalhos originais, com um repertório variado de épocas, técnicas, mídias e materiais, e porque seria quase impossível garantir a autorização de todos os artistas para uma exposição presencial das obras no suporte original. Um problema adicional quanto à arte de rua refere-se exatamente à vida efêmera de muitas obras, além da questão da atribuição de autoria, porque muitos artistas permanecem na condição de rebeldes ou arautos da contestação, fora dos padrões convencionais do mercado de arte, produzindo seus trabalhos à revelia do espaço público e privado, muitas vezes na clandestinidade, sob pseudônimos ou assinando obras coletivas.



Diálogo irônico



Todas as questões referentes à arte urbana têm convergência no caso singular de Banksy, figura central na arte contemporânea – o artista mais popular e polêmico de nossa época consegue manter em sigilo, há mais de três décadas, sua verdadeira identidade, no melhor estilo dos super-heróis da ficção. Não é por acaso que uma das galerias da exposição é dedicada exclusivamente a Banksy, descrito no dossiê de imprensa da Fundação Canal como “um artista essencial para compreender a dimensão midiática e simbólica da arte urbana no século 21”. Além da estratégia do artista sobre o anonimato e o mistério em torno de sua figura, as obras de Banksy surgem em cidades de vários países e são uma síntese da arte urbana em seu diálogo irônico com a mídia e com questões políticas. Banksy é somente um artista ou é um coletivo? Com o uso da internet e das redes sociais, as obras de Banksy não ficam restritas a um local específico de apenas uma cidade: elas dão a volta ao mundo em questão de horas.








A trilha da arte urbana até Banksy: uma amostra
de outro
s pioneiros que marcaram época nas ruas
de Nova York. N
o alto, Shadowman, grafite de 1982
do canadense
Richard Hambleton. Acima, grafite e
retrato de Keith Haring em uma sala da exposição.

Abaixo, Jailbirds (Pássaros na prisão), um grafite
em acrílico de
Jean-Michel Basquiat que retrata
o espancamento que levou à morte do artista de rua
Michael Stewart pela polícia de Nova York, em setembro
de 1983, porque
ele estava pichando uma estação de
metrô.
Stewart, Basquiat, Hambleton e Keith Haring
participavam do mesmo grupo de grafiteiros






Banksy fornece um paradigma: as primeiras obras do artista surgem em Bristol, na Inglaterra, que se supõe ser sua cidade natal, no começo da década de 1990, e desde então sua trajetória se confunde com a popularização da arte urbana, que deixou de ser algo clandestino e passou a ocupar grandes museus e exposições de primeiro nível. Banksy também é a expressão de um paradoxo: alguns dos seus trabalhos mais conhecidos, como “Girl with Balloon” ou “Love is in the Air”, foram vendidos por milhões de dólares em leilões internacionais, à revelia do artista, que se recusa a vender suas obras, mantendo sua postura anti-capitalista. No entanto, a maioria de suas obras surgem em espaços públicos ou privados, feitas sem autorização, o que as torna ilegais. Algumas foram apagadas ou destruídas, horas depois de serem descobertas. Outras foram removidas e depois vendidas.



Conquista da visibilidade



O recorte histórico da exposição deixa de fora os antecedentes da arte do grafite em murais e pichações políticas que atravessaram diversos períodos da história da arte, da Antiguidade Clássica à Arte Moderna. As origens, nomeadas no título da exposição, são situadas somente a partir dos primeiros grafites que surgiram no contexto da contracultura no metrô de Nova York e outras grandes cidades, na segunda metade da década de 1960, e o percurso do que se convencionou chamar arte urbana ou “street art”, arte das ruas, segue a trilha das obras que surgem nos espaços públicos e que gradativamente alcança reconhecimento em museus e valorização pelo mercado tradicional. O percurso vai da informalidade das ruas para os museus e galerias de arte, ganhando o status de arte contemporânea que tem, como ápice, o fenômeno global que Banksy representa na atualidade.









A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, grafite do
artista Caper com o coletivo R 2 F (Ready to Fascinate)
criado em 1987, em Londres, inaugurando um estilo
que gerou uma legião de fãs e imitadores mundo afora;
acima, 
a crítica social no grafite de 2016 de EZK
(Eric Ze King) em Paris, sobre um tapume de madeira
com a inscrição “Dans quel monde Vuitton?”
(Em que mundo Vuitton?)


Abaixo, I Love Beef, em técnica mista de estêncil
(molde recortado), spray e tinta acrílica, criação de
2012 de Blek le Rat, pseudônimo de Xavier Prou,
um dos pioneiros do grafite em Paris, com atuação
a partir de 1980, e que exerceu forte influência sobre
a arte de Banksy. Ele justifica o nome artístico com a
escolha de “rato” por considerar que é um dos únicos
animais realmente livres nas cidades e por inspiração
do herói de histórias em quadrilhos Blek le Roc, com
“Rat” 
formando um anagrama para a palavra “Art”







O dossiê de imprensa cita dois antecedentes sobre a arte de rua, ambos na França: o primeiro são as intervenções de rua de Zloty, pseudônimo de Gérard Zlotykamien, que criou a partir de 1963 as “Éphémères”, pinturas efêmeras de sombras e silhuetas humanas em traço rápido, com pincel e spray, primeiro em muros e fachadas de Paris e depois em Leipzig, na Alemanha, e Cidade do Cabo, na África do Sul. O estranhamento das pessoas nas ruas diante das silhuetas de Zloty levou o Centro Pompidou a incorporar amostras das intervenções a seu acervo. O segundo antecedente também vem do Centro Pompidou, que organizou em 1981 a exposição “Graffiti et Societé”, pioneira na abordagem sobre o assunto, com uma retrospectiva histórica e um inventário fotográfico sobre obras e artistas em destaque em vários países.

Das primeiras “tags” grafitadas, quase sempre em forma de assinatura, em praças e estações de metrô, primeiro no Bronx, no Harlem ou no Brooklyn, bairros na época marcados pela desigualdade e pela exclusão. Tomado inicialmente como forma de protesto e de denúncia, o grafite avança com o passar dos anos para obras mais elaboradas. É quando passa a ser adotado o termo italiano “graffiti”, plural de “graffito”, que vem do verbo “graffiare”, significando arranhar ou riscar. O significado literal refere-se aos rabiscos feitos com carvão ou objetos afiados, que no contexto da arte urbana foram sendo substituídos por pincéis e por tinta em spray, por conta da urgência e da pressa da ação clandestina, até começarem a conquistar espaços de maior visibilidade a partir do começo dos anos 1980.



Entre o legal e o ilegal



Um dos mais conhecidos pioneiros da arte urbana e do grafite foi Demétrios, um entregador e office-boy de descendência grega em Nova York, que não tinha pretensões de artista e apenas escrevia seu pseudônimo Taki 183 pelas ruas. O pseudônimo saiu de seu nome de nascimento “Dimitraki” e o número 183 veio de seu endereço na 183rd Street, em Manhattan. Em 1971, as inscrições de Taki 183 eram tão conhecidas e geravam tanta curiosidade que foram tema de uma reportagem investigativa de grande repercussão no The New York Times, mas o artista decidiu permanecer no anonimato e nunca revelou seu nome completo. O sucesso de Taki 183 estimulou centenas de imitadores – e alguns acabaram ficando conhecidos pela originalidade, entre eles Joe 136, Barbara 62, EEL 159, YANK 135 e LEO 136.

































A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, o mural
As Mouras de Fene, do galego Edgar Goás Blanco,
mais conhecido como Wedo Goás, na pequena
cidade de Fene, província de Corunha, Espanha,
representando seres míticos do f
olclore local – mural
que foi eleito como o Melhor do Mundo em 2025
pela plataforma Street Art Cities.

Acima, A Violinista, mural do espanhol Sphir,
também na cidade espanhola de Fene, que
venceu em 2023 o mesmo prêmio de Melhor
Mural do Mundo pela Street Art Cities;
e “Chuuuttt !!!” (Silêncio!), mural de 2011 do
francês Jef Aerosol em frente a fonte Tinguely,
próximo ao Centro Pompidou, em Paris.

Abaixo, mural gigante de 2017 dos brasileiros Otávio e
Gustavo Pandolfo, mais conhecidos como Os Gêmeos,
em fotografia de Martha Cooper;
e Medusa, mural que
foi pintado em Lisboa, Portugal, por uma dupla da
Espanha, Pichi e Avo (que assinam como PichiAvo)





















Uma questão inevitável sobre o grafite e as pichações são as fronteiras entre arte e vandalismo, entre o legal e o ilegal, com o argumento equivocado de que grafite é arte e as inscrições das pichações são vandalismo. No dossiê de imprensa da exposição, a curadoria defende que as fronteiras dependem do contexto, já que tomar uma intervenção das ruas e transferi-la para um museu implica em uma “recontextualização”. Ao sair das ruas, a obra perde seu significado original e adquire outro, condicionado pelo novo ambiente. O que acontece com as obras de Banksy aconteceu com nomes pioneiros como Keith Haring e Samo, pseudônimo de Jean-Michel Basquiat, que ganharam destaque no começo dos anos 1980, também em Nova York, conseguindo a proeza de atravessar a fronteira entre a rua e o museu e formando uma forte influência para outros artistas no mundo inteiro.

 


 



A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, o mural
Você vale mais do que muitos pardais,
pintado com
t
inta acrílica sobre PVC por Ozmo, pseudônimo da
artista italiana Gionata Gesi,
em 2016, representando
uma pirâmide social
com seis andares: na base estão
trabalhadores e manifestantes, seguidos
de banquetes
da elite
; nos andares de cima, estão os militares; depois,
os
religiosos; depois, políticos; e por cima, o dinheiro.
A composição inclui a frase “Na arte confiamos”.

Acima, outro mural de Ozmo, criado em 2022, em plena
pandemia de Covid, com o tema bíblico
da criação do
mundo, em
160 metros quadrados em uma parede de
mármore no Cava Galleria Ravaccione, em Carrara,
na
Itália, região famosa pela extração de mármore
que é feita desde os tempos da Roma Antiga.

Abaixo, grafites e pichações anônimas nos muros
medievais de Zamora, em Castela e Leão, norte da
Espanha, que provocaram polêmica quando surgiram,
em 2019, mas não foram removidos pelas autoridades; 
e um grafite de 2021 do italiano Salvatore Benintente,
mais conhecido pelo pseudônimo TVBoy, intitulado
Três Graças, substituindo as três deusas da mitologia
grega por figuras de macacão e máscaras cirúrgicas,
cada uma com a identificação de Moderna, Pfizer e
AstraZeneca, os grandes laboratórios que produziram
vacinas na época da pandemia de Covid












Controvérsias e preconceitos



Com a valorização do grafite, paredes, trens e fachadas tornam-se enormes telas, com novos artistas surgindo em cidades de vários países, fazendo uso de cores e estilos dos mais variados para expressar mensagens de afirmação de identidade e de conflitos sociais. Na atualidade, a arte urbana surge cada vez mais híbrida, depois de ter incorporando elementos da linguagem publicitária, do design gráfico, do ativismo político. No recorte que a exposição selecionou, as mensagens em tons de política e de inconformismo são compartilhadas pela maioria dos artistas, com a intenção decorativa em segundo plano. Na ocupação do espaço público, os questionamentos sobre assuntos muitas vezes desconfortáveis ganham destaque, com a rebeldia em primeiro plano, como estratégia fundamental, mas sem abrir mão de uma expressão poderosa em nível visual e conceitual.

Com seus temas de identidade, liberdade e rebeldia, a arte urbana que nasceu nas ruas passou a ocupar, cada vez com mais frequência, os espaços nobres de museus e galerias, expandindo as fronteiras da arte moderna, da Pop Art e da arte contemporânea para a interface do humor e da crítica social. Tal passagem enfrentou e enfrenta resistência e não está livre de controvérsias, de preconceitos e juízos de valor elitizados que ainda consideram como Grande Arte somente as formas convencionais de inspiração figurativa e renascentista. Mesmo com as controvérsias ou, em muitos casos, a criminalização sob a acusação de vandalismo, as obras em exposição permitem uma avaliação de conjunto sobre a evolução da arte urbana na expansão de técnicas, na diversidade dos processos e nas mensagens mutantes do seu diálogo com o mundo em que vivemos.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. A trilha da arte urbana até Banksy. In: Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/02/a-trilha-da-arte-urbana-ate-banksy.html (acesso em .../.../…).




Para uma visita virtual à  exposição na Fundação Canal,  clique aqui.







Para comprar o livro ilustrado  Subway Art, de Martha Cooper,  clique aqui.






Para comprar  Pichação não é pixação, de Gustavo Lassala,  clique aqui.













A trilha da arte urbana até Banksy: acima,
A
natomia de Asto, grafite de 2011 do francês
Rud
y Dougbe, mais conhecido como Pro176,
diante dos visitantes na sala de exposição.

Abaixo, grafite de 2016 da série Nightmare
(Pesadelo), do galês Charles Uzzell-Edwards,
mais conhecido como Pure Evil; seguido de
Matrix, grafite do norte-americano Poem One,
que tem atuação na arte de rua desde a década
de 1980;
um grafite de 2025, Choque natural,
criação do artista da Suiça conhecido por Bigtato;
o público em uma visita guiada; e o cartaz com
Banksy na abertura da exposição na
Fundação Canal em Madri






















Sobre grafite e arte urbana, veja também:




   Semióticas – A arte do grafite

   https://semioticas1.blogspot.com/2011/07/a-arte-do-grafite.html


   Semióticas – A guerra de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2012/11/banksy-guerra-e-grafite.html


   Semióticas – A imitação de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2015/03/a-imitacao-de-banksy.html


   Semióticas – A retrospectiva de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2016/07/a-retrospectiva-de-banksy.html


   Semióticas – A noite do Natal de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2019/12/a-noite-do-natal-de-banksy.html


   Semióticas – Aventuras da percepção

   https://semioticas1.blogspot.com/2013/04/aventuras-da-percepcao.html


   Semióticas – Cenas de Sinequismo

   https://semioticas1.blogspot.com/2017/02/cenas-de-sinequismo.html


   Semióticas – Vida de artista

   https://semioticas1.blogspot.com/2011/10/vida-de-artista.html







 

Outras páginas de Semióticas