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17 de setembro de 2026

Fotografias que mudaram padrões

 




 

Fashion is about who you want to be, not who you are.

(Moda é sobre quem você quer ser e não sobre quem você é.)

–– Richard Avedon.  


Um dos mais importantes teóricos da fotografia, e também um dos pensadores da cultura mais influentes desde a segunda metade do século 20, o francês Roland Barthes nunca concluiu sua tese de doutorado. Uma parte dela foi publicada em 1967 no livro “O Sistema da Moda” – análise minuciosa a partir de revistas para tentar decifrar a moda como um sistema de significados, um código retórico de imagens e palavras que estabelecem gostos de consumo e tendências culturais. “O Sistema da Moda” não propõe uma história da indumentária e muito menos uma sociologia da moda ou uma psicologia da moda. O que Barthes apresenta é uma semiótica da moda, um estudo sobre a linguagem e os sentidos do que seja a moda e do que seja “estar na moda”.

Alguns dos pressupostos de Barthes, que deram à moda um verniz de assunto nobre e universitário, poderiam servir como epígrafe para uma retrospectiva em formato de reportagem fotográfica feita recentemente pelo jornal The New York Times em sua revista “T” (abreviação para The New York Times Style Magazine – veja link para a reportagem no final desta página). Um dos editores da revista, Nick Haramis, convidou um time de especialistas, que incluiu fotógrafos, estilistas, designers de moda, jornalistas e modelos, para elaborar uma lista com as fotografias de moda mais influentes do último século. Tendo como critérios para a seleção as questões de impacto e de originalidade, a proposta partiu de um desafio potencialmente impossível: nomear uma seleção de imagens que mudaram padrões sobre beleza, estilo e comportamento.










Fotografias que mudaram padrões: no alto da página,
a capa do álbum “Homogenic”, de Björk, lançado em 1997,
com fotografia de Nick Knight que teve direção de arte
do estilista Alexander McQueen. Acima, a
fotografia
original de Björk antes da pós-produção. A foto, na
verdade, é uma recriação, com poucas alterações,
de outra foto que Knight e McQueen produziram,
também em 1997, para a revista Visionaire,
com a modelo Devon Aoki (uma das imagens
que estão nesta seleção de 25 fotografias).

Abaixo, a 
capa desdobrável de julho de 2005
da Vogue Itália com
fotografia de Steve Meisel









Nomes de referência


Como em toda lista, as imagens selecionadas estão sujeitas aos mais variados questionamentos e podem levar a argumentos sobre rejeições e dúvidas diante de outras fotografias igualmente marcantes que não foram incluídas. As possíveis ressalvas também servem para confirmar que esta não é uma lista definitiva e sim um conjunto mais ou menos memorável para reforçar alguns nomes como referência e apresentar um acervo de imagens e mensagens que provocaram polêmicas e rupturas em sua época e que foram normalizadas, realmente adotadas como norma ou diluídas pela profusão de imitadores que veio depois. A lista não está restrita à publicidade nem a editoriais de moda, desde que a foto tenha de alguma forma inspirado o mundo da moda ou promovido alterações importantes nos critérios sobre estilo e comportamento.

A lista das 25 fotografias marcantes que mudaram padrões sobre beleza e estilo, segundo os critérios da reportagem, inclui imagens muito conhecidas que vêm de fotojornalismo, fotos autorais sobre temas diversos, fotos que se tornaram capas de disco, ou que foram produzidas com esta finalidade, e até um registro feito por um paparazzo. Pelos critérios de votação, em que cada convidado escolhia 10 fotografias sem ordem de classificação, houve o caso do fotógrafo Steven Meisel, que aparece selecionado com mais de uma fotografia.

Na lista, a fotografia mais antiga é de 1951, de Irving Penn, e a mais recente é de Deana Lawson, de 2009. No conjunto de imagens selecionadas, as décadas mais lembradas são a de 1990, com sete fotografias, seguida dos anos 1970, com seis, e dos anos 1980, com cinco imagens selecionadas. Os perfis dos fotógrafos e as análises sobre cada fotografia, reproduzidas a seguir, em ordem cronológica, foram feitos por mim. E, sendo uma revista norte-americana, nenhuma surpresa pela constatação de que tanto a maioria dos fotógrafos como a maior parte das fotografias serem dos Estados Unidos.

 



Irving Penn, “Manga larga em Sunny Harnett”, Nova York, 1951


O norte-americano Irving Penn (1917-2009), um dos nomes mais importantes da fotografia de moda do século 20, muitas vezes copiado e tomado como referência por sua trajetória de excelência, trabalhou por mais de 60 anos para a revista Vogue e ficou conhecido tanto por seus enquadramentos inesperados como pelas suas perspectivas e seus enquadramentos incomuns que trouxeram mudanças radicais em relação à tradição centralizada que sempre dominou as fotos do mundo da moda. Nesta foto de 1951, a modelo Sunny Harnett tem o rosto cortado na altura dos olhos e o destaque vai para os detalhes da roupa que aparecem de forma quase inevitável.




Robert Frank, “Rodeio”, Nova York, 1954


Nascido na Suíça e radicado nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra,
Robert Frank (1924-2019) conseguiu uma bolsa da Fundação Guggenheim para viajar por 30 estados do país fotografando pessoas comuns. Seu primeiro trabalho, depois da guerra, foi como fotógrafo de moda para a Harper’s Bazaar e outras revistas, mas ele não se ajustava às limitações das pautas e partiu para a fotografia documental, registrada em sua obra-prima “The Americans” – livro de 1958 que virou obra de referência e inclui a foto do cowboy anônimo de chapéu, jeans e botas e couro encostado na cesta de lixo na cidade grande. 





Melvin Sokolsky, “Bolha no Sena” para a Harper's Bazaar, 1963


Nascido em Nova York, Melvin Sokolsky (1933-2022) dedicou-se a fotografias de moda e de publicidade. Em 1963, produziu um editorial de moda de 12 páginas para a
revista Harper’s Bazaar que tornou-se um acontecimento: inspiradas em um detalhe da pintura monumental “O Jardim das Delícias Terrenas” (1490), do holandês Hieronymus Bosch, as fotos apresentavam a modelo Simone D'Aillencourt, vestindo peças da coleção do estilista Philippe Venet, dentro de uma bolha de plástico, em vários cenários das ruas de Paris.





Diane Arbus, “Jovem com bobes em casa”, Nova York, 1966


Fotógrafa e escritora, Diane Arbus (1923-1971) começou trabalhando para revistas de moda, produzindo editorias e anúncios publicitários com o marido, Allan Arbus, mas terminou abandonando a parceria para fotografar as ruas de Nova York e ficou conhecida por seus registros sobre pessoas anônimas e marginalizadas. Na fotografia de 1966, feita com uma câmera Rolleyflex, muito próxima do personagem, a impressão é que estamos presenciando a conversa.








Ed van der Elsken, “Zwitserland”, Alpes Suíços, 1967


O fotógrafo e cineasta holandês Ed van der Elsken (1925-1990)
trabalhou com Henri Cartier-Bresson e Robert Capa na Agência Magnum, em Paris, e viajou por diversos países. Seu foco principal eram as pessoas comuns em cenas urbanas e os marginalizados, abrangendo da Segunda Guerra até os anos 1980. Nesta foto enigmática de 1967, publicada em um editorial sobre viagens da revista Avenue, de Amsterdã, a jovem com a perna engessada contempla a paisagem na janela com uma sensualidade que era incomum para a época. Sofia Coppola reproduz esta imagem nos fotogramas iniciais do filme de 2003 "Lost in Translation" (Encontros e Despedidas).




Ron Galella, “Jackie ao Vento”, Nova York, 1971 

Chamado de “padrinho da cultura dos paparazzi dos Estados Unidos”, Ron Galella (1931-2022) era considerado o paparazzo mais controverso de todos, com várias desavenças e processos judiciais movidos por celebridades como Jacqueline Kennedy Onassis, Marlon Brando, Elvis Presley ou o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, entre outros. Ele dizia que a foto da ex-primeira dama passeando em Nova York era sua “Mona Lisa”, depois de permanecer como uma presença incômoda durante anos na vida cotidiana de Jackie.





Helmut Newton, “Yves Saint Laurent, Rue Aubriot”, 1975


O fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) ficou conhecido por seus estudos de nu feminino que são associados, com muita frequência, aos mais variados fetiches. Depois da Segunda Guerra, ele fixou residência na Austrália, mas seguiu durante décadas trabalhando em editoriais para revistas de moda, especialmente para a Vogue francesa. Nesta foto emblemática, a modelo Vibeke Knudsen está inteiramente vestida, em uma pose em estilo andrógino, para o catálogo da Saint Laurent, em uma rua deserta do centro histórico de Paris, tarde da noite ou de madrugada.





Robert Mapplethorpe, “Patti Smith”, Nova York, 1975


Patti Smith e o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) foram amantes, no final da década de 1960, quando moravam no lendário Chelsea Hotel e iniciavam suas carreiras, e depois foram amigos muito próximos. Nesta foto, produzida para a capa de “Horses”, álbum de estreia de Patti Smith, é notável a complexidade da composição por trás de um retrato aparentemente simples. No contraste suave entre preto e branco, a luz ilumina somente metade do rosto de Patti e os punhos da camisa foram cortados. Uma fita pende do seu pescoço até a cintura, como se fosse uma gravata desfeita e o paletó masculino está jogado sobre o ombro. Patti declarou, em uma entrevista, que a foto “tem um pouco de Baudelaire, um pouco de garoto católico, um pouco de Frank Sinatra e muito de Robert”.






Joseph Szabo, “O Beijo”, Nova York, 1977

Nascido em Ohio, em 1944, Joseph Szabo concluiu seu mestrado em Belas Artes no Pratt Institute, no Brooklyn, e começou a trabalhar como professor em uma escola pública de ensino médio em Long Island. Suas fotos mais conhecidas registram seus alunos em situações cotidianas e junto de outros adolescentes e jovens suburbanos, namorando ou passeando por Nova York, segundo ele próprio com inspiração nas célebres fotos dos libertinos e modernos parisienses nas décadas de 1920 e 1930 feitas pelo húngaro Brassaï. As atitudes rebeldes presentes em suas fotos foram reproduzidas por diversos anúncios publicitários e estilistas de moda.






Cindy Sherman, “Fotografia sem título nº 21”, Nova York, 1978


A fotógrafa Cindy Sherman também é a modelo nesta fotografia de 1978, da série de retratos sem título em que a ela interpreta diferentes atrizes promovendo filmes fictícios. Nascida em 1954 em Nova Jersey, Cindy especializou-se em criar personas fictícias para criticar estereótipos de gênero, papéis sociais e hábitos de consumo. Embora ela tenha colaborado com publicações de moda em editoriais de sátira, seu foco central é a reflexão sobre identidade e representação visual, como neste retrato da jovem que tem os arranha-céus emoldurando seu rosto preocupado e seu olhar fixo em algo fora do enquadramento da fotografia.








Guy Bourdin, “Mulher com um retrato de John Travolta”, 1979


O francês Guy Bourdin (1928-1991) ficou conhecido por suas fotos publicadas em revistas como a Vogue e a Harper’s Bazaar, mas também conquistou reconhecimento por sua obra experimental e fora dos padrões do mercado da moda e da publicidade. Influenciado pelas experiências estéticas dos mestres do surrealismo, especialmente por Man Ray, Bourdin criou fotos ousadas por seus enredos enigmáticos, eróticos, com cores fortes e provocantes – como nesta imagem, feita para um anúncio publicitário da marca francesa de calçados Charles Jourdan, em que a modelo está reclinada sobre o sofá em uma pose provocante e tem uma foto emoldurada de John Travolta entre suas pernas. Madonna reproduz a pose e a cena no videoclipe de "Hollywood", sob a direção de Jean-Baptiste Mondino.





Nan Goldin, “O Abraço”, Nova York, 1980


Nascida em 1953 em Washington, Nan Goldin tinha 20 anos quando começou a fotografar a si e a seus amigos anônimos, artistas, músicos e drag queens em situações cotidianas de intimidade. Seu diário visual resultaria nas imagens confessionais de uma exposição, apresentada pela primeira vez em 1979 e como fotolivro em 1986, com o título “A Balada da Dependência Sexual” – uma coleção de centenas de fotos que causaram polêmica e a consagraram como uma das fotógrafas e artistas visuais mais importantes de sua geração. Nesta fotografia, a luz do flash projeta a sombra das figuras e dissolve as fronteiras entre documento e autobiografia.





Richard Avedon, “Brooke Shields para Calvin Klein Jeans”, 1980


Talvez Richard Avedon (1923-2004) tenha feito uma concessão ao fotografar Brooke Shields em cores para uma campanha da Calvin Klein Jeans em 1980, já que ele sempre foi conhecido por suas fotos em preto e branco para editoriais de moda, anúncios de publicidade e retratos de celebridades. Na foto, ela tinha apenas 15 anos e a exposição do anúncio na mídia e em outdoors intensificou as controvérsias sobre a sexualização de menores na mídia – Brooke Shields já estava no centro da polêmica, por seu papel de criança coagida à prostituição quando tinha 12 anos no filme de 1978 “Pretty Baby”, de Louis Malle. Não é a foto mais marcante na trajetória de Avedon, mas foi um divisor de águas na publicidade, destacando um estilo de campanhas com foco na provocação e no erotismo que traria fama e fortuna para fotógrafos e publicitários que vieram depois, como o italiano Oliviero Toscani e suas fotos polêmicas criadas
para a grife Benetton. No Brasil houve um episódio semelhante em 1987, com a campanha publicitária “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto para a marca de lingerie Valisére; Patricia Lucchesi, atriz dos anúncios, na época tinha 12 anos.





Jean-Paul Goude, “Grace Jones, Azul-Preto sobre Marrom”, 1981

Nascido em 1938 na França, o fotógrafo, designer e cineasta Jean-Paul Goude conheceu a jamaicana Grace Jones nos anos 1970, quando ele era um respeitado diretor de arte da revista “Esquire” e ela se apresentava no Les Mouches, um bar e discoteca que era um reduto da comunidade LGBT em Nova York. Eles se tornaram um casal inseparável. Goude passou a produzir seu estilo estético e a apresentou a artistas como Andy Warhol e Keith Haring. “Ela se tornou minha obsessão”, declarou Goude em entrevista recente. Foram muitas colaborações entre os dois, de videoclipes a shows e capas de álbum. Esta imagem foi a capa de “Nightclubbing”, quinto disco de Grace Jones, lançado em 1981. O corte de cabelo geométrico, a maquiagem, o smoking Armani e a pele pintada com pigmento azul brilhante mudaram o visual de Grace Jones e da beleza negra desde então.





Andy Warhol, “Jean-Michel Basquiat”, Nova York, 1982


Multiartista, produtor cultural e principal referência da Pop Art, Andy Warhol (1928-1987) trabalhou em todas as mídias e todas as formas da arte em seu tempo, o que inclui o universo da moda através de seu estúdio The Factory, que misturava arte, música e publicidade. Também produziu milhares de fotografias de celebridades, algumas delas com câmeras Polaroid, que revelam e imprimem a imagem segundos após o clique fotográfico. Este retrato em Polaroid foi feito após o primeiro encontro do jovem e desconhecido Basquiat, aos 21 anos, com o marchand de arte suíço Bruno Bischofberger. O marchand levou o trabalho de Basquiat para a Europa e o transformou em uma lenda das artes plásticas.

 




Hans Feurer, “Susan Hess para Comme des Garçons”, 1983


O fotógrafo suíço Hans Feurer (1939-2024) era um nome de referência no mundo da moda quando produziu esta foto surpreendente para um catálogo da estilista japonesa Rei Kawakubo e sua grife Comme des Garçons em 1983. A silhueta do vestido preto perde a forma e esconde o corpo da modelo Susan Hess, que usa luvas pretas e calça tênis; na pose do salto, uma echarpe de cor clara enrolada em várias voltas cobre totalmente o rosto da modelo. A foto foi tão imprevisível e tão marcante que colocou a Comme des Garçons no radar da moda mundial e alterou o estilo de Rei Kawakubo, que passou a adotar roupas desconstruídas e ousadas que desafiam os cânones da alta-costura e as formas tradicionais do corpo.





Carrie Mae Weems, “Série Mesa de Cozinha”, Nova York, 1990


Nascida em 1953 no Oregon, a fotógrafa e artista multimídia produziu um ensaio com 20 fotografias em que ela própria é personagem diante de uma mesa transformada em palco da vida de uma mulher. Ao redor da mesa, sob a luz de uma luminária suspensa, Weems abordou temas conceituais profundos como maternidade, racismo, sexismo, gênero, identidade e classe social. As fotos deste ensaio de 1990 deram visibilidade para o trabalho de Weems, que em 2014 seria a primeira mulher negra a ter sua obra apresentada em uma retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York.





Corinne Day, “O 3º Verão do Amor”, revista The Face, 1990


A britânica Corinne Day (1965-2010) atuava como modelo, fotógrafa e documentarista quando realizou este ensaio
com Kate Moss, na época uma modelo desconhecida de 16 anos, para a revista londrina The Face. As fotos foram um sucesso e provocaram alterações nos padrões da produção de moda ao rejeitar a maquiagem, os cabelos penteados e o glamour tradicional, introduzindo luz natural e imperfeições que criaram um estilo polêmico, seguido por outros fotógrafos como Craig McDean, Glen Luchford e David Sims. O novo estilo passou a ser chamado de forma pejorativa de “heroin chic” e rompeu drasticamente com o padrão de beleza anterior. 





Peter Lindbergh, “Os anos 1990”, Vogue britânica, 1990


Fotógrafo de moda e cineasta, o alemão Peter Lindbergh (1944-2019) foi responsável por lançar e consagrar super-modelos como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Christy Turlington, que nesta foto sintetizam o estilo de Lindbergh: uso de matizes em preto e branco, sem excesso de retoques e com pouca maquiagem. A foto, feita à luz do dia no Meatpacking District de Nova York, famoso por suas lojas de luxo e sua vida noturna agitada, foi feita para a primeira Vogue britânica da década de 1990. O fotógrafo dispensou os figurinos de grife e cada modelo posou com suas roupas cotidianas. A foto foi capa da revista e inspiração para George Michael gravar também em 1990 o videoclipe de “Freedom' 90” com as cinco modelos em cena e direção de David Fincher.






Rineke Dijkstra, “Kolobrzeg", Polônia, 1992


O portfólio “Beach Portraits”, com centenas de adolescentes anônimas de maiô e biquini nas praias cidades da Europa, na década de 1990, trouxe prestígio à fotógrafa Rineke Dijkstra, nascida em 1959 na Holanda, e há quem destaque em sua obra referências à tradição dos mestres da pintura holandesa, como Vermeer e Rembrandt. A série fotográfica nas praias teve início como uma encomenda para um jornal holandês e terminou impulsionando o trabalho de Rineke Dijkstra. Na imagem, a modelo demonstra timidez e vulnerabilidade, em evidente situação de desconforto. A iluminação com flash na maioria das fotos da série destaca cada personagem e traz um equilíbrio entre figura e fundo que remete à composição clássica de retratos muito conhecidos na história da arte.





Steven Meisel, “Atitude Anglo-Saxônica”, Vogue britânica, 1993


Nascido em Nova York, em 1954, Steven Meisel é um dos mais influentes fotógrafos de moda e de retratos de celebridades, com trabalhos marcantes para a revista Vogue, edições da Itália e do Reino Unido, para as quais fotografou muitas capas e os principais editoriais das últimas três décadas. Esta foto foi a estreia da modelo Stella Tennant, que vivia em uma fazenda de criação de cabras na Escócia. A editora de moda Isabella Blow acrescentou à beleza original da modelo um estilo andrógino com cabelos curtos, maquiagem com contorno preto nos olhos e um piercing no nariz, na época um acessório usado apenas pelos punks mais radicais. Quando a revista foi lançada, Stella Tennant surgiu como novo padrão de beleza, o estilo passou a ser imitado por modelos e fotógrafos influentes e ela ganhou exclusividade com a Versace.





David LaChapelle, “Tupac Shakur: Solitário II”, 1996


Nascido em Connecticut, em 1963, David LaChapelle foi contratado por Andy Warhol, quando estava no começo da carreira, e ficou conhecido por suas fotografias de produção irreverente, de cores intensas, em cenários surreais que muitas vezes misturam temas religiosos ou renascentistas, trabalhando com frequência para grifes do primeiro time e para uma variedade de publicações, da Vanity Fair à Interview, Vogue, The Face e Rolling Stone. Neste retrato de 1996, sob encomenda para a revista Details, o rapper Tupac Shakur, recém-libertado da prisão por abuso sexual, e que seria assassinado em Las Vegas em setembro daquele ano, mostra a tatuagem “Thug Life” (Vida de bandido) deitado dentro da banheira, em uma pose provocante, com a nudez coberta apenas por muitas joias de ouro.
 




Nick Knight, “Devon Aoki”, revista Visionaire, 1997


O britânico Nick Knight, nascido em 1958 em Londres, atua como fotógrafo de moda e como professor na University of the Arts de Londres, sendo um pioneiro no uso de manipulações digitais e entusiasta de recursos tecnológicos de ponta como escaneamento 3D e intervenções por Inteligência Artificial. Nesta foto, produzida para a revista Visionaire, a modelo Devon Aoki veste uma criação de Alexander McQueen. Em um de seus olhos, uma lente de contato; na testa, um alfinete gigante indica um corte profundo com flores, tudo adicionado em pós-produção. A mistura de fragilidade e estranheza levou Björk a contratar Knight e McQueen para recriar a imagem com ela própria como modelo para a capa do disco “Homogenic”, lançado também em 1997.
 

 



Steven Meisel, “Febre de transformação”, Vogue italiana, 2005


Na foto da capa da revista e no ensaio editorial de Steven Meisel, as modelos estão em ambiente de hospital ou em camas de quartos luxuosos com bandagens e curativos, e algumas se contorcem em agonia ou êxtase em cenas de lipoaspiração, injeções faciais, cirurgias estéticas e implantes. O que era provocativo e chocante em 2005, hoje soa como quase banal: as intervenções no corpo deixaram de ser segredo ou exceção e se tornaram símbolos de status. O que talvez pudesse parecer estranho e incomum em 2005, na atualidade se tornou procedimento corriqueiro em nome da beleza.






Deana Lawson, “Binky & Tony Forever”, 2009


Nascida em Nova York, em 1979, Deana Lawson segue a pauta identitária da estética negra em temas como família, sexualidade e espiritualidade com detalhes de composição que fogem aos padrões tradicionais da fotografia de moda. Embora não produza com frequência fotos para revistas do mundo da moda ou para o mercado publicitário, seu trabalho como fotógrafa e artista visual já foi pauta de diversas reportagens em revistas como a Vogue ou a Vanity Fair. A foto de 2009 expressa o que Lawson chamou de “uma cena de amor de jovens negros” e faz parte de um projeto mais amplo que registra momentos de beleza na vida cotidiana que tenham relação com questões políticas e históricas da diáspora negra. Em 2016, esta foto estampou a capa do disco de jazz experimental “Freetown Sound”, de Blood Orange.


por José Antônio Orlando.

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Fotografias que mudaram padrões. In: Blog Semióticas, 17 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/fotografias-que-mudaram-padroes.html (acesso em .../.../…).


 Para acessar a fotorreportagem da  T  Magazine,  clique aqui








Fotografias que mudaram padrões: acima,
Diane Arbus em autorretrato em Nova York, 1968.

Abaixo, Ron Galella perseguindo Jackie Onassis
nas ruas em 1971 (Ron Galella Collection)









13 de abril de 2012

Nu perante a câmera







E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher, e não sentiam vergonha.  
Bíblia Sagrada, Gênesis, 2:25.   



A atitude de nudez diante das câmeras fotográficas teve início quase dois séculos antes da popularização da internet e das webcams e muito antes da indústria bilionária da pornografia transformar o corpo e o sexo em mercadoria para consumo compulsivo, como destaca entre trocadilhos saborosos o breve texto que apresenta “Naked before the Camera”, exposição inédita em cartaz em Nova York no The Metropolitan Museum of Art. São imagens belíssimas, todas em preto e branco e em matizes de sépia, que impressionam e apresentam um primoroso resumo da história da fotografia.

Mesmo sendo um evento de alto nível, com um acervo de raridades nunca antes reunido, a exposição gerou protestos na imprensa dos EUA e algumas manifestações em frente ao Metropolitan por chocar os juízos mais conservadores ou mais hipócritas. O acervo selecionado reúne 60 obras de nomes célebres e também de autores anônimos que abarcam desde as primeiras experiências de registro das imagens fotográficas, nas primeiras décadas do século 19, até experiências mais recentes como “Double Index”, intervenções de Robert Flynt com impressão sobre papel, datadas de 2009.














Nu perante a câmera: uma seleção de fotografias
reunidas na exposição Naked before the Camera:
no alto, "Two Standing Female Nudes" (1850), de
Félix-Jacques Antoine Moulin. Acima, 16 quadros
do "Album d'Études-Poses" (1880), de Louis Igout,
e uma sequência de "Boys Playing Leap Frog", um
ensaio fotográfico de 1887 de Eadweard Muybridge.

Abaixo, 1) "Nude whith mirror", daguerreótipo
de 1850 de autor desconhecido; 2) fotografia
extraída da série fotográfica “Nude, Campden Hill,
London”, uma curiosa versão de 1949 de Bill Brandt
para as cenas descritas por Lewis Carroll no livro
Alice no País das Maravilhas; 3) extratos de
"Double Index", ensaio fotográfico de 2009 de
Robert Flynt; 4) "Female nude whith mask",
fotografia de autor desconhecido com data
de 1870; e 5)“Teenage Lust”, de 1973,
uma fotografia de um dos ensaios polêmicos
do fotógrafo e cineasta
Larry Clark
















A ira dos moralistas


Observando a cronologia das obras em exposição, é interessante constatar que há muito mais semelhanças que diferenças entre os primeiros fotógrafos e os contemporâneos. Um olhar mais atento pode perceber, inclusive, que as imagens mais recentes – como é o caso de Robert Flynt e do registro de Jennifer Johnson intitulado “Folded Up”, de 1995 – curiosamente lembram muito, nos enquadramentos, nas texturas e nos tons esmaecidos, os trabalhos de pioneiros da fotografia também presentes na mostra, como os franceses Felix Nadar (1820-1910) e Julien Vallou de Villeneuve (1795–1866).

Entre os fotógrafos contemporâneos, também há trabalhos de Robert Mapplethorpe, Diane Arbus, Garry Winogrand e Larry Clark, entre outros. De Larry Clark, também cineasta, a curadoria incluiu na mostra uma imagem sem título que integra “Teenage Lust”, série que ele realizou entre 1972-1973. A imagem de Clark, que está entre as mais recentes apresentadas na mostra, antecipava as cenas fortes e a temática de seu filme mais polêmico, “Kids”, de 1995, que também provocou a ira dos moralistas ao abordar sem subterfúgios o avanço da aids e a sexualidade de adolescentes e pré-adolescentes em Nova York. 












"Desde o início da história da arte, retratar o corpo humano tem sido um dos maiores desafios dos artistas e resultou em realizações supremas, como pode ser comprovado nas galerias de estatuária grega e romana ou nas pinturas de mestres renascentistas”, aponta o diretor do museu nova-iorquino, Thomas Campbell, no texto que apresenta a exposição. As 60 fotografias reunidas vêm do extenso acervo do próprio museu e de universidades norte-americanas, onde integram coleções de antropologia e de história da fotografia.



Daguerreótipos e outros suportes



Há desde os antigos daguerreótipos em vidro a ampliações em suportes diversos, com cenas que remetem a aspectos que vão da história à sociologia, à etnologia e até à mitologia. Mas o que se destaca em primeiro plano na exposição é a mesma questão que as representações do nu sempre provocaram na maior parte das culturas: discussões apaixonadas sobre a moral, a censura, o pecado e a sexualidade. Acompanhando a cronologia das imagens, desde o século 19, também sobressaem questões de identidade e as alterações que cada época impõe aos padrões da arte e aos cânones de beleza.











Nudez no Oitocentos: no alto, "Standing Female Nude"
(1860), de Félix Nadar; ao centro, "Standing Male Nude"
(1855), atribuído a Charles Alphonse Marlé. Acima,
"Male Musculature Study" (1890), de Albert Londe.
Abaixo, "Young male nude seated on leopard skin",
fotografia de 1890 do italiano Guglielmo Plüshow









A maior parte das imagens pode ser descrita como “estudos sobre o corpo humano” – uma vez que algumas lembram as investigações científicas promovidas em laboratórios de anatomia ou os desenhos de observação sobre o corpo humano que há séculos são exercitados nas escolas de artes plásticas. Desde as primeiras experiências, na década de 1820, a produção de fotografias provou ser um substituto barato e fácil para o modelo vivo e um convite inquestionável às fantasias de sugestões eróticas.

Muitas das fotos mais antigas trazem a indicação de que foram produzidas para facilitar o trabalho dos pintores, mas com o passar do tempo se transformaram em obras de arte por si mesmas. O texto de apresentação de Thomas Campbell destaca que algumas das imagens da exposição têm uma semelhança tão grande com pinturas conhecidas que, provavelmente, serviram mesmo de modelos para artistas célebres. 









No alto, "Reclining Female Nude" (1853),
fotografia de Julien Vallou de Villeneuve.
Acima, "Femme avec un Parrot" (1866),
pintura de Gustave Courbet. Abaixo,
modelo nu na fotografia de Brassaï,
"L'Académie Julian", de 1931.

Também abaixo, "Turkish Woman" (1881), 
de Charles-Albert Arnoux Bertall; e "Female
Nude" (1853), de Julien Vallou de Villeneuve




          



Sensualidade explícita


Entre as fotografias em exposição no Metropolitan, há exemplos facilmente perceptíveis de que a fotografia serviu mesmo de base para o traço figurativo de gravuras e pinturas. Um dos casos mais evidentes de “apropriação” é a fotografia intitulada “
Nu feminino reclinado” (1853), de Julien de Villeneuve, que “inspirou” um quadro célebre: “Mulher com um papagaio” (1866), do pintor realista francês Gustave Courbet (1819-1877).

Entre tantas belas imagens, impressionam o erotismo e a sensualidade explícita de fotografias de meados de século 19 do francês Charles-Albert Arnoux Bertall (1820–1882), além de Nadar, Villeneuve, Moulin, Marlé e Thomas Eakins, entre vários outros, que somente sobreviveram aos rígidos códigos de censura da época porque foram adquiridas por colecionadores – como se vê em “Turkish Woman”, série que Bertall realizou em 1881, durante uma viagem ao Império Otomano, ou das jovens prostitutas francesas e mulheres nativas da Indonésia retratadas por volta de 1850 pelo também francês Félix-Jacques-Antoine Moulin (1800–1875).








Propostas libertárias


A exposição também reúne imagens do final do século 19 e início do século 20 produzidas com fins medicinais e para analisar distorções de anatomia, mas que também unem o erotismo e a sensualidade. Mais tarde, no decorrer do século 20, artistas como o húngaro George Brassai (1899-1984), o americano Man Ray (1890-1976) e o alemão Hans Bellmer (1902-1975) utilizam o nu como propostas libertárias na arte, investindo na exposição do corpo humano como veículo perfeito para jogos visuais e para distorções com objetivos estéticos de experimentação e de prospecção psicossexual.

As imagens reunidas na exposição do Metropolitan, todas disponíveis no portal do museu na internet, também podem ser admiradas como uma trajetória dos nomes mais célebres entre os pioneiros na história universal da fotografia, em que rivalizam uma maioria de franceses, seguidos por norte-americanos – entre eles o destaque de pioneiros como Eadweard Muybridge (1830–1904) – e os húngaros como André Kertész (1894–1944) e o citado Brassai, entre outros. 











Nus fotografados em fragmentos: no alto,
 "Arm" (1935), de Man Ray; ao centro,
"Nude" (1931), de Brassaï. Acima,
"Nude" (1928), de Germaine Krull.
Abaixo, nu feminino em registro de
um fotógrafo anônimo datado de 1856







Entre os principais representantes da fotografia nos movimentos de vanguarda que agitaram Paris e outras capitais de países da Europa nas primeiras décadas do século 20, além de Man Ray e Kertész há ainda uma artista e importante ativista política que também viveu durante alguns anos no Brasil: a francesa de ascendência polonesa Germaine Krull (1897–1985), que também transformou a nudez do corpo humano em veículo para a manipulação surreal da beleza.



Uma conexão íntima



Depois da Segunda Guerra, como apontam as imagens ousadas de Edward Weston ou Emmet Gowin – que realizam séries de retratos para comunicar uma conexão íntima de personagens fotografados com seus corpos – o uso da fotografia, e mais especificamente a nudez, começa a surgir como instrumentos de denúncia contra o preconceito, a segregação ou os extremos. A beleza estilizada em poses sensuais passa a não ser mais o tema central do erotismo na fotografia, cedendo espaço cada vez mais aos aspectos mais naturais ou mais desviantes e desajustados do comportamento psicossexual.

















A partir do alto, "Distortion # 6" (1932), fotografia
experimental de André Kertész; "Nude on Sand, Ocean"
(1936) e "Figure in the nude", de Edward Weston;
e "A Naked Man being a Woman, N.Y.C" (1968), de
Diane Arbus. Acima, "Edith, Danville, Virginia" (1967),
de Emmet Gowin. Abaixo, nu feminino reclinado no divã
em fotografia de 1856 de Gustave Le Gray








A partir da década de 1960, os registros apresentados na exposição avançam em direção à política, incluindo fotografias que registram protestos em praça pública ou a reclusão de ambientes distintos, seja em cenas de prostíbulos, seja em casais e famílias inteiras em acampamentos e praias de nudismo – como se vê em duas fotos da norte-americana Diane Arbus, "Homem aposentado e sua mulher em casa um amanhã em um acampamento nudista" (1963) e "Um homem nu sendo uma mulher, N.E.C" (1968).

A revolução sexual e seu contraponto, estabelecido com a crise gerada pelo avanço da aids nas últimas décadas do século 20, também são perceptíveis na cronologia que a exposição enumera. Nas imagens mais recentes, de Mapplethorpe, Diane Arbus e Larry Clark, é quando a nudez e sua representação assumem novos significados, como provocações ou declarações de liberdade frente às restrições sociais. E também como afirmações de identidade individual, de sexualidade e de gênero fora dos padrões de uma certa normalidade.





   
 




No alto, "Nude N° 57" (1950), fotografia de
Irving Penn, seguida por "Patti Smith" (1976),
de Robert Mapplethorpe, e "Two Man in
Silhouett" (1987), de Mark Morrisroe.

Abaixo, duas fotografias de 1981 também de
Mark Morrisroe: "Self portrait" e "Self portrait
standing in the shower". Também abaixo,
"Cavorting by the Pool at Garsington",
fotografia de 1916 de Lady Ottoline Anne
Cavendish-Bentinck Morrell; e o autorretrato
"Thomas Eakins & John Laurie Wallace on
a Beach" (1883), de Thomas Eakins










Ao apresentar um resumo da história da fotografia exclusivamente através das representações da nudez, “Naked before the Camera” provoca a sensibilidade e o senso crítico do público para além dos domínios da arte e das fantasias mais ou menos explícitas de sedução erotismo. Cada uma das imagens em exposição – mesmo aquelas que sob a distinção de "estudo de artista" enganaram os censores para dar início ao que se tornaria nas décadas e no século seguintes no próspero comércio da pornografia – tem um apelo tão forte que pode levar o espectador a examinar tanto as motivações como os significados sobre o que há de mais humano e que deveria ser o estado mais natural em nossa civilização: a nudez de nossos próprios corpos.


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Nu perante a câmera. In: Blog Semióticas, 13 de abril de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/nu-perante-camera.html (acessado em .../.../...).


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