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6 de março de 2026

Lisette Model contra os racistas

 




Não conheço nenhum fotógrafo que tenha fotografado

pessoas com tanta intimidade quanto Lisette Model”.

–– Berenice Abbott (1898-1991).  




Quem tem interesse pelos clássicos do jazz conhece o trabalho da fotógrafa Lisette Model: ela registrou, em belas imagens, flagrantes dos maiores músicos e intérpretes do jazz e seu público, incluindo os estreantes que em sua época ainda não eram famosos. Muitas das fotos feitas por Lisette Model ilustraram capas e encartes de álbuns lendários e reportagens diversas sobre os jazzistas mais célebres – e algumas ficaram tão conhecidas que não mais recebem o crédito de autoria da fotógrafa, como se fossem retratos naturais dos músicos ou imagens de domínio público. Lisette Model morreu aos 82 anos, em 1983, mas somente agora, décadas depois da apuração de seu espólio, uma parte surpreendente de seu legado é finalmente revelada: milhares de fotografias da cena jazzística dos anos 1940 e 1950 que permaneciam inéditas.


Uma coleção de 200 fotos, selecionadas do acervo de seus mais de 1.800 negativos de 35 mm, agora está publicada em “Lisette Model: The Jazz Pictures”, fotolivro de 240 páginas lançado pela Eakins Press Foundation, com breves ensaios escritos por Langston Hughes, Loren Schoenberg e Audrey Sands – que também assina a coordenação editorial. Lisette Model era um pseudônimo. Seu nome de batismo foi Elise Amelie Felicie Stern, nascida em 1901 em Viena, na Áustria, com ascendência judia. No final dos anos 1920, após a morte do pai, ela vai para Paris. Em 1938, ela e o marido, o pintor Evsa Model, nascido na Rússia, embarcam para os Estados Unidos, fugindo da ascensão dos nazistas. Em Nova York, Lisette Model adota o pseudônimo e o trabalho com fotografia para sobreviver, tornando-se associada da cooperativa Photo League, da qual faziam parte estreantes e veteranos, entre eles Paul Strand, Edward Weston, Berenice Abbot, Ruth Orkin, Helen Levitt e Robert Frank.

















Lisette Model contra os racistas: pressão do FBI
impediu
a fotógrafa de publicar seus registros sobre
Gigantes do Jazz nos anos 1950. Agora um fotolivro
revela
suas imagens lendárias. No alto da página,
Ray Nance (à esquerda) e Duke Ellington (à direita)
em apresentação no palco do Newport Jazz Festival.

Acima,
Louis Armstrong entre dois músicos brancos
no palco do Basin Street East, Nova York, em 1954;
e dois flagrandes do produtor musical
Ollie McLaughlin
e amigos em uma festa depois dos shows no Newport
Jazz Festival, em Rhode Island, em junho de 1956.

Abaixo,
Bud Powell ao piano no palco do New York
Jazz Festival, em 1957; fotografia que estampa a capa
do fotolivro
“Lisette Model: The Jazz Pictures”,
que inclui todas as imagens reproduzidas
nesta postagem



































Insinuações sem prova



Ainda na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Lisette Model conquistou destaque na Photo League e seu trabalho passou a ser publicado em revistas de prestígio como a Harper’s Bazaar. Sua atuação política e seu papel de liderança, no entanto, a tornaram alvo das investigações do FBI e do senador Joseph McCarthy, que na década de 1950 comandou uma caça às bruxas contra comunistas e contra todos que pudesse rotular por “atividades anti-americanas”. Como resultado da perseguição política e das imposições da censura, Lisette acabaria trocando a fotografia pelo trabalho de professora na New School for Social Research, em Nova York, onde teve alunos que se tornaram célebres na fotografia, entre eles Diane Arbus, Larry Fink, Helen Gee e John Gossage. Nos livros de história, o nome de Lisette Model passaria a constar como mais uma vítima do macarthismo, um termo que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, identifica a prática criminosa de “formular acusações sem provas e fazer perseguições ou insinuações de teor político”.




             


Lisette Model contra os racistas: acima,
Ella Fitzgerald em 1956 no palco
do Newport Jazz Festival.

Abaixo, Louis Armstrong e Velma Middleton
no palco do Basin Street East, em Nova York,
em 1954; 
e Louis no aquecimento para sua
apresentação no Newport Jazz Festival,
em 1956, no ônibus alugado que
também funcionava como camarim



                  












A dedicação e o entusiasmo de Lisette Model pelo jazz não deixam de evidenciar sua identificação com as lutas contra injustiças e com as atitudes de resistência que sempre estiveram presentes na trajetória dos músicos negros, desde os primórdios. Lisette Model já estava nos Estados Unidos em 1939, quando Billie Holiday cantou pela primeira vez e gravou “Strange Fruit”, a canção pioneira do protesto político que lamentava a realidade de milhares de pessoas negras vítimas de ataques racistas e de linchamento, assassinadas e dependuradas nas árvores. Não é por acaso que Billie Holiday surge em destaque entre as fotografias inéditas de Lisette Model, junto com as belas imagens em preto e branco de Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen McCrae, Miles Davis, Horace Silver, Art Blakey, Count Basie, Dizzy Gillespie e outros gigantes do mundo do jazz.



Censura e perseguição



Lisette Model também ficaria conhecida por suas fotografias de rua com seu estilo irônico e de crítica social, mas quando se observa seus retratos do jazz o que vem à tona é o tom de alegria e encantamento, com cuidados no enquadramento e na composição que ainda hoje surpreendem. Em 1952, diante do imenso acervo de seus retratos de personalidades do jazz e de cenas dos shows, ela deu início ao projeto da publicação de um livro de fotografias dedicado exclusivamente ao tema, em uma época em que a publicação de fotolivros era algo incomum e com raros antecedentes. Mas a edição do fotolivro não se concretizou e o desfecho foi melancólico: depois que a fotógrafa foi convocada para prestar depoimentos no FBI sobre suas atividades à frente da cooperativa New York Photo League, e de McCarthy ameaçar incluir seu nome na famigerada Lista de Vigilância de Segurança Nacional, as editoras e os financiadores cancelaram o apoio ao projeto.









Lisette Model contra os racistas: acima,
o pianista Teddy Wilson e o trompetista
Dizzy Gillespie proseando na mesa de uma
casa noturna em Nova York, em 1954.

Abaixo, dois registros do ano de 1957
no Café Bohemia do Greenwich Village:
o trompetista
Miles Davis assiste na plateia e
aplaude o pianista 
Willie “The Lion” Smith.

Miles Davis e outros músicos foram vítimas
de racismo e violência policial. Em agosto de
1959, em frente ao famoso clube de jazz
Birdland, onde estava se apresentando,
Miles sofreu um espancamento brutal.

Na mesma época, Art Taylor, depois de
ser ameaçado e espancado por policiais
diversas vezes, acabou se mudando para a
França, assim como outros músicos negros
que buscaram refúgio em países da Europa
contra a violência policial e a perseguição política












Na mesma época, a cooperativa de Nova York seria fechada pelo FBI e todas as revistas e agências de notícia deixaram de publicar e de comercializar as fotografias de Lisette Model. Confiante na importância do tema do jazz e na qualidade de seu acervo, Lisette Model chegou a contratar, para escrever um ensaio que acompanharia as fotografias, o jornalista e escritor Langston Hughes, um dos intelectuais e ativistas que tiveram destaque no movimento cultural e político conhecido como Harlem Renaissence (Renascimento do Harlem) que impulsionou a música e a literatura afro-americana nas décadas de 1920 e 1930. Hughes também foi a principal liderança, em 1930, da Liga de Luta pelos Direitos dos Negros. Foi o jazz que aproximou Lisette Model de Hughes e das lideranças comunistas, assim como atraiu outros fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas do teatro, do cinema e das artes plásticas.



A causa antirracista




O círculo de intelectuais e artistas que orbitavam a esquerda comunista se ampliava naquela época e todos eles abraçavam tanto a luta antirracista como a ideia de que o jazz representava a cultura mais profundamente democratizante dos Estados Unidos. O ensaio de Hughes sob encomenda de Lisette, no entanto, não foi concluído, e com a pressão do FBI a fotógrafa terminou adiando por tempo indeterminado a edição do livro. Seu acervo de fotografias sobre o mundo do jazz foi arquivado e permaneceu inédito durante décadas. Hughes morreu em 1967, aos 65 anos, e suas anotações para o ensaio somente agora são publicadas em “Lisette Model: The Jazz Pictures”.











Lisette Model contra os racistas
: acima,
pai e filho nas trilhas do jazz, Josh White Jr.
e
Josh White no Music Inn, Massachusetts,
em 1956.
Abaixo, o baterista Art Taylor no
Café Bohemia do Greenwich Village,
em Nova York, em foto de 1957






Ao apresentar a cronologia da obra de Lisette Model e o valor de seu acervo como patrimônio cultural e político, a historiadora Audrey Sands reconhece que a grande maioria da comunidade dos refugiados em Nova York, incluindo intelectuais, artistas e muitos empreendedores ligados à literatura e à música, entre eles os fundadores da gravadora Blue Note Records e os parceiros de Lisette Model na cooperativa Photo League, eram sim militantes de esquerda, assim como os músicos do jazz que compartilhavam ideais de igualdade e liberdade. Quanto à perseguição e ao silenciamento por imposição do macarthismo, Sands explica que havia muito racismo entrelaçado às questões ideológicas: os partidários do macarthismo eram partidários da supremacia branca, apoiavam a política segregacionista e perseguiam os defensores dos direitos civis sob o pretexto de combater o comunismo.

No ensaio de apresentação que abre o fotolivro, Audrey Sands reconstitui os percalços violentos e melancólicos de perseguição e silenciamento de Lisette Model e de muitos outros intelectuais, artistas e músicos do jazz – e faz um inevitável paralelo com o colapso contemporâneo provocado por um governo de inspiração fascista, militante da guerra e da violência, fomentado por ideias racistas da supremacia branca. Para todos nós, leitores, ouvintes do jazz e observadores das belas imagens registradas por Lisette Model, há um choque de realidade ao perceber que a repressão de hoje não é sem precedentes, mas um retorno a um período que parecia ter sido superado.






Lisette Model contra os racistas:
dois registros em 1957 no palco do
New York Jazz Festival – acima,
o cantor Joe Williams e abaixo,
o pianista
Count Basie













Uma arte interrompida



“O jazz é a montagem de um sonho permanentemente adiado”, escreveu Langston Hughes. Contudo, também é possível considerar a beleza do fotolivro de Lisette Model como uma conquista e um triunfo – uma vitória pela sobrevivência depois da censura e do silenciamento. Em cada imagem, cada gesto, cada expressão de um rosto ou cada contraste em claro e escuro das composições da fotógrafa, estão a beleza e a tradução de algo que permanece vivo e comovente. A trajetória de Lisette Model e a história do jazz têm um ponto de ruptura em 1959, quando Billie Holiday morre, de repente, aos 44 anos. Billie também sofreu perseguição violenta do aparato policial e político e Lisette Model, sua admiradora apaixonada, se preparou para fotografá-la em seu leito de morte. Mas foi tomada de forte emoção e não conseguiu continuar. Foram suas últimas fotos sobre o mundo do jazz.

O fotolivro “The Jazz Pictures” não é primeiro a reunir o trabalho de Lisette Model. O primeiro, no projeto da própria fotógrafa, deveria ter sido publicado na década de 1950, mas terminou adiado. Duas décadas depois, o primeiro fotolivro sobre ela a ganhar edição e ampla distribuição foi “Photographs by Lisette Model”, com prefácio da fotógrafa Berenice Abbott, publicado em 1979 pela Aperture Foundation de Nova York, depois reeditado em 2008, como homenagem no 25º aniversário de sua morte. O segundo fotolivro viria em 1990, com o lançamento de “Lisette Model”, uma seleção de suas fotografias organizada por Ann Thomas, em edição da National Gallery do Canadá, como catálogo para uma exposição sobre o trabalho da fotógrafa.

Outros fotolivros sobre sua obra foram “Lisette Model – Photographien 1933-1983”, editado em 1992 pelo Museum Ludwig de Colônia, na Alemanha, também como catálogo de uma exposição em sua homenagem; “Lisette Model”, publicado em 2001 nos Estados Unidos pela Phaidon Press, com uma retrospectiva de sua trajetória com 50 fotografias em ordem cronológica, com apresentação de Elisabeth Sussman; “Lisette Model”, catálogo da exposição de 2010 na Fundación Mapfre de Madri, Espanha, e na Galeria Nacional do Jeu de Palme, em Paris, França que reuniu 120 imagens da fotógrafa, de seus primeiros registros em Paris, em 1933, aos últimos, no final dos anos 1950, em Nova York; e, mais recentemente, “Lisette Model: Street life”, de 2021, com edição e ensaios de Claudio Composti, Monica Poggi e Larry Fink, reunindo uma seleção de 100 fotografias, com destaque para retratos de anônimos, como catálogo de uma exposição realizada em Turim, na Itália, no Centro Italiano de Fotografia.












Lisette Model contra os racistas: no alto,
o trompetista 
Bunk Johnson no palco em
Nova York, em 1955. Acima, o pianista
Erroll Garner em 1956 no palco do New York
Jazz Festival. 
Abaixo, um flagrante da plateia
durante o Newport Jazz Festival em 1954;
e o beijo do casal anônimo em 1944 no
Nick's Jazz Joint, o lendário bar dos
jazzistas no Greenwich Village, Nova York.


No final da página,
Billie Holiday em 1957
no palco do New York Festival; 
e um
registro de
Arthur Fellig, mais conhecido
pelo codinome
Weegee, também integrante da
Photo League, com Lisette Model em ação,
em 1956, com sua câmera Rolleiflex e uma
sacola de flashes no Nick’s Jazz Joint














Força poética



No final de 2025, além de “The Jazz Pictures”, também foi publicado “Renegade: Photography in the life of Lisette Model”, ensaio biográfico ilustrado com uma coletânea de imagens da fotógrafa, escrito por Duncan Forbes, diretor de Fotografia do Victoria and Albert Museum, e editado pela Mack Books de Nova York. O lançamento mais recente, de fevereiro de 2026, é “Lisette Model: Retrospective”, pela Prestel Publishing, da Alemanha, com seleção e ensaio de Walter Moser, que apresenta uma seleção de 200 fotografias, inéditas em sua maioria, incluindo retratos irônicos de personagens anônimos nas ruas, as séries fotográficas de 1939 a 1941 sobre banhistas em Coney Island e um apanhado sobre as temporadas da fotógrafa na França, na Itália, na Venezuela e em outros países.

Assim como Audrey Sands argumenta, no ensaio em que apresenta “The Jazz Pictures”, Walter Moser também destaca que a obra de Lisette Model reflete um caso exemplar de uma artista interrompida de forma trágica – vítima de perseguição e silenciamento pelo aparato do governo dos Estados Unidos, um tema que nos últimos anos, infelizmente, tem retornado à prática cotidiana de forma cada vez mais violenta. São os paradoxos de um país na condição de potência mundial que promove guerras no mundo inteiro, com o falso argumento da democracia e da liberdade, enquanto em seu território reprime negros, imigrantes e opositores políticos. Acompanhando os relatos sobre a trajetória de Lisette Model, e diante da força poética das imagens que sobreviveram em seu acervo, permanece a impressão de que talvez sejam as experiências compartilhadas de perseguição uma questão central para conectar o trabalho da fotógrafa, que fugiu dos nazistas na Europa, com os gigantes do jazz que ela registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 6 de março de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/03/lisette-model-contra-os-racistas.html (acesso em .../.../…).




Para comprar o fotolivro  "Lisette Model: The Jazz Pictures",  clique aqui.













Veja também:



                Semióticas  –  Biografia de uma canção 

                Semióticas  –  Louis entre os cronópios


                Semióticas  –  Noite de Stanley Jordan 


                Semióticas  
–  Estilo Crumb        


6 de outubro de 2025

Imagens do fim dos tempos

 





A política sempre será a rainha das artes 

porque dela dependem todas as outras. 

–– Aristóteles (384-322 a.C.).   

.............




Arquiteto nascido e formado no Chile, também fotógrafo, cineasta, artista visual e ativista das causas ambientais, Alfredo Jaar prefere definir a si próprio como um idealista e passageiro das utopias. No dia 26 de setembro, ele foi anunciado como vencedor de um dos prêmios internacionais de fotografia mais prestigiados da atualidade, o Prix Pictet, que na edição 2025 tem o tema Tempestade (Storm). O trabalho premiado de Jaar, para o qual ele escolheu o título “The End”, reúne uma sequência de 10 imagens em composição primorosa de cores deslumbrantes, lembrando telas em pinturas abstratas de artes plásticas, que registram uma tragédia ambiental: o lento desaparecimento de um imenso lago de água salgada em Utah, região oeste dos Estados Unidos com grandes desertos e cordilheiras de montanhas de pedra.

Esta é a 11ª edição do Prix Pictet, criado em 2008 pelo Grupo Pictet, com sede em Genebra, na Suíça, que premia a cada dois anos um trabalho autoral em fotografia, patrocinando exposições temáticas e eventos paralelos em diversos países. Sobre sua obra premiada, Alfredo Jaar declarou: “Meu objetivo nesta série de fotografias foi mostrar o destino trágico do grande lago de Utah e revelar sua extraordinária beleza e potencial. Apesar da terrível situação em que estamos, eu queria criar imagens de beleza e também de tristeza. Diante da magnitude desta tragédia, decidi imprimir estas imagens num formato pequeno, pouco espetacular, como uma espécie de sussurro visual, um lamento pelo nosso planeta moribundo.”






Imagens do fim dos tempos: a partir do alto
da página, a sequência do ensaio fotográfico
de Alfredo Jaar, intitulado “The End”, vencedor
da edição 2025 da premiação internacional de
fotografia Prix Pictet. As 10 imagens registram
o desaparecimento do Grande Lago Salgado
(Great Salt Lake) de Utah, nos Estados Unidos


















Alfredo Jaar foi premiado depois de ser anunciado na lista de 12 finalistas selecionados por um júri independente formado por 350 especialistas nomeados em países da Europa, Ásia, África, Oriente Médio, Oceania, América do Norte e América do Sul. Três representantes brasileiros fazem parte do júri do Prix Pictet: Eder Chiodetto (Fotô Editorial), Thyago Nogueira (Instituto Moreira Salles) e Jochen Volz (Pinacoteca de São Paulo). Nas edições anteriores foram premiados Gauri Gill (temática do Humano); Sally Mann (Fogo); Joana Choumali (Esperança); Richard Mosse (Espaço); Valérie Belin (Transtorno); Michael Schmidt (Consumo); Luc Delahae (Potência); Mitch Epstein (Crescimento); Nadav Kander (Terra); e Benoit Aquin (Água).


Tragédia ambiental



O dossiê de imprensa fornecido pelo Prix Pictet registra que o Grande Lago Salgado (Great Salt Lake) de Utah, tema do ensaio fotográfico de Alfredo Jaar, representa um ecossistema fundamental no Hemisfério Ocidental, com suas dimensões de 4.400 quilômetros quadrados. A área, remanescente de um imenso lago pré-histórico com alta salinidade, concentra microorganismos que dão às águas uma rara coloração em tons de rosa. Com a exploração industrial e a extração excessiva de água, desde o final do século 19 e mais acelerada nas últimas décadas, o lago já perdeu cerca de 80% de sua área de superfície, gerando grande quantidade de poeira tóxica que polui o ar e o solo, além de elevar a salinidade do que resta da água a níveis mortais para animais e plantas. As previsões indicam que o lago deve desaparecer nos próximos anos, pois o desastre ambiental já ultrapassou o ponto de não retorno.













Nas entrevistas concedidas após o anúncio da premiação, Alfredo Jaar revelou que sua intenção inicial seria registrar os últimos remanescentes de vida animal na região, mas ele descobriu que a área do lago, que foi durante séculos uma das grandes rotas de aves migratórias do continente, agora é apenas natureza morta. A descoberta da situação de tragédia ambiental, com o desaparecimento irreversível do grande lago, foi descrita pelo fotógrafo: “O que costumava ser uma região próspera e fértil, para várias espécies de pássaros, agora é um cemitério com milhares de cadáveres ressecados em uma imensa planície de lama, poeira e veneno”.



Arte como ação política



Alfredo Jaar é um veterano em trabalhos na interface entre arte e ação política. Nascido em Santiago do Chile em 1956, ele viveu a experiência do governo sangrento do general Augusto Pinochet, o ditador que tomou o poder no Chile entre 1973 e 1990, apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, e testemunhou massacres terríveis quando os soldados da ditadura viajavam pelo país para torturar e assassinar opositores em uma violenta caravana da morte”. Jaar escapou do Chile em 1982, depois de terminar o curso de arquitetura, e passou a morar em Nova York, com dedicação ao trabalho com arte e fotografia. Desde então, participou de exposições e instalações em vários países, incluindo suas obras em destaque nas Bienais de Veneza (1986, 2007, 2009, 2013), de São Paulo (1987, 1989, 2010, 2021) e da Documenta de Kassel em 1987 e 2002.




















O Prix Pictet vem se somar a outras premiações internacionais importantes na trajetória de Jaar, entre elas o Prêmio de Arte de Hiroshima em 2018 e o Prêmio Hasselblad na Suécia em 2020. Em 2024, ele recebeu o Prêmio Albert Camus Mediterrâneo na Espanha e já em 2025 ele ganhou a Medalha Edward MacDowell em New Hampshire, Estados Unidos. Seu trabalho também está na coleção de grandes museus, como o MoMA e o Museu Guggenheim, em Nova York, o Centre Georges Pompidou em Paris e o Museu Reina Sofia de Madri, entre outros, além do Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Nas entrevistas incluídas no dossiê de imprensa do Prix Pictet, Alfredo Jaar faz questão de tomar posição nas questões de arte como ação política. “Eu conheço o fascismo quando vejo”, ele diz, em resposta a uma questão de Igor López, repórter do jornal El País, afirmando que, com frequência, ao ler as notícias diárias, tem a impressão de que o fim do mundo realmente se aproxima. Segundo Jaar, estamos a bordo de um mundo novo e assustador – com notícias que, para ele, provocam lembranças de experiências traumáticas vividas no Chile durante a ditadura Pinochet.








Imagens do fim dos tempos: a partir do alto da página,
a sequência do ensaio fotográfico de Alfredo Jaar,
The End, vencedor do Prix Pictet 2025. Abaixo,
Alfredo Jaar em fotografia de Andrea Rego Barros;
e uma 
fotografia da série Gold in the Morning (Group),
que registra os trabalhadores do garimpo de Serra Pelada,
na região Norte do Brasil, apresentada em 1986 na
Bienal de Veneza, onde Jaar foi o primeiro artista da
América Latina convidado para participar das exposições
.

Também n
as imagens abaixo, 1) Alfredo Jaar
participando de sua instalação que teve inspiração
na obra do dramaturgo Samuel Beckett, com o título
I Can’t Go On, I’ll Go On” (Eu não posso continuar,
eu vou continuar), apresentada em 2019 no
Festival de Arte de Edimburgo; 2) imagem da instalação
“Estudios sobre la felicidad 1974-1981”, apresentada
em 2024 no Museo Nacional de Belas Artes, no Chile,
reunindo fotografias do jovem Alfredo Jaar, que tinha
17 anos em 1973, na época em que o golpe de estado
do general Pinochet destruiu o Chile; 3) a instalação
“Um milhão de passaportes alemães”, criada em 1995
e reeditada em 2023 para apresentação em Munique,
Alemanha; 4) fotografia de "The end of the world",
intalação apresentada em Berlim, Alemanha,
no primeiro semestre de 2025; e 5) as palavras
extraídas da obra do filósofo Antonio Gramsci
e apresentadas por Alfredo Jaar
na instalação em Roma, em 2018.

No final da página, “Um logotipo para a América”,
instalação com telas e painéis de lâmpadas apresentada
na Times Square, em Nova York, depois de ter sido
selecionada pelo Fundo de Arte Pública da Cidade
de Nova York. A instalação foi criada em 1987
e reeditada em 2014 e no começo de 2025
























“Quando consegui escapar daquele cenário de horror, em 1982, e quando a ditadura no Chile chegou ao fim, em 1990, nem mesmo em meus sonhos mais loucos e mais terríveis eu esperava ver o mundo enfrentando o que está enfrentando agora”, ele reconhece. “Temos as mudanças climáticas no mundo todo e assistimos o fascismo crescer em todos os lugares, na metade da Europa, nos Estados Unidos, em países da América Latina. Isso é um pesadelo que devemos combater. Não podemos jamais ficar indiferentes ao fascismo e aos que pregam o ódio, o preconceito, a violência e a destruição”.



Desafios para a civilização



Em entrevista a Ellen Corry, da revista “Musée”, Alfredo Jaar defende que uma das principais missões da arte é levar o espectador a abandonar um olhar neutro e qualquer indiferença. Para argumentar, ele cita o pensador marxista italiano Antonio Gramsci, para quem viver significa tomar partido. “Se deixarmos de ser parasitas e nos tornarmos participantes ativos, o mundo será um lugar melhor. Temos que nos recuperar da falta de humanidade que a sociedade contemporânea está passando; é intolerável e inaceitável”, aponta. “Sou apenas um arquiteto que faz arte, mas sei que a grande arte tem esta característica de representar um grito desesperado para que todos nós nos tornemos humanos novamente.”







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Sobre sua conquista do Prix Pictet, Alfredo Jaar faz questão de colocar em primeiro plano que a política precisa ser o norte para toda e qualquer experiência com a arte. Ele cita como exemplo seu trabalho com “The End”, a série de fotos que registra o que provavelmente será o fim do Grande Lago Salgado (Great Salt Lake) de Utah, explicando que sua intenção, antes de tudo, foi alertar que a questão ecológica é sempre uma questão política. Na sua avaliação, a destruição e a perda do lago se tornou uma tragédia de magnitude incalculável, uma tragédia ambiental, econômica e humanitária, e um sinal de acontecimentos também assustadores que estão por vir no futuro próximo, afetando toda a experiência humana no planeta Terra.

“O fim do Grande Lago de Utah é mais um sinal inequívoco do fracasso da civilização”, ele alerta, em entrevista ao The Guardian, enquanto reconhece que, nas últimas décadas, desde o século passado, o fracasso junto com a incapacidade de mudar tem sido uma constante para a civilização contemporânea. “Reconheço que sou um idealista e um utópico, um passageiro das utopias. Quero mudar o mundo, mas tenho fracassado o tempo todo porque ainda não consegui mudá-lo. Eu não consegui mudar nem a realidade mais próxima ao meu redor, mas ainda tenho esperança de que todos nós, juntos, talvez possamos conseguir”, completa. Para Alfredo Jaar, artista visual e ativista que vem se consagrando como um dos mais premiados de nossa época, a esperança é a última que morre.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Imagens do fim dos tempos. In: Blog Semióticas, 6 de outubro de 2025. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2025/10/imagens-do-fim-dos-tempos.html (acesso em .../.../…).










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