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6 de março de 2026

Lisette Model contra os racistas

 




Não conheço nenhum fotógrafo que tenha fotografado

pessoas com tanta intimidade quanto Lisette Model”.

–– Berenice Abbott (1898-1991).  




Quem tem interesse pelos clássicos do jazz conhece o trabalho da fotógrafa Lisette Model: ela registrou, em belas imagens, flagrantes dos maiores músicos e intérpretes do jazz e seu público, incluindo os estreantes que em sua época ainda não eram famosos. Muitas das fotos feitas por Lisette Model ilustraram capas e encartes de álbuns lendários e reportagens diversas sobre os jazzistas mais célebres – e algumas ficaram tão conhecidas que não mais recebem o crédito de autoria da fotógrafa, como se fossem retratos naturais dos músicos ou imagens de domínio público. Lisette Model morreu aos 82 anos, em 1983, mas somente agora, décadas depois da apuração de seu espólio, uma parte surpreendente de seu legado é finalmente revelada: milhares de fotografias da cena jazzística dos anos 1940 e 1950 que permaneciam inéditas.


Uma coleção de 200 fotos, selecionadas do acervo de seus mais de 1.800 negativos de 35 mm, agora está publicada em “Lisette Model: The Jazz Pictures”, fotolivro de 240 páginas lançado pela Eakins Press Foundation, com breves ensaios escritos por Langston Hughes, Loren Schoenberg e Audrey Sands – que também assina a coordenação editorial. Lisette Model era um pseudônimo. Seu nome de batismo foi Elise Amelie Felicie Stern, nascida em 1901 em Viena, na Áustria, com ascendência judia. No final dos anos 1920, após a morte do pai, ela vai para Paris. Em 1938, ela e o marido, o pintor Evsa Model, nascido na Rússia, embarcam para os Estados Unidos, fugindo da ascensão dos nazistas. Em Nova York, Lisette Model adota o pseudônimo e o trabalho com fotografia para sobreviver, tornando-se associada da cooperativa Photo League, da qual faziam parte estreantes e veteranos, entre eles Paul Strand, Edward Weston, Berenice Abbot, Ruth Orkin, Helen Levitt e Robert Frank.

















Lisette Model contra os racistas: pressão do FBI
impediu
a fotógrafa de publicar seus registros sobre
Gigantes do Jazz nos anos 1950. Agora um fotolivro
revela
suas imagens lendárias. No alto da página,
Ray Nance (à esquerda) e Duke Ellington (à direita)
em apresentação no palco do Newport Jazz Festival.

Acima,
Louis Armstrong entre dois músicos brancos
no palco do Basin Street East, Nova York, em 1954;
e dois flagrandes do produtor musical
Ollie McLaughlin
e amigos em uma festa depois dos shows no Newport
Jazz Festival, em Rhode Island, em junho de 1956.

Abaixo,
Bud Powell ao piano no palco do New York
Jazz Festival, em 1957; fotografia que estampa a capa
do fotolivro
“Lisette Model: The Jazz Pictures”,
que inclui todas as imagens reproduzidas
nesta postagem



































Insinuações sem prova



Ainda na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Lisette Model conquistou destaque na Photo League e seu trabalho passou a ser publicado em revistas de prestígio como a Harper’s Bazaar. Sua atuação política e seu papel de liderança, no entanto, a tornaram alvo das investigações do FBI e do senador Joseph McCarthy, que na década de 1950 comandou uma caça às bruxas contra comunistas e contra todos que pudesse rotular por “atividades anti-americanas”. Como resultado da perseguição política e das imposições da censura, Lisette acabaria trocando a fotografia pelo trabalho de professora na New School for Social Research, em Nova York, onde teve alunos que se tornaram célebres na fotografia, entre eles Diane Arbus, Larry Fink, Helen Gee e John Gossage. Nos livros de história, o nome de Lisette Model passaria a constar como mais uma vítima do macarthismo, um termo que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, identifica a prática criminosa de “formular acusações sem provas e fazer perseguições ou insinuações de teor político”.




             


Lisette Model contra os racistas: acima,
Ella Fitzgerald em 1956 no palco
do Newport Jazz Festival.

Abaixo, Louis Armstrong e Velma Middleton
no palco do Basin Street East, em Nova York,
em 1954; 
e Louis no aquecimento para sua
apresentação no Newport Jazz Festival,
em 1956, no ônibus alugado que
também funcionava como camarim



                  












A dedicação e o entusiasmo de Lisette Model pelo jazz não deixam de evidenciar sua identificação com as lutas contra injustiças e com as atitudes de resistência que sempre estiveram presentes na trajetória dos músicos negros, desde os primórdios. Lisette Model já estava nos Estados Unidos em 1939, quando Billie Holiday cantou pela primeira vez e gravou “Strange Fruit”, a canção pioneira do protesto político que lamentava a realidade de milhares de pessoas negras vítimas de ataques racistas e de linchamento, assassinadas e dependuradas nas árvores. Não é por acaso que Billie Holiday surge em destaque entre as fotografias inéditas de Lisette Model, junto com as belas imagens em preto e branco de Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen McCrae, Miles Davis, Horace Silver, Art Blakey, Count Basie, Dizzy Gillespie e outros gigantes do mundo do jazz.



Censura e perseguição



Lisette Model também ficaria conhecida por suas fotografias de rua com seu estilo irônico e de crítica social, mas quando se observa seus retratos do jazz o que vem à tona é o tom de alegria e encantamento, com cuidados no enquadramento e na composição que ainda hoje surpreendem. Em 1952, diante do imenso acervo de seus retratos de personalidades do jazz e de cenas dos shows, ela deu início ao projeto da publicação de um livro de fotografias dedicado exclusivamente ao tema, em uma época em que a publicação de fotolivros era algo incomum e com raros antecedentes. Mas a edição do fotolivro não se concretizou e o desfecho foi melancólico: depois que a fotógrafa foi convocada para prestar depoimentos no FBI sobre suas atividades à frente da cooperativa New York Photo League, e de McCarthy ameaçar incluir seu nome na famigerada Lista de Vigilância de Segurança Nacional, as editoras e os financiadores cancelaram o apoio ao projeto.









Lisette Model contra os racistas: acima,
o pianista Teddy Wilson e o trompetista
Dizzy Gillespie proseando na mesa de uma
casa noturna em Nova York, em 1954.

Abaixo, dois registros do ano de 1957
no Café Bohemia do Greenwich Village:
o trompetista
Miles Davis assiste na plateia e
aplaude o pianista 
Willie “The Lion” Smith.

Miles Davis e outros músicos foram vítimas
de racismo e violência policial. Em agosto de
1959, em frente ao famoso clube de jazz
Birdland, onde estava se apresentando,
Miles sofreu um espancamento brutal.

Na mesma época, Art Taylor, depois de
ser ameaçado e espancado por policiais
diversas vezes, acabou se mudando para a
França, assim como outros músicos negros
que buscaram refúgio em países da Europa
contra a violência policial e a perseguição política












Na mesma época, a cooperativa de Nova York seria fechada pelo FBI e todas as revistas e agências de notícia deixaram de publicar e de comercializar as fotografias de Lisette Model. Confiante na importância do tema do jazz e na qualidade de seu acervo, Lisette Model chegou a contratar, para escrever um ensaio que acompanharia as fotografias, o jornalista e escritor Langston Hughes, um dos intelectuais e ativistas que tiveram destaque no movimento cultural e político conhecido como Harlem Renaissence (Renascimento do Harlem) que impulsionou a música e a literatura afro-americana nas décadas de 1920 e 1930. Hughes também foi a principal liderança, em 1930, da Liga de Luta pelos Direitos dos Negros. Foi o jazz que aproximou Lisette Model de Hughes e das lideranças comunistas, assim como atraiu outros fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas do teatro, do cinema e das artes plásticas.



A causa antirracista




O círculo de intelectuais e artistas que orbitavam a esquerda comunista se ampliava naquela época e todos eles abraçavam tanto a luta antirracista como a ideia de que o jazz representava a cultura mais profundamente democratizante dos Estados Unidos. O ensaio de Hughes sob encomenda de Lisette, no entanto, não foi concluído, e com a pressão do FBI a fotógrafa terminou adiando por tempo indeterminado a edição do livro. Seu acervo de fotografias sobre o mundo do jazz foi arquivado e permaneceu inédito durante décadas. Hughes morreu em 1967, aos 65 anos, e suas anotações para o ensaio somente agora são publicadas em “Lisette Model: The Jazz Pictures”.











Lisette Model contra os racistas
: acima,
pai e filho nas trilhas do jazz, Josh White Jr.
e
Josh White no Music Inn, Massachusetts,
em 1956.
Abaixo, o baterista Art Taylor no
Café Bohemia do Greenwich Village,
em Nova York, em foto de 1957






Ao apresentar a cronologia da obra de Lisette Model e o valor de seu acervo como patrimônio cultural e político, a historiadora Audrey Sands reconhece que a grande maioria da comunidade dos refugiados em Nova York, incluindo intelectuais, artistas e muitos empreendedores ligados à literatura e à música, entre eles os fundadores da gravadora Blue Note Records e os parceiros de Lisette Model na cooperativa Photo League, eram sim militantes de esquerda, assim como os músicos do jazz que compartilhavam ideais de igualdade e liberdade. Quanto à perseguição e ao silenciamento por imposição do macarthismo, Sands explica que havia muito racismo entrelaçado às questões ideológicas: os partidários do macarthismo eram partidários da supremacia branca, apoiavam a política segregacionista e perseguiam os defensores dos direitos civis sob o pretexto de combater o comunismo.

No ensaio de apresentação que abre o fotolivro, Audrey Sands reconstitui os percalços violentos e melancólicos de perseguição e silenciamento de Lisette Model e de muitos outros intelectuais, artistas e músicos do jazz – e faz um inevitável paralelo com o colapso contemporâneo provocado por um governo de inspiração fascista, militante da guerra e da violência, fomentado por ideias racistas da supremacia branca. Para todos nós, leitores, ouvintes do jazz e observadores das belas imagens registradas por Lisette Model, há um choque de realidade ao perceber que a repressão de hoje não é sem precedentes, mas um retorno a um período que parecia ter sido superado.






Lisette Model contra os racistas:
dois registros em 1957 no palco do
New York Jazz Festival – acima,
o cantor Joe Williams e abaixo,
o pianista
Count Basie













Uma arte interrompida



“O jazz é a montagem de um sonho permanentemente adiado”, escreveu Langston Hughes. Contudo, também é possível considerar a beleza do fotolivro de Lisette Model como uma conquista e um triunfo – uma vitória pela sobrevivência depois da censura e do silenciamento. Em cada imagem, cada gesto, cada expressão de um rosto ou cada contraste em claro e escuro das composições da fotógrafa, estão a beleza e a tradução de algo que permanece vivo e comovente. A trajetória de Lisette Model e a história do jazz têm um ponto de ruptura em 1959, quando Billie Holiday morre, de repente, aos 44 anos. Billie também sofreu perseguição violenta do aparato policial e político e Lisette Model, sua admiradora apaixonada, se preparou para fotografá-la em seu leito de morte. Mas foi tomada de forte emoção e não conseguiu continuar. Foram suas últimas fotos sobre o mundo do jazz.

O fotolivro “The Jazz Pictures” não é primeiro a reunir o trabalho de Lisette Model. O primeiro, no projeto da própria fotógrafa, deveria ter sido publicado na década de 1950, mas terminou adiado. Duas décadas depois, o primeiro fotolivro sobre ela a ganhar edição e ampla distribuição foi “Photographs by Lisette Model”, com prefácio da fotógrafa Berenice Abbott, publicado em 1979 pela Aperture Foundation de Nova York, depois reeditado em 2008, como homenagem no 25º aniversário de sua morte. O segundo fotolivro viria em 1990, com o lançamento de “Lisette Model”, uma seleção de suas fotografias organizada por Ann Thomas, em edição da National Gallery do Canadá, como catálogo para uma exposição sobre o trabalho da fotógrafa.

Outros fotolivros sobre sua obra foram “Lisette Model – Photographien 1933-1983”, editado em 1992 pelo Museum Ludwig de Colônia, na Alemanha, também como catálogo de uma exposição em sua homenagem; “Lisette Model”, publicado em 2001 nos Estados Unidos pela Phaidon Press, com uma retrospectiva de sua trajetória com 50 fotografias em ordem cronológica, com apresentação de Elisabeth Sussman; “Lisette Model”, catálogo da exposição de 2010 na Fundación Mapfre de Madri, Espanha, e na Galeria Nacional do Jeu de Palme, em Paris, França que reuniu 120 imagens da fotógrafa, de seus primeiros registros em Paris, em 1933, aos últimos, no final dos anos 1950, em Nova York; e, mais recentemente, “Lisette Model: Street life”, de 2021, com edição e ensaios de Claudio Composti, Monica Poggi e Larry Fink, reunindo uma seleção de 100 fotografias, com destaque para retratos de anônimos, como catálogo de uma exposição realizada em Turim, na Itália, no Centro Italiano de Fotografia.












Lisette Model contra os racistas: no alto,
o trompetista 
Bunk Johnson no palco em
Nova York, em 1955. Acima, o pianista
Erroll Garner em 1956 no palco do New York
Jazz Festival. 
Abaixo, um flagrante da plateia
durante o Newport Jazz Festival em 1954;
e o beijo do casal anônimo em 1944 no
Nick's Jazz Joint, o lendário bar dos
jazzistas no Greenwich Village, Nova York.


No final da página,
Billie Holiday em 1957
no palco do New York Festival; 
e um
registro de
Arthur Fellig, mais conhecido
pelo codinome
Weegee, também integrante da
Photo League, com Lisette Model em ação,
em 1956, com sua câmera Rolleiflex e uma
sacola de flashes no Nick’s Jazz Joint














Força poética



No final de 2025, além de “The Jazz Pictures”, também foi publicado “Renegade: Photography in the life of Lisette Model”, ensaio biográfico ilustrado com uma coletânea de imagens da fotógrafa, escrito por Duncan Forbes, diretor de Fotografia do Victoria and Albert Museum, e editado pela Mack Books de Nova York. O lançamento mais recente, de fevereiro de 2026, é “Lisette Model: Retrospective”, pela Prestel Publishing, da Alemanha, com seleção e ensaio de Walter Moser, que apresenta uma seleção de 200 fotografias, inéditas em sua maioria, incluindo retratos irônicos de personagens anônimos nas ruas, as séries fotográficas de 1939 a 1941 sobre banhistas em Coney Island e um apanhado sobre as temporadas da fotógrafa na França, na Itália, na Venezuela e em outros países.

Assim como Audrey Sands argumenta, no ensaio em que apresenta “The Jazz Pictures”, Walter Moser também destaca que a obra de Lisette Model reflete um caso exemplar de uma artista interrompida de forma trágica – vítima de perseguição e silenciamento pelo aparato do governo dos Estados Unidos, um tema que nos últimos anos, infelizmente, tem retornado à prática cotidiana de forma cada vez mais violenta. São os paradoxos de um país na condição de potência mundial que promove guerras no mundo inteiro, com o falso argumento da democracia e da liberdade, enquanto em seu território reprime negros, imigrantes e opositores políticos. Acompanhando os relatos sobre a trajetória de Lisette Model, e diante da força poética das imagens que sobreviveram em seu acervo, permanece a impressão de que talvez sejam as experiências compartilhadas de perseguição uma questão central para conectar o trabalho da fotógrafa, que fugiu dos nazistas na Europa, com os gigantes do jazz que ela registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 6 de março de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/03/lisette-model-contra-os-racistas.html (acesso em .../.../…).




Para comprar o fotolivro  "Lisette Model: The Jazz Pictures",  clique aqui.













Veja também:



                Semióticas  –  Biografia de uma canção 

                Semióticas  –  Louis entre os cronópios


                Semióticas  –  Noite de Stanley Jordan 


                Semióticas  
–  Estilo Crumb        


2 de dezembro de 2025

Surrealismo na fotografia

 





Todos agem “como se fossem anjos”, todos possuem

tanto “como se fossem ricos” e todos vivem “como se

fossem livres”. Não há nenhum vestígio real, contudo,

de anjos, de riqueza e de liberdade. Apenas imagens.

                                                       –– Walter Benjamin, “O Surrealismo” (1929).




Movimento estético e artístico que provocou impacto na busca pela liberação das expressões do inconsciente, dos sonhos, da irracionalidade e das distorções da realidade, o Surrealismo também teve importância como ação política e ideológica antiautoritária e antifascista, além de representar uma linha de força fundamental nos grupos de vanguarda da Arte Moderna contra o conservadorismo. Com seu centro irradiador situado inicialmente na França, especialmente em Paris, o movimento rapidamente se espalhou por outros países, primeiro com suas obras que provocavam escândalo, e depois como referência em suas mais diversas formas de expressão, levando os domínios da arte, da literatura e do cinema “até os limites extremos do possível” – como aponta o alemão Walter Benjamin no ensaio “O surrealismo: o último instantâneo da inteligência europeia”.

Na língua francesa, o prefixo “sur” sempre existiu com acepções em “acima”, “sobre” ou “além”, mas o termo “sur-realismo” só foi publicado pela primeira vez em 1917 pelo escritor e crítico de arte Guillaume Apollinaire. Em um artigo, e em sua peça teatral “As tetas de Tirésias”, considerada uma obra precursora do surrealismo, Apollinaire escreveu: “Quando o homem quis imitar o caminhar, criou a roda, que não se assemelha a uma perna. Assim, criou o surrealismo sem se dar conta”. Em outubro de 1924, sete anos depois do primeiro registro na referência pioneira de Apollinaire, o escritor e poeta André Breton publicou o “Manifesto Surrealista”, marco fundador do movimento – e definiu o Surrealismo como "automatismo psíquico puro pelo qual se destina a expressar o verdadeiro funcionamento do pensamento e dos sonhos, livre de qualquer controle ou preocupação com a razão ou a moral".










Surrealismo na fotografia: no alto da página,
Uns sobem e outros descem (Unos suben y otros
bajan, 1940), fotografia de Lola Álvarez Bravo.
Acima, mais duas fotos de Lola Álvarez Bravo,
Homem-rã (Hombre rana, 1949) e Olho (Ojo, 1950).

Abaixo, Jean Cocteau em fotografia de Julien Clergue
durante as filmagens de O testamento de Orfeu
(Le testament d’Orphee), filme de 1959 com direção,
roteiro e atuação de Cocteau no papel central.
Todas as imagens fazem parte do catálogo da
exposição Surrealism na Throckmorton Fine Art,
exceto quando indicado nas legendas









Um século depois do marco inaugural do manifesto de André Breton, um olhar em retrospectiva consegue estabelecer as características difusas e marcantes desta visão artística que explora as dimensões mais eletrizantes da imaginação humana. Nas celebrações do centenário e da herança do movimento, um dos destaques vem da Throckmorton Fine Art, de Nova York, com uma exposição sobre o impacto do movimento na fotografia, reunindo fotógrafos que atuaram na Europa, nos EUA e no México nos anos 1920 e nas décadas seguintes. No acervo selecionado estão obras que moldaram as formas e a estética do Surrealismo na fotografia e que levantam questões sobre a natureza da realidade e da identidade individual de cada fotógrafo selecionado – retomando abordagens sobre o estilo e as características do movimento surrealista que provocam polêmica desde o tempo em que a fotografia como técnica e como meio de expressão era questionada em seu estatuto de arte e muitas vezes considerada uma arte menor.


Imagens de sonho


O uso de técnicas que na época eram consideradas inovadoras e radicais, como o automatismo psíquico, as associações livres e a colagem para explorar o mundos dos sonhos e dos desejos, surgiram anunciadas como estratégias no primeiro manifesto de André Breton. Nos anos seguintes, viriam outros manifestos também escritos por Breton, “Surrealismo e Pintura”, de 1928, e “Segundo Manifesto do Surrealismo”, de 1930. Um terceiro documento, “Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente”, foi coescrito por Breton, Diego Rivera e Leon Trotsky no México, em 1938, e publicado com grande repercussão na França, na revista Partisan Review. Trotsky, liderança importante da Revolução Russa de 1917, havia sido expulso do Partido Comunista da União Soviética e estava exilado no México desde 1936, acolhido pelo casal Diego Rivera e Frida Kahlo.

Desde então, o movimento surrealista se espalhou pelo mundo como tendência e influência para artistas das áreas mais variadas. O impacto do Surrealismo também foi sentido no Brasil, onde os ideais do movimento prosperaram na primeira geração dos modernistas da Semana de 1922, com destaque na literatura de Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Limaou na arte de Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Flávio de Carvalho e Cícero Dias, entre outros, além da presença incontornável de Maria Martins, parceira de Marcel Duchamp e primeira mulher a despontar como expoente nos círculos surrealistas de Paris.






Surrealismo na fotografia: na imagem acima,
Ruínas com forma masculina
(Ruins and Male Form,
década de 1920), fotografia
s e colagem de Lionel Wendt.

Abaixo,
Torre do Rockfeller Center nº 14
(Rockefeller Center Tower nº 14), fotografia
de 1932 de
Rosa Covarrubias. Também abaixo,
Cartografia interior nº 23 e nº 21, fotografias com
intervenções e colagens de 1995 e 1996, no estilo
surrealista, por Tatiana Parcero







Nomeada como “Surrealismo: Mais de um século unindo os reinos dos sonhos e da realidade” (Surrealism: Over a Century Merging the Realms of Dreams and Reality), a mostra na galeria Throckmorton Fine Art, com curadoria da historiadora María Míllan, reúne 50 fotografias ampliadas, a maioria delas em preto e branco, de 25 artistas que abraçaram os ideais surrealistas para produzir imagens que expressam elementos do acaso e um forte simbolismo na composição. Em comum a todos eles, um método de trabalho para criar representações inesperadas por meio da fotografia. É um acervo valioso, mas trata-se tão somente de uma amostragem: quem tem algum repertório sobre o movimento irá perceber, pela lista de fotografias selecionadas, que nem todos os nomes do primeiro time do Surrealismo na fotografia estão representados na mostra.

Entre os nomes de destaque histórico do movimento que atuaram na fotografia, Man Ray (1890-1976), Claude Cahun (1894-1954) e Hans Bellmer (1902-1975) talvez sejam as ausências mais marcantes da mostra, ainda que isso não diminua seu alcance e sua importância como retrospectiva, porque a curadoria consegue contemplar um conjunto coerente de obras e
autores. Como o Surrealismo sempre foi inerentemente político, desde seus primórdios como movimento de protesto e de combate ao fascismo, ao autoritarismo e ao conservadorismo, o acervo selecionado não exclui o potencial da estética surrealista como arma política para romper barreiras – entre temáticas, entre gêneros e entre linguagens. É o que a fotografia surrealista representa: ao contrário da atuação centrada exclusivamente na produção fotográfica, o que fotógrafos com ideais surrealistas estabelecem são possibilidades criativas de intercâmbio da fotografia com formas de expressão das artes plásticas, das artes cênicas, da literatura, do cinema – aproximando flagrantes do real, por meio do aparato fotográfico, ao inesperado, ao impossível e às formas do inconsciente.









Limites extremos


Pelas fotografias selecionadas, é possível perceber que a linguagem e o espírito do movimento surrealista se estendem para muito além dos nomes que os manuais de história da arte enumera como artistas canônicos, alcançando também fotógrafos que adotaram abordagens lúdicas e experimentais inspiradas nos ideais estéticos do Surrealismo. Na fotografia, tais ideais formam um arsenal que funciona como ferramentas de composição, potencializado com base no próprio aparato dos equipamentos, que a linguagem fotográfica nas primeira décadas do século 20 ainda navegava na transição entre as possibilidades do meio como documentação e como autoexpressão. Na aproximação com o Surrealismo, novas diretrizes surgiam na busca pelos limites extremos da técnica em variações de dupla exposição, negativos sobrepostos, fotomontagens, solarização e polarização, uso de lentes especiais, de iluminação incomum, de perspectivas distorcidas em enquadramentos surpreendentes ou até mesmo recorrendo a adereços absurdos com o objetivo de proporcionar resultados de efeitos dramáticos.

Outra característica marcante no acervo selecionado pela Throckmorton Fine Art está no número expressivo de mulheres no espectro da fotografia surrealista. Dos 25 artistas presentes na exposição, mais da metade são mulheres, com destaque para Dora Maar, Kati Horna, Stella Snead, Tina Modotti, Berenice Abbott, Germaine Krull, Lola Álvarez Bravo, Mariana Yampolsky, Imogen Cunningham, Graciela Iturbide, María García e Francesca Woodman. Também marcam presença na exposição composições inesperadas na forma e no enquadramento de objetos inanimados por Edward Weston; nas distorções do corpo por André Kertész; nos flagrantes irônicos de Henri Cartier-Bresson; e nas encenações mirabolantes de Philippe Halsman.







Surrealismo na fotografia: na imagem acima,
fotografia de Berenice Abbott da década de 1920,
As mãos de Jean Cocteau, da série Rostos de 1920
(
Jean Cocteau's Handsfrom, Faces of the 20's Portfolio).

Abaixo, fotografia sem título de 1962 de Kati Horna,
da série Oda a la necrofilia, Cuidad de México.

Também abaixo, duas fotografias de Henri Cartier-Bresson:
um retrato de 1930 
do escritor André Peyre próximo a um
cartaz publicitário; e um flagrante em fotografia de
1933 em uma rua de Valência, Espanha













Poder da imaginação


Para o senso comum, que faz com frequência uma associação direta do Surrealismo com as provocações de mestres como Salvador Dalí e René Magritte nas artes plásticas, Luis Buñuel no cinema ou Antonin Artaud no teatro, talvez possam parecer pouco expressivas as pequenas variações sobre imagens cotidianas em algumas fotografias selecionadas. Tais variações, no entanto, não podem ser separadas da estética surrealista se questionam a ditadura da razão e valores burgueses como pátria, família, religião, trabalho, ou se fazem um elogio subversivo ao poder da imaginação – porque, no primeiro manifesto, Breton declarava sua crença na possibilidade de reduzir dois estados tão contraditórios, sonho e realidade, a uma espécie de síntese de uma realidade absoluta, uma sobre-realidade (ou surrealidade).














Uma importante alteração no Surrealismo surge no final da década de 1930, com a Segunda Guerra Mundial explodindo em países da Europa. Neste cenário, os Estados Unidos e outros países do continente americano atraem uma onda de artistas e intelectuais europeus que fugiam das zonas de guerra. Há, também, um evento catalisador realizado na Cidade do México em 1940: a Exposição Internacional do Surrealismo, organizada por André Breton, que marca um momento crucial para o envolvimento e a contribuição da América Latina para o estilo e para os ideais surrealistas. Embora o movimento surrealista seja amplamente considerado europeu, obras de artistas e fotógrafos do México e de outros países latino-americanos também passam a destacar a relação do Surrealismo com a produção cultural dos povos do continente que abrigou, desde sempre, tanto tradições como imaginação criativa inclinadas para o maravilhoso e o fantástico – como confirma a ascensão do realismo mágico na literatura e nas artes plásticas.


Fronteiras da realidade


As imagens violentas e chocantes dos campos de batalha na Segunda Guerra podem receber a nomeação de surrealistas, pelo impacto que provocaram, já que o termo passou a ser incorporado como adjetivo na linguagem cotidiana para se referir ao que é estranho ou surpreendente, fora do comum, mas o movimento de forma geral teve o seu desfecho no pós-guerra. O fim do surrealismo como uma força vital está ligado a uma exposição, “Le Surrealisme en 1947”, concebida e realizada por André Breton e Marcel Duchamp com o objetivo anunciado de marcar o retorno do movimento surrealista a Paris após a guerra. O objetivo, no entanto, não se concretizou. A exposição, na verdade, demonstrou que a geração mais jovem, incluindo artistas como Francis Bacon, Alan Davie, Eduardo Paolozzi e Richard Hamilton, estava se movendo em direções diferentes com outros ideais.







Surrealismo na fotografia: na imagem acima,
Adelaido, El Conquistador
, fotografia de 1951
de
Héctor García. Abaixo, Dançarina satírica
(Satiric Dancer), uma fotografia de 1926
de
André Kertész.

No final da página, o encontro lendário de
Leon Trotsky, Diego Rivera e André Breton
no México, 
fotografado por Fritz Bach em junho
de 1938, na época em que os três escreveram, em
parceria, o Manifesto por uma Arte Revolucionária
Independente
, publicado pela revista Partisan Review.

Também no final da página, mais duas fotografias do
catálogo da exposição
na Throckmorton Fine Art:
Três marionetes em um cenário de navio
(Three Puppets in a Ship Setting), fotografia
de 1929 de
Tina Modotti; e Nu em abstração
(Nude Abstraction), fotografia de 1953 de
Weegee









Um século após seu surgimento, o Surrealismo continua a existir, como estilo e como referência, não somente na fotografia, mas em todos os domínios da criação artística, no mundo inteiro, em grande parte como citação às obras dos pioneiros do movimento nas décadas de 1920 e 1930. Seu legado e influência se mantêm inegáveis sempre que estão em cena imagens com sugestões oníricas e inesperadas, fantásticas, bizarras ou grotescas, que nos levam a reavaliar nosso olhar sobre a realidade e a vida cotidiana. O acervo selecionado na exposição atual, com uma gama significativa de imagens de fotógrafos pioneiros, tem grande valor como retrospectiva não só porque promove uma revisão das conquistas do Surrealismo na fotografia, mas porque reafirma a importância, urgente e contínua, de examinarmos as fronteiras entre a realidade e as representações da realidade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Surrealismo na fotografia. In: Blog Semióticas, 2 de dezembro de 2025. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2025/12/surrealismo-na-fotografia.html (acesso em .../.../…).



Para visitar a exposição na  Throckmorton Fine Art,  clique aqui.













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