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“Não conheço nenhum fotógrafo que tenha fotografado pessoas com tanta intimidade quanto Lisette Model”.
––
Berenice
Abbott (1898-1991). |
Quem tem interesse pelos clássicos do jazz conhece o trabalho da fotógrafa Lisette Model: ela registrou, em belas imagens, flagrantes dos maiores músicos e intérpretes do jazz e seu público, incluindo os estreantes que em sua época ainda não eram famosos. Muitas das fotos feitas por Lisette Model ilustraram capas de álbuns lendários e reportagens diversas sobre os jazzistas mais célebres – e algumas ficaram tão conhecidas que não mais recebem o crédito de autoria da fotógrafa, como se fossem retratos naturais dos músicos ou imagens de domínio público. Lisette Model morreu aos 82 anos, em 1983, mas somente agora, décadas depois da apuração de seu espólio, uma parte surpreendente de seu legado é finalmente revelada: milhares de fotografias da cena jazzística dos anos 1940 e 1950 que permaneciam inéditas.
Uma
coleção
de
200 fotos, selecionadas
do acervo de mais 1.800
negativos
de 35 mm, agora
está
publicada em
“Lisette Model: The Jazz Pictures”, fotolivro
de 240 páginas lançado
pela Eakins Press Foundation, com
breves
ensaios escritos por Langston Hughes, Loren Schoenberg e Audrey Sands
– que também assina a
coordenação
editorial. Lisette
Model
era um pseudônimo. Seu nome de batismo foi Elise Amelie Felicie
Stern, nascida
em
1901 em
Viena, na
Áustria, com ascendência judia. No
final da década de 1920, após a morte do pai, ela
vai
para
Paris; em 1938, ela e
o marido, o pintor Evsa Model, nascido
na Rússia,
vão
para os
Estados Unidos,
fugindo
da
ascensão dos nazistas. Em
Nova York,
ela
adota
o trabalho com fotografia sobreviver e
se aproxima da cooperativa Photo League, com
fotógrafos como Paul
Strand,
Edward
Weston,
Berenice
Abbot,
Helen Levitt e Robert Frank, entre outros.
Insinuações
sem prova
Ainda
na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Lisette Model
conquistou destaque
na Photo League e seu
trabalho passou a
ser publicado em
revistas de prestígio como
a Harper’s Bazaar.
Sua atuação política e seu papel de liderança, no entanto, a
tornaram alvo das
investigações do FBI e do senador Joseph McCarthy, que
na década de 1950
comandou uma caça às
bruxas contra comunistas e contra todos que pudesse rotular
por
“atividades anti-americanas”.
Como resultado da
perseguição política,
Lisette
acabaria
trocando a fotografia pelo trabalho de
professora na New School for Social Research, em Nova York,
onde teve alunos que se
tornaram
célebres na fotografia, entre eles Diane Arbus, Larry Fink, Helen
Gee e John Gossage.
Importante lembrar que, segundo o
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o
termo “macarthismo”
identifica o ato de “formular
acusações e fazer insinuações sem provas”.
Lisette
Model contra os racistas:
acima, |
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A dedicação e o entusiasmo de Lisette Model pelo jazz não deixam de evidenciar sua identificação com as lutas contra injustiças e com as atitudes de resistência que sempre estiveram presentes na trajetória dos músicos negros, desde os primórdios. Lisette Model já estava nos Estados Unidos em 1939, quando Billie Holiday cantou pela primeira vez e gravou “Strange Fruit”, a canção pioneira do protesto político que lamentava a realidade de milhares de pessoas negras vítimas de ataques racistas e de linchamento, assassinadas e dependuradas nas árvores. Não é por acaso que Billie Holiday surge em destaque entre as fotografias inéditas de Lisette Model, junto com as belas imagens em preto e branco de Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen McCrae, Miles Davis, Horace Silver, Art Blakey, Count Basie, Dizzy Gillespie e outros gigantes do mundo do jazz.
Censura e perseguição
Lisette Model também ficaria conhecida por suas fotografias de rua com seu estilo irônico e de crítica social, mas quando se observa seus retratos do jazz o que vem à tona é o tom de alegria e encantamento, com cuidados no enquadramento e na composição que ainda hoje surpreendem. Em 1952, diante do imenso acervo de seus retratos de personalidades do jazz e de cenas dos shows, ela deu início ao projeto da publicação de um livro de fotografias dedicado exclusivamente ao tema, em uma época em que a publicação de fotolivros era algo incomum e com raros antecedentes. Mas a edição do fotolivro não se concretizou e o desfecho foi melancólico: depois que a fotógrafa foi convocada para prestar depoimentos no FBI sobre suas atividades à frente da cooperativa New York Photo League, e de McCarthy ameaçar incluir seu nome na famigerada Lista de Vigilância de Segurança Nacional, as editoras e os financiadores cancelaram o apoio ao projeto.
Na
mesma época, a
cooperativa de Nova York seria
fechada pelo FBI e
todas as revistas e agências de notícia deixaram de publicar e de
comercializar as fotografias de Lisette Model. Confiante
na importância do tema do
jazz e na qualidade de
seu acervo, Lisette
Model chegou a
contratar, para
escrever um ensaio que acompanharia as fotografias, o jornalista e
escritor Langston
Hughes, um dos
intelectuais e
ativistas que
tiveram destaque no
movimento cultural e político conhecido como Harlem Renaissence
(Renascimento do Harlem) que impulsionou a música e a literatura
afro-americana nas
décadas de 1920 e 1930.
Hughes também foi a
principal liderança, em 1930, da Liga de Luta pelos Direitos dos
Negros. Foi o
jazz que aproximou
Lisette Model de Hughes
e das lideranças
comunistas, assim como atraiu outros fotógrafos, jornalistas,
escritores, artistas do teatro, do cinema e das artes plásticas.
As
causas antirracistas
O
círculo de intelectuais e artistas que orbitavam a esquerda
comunista se ampliava naquela
época e todos eles
abraçavam tanto as causas antirracistas como a ideia de que o jazz
representava a cultura mais profundamente democratizante dos Estados
Unidos. O ensaio de
Hughes sob encomenda de
Lisette, no entanto, não foi concluído, e
com a pressão do FBI a
fotógrafa terminou
adiando por tempo
indeterminado a edição
do livro. Seu acervo de
fotografias sobre o mundo do jazz foi arquivado
e permaneceu inédito
durante décadas. Hughes
morreu em 1967, aos 65
anos, e suas anotações
para o ensaio somente
agora são
publicadas em
“Lisette Model: The
Jazz Pictures”.
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Lisette
Model contra os racistas:
acima,
pai
e filho nas trilhas do jazz, Josh White Jr.
e
Josh White no Music
Inn, Massachusetts,
em 1956. Abaixo,
o baterista Art Taylor no
Café
Bohemia do Greenwich Village,
em
Nova York, em foto de 1957
Ao apresentar a cronologia da obra de Lisette Model e o valor de seu acervo como patrimônio cultural e político, a historiadora Audrey Sands reconhece que a grande maioria da comunidade dos refugiados em Nova York, incluindo intelectuais, artistas e muitos empreendedores ligados à literatura e à música, entre eles os fundadores da gravadora Blue Note Records e os parceiros de Lisette Model na cooperativa Photo League, eram sim militantes de esquerda, assim como os músicos do jazz que compartilhavam ideais de igualdade e liberdade. Quanto à perseguição e ao silenciamento por imposição do macarthismo, Sands explica que havia muito racismo entrelaçado às questões ideológicas: os partidários do macarthismo eram partidários da supremacia branca, apoiavam a política segregacionista e perseguiam os defensores dos direitos civis sob o pretexto de combater o comunismo.
No
ensaio de apresentação que abre o fotolivro, Audrey
Sands reconstitui os
percalços violentos e melancólicos de
perseguição e silenciamento de Lisette Model e de muitos outros
intelectuais, artistas e músicos do jazz – e faz um inevitável
paralelo com o colapso contemporâneo provocado por um governo de
inspiração fascista, militante da guerra e da violência, fomentado
por ideias racistas da supremacia branca. Para todos nós, leitores,
ouvintes do jazz e observadores das belas imagens registradas por
Lisette Model, há um choque de realidade ao perceber que a repressão
de hoje não é sem precedentes, mas um retorno a um período que
parecia ter sido superado.
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Lisette
Model contra os racistas: |
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Uma arte interrompida
“O jazz é a montagem de um sonho permanentemente adiado”, escreveu Langston Hughes. Contudo, também é possível considerar a beleza do fotolivro de Lisette Model como uma conquista e um triunfo – uma vitória pela sobrevivência depois da censura e do silenciamento. Em cada imagem, cada gesto, cada expressão de um rosto ou cada contraste em claro e escuro das composições da fotógrafa, estão a beleza e a tradução de algo que permanece vivo e comovente. A trajetória de Lisette Model e a história do jazz têm um ponto de ruptura em 1959, quando Billie Holiday morre, de repente, aos 44 anos. Billie também sofreu perseguição violenta do aparato policial e político e Lisette Model, sua admiradora apaixonada, se preparou para fotografá-la em seu leito de morte. Mas foi tomada de forte emoção e não conseguiu continuar. Foram suas últimas fotos sobre o mundo do jazz.
O fotolivro “The Jazz Pictures” não é primeiro a reunir o trabalho de Lisette Model. O primeiro, no projeto da própria fotógrafa, deveria ter sido publicado na década de 1950, mas terminou adiado. Duas décadas depois, o primeiro fotolivro sobre ela a ganhar edição e ampla distribuição foi “Photographs by Lisette Model”, com prefácio da fotógrafa Berenice Abbott, publicado em 1979 pela Aperture Foundation de Nova York, depois reeditado em 2008, como homenagem no 25º aniversário de sua morte. O segundo fotolivro viria em 1990, com o lançamento de “Lisette Model”, uma seleção de suas fotografias organizada por Ann Thomas, em edição da National Gallery do Canadá, como catálogo para uma exposição sobre o trabalho da fotógrafa.
Outros
fotolivros sobre sua obra foram “Lisette
Model – Photographien 1933-1983”, editado
em 1992 pelo Museum Ludwig de Colônia, na Alemanha, também
como catálogo de uma
exposição em sua homenagem; “Lisette
Model”, publicado em
2001 nos Estados Unidos
pela Phaidon Press, com
uma retrospectiva de
sua trajetória com 50
fotografias em ordem
cronológica, com
apresentação de Elisabeth Sussman; “Lisette
Model”, catálogo da exposição
de 2010 na
Fundación Mapfre de
Madri, Espanha, e na
Galeria Nacional do Jeu de Palme, em Paris, França que reuniu 120
imagens da fotógrafa, de seus primeiros registros em Paris, em 1933,
aos últimos, no final dos anos 1950, em Nova York;
e, mais
recentemente, “Lisette Model: Street life”, de
2021, com edição e ensaios de Claudio Composti, Monica Poggi e
Larry Fink, reunindo uma
seleção de
100 fotografias, com
destaque para retratos de anônimos, como catálogo de uma exposição
realizada em Turim, na Itália, no Centro Italiano de
Fotografia.
Força poética compartilhada
No final de 2025, além de “The Jazz Pictures”, também foi publicado “Renegade: Photography in the life of Lisette Model”, ensaio biográfico ilustrado com uma seleção de fotografias, escrito por Duncan Forbes, diretor de Fotografia do Victoria and Albert Museum, e editado pela Mack Books de Nova York. O lançamento mais recente, de fevereiro de 2026, é “Lisette Model: Retrospective”, pela Prestel Publishing, com seleção e ensaio de Walter Moser, que apresenta, como o título indica, uma retrospectiva com 200 fotografias, inéditas em sua maioria, incluindo retratos irônicos de personagens anônimos nas ruas, as séries fotográficas de 1939 a 1941 sobre banhistas em Coney Island e um apanhado sobre as temporadas da fotógrafa na França, na Itália, na Venezuela e em outros países.
Assim como Audrey Sands argumenta, no ensaio em que apresenta “The Jazz Pictures”, Walter Moser também destaca que a obra de Lisette Model reflete um caso exemplar de uma artista interrompida de forma trágica – vítima de perseguição e silenciamento pelo aparato do governo dos Estados Unidos, um tema que nos últimos anos, infelizmente, tem retornado à prática cotidiana de forma cada vez mais violenta. Acompanhando os relatos sobre a trajetória da fotógrafa, e diante da força poética das imagens que ela registrou, fica a impressão de que talvez sejam as experiências compartilhadas de perseguição uma questão central para conectar Lisette Model, que fugiu dos nazistas na Europa, com os gigantes do jazz que ela fotografou para a posteridade.
por
José Antônio Orlando.
Como citar:
ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 6 de março de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/03/lisette-model-contra-os-racistas.html (acesso em .../.../…).
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Veja também:
Semióticas – Biografia de uma canção
https://semioticas1.blogspot.com/2012/08/biografia-de-uma-cancao.html
Semióticas – Louis entre os
cronópios
https://semioticas1.blogspot.com/2011/07/ha-um-conto-de-cortazar-publicado-em.html
Semióticas – Noite de Stanley Jordan
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