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Bem me lembro de você no Chelsea Hotel.
Você famosa, seu coração era uma lenda.
Você disse que preferia homens bonitos.
Mas,
por mim, abriria sim uma exceção.
–– Leonard Cohen, “Chelsea Hotel” (1974)
No
livro autobiográfico “Só Garotos” (Just Kids), de Patti Smith,
lançado no Brasil pela Companhia das Letras, o mítico Chelsea
Hotel, em Nova York, é mais do que um cenário de muitas histórias
e mais do que um lar onde ela morou durante anos na companhia de
Robert Mapplethorpe, antes que ele se tornasse um célebre fotógrafo
e ela uma das figuras centrais do rock e da cultura pop. O Chelsea
Hotel é um personagem, uma entidade que Patti Smith descreve com a
nostalgia de um sonho bom – “um antro de vanguarda”, um
ambiente de “elegância decadente” com uma estranha magia que
atraía gente famosa e também artistas jovens e talentosos, na
maioria sem grana, que naquela convivência rotativa amadureciam
ideias e criavam arte nas formas mais experimentais e
imprevisíveis.
Patti Smith
escreve que,
nos
anos 1960 e na década seguinte, as boas energias do Chelsea
Hotel
se espalhavam e atraíam famosos e anônimos que
depois seriam astros e estrelas da música, do cinema, da literatura
e de outras artes,
incluindo Janis Joplin, Nico,
Jim
Morrison, Jimi Hendrix, Bob
Dylan, Lou
Reed, Iggy
Pop, Sam
Shepard, Andy
Warhol,
Jack
Kerouac,
Allen Ginsberg, William Burroughs, Robert
Crumb, Robert Frank, Jackson Pollock, Jonas
Mekas, Stanley
Kubrick, Wim
Wenders, Milos Forman, Grace
Slick, Leonard Cohen, entre outros. Nas
memórias de Patti
Smith, o
Chelsea surge iluminado, “um
refúgio energético e desesperado para dezenas de crianças
talentosas e batalhadoras de todas as camadas sociais. Viciados em
guitarra e beldades chapadas em trajes
vitorianos. Poetas viciados, dramaturgos, cineastas falidos, atores
franceses. Todos que passam por aqui são alguém, mesmo que ninguém
no mundo exterior.”
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![]() Intimidades
do Chelsea Hotel:
no alto e
acima, |
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Personagens
lendários
Não é por acaso que Patti Smith e Robert Mapplethorpe, seu companheiro inseparável daqueles tempos, estejam em destaque em um novo fotolivro que tem o hotel como tema central: “Scopin: Chelsea Hotel”, de Albert Scopin, lançamento da editora Kerber Verlag, com 176 páginas e mais de 100 imagens inéditas do lugar e de seus hóspedes incomuns, personagens lendários que circulavam pelo prédio no período entre 1969 e 1971. O autor, atualmente um nome conhecido das artes plásticas, na época era fotógrafo iniciante e um dos moradores do hotel. No prefácio do livro, Scopin descreve as lembranças que suas fotografias traduzem e as fortes impressões que o casal Patti e Robert provocaram nele e na maioria dos hóspedes do Chelsea Hotel:
“Era
um casal muito marcante, muito peculiar: Robert, bonito, descolado,
cínico, distante; Patti, com roupas punk, rosto expressivo, franca,
cheia de vida”. Scopin
recorda
que os
dois eram
figuras-chave naquela comunidade boêmia. “Eles eram diferentes.
Todos no Chelsea queriam ser estrelas, mas eles eram mais sérios e
mais
motivados.
Ela escrevia poemas e lia em
voz alta com
uma intensidade expressiva que me impressionava.
Com Patti, tudo estava presente desde o início. Robert era mais
reservado, mais difícil de se aproximar. Tinha
um ar elegante, calças de couro, colete de abotoamento
duplo e um cordão de prata. Um dia uma artista chamada Sandy Daley,
que alugava o quarto ao lado, emprestou a
ele uma
câmera Polaroid
e
ele começou a descobrir seu
estilo único na fotografia”.
Pouso
na Lua
Albert
Scopin vinha da Alemanha com a vaga intenção de se tornar fotógrafo
profissional e chegou ao Chelsea Hotel aos 26 anos, no dia seguinte
ao primeiro pouso de uma nave espacial na Lua.
No primeiro bar em Nova York ele conheceu um músico que recomendou o
Chelsea, um antigo hotel de Manhattan, construído
em
1884, o preferido de escritores como Oscar Wilde e Mark Twain e que
continuava a atrair como hóspedes os
escritores,
poetas, jornalistas,
músicos
de rock e todo tipo de artista. Quando Scopin chegou, descobriu um
hotel de extremos: nos andares superiores, quartos amplos e
requintados para
artistas
consagrados e celebridades, enquanto os quartos nos andares
inferiores eram menores e hospedavam artistas anônimos da cena
underground e estrangeiros que vinham tentar a sorte em Nova York.
Scopin pertencia ao segundo grupo.

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Intimidades
do Chelsea Hotel:
no alto,
um
encontro de amigos em uma das sacadas
do hotel: Holly
Woodlawn
(que
inspirou a canção
de Lou Reed “Walk on the Wild Side”) e
os
cineastas
Rosa
von Praunheim e
Shirley Clarke.
Acima,
Shirley
Clarke em
seu quarto,
transformado
em estúdio para
edição
e
montagem. Abaixo, o
disputado bazar
de Natal
do
Chelsea Hotel em 1970, com artigos que
alguns
hóspedes colocavam à venda
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O
dossiê
de imprensa para o lançamento do fotolivro “Scopin: Chelsea Hotel” traz um breve relato sobre os percalços do projeto e das
fotografias desde os registros originais e informais de Scopin, no período de 1969 a 1971. Enquanto
trabalhava ocasionalmente como assistente de fotógrafos na época
renomados, como Mikel Avedon e Bill King, Scopin também escrevia
um diário e fotografava
o cotidiano agitado
de
seus vizinhos de quarto no Chelsea Hotel usando uma câmera amadora
Kodak Instamatic. Durante
sua temporada no Chelsea, Scopin
foi
contratado como fotógrafo freelancer por uma revista recém-fundada,
a Zeit Magazin, a
convite de um amigo na Alemanha.
Para sua primeira publicação, ele selecionou
suas
melhores fotos
sobre
o Chelsea Hotel e
enviou pelo
correio. A fotorreportagem foi publicada,
mas
os negativos e ampliações originais não foram devolvidos após a
edição da revista. Provavelmente
foram roubados
e Scopin, durante décadas,
acreditou
que tudo
estava
definitivamente perdido.
Reviravolta inesperada
Foi
somente em 2016, quando aquela coleção
de fotografias era
apenas uma lembrança do passado, que aconteceu uma reviravolta
inesperada. O
curador da Galerie Ahlers, Oliver
Ahlers, da
Baviera, na Alemanha, fez contato com Scopin para informar que havia
localizado por
acaso uma
pasta com todas as fotografias, incluindo os negativos, as ampliações
e os slides sobre os hóspedes do Chelsea Hotel. Oliver
Ahlers havia comprado o pacote completo de um comerciante de
arte na cidade de Bremen. O
material redescoberto foi celebrado
pelo fotógrafo com a apresentação em uma exposição em Berlim, na
FWR
Galerie (Feldbusch Wiesner Rudolph), e posteriormente deu origem ao
fotolivro “Scopin:
Chelsea Hotel”.
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Ao
impacto das imagens inéditas do
livro, que retratam a
vida cotidiana de
hóspedes e funcionários em
um curto período da história do Chelsea Hotel, Albert Scopin
acrescenta breves textos poéticos e autobiográficos, além de uma
longa
entrevista,
feita
pelo historiador de arte e curador Michael Stoeber, na qual Scopin
esclarece
o contexto de algumas fotos e revela detalhes sobre a trajetória
lendária das relações do hotel com a arte, a literatura e
a contracultura.
Além de ser
o preferido
de muitos escritores e celebridades, desde os
primeiros anos de
funcionamento, foi em
seus quartos e saguões que obras importantes foram criadas. Entre
outros eventos da mitologia do Chelsea, também
há histórias trágicas envolvendo gente famosa, como a morte do
poeta Dylan
Thomas, encontrado
caído no quarto, depois
de escrever “Under Milk Wood”, ou
o
caso de
Nancy Spungen, assassinada por Sid Vicious no quarto do
casal.
As
boas lembranças, no entanto, somam pontos a favor da mística do
Chelsea. Foi
durante uma temporada de duas ou três semanas no hotel que Jack
Kerouac escreveu “On The Road”. E
não
apenas Kerouac, mas vários autores da Geração Beat, como William
Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso e
Charles Bukowski passaram
longas
temporadas
no Chelsea, que também abrigou alguns dos lendários saraus
promovidos pelo grupo. Arthur
C. Clarke escreveu “2001, Uma Odisseia no Espaço” quando era
hóspede do hotel,
e
outro
escritor
célebre,
Arthur Miller, escreveu
suas obras mais conhecidas quando morava no
Chelsea, antes de se casar com Marilyn Monroe. Há
também uma
lista de canções que surgiram no hotel,
entre
elas alguns
dos
primeiros
sucessos
de Bob Dylan, quando ele era
hóspede com
sua
primeira esposa, Sara
Lownds. E
foi no Chelsea que surgiu a primeira versão de “Walk on the Wild
Side” de Lou Reed, inspirada por outra hóspede,
Holly Woodlawn, atriz transgênero porto-riquenha.
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Intimidades
do Chelsea Hotel:
acima,
No
final da página, a artista performática |
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Hóspedes da utopia
“Eu lembro bem de você no Chelsea Hotel”, diz Leonard Cohen no primeiro verso de “Chelsea Hotel”, uma das canções mais célebres sobre o hotel lendário – gravada em 1974 no álbum de Cohen “New Skin for the Old Experience”. A canção foi dedicada a Janis Joplin, hóspede frequente do Chelsea até sua morte em 1970. Diz a lenda que Leonard Cohen e Janis se conheceram no elevador do hotel, em algum dos 12 andares do prédio, e viveram a partir daí uma paixão arrebatadora e efêmera. No momento do encontro, ambos estavam à procura de outros hóspedes: Janis, que morava no quarto 411, estava à espera de Kris Kristofferson, que ficou de apresentar a ela a canção “Me and Bobby McGee”; Leonard Cohen, que estava hospedado no quarto 424, estava em busca de Brigitte Bardot, porque soube que ela também estava no Chelsea Hotel.
No começo de 1972, Albert Scopin deixou o Chelsea e, anos depois, trocou a fotografia pelas artes plásticas, com dedicação aos desenhos e às pinturas de paisagens abstratas com experimentos de materiais como asfalto e pigmentos de terra. “Todos no Chelsea eram pessoas interessantes, e atrás de cada porta havia um novo mistério. Foi uma época intensa e emocionante, e então, em certo momento, tudo acabou e cada um seguiu o seu caminho”, escreve Scopin no prefácio do livro. Mais do que apenas nostalgia em antigos registros sobre um momento vibrante da história do Chelsea Hotel, as fotografias de Scopin surgem como um documento importante da contracultura e como uma possibilidade utópica, um aceno de esperança para tempos de maior liberdade e de respeito às diferenças.
por José Antônio Orlando.
Como citar:
ORLANDO,
José Antônio. Lisette Model contra os racistas.
In:
Blog Semióticas,
11
de abril de
2026. Disponível em:
https://semioticas1.blogspot.com/2026/04/intimidades-do-chelsea-hotel.html
(acesso em .../.../…).
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