11 de abril de 2026

Intimidades do Chelsea Hotel

 







Bem me lembro de você no Chelsea Hotel.

Você famosa, seu coração era uma lenda.

Você disse que preferia homens bonitos.

Mas, por mim, abriria sim uma exceção.
  

–– Leonard Cohen, “Chelsea Hotel” (1974)   



No livro autobiográfico “Só Garotos” (Just Kids), de Patti Smith, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, o mítico Chelsea Hotel, em Nova York, é mais do que um cenário de muitas histórias e mais do que um lar onde ela morou durante anos na companhia de Robert Mapplethorpe, antes que ele se tornasse um célebre fotógrafo e ela uma das figuras centrais do rock e da cultura pop. O Chelsea Hotel é um personagem, uma entidade que Patti Smith descreve com a nostalgia de um sonho bom – “um antro de vanguarda”, um ambiente de “elegância decadente” com uma estranha magia que atraía gente famosa e também artistas jovens e talentosos, na maioria sem grana, que naquela convivência rotativa amadureciam ideias e criavam arte nas formas mais experimentais e imprevisíveis.

Patti Smith escreve que, nos anos 1960 e na década seguinte, as boas energias do Chelsea Hotel se espalhavam e atraíam famosos e anônimos que depois seriam astros e estrelas da música, do cinema, da literatura e de outras artes, incluindo Janis Joplin, Nico, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Bob Dylan, Lou Reed, Iggy Pop, Sam Shepard, Andy Warhol, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, Robert Crumb, Robert Frank, Jackson Pollock, Jonas Mekas, Stanley Kubrick, Wim Wenders, Milos Forman, Grace Slick, Leonard Cohen, entre outros. Nas memórias de Patti Smith, o Chelsea surge iluminado, “um refúgio energético e desesperado para dezenas de crianças talentosas e batalhadoras de todas as camadas sociais. Viciados em guitarra e beldades chapadas em trajes vitorianos. Poetas viciados, dramaturgos, cineastas falidos, atores franceses. Todos que passam por aqui são alguém, mesmo que ninguém no mundo exterior.”

 

 













Intimidades do Chelsea Hotel: no alto e acima,
Robert Mapplethope e Patti Smith no quarto
em que viveram durante anos no Chelsea Hotel,
fotografados por Albert Scopin em 1970.

Abaixo, o jovem Mapplethorpe, que na época,
antes de descobrir seu estilo único na fotografia,
produzia colagens com imagens eróticas
recortadas de revistas.

Todas as imagens desta página estão publicadas no
fotolivro de Albert Scopin sobre o Chelsea Hotel










 
















Personagens lendários


Não é por acaso que Patti Smith e Robert Mapplethorpe, seu companheiro inseparável daqueles tempos, estejam em destaque em um novo fotolivro que tem o hotel como tema central: “Scopin: Chelsea Hotel”, de Albert Scopin, lançamento da editora Kerber Verlag, com 176 páginas e mais de 100 imagens inéditas do lugar e de seus hóspedes incomuns, personagens lendários que circulavam pelo prédio no período entre 1969 e 1971. O autor, atualmente um nome conhecido das artes plásticas, na época era fotógrafo iniciante e um dos moradores do hotel. No prefácio do livro, Scopin descreve as lembranças que suas fotografias traduzem e as fortes impressões que o casal Patti e Robert provocaram nele e na maioria dos hóspedes do Chelsea Hotel:

Era um casal muito marcante, muito peculiar: Robert, bonito, descolado, cínico, distante; Patti, com roupas punk, rosto expressivo, franca, cheia de vida”. Scopin recorda que os dois eram figuras-chave naquela comunidade boêmia. “Eles eram diferentes. Todos no Chelsea queriam ser estrelas, mas eles eram mais sérios e mais motivados. Ela escrevia poemas e lia em voz alta com uma intensidade expressiva que me impressionava. Com Patti, tudo estava presente desde o início. Robert era mais reservado, mais difícil de se aproximar. Tinha um ar elegante, calças de couro, colete de abotoamento duplo e um cordão de prata. Um dia uma artista chamada Sandy Daley, que alugava o quarto ao lado, emprestou a ele uma câmera Polaroid e ele começou a descobrir seu estilo único na fotografia”.











Intimidades do Chelsea Hotel: no alto,
Sandy Daley e Patti Smith, amigas e vizinhas
de quarto. Daley foi quem emprestou sua
câmera
 e introduziu Mapplethorpe nos
segredos da 
fotografia.

Acima, um detalhe da parede do quarto

de Patti Smith com o cabideiro improvisado
e decorado com retratos de seus três ídolos:
Antonin Artaud, Albert Camus e Dylan Thomas.
Abaixo, a portaria do hotel em fotografia de 1970















Pouso na Lua


Albert Scopin vinha da Alemanha com a vaga intenção de se tornar fotógrafo profissional e chegou ao Chelsea Hotel aos 26 anos, no dia seguinte ao primeiro pouso de uma nave espacial na Lua. No primeiro bar em Nova York ele conheceu um músico que recomendou o Chelsea, um antigo hotel de Manhattan, construído em 1884, o preferido de escritores como Oscar Wilde e Mark Twain e que continuava a atrair como hóspedes os escritores, poetas, jornalistas, músicos de rock e todo tipo de artista. Quando Scopin chegou, descobriu um hotel de extremos: nos andares superiores, quartos amplos e requintados para artistas consagrados e celebridades, enquanto os quartos nos andares inferiores eram menores e hospedavam artistas anônimos da cena underground e estrangeiros que vinham tentar a sorte em Nova York. Scopin pertencia ao segundo grupo.







Intimidades do Chelsea Hotel: no alto,
um encontro de amigos em uma das sacadas
do hotel:
Holly Woodlawn (que inspirou a canção
de Lou Reed “Walk on the Wild Side”) e os

cineastas Rosa von Praunheim e Shirley Clarke.

Acima, Shirley Clarke em seu quarto,
transformado em estúdio para edição e
montagem. Abaixo,
o disputado bazar de Natal
do Chelsea Hotel em 1970, com artigos que
alguns hóspedes colocavam à venda






O dossiê de imprensa para o lançamento do fotolivro “Scopin: Chelsea Hotel” traz um breve relato sobre os percalços do projeto e das fotografias desde os registros originais e informais de Scopin, no período de 1969 a 1971. Enquanto trabalhava ocasionalmente como assistente de fotógrafos na época renomados, como Mikel Avedon e Bill King, Scopin também escrevia um diário e fotografava o cotidiano agitado de seus vizinhos de quarto no Chelsea Hotel usando uma câmera amadora Kodak Instamatic. Durante sua temporada no Chelsea, Scopin foi contratado como fotógrafo freelancer por uma revista recém-fundada, a Zeit Magazin, a convite de um amigo na Alemanha. Para sua primeira publicação, ele selecionou suas melhores fotos sobre o Chelsea Hotel e enviou pelo correio. A fotorreportagem foi publicada, mas os negativos e ampliações originais não foram devolvidos após a edição da revista. Provavelmente foram roubados e Scopin, durante décadas, acreditou que tudo estava definitivamente perdido.


Reviravolta inesperada



Foi somente em 2016, quando aquela coleção de fotografias era apenas uma lembrança do passado, que aconteceu uma reviravolta inesperada. O curador da Galerie Ahlers, Oliver Ahlers, da Baviera, na Alemanha, fez contato com Scopin para informar que havia localizado por acaso uma pasta com todas as fotografias, incluindo os negativos, as ampliações e os slides sobre os hóspedes do Chelsea Hotel. Oliver Ahlers havia comprado o pacote completo de um comerciante de arte na cidade de Bremen. O material redescoberto foi celebrado pelo fotógrafo com a apresentação em uma exposição em Berlim, na FWR Galerie (Feldbusch Wiesner Rudolph), e posteriormente deu origem ao fotolivro “Scopin: Chelsea Hotel”.
















Intimidades do Chelsea Hotel: no alto,
a artista das instalações Stella Waitzkin
em seu quarto no hotel, antes de conquistar
fama e prestígio com seus trabalhos no acervo
de museus como o MoMA e o Smithsonian.

Acima, o quarto em alto estilo de
Richard Bernstein, que se tornaria colaborador
importante 
de Andy Warhol. Abaixo, outra lenda:
o compositor George Kleinsinger, que durante
25 anos viveu no quarto transformado em viveiro
com pássaros tropicais, cobras, lagartos, insetos
exóticos e um pequeno hipopótamo. Kleinsinger
morreu no Chelsea e suas cinzas foram
lançadas pelos amigos no terraço do Chelsea








Ao impacto das imagens inéditas do livro, que retratam a vida cotidiana de hóspedes e funcionários em um curto período da história do Chelsea Hotel, Albert Scopin acrescenta breves textos poéticos e autobiográficos, além de uma longa entrevista, feita pelo historiador de arte e curador Michael Stoeber, na qual Scopin esclarece o contexto de algumas fotos e revela detalhes sobre a trajetória lendária das relações do hotel com a arte, a literatura e a contracultura. Além de ser o preferido de muitos escritores e celebridades, desde os primeiros anos de funcionamento, foi em seus quartos e saguões que obras importantes foram criadas. Entre outros eventos da mitologia do Chelsea, também há histórias trágicas envolvendo gente famosa, como a morte do poeta Dylan Thomas, encontrado caído no quarto, depois de escrever “Under Milk Wood”, ou o caso de Nancy Spungen, assassinada por Sid Vicious no quarto do casal.

As boas lembranças, no entanto, somam pontos a favor da mística do Chelsea. Foi durante uma temporada de duas ou três semanas no hotel que Jack Kerouac escreveu “On The Road”. E não apenas Kerouac, mas vários autores da Geração Beat, como William Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso e Charles Bukowski passaram longas temporadas no Chelsea, que também abrigou alguns dos lendários saraus promovidos pelo grupo. Arthur C. Clarke escreveu “2001, Uma Odisseia no Espaço” quando era hóspede do hotel, e outro escritor célebre, Arthur Miller, escreveu suas obras mais conhecidas quando morava no Chelsea, antes de se casar com Marilyn Monroe. Há também uma lista de canções que surgiram no hotel, entre elas alguns dos primeiros sucessos de Bob Dylan, quando ele era hóspede com sua primeira esposa, Sara Lownds. E foi no Chelsea que surgiu a primeira versão de “Walk on the Wild Side” de Lou Reed, inspirada por outra hóspede, Holly Woodlawn, atriz transgênero porto-riquenha.







Intimidades do Chelsea Hotel: acima,
dois cineastas exilados da Checoslováquia
e hóspedes durante anos no Chelsea,
Ivan Passer e Milos Forman.

Abaixo, o quarto da nudez irrestrita de
Jackie Curtis e seu amigo Freund,
colaboradores do círculo de Andy Warhol;
e uma performance de 1970, no Chelsea,
do espetáculo musical “
Vain Victory”,
escrito por Jackie Curtis, com participação
de Candy Darling, Mary Voronov,
Holly Woodlawn e outras estrelas
da Factory de Warhol.

No final da página, a artista performática
Chancy Dévaureaux e um amigo; a garota
no papel de palhaço com um amigo na
entrada do Chelsea; e a entrada do
hotel em fotografia de 1970










Hóspedes da utopia



Eu lembro bem de você no Chelsea Hotel”, diz Leonard Cohen no primeiro verso de “Chelsea Hotel”, uma das canções mais célebres sobre o hotel lendáriogravada em 1974 no álbum de Cohen “New Skin for the Old Experience”. A canção foi dedicada a Janis Joplin, hóspede frequente do Chelsea até sua morte em 1970. Diz a lenda que Leonard Cohen e Janis se conheceram no elevador do hotel, em algum dos 12 andares do prédio, e viveram a partir daí uma paixão arrebatadora e efêmera. No momento do encontro, ambos estavam à procura de outros hóspedes: Janis, que morava no quarto 411, estava à espera de Kris Kristofferson, que ficou de apresentar a ela a canção “Me and Bobby McGee”; Leonard Cohen, que estava hospedado no quarto 424, estava em busca de Brigitte Bardot, porque soube que ela também estava no Chelsea Hotel.

No começo de 1972, Albert Scopin deixou o Chelsea e, anos depois, trocou a fotografia pelas artes plásticas, com dedicação aos desenhos e às pinturas de paisagens abstratas com experimentos de materiais como asfalto e pigmentos de terra. “Todos no Chelsea eram pessoas interessantes, e atrás de cada porta havia um novo mistério. Foi uma época intensa e emocionante, e então, em certo momento, tudo acabou e cada um seguiu o seu caminho”, escreve Scopin no prefácio do livro. Mais do que apenas nostalgia em antigos registros sobre um momento vibrante da história do Chelsea Hotel, as fotografias de Scopin surgem como um documento importante da contracultura e como uma possibilidade utópica, um aceno de esperança para tempos de maior liberdade e de respeito às diferenças.


por José Antônio Orlando.

 

Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 11 de abril de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/04/intimidades-do-chelsea-hotel.html (acesso em .../.../…).

 

Para comprar o fotolivro  "Scopin: Chelsea Hotel",  clique aqui.



 







 


 

Outras páginas de Semióticas