16 de dezembro de 2021

Imagens de fogo e revolta

 



O tempo é um rio que me leva, mas eu sou o rio;

é um tigre que me devora, mas eu sou o tigre;

é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.

–– Jorge Luis Borges.    







O Prix Pictet, um dos principais prêmios internacionais de fotografia da atualidade, anunciou sua premiação de 2021: a fotógrafa norte-americana Sally Mann é a vencedora com um ensaio fotográfico intitulado “Blackwater, 2008-2012” (Águas negras), uma série de imagens de impacto que traçam paralelos entre incêndios florestas e a história das revoltas raciais nos Estados Unidos. Os 12 ensaios selecionados como finalistas foram anunciados nos últimos meses – todos eles tendo como foco o tema do “fogo”, escolhido previamente pelos organizadores da premiação, criada para promover a discussão sobre questões relacionadas ao meio ambiente e à sustentabilidade. Na etapa final, Sally Mann concorreu com os fotógrafos Joana Hadjithomas e Khalil Joreige (Líbano), Rinko Kawauchi (Japão), Christian Marclay (EUA / Suíça), Fabrice Monteiro (Bélgica / Benin), Lisa Oppenheim (EUA), Mak Remissa (Camboja), Carla Rippey (México), Mark Ruwedel (EUA), Brent Stirton (África do Sul), David Uzochukwu (Áustria / Nigéria) e Daisuke Yokota (Japão).

Sally Mann, que nasceu em Lexington, na Virgínia (EUA), e começou a estudar fotografia no final da década de 1960, registra no ensaio premiado os incêndios que devastaram as reservas naturais do sudeste da Virgínia no período entre 2008 a 2012. O título, “Blackwater, 2008-2012”, é uma referência aos incêndios florestais e também à região do Great Dismal Swamp (Grande pântano sombrio), às margens do Oceano Atlântico, onde atracaram os primeiros navios que traziam negros capturados na África e transformados em escravos para trabalhar nas lavouras da América do Norte, principalmente no cultivo de tabaco, a partir de 1610. Desde então, e nos séculos seguintes, o pântano densamente arborizado foi usado por escravos como um refúgio para se esconderem quando tentavam fugir de seus proprietários. As fotografias de Sally Mann resgatam a história e traçam um paralelo entre os incêndios e os conflitos raciais, já que na mesma região da Virgínia também aconteceram as primeiras grandes revoltas de escravos da história dos Estados Unidos.











Imagens de fogo e revolta: no alto, um retrato de
Sally Mann por Annie Leibovitz em 2015. Acima e
abaixo, um extrato de Blackwater, 2008-2012, o ensaio
de Sally Mann sobre a devastação provocada pelos
incêndios florestais no estado da Virgínia, nos EUA,
que venceu o Prix Pictet 2021. Acima, Blackwater 13 e
Blackwater 32; abaixo, Blackwater 3, Blackwater 1
Blackwater 30 e Blackwater 15. Também abaixo,
a capa e três fotografias de Sally Mann reunidas
no livro A Thousand Crossings

 
























Racismo e incêndios florestais


No informe divulgado pelos organizadores do Prix Pictet, Sally Mann escreve um breve depoimento que destaca algumas questões de seu recorte temático sobre o tema “fogo” e sua relação com a história das revoltas raciais que remontam ao século 17. “Os incêndios nas reservas florestais e nos pântanos da Virgínia pareciam resumir o grande incêndio da luta racial na América, incluindo antigas batalhas da Guerra Civil, a Guerra da Independência e o Movimento pelos Direitos Civis na segunda metade do século 20, no qual minha família esteve envolvida. A agitação racial do final dos anos 1960 tem uma relação direta com os protestos em defesa das vidas negras no verão de 2020. Algo sobre o personagem norte-americano que falhou parece abraçar o apocalíptico como solução”, explica a fotógrafa em um trecho do depoimento.















Sally Mann também faz referência a registros históricos que têm os pântanos da Virgínia como local de fuga e esconderijo para comunidades de refugiados e escravos fugitivos que viveram na região. Muitos terminaram mortos ou foram capturados, mas também há histórias de fugitivos que formaram famílias e comunidades inteiras vivendo por anos nos pântanos sem serem detectados. Apesar das condições inóspitas dos pântanos, as pessoas que fugiam do cativeiro preferiam viver naquela região selvagem e com todos os perigos do que suportar o inferno da escravidão. “Mais do que cobras venenosas, insetos que transmitiam doenças, panteras, ursos e crocodilos sempre à espreita, os pântanos muitas vezes também tinham o perigo iminente e brutal dos caçadores de escravos e seus cães que seguiam a lei do ‘vivo ou morto’. Os caçadores cercavam os fugitivos e colocavam fogo em tudo, queimando suas presas vivas. Para os escravos em fuga, enfrentar este perigo e até encontrar a morte era preferível a serem devolvidos para seus donos”, completa. 

O trabalho de pesquisa e produção visual mais recente de Sally Mann, do qual o ensaio “Blackwater, 2008-2012” é uma amostragem, gerou uma exposição e um livro de fotografias com o título “A Thousand Crossings” (Mil travessias). Nas imagens, quase sempre em matizes de preto e branco, a fotógrafa aborda questões relacionadas à identidade e aos grupos sociais do sul dos Estados Unidos, refletindo suas próprias memórias e sua relação com seu lugar de origem. No entanto, pelo que se vê nas fotografias do ensaio premiado, não são registros nostálgicos semelhantes a cartões-postais sobre sua terra natal: as imagens de Sally Mann provocam impacto e revolta pela destruição que restou e levantam questões abrangentes sobre a vida social e cotidiana, sobre o meio ambiente, sobre história, sobre raça e sobre religião, seja em enquadramentos de caráter documental e de fotojornalísmo, seja nas cenas mais metafóricas e de sentido poético, apesar de seu tom muitas vezes sombrio, melancólico, pessimista.


Mil travessias


Desde sua primeira exposição individual realizada na Corcoran Gallery of Art, Washington, DC, em 1977, as fotografias de Sally Mann já apareceram em muitas reportagens de jornais e revistas e também como ilustração para capas e encartes de álbuns de músicos do Jazz e do Blues, já que suas imagens abordam com frequência cenários e moradores do sul dos Estados Unidos, especialmente os estados do Alabama, Mississippi e Louisiana. Ela trabalha usando antigas técnicas artesanais e equipamentos antigos de fotografia, o que faz os cenários rurais do sul dos Estados Unidos e seus personagens característicos parecerem saídos de outros tempos. É o caso das imagens da série "Blackwater", que foram produzidas no processo de Tintypes, também chamado de ferrotipia ou ferrótipo, uma das mais antigas formas do registro fotográfico, com criação de uma imagem positiva sem negativo diretamente sobre uma chapa fina de ferro, revestida com verniz ou esmalte escuro, que é utilizada como suporte para a emusão fotográfica.

As fotografias de Sally Mann também estão reunidas em séries temáticas que foram publicadas em fotolivros, a maioria deles alcançando a condição de best-sellers e atualmente fora de catálogo. Entre seus fotolivros estão "A Place not Forgotten: Landscapes of the South" (1999), “Last Measures” (2000) e "What Remais" (2003), sobre panorâmicas de grandes paisagens da natureza, sobre o que restou de antigas construções em ruínas e sobre os campos de batalha da Guerra Civil do final do século 19; “Deep South” (2005), também sobre os estados do sul do país; "Immediate Family", de 2005, que registra a infância de seus filhos; "Proud Flesh", de 2009, uma série cronológica de retratos de impacto sobre os efeitos da distrofia muscular em seu marido, Larry; "The Flash and the Spirit", de 2010, que reúne o lirismo de sua fotos de família e uma retrospectiva de suas experiências com imagens ousadas sobre os corpos humanos; "Remembered Light: Cy Twombly in Lexington", de 2016, sobre a convivência de anos que teve com o artista Cy Twombly (1928-2011), seu conterrâneo, no ateliê em sua cidade-natal; e o recente “A Thousand Crossings”, com o acervo apresentado na exposição de mesmo nome.










Imagens de Sally Mann: acima e abaixo,
retratos de seus filhos reunidos nos livros
Immediate Family, de 2005 (acima) e em
The Flesh and the Spirit, de 2010 (abaixo)


 









A trajetória do trabalho de Sally Mann também tem uma série de premiações, incluindo prêmios concedidos pela Fundação Guggenheim e a eleição como “Melhor fotógrafo da América” pela revista Time no ano de 2001. A trajetória da fotógrafa já foi tema de dois filmes: “Blood Ties” (Laços de sangue), dirigido em 1994 por Steven Cantor e Peter Spirer, indicado ao Oscar de documentário em curta-metragem; e “What Remains” (O que resta), dirigido em 2006 também por Steven Cantor, indicado ao Emmy de melhor documentário de longa-metragem. Sally Mann também publicou um livro ilustrado com questões autobiográficas, memórias de família e reflexões sobre seu trabalho com fotografia, “Hold Still: A Memoir with Photographs” (Retrato imóvel: um livro de memórias com fotografias), que foi finalista do National Book Awards 2015 e vencedor do Prêmio Andrew Carnegie de Excelência em Não-ficção.

 












Imagens de Sally Mann: acima, fotografias de
Remembered Light: Cy Twombly in Lexington,
livro de 2016. Abaixo, Proud Flesh, de 2009: retratos
sobre os efeitos terríveis da distrofia muscular
em Larry, marido da fotógrafa. No final da página,
uma imagem da exposição A Thousand Crossings
e Sally Mann em ação, fotografada por Kim Rushing













As imagens de “Blackwater, 2008-2012”, o ensaio com as fotografias de Sally Mann que venceu o Prix Pictet 2021, junto com uma amostragem abrangente do trabalho dos demais finalistas da competição, serão apresentados em exposições presenciais e virtuais no Victoria and Albert Museum (V&A), em Londres, e no Top Museum, em Tóquio, a partir de hoje e até 9 de janeiro de 2022, seguindo depois um roteiro itinerante em instituições de diversos países (veja o link para visitas virtuais no final deste artigo). O Prix Pictet foi fundado em 2008 pelo Grupo Pictet, com sede em Genebra, na Suíça, e ganhou reconhecimento como um dos principais prêmios internacionais de fotografia. Cada ciclo da premiação tem exposições e eventos paralelos com palestras, debates e mostras audiovisuais em mais de uma dúzia de países, levando o tema e o trabalho dos fotógrafos selecionados para um amplo público internacional.

A premiação pelo Prix Pictet é acompanhada pela publicação de um fotolivro em cores, cobrindo em detalhes o trabalho dos fotógrafos finalistas, juntamente com imagens de um grupo mais amplo de indicados e ensaios sobre o tema do prêmio produzidos por pensadores, escritores e jornalistas convidados. O prêmio, que concede ao vencedor 100 mil francos suíços (cerca de 82 mil euros ou 109 mil dólares), recebe nomeações sobre um novo tema a cada 18 meses. Os vencedores nas edições anteriores do Prix Pictet são Benoit Aquin, do Canadá (tema: Água); Nadav Kander, de Israel, radicado na África do Sul (tema: Terra); Mitch Epstein, dos Estados Unidos (tema: Crescimento); Luc Delahaye, da França (tema: Energia), Michael Schmidt, da Alemanha (tema: Consumo); Valérie Belin, da França (tema: Desordem); Richard Mosse, da Irlanda (tema: Espaço); e Joana Choumali, da Costa do Marfim (tema: Esperança).


por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Imagens de fogo e revolta. In: Blog Semióticas, 16 de dezembro de 2021. Disponível em https://semioticas1.blogspot.com/2021/12/imagens-de-fogo-e-revolta.html  (acessado em .../.../…).


Para visitar a exposição do V&A Museum Prix Pictet 2021: Fire,  clique aqui.


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