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Revoluções, como árvores, crescem de baixo para cima.
–– Gloria Steinem
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Assisti há alguns dias ao filme “As Vidas de Gloria” (“The Glorias”, de 2020) e fiquei pensando no capítulo importante que a jornalista, ativista, líder e pioneira do feminismo Gloria Steinem representa para o movimento feminista e para a autoestima de mulheres no mundo inteiro nas batalhas contra o sexismo, contra o preconceito, pelo respeito e pela igualdade no trabalho, em casa e na vida em sociedade. Hoje sou surpreendido com a notícia da morte de Gloria, aos 92 anos, e recordei algumas cenas do filme. A questão central, que a diretora e roteirista Julie Taynor destaca, em quatro fases da vida da ativista, é a complexidade do que seja o feminismo e como Gloria Steinem consegue incorporar esta complexidade do movimento feminista durante décadas.
Julie Taynor vem de filmes notáveis, especialmente a cinebiografia de Frida Kahlo com Salma Hayek (“Frida”, de 2002) e um conto musical de guerra e paz e romance que tem as canções dos Beatles como fio condutor (“Across the Universe”, de 2007). Em “As Vidas de Gloria”, com roteiro baseado no livro autobiográfico “My Life on the Road”, publicado no Brasil como “Minha Vida na Estrada” (Editora Bertrand Brasil), são quatro atrizes para interpretar períodos da história de Gloria: na infância e na adolescência, Ryan Kiera Armstrong e Lulu Wilson; na juventude e na maturidade, Alicia Vikander e Julianne Moore. Também são notáveis as participações de duas cantoras e atrizes: Bette Midler, no papel da deputada feminista Bella Abzug, e Janelle Monáe como Dorothy Pitman Hughes, parceira de Gloria na fundação da publicação que foi um divisor de águas, a revista Ms. (abreviação para “senhorita”).
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Feminismo
por Gloria Steinem:
no alto,
Gloria
e sua parceira na fundação da revista Ms.,
Dorothy
Pitman Hughes,
em um
evento
em 1971.
Acima,
Gloria na marcha do Dia
da Mulher,
em
7 de março de 1985 em Nova York.
Abaixo,
Julianne
Moore
no papel de Gloria no
filme
“As
Vidas de Gloria”
(The Glorias) e o cartaz
original
do
filme dirigido por Julie
Taymor
Viagem no tempo
“As
Vidas de Gloria” salta para frente e para trás na trajetória dos personagens, com
Julianne Moore na maioria das cenas, vivendo a protagonista a
partir dos anos 1970, mas as outras fases da vida da ativista
são fundamentais. São elas que iluminam sua formação a partir de
algumas experiências que resultam no seu idealismo e sua sabedoria no papel de liderança no movimento pela igualdade e pela
liberação feminina. Uma destas experiências é um episódio
célebre: em 1963, Gloria trabalhou no anonimato, disfarçada como
coelhinha da Playboy, em uma das casas noturnas do poderoso império de
Hugh Hefner durante 11 dias – para escrever uma longa reportagem
que expõe os dramas e as baixarias a que todas as trabalhadoras da empresa eram forçadas. A reportagem conquistou prêmios e
reconhecimento para o trabalho da jornalista.
O episódio da reportagem sobre as casas
noturnas da Playboy em Nova York foi transformado em 1985 no filme “Diário
de uma Coelhinha” (A Bunny’s Tale), com equipe técnica em maioria feminina, caso raro naquela época – com roteiro de Deena
Goldstone e Lynn Roth, direção de Karen Arthur e com Kirstie Alley
como protagonista no papel de Gloria. Produzido pela rede ABC, o filme foi lançado
apenas no formato VHS no mercado brasileiro, no final da década de
1980, e atualmente não está disponível nos serviços de streaming no Brasil.
A trajetória de Gloria Steinem também surgiu em outras produções na última década. A primeira foi “Gloria: Em suas próprias palavras”, de 2011, documentário dirigido por Peter W. Kunhardt para a HBO (disponível no Brasil pelo Prime Vídeo), com imagens raras de arquivo e entrevistas com a jornalista, na época com 77 anos. Um outro documentário, “Makers: Women Who Make America”, de 2013, com roteiro e direção de Barak Goodman, disponível pela MUBI, tem três episódios, com narração de Meryl Streep e depoimentos de Gloria em destaque, apresentando uma retrospectiva sobre as últimas décadas do século 20.

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Direitos iguais
Além
dos documentários, há
uma minissérie,
“Mrs. América”, de 2020, com
criação e roteiro de Dahvi Waller para o canal FX/Hulu (disponível no Brasil pela Disney+). São
nove
episódios, em
formato de ficção, com a trama
baseada
em
um acontecimento histórico que
na época alcançou grande repercussão:
a
mobilização nacional organizada
por
Gloria Steinem e outras lideranças
feministas
(Betty Friedan, Shirley Chisholm, Bella Abzug, Jill Ruckelshaus), no
começo da
década de 1970, para enfrentar a militância conservadora na luta pela aprovação da Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment).
A
emenda em questão tornou-se
um capítulo à parte na história do movimento feminista e dos
direitos humanos
e as discussões políticas que ela motivou tiveram repercussão no mundo inteiro.
Escrita
e apresentada ao Congresso dos EUA em 1923 pela sufragista Alice
Paul, a
emenda estabelecia garantias
para a igualdade de
gênero – igualdade legal
de direitos de homens e mulheres, proibindo qualquer discriminação
baseada no sexo do cidadão. Foi
apresentada em 1923, mas só
foi aprovada após
décadas de debates, em 1972, e
até atualmente, mais de 50 anos depois,
ainda enfrenta obstáculos e controvérsias sobre
sua aplicação.
“Mrs.
América” conta com Rose Byrne no papel de Gloria Steinem e um
elenco de estrelas vivendo
personagem que ganharam destaque naquele momento histórico,
incluindo
Cate Blanchett, Tracy Ullman, Sarah Paulson, Melanie Lynskey,
Elizabeth Banks, Margo Martindale e Uzo Aduba.

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Feminismo
por Gloria Steinem:
no alto,
Gloria no palanque como
única mulher a
discursar
na
Convenção
Nacional Democrata,
em julho de 1972 na cidade de Miami,
Flórida.
Naquele evento, Gloria teve papel fundamental
ao
liderar e articular demandas políticas
voltadas para os
direitos das mulheres.
Acima, a
partir da esquerda, Gloria, as deputadas
feministas Bella
Abzug
(de pé) e Shirley
Chisholm,
e
a escritora e ativista Betty
Friedan
em Nova York,
em 1971, no evento de fundação da Bancada
Nacional das Mulheres na Política.
Abaixo,
Gloria e Betty Friedan em 1971

Mulheres na política
Polêmica e corajosa, Gloria Steinem se transformou aos poucos em uma referência, um ícone do feminismo, uma ativista de um amplo espectro de mobilizações sobre questões femininas no movimento social em muitas lutas e causas, incluindo desde os direitos reprodutivos às batalhas pela igualdade e pela participação das mulheres na política, além de criar diferentes organizações e publicações que marcaram época e continuam em plena atuação. No informe publicado como obituário nas redes sociais pela fundação que leva seu nome, Gloria é nomeada como expoente da “segunda onda” do feminismo – “com quase um século de vida bem vivido, trabalhando pela igualdade até o fim”.
Convém lembrar que se convencionou dividir o feminismo em “ondas”, cada uma com pautas específicas, como o direito ao voto, a libertação sexual, a igualdade no mercado de trabalho e as discussões sobre raça e classe social. A primeira onda, também nomeada como “precursoras”, inclui ativistas e escritoras com foco de atuação nos direitos civis das mulheres, no direito à educação formal e no direito ao voto feminino, movimento que surgiu na Inglaterra, no século 19, e no qual as militantes, conhecidas como sufragistas, chamavam a atenção em público com marchas, greves e protestos. O primeiro país a garantir o voto das mulheres foi a Nova Zelândia, em 1893. Mais de três décadas depois, em 1928, o voto foi aprovado no Reino Unido. No Brasil, as mulheres conquistaram o direito de votar em 1932.
No período considerado como começo dos ideais pelos direitos femininos, a partir do século 17 e até o começo do século 20, alcançam destaque nomes como Sor Juana Inés de la Cruz (1648–1695), pioneira do protofeminismo nas Américas, nascida no México, que transformou a vida religiosa no convento em dedicação para estudar e escrever poesias, peças de teatro e ensaios que desafiavam o patriarcado e defendiam o direito das mulheres ao conhecimento; ou Mary Wollstonecraft (1759-1797), escritora nascida na Inglaterra, esposa do célebre precursor do anarquismo, o filósofo William Godwin, e mãe da também escritora Mary Shelley, autora de “Frankenstein”. Considerada a fundadora da filosofia feminista, Mary foi defensora de uma educação igualitária para homens e mulheres, de uma rejeição ao papel único de vida doméstica e de submissão aos homens, que era uma imposição para as mulheres em sua época. Em sua obra mais famosa, “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, de 1792, ela argumentava que as mulheres não são naturalmente inferiores aos homens, mas pareciam ser por falta de acesso à educação.

Feminismo
por Gloria Steinem:
acima,
Gloria
e
outras ativistas participam de
um
ato público em Washington em 1979.
Abaixo, as sufragistas Annie
Kenney
e
Christabel
Pankhurst,
lideranças do movimento
pelo voto feminino no Reino Unido em
1903
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Antecedentes
na História
Entre outros nomes, sempre lembradas como
pioneiras do feminismo, estão Olympe de Gouges (1748-1793),
pseudônimo de Marie Gouze, também escritora, nascida na França,
com importante atuação na Revolução Francesa, militante da
democracia e da atuação das mulheres na política; e Sojourner
Truth (1797-1883), nascida escravizada em Nova York, que conseguiu
escapar com sua filha pequena para a liberdade em 1826 e conquistar
considerável projeção como abolicionista e ativista dos direitos
das mulheres afro-americanas. Dos seus textos mais conhecidos, é
especialmente comovente seu discurso “E não sou uma mulher?”,
que expôs a exclusão das mulheres negras dentro dos primeiros
movimentos feministas.
Há alguns livros publicados no Brasil que ajudam a entender a cronologia, os conceitos e os nomes que moldaram cada onda do feminismo e os principais nomes por trás de cada período, com destaque para “Feminismo em Comum: Para todas, todes e todos” (Editora Rosa dos Tempos, 2018), da filósofa Marcia Tiburi; e “O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras” (Editora Rosa dos Tempos, 2018), de bell hooks, pseudônimo adotado por Gloria Jean Watkins (1952-2021) para homenagear sua avó chamada Bell Blair Hooks, uma mulher conhecida por falar a verdade sem medo. A autora, nascida em Kentucky, Estados Unidos, decidiu adotar o pseudônimo, em letras minúsculas, para tentar, segundo ela própria, colocar o foco de seus leitores nas suas ideias e não na fama de seu nome ou de sua imagem pessoal.

Feminismo
por Gloria Steinem:
acima,
Gloria
em
fotografia da década de 1970.
Abaixo, em fotografia da década
de 1920,
a sufragista Alice
Paul,
que apresentou
ao Congresso dos EUA, em 1923,
a
emenda constitucional
que estabelecia
garantias para
a igualdade de
gênero

O Segundo Sexo
Também merece recomendação, entre os estudos didáticos sobre o tema, “Feminismos: Uma história global” (Companhia das Letras, 2022), da historiadora britânica Lucy Delap, que parte de oito grandes temas ― sonhos, ideias, espaços, objetos, visuais, sentimentos, ações e canções ― para examinar as diferentes formas pelas quais mulheres se mobilizaram pela igualdade de gênero ao redor do mundo, abrangendo diversas revoluções, religiões e lutas anticoloniais. Há outros livros importantes, que se tornaram referência sobre o feminismo, escritos por autoras da “segunda onda”.
Entre as autoras deste período, que produziram obras que ganharam a condição de clássicos sobre a questão feminina, estão a filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), autora de “O Segundo Sexo”, de 1949, publicado pela editora Nova Fronteira; a historiadora austríaca Gerda Lerner (1920-2013), autora de “A Criação do Patriarcado” e “A Criação da Consciência Feminista”, ambos publicados pela Editora Cultrix; e a escritora e ativista do feminismo Betty Friedan (1921-2006), nascida em Illinois, EUA, autora de “A Mística Feminina”, de 1963, publicado pela Rosa dos Tempos.
Outra
escritora e pensadora do mesmo período é Susan Sontag (1933-2004),
que
não era considerada uma militante tradicional do feminismo, mas sim
uma intelectual independente e “dissonante”. Embora sempre
tivesse apoiado publicamente e de maneira firme as causas da
emancipação feminina e a autonomia das mulheres, Sontag, que recusava a
militância organizada, publicou ensaios brilhantes que são referências fundamentais sobre o tema. A maioria destas
reflexões foi escrita e publicada na década de 1970, em jornais e
revistas, durante a segunda onda do feminismo, e depois reunida no
livro póstumo de 2023 “Sobre as Mulheres” (On Women), organizado
por seu filho David Rieff e publicado
no Brasil pela Companhia das Letras.
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Feminismo
por Gloria Steinem:
acima,
a
partir da esquerda, Gloria,
o
comediante
Dick
Gregory,
a escritora Betty
Friedan
e
a ativista Patricia
Roberts Harris
na marcha
da Emenda da Igualdade de Direitos,
em
Washington, 1978. Abaixo,
Gloria na
redação da revista
Ms.
com as jornalistas
Freada
Klein e Karen Savigne

Questões de gênero
Nas vertentes contemporâneas, também chamadas de terceira e quarta ondas do feminismo, no período que vem da segunda metade do século 20 à atualidade, além das autoras e ativistas já citadas, conquistaram destaque nomes como Angela Davis, filósofa, professora e militante de esquerda nascida em 1944 no Alabama, EUA, autora de “Mulheres, Raça e Classe”, de 1981, publicado no Brasil pela Boitempo Editorial. Na sua militância política e no livro, que também se tornou uma referência fundamental sobre o assunto, Angela Davis demonstra como a opressão pelas mulheres não pode ser separada da exploração econômica e do racismo estrutural.
Também
são destaque no cenário contemporâneo nomes como Judith
Butler, filósofa
e professora nascida
em 1956 em Ohio, EUA, autora
de “Problemas de Gênero”, de 2003 (publicado pela editora
Civilização Brasileira), que apresenta uma crítica à questão da
identidade, um dos fundamentos do feminismo,
argumentando que o gênero é uma performance construída socialmente
e culturalmente, e não uma essência biológica; e Naomi Wolf,
jornalista
nascida
em San Francisco, EUA, em 1962, autora
de “O Mito da Beleza”, de 1990, publicado no Brasil pela Rosa dos
Tempos, em que revela como as imagens de beleza e juventude são
cruelmente usadas contra as mulheres
para evitar que sejam cumpridos os ideais feministas de emancipação
intelectual, sexual e econômica conquistados a partir dos anos 1970.
Feminismo
por Gloria Steinem:
acima,
Gloria
em uma conferência em Nova York
em 1979. Abaixo, uma policial
revista e
prende
Gloria durante
um protesto
contra
o
apartheid do lado de fora da embaixada
da África do Sul em
Washington, 1984
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América Latina
Além das ativistas e autoras da Europa e dos Estados Unidos, há as autoras da América Latina e do Brasil que abordam as questões do feminismo e da condição feminina, incluindo as pioneiras no século 19 e no começo do século 20, entre elas a brasileira Nísia Floresta (1810-1885), considerada a primeira feminista do Brasil, autora de “Direitos da Mulheres e Injustiças dos Homens” (1832), defendendo que a educação era a chave para a libertação feminina; Ana Betancourt (1832-1901), ativista da independência de Cuba que, em pleno século 19, discursou perante a Assembleia Constitucional exigindo que a libertação dos escravizados e a emancipação das mulheres fossem colocadas no mesmo patamar; Paulina Luisi (1875-1950), nascida no Uruguai, primeira mulher a se formar em medicina e uma das maiores líderes sufragistas da América Latina; e Teresa de La Parra (1889-1936), nascida na Venezuela, autora do romance revolucionário “Ifigênia” (1924), uma crítica severa e fundamentada contra a sociedade patriarcal.
Questões da interseccionalidade entre raça e classe social, diversidade cultural, identidade de gênero, feminismo decolonial, combate à violência e resistência às ditaduras militares no Brasil e em países da América Latina também surgem em obras teóricas e no ativismo de várias brasileiras nas últimas décadas. Um dos nomes de destaque é Lélia Gonzalez (1935-1994), que formulou o conceito de Amefricanidade para argumentar que o feminismo precisava “falar português com sotaque africano”, autora da coletânea de ensaios “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”.
Outro nome importante neste cenário é Eunice Paiva (1929-2018), advogada e ativista que se tornou um símbolo de resistência à Ditadura Militar após a prisão, a tortura e o desaparecimento de seu marido Rubens Paiva (tema do filme de Walter Salles “Ainda Estou Aqui”), atuando na defesa dos direitos indígenas e na luta por justiça e memória. Por sua trajetória de liderança e resiliência, sua militância pelos direitos humanos, sua resistência contra a ditadura militar e sua mobilização pela criação da Comissão Nacional da Verdade, somando-se à história das mulheres que lideraram os movimentos de familiares de mortos e desaparecidos políticos na América Latina, Eunice pode ser considerada uma expressão prática e profunda do feminismo emancipatório e da resistência feminina.
No cenário contemporâneo também alcançam destaque escritoras como Ana
Maria Machado, militante feminista desde o final dos anos 1960,
exilada
pela ditadura militar e autora
de “A Audácia desta Mulher”, de 1999, que
apresenta personagens que questionam imposições machistas e que tem
um diálogo crítico com “Dom Casmurro”, que Machado de Assis
publicou em 1899; Ana Maria Gonçalves, alinhada com as bases
teóricas e práticas do feminismo negro, autora do romance épico
“Um Defeito de Cor”, de 2006; e
Conceição Evaristo, autora de “Ponciá Vicêncio” (2003) e
outras obras que
retratam as marcas da escravidão e do machismo na vida das
mulheres negras do Brasil.

Feminismo
por Gloria Steinem:
acima,
Gloria
durante
um
comício
em Nova York,
em 1968. Abaixo, a capa da primeira
edição
da Ms.
Magazine,
lançada em 1972
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Memórias da transgressão
A lista de nomes de autoras e ativistas do feminismo na América Latina, do final do século 19 à atualidade, é extensa e inclui, entre outros nomes, mulheres da Argentina (María Lugones, Rita Segato, Dora Barrancos, Samanta Schweblin, Mariana Enriquez, Chicha Mariani), do Uruguai (Idea Vilariño, Armonía Somers, Silvia Rodríguez Villamil, Lilian Celiberti, Mónica Michelena, Constanza Moreira), da Bolívia (Julieta Paredes), da Nicarágua (Gioconda Belli), de Honduras (Berta Cáceres), da República Dominicana (Yuderkys Espinosa Miñoso, Ochy Curiel), do México (Laureana Wright González, Hermila Galindo, Rosario Castellanos, Marcela Lagarde, Marta Lamas), de Cuba (Mariblanca Sabas Alomá, Vilma Espín, Haydée Santamaría, Teresa Díaz Canals, Mariela Castro Espín). Para concluir, retornamos à ativista e jornalista Gloria Steinem, que motivou este artigo, e que também tem importantes livros publicados sobre as questões e as lutas políticas do movimento feminista.
Dois
dos principais livros de Gloria Steinem têm traduções no Brasil. O
mais recente é “Minha Vida na Estrada” (Editora Bertrand
Brasil), adaptado para o filme “As Vidas de Gloria”, relato
autobiográfico e memorialista que apresenta sua
jornada como jornalista e ativista da
revolução feminista. O outro livro é “Memórias da Transgressão”
(Outrageous
Acts and Everyday Rebellions),
de
1983,
publicado
pela
Rosa
dos Tempos
em
1997,
reunindo
uma coleção de ensaios e artigos mais provocativos, incluindo a
reportagem de 1963, de
quando trabalhou disfarçada como coelhinha da Playboy para denunciar
a exploração das mulheres, e
o ensaio satírico e polêmico “Se os homens pudessem menstruar”,
publicado em 1978 na revista Cosmopolitan.
Feminismo
por Gloria Steinem:
acima,
Gloria
no
apartamento em que morava,
em Nova York, na
década de 1970.
Abaixo,
participando
de um
protesto
nas
ruas na década de 1980
No
final de página, Gloria Steinem durante
uma
manifestação
em Washington
em 2004,
organizada
por
uma das entidades que ela
ajudou
a criar, a
Equality
Now,
que luta pela
igualdade
de direitos e equidade de gênero;
a
editora da Vogue, Anna
Wintour,
ao lado de
Gloria
em um evento em Nova York em 2023;
e
Gloria
com
Kirsten
Alley,
atriz do filme
"Diário
de uma Coelhinha”,
na
redação da
Ms.
Magazine, na época do lançamento do filme,
em
1985, com um pôster da foto de 1963 com
Gloria
disfarçada de coelhinha da Playboy
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Revolução e autoestima
Há ainda os célebres discursos de Gloria Steinem em manifestações e eventos, reportagens em jornais e revistas, e outros livros que aguardam publicação no Brasil, entre eles um estudo sobre o mito de Marilyn Monroe (“Marilyn: Norma Jean”, de 1986); um longo ensaio sobre a construção da autoestima e da autonomia das mulheres (“Revolução Interior: Um Livro sobre Autoestima”, de 1992); uma seleção de ensaios sobre questões de gênero, raça, idade e relações de poder (“Moving Beyond Words”, de 1994); um estudo sobre maturidade e envelhecimento (“Doing Sixty & Seventy”, de 2006); “James Baldwin, An Original”, perfil biográfico sobre o escritor e ativista, resultado de uma série de reportagens nos anos 1960 para a revista Vogue, editado em livro em 2016; e “The Truth Will Set You Free, But First It Will Piss You Off!” (“A verdade vai te libertar, mas primeiro vai te deixar uma fera!”), de 2019, com reflexões e palavras de ordem sobre o feminismo, a rebeldia e o ativismo social, com ilustrações de Samantha Dion Baker.
“Muitos procuram a pessoa certa, mas poucos se esforçam para ser a pessoa certa” – a frase que foi um dos lemas de Gloria em várias ocasiões, está no início do livro de 2019. O recorte de algumas destas frases isoladas talvez possa levar os mais apressados, nos dias atuais, a confundir seu ativismo e suas palavras de mobilização política com o conteúdo dos famigerados manuais de autoajuda ou com a epidemia de “coaches” que infestam as redes sociais da internet, mas apenas um pouco de atenção será suficiente para entender que cada uma de suas frases ou palavras de ordem traduz a perspectiva de encanto e coragem que ela veio construindo desde sua adolescência e juventude no final dos anos 1940. As ideias de Gloria Steinem também podem soar como diagnóstico e estímulo para o futuro. Um exemplo: “Os homens são mais apreciados quando vencem; as mulheres são mais apreciadas quando perdem; é assim que o patriarcado se impõe todos os dias”.
por
José Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO, José Antônio. Feminismo por Gloria Steinem. In: Blog Semióticas, 3 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/feminismo-por-gloria-steinem.html (acesso em .../.../…).
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