quarta-feira, 2 de julho de 2014

O primeiro Warhol on-line








Quase 30 anos depois de sua morte, em 1987, Andy Warhol, o Midas da Pop Art, continua surpreendente. Em 2013, a surpresa foi a coleção de 300 belos desenhos inéditos do jovem Warhol  –  descoberta pelo curador alemão Daniel Blau nos arquivos da Andy Warhol Foundation, em Nova York. Agora, a última novidade são as experiências pioneiras de mister Warhol com a arte em computadores: uma série de obras realizadas por ele em um Commodore Amiga 1000, o primeiro modelo lançado no mercado, em 1985.

As primeiras obras digitais de Warhol, até então desconhecidas, foram recuperadas a partir de antigos disquetes do museu norte-americano que conserva seu espólio em sua terra-natal, Pittsburgh, Pensilvânia. Autenticada como criação original pelos especialistas e pesquisadores do Andy Warhol Museum of Art, a série conta com 12 trabalhos digitais feitos por Warhol – e, não por acaso, inclui os temas favoritos do artista: seus autorretratos, que anteciparam em muitas décadas a moda atual dos "selfies", retratos de Marilyn Monroe, recriações de obras-primas da história da arte, variações sobre imagens publicitárias das latas de sopa Campbell e das bananas da capa do LP do Velvet Underground e também manipulações sobre fotos da musa de Warhol na época, a atriz e cantora Debbie Harry, da banda Blondie.

Vista pelo público atual, que convive com todo o avanço dos equipamentos digitais e com a popularização dos filtros do tipo Instagram, a série pode parecer corriqueira e até primitiva – mas ganha outro sentido quando se descobre que foi a primeira série de pinturas e desenhos realizada diretamente em computadores. A história da descoberta desta façanha com os primeiros computadores começou em 2011, quando o nova-iorquino Cory Arcangel, pesquisador de arte e tecnologia, descobriu no Youtube um documentário de dois minutos em que o próprio Warhol, em 1985, experimentava em um computador a fusão de efeitos cromáticos sobre imagens de Debbie Harry.







Amostras da arte pioneira de Warhol no computador
Commodore Amiga 1000, em 1985: no alto, 
fotografia colorizada de Marilyn Monroe.
Acima e abaixo, Warhol e Debbie Harry na 
apresentação do equipamento no Lincoln Center





O vídeo que Arcangel viu fez parte da campanha de marketing para o lançamento mundial do Amiga 1000 e está citado nas biografias de Warhol, mas sem nenhum destaque de importância por parte de seus biógrafos. Três décadas depois, graças à curiosidade de Cory Arcangel, se descobre que, mais que uma peça publicitária, o vídeo registra mais uma interface do gênio inventivo de Warhol – suas experiências estão, na verdade, no centro de desenvolvimento do que passaria nas décadas seguintes a ser chamado de arte digital, e Warhol, personalidade da Pop Art, surge agora como nome central na invenção de processos e ferramentas que dariam origem a vários softwares hoje populares e às mais avançadas técnicas do Photoshop.



Disquetes inacessíveis



Ao assistir ao vídeo no Youtube, Cory Arcangel quis saber o que fora feito do retrato de Debbie Harry. As investigações o levaram ao Andy Warhol Museum, onde a curadora Tina Kukielski informou que uma única cópia da imagem teria sido impressa por Warhol e estava há anos em exposição no próprio museu – mas ninguém sabia do destino das outras obras digitais produzidas nas tais experiências pioneiras de Warhol. Arcangel não desistiu e continuou a busca fazendo contato com outras instituições e com representantes da empresa que fabricou em 1985 o Commodore Amiga 1000 – e que iria à falência poucos anos depois, superada pela concorrência, especialmente pelo Macintosh da Apple, que chegou ao mercado no final de 1984. 







 
Com apoio de Kukielski e da Universidade de Pittsburgh, Arcangel montou uma equipe de investigação e, depois de meses de trabalho, descobriram que as obras digitais de Warhol estavam intactas, gravadas em disquetes flexíveis para armazenamento de dados, antigos e obsoletos, que haviam sido transferidos para o mesmo museu em 1994 e guardados em um depósito de acesso restrito. O trabalho seguinte foi um desafio mais minucioso e difícil: encontrar equipamentos compatíveis para “ler” e “imprimir” o conteúdo dos disquetes que até então estavam arquivados com o rótulo de “inacessíveis”.

O breve documentário disponível no Youtube, que registra a experiência pioneira de Warhol em 1985, é também uma aula sobre o processo criativo do artista. A sessão, apresentada para imprensa e convidados no Lincoln Center, em Nova York, começa com Warhol capturando através do computador imagens de Debbie Harry. Depois, manipula as imagens na tela, testando alguns dos comandos no teclado do equipamento. 







Warhol no computador: Cory Arcangel (de boné azul) 
à frente da equipe que resgatou os antigos disquetes. 
Abaixo, o artista na capa da revista promocional 
para lançamento do Commodore Amiga 1000


Manipulações de forma e cor



Pelas imagens do documentário de 1985 é possível perceber que os resultados, visualizados na tela do computador, lembram bastante as estampas em serigrafias de estrelas como Marilyn e Elvis – com as variações que Warhol explorou quase ao infinito, desde a década de 1960, em suas permutações de cor. Com uma diferença: Warhol estava começando o que nenhum outro artista havia feito antes.

A desenvoltura que Warhol demonstra, no vídeo, diante dos comandos do Commodore Amiga 1000, também deixa claro que o artista já havia adquirido uma certa “intimidade” com o equipamento. Aliás, o que se sabe é que o Commodore Amiga 1000 nem foi o primeiro computador que Warhol testou. Na biografia de Steve Jobs (lançada no Brasil pela Companhia das Letras), o autor, Walter Isaacson, descreve alguns dos encontros entre Warhol e o biografado e também a primeira vez que o artista interagiu com a nova tecnologia.





O primeiro contato de Warhol com um computador, segundo Isaacson, aconteceu no dia 9 de outubro de 1984, na festa de aniversário de nove anos de Sean, filho de John Lennon e Yoko Ono. Foi durante a reunião de amigos, no apartamento do casal, no famigerado edifício Dakota, em Nova York. Naquela noite, os diálogos entre Jobs e Warhol, de acordo com o biógrafo, foram tão breves quanto enigmáticos.

No meio das estrelas das artes e do cinema presentes no encontro, Jobs, co-fundador da Apple Computer, levou de presente para Sean um computador Macintosh. Warhol observa, no começo sem muita curiosidade, quando Jobs mostra a Sean como trabalhar com a máquina. Assim que o garoto se distrai com outros presentes, Warhol, incentivado pelo amigo e artista do grafite Keith Haring, toma seu lugar na frente do equipamento, enquanto Jobs tenta explicar como tudo funciona e como usar um mouse. 










A arte pioneira de Warhol no Commodore Amiga 1000:
acima, o artista em autorretratos e uma de suas fixações,
as latas de sopa Campbell. Abaixo, sua versão para 
a Vênus de Boticelli; o equipamento original usado
pelo artista, em foto de 1985; e o vídeo completo 
que registra a experiência realizada com a presença
da imprensa e convidados no Lincoln Center 

 

Walter Isaacson descreve a felicidade de Jobs com o interesse que ele viu despertar em Warhol. Demorou um pouco, mas finalmente Warhol mostra habilidade com a nova ferramenta e fica ali, desenhando na tela, durante horas, como uma criança encantada com um brinquedo novo. Poucos meses depois, Warhol, artista profissional, atento aos desafios de sua época, fecharia contrato com os concorrentes de Jobs para a apresentação do Commodore Amiga 1000 no Lincoln Center.


por José Antônio Orlando.



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