25 de outubro de 2020

Retratos do amor proibido


 




Todos nós estamos na sarjeta,

mas alguns sabem ver as estrelas.


                                                                                                                                ––  Oscar Wilde. 

 



Há uma frase célebre e melancólica sempre citada e lembrada em situações variadas como uma espécie de definição para o que seja a homossexualidade tomada como tabu e como paixão proibida: um amor que não ousa dizer o seu nome. Escrita por Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde, ou simplesmente, como ele preferia, Oscar Wilde, a frase está em “De Profundis”, livro publicado no Brasil pela editora L&PM – um ensaio poético apresentado na forma de uma carta extensa e comovente, ao mesmo tempo um documento de acusação e uma confissão apaixonada, que Wilde endereçou a seu amante e algoz Alfred Douglas em 1897, enquanto estava na prisão cumprindo pena, condenado por “comportamento indecente”. A frase, na verdade, havia aparecido dois anos antes, no também célebre e trágico julgamento de Wilde em 1895. Assim que o poeta e escritor pronunciou a frase em seu depoimento diante do tribunal, o promotor de justiça perguntou: “Mas o que é o amor que não ousa dizer o seu nome?”

A resposta de Wilde está em transcrição, na íntegra,
em um livro publicado no Brasil pela Companhia das Letras: a biografia definitiva “Oscar Wilde”, escrita por Richard Ellmann em 1988 e pela qual o biógrafo venceu o Prêmio Pulitzer. As palavras escolhidas para o depoimento no tribunal têm as marcas de sinceridade e sutileza: “O amor que não ousa dizer o seu nome, neste século, caro senhor, é uma grande afeição de um homem mais velho por um outro mais novo, tal como havia no texto bíblico entre Davi e Jônatas, tal como havia na Grécia Antiga e que Platão transformou na base de sua filosofia, tal como alguém pode facilmente encontrar nos sonetos de Michelangelo e de Shakespeare. E é por causa deste amor que não ousa dizer o seu nome que fui colocado onde estou agora. Nele, não há nada que não seja natural, porque ele é a mais nobre forma de afeição. É assim que deve ser, mas o mundo não entende. O mundo o ridiculariza e às vezes coloca alguém sob tortura por causa dele”. Neste ponto, os aplausos do público interrompem o depoimento e o juiz suspende a sessão. Quando a sessão é finalmente retomada, Wilde termina condenado e preso.









Retratos do amor proibido: no alto, Stephen Fry
e Jude Law em cena de "Wilde", filme de 1997
com direção de Brian Gilbert e roteiro baseado
na biografia escrita por Richard Ellmann. Acima,
Oscar Wilde e seu amante, lorde Alfred Douglas,
e a capa da edição nacional de "De Profundis",
em edição da L&PM. Abaixo, a capa e a contracapa
do livro de Hugh Nini e Nead Treadwell








Histórias de anônimos


O amor que não ousa dizer o seu nome também poderia ter sido o título escolhido pelos autores Hugh Nini e Neal Treadwell para “Loving: A Photographic History of Men in Love 1850-1950”, livro em lançamento da editora 5 Continents nas versões em inglês ou em italiano, na verdade um catálogo ilustrado com 336 páginas (no formato 22 x 28cm) e 320 imagens que contam, em poucas palavras, histórias de amor e afeto entre homens, na grande maioria anônimos. A coleção de fotografias, reunida pelos autores em décadas de pesquisa em antiquários, em feiras, em livrarias e em antigos álbuns de família, além das histórias de homens com coragem suficiente para irem contra a lei e encontrar o amor nos braços um do outro, também apresenta a evolução dos processos técnicos em um século da história da fotografia, de 1850 a 1950, revelando uma variedade de imagens registradas em sua forma original em ambrótipos, daguerreótipos, negativos de vidro, chapas de metal, cartões de gabinete, cartões postais e instantâneos impressos em diversos formatos de papel.


O livro de Hugh Nini e Neal Treadwell disparou nas listas de mais vendidos desde seu lançamento, em 14 de outubro de 2020. Mas o que diz aos leitores e ao público de 2020 esta coleção de imagens antigas retiradas da intimidade de homens apaixonados e fotografados em uma época em que a demonstração de tal amor era uma atitude totalmente ilegal, indecente e imoral? O que procuram hoje os leitores e o público em geral nos rostos anônimos dessas pessoas de outros séculos que ousaram desafiar os costumes de seu tempo e tiveram o atrevimento de registrar em fotografias o seu amor proibido?











Retratos do amor proibido: no alto, Hugh Nini
e Neal Treadwell, seguidos de uma panorâmica
do acervo reunido no livro e, acima, a fotografia
mais antiga da coleção, datada de 1850. Abaixo,

amostras selecionadas por Nini e Treadwell:
1) fotografia sem data e sem identificação,
possivelmente da década de 1920, com a dupla
mostrando o cartaz onde se lê o aviso
"não casados, mas dispostos a ser";
2) cartão-postal de 1910 com a identificação
dos nomes E. Thieniann & M. Hunter












São estas questões que abrem o livro em breves textos escritos pelos autores Hugh Nini e Neal Treadwell e por Paolo Maria Noseda, pesquisador de história da arte e da fotografia, destacando que são retratos do amor romântico de homens que estavam à frente de seu tempo, registrados por fotógrafos que também permaneceram anônimos, nos mais variados contextos, incluindo cenas em ambientes públicos, praças, clubes e praias, ambientes privados e domésticos e até casais em uniformes e instalações militares, o que amplificava o risco potencial de repressão e punição severa para os envolvidos. O interesse atual pelos retratos de anônimos em relações amorosas do passado vem tão somente da simples curiosidade pela intimidade alheia? Vem da situação evidente de erotismo e exibicionismo de homens apaixonados e felizes posando diante das câmeras? Vem da percepção sobre o perigo iminente a que cada um se expôs ao desobedecer as regras rígidas e autoritárias da moralidade vigente?


Olhares irônicos e sorrisos


A maioria das fotos identificadas no livro de Hugh Nini e Neal Treadwell vem dos Estados Unidos, mas também há registros situados em outros países, entre eles Brasil, Austrália, Bulgária, Canadá, Croácia, França, Alemanha, Itália, Grécia, Japão, Letônia, Reino Unido, Sérvia, Rússia – assim como há imagens de casais sem data e sem localização, posicionados na ordem cronológica que o catálogo apresenta a partir de informações sobre as técnicas originais de registro ou de reprodução dos retratos ou até mesmo a partir dos trajes usados e outros objetos presentes na cena. O que há em comum em todas as imagens são casais masculinos posicionados como únicos sujeitos da fotografia, às vezes com um olhar irônico ou com sorrisos para disfarçar os impedimentos e dificuldades daquele amor proibido e reconhecido pelos detalhes da linguagem corporal, seja em gestos explícitos, seja em poses de intenção erótica de maior ou menor sutileza.









Retratos do amor proibido: imagens do acervo
publicado no livro de Hugh Nini 
e Neal Treadwell,
a partir do alto, 1) fotografia de 1951 com a inscrição
Davis & J.C.; 2) fotografia sem data e sem identificação,
possivelmente da década de 1940 (note a câmera
fotográfica portátil sobre a caixa à esquerda).
Abaixo: 1) cartão de gabinete com a data 1880
e com a inscrição McInturff, Steve Book,
Delaware O.; e 2) fotografia sem data,
possivelmente da década de 1920






.


.


Nos breves ensaios que abrem o livro, os autores comentam sobre como a coleção teve início e como foi a experiência de encontrar a fotografia que deu origem ao acervo que reuniram depois em viagens pelos Estados Unidos, pelo Canadá e por países da Europa. “Nossa coleção começou há 20 anos, quando encontramos uma antiga fotografia que nos impressionou muito. O assunto naquela foto desgastada pelo tempo eram dois jovens se abraçando e olhando um para o outro, claramente apaixonados. Olhamos para a foto e ela parecia olhar para nós. Foi um momento singular encontrar aqueles jovens porque eles se abraçavam e se olhavam de uma maneira que só duas pessoas apaixonadas fariam. Pelas anotações no verso, a foto era da década de 1920. A expressão do amor que compartilharam também revelou muita coragem, porque tirar essa foto numa época em que seriam tão menos compreendidos do que hoje, não foi isento de riscos e perigos. Ficamos intrigados com o fato de que uma foto como essa pudesse ter sobrevivido até o século 21. Quem eram eles? E como uma foto tão íntima foi parar em uma loja de antiguidades em Dallas, no Texas, junto com estoques de fotos antigas sem nenhum interesse?”


Evidências do amor


As dúvidas sobre as histórias reais dos personagens do passado registrados nas antigas fotografias reunidas no livro ainda permanecem, porque são poucos os casos em que o mistério é esclarecido com identificação completa de nomes, datas e desfechos das relações que as imagens apenas sugerem. Mas as dúvidas não esclarecidas não reduziram nem o interesse dos leitores, que em pouco tempo elevaram o livro às listas de mais vendidos, nem o impacto do lançamento que teve resenhas de destaque surpreendente em jornais como “The New York Times”, “The Washington Post”, “The Guardian” e outros veículos de imprensa respeitados pela seriedade que talvez, até a bem pouco tempo atrás, apenas destinassem algum comentário sobre o livro para notas de pé de página ou de colunas sociais sobre amenidades.









Retratos do amor proibido: imagens do acervo
publicado no livro de Hugh Nini 
e Neal Treadwell
a partir do alto, 1) fotografia sem data e sem
identificação; 2) o beijo à beira do abismo
em Rocky Nook, na Baía de Kingston em
Massachussets, Estados Unidos, fotografia
datada de 1910. Abaixo, 1) soldados
uniformização sem data e sem identificação;
2) retrato em chapa de metal (Tintype) sem
data e sem identificação; 3) fotografia sem
data com a inscrição John & Geo;
4) duas fotografias datadas de 1900,
ambas sem identificação; 5) uma provável
cerimônia de casamento com o casal sob
uma sombrinha, em fotografia da década de
1920; 6) fotografia datada de 1949 com a
inscrição Frank & I; 7) e 8) fotografias sem
identificação, possivelmente na Riviera Francesa
na década de 1940; e 9) o beijo em fotografia
sem data e sem identificação











Também houve polêmicas, entre elas acusações de que o livro de Hugh Nini e Neal Treadwell seria um plágio de livros já publicados sobre o mesmo tema, sendo o caso mais evidente um livro lançado em 1998 pela St. Martin’s Press de Nova York, uma das maiores editoras de língua inglesa, também apresentando uma coleção de fotografias e até com título semelhante e abordagem sobre o mesmo período histórico, “Affectionate Men: A Photographic History of Male Couples, 1850-1950”, de Russell Bush. Mas a dupla de autores e colecionadores Nini e Treadwell se defende com o argumento de que as imagens que reuniram são inéditas, em sua imensa maioria, e com o diferencial das evidências afetivas relacionadas para todos os casais fotografados. Eles revelam os critérios que usaram no momento da edição, quando selecionavam as imagens: os gestos e o olhar das pessoas fotografadas. “Há um olhar inconfundível que duas pessoas têm quando estão apaixonadas. Você não pode fabricá-lo. E se você está passando por isso, não pode esconder”. O olhar dos casais reunidos nas fotografias do livro de Hugh Nini e Neal Treadwell desafia os observadores mais atentos e talvez possa confirmar o argumento dos autores. Ou não.


por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Retratos do amor proibido. In: _____. Blog Semióticas, 25 de outubro de 2020. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2020/10/retratos-do-amor-proibido.html (acessado em .../.../...).


Para comprar o livro  De Profundis, de Oscar Wilde,   clique aqui.




Para comprar o livro  Oscar Wilde, Biografia, de Richard Ellmann,   clique aqui.





Para comprar o livro  Loving: A Photographic History of Men in Love,   clique aqui.













Outras páginas de Semióticas

Páginas recentes