sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lina da Casa de Vidro















Arquitetura é a vontade
de uma época traduzida
em espaço.

Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969)



O suíço Hans Ulrich Obrist surpreendeu a todos quando, em entrevista à revista britânica “Art Review”, destacou a importância e a superioridade da arquitetura do Brasil no cenário internacional. Como se não bastasse, Obrist deixou de lado a obra monumental de Oscar Niemeyer e elegeu a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi – onde a arquiteta viveu como o marido, Pietro Maria Bardi, por mais de 40 anos, em São Paulo – como seu projeto preferido da arquitetura brasileira.

A surpresa com a avaliação do especialista suíço sobre Lina Bo Bardi e sobre a arquitetura do Brasil ganhou maiores proporções porque Obrist é o que se pode chamar de autoridade: diretor de projetos internacionais da cultuada galeria Serpentine, em Londres, ele foi apontado, em pesquisa feita com dezenas de especialistas pela mesma revista "Art Review", a mais conceituada “bíblia” da arte e da arquitetura contemporâneas, como a personalidade mais influente das artes plásticas em nossa época. Obrist também ostenta um currículo invejável, com nada menos que 200 exposições realizadas, além de 30 livros publicados, entre eles “Entrevistas”, lançado no Brasil em 2009 pela Editora Cobogó.






   


O casal Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi na
Casa de Vidro, marco da arquitetura brasileira,
criação de Lina Bo Bardi e residência do casal 
durante mais de 40 anos. Abaixo, Lina em Salvador,
Bahia, no início da década de 1960, e com 
Glauber Rocha (abaixado) e equipe técnica do
filme Deus e o Diabo na Terra do Sol,
em Canudos, no sertão da Bahia, em 1963




Se Oscar Niemeyer costuma monopolizar as atenções quando se fala de arquitetura brasileira, por que um especialista como Obrist escolheu Lina Bo Bardi? "Converso com artistas de vários países todos os dias e muitos me falam de Lina. Existe uma real obsessão em torno dela, o que não é nada surpreendente. Ela tem tudo a ver com o que há de mais interessante na cultura brasileira da segunda metade do século 20 e também com a maior parte dos projetos que venho desenvolvendo", explicou Obrist, na entrevista polêmica concedida à “Art Review” (para acessar a entrevista, clique aqui).




Achillina Bo




Italiana de nascimento e brasileira por escolha a partir de 1946, Achillina Bo, mais conhecida como Lina Bo Bardi (Roma, 1914 – São Paulo, 1992), que exatamente hoje completaria 100 anos, foi uma liderança capital nos rumos da cultura brasileira, a partir da década de 1950, exercendo influência central na segunda geração do Modernismo no Brasil e em artistas fundamentais de várias áreas, como Glauber Rocha, Caetano Veloso e Hélio Oiticica, entre muitos outros do Concretismo, do Cinema Novo e do Tropicalismo – apesar de, para a maioria dos leigos, sempre ter sido ofuscada pelo trabalho e pela presença de Niemeyer, outro gigante incontestável da arquitetura. 
 



 

Depois de deixar para trás a Itália arrasada pela Segunda Guerra, Lina passou a construir sua bagagem de referência sobre um entendimento muito particular do Brasil e da cultura brasileira em geral, a partir da arquitetura, entre interfaces do erudito e o popular – em estruturas planejadas sobre figuras geométricas básicas (como quadrados e triângulos), em lajes planas e em materiais de simplicidade rústica para complementos e revestimentos, tais como madeira, cerâmica, sapé.

O destaque de Obrist e outros especialistas, do Brasil e do cenário internacional, sobre o papel capital de Lina Bo Bardi, na verdade não surpreende, porque vem da importância incomparável das obras que ela produziu não só na arquitetura, mas também em atividades múltiplas. Além de profissional da arquitetura, Lina teve presença marcante como professora, como museóloga, como artista plástica e em criações e parcerias para o teatro, o cinema, as artes gráficas e o design, especialmente nos projetos para mobiliário.




Acima, Lina Bo Bardi em 1984, fotografada por
Niels Andreas. Abaixo, Lina na década de 1960,
nas obras de construção do prédio do MASP,
em São Paulo, e vista aérea atual do edifício






 

Também merece destaque, na trajetória ímpar de Lina Bo Bardi, sua atuação como mentora de projetos culturais, sua dedicação à orientação de trabalhos e à curadoria de diversas exposições. Não menos importante foi sua contribuição como editora de “Habitat”, uma revista que circulou durante uma década, a partir de 1950, abordando desde as artes populares até a arquitetura, com ênfase em questões de inovação no ambiente sociocultural brasileiro.




Criações, intervenções, restaurações




Na arquitetura, Lina Bo Bardi é sempre lembrada pela criação do Museu de Arte de São Paulo, em 1958, considerada por muitos sua obra-prima. Mas não só: no acervo das obras da arquiteta também se destacam mais de 20 projetos grandiosos e visionários de criação ou intervenção em edificações como a Casa de Cultura de Pernambuco (1963), em Recife; a Igreja do Espírito Santo do Cerrado (1976), em Uberlândia, Minas Gerais; o Solar do Unhão, transformado por ela no começo da década de 1960 em Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador; o Teatro Oficina e o SESC Pompéia, ambos em São Paulo, em 1990, além de outros projetos inconclusos, entre eles o Palácio das Indústrias de São Paulo e o Teatro Politeama, em Jundiaí (SP). 








Obras da arquiteta Lina Bo Bardi: acima, o Segundo
Subsolo e o Vão Livre do MASP, na Avenida Paulista, em
São Paulo, e Solar do Unhão, em Salvador, restaurado
e transformado no Museu de Arte Moderna da Bahia.
Abaixo, interior do Teatro Oficina, em São Paulo,
e um dos croquis para um projeto da arquiteta
 
 

Além da obra-prima consolidada na criação do MASP, um dos projetos centrais na trajetória de Lina Bo Bardi é o Instituto Pietro Maria Bardi, também conhecido como Casa de Vidro – um conjunto com uma base horizontal de concreto suspensa por tubos e revestido de vidro. Projetada em 1950 por Lina para ser a residência do casal, a Casa de Vidro abriga hoje parte da coleção de arte particular adquirida ao longo dos anos por Lina Bo e o marido, Pietro Maria Bardi (1900-1999). Lina e Pietro casaram-se em 1946 e, em seguida, trocaram a Itália pelo Brasil. Em 1951, adotaram a nacionalidade brasileira.

Logo que chegaram ao Brasil, em recepções, no Rio de Janeiro, Lina e Pietro conheceram personalidades como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Burle Marx e Assis Chateaubriand, de quem Pietro receberia o convite para fundar e dirigir um museu de arte. Do convite surgiu o projeto arquitetônico de Lina que abrigaria o MASP, o museu mais importante da América Latina. A primeira sede foi instalada em 1947, na rua Sete de Abril. Uma nova edificação começou a ser planejada por Lina em 1958 – mas a construção demoraria 10 anos para ser concluída e foi inaugurada oficialmente pela Rainha da Inglaterra, Elizabeth 2ª, em 1968.










Entre tantos projetos e áreas de atuação, Lina também sonhava em desenhar casas populares – mas os planos foram adiados por questões de conjuntura política, para além da vontade da arquiteta. Entre os projetos que nunca saíram do papel também estão a sede para um museu do Instituto Butantan e uma “floresta tropical” sob os viadutos no Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo.
 
"Eu tenho projetado algumas casas, mas só para pessoas que eu conheço. Tenho horror em projetar casas para madames”, ela confessa, em um dos textos reunidos em “Lina por escrito”, livro organizado por Silvana Rubino e Marina Grinover e publicado pela Cosac Naify em 2009. “Entre madames, sempre entra aquela conversa insípida em torno da discussão de como vão ser as cortinas..."


por José Antônio Orlando.



Para comprar o livro Lina Por Escrito,  clique aqui.




 



Obras da arquiteta Lina Bo Bardi: acima, croqui para o
bar do SESC Pompéia. Abaixo, projeto para o Vão Livre
do MASP e Lina na Casa de Vidro, fotografada em 1952











Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Páginas recentes