segunda-feira, 30 de maio de 2016

Camões para Raduan Nassar













Rico só é o homem que aprendeu,   
piedoso e humilde, a conviver com   
o tempo, aproximando-se dele com   
ternura, não contrariando suas   
disposições, não se rebelando   
contra o seu curso, não irritando   
sua corrente, estando aberto para   
o seu fluxo, brindando-o antes   
com sabedoria para receber dele   
os favores e não a sua ira.   

Raduan Nassar em “Lavoura Arcaica”.   




Foi uma premiação por unanimidade do júri: Raduan Nassar, 80 anos, venceu hoje o Prêmio Camões 2016. O escritor, que é filho de imigrantes libaneses e nasceu na cidade paulista de Pindorama, é o 12° brasileiro a receber o prêmio – considerado a mais importante distinção em literatura concedida a autores de língua portuguesa. A premiação surpreende ainda mais quando se sabe que o vencedor Raduan Nassar já anunciou ter abandonado a literatura e conta com uma trajetória de apenas três livros publicados: os romances “Lavoura Arcaica” (1975) e “Um Copo de Cólera” (1978) e o livro de contos “Menina a Caminho” (1994).

Os dois romances alcançaram sucesso internacional ainda na década de 1980, quando foram traduzidos para publicação em francês, inglês, espanhol e alemão. A popularidade aumentou com o sucesso de público e crítica para a adaptação dos dois livros para o cinema: “Um Copo de Cólera” virou filme em 1999, com direção de Aluizio Abranches e roteiro de Abranches e Flávio Tambellini; “Lavoura Arcaica” teve direção de Luiz Fernando Carvalho em 2001, com roteiro escrito por Carvalho em colaboração com o próprio Raduan Nassar.

Um Copo de Cólera”, com o casal de protagonistas vivido por Júlia Lemmertz e Alexandre Borges, recebeu seis indicações, incluindo a de Melhor Filme, no Grande Prêmio Brasil de Cinema Brasileiro no ano 2000. “Lavoura Arcaica”, que tem no elenco da saga familiar Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha e Simone Spoladore, entre outros, foi premiado na Mostra de Cinema de São Paulo e nos festivais de Brasília, Montreal, Cartagena, Havana, Buenos Aires e Guadalajara, vencendo também o Grande Prêmio Brasil de Cinema Brasileiro do ano 2002 nas categorias de Melhor Atriz (Juliana Carneiro da Cunha) e Melhor Fotografia.






Camões para Raduan Nassar: no alto
e acima, o escritor durante o encontro
com a presidenta Dilma Rousseff no
dia 31 de março de 2016, no
Palácio do Planalto, em Brasília,
fotografado por Antonio Cruz






 





Força poética da prosa



Antes de ser anunciado hoje como vencedor do Prêmio Camões 2016, Raduan Nassar também foi notícia recentemente como um dos finalistas do Prêmio Man Booker Internacional – que em maio anunciou como vencedora a escritora sul-coreana Han Kang. No informe em que anunciou o vencedor, o júri e a organização do 28º Prêmio Camões justificam a escolha com a “extraordinária qualidade da linguagem” e a “força poética da prosa” de Raduan Nassar, comparando o escritor a nomes consagrados da literatura brasileira como Clarice Lispector e Guimarães Rosa.

O informe do júri também declara que “através da ficção o autor revela, no universo da sua obra, a complexidade das relações humanas em planos dificilmente acessíveis a outros modos do discurso” – acrescentando que “muitas vezes essa revelação é agreste e incômoda, e não é raro que aborde temas considerados tabu”.






Camões para Raduan Nassar: acima,
Júlia Lemmertz e Alexandre Borges em
cena de Um Copo de Cólera, filme
de 1999 com direção de Aluizio
Abranches. Abaixo, Juliana Cordeiro
da Cunha e Selton Mello em
Lavoura Arcaica, filme de 2001
dirigido por Luiz Fernando Carvalho













O burburinho em jogo na revelação “agreste e incômoda”, que o júri do Prêmio Camões ressalta na literatura de Raduan Nassar, também se expressa em sua trajetória autobiográfica de projetos interrompidos e de alguns cursos superiores não concluídos. Depois de publicar os dois romances, o escritor decidiu pelo silêncio em relação às propostas de noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento e, a partir de meados da década de 1980, passou a viver recluso em um sítio na região de Buri, interior de São Paulo.



Inconstante e fascinante



Somente recentemente Raduan Nassar rompeu esse isolamento e começou a aparecer em público, mas sempre com escassas palavras. Em 2014, às vésperas da eleição presidencial, declarou seu apoio à candidatura de Dilma Rousseff (PT) e condenou o apoio da família de Miguel Arraes e de Eduardo Campos à candidatura Aécio Neves (PSDB). Antes, em 2012, havia doado a fazenda Lago do Sino, propriedade de sua família com 643 hectares em Buri, para que o governo Dilma instalasse um campus da Universidade Federal de São Carlos, inaugurado em março de 2014. Outra exceção foi em 31 de março de 2016, quando causou alvoroço ao surgir em um evento no Palácio do Planalto para discursar a favor da presidenta Dilma, contra o golpe que estava sendo armado e em defesa da Democracia.

Os que tentam promover a saída de Dilma arrogam-se hoje, sem pudor, como detentores da ética, mas serão execrados amanhã”, afirmou, em discurso transmitido ao vivo pela Internet, diante da presidenta e da plateia de artistas e lideranças culturais, sob aplausos incondicionais. Mesmo que a literatura de Raduan Nassar seja, há décadas, aclamada de forma francamente consensual, esta sua recente intervenção em defesa de Dilma e pela Democracia no Brasil traz à sua escolha para o Prêmio Camões uma inevitável dimensão política de repercussão internacional.





Camões para Raduan Nassar:
acima e abaixo, o escritor em
novembro de 2015 fotografado
por Eduardo Simões







Abandonei o curso científico e pulei para o clássico, abandonei um curso de letras na universidade, o curso de direito no último ano, a empresa familiar assim que meu pai faleceu”, declarou Raduan Nassar em uma das raras entrevistas, publicada em julho de 2012 pela Revista Piauí. “Abandonei ainda uma criação de coelhos, o jornalismo e outras coisas mais. Tudo somado, só levei a pecha de inconstante. Por que só quando abandonei a literatura eu teria me transformado em personagem fascinante?”

Em outra rara entrevista, publicada em novembro de 2015 pelo Blog do IMS – Instituto Moreira Salles, que também dedicou a Raduan Nassar, em setembro de 1996, uma edição completa em livro do inventário de fortuna crítica “Cadernos de Literatura Brasileira” – o escritor retorna à mesma dúvida que paira sobre muitos de seus leitores. Quando a equipe do IMS pergunta sobre o que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever, Raduan Nassar responde: “Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei.”











A resposta para a questão formulada pelo próprio escritor supõe complexidades e complexidades, por certo intangíveis – conforme apontam as reflexões que o crítico literário José Castello também apresenta sobre Raduan Nassar e sua obra bissexta no ensaio “Atrás da Máscara”, publicado por Castello no livro “Inventário das Sombras” (Editora Record, 1999). Castello compara o escritor ao lendário Arthur Rimbaud, que abandonou no auge e muito jovem Paris e as glórias da literatura para viver do tráfico de escravos e de armas no continente africano.

Raduan Nassar não suportou ser um grande escritor e desistiu da literatura para criar galinhas. Trocou a criação estética, que é complexa e desregrada, pela mecânica suave da avicultura (...). O sucesso de seus dois primeiros livros”, argumenta Castello, “parece ter excedido em muito aquilo que Raduan esperava de si, e, ultrapassado pela própria obra, ele tomou a decisão de recuar. O sucesso, em seu caso, tornou-se uma carga: ele é aquele que não suporta vencer e, assim que a vitória se configura, precisa fracassar para se tornar menos infeliz.”



Densidade acima da extensão



O informe apresentado pelo júri do Prêmio Camões 2016 também destaca que a literatura de Raduan Nassar trabalha o idioma de forma olímpica e poética ao tratar das relações familiares e dos afetos e ao recontar, de forma sutil, a trajetória da imigração e a tensão (social, cultural, emocional) entre o campo e a cidade, através de recursos como “o uso rigoroso de uma linguagem cuja plasticidade se imprime em diferentes registos discursivos verificáveis numa obra que privilegia a densidade acima da extensão”.









Até aqui, Brasil e Portugal estavam empatados com 11 vitórias no Prêmio Camões. Raduan Nassar trouxe o desempate como 12º brasileiro a vencer, depois de João Cabral de Melo Neto (1990), Rachel de Queiroz (1993), Jorge Amado (1994), Antonio Cândido (1998), Autran Dourado (2000), Rubem Fonseca (2003), Lygia Fagundes Telles (2005), João Ubaldo Ribeiro (2008), Ferreira Gullar (2010), Dalton Trevisan (2013) e Alberto da Costa e Silva (2014). Também venceram a premiação, entre outros, os portuguêses José Saramago (1995), Miguel Torga (1989) e Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), e os escritores moçambicanos Mia Couto (2013) e José Craveirinha (1991). 

Raduan Nassar receberá um total de 100 mil euros (R$ 398,8 mil) com o Prêmio Camões, distinção que é entregue desde 1989 pelos governos de Portugal e do Brasil a autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. O júri da edição 2016 do prêmio foi formado por Paula Morão, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal); Pedro Mexia, escritor (Portugal); Flora Sussekind, escritora e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Brasil); Sérgio Alcides do Amaral, escritor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil); Lourenço do Rosário, professor universitário e Reitor da Universidade Politécnica de Maputo (Moçambique); e Inocência Mata, professora universitária da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade de Macau (São Tomé e Príncipe).


por José Antônio Orlando.



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Para ler a entrevista de Raduan Nassar ao Blog do IMS,  clique aqui.

 






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