domingo, 31 de julho de 2016

A retrospectiva de Banksy











Sinal dos tempos: as obras do misterioso grafiteiro Banksy, do qual ninguém conhece a verdadeira identidade, saíram das ruas e agora ganham retrospectivas nos grandes museus da Europa. Duas das maiores mostras já realizadas reunindo centenas de obras originais de Banksy estão abertas ao público em museus do Reino Unido e da Itália e, a partir de setembro, seguirão para outros países. O prestígio de Banksy no mercado internacional de arte ficou mais do que comprovado quando a tradicional casa de leilões Sotheby's, de Londres, reuniu 70 peças do artista em junho de 2014, entre obras famosas e outras menos conhecidas, e todas foram vendidas por preços de até 840 mil dólares. Além da Sotheby's, museus e importantes galerias de arte já haviam exibido antes uma ou outra obra do grafiteiro, mas é a primeira vez que centenas de obras do artista estão reunidas em grandes exposições (veja os links para visitas virtuais no final deste artigo).

No Reino Unido, a mostra foi aberta no museu municipal de Bristol, cidade que se supõe ser a terra natal de Banksy – já que lá suas primeiras obras surgiram grafitadas no final da década de 1980. Todas as instalações do prédio do museu, que abriga em seu acervo peças valiosas que vão de múmias egípcias a obras-primas de mestres da História da Arte de vários países, ficaram fechadas durante semanas para que Banksy, em pessoa e em total anonimato, pudesse preparar a exposição em parceria com Kate Brindley, diretora do Bristol City Museum. Na mostra estão obras inéditas, produzidas por Banksy especialmente para o evento, incluindo novos grafites, esculturas e instalações completas, e uma seleção dos trabalhos mais conhecidos do artista.








Banksy no Museu: a partir do alto, grafites
originais de Banksy reunidos na exposição
Guerra, Capitalismo e Liberdade em cartaz
no Palácio Cipolla, no centro de Roma. Todas
as obras da mostra vêm de coleções particulares

 









Em Roma, a exposição retrospectiva da arte de rua de Banksy está aberta no luxuoso Palácio Cipolla, principal espaço do Museo Fondazione Roma, destacado no roteiro de galerias de arte e museus porque possui no acervo de exposição permanente obras-primas de mestres da arte na Europa como Rembrandt, Van Gogh e Velázquez, entre outros. Com três módulos temáticos intitulados “Guerra”, “Capitalismo” e “Liberdade”, estão reunidas no Palácio Cipolla um total de 177 obras originais, todas muito conhecidas do público que acompanha o trabalho do misterioso artista, entre elas os grafites que mostram a menina com um balão em forma de coração e aquele com um manifestante encapuzado lançando em protesto um ramo de flores.



Corajoso, didático, provocador



As duas maiores retrospectivas já reunidas sobre a arte de Banksy foram saudadas como grande acontecimento pela imprensa internacional – com o contraponto de que a exposição na Inglaterra foi organizada por Banksy ele mesmo, enquanto a retrospectiva do museu na Itália não teve nem participação do artista nem sua autorização oficial. Todas as obras da exposição em Roma pertencem a coleções particulares e todas vêm das ruas de Londres, incluindo grafites, estêncils com tinta aerosol, pinturas em óleo sobre tela, placas de metal e madeira, serigrafias em materiais diversos, objetos e esculturas – tudo com certificado de autenticidade em documentos expedidos pelo Pest Control, autoridade de limpeza urbana e controle sanitário da capital britânica que desde a década de 1990 remove das ruas e também autentica obras de Banksy.








Banksy no Museu: acima, grafites
de Banksy reunidos em Roma no 
Palácio Cipolla e o cartaz original
ilustrado pela célebre imagem do
grafiteiro encapuzado. Abaixo, o
beijo do casal anônimo diante do
grafite Tank, na exposição em Roma,
e dois grafites originais de Banksy que
foram removidos das ruas e depois
reproduzidos em serigrafias leiloadas
pela Sotheby's de Londres















Em Roma, os curadores do Palácio Cipolla, Stefano Antonelli, Francesca Mezzano e Acoris Andipa, anunciam na apresentação da mostra e em entrevistas que Banksy representa hoje o que há de mais corajoso, mais político e mais provocador na arte do novo século – elogios que seriam impensáveis ou que poderiam soar como sacrilégio na década de 1990, quando a Street Art em geral e a arte de Banksy em particular soavam como contravenção e não como destaque ou expressão legítima, celebrada e muito valorizada, da Arte Contemporânea.

Em entrevista ao jornal “Corriere della Sera”, o curador Stefano Antonelli também elogia as qualidades “didáticas” das obras de Banksy e a simplicidade apenas aparente de suas mensagens que conseguem provocar a consciência e o senso crítico de todos os públicos. Segundo Antonelli, Banksy traz sempre, em cada obra, um alerta que nos faz pensar e lembrar que a guerra é algo muito errado, que o capitalismo sem regras tem provocado grandes desastres e que a liberdade nem sempre é respeitada como queríamos ou havíamos imaginado.








Banksy no Museu: acima e abaixo,
as obras originais reunidas no Bristol
City Museum, Inglaterra, em exposição
que foi coordenada pelo próprio Banksy











Grafite & ação política



Elevado à condição de celebridade internacional e contraditoriamente conseguindo manter sua verdadeira identidade em segredo guardado a sete chaves, na melhor tradição dos super-heróis, Banksy permanece em ação com sua ousadia imprevisível. Na abertura da exposição do Bristol City Museum, foi entrevistado por telefone pela BBC pela primeira vez e fez ironias sobre sua nova condição de artista muito valorizado no mercado e disputado por grandes museus e imponentes galerias de arte.

Sobre a exposição que ele mesmo organizou em Bristol, Banksy declarou na entrevista à BBC: “Estou feliz porque esta é a primeira vez em Bristol que não estou sendo procurado e processado por vandalismo. Também é a primeira vez que o dinheiro dos impostos que os contribuintes pagam está sendo usado para patrocinar a exibição de minhas imagens e não para raspá-las das paredes.”













Na mesma semana da abertura da exposição no museu municipal de Bristol, no começo de junho, crianças, funcionários e pais de alunos de uma escola primária da cidade ganharam um presente de Banksy. O novo grafite – intrigante e, como sempre, “incendiário” – surgiu no muro da escola pública Bridge Farm em agradecimento depois que os alunos decidiram dar o nome do misterioso artista a um dos pavilhões. Banksy não para. Em Londres, em agosto de 2015, ele abriu um parque temático grandioso e chocante chamado “Dismaland”, uma sátira à Disneylândia e, segundo ele mesmo avisou, “inadequado para crianças”. Fui um sucesso completo de público, com lotação esgotada em todos os horários, mas em dezembro Banksy surpreendeu de novo: retirou todas as suas obras do parque e transformou o espaço em abrigo para refugiados.



A causa dos refugiados



Ao mesmo tempo em que transformava “Dismaland” em abrigo para refugiados e moradores de rua, Banksy criou mais dois grafites políticos para denunciar a situação caótica do maior campo de segregação de refugiados na Europa, situado na cidade de Calais, no noroeste da França – que reúne mais de 4 mil pessoas vindas de países como Síria, Iraque, Afeganistão e Marrocos, todos à espera da oportunidade de cruzar o Canal da Mancha para entrar no Reino Unido. Em um grafite em Calais, Banksy mostra uma imagem do fundador da Apple, Steve Jobs, morto em 2011, carregando nas costas uma sacola de plástico preto e, nas mãos, um computador original da Apple. A referência é direta: Jobs é filho de um imigrante sírio que fugiu para os EUA depois da Segunda Guerra Mundial. 







Atualidades de Banksy: acima, grafite
do artista no muro da escola em Bristol,
em agradecimento à homenagem que
recebeu dos alunos; e uma das instalações
do parque Dismaland, uma sátira de
Banksy ao "mundo cor-de-rosa" e falso
da Disneylândia. Abaixo, a causa dos
refugiados na referência a Steve Jobs,
que era filho de imigrantes da Síria;
a menina de Os Miseráveis, com a
bandeira da França ao fundo, a chorar
com o gás lacrimogêneo; a convocação
pela união dos trabalhadores do mundo
inteiro, na exposição em Bristol; e a
fachada principal do museu na Inglaterra






 
Um outro grafite recente de Banksy, criado no começo de 2016, também faz referência aos milhares de refugiados em Calais: numa parede de esquina, a poucos metros da Embaixada da França em Londres, a imagem grafitada evoca o romance de Victor Hugo, “Os Miseráveis”, um clássico da Literatura Universal que denuncia a miséria na conturbada França depois da revolução de 1789. Banksy inspirou-se na menina do cartaz de um musical de sucesso, baseado em “Os Miseráveis”, e desenhou a criança a chorar, sob uma nuvem de gás lacrimogêneo, com a bandeira francesa no fundo.

Ao lado do grafite, um código que podia ser lido por smartphones conduzia a um vídeo do YouTube, intitulado “Os assaltos policiais na selva de Calais, 5 e 6 de janeiro”. O vídeo, que permanece no YouTube (ver aqui), mostra a violência de ações policiais das autoridade francesas contra o campo de refugiados no início de 2016 – quando os milhares de refugiados, abrigados em condições sofríveis, são atacados durante a noite com bombas de gás, canhões de água e balas de borracha. O grafite de Banksy foi imediatamente coberto com tapumes de madeira pelas autoridades de Londres.



por José Antônio Orlando.



Para uma visita virtual à exposição de Banksy no Bristol Museum,  clique aqui.

Para uma visita virtual à exposição de Banksy em Roma,  clique aqui. 









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