domingo, 11 de novembro de 2018

Performance com Marina Abramovic









O seu papel como artista, Marina Abramovic
acredita com uma segurança que pode parecer
ingênua e uma humildade que desarma qualquer
impulso para nos irritarmos, é levar o seu público
através de uma passagem ansiosa para um lugar de
libertação do que quer que os estava a limitar.
Em todas as culturas antigas há rituais para
mortificar o corpo como forma de compreender
que a energia da alma é indestrutível.

(Judith Thurman)    



  





Poucos artistas contemporâneos levaram a experiência com a arte a extremos tão aflitivos como Marina Abramovic. Com ela, os trabalhos e apelos do fazer artístico são imprevistos, intensos, incômodos –– são questionamentos sempre polêmicos e quase sempre violentos que exploram a relação entre performer e público, que expõem os limites do corpo, as possibilidades da mente, e desafiam o perigo. Uma retrospectiva do seu extenso acervo construído em cinco décadas de atuação e de provocação permanente está agora em cartaz em Florença, na Itália. “Marina Abramovic, The Cleaner”, exposição aberta ao público no tradicional Palazzo Strozzi de setembro de 2018 a 20 de janeiro de 2019, apresenta e reapresenta as experiências radicais da artista que revolucionou a arte performática, colocando seu corpo à prova para sondar seus limites externos e seu potencial de expressão.

Com links para transmissão on-line de um cronograma de eventos, dando continuidade às atividades transmitidas pela internet (como as exposições recentes no mesmo espaço de nomes também célebres e controversos da arte contemporânea como o chinês Ai Weiwei e o norte-americano Bill Viola), a retrospectiva que o Palazzo Strozzi dedica a Marina Abramovic reúne um calendário de atividades incomuns para um museu de arte que inclui performances em multimídia e re-performances ao vivo, com atores selecionados e treinados pela artista, para mais de 100 trabalhos de sua trajetória, oferecendo ao visitante uma visão geral de suas obras mais instigantes desde os anos 1960 até experiências recentes. Nas salas do Palazzo Strozzi o visitante pode encontrar a presença da própria artista, ao vivo, e as re-performances com atores em ambientes sedutores com telões para exibição de filmes, vídeos, fotografias, pinturas e objetos em diversas instalações que provocam e comovem. Além de atividades dirigidas para crianças, escolas, famílias, estudantes de arte ou universitários, o calendário anuncia os eventos com a própria artista em conferências e performances (veja os links para a exposição e cronogramas do Palazzo Strozzi no final deste artigo).








Performance com Marina Abramovic: no alto,
Anima Munditrabalho da artista em 1983 em
parceria com o performer Frank Uwe Laysiepen,
mais conhecido como Ulayna recriação da cena
bíblica em que Maria recebe nos braços o corpo de
Cristo após a Crucificação. Acima, a artista em uma
das performances que integram a série de oficinas
nomeadas como Limpando a casa, de onde saiu
o nome da exposição atual em Florença, The cleaner
(ou “Il pulitore”, em italino). Abaixo, Marina e Ulay
na performance AAA AAA em 1978, em Amsterdã,
exibida em filme na exposição do Palazzo Strozzi 












Arte em relação com o corpo


A artista  que se autodefine como “cidadã do mundo” e como “avó da arte da performance” nasceu em Belgrado, antiga Iugoslávia, hoje capital da Sérvia, em 1946, ao final da Segunda Guerra Mundial. Filha de dirigentes do Partido Comunista, Marina Abramovic estudou na Academia de Belas-Artes em Belgrado e em Zagreb, onde teve dedicação a cursos de artes plásticas e artes cênicas. No final dos anos 1960, ainda morando em seu país de origem, deu início a séries de performances que provocaram escândalo e chamaram atenção para seu nome –– entre elas apostas em limites da relação com o corpo e com o público nomeadas “Brincadeiras com facas” (Rhythm 10), “Deitar no meio de uma estrela de fogo” (Rhythm 5), “Ficar sob efeito de drogas controladas” (Rhythm 2) e “Estar semi-nua à disposição dos espectadores” (Rhythm 0), esta última retomada e atualizada em 2010 no MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, quando ela esteve presente durante os três meses da exposição: extensas filas se formaram com os interessados em ficar um minuto em silêncio, sentados, imóveis, diante da artista.

Em 1976, Marina Abramovic mudou-se para Amsterdã, Holanda, onde encontrou seu parceiro mais constante, o artista alemão Frank Uwe Laysiepen, mais conhecido como Ulay. O trabalho dos dois consistiu em testar e provocar os limites do público em intransigentes façanhas de resistência e loucura, a que os dois chamaram "trabalhos de relação", e que algumas vezes terminaram com a intervenção policial depois de denúncias dos mais conservadores sobre comportamento obsceno ou ameaças de violência. Uma destas performances, nomeada “Imponderabilia”, foi apresentada pela primeira vez na Itália, em Bolonha, 1977, na Galeria Comunale d’Arte Moderna. A aparente simplicidade da representação contrasta com altos níveis de complexidade: em um portal de passagem estreita, o casal está nu, imóvel, um corpo diante do outro, olhando-se fixamente. Quem quiser chegar do outro lado da sala para continuar a visita à exposição tem que passar entre os dois e tem que passar de lado, optando por se virar para um ou para o outro.









Performance com Marina Abramovic: acima,
Imponderabilia (à esquerda, a re-performance
em cartaz na exposição do Palazzo Strozzi; à direita,
performance original, com Marina e Ulay em 1977,
em Bolonha, na Itália, que foi interrompida pela
polícia). Abaixo, uma das salas da exposição atual
com Luminosidade casa-espírito, apresentada ao vivo,
com atores (re-performance), na exposição em Florença









O incômodo da nudez



A situação de nudez cria, naturalmente, desconforto, como em todas as performances e trabalhos que Marina Abramovic propõe, com ou sem Ulay. Mas a nudez ou o desconforto não impedem várias pessoas de avançar, largando bolsas ou casacos, e passarem roçando nos dois corpos nus. Geralmente, do outro lado há alguém que fotografa o momento. A primeira performance de “Imponderabilia” em Bolonha foi interrompida muito antes das sete horas previstas, pela polícia, chamada para pôr fim ao “comportamento indecente” dos artistas. A mesma peça pode agora ser vista no Palazzo Strozzi, em Florença, integrada na retrospectiva de Marina Abramovic, reencenada por atores nus.

Desde a abertura da exposição na Itália, entretanto, não houve, ainda, nenhuma intervenção policial e nem protesto do público tentando impedir ou proibir as performances, mas as muitas fotos e vídeos feitos pelos muitos visitantes são, neste tempo de redes sociais, completamente invisíveis no espaço público. A tentativa de publicar fotografias da nudez da artista ou dos atores das re-performances em uma conta de Facebook, por exemplo, é imediatamente impedida por mensagens automáticas da empresa de Mark Zuckerberg avisando que a imagem é proibida por apresentar nus e violar ou não respeitar as regras da comunidade. Evoluiu a tecnologia, mas a arte de Marina Abramovic permanece plena de ousadia e um tanto incômoda. E tanto agora, como antes, continua a provocar os instintos mais repressores e a intolerância da censura.






Performance com Marina Abramovic: acima,
a artista nos bastidores, durante a montagem da
exposição em 2010 no MoMA, em Nova York. Abaixo,
registros de duas das performances do início de sua
trajetória que provocaram escândalo e chamaram
atenção para seu nome: Rhytm 10 (de 1973), em que
ela crava uma faca entre os dedos, em ritmo crescente,
ferindo-se várias vezes durante o processo; e
Relação no espaço, um dos primeiros trabalhos
da parceria na vida e na arte com Ulay










Performance e vida cotidiana



O encontro da artista em 1975 com Ulay, filho de um soldado nazista, nascido no mesmo dia que ela, 30 de novembro (Marina nasceu em 1946 e Ulay em 1943), marcou definitivamente sua trajetória e abriu novas perspectivas para as experiências levadas ao limite. Depois das obras mais tradicionais em pintura figurativa e pintura com abstrações em sua juventude, e depois das primeiras experiências radicais de performances em que o seu próprio corpo era o suporte, a fase de parceria com Ulay durou exatos 12 anos e estendeu o trabalho de performance para todos os momentos da vida cotidiana, registrados em peças que marcaram época e que sobreviveram em filmes e fotografias.

Entre os trabalhos mais conhecidos da parceria entre Marina e Ulay estão “Breathing In / Breathing Out” (em que um respirava para dentro da boca do outro durante 19 minutos), “Light / Dark” (em que os dois se esbofeteavam criando um ritmo durante 20 minutos), “AAA AAA” (em que ambos gritavam desesperadamente, cara a cara, durante 15 minutos), “Relação no espaço" (os dois correm de pontos opostos, completamente nus, e passam um pelo outro, repetindo o movimento durante 58 minutos, até que no último momento colidem, correndo em alta velocidade) ou “Rest Energy” (Energia de repouso), de 1980, talvez a cena mais angustiante, entre tantas outras, na qual Marina segura um arco e Ulay segura uma flecha apontada para o coração dela, ambos em uma posição de evidente desequilíbrio, durante quatro minutos e 10 segundos. A tensão e o perigo iminente provocaram, como sempre, desconforto e reações extremas do público.





Performance com Marina Abramovic: acima,
Rest energia (Energia de repouso), da parceria com
Ulay. Abaixo, o reencontro de surpresa do casal
em 2010 no MoMA, depois de duas décadas:
Ulay sentou-se à frente de Marina e os dois
ficaram emocionados e emocionaram o público








Arte em novas fronteiras



Durante o período de 12 anos da parceria, o casal morou em uma van Citroën de cor preta na maior parte do convívio (a van também está em exposição, aberta ao público, no pátio do Palazzo Strozzi) e teve aproximação maior com questões místicas e espirituais em temporadas e performances que incluíram viagens pelos cinco continentes –– com momentos históricos em uma tribo de nativos na Austrália ou em rituais com monges budistas no Tibete. O final da relação em 1988 também foi uma performance, monumental, nomeada em comum acordo pelos dois como “The Lovers” (Os amantes), com duração de três meses registrada por câmeras de fotografia e vídeo: cada um caminhou de um ponto extremo da Grande Muralha da China até se encontrarem, no meio do trajeto, para se despedirem um do outro com um demorado e afetuoso abraço de adeus.

Sem Ulay, nas últimas décadas, Marina Abramovic seguiu em direção a novas fronteiras: fez uma parceria com o dramaturgo britânico Robert Wilson para a montagem de um espetáculo teatral chamado "A vida e a morte de Marina Abramovic", apresentado com trilha sonora de Antony Hegarty em 2011 no festival internacional de Manchester, Inglaterra, com Marina dividindo a autoria com Robert Wilson e dividindo as cenas no palco com o ator Willem Dafoe; e passou a investir no treinamento de atores para novas performances e para retomar antigos trabalhos, no que ela chama de re-performances ao vivo, como as que agora ela apresenta em Florença.

Sobre as críticas proibitivas de um ou outro teórico mais purista, que insista em defender o caráter da unicidade das performances, tal como elas surgiram no final da década de 1960, Marina Abramovic argumenta que a montagem em re-performance ao vivo é exatamente isto: uma forma de arte cênica e presencial para fazer perdurarem trabalhos que têm natureza efêmera, ao contrário do que ela mesmo professava nos anos 1970, quando havia um consenso defendendo que as performances eram únicas e irrepetíveis, o que as distanciava radicalmente do espetáculo de teatro. Nas duas últimas décadas, a artista também retornou à sua terra natal para buscar inspiração para trabalhos como “Barroco dos Balcãs” (1997), que traduz de forma simbólica as tragédias da Guerra da Bósnia. Apresentada na Bienal de Veneza, rendeu a Marina Abramovic o prêmio máximo do evento, o Leone d’Oro.







Performance com Marina Abramovic: acima,
Vida e morte de Marina Abramovic, parceria da
artista com o dramaturgo britânico Robert Wilson
apresentada nos palcos do festival internacional de
Manchester em 2011. Abaixo, Barroco dos Balcãs,
performance com ossos de animais premiada com o
Leone d’Oro no Festival de Veneza em 1997





O espaço além



Também ambientadas em sua terra natal são “O Herói” (2001), performance dedicada a seu pai, que lutou na resistência contra nazistas e fascistas, durante a Segunda Guerra, e “Épico Balkaniano”, instalação com três telões e imagens individuais de Marina, seu pai, sua mãe – somente Marina fala, contando histórias macabras sobre sua infância, na fronteira entre a realidade da memória e a imaginação fabulosa. Outra referência à sua terra natal e aos cenários de guerra aparece em destaque em "A casa com vista para o mar" (2002), apresentada na Galeria Sean Kelly, Nova York: durante 12 dias, de forma ininterrupta, ela ficou em completo silêncio e em completo jejum, observada pelos visitantes em uma estrutura suspensa que teve como único acesso escadas feitas com facas afiadas.

A fase mais recente da trajetória da artista avança pelo misticismo: em “Contando o arroz”, de 2015, criada como parte de uma série de oficinas nomeadas como “Limpando a casa” (também apresentadas em Florença e de onde saiu o nome da exposição atual, “The cleaner”, ou “Il pulitore”, em italiano), a artista propõe ao público um isolamento com fones de ouvido à prova de som para cada um, sentado à mesa, separar o arroz branco misturado a lentilhas pretas, anotando em uma folha o número de grãos – um convite à reflexão e à conexão consigo mesmo em busca de calma e concentração. Em “Objetos transitórios”, também de 2015, ela apresenta ferramentas incomuns feitas de cristais de quartzo e outros materiais frágeis para serem manuseadas com cuidado, provocando viagens interiores de meditação e transcendência.






Performance com Marina Abramovic: acima,
A casa com vista para o mar (imagem da performance
original de 2002), uma alegoria sobre os cenários da
Guerra dos Balcãs. Abaixo, cenas do documentário
Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil










Com retrospectivas recentes de seu trabalho em diversos países, incluindo uma temporada no Sesc Pompeia em São Paulo, em 2015 (a primeira exposição retrospectiva da artista apresentada em um país da América Latina), o capítulo mais recente de sua trajetória de experimentações também se passa no Brasil: em parceria com o diretor Marco de Fiol, Marina Abramovic apresenta em um documentário, “Espaço Além”, uma viagem de 87 minutos com performances e registros sobre lugares místicos. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 2016 e segue sua trajetória de exibição em outros países e em festivais pelo mundo afora.

No “Espaço Além”, Marina Abramovic é a protagonista e a voz narrativa que conduz o filme. Com sua equipe de produção, a artista pesquisou e visitou, entre 2015 e 2016, durante meses, comunidades espirituais que incluem, entre outros cenários e ambientações, dos diversos rituais que convivem no Vale do Amanhecer, em Brasília, ao xamanismo na Chapada Diamantina, o candomblé na Bahia, as curas operadas por médiuns, os cristais e outras pedras de poder que nomearam há séculos o território de Minas Gerais. Uma frase de Marina Abramovic em algum momento do filme talvez seja uma tradução fiel de sua trajetória: ela diz que sempre quis, desde o começo, ampliar a consciência através da arte para que as pessoas pudessem ver a si próprias em seu próprio reflexo. A artista, em sua presença imponente, polêmica e benevolente, não se esconde.


por José Antônio Orlando.



Para uma visita virtual à exposição no Palazzo Strozzi,  clique aqui. 













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