20 de janeiro de 2020

Memórias de Fellini








O artista é aquele que consegue revelar o grão 
de verdade escondido no fundo de cada mentira. 


–– Italo Calvino.    











Quem ama o cinema sempre confessa amor incondicional por Federico Fellini e seus filmes – por todos ou por alguns, sejam eles “Amarcord” (1973), “La Dolce Vita” (1960), “Noites de Cabiria” (1957), “8 1/2” (1963) ou qualquer outro das duas dúzias de obras-primas que ele realizou, muitos deles inseparáveis da música de Nino Rota ou das melhores performances de Marcello Mastroianni, de Giulietta Masina, de Anita Ekberg e de outros artistas que se tornariam interfaces do adjetivo “felliniano”. Exatamente hoje, dia 20 de janeiro de 2020, Fellini completa centenário de nascimento – ou, dito por palavras mais fiéis ao espírito de sonhos, poesia, memórias e realismo que pontuaram sua filmografia especialíssima: eu me recordo agora que em 20 de janeiro de 1920, na pequena cidade italiana de Rimini, situada entre dois rios, às margens do Mar Adriático, nasceu Federico, filho da dona de casa Ida Barbiani e do caixeiro-viajante Urbano Fellini.

Alimentando-se dos frutos das lembranças e da imaginação barroca de sua terra natal, Fellini falou ao mundo com seus filmes e segue influenciando artistas do cinema e de outras áreas. Sua biografia, ou autobiografia, está descrita em muitas passagens que filmou, nos roteiros que escreveu, nos livros que publicou e nas longas entrevistas que concedeu, iguarias do conhecimento de todo cinéfilo. Federico também cultivou a fama de mentiroso, mas talvez sua verve esteja mais próxima da fantasia do que propriamente da mentira, como registra nos filmes com as descobertas de infância e adolescência na província, sua temporada no colégio religioso de padres salesianos, os dramas da família e dos amigos, o horror pelo avanço sempre ameaçador do fascismo, a aventura de fugir de casa com um circo, o talento para desenhar e pintar cenários e caricaturas, a fascinação por mulheres de seios enormes, quadris enormes, olhos e bocas enormes – a lembrança materna metamorfoseada na figura feminina que também é mãe mártir, mãe Roma, mãe loba, mãe pátria, mãe igreja e mãe que acolhe e seduz.





Memórias de Fellini: no alto da página, caricatura
do cineasta em autorretrato. Acima, o diretor em
ação em ilustração com a dupla de La Dolce Vita,
Anita Ekberg e Marcello Mastroianni, e sua esposa
da vida inteira, Giulietta Masina, na caracterização
de Gelsomina, personagem de Estrada da Vida.
Abaixo, Fellini em cena do documentário filmado
em Roma, em 1991 e 1992, pelo canadense
Damian Pettigrew, e lançado nos cinemas em 2003
com o título Eu Sou um Grande Mentiroso
(Sono un Gran Bugiardo). Também abaixo,
a cena do cinema no autobiográfico Amarcord
















Forma poética e emotiva



Prosseguindo no roteiro biográfico que ele reconstruiu de forma poética e emotiva no cinema, Federico, após fugir de casa, aos 19 anos, terminou fazendo uma parada estratégica em Florença, onde conseguiu emprego como revisor de gráfica e desenhista, depois trabalhou vendendo bijuterias e ganhou algum dinheiro escrevendo textos de humor para jornais e revistas antes de finalmente se mudar para Roma, em 1940, em plena ocupação alemã e no auge do fascismo da ditadura totalitária que teve à frente Benito Mussolini. Nessa época, em meio ao caos decorrente da Segunda Guerra Mundial, ele vai trabalhar no rádio e conhece uma candidata a atriz, Giulietta Masina, a partir dali sua musa na arte e na vida, sua primeira e única esposa até os últimos dias, em 1993, quando ele morreu de ataque cardíaco, aos 73 anos, um dia após completar 50 anos de casamento. Giulietta viveu pouco tempo sem ele e morreria seis meses depois, também aos 73 anos, em 1994.





Memórias de Fellini: acima, o maestro e sua
musa e esposa, Giulietta Masina, em temporada
de férias em Veneza. Abaixo, Fellini e Giulietta
durante as filmagens de Estrada da Vida. Também
abaixo, cena de Satyricon, versão de Fellini para
um clássico da literatura da Roma Antiga, escrito
no século 1° depois de Cristo por Petrônio













Na mesma época em que encontrou sua Giulietta, Federico também conheceu um cineasta ainda sem prestígio e sem sucesso cuja amizade e influência mudariam para sempre sua trajetória. O cineasta, a quem sempre chamaria de “mestre” e que o conduziu no ofício de fazer filmes, era Roberto Rossellini. Ainda durante a ocupação alemã, Rosselini ficaria interessado em filmar um roteiro original de Fellini em locações reais pelas ruas, com câmera em movimento e com atores amadores. O filme seria “Roma, Cidade Aberta”, precursor do neorrealismo italiano e dos novos cinemas de vanguarda no mundo inteiro (incluindo o Cinema Novo no Brasil e a Nouvelle Vague na França), sucesso internacional desde seu lançamento ao final da guerra, em 1945 – uma obra-prima que consagrou Rossellini e também Anna Magnani, uma veterana que havia estreado no tempo do cinema mudo e que sob o roteiro de Fellini e sob a batuta do mestre Rossellini alcançou pleno reconhecimento como grande atriz.



Estranho e familiar



O que vem a seguir é a criação de um conjunto de filmes que firmaram posição entre as obras-primas do cinema e as grandes obras de arte do último século, cambiantes entre um imaginário muito pessoal, tanto sublime como bizarro, e o amor declarado pelas formas da cultura mais popular do circo, do teatro de variedades, das histórias em quadrinhos, das fotonovelas. O fato de Fellini ter começado desenhando caricaturas talvez seja uma pista importante para entender seu gosto por personagens em gestos orgulhosos e situações irônicas, quase sempre risíveis e delicadas, exuberantes e também grotescas. Muitos já escreveram sobre seus filmes, seu imaginário, seu exagero em figuras delirantes, seu gosto pela sátira, pela paródia, sua religiosidade e sua iconoclastia, mas a poética de Fellini prossegue como enigma e deleite – a natureza secreta de algo estranho que parece familiar, como descreve Sigmund Freud naquele célebre estudo no início do século 20.








Memórias de Fellini: no alto, em Veneza, 1955,
com Valentina Cortese e Giulietta Masina. Acima,
com o amigo e colaborador Pier Paolo Pasolini em
Roma, em 1961. Abaixo, com Marcello Mastroianni
em 1962 e com seu alter-ego Bruno Zanin em 1973,
durante as filmagens de Amarcord




  






Diante de um filme de Fellini, o mais difícil é descrever uma sinopse, porque na imensa maioria dos casos o enredo é menos importante do que a forma e os detalhes de compaixão com os quais se conta aquela história. Um exercício comparativo interessante talvez seja tentar entender o que há do estilo “felliniano” nos comerciais de publicidade que ele fez para a TV ou nos roteiros e argumentos que ele escreveu e não filmou – alguns transformados em programas de rádio ou de TV, ou em filmes por outros diretores (por Rossellini, por Mario Mattoli, por Riccardo Freda, por Pietro Germi, por Eduardo De Fellipo, por Mario Monicelli), ou até mesmo adaptados para o formato de histórias em quadrinhos, como é o caso das versões eróticas feitas por Milo Manara nos álbuns “Viaggio a Tulum” (1986) e “Il viaggio di G. Mastorna, detto Fernet” (1992), este último um projeto acalentado e adiado durante anos, que chegou a ter o título provisório de “La Dolce Morte”. Contam os biógrafos que em 1966, durante a pré-produção do filme que jamais seria realizado, Fellini experimentou uma sequência de pesadelos e acabou sofrendo um ataque cardíaco. Supersticioso, interpretou que de fato morreria se prosseguisse com o projeto.








Memórias de Fellini: acima e abaixo, as versões
em álbuns de histórias em quadrinhos criadas por
Milo Manara (foto abaixo, com Fellini) para roteiros
que foram escritos pelo cineasta e que chegaram
à fase de pré-produção, mas não foram filmados











Estreia com Giulietta



A estreia como cineasta foi em 1950 com Giulietta Masina no elenco de uma comédia sobre uma trupe de saltimbancos que apresenta seu pequeno show de variedades de cidade em cidade, “Mulheres e Luzes” (Luci del Varietá), em co-direção com Alberto Lattuada, com quem também divide a autoria do roteiro original. Depois Fellini iria dirigir “Abismo de um Sonho” (Lo Sceicco Bianco), baseado em uma fotonovela de Michelangelo Antonioni, contando a história de um casal ingênuo que se perde em Roma durante a lua de mel. A primeira palavra que ouvimos no filme é “Roma”, pronunciada na janela de um trem, próxima a seu destino. A palavra e a cidade seriam uma constante na maioria dos filmes de sua trajetória, incluindo a mescla de ficção e documentário apresentada como um mosaico de múltiplas dimensões em “Roma” (1972).

Entre as exceções que não têm Roma como cenário estão a paródia poética de documentários “Os Palhaços” (I Clows), filmado na França e no interior da Itália, lançado nos cinemas em 1970, e o enredo ilusionista de falso documentário “E La Nave Va” (1983), com seus personagens emblemáticos a bordo do luxuoso navio rumo ao funeral de uma lendária cantora de ópera. Outro filme conduzido fora de Roma, durante as viagens do protagonista, é “Il Casanova di Fellini” (1976), ambientado nos vários países da Europa por onde o escritor libertino Giacomo Casanova viveu suas aventuras na segunda metade do século 18. Há ainda, como exceção, “Os Boas Vidas” (I Vitelloni), de 1953, em que Roma não é o cenário, mas surge como o destino almejado entre os jovens amigos que vivem seus grandes sonhos e pequenos dramas no lugarejo do interior.





Memórias de Fellini: acima e abaixo, durante
as filmagens de 8 1/2 (Oito e meio), em
fotografias de Tazio Secchiaroli. Também
abaixo, com Roberto Rossellini em 1960 no
Festival de Cannes, quando La Dolce Vita
conquistou a Palma de Ouro









A Cidade Eterna, como dizem com orgulho os italianos, que Fellini adotou como sua a partir de 1940, também é cenário para os episódios que ele escreveu e dirigiu para os três filmes de realização coletiva em sua trajetória, três episódios de curta duração que em nada saem do tom poético autobiográfico e autoral de sua filmografia. São eles “Agência Matrimonial” (em “Amores na Cidade”, de 1953, com episódios de Fellini, Carlo Lizanni, Dino Risi, Michelangelo Antonioni, Alberto Lattuada, Francesco Maselli e Cesare Zavattini), “As tentações do Doutor Antônio” (em “Boccaccio ‘70”, de 1962, com episódios de Fellini, Mario Monicelli, Luchino Visconti e Vittorio De Sica) e “Toby Dammit” (em “Histórias Extraordinárias”, de 1968, adaptação de contos de Edgar Allan Poe, com o título em italiano “Tre Passi nel Delirio” e episódios de Fellini, Roger Vadim e Louis Malle).



Evocação comovente e irônica



Outras exceções em que Roma está ausente são “Estrada da Vida” (La Strada), de 1954, primeiro grande sucesso de Fellini, com sua trama que acompanha as andanças mambembes de Gelsomina (Giulietta Masina), vendida pela mãe para o brutamontes Zampanó (Anthony Quinn), um artista de circo grosseiro e violento que vive em uma carroça viajando e se apresentando de vilarejo em vilarejo; e “Amarcord” – uma evocação memorialista, tão comovente como irônica, da infância e da adolescência de alegrias e tristezas do diretor passadas com a família na pequena Rimini, filme em que reminiscências nostálgicas da história social e a potência da imaginação onírica se misturam e encantam narrador e plateia.





Memórias de Fellini: acima e abaixo, durante
as filmagens de Satyricon, fotografado por
Mary Ellen Mark. Também abaixo, três flagrantes
do diretor em cena durante as filmagens de Roma









Em várias entrevistas, Fellini contou que quando, em 1939, avisou que iria para Roma, sua mãe pediu e insistiu que ele fizesse os exames para estudar direito na universidade. Mas ele nunca chegou a nenhum curso, nunca teve nenhum diploma universitário nem frequentou nenhuma escola de formação em cinema. Aprendeu sobre a técnica e os procedimentos narrativos na prática, prestando serviços aos estúdios de cinema da Cinnecittá, a Hollywood da Itália, inaugurada durante a ditadura fascista de Mussolini. Quando teve fim a ocupação alemã em Roma, em 1944, Fellini abriu uma pequena loja chamada Funny Face Shop, onde caricaturas podiam ser produzidas em dez minutos. Entre os clientes estavam soldados norte-americanos, que precisavam de algo para enviar para casa. Um dia, ainda em 1944, Roberto Rossellini chegou ao Funny Face e a amizade começou.

Seguindo orientações do “maestro” Rossellini, Fellini providenciou os ajustes nos roteiros sobre os cenários de guerra que escreveu para “Roma, Cidade Aberta”, para “Paisá” (1946) e para “Il Miracolo” (1948), filme em que também foi o ator, no papel de um vigarista confundido com São José por uma mulher ingênua e muito religiosa vivida por Anna Magnani. A quarta e última parceria com Rossellini foi o roteiro de Fellini para “Francisco, o Arauto de Deus” (Francesco, Giullare di Dio), filme de 1950 sobre São Francisco de Assis. A prova dos nove para o cineasta viria com a estreia na direção, em 1950, em parceria com Lattuada, para quem Fellini havia escrito os roteiros de “Il delitto di Giovanni Episcopo” (1947), “Senza Pietà” (1948) e “Il Mulino del Po” (1949). A partir dali viveria do cinema e para o cinema, com sucessos de público e crítica e uma lista extensa de premiações e de homenagens, incluindo os prêmios mais importantes nos grandes festivais internacionais e a posição de recordista entre diretores estrangeiros vencedores do Oscar. Não parou até “A Voz da Lua” (1990), com sua atmosfera de sonho e fantasia, três anos antes de sua morte. Definitivamente, não é pouco.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Memórias de Fellini. In: _____. Blog Semióticas, 20 de janeiro de 2020. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2020/01/memorias-de-fellini.html (acessado em .../.../...).



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