terça-feira, 21 de julho de 2015

Mulheres de Korda









Uma “ironia do destino”: ele se tornou fotógrafo para conhecer belas mulheres, mas terminou famoso no mundo inteiro por causa do retrato de um homem. Na verdade, não apenas um retrato qualquer – e sim, aquela fotografia que é quase um consenso como a mais reproduzida de todos os tempos: a imagem de Che Guevara. O retrato foi batizado na década de 1960 de “Guerrilheiro Heróico” pelo autor, o fotógrafo cubano Alberto Díaz Gutiérrez, mais conhecido pelo pseudônimo Alberto Korda (1928-2001). Agora, as belas mulheres, vertente de seu trabalho que ainda hoje é pouco conhecida do grande público, estão finalmente reunidas na mais importante exposição da PhotoEspanha, Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, com sede em Madri, que em 2015 tem uma edição dedicada à fotografia na América Latina.

Trata-se de “Korda, retrato feminino”, exposição aberta ao público no Museu Cerralbo, em Madri, que reúne, pela primeira vez, o acervo de fotografias de Korda que retratam as mulheres. São 60 imagens em preto e branco, a maior parte delas realizadas nas décadas de 1950 e 1960, sendo muitas inéditas em publicação e exibição pública. Considerado um dos mais tradicionais e consagrados eventos internacionais dedicados à fotografia, a mostra PhotoEspanha ocupa, em 2015, espaços de Madri e de várias cidades da Espanha e de outros países, incluindo Cascais e Lisboa, em Portugal, além de outras capitais da Europa – como Londres e Paris – Bogotá, na Colômbia, e também São Paulo, com exposições e diversos eventos até o mês de setembro.

Pelo recorte temático, dos 395 fotógrafos selecionados para a PhotoEspanha 2015, a maioria vem da América Latina, incluindo nomes pouco conhecidos e também celebridades, com destaque, entre outros, para o brasileiro Mário Cravo Neto (1947-2009) e também Lola Álvarez Bravo (1903-1993), do México, Julio Zadik (1916-2002), da Guatemala, e Tina Modotti (1896-1942), italiana que viveu e trabalhou no México e em outros países. Mesmo entre tantas personalidades de importância central na fotografia do século 20, o cubano Alberto Korda surge como o grande destaque na PhotoEspanha – com curadoria da exposição a cargo de Ana Berruguete e contando com a colaboração da filha do fotógrafo, Diana Diaz.




Mulheres de Alberto Korda: no alto e acima, o fotógrafo
em seu estúdio em Havana, Cuba, no ano 2000. Abaixo,
reproduções das fotografias de Korda selecionadas para
exposição da PhotoEspanha 2015, com uma cena da
Revolução Cubana de 1959 e fotografia de 1958 com
a bela Norka, modelo que seria oficialmente a segunda
esposa de Korda; e fotografia de 1956 de Nidia Ríos,
uma das musas de Korda e dos anúncios de publicidade
produzidos em Cuba durante a década de 1950








Autodidata que chegou à profissão de fotógrafo aprendendo e experimentando com uma Kodak 35 que tomou emprestada, Alberto Korda sempre dizia que buscou a fotografia somente com a intenção de conquistar mulheres, seguindo os passos do mais célebre dos fotógrafos de moda e seu preferido, o norte-americano Richard Avedon (1923-2004). A dedicação à fotografia com o objetivo de seduzir namoradas é relatada no livro "Cuba por Korda", lançado no Brasil pela Cosac & Naify. Escrito pelos franceses Alessandra Silvestri-Lévy e Christophe Loviny, o livro – perfil biográfico em edição recheada por 82 fotografias impressionantes, apresentadas em ordem cronológica – destaca que a trajetória de Korda foi marcada por estes estilos opostos: a moda, através dos retratos de belas mulheres, e as etapas da revolução de 1959 em Cuba, incluindo a tomada do poder e seus desdobramentos.



Revolução e retratos femininos



Primeiro a moda e os retratos femininos – e mais tarde a fotorreportagem sobre a revolução e seus líderes Fidel Castro e Che Guevara. Nos depoimentos transcritos por Alessandra Silvestri-Lévy e Christophe Loviny, Alberto Korda revela que inicialmente havia optado por uma "vida frívola", mas reconhece que, aos poucos e sucessivamente, os rumos da revolução em Cuba mudaram sua maneira de ver o mundo. "Percebi que valia a pena dedicar um trabalho à revolução que propunha a supressão das extremas desigualdades sociais", confessa Korda, que acompanhou Fidel e Che Guevara até as altitudes da Sierra Maestra, ainda no período das guerrilhas, tornando-se um olhar privilegiado que fez História ao registrar, por dentro, os momentos cruciais de afirmação do novo regime. 






 
Mulheres de Alberto Korda: acima, duas fotografias
produzidas por ele para anúncios de publicidade em
revistas femininas de Cuba e consideradas pornográficas
depois da revolução de 1959. Abaixo, Julia López Cruz,
que foi a primeira esposa de Korda, fotografada
por ele em Brisas del Mar, em 1956 
 




 
Na apresentação à exposição “Korda, retrato feminino”, a curadora Ana Berruguete lembra que as imagens de Che Guevara, de Fidel e de Cuba no período da revolução são a vertente mais conhecida e divulgada do trabalho do fotógrafo, mas destaca que ele sempre teve uma verdadeira obsessão em capturar a beleza das mulheres, do começo ao fim de sua trajetória dedicada à fotografia. “É indiscutível que a beleza feminina foi o gênero por excelência do trabalho de Alberto Korda”, aponta Berruguete. Entre as fotografias inéditas de Korda, reunidas na exposição, estão suas últimas imagens de belas mulheres, registradas em São Paulo, no ano 2000, e três retratos de sua primeira esposa, Julia López Cruz, mãe de Diana Diaz.

Alberto e Julia se casaram em 1951 e se separaram cinco anos mais tarde, na época em que o fotógrafo não fazia segredo sobre seus relacionamentos amorosos com as beldades que viriam a posar no Metropolitan, estúdio que fundou em 1954, em Havana, em parceria com Luis Pierce. Foi também nesta época que ele adotou o pseudônimo Alberto Korda, em homenagem aos cineastas húngaros Zoltan e Alexander Korda, irmãos que naquele tempo dirigiam superproduções de Hollywood que faziam sucesso nos cinemas em Havana, e porque a sonoridade do nome Korda, segundo ele próprio, lembrava a marca Kodak. 






 Mulheres de Alberto Korda: acima e abaixo,
Norka, musa e segunda esposa do fotógrafo,
em ensaios produzidos para capas do suplemento
feminino do Diario de la Marina, em 1956 
 




 
O grande domínio da luz



De todas as mulheres que visitavam seu estúdio em Havana – que também era ponto de encontro de artistas e intelectuais – destacam-se Nidia Ríos e Natalia Méndez, também conhecida como Norka, as duas beldades e musas principais das campanhas publicitárias produzidas em Cuba na década de 1950. Tanto Nidia quanto Norka – que se tornaria mais tarde, oficialmente, a segunda esposa de Korda – eram altas, magras e loiras, com aparência que não lembrava em nada a maioria das mulheres de Cuba. A estratégia diária do trabalho de Korda, de acordo com o que relatou para seus biógrafos, começava com a procura, nas ruas, por manequins inexperientes que fossem jovens, belas, elegantes, e que, principalmente, transbordassem erotismo.

Pelas imagens selecionadas para a exposição em Madri é possível perceber o grande domínio da luz no trabalho do fotógrafo – especialmente no uso da luz natural, já que muitas de suas fotos publicitárias eram produzidas fora do estúdio, em lugares como hotéis, praças e praias, construindo cenas que parecem saídas dos filmes clássicos de Hollywood, com suas personagens posando de divas, com ar de mistério. O mesmo domínio da luz também é visível em suas fotos que registram as pessoas anônimas nas ruas e nos desfiles militares, na época da revolução. A mudança do tema de belas mulheres para os anônimos e os militares nas fotos de Korda, entretanto, não é tão radical como pode parecer.



 
Mulheres de Alberto Korda: acima, Norka em
fotografia para um anúncio publicitário da joalheria
Cuervo y Sobrinos, em 1958. Abaixo, a fotografia
da garota pobre em um vilarejo na região de
Pinar de Rio, também em 1958, que marca
uma mudança radical na trajetória de Korda






Os biógrafos destacam que, com a tomada do poder em Cuba pela revolução comunista, a demanda pelo trabalho de Korda em publicidade caiu e muitas de suas fotos chegaram a ser consideradas “pornográficas”. Mas sua decisão de mudar veio antes mesmo da revolução: ele relata que, certo dia, em 1958, viu nas ruas de um vilarejo muito pobre, na região de Pinar de Rio, uma menina pequena que de repente ficou assustada com sua presença e com a câmera que ele carregava. Ele lembrou de sua filha quando observou que a menina fazia uma saia improvisada de papel sujo para vestir uma boneca que, na verdade, era apenas um pedaço de madeira. Comovido, desde aquele dia resolveu se unir ao ideal revolucionário que prometia acabar com a injustiça social. Depois da revolução, seria o fotógrafo oficial de Fidel.



Guerrilheiro Heróico



As mulheres não estão ausentes na trajetória de Korda no período posterior à revolução de 1959. Pelo contrário. Na seleção apresentada pela PhotoEspanha, em Madri, não faltam retratos de belas mulheres, sejam elas as camponesas, as milicianas carregando armas e vestindo uniformes militares ou ainda as espectadoras dos desfiles nas ruas de Havana. Quase três décadas depois da revolução, já na década de 1980, Korda retomou o trabalho dedicado à moda e à publicidade, um retorno às origens que não mais abandonaria. Suas últimas fotografias também estão na exposição em Madri: foi um ensaio produzido em uma estação ferroviária de São Paulo, onde Korda retratou belas e sensuais modelos em dezembro do ano 2000. Ele morreu cinco meses depois, em Paris.







 
Mulheres de Alberto Korda: depois da Revolução
Cubana de 1959, o fotógrafo continuaria a registrar
imagens de belas mulheres, não mais para anúncios
publicitários e ensaios de revistas de moda,
e sim personagens anônimas nas ruas,
no campo e nos desfiles militares








Para os biógrafos, a paixão pelas belas mulheres, pelas doses generosas de rum e pela Revolução Cubana foram os gostos pessoais da dedicação de vida e das vertentes principais do trabalho de Alberto Korda, o fotógrafo que imortalizou o retrato de Che Guevara. Em 1959, ano em que as tropas lideradas por Fidel Castro ocuparam Havana, Korda foi chamado para fazer parte da equipe do jornal "Revolución" e, meses depois, acompanhava Fidel em viagens internacionais, alternando retratos oficiais e em ambientes descontraídos. Os “retratos femininos”, porém, com o passar dos anos foram se tornando a parte menos conhecida de sua extensa obra – que soma mais de 20 mil negativos, na maior parte ainda inéditos.

Sua foto mais famosa também ficou muito tempo inédita. Che Guevara foi retratado por Korda em Havana, em 5 de março de 1960, em um encontro organizado por Fidel após o atentado contra o navio La Coubre, ancorado no porto de Havana, em que morreram 69 marinheiros cubanos e seis franceses. Che participava, ao lado de várias autoridades cubanas, da cerimônia em homenagem às vítimas da explosão. Também estavam presentes na cerimônia, na tribuna, Fidel Castro e o casal de intelectuais franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que naquela data visitavam Cuba. Korda, na época, já trabalhava para o “Revolución”, mas por algum motivo a foto de Che não foi publicada pelo jornal.






Mulheres de Alberto Korda: no alto, modelo
em um dos últimos ensaios do fotógrafo, realizado
em dezembro do ano 2000, em São Paulo. Acima,
a beleza feminina das milicianas em um desfile
na época da revolução, em Havana. Abaixo, Che Guevara
 com o casal de intelectuais franceses Jean-Paul Sartre
e Simone de Beauvoir, em visita a Cuba, em 1960;
Che na foto mais famosa de Korda, também de 1960,
que o próprio fotógrafo batizou de Guerrilheiro Heróico;
e as intervenções artísticas que ajudaram a propagar
o mito Che Guevara em gravuras de Jim Fitzpatrick
 e de Andy Warhol, ambas datadas de 1968


 





Somente anos depois, em 1967, pouco antes da morte de Che na Bolívia, o editor Giangiacomo Feltrinelli obteve a imagem capturada por Korda. De volta a Milão, Feltrinelli imprimiu milhões de pôsteres e postais, pelos quais Korda nunca recebeu um centavo. Segundo os depoimentos transcritos por Alessandra Silvestri-Lévy e Christophe Loviny, ele teria ficado ressentido apenas porque a foto vinha sem crédito. Depois disso a fotografia quase acidental do “Guerrilheiro Heróico” foi finalmente publicada na França, pela revista “Paris Match”, e em seguida ganhou o mundo, impulsionada pela morte de Che. No ano seguinte, duas intervenções de artistas ajudaram ainda mais a popularizar a fotografia de Alberto Korda.

O primeiro foi o irlandês Jim Fitzpatrick, que em 1968 transformou a imagem em um pôster pintado em preto, branco e vermelho, mas sem nenhuma menção à autoria de Korda. O retrato de Che também foi transformado em 1968 em serigrafias de cores contrastadas por Andy Warhol – que repetiu a técnica e a ideia original de sua obra mais famosa, as serigrafias de Marilyn Monroe em policromia, criadas assim que a morte da atriz foi anunciada, em agosto de 1962.

Assim como fez com a imagem de Marilyn, em que omitiu o nome de Frank Powolny (que havia fotografado a atriz em 1953), Warhol também não fez qualquer menção ao nome de Alberto Korda como autor do retrato de Che Guevara, mas ganhou fortunas com a venda das gravuras originais e com os direitos de reprodução. É um caso impressionante: passaram-se décadas e a imagem do “Guerrilheiro Heróico” continua a ser usada por muitos, em situações e intenções diversas. Nas vezes em que foi questionado sobre as apropriações que faziam de sua fotografia mais famosa, Korda declarava ter esperança de que aquela imagem jamais perderia a força de representar a utopia e a ternura. Tudo indica que ele estava certo.


por José Antônio Orlando.



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