terça-feira, 4 de junho de 2013

Silêncio de Hopper







Cenas de silêncio, solidão e cores fortes são as características mais marcantes das imagens do pintor e desenhista Edward Hopper (1882–1967). Leitor dos estudos psicológicos de Sigmund Freud e observador realista da vida cotidiana, em uma época em que a influência do Cubismo e da Arte Abstrata avançava nas artes plásticas e o som dos discos, do rádio e do cinema ficava onipresente, Hopper retratou com frequência os mesmos fragmentos de solidão em figuras anônimas que jamais se comunicam, olhando pela janela ou perdidas em um mundo à parte, para além do quadro, em paisagens sempre melancólicas, iluminadas por uma luz estranha que suas cores registram como se fosse um elemento arquitetônico de linhas finas e formas largas.

O vazio dos cenários de Hopper tem balcões de bares e lanchonetes, hotéis, postos de gasolina, ferrovias ou ruas no deserto, recriados com riqueza de detalhes em casas e prédios, fachadas, calçadas, postes, telhados, estações de passageiros, como se cada imagem, estática, contasse uma história muito particular sobre o cotidiano de homens e mulheres, todos solitários, pessoas comuns, como a leitora de “Hotel Room” (1931), as mulheres no café de “Chop Suey” (1929), o casal de “Room in NY” (1932), os pescadores de “Ground Swell” (1939), a jovem tristonha de “Morning Sun (1952), os poucos fregueses da lanchonete da esquina em “Nighthawks” (1942).






Silêncio de Hopper: no alto, Nighthawks, de
1942, uma das obras-primas de Edward Hopper 
que, pela primeira vez, serão exibidas ao lado
dos rascunhos e esboços feitos pelo artista.
Acima, Le Café de nuit a Place Lamartine,
de 1888, de Vincent Van Gogh, que teria
inspirado "Nighthawks" e outras obras de
Hopper. Abaixo, Automat, de 1927, uma
das homenagens de Hopper a sua esposa,
Josephine Nivison, que também era pintora.
O casal, retratado abaixo em fotografia de
1960 de Alfred Newman, se conheceu em
1923 e permaneceu junto até a morte de
Hopper, em 1967. Josephine, que morreu
10 meses depois de Hopper, doou todo o
acervo do marido para o Whitney Museum





  


No posto de destaque da Arte Moderna, precursor da Pop Art e reivindicado por escolas muito diferentes, Hopper se mantém como influência e referência para importantes fotógrafos, pintores, diretores de teatro, dramaturgos, escritores e cineastas os mais diversos, de Hitchcock a Alain Resnais, Antonioni, George Stevens, Douglas Sirk, Elia Kazan, Nicholas Ray, Samuel Fuller, Fassbinder, Wenders, Lynch, Terrence Malick. Mas Hopper ainda reserva surpresas, meio século depois de sua morte, como revela a primeira exibição de seus desenhos em Nova York, no Whitney Museum of Modern Art.


Grafite, giz preto, carvão


Hopper drawing” reúne uma amostra da coleção completa com 2.500 desenhos em técnicas diversas de todas as fases do artista, com um panorama de sua carreira como desenhista desde os tempos em que ele era aluno do New York School of Art até os útimos anos de vida. A coleção, doada ao Whitney pela viúva Josephine Hopper, permaneceu inédita por tanto tempo porque o próprio Hopper vendeu poucos deles e guardou a maioria para usar como referência. Para a exposição, que pode ser visitada on-line (veja link no final deste texto), os curadores, sob coordenação de Carter E. Foster, trazem finalmente a público os rascunhos e estudos de Hopper para espaços de ruas, bares, fachadas, quartos e estradas.





O catálogo da mostra no Whitney Museum e
dois nus: Female Nude on Model’s Platform
(c. 1900–03) e Standing Female Nude by
Window, Sketch for Etching (c. 1915–18),
desenhos do jovem Hopper em carvão e
grafite sobre papel. Abaixo, Reclining
Female Nude, Rear View (c. 1900-1906)
seguido por Early Sunday Morning,
pintura em óleo sobre tela de 1930



O estilo do Hopper desenhista é econômico. Na maioria dos desenhos em exposição, pode-se mesmo contar os traços através dos quais ele delineia suas figuras. Na sequência dos papeis originais, Forter e equipe intercalaram lado a lado os estudos traçados a grafite, giz preto ou carvão, que Hopper iria transformar em muitos de seus mais conhecidos quadros a óleo, entre eles “Early Sunday Morning” (1930), “New York Movie” (1939), “Office at Night” (1940). Confrontados com seus desenhos preparatórios, cada quadro ganha em complexidade e lança luzes sobre o processo criativo do artista.

A obra mais conhecida e também a mais valiosa da mostra, “Nighthawks” – emprestada pelo Art Institute of Chicago – é mostrada pela primeira vez ao lado dos 19 estudos feitos por Hopper, no intervalo de alguns meses. Há esboços de figuras deslocadas, como o homem que está sentado no balcão de frente, o que está de costas, bules e açucareiros com indicações de cor “âmbar” e “prata” escritas pelo artista. Entre estudos e obras finalizadas, veem-se retratos, testes de diferentes partes do corpo e até uma versão de “O tocador de pífano”, de Manet.







Segredos de composição


Outra das obras-primas de Hopper, “Soir bleu” (1914) ganha um espaço em separado, acompanhada por dezenas de esboços feitos nas três temporadas passadas em Paris, entre 1906 e 1910. Os desenhos em papeis de diferentes formatos registram tipos urbanos e detalhes captados nas ruas, que mais tarde seriam usados para compor a tela. Comparar desenhos e esboços com a obra finalizada pode revelar segredos de composição e perspectiva, caso de “New York movie” e seus 52 estudos para detalhes reais dos cinemas que o artista frequentava em Manhattan, incluindo o lanterninha de olhos fechados, em pé, no fundo da sala, que tornou-se o foco do quadro.

Idealizada pelo crítico de arte e curador Carter E. Foster, a mostra “Hopper drawing” reconstitui a formação do artista desde o início do século 20, até sua morte, como pintor consagrado, em 1967. Para explicar esse percurso, a primeira parte da exposição reúne imagens dos anos de sua formação (1900- 1924), assim como suas referências e influências. É a época em que Hopper aprendia no ateliê de Robert Henri na New York School of Art. Aluno dedicado, Hopper estava entre os discípulos de Henri na fundação da chamada Ashcan School ("Escola da Lixeira", literalmente).






Desde o rascunho: Study for Stairway,
o estudo em carvão e papel e o trabalho
finalizado em 1919. Abaixo, duas pinturas
em óleo sobre tela: New York Movie, de
1939, e Office at Night, de 1940, com um
dos rascunhos desenhados por Hopper; e
um dos estudos realizados em giz preto e
carvão para a obra-prima de 1940, Gas







No texto de apresentação ao catálogo da exposição, Foster explica que este primeiro período deixa claro o encanto de Hopper pelas técnicas impressionistas, tanto que ele conseguiu estabelecer temporadas para estudos em Paris, em 1906, 1909 e 1910. “Seus desenhos desta fase são estudos para tentar reproduzir os ângulos e a teatralização do mundo de Degas, as luzes de Félix Vallotton, a mise-en-scène de Walter Scikert”, explica Foster.


Alienação e isolamento


A mostra inclui também séries de Hopper vendidas na época como material de ilustração para jornais e revistas, que lhe garantiram o sustento financeiro. Mas o centro das atenções no percurso é mesmo a segunda parte da trajetória de Hopper, com a chegada de sua maturidade como artista, quando os mais respeitados críticos de arte reconhecem que poucos pintores conseguiram expressar tão bem a alienação e o isolamento das pessoas nos centros urbanos como Hopper.










Cenas da vida segundo Hopper: abaixo,
Night Windows, pintura de 1928, seguida 
por um estudo para Study for Morning 
Sun, de 1952; pelo quadro Excursion into
Philosophy, de 1959, e por uma das
obras-primas do início de carreira do
artista, Couple Drinking (1906-07)







Prosaico, corriqueiro, cotidiano, para o observador comum os cenários retratados por Hopper poderiam estar em uma página de revista, ou num álbum de retratos de família. Com uma diferença: as cenas de Hopper parecem dominadas por um silêncio perturbador e remetem à introspecção, nunca à euforia do consumismo irrefreável do sonho americano ou às poses publicitárias que acompanham sua ideologia. Hopper destaca o mistério e o silêncio em obras-primas como “Nighthawks”.

Também há as controvérsias. Entre elas, a gênese curiosa que é descrita por Gail Levin, biógrafa de Hopper. Em "Edward Hopper: An Intimate Biography" (New York: Alfred A. Knopf, 1995), ela especula que “Nighthawks” (Gaviões da noite), divisor de águas na trajetória do artista, teve sua inspiração no quadro “Le Café de nuit a Place Lamartine” (1888), de Vincent Van Gogh, que Hopper visitou várias vezes em 1942, durante uma temporada de exposição em Nova York.

A similaridade nas luzes, na perspectiva e nos temas tanto na obra-prima de Van Gogh quanto na "releitura" de Hopper confirma esta possibilidade. Segundo Gail Levin, Hopper começou a pintar “Nighthawks” em janeiro de 1942, ainda sob o impacto do ataque militar dos japoneses a Pearl Harbor, no mês anterior, quando a Segunda Guerra Mundial estava no começo. Mas há algo em "Nighthawks" que vai muito além da possível influência fauvista, impressionista ou expressionista de Van Gogh.

Há as cores marcantes, o contorno das figuras realistas, mas também há uma atmosfera comovida de solidão e um sentimento de tristeza que são estranhamente retratados por Hopper. A rua está vazia fora do restaurante. No interior, no balcão de madeira, três clientes, mas nenhum dos três está conversando uns com os outros. Todos estão distraídos, perdidos nos seus próprios pensamentos. Dois são um casal, enquanto o terceiro é um homem sentado sozinho, de costas para o espectador. De boné e uniforme branco, o funcionário olha para fora da janela, como se ignorasse a presença dos clientes. Pairando sobre tudo, a iluminação noturna, a acentuar a sensação de melancolia e confinamento, somada ao vazio provocado pelas paredes do restaurante, que formam um triângulo na esquina, de vidro transparente em dois lados. Em destaque no sonho americano segundo Hopper, parece haver somente mistério e silêncio.


por José Antônio Orlando.


Para comprar o catálogo editado pela Taschen, "Hopper", clique aqui.






Para uma visita virtual à exposição no Whitney Museum, clique aqui. 




 


 


10 comentários:

  1. Marisa Fernandes Temponi6 de junho de 2013 20:27

    Mas que beleza, meu querido autor do blog Semióticas. Cada página é melhor que a outra neste site, mas esta aqui, sobre os silêncios de Hopper, está para emocionar. Aprendi muito, como nunca. Muitos parabéns e prêmios é o que você merece. Só posso agradecer.

    Marisa Fernandes Temponi

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  2. Sensacional, Semióticas! Maravilha de abordagem. Páginas lindas, textos que emocionam. Parabéns.

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  3. O que mais me atrai no Hopper é sua capacidade de captar e retratar a plenitude que existe até mesmo nos momentos mais comuns e banais dessa nossa vida!...

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  4. Para mim foi uma destas surpresas que fazem a gente ganhar o dia: encontrar este ensaio brilhante sobre o Hopper e descobrir este tesouro de páginas deste blog Semióticas. Só posso agradecer. Parabéns!

    Milton Toledo

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  5. Raphael Moreira César26 de junho de 2013 15:23

    Muito bom, Semióticas. Uma beleza. Tenho muito orgulho de ver esse tipo de coisa em um blog como o seu, porque abre chance para outras pessoas terem contato com a arte e as boas ideias que a arte gera para fazer o mundo girar. Este blog deveria servir de modelo para quem quisesse chegar a algum lugar e quisesse realmente mudar o mundo para melhor. Sou fã. Parabéns, parabéns!

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  6. Meus aplausos!!! O conteúdo deste blog é demais!!! Ana

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  7. José, você conseguiu me emocionar com este ensaio lindo sobre meu pintor do coração. Descobri coisas que me levaram às alturas. Semióticas sabe o que diz, qualidade cada vez mais rara de encontrar. Merece todo meu respeito e admiração. Parabéns!

    Sheila Schulze

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  8. O que dizer deste blog que me deixa embevecida, sempre, que me deslumbra, me deixa de queixo caído? senza parole, senhores!

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  9. Heloísa Damasceno.16 de janeiro de 2014 18:29

    Todos os elogios de visitantes que encontrei por aqui são mais do que merecidos. Ainda não encontrei na internet nenhum blog e nenhum site melhor e mais impressionante que este Semióticas. Parabéns, meu querido José Antônio Orlando. Seu trabalho é luxuoso.

    Heloísa Damasceno

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  10. Jéssica Suzanne Silva15 de setembro de 2014 13:09

    Parabéns por este site maravilhoso e que deixa a gente emocionada. Em algumas páginas, como esta dedicada a meu pintor preferido, chego a ficar com lágrimas nos olhos. Mas lágrimas de felicidade, pelo que encontro e aprendo. Só posso agradecer. Concordo com o comentário acima. Semióticas é um luxo só. Jéssica Suzanne Silva

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