Rita Lee Jones está a pleno vapor às vésperas de completar 50 anos de carreira. Nos noticiários ela sempre esteve, desde 1966, com a estreia ao lado dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, com Os Mutantes. Mas retornou nos últimos dias de janeiro em manchetes que deixaram apreensivos seus milhões de fãs: em 22 de janeiro, ela anunciou via Twitter sua aposentadoria de shows com a apresentação marcada para o dia 28 em Aracaju, Sergipe.
“Me aposento dos shows, mas da música nunca”, explicou."Saio de cena absolutamente 'paixonadacocês'". Pelo Twitter, Rita também anunciou dois novos CDs: “Reza”, com uma seleção de canções inéditas, e “Bossa'n Movies” – que vai completar a trilogia Bossa Nova iniciada com “Bossa'n Roll” (de 1991) e “Bossa'n Beatles” (de 2001). Mas a notícia principal veio na manhã de domingo, 29 de janeiro, quando a rainha do Rock Brasil foi destaque em todos os sites e redes sociais.
No show da noite de sábado, 28, em Aracaju, no “Verão Sergipe”, com entrada franca e mais de 20 mil pessoas na plateia, na praia de Atalaia Nova, Rita Lee, visivelmente emocionada, enfrentou a PM para defender seus fãs da violência policial durante o show. Os vídeos postados no Youtube não deixam dúvidas sobre a truculência da ação da polícia que provocou a reação inédita de Rita no palco:
“Isso é força bruta! Vocês não têm o direito de usar a força na meninada que não tá fazendo nada! Cadê o responsável? Eu quero falar! Esse show é meu, não é de vocês! Esse show é minha despedida do palco, e vocês continuam tendo que guardar as pessoas – não agredir, seus cachorros! Eu sou do tempo da ditadura, vocês pensam que eu tenho medo? Eu sou mulher! Mulher! Eu tive três filhos, tenho uma neta, 67 anos, o que vocês vão fazer? É isso que vocês querem? Chamar atenção? Eles querem chamar a atenção! Querem cantar? Querem o quê? É horrível! Por que isso? Por quê?”
A truculência da PM continuou. “Não, eu não vou esperar! Esse show é meu, as pessoas estão esperando eu cantar, não a gracinha de vocês, seus filhos da puta! Agora venham me prender!” Minutos depois do protesto os policiais se afastam. Rita Lee retoma seu lugar no palco e faz o show até o final. Ao sair do palco, foi levada para uma delegacia. Na plateia, duas autoridades com atitudes completamente diferentes: o governador de Sergipe, Marcelo Deda, e a vereadora de Maceió e ex-senadora Heloísa Helena.
![]() |
Para escândalo e decepção de quem estava no show ou assistiu às imagens da truculência policial através dos vídeos no Youtube, o governador Deda, que estava no camarote, declarou aos repórteres que “não viu nenhuma ação policial que justificasse a reação da cantora”. Já a vereadora Heloísa Helena, que estava na plateia e presenciou tudo, foi até a delegacia prestar depoimento em favor de Rita Lee.
O destaque nas redes ainda ocasionou nos dias seguintes minutos de fama para um ou outro insano que ousava defender a violência policial, mas a maioria das “cabeças pensantes” foi solidária ao protesto, à coragem e à dignidade da artista. “Os comentários sobre a prisão de Rita Lee no Twitter são assustadores: em breve, a turma vai estar marchando de braço estendido, gritando ANAUÊ!”, registrou o poeta André Vallias. "Algumas reações ao affair Rita Lee mostram que o atraso mental e o autoritarismo continuam entre nós. É o século 21 versus a Nova Idade Média", destacou o crítico de música Jamari França.
![]() |
Diversos artistas do primeiro time e alguns parlamentares também se manifestaram a favor da roqueira. Até o presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, foi solidário à atitude de Rita. Na avaliação de Ophir, o episódio só confirmou "a falta de preparação adequada da polícia, o que vai de São Paulo, onde vimos o caso Pinheirinho, até Sergipe". Em entrevista, o advogado argumentou que a truculência policial no show de Rita Lee prova que os governos deveriam investir numa "maior preparação" da polícia para atuar junto a multidões. "É preciso investir numa polícia mais humana e mais cidadã", declarou Ophir.
A anunciada última turnê de Rita Lee, um dos nomes mais populares e criativos do Brasil nas últimas décadas, estreou em Belo Horizonte, na Arena do Chevrolet Hall, em 17 de abril de 2010, antes de seguir para outras capitais, além de Argentina e Uruguai. "ETC", como a nova turnê foi batizada, prometeu e cumpriu tudo que os fãs esperam de um show da rainha do rock: doses generosas de bom humor, técnica apurada e novos arranjos para alguns dos grandes sucessos consagrados em uma trajetória de quase 50 anos de estrada, das primeiras experiências com Os Mutantes aos trabalhos mais recentes, passando por "Baby", "Ovelha Negra", "Baila Comigo", "Doce Vampiro", "Chega Mais", "Banho de Espuma", “Vírus do Amor” e muito mais.
![]() |
"Se ainda não mataram a óbvia charada de por que a turnê se chamar ETC, aqui vão algumas respostas para perguntas que volta e meia me fazem quando dou entrevistas ou converso com um fã: há 45 anos trabalho com música; participei de algumas bandas; tenho trocentas composições; já fiz um bilhão, setecentos e dezenove milhões e setenta mil shows; já me vesti de noiva, boba da corte, presidiária e Nossa Senhora Aparecida; há 33 anos sou casada com Roberto de Carvalho, meu maior parceiro musical e pai dos meus 3 filhos" – foi o que ouvi ao telefone da própria roqueira, que aguardava o voo de São Paulo para Belo Horizonte, naquela tarde de 16 de abril de 2010.
Foi minha terceira entrevista com Rita. Por incrível coincidência, as anteriores também foram em aeroportos, mas cara a cara: a primeira em 1986, quando o acaso e a sorte me colocaram ao seu lado na fila de embarque no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Rita acompanhada por Roberto de Carvalho e pela secretária Suely Aguiar e eu, estudante de Comunicação da UFJF, ouvi dela uma lista de muitos projetos que estavam por vir (incluindo novos discos e shows, livros para o público infantil, a série “Dr. Alex, e um programa para a MTV, “TVLeeZão”), além de um autêntico “furo de reportagem”: a declaração de que estava rompendo contrato com a Som Livre, gravadora que havia lançado seus maiores sucessos de público e crítica desde o final dos anos 1970.
A segunda entrevista também foi obra do acaso e da sorte. Em 1995, às vésperas de concluir a dissertação de Mestrado na UFMG, fui a São Paulo para participar de um simpósio na USP e, na volta, avisto Rita e Roberto acompanhados por um séquito no aeroporto – eu retornando a BH e a dupla partindo para uma nova turnê depois de um longo intervalo. Ser reconhecido pela roqueira e ser chamado de “mineirinho” foi uma festa. Outra entrevista e outra revelação: ela estava de contrato assinado para fazer a abertura do show dos Rolling Stones no Brasil.
A
terceira entrevista – com Rita no aeroporto, em São Paulo, e eu na
redação do jornal, em BH – talvez tenha sido das últimas que ela
concedeu, já que nos últimos tempos, cada vez mais avessa aos
encontros com jornalistas, ela só tem feito declarações através
de e-mail ou nas postagens frequentes e diárias via Twitter, à
exceção de breves encontros com equipes de TV nos bastidores dos
shows ou nas viagens para apresentações no exterior.
Na
breve conversa ao telefone, Rita Lee destacou que aquela entrevista
era uma exceção. Com pressa, mas sempre com o bom humor à flor da
pele, Rita comentou sobre nossas entrevistas anteriores em aeroportos
– “Putz, mineirinho, minha memória está queimada...” – e
falou sobre a expectativa para a turnê que ela iria estrear no dia
seguinte nas Minas Gerais. Disse que estava muito feliz porque a
estreia seria em Belo Horizonte – cidade com a qual ela confessa
que tem uma certa "ligação astral", com muitos amigos do
peito e recordações das mais positivas.
![]() |
![]() |
![]() |
"Minas também é de capricórnio", destacou Rita ao telefone, lembrando que o estado das Minas Gerais de ouro, diamantes e pedras preciosas e ela nasceram sob a influência do mesmo signo do Zodíaco. "Todo capricorniano melhora com o tempo e sim, o prazer de estar no palco permanece tão intacto quanto a máscara dourada de Tutankamon", completou. Reproduzo a seguir, os principais trechos da entrevista, que foi publicada pelo jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, numa data emblemática: o dia 17 de abril de 2010, data de estreia nacional de “ETC”.
Você diz que BH representa experiências importantes para você em momentos especiais. O que o público pode esperar do show de estreia da turnê de "ETC"? Sucessos, inéditas, surpresas?
RITA LEE – Esta será mais uma apresentação das bilhões que já fiz pelos bailes da vida, portanto não há grandes surpresas. Talvez uma outra inédita, mas sei que o público que vai me ver espera ouvir os hits mais populares e outras que eu resolvo tirar e pôr conforme a veneta.
Em 45 anos de palco e estrada e estúdios, você já fez de tudo e já declarou que a vantagem e o problema maior da maturidade é conhecer de tudo e saber que é cópia descarada a maior parte do que é apresentado como novo. O que falta acontecer na história do rock’n’roll sexagenário? O que Rita Lee ainda não fez mas vai fazer?
Um artista que está há 40 e tantos anos na estrada e que possui uma boa bagagem musical como eu, tem mais é que agradecer aos deuses pelo privilégio de manter os fãs e sobreviver de música. Meu maior desafio não é revolucionar nada, é manter o bom humor no meio de tanta gente reclamando da vida.
O que você costuma ouvir por prazer no dia a dia e em quais circunstâncias?
Em casa só escuto música instrumental, mas prefiro mesmo o silêncio.
![]() |
![]() |
E os novos da música, no Brasil e em outros países? Algum deles lhe agrada?
Confesso que estou por fora da música planetária em geral. Se algum artista novo durar mais do que 15 minutos de sucesso pode ser que eu vá escutar alguma coisa dele.
Em entrevista recente que fiz com o Midas do mercado fonográfico André Midani, ele fez altos elogios a você. Segundo Midani, Rita Lee é, há décadas, uma das mais interessantes artistas da música brasileira – e comparou sua importância especialíssima com a estrela Carmen Miranda, por motivos diversos. Para Midani, Rita Lee é a Carmen Miranda do rock nacional. Na sua opinião, a comparação procede?
Meu Deus, quanta honra! Monsieur André Midani é um cavalheiro. La Miranda fez um sucesso tremendo no exterior e nunca houve, até hoje, alguém que representasse o Brasil com a genialidade dela. Mas é uma grande honra. Adorei. Quero ser merecedora.
![]() |
E o tempo? Mudou alguma coisa na sua visão de mundo a experiência dos filhos adultos e ser vovó pela primeira vez? Pensa em retomar projetos como os livros de literatura infantil e ecológica com o incrível Dr. Alex? Quais os projetos futuros de Rita Lee?
Prefiro ser a vovó antena da de hoje do que a jovem burrinha que fui ontem. Ficar velho tem suas vantagens, o que estraga é a dor na coluna, o fígado que reclama, a pele que despenca. Talvez a inspiração retorne com minha neta e eu escreva a continuação das aventuras de Dr. Alex.
Na Antiguidade Clássica, os pensadores gregos (Aristóteles em especial) defendiam que a política é a rainha das artes, porque dela dependem todas as outras. Como a política, na sua concepção mais abrangente, sempre foi ingrediente dos mais importantes na pauta de Rita Lee, desde priscas eras, você acredita que, no Brasil do futuro, tudo vai ser diferente?
Que pergunta mais difícil, mineirinho. Não sei não... Mas acho que enquanto o voto for obrigatório, nada mudará.
por José Antônio Orlando.
Como citar:
Como citar:
ORLANDO,
José Antônio. Ovelha negra. In: ______. Blog Semióticas, 3
de fevereiro de 2012. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2012/02/ovelha-negra.html
(acessado em .../.../…).












































