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3 de fevereiro de 2012

Ovelha negra






Rita Lee Jones está a pleno vapor às vésperas de completar 50 anos de carreira. Nos noticiários ela sempre esteve, desde 1966, com a estreia ao lado dos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, com Os Mutantes. Mas retornou nos últimos dias de janeiro em manchetes que deixaram apreensivos seus milhões de fãs: em 22 de janeiro, ela anunciou via Twitter sua aposentadoria de shows com a apresentação marcada para o dia 28 em Aracaju, Sergipe.

Me aposento dos shows, mas da música nunca”, explicou."Saio de cena absolutamente 'paixonadacocês'". Pelo Twitter, Rita também anunciou dois novos CDs: “Reza”, com uma seleção de canções inéditas, e “Bossa'n Movies” – que vai completar a trilogia Bossa Nova iniciada com “Bossa'n Roll” (de 1991) e “Bossa'n Beatles” (de 2001). Mas a notícia principal veio na manhã de domingo, 29 de janeiro, quando a rainha do Rock Brasil foi destaque em todos os sites e redes sociais.

No show da noite de sábado, 28, em Aracaju, no “Verão Sergipe”, com entrada franca e mais de 20 mil pessoas na plateia, na praia de Atalaia Nova, Rita Lee, visivelmente emocionada, enfrentou a PM para defender seus fãs da violência policial durante o show. Os vídeos postados no Youtube não deixam dúvidas sobre a truculência da ação da polícia que provocou a reação inédita de Rita no palco:





Isso é força bruta! Vocês não têm o direito de usar a força na meninada que não tá fazendo nada! Cadê o responsável? Eu quero falar! Esse show é meu, não é de vocês! Esse show é minha despedida do palco, e vocês continuam tendo que guardar as pessoas – não agredir, seus cachorros! Eu sou do tempo da ditadura, vocês pensam que eu tenho medo? Eu sou mulher! Mulher! Eu tive três filhos, tenho uma neta, 67 anos, o que vocês vão fazer? É isso que vocês querem? Chamar atenção? Eles querem chamar a atenção! Querem cantar? Querem o quê? É horrível! Por que isso? Por quê?”

A truculência da PM continuou. “Não, eu não vou esperar! Esse show é meu, as pessoas estão esperando eu cantar, não a gracinha de vocês, seus filhos da puta! Agora venham me prender!” Minutos depois do protesto os policiais se afastam. Rita Lee retoma seu lugar no palco e faz o show até o final. Ao sair do palco, foi levada para uma delegacia. Na plateia, duas autoridades com atitudes completamente diferentes: o governador de Sergipe, Marcelo Deda, e a vereadora de Maceió e ex-senadora Heloísa Helena.







Para escândalo e decepção de quem estava no show ou assistiu às imagens da truculência policial através dos vídeos no Youtube, o governador Deda, que estava no camarote, declarou aos repórteres que “não viu nenhuma ação policial que justificasse a reação da cantora”. Já a vereadora Heloísa Helena, que estava na plateia e presenciou tudo, foi até a delegacia prestar depoimento em favor de Rita Lee.

O destaque nas redes ainda ocasionou nos dias seguintes minutos de fama para um ou outro insano que ousava defender a violência policial, mas a maioria das “cabeças pensantes” foi solidária ao protesto, à coragem e à dignidade da artista. “Os comentários sobre a prisão de Rita Lee no Twitter são assustadores: em breve, a turma vai estar marchando de braço estendido, gritando ANAUÊ!”, registrou o poeta André Vallias. "Algumas reações ao affair Rita Lee mostram que o atraso mental e o autoritarismo continuam entre nós. É o século 21 versus a Nova Idade Média", destacou o crítico de música Jamari França. 








Diversos artistas do primeiro time e alguns parlamentares também se manifestaram a favor da roqueira. Até o presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcante, foi solidário à atitude de Rita. Na avaliação de Ophir, o episódio só confirmou "a falta de preparação adequada da polícia, o que vai de São Paulo, onde vimos o caso Pinheirinho, até Sergipe". Em entrevista, o advogado argumentou que a truculência policial no show de Rita Lee prova que os governos deveriam investir numa "maior preparação" da polícia para atuar junto a multidões. "É preciso investir numa polícia mais humana e mais cidadã", declarou Ophir.

A anunciada última turnê de Rita Lee, um dos nomes mais populares e criativos do Brasil nas últimas décadas, estreou em Belo Horizonte, na Arena do Chevrolet Hall, em 17 de abril de 2010, antes de seguir para outras capitais, além de Argentina e Uruguai. "ETC", como a nova turnê foi batizada, prometeu e cumpriu tudo que os fãs esperam de um show da rainha do rock: doses generosas de bom humor, técnica apurada e novos arranjos para alguns dos grandes sucessos consagrados em uma trajetória de quase 50 anos de estrada, das primeiras experiências com Os Mutantes aos trabalhos mais recentes, passando por "Baby", "Ovelha Negra", "Baila Comigo", "Doce Vampiro", "Chega Mais", "Banho de Espuma", “Vírus do Amor” e muito mais.








"Se ainda não mataram a óbvia charada de por que a turnê se chamar ETC, aqui vão algumas respostas para perguntas que volta e meia me fazem quando dou entrevistas ou converso com um fã: há 45 anos trabalho com música; participei de algumas bandas; tenho trocentas composições; já fiz um bilhão, setecentos e dezenove milhões e setenta mil shows; já me vesti de noiva, boba da corte, presidiária e Nossa Senhora Aparecida; há 33 anos sou casada com Roberto de Carvalho, meu maior parceiro musical e pai dos meus 3 filhos" – foi o que ouvi ao telefone da própria roqueira, que aguardava o voo de São Paulo para Belo Horizonte, naquela tarde de 16 de abril de 2010.

Foi minha terceira entrevista com Rita. Por incrível coincidência, as anteriores também foram em aeroportos, mas cara a cara: a primeira em 1986, quando o acaso e a sorte me colocaram ao seu lado na fila de embarque no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Rita acompanhada por Roberto de Carvalho e pela secretária Suely Aguiar e eu, estudante de Comunicação da UFJF, ouvi dela uma lista de muitos projetos que estavam por vir (incluindo novos discos e shows, livros para o público infantil, a série “Dr. Alex, e um programa para a MTV, “TVLeeZão”), além de um autêntico “furo de reportagem”: a declaração de que estava rompendo contrato com a Som Livre, gravadora que havia lançado seus maiores sucessos de público e crítica desde o final dos anos 1970.

A segunda entrevista também foi obra do acaso e da sorte. Em 1995, às vésperas de concluir a dissertação de Mestrado na UFMG, fui a São Paulo para participar de um simpósio na USP e, na volta, avisto Rita e Roberto acompanhados por um séquito no aeroporto – eu retornando a BH e a dupla partindo para uma nova turnê depois de um longo intervalo. Ser reconhecido pela roqueira e ser chamado de “mineirinho” foi uma festa. Outra entrevista e outra revelação: ela estava de contrato assinado para fazer a abertura do show dos Rolling Stones no Brasil.






Família rock'n'roll: Beto Lee, Rita Lee
e Roberto de Carvalho no palco em BH, 
na estreia da turnê com o show ETC.
No alto, Rita Lee em 2002, em fotografia
de Adriana Zehbrauskas, e no palco, na
temporada da turnê ETC. Abaixo, o
documento de identificação do lendário
show com Os Mutantes em Cannes, na
França, em 1969, no Festival de Midem;
e Rita em fotografia de Leila Lisboa Sznelwar
em 1972, nos bastidores do show de lançamento de
Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets,
último LP de Rita como integrante de Os Mutantes












 

A terceira entrevista – com Rita no aeroporto, em São Paulo, e eu na redação do jornal, em BH – talvez tenha sido das últimas que ela concedeu, já que nos últimos tempos, cada vez mais avessa aos encontros com jornalistas, ela só tem feito declarações através de e-mail ou nas postagens frequentes e diárias via Twitter, à exceção de breves encontros com equipes de TV nos bastidores dos shows ou nas viagens para apresentações no exterior.

Na breve conversa ao telefone, Rita Lee destacou que aquela entrevista era uma exceção. Com pressa, mas sempre com o bom humor à flor da pele, Rita comentou sobre nossas entrevistas anteriores em aeroportos – “Putz, mineirinho, minha memória está queimada...” – e falou sobre a expectativa para a turnê que ela iria estrear no dia seguinte nas Minas Gerais. Disse que estava muito feliz porque a estreia seria em Belo Horizonte – cidade com a qual ela confessa que tem uma certa "ligação astral", com muitos amigos do peito e recordações das mais positivas. 

 















Rita Lee em quatro tempos: 1) aos 15,
em 1963, quando formava com mais
duas garotas as Teenage Singers,
banda que participava de shows e de
festas colegiais; 2) com a formação
original de Os Mutantes, em 1968, e
com a Collie chamada Daniela Danone
que sempre excursionava com a banda
e foi pivô da separação entre Rita e os
irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista;
3) em carreira solo, na década de 1970;
4) em 2007, na capa da edição nacional
da revista Rolling Stone. Abaixo,
Rita Lee em 1967, na época de
Os Mutantes, no Parque do Ibirapuera,
e em 1985 com os filhos Beto (n. 1977),
João (n. 1979) e Antônio (n. 1981)











"Minas também é de capricórnio", destacou Rita ao telefone, lembrando que o estado das Minas Gerais de ouro, diamantes e pedras preciosas e ela nasceram sob a influência do mesmo signo do Zodíaco. "Todo capricorniano melhora com o tempo e sim, o prazer de estar no palco permanece tão intacto quanto a máscara dourada de Tutankamon", completou. Reproduzo a seguir, os principais trechos da entrevista, que foi publicada pelo jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, numa data emblemática: o dia 17 de abril de 2010, data de estreia nacional de “ETC”.


Você diz que BH representa experiências importantes para você em momentos especiais. O que o público pode esperar do show de estreia da turnê de "ETC"? Sucessos, inéditas, surpresas?

RITA LEE – Esta será mais uma apresentação das bilhões que já fiz pelos bailes da vida, portanto não há grandes surpresas. Talvez uma outra inédita, mas sei que o público que vai me ver espera ouvir os hits mais populares e outras que eu resolvo tirar e pôr conforme a veneta.

Em 45 anos de palco e estrada e estúdios, você já fez de tudo e já declarou que a vantagem e o problema maior da maturidade é conhecer de tudo e saber que é cópia descarada a maior parte do que é apresentado como novo. O que falta acontecer na história do rock’n’roll sexagenário? O que Rita Lee ainda não fez mas vai fazer?

Um artista que está há 40 e tantos anos na estrada e que possui uma boa bagagem musical como eu, tem mais é que agradecer aos deuses pelo privilégio de manter os fãs e sobreviver de música. Meu maior desafio não é revolucionar nada, é manter o bom humor no meio de tanta gente reclamando da vida.

O que você costuma ouvir por prazer no dia a dia e em quais circunstâncias?

Em casa só escuto música instrumental, mas prefiro mesmo o silêncio.

















Seis capas de LPs: Build Up (1970),
disco de estreia de Rita Lee na carreira
solo; Fruto Proibido (1975) e
Babilônia (1978), com a banda
Tutti Frutti; Refestança (1977), ao
vivo com Gilberto Gil; Rita Lee (1979),
primeiro da parceria com Roberto de
Carvalho; e Balacobaco, de 2003,
último disco de inéditas antes de
Reza (2012). Abaixo, com sua alma
gêmea David Bowie, em 1979,
na época do lançamento do primeiro
álbum depois da fase Tutti-Frutti de Rita,
com “Mania de Você”, “Doce Vampiro”,
“Chega Mais” e outros sucessos. E com

João Gilberto, seu ídolo de longa data, no
palco, durante a gravação de um programa
especial para a TV Globo em 1980









E os novos da música, no Brasil e em outros países? Algum deles lhe agrada?

Confesso que estou por fora da música planetária em geral. Se algum artista novo durar mais do que 15 minutos de sucesso pode ser que eu vá escutar alguma coisa dele.

Em entrevista recente que fiz com o Midas do mercado fonográfico André Midani, ele fez altos elogios a você. Segundo Midani, Rita Lee é, há décadas, uma das mais interessantes artistas da música brasileira – e comparou sua importância especialíssima com a estrela Carmen Miranda, por motivos diversos. Para Midani, Rita Lee é a Carmen Miranda do rock nacional. Na sua opinião, a comparação procede?

Meu Deus, quanta honra! Monsieur André Midani é um cavalheiro. La Miranda fez um sucesso tremendo no exterior e nunca houve, até hoje, alguém que representasse o Brasil com a genialidade dela. Mas é uma grande honra. Adorei. Quero ser merecedora.







E o tempo? Mudou alguma coisa na sua visão de mundo a experiência dos filhos adultos e ser vovó pela primeira vez? Pensa em retomar projetos como os livros de literatura infantil e ecológica com o incrível Dr. Alex? Quais os projetos futuros de Rita Lee?

Prefiro ser a vovó antena da de hoje do que a jovem burrinha que fui ontem. Ficar velho tem suas vantagens, o que estraga é a dor na coluna, o fígado que reclama, a pele que despenca. Talvez a inspiração retorne com minha neta e eu escreva a continuação das aventuras de Dr. Alex.

Na Antiguidade Clássica, os pensadores gregos (Aristóteles em especial) defendiam que a política é a rainha das artes, porque dela dependem todas as outras. Como a política, na sua concepção mais abrangente, sempre foi ingrediente dos mais importantes na pauta de Rita Lee, desde priscas eras, você acredita que, no Brasil do futuro, tudo vai ser diferente?

Que pergunta mais difícil, mineirinho. Não sei não... Mas acho que enquanto o voto for obrigatório, nada mudará.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Ovelha negra. In: ______. Blog Semióticas, 3 de fevereiro de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/02/ovelha-negra.html (acessado em .../.../…).









5 de agosto de 2011

Um toque de Midani







Pouco a pouco, aos olhos da maioria dos
tecnocratas, os artistas viraram inimigos,
considerados pouco confiáveis, pouco sérios
e sem o menor senso de responsabilidade.
Podia-se ouvir nos corredores: – Esse negócio
de discos seria muito bom se não se tivesse
que lidar com esta raça: o artista…


–– André Midani   

 






Um dos nomes fundamentais da indústria fonográfica no Brasil, André Haidar Midani acredita que a criatividade na música está em franco declínio e que a indústria do disco chegou, definitivamente, ao fim. Nascido na Síria, em 25 de setembro de 1932, e criado na França desde os três anos de idade, Midani é considerado um Midas da música: foi o descobridor da maior parte dos principais artistas do mercado brasileiro desde o final dos anos 1950.

A trajetória de André Midani no Brasil tem muitos capítulos, passando pelo nascimento da Bossa Nova, da Tropicália, dos primeiros trabalhos de grandes nomes da MPB e da geração do rock nacional a partir dos anos 1980. Durante sua passagem por Belo Horizonte, onde participou como convidado especial da programação do festival Eletronika, Midani concedeu esta entrevista no Espaço 104, na Praça da Estação, depois de um bate-papo com a plateia do festival sobre o mercado fonográfico e a atualidade da música no Brasil.





Com um senso de humor muito peculiar e visão privilegiada sobre o cenário da música e da produção cultural, André Midani abre a entrevista lembrando da infância, passada em Paris. Conta que sofreu na pele os tempos difíceis da Segunda Guerra. Viveu entocado num porão, passou fome e frio. Sua carreira profissional começou por um golpe de sorte em 1952, ainda na França, como funcionário da gravadora Decca.

Ciente da importância de sua trajetória para a música brasileira, Midani registrou seus percalços e sucessos na sua autobiografia, “Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download”, publicada em 2009 pela Nova Fronteira. Mas como o livro enfrentou impedimentos judiciais de toda natureza, por conta da franqueza do autor e dos muitos nomes e casos citados, o próprio Midani tomou uma iniciativa das mais ousadas: reproduziu a íntegra do texto em seu site oficial e liberou o conteúdo para download público e gratuito – disponível no endereço www.andremidani.net/2012/03/musica-idolos-e-poder.html.







Em 1955, André Midani emigrou para o Brasil, fugindo da convocação para lutar na guerra dos franceses contra a Argélia. Em terras brasileiras, tem atuado em momentos marcantes da música, em mais de 50 anos, destacando-se numa profissão que naquela época ainda não existia: descobridor de talentos e gestor de carreiras e de projetos fonográficos. 



Um som perfeito, eterno


Apaixonado por jazz e por bateria desde a juventude, nunca chegou a ser artista. No final da década de 1950, já morando no Brasil, conseguiu emprego na Odeon Records e depois na Capitol. Foi aí que o fotógrafo Chico Pereira lhe apresentou um grupo de jovens músicos, amigos dos filhos: eram Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e Roberto Menescal. Pouco depois, Dorival Caymmi lhe apresentou João Gilberto.





Memórias de André Midani no Brasil:
no alto, Carmen Miranda e o Bando
da Lua, em Nova York, 1945. Acima,
artistas em painel fonográfico da MPB
nos anos 1970 e a capa do antológico
LP com o registro da íntegra do show
histórico da Bossa Nova apresentado
no Carnegie Hall, em Nova York, em
21 de novembro de 1962. Abaixo,
Marília Medalha e Edu Lobo durante
a apresentação de Ponteio no 3°
Festival de Música Popular Brasileira
da TV Record, em 1967. Também
abaixo, no mesmo festival, Gilberto Gil,
Geraldo Vandré, Chico Buarque e Elis Regina,
tendo ao fundo um cartaz com fotografias
de Jair Rodrigues e Nara Leão










"Eu não descobri a Bossa Nova. Na verdade, eu a encontrei", ironiza Midani. Sobre João Gilberto, ele diz que ficou especialmente impressionado quando ouviu aquela voz e aquela batida revolucionária de violão. Desde a primeira vez. Então, ficou atento e acabou conhecendo João Gilberto nas praias do Rio de Janeiro. Em seguida, fez o possível para que João pudesse gravar o compacto com as faixas “Chega de Saudade” e “Bim Bom”.

Como toda coisa que é mesmo revolucionária, foi um choque, mas depois você vai se acostumando. O João Gilberto inventou um som perfeito, eterno. Os critérios que ele coloca na música dele são absolutamente geniais, não é uma coisa de moda, que vai passar. É algo definitivo que passa a ser uma referência para todos, universal”, destaca.

Quanto à Tropicália, Midani reconhece com toda modéstia que não teve participação na invenção do movimento: "Não os descobri, só dei espaço para Gal, Caetano, Bethânia, Gil, Chico Buarque, Tim Maia, Jorge Ben, Os Mutantes, Elis Regina, Roberto Carlos, Paulinho da Viola, Belchior, Raul Seixas e tantos outros na principal empresa brasileira de discos. Fiz como faz um jardineiro que tira o mato e as ervas daninhas para as melhores plantas crescerem", recorda, contando casos engraçados e situações surpreendentes dos primeiros encontros com cada um dos grandes nomes da música do Brasil.






Memórias de André Midani no Brasil:
no alto, Caetano Veloso com Gal Costa
e Maria Bethânia e a capa do antológico
Doces Bárbaros, turnê de shows que reuniu
nos anos 1970 Caetano, Gilberto Gil, Gal
e Bethânia. Abaixo, Caetano, Bethânia
e João Gilberto, também na década de 1970
em fotografia do cineasta Rogério Sganzerla











Mentor dos grandes festivais 



Como se não bastasse, Midani também foi um dos mentores dos grandes festivais de música que tomaram o Brasil na segunda metade da década de 1960 e, a partir da década de 1970, tornou-se executivo da Odeon, da WEA e da Phonogram (depois, Polygram e Universal Music). Convidado para montar a Warner no Brasil, apostou no rock nacional nos anos 1980, contratando bandas que fariam história. Em 1990, é transferido para Nova Iorque, onde assume a presidência da Warner para a América Latina.

Volta ao Brasil em 2002, para trabalhar em projetos como a ONG Viva Rio. No mesmo ano em que lançou sua autobiografia, "Música, Ídolos e Poder - Do Vinil ao Download", ele foi eleito pela revista "Billboard" uma das 90 personalidades da história da indústria fonográfica mundial. Durante a entrevista, pergunto sobre o filme "O Homem que Matou o Facínora", de John Ford, no qual o herói diz que, se a lenda é maior que homem, publique a lenda.





Confrontado com a máxima do filme de John Ford, André Midani faz um exercício de modéstia. "No meu caso, a lenda é cada vez mais exagerada, cada vez mais fantasiosa que a realidade", ironiza, fazendo pausas para lembrar de um ou outro nome, um ou outro acontecimento que foi definitivo na sua trajetória de vida e na trajetória dos artistas com os quais convive e conviveu no passado. "A lenda vive na imaginação das pessoas, mas no meu caso a lenda não é melhor que o homem".

Segundo Midani, ele nunca teve intenção de cultivar nem essa nem nenhuma outra lenda. "Ao invés de incorporar essa lenda que você associa com o filme de John Ford, prefiro lembrar aquele ditado popular que diz que onde tem fumaça tem fogo (risos). Sempre tive muita sorte, isso eu não posso negar. Fui eleito para conviver com a música e com a amizade de tantos artistas maravilhosos ao longo de tanto tempo”.

 



O Brasil é Carmen Miranda e Bossa Nova



Enquanto se diz "brasileiro de carteirinha", André Midani reconhece que somente a sorte pode explicar sua trajetória de tantos sucessos, desde que decidiu trocar a França pelo Brasil, há seis décadas. "Só posso ser muito grato pela vida ter me concedido tanta sorte e por ter permitido que eu descobrisse ainda jovem este país tão maravilhoso que é o Brasil". 

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista em que a principal lenda do mercado fonográfico brasileiro recorda sua trajetória e tece comentários espirituosos sobre personalidades do primeiro time, como Carmen Miranda e os medalhões da Bossa Nova e da Tropicália.






Quais são as suas recordações mais antigas sobre música? 
 
André Midani – Se eu puxar pela memória, preciso reconhecer que todas as minhas lembranças mais antigas têm relação com música. Lembro do dia em que um tio meu chegou em casa com um gramofone. Chamou a criançada, botou o disco com uma canção muito popular na época, "La Mer", do cantor e compositor francês Charles Trenet. Foi inesquecível. Para mim, que tinha menos de dez anos, foi uma experiência tão forte que não lembro de nada da infância antes disso.







E a mudança da França para o Brasil, em 1955, como foi?

Minha única referência sobre o Brasil era a figura maravilhosa de Carmen Miranda. Tudo o mais era mistério, tudo era diferente do que eu conhecia. Talvez por isso, o começo foi muito, muito difícil. Penei bastante por uns dois anos, trabalhando como apontador de estoque e vendedor. Mas depois a vida me deu em dobro. Acho mesmo que tirei a sorte grande, por todas as experiências que tive e por todas as pessoas tão especiais que conheci. A vida me apresentou todos os grandes nomes da Bossa Nova, me apresentou João Gilberto e tantas outras pessoas, artistas geniais, tantas oportunidades incríveis…

O Brasil daquele tempo era outro…

Sim, era um outro país, muito mais simples, muito mais sonhador, com características muito diferentes. Era um país ainda desconhecido, que impressionava o mundo por seu exotismo tremendo. Mas é preciso reconhecer que, no imaginário internacional, até hoje o Brasil é Carmen Miranda e Bossa Nova.









Carmen Miranda e o Bando da Lua:
acima, a estrela em Nova York, durante a
longa temporada de shows na Broadway,
na década de 1945, que rendeu a Carmen
na imprensa o título de "a mulher que
salvou a Broadway". No alto, Carmen e
seus músicos brasileiros em Hollywood,
em 1941, durante as filmagens de
Uma Noite no Rio (That Night in Rio)



Mas Carmen veio muito antes e representa quase o avesso da Bossa Nova…

Você tem toda razão. Podemos dizer que Carmen Miranda era colorida, dançante, enquanto a Bossa Nova era em preto e branco, com suas canções de harmonias minimalistas, seus temas de nostalgia e de melancolia. Carmen foi o contrário disso, era festa e carnaval. A Bossa Nova era mais introspectiva.

Carmen Miranda ainda tem alguma importância hoje ou ficou no passado?

Carmen ainda é genial. Além de grande cantora, grande dançarina, atriz, comediante e designer, muito antes desta palavra começar a ser usada, ela também foi pioneira no que hoje chamamos de marketing. Era uma artista completa, encantadora, que manipulava muito bem a mídia e que usou seu talento para se manter no auge durante décadas. 

Sim, Carmen Miranda era a extroversão em pessoa, gentilmente carnavalesca, muito engraçada e conquistou o mundo a partir de Hollywood. Engraçado como a Bossa Nova era o contrário, era a total introversão. Mas também fez um sucesso estrondoso no mundo inteiro, a partir do sucesso inicial nos Estados Unidos. Quanto a Carmen, acho que infelizmente ainda hoje ela é muito mal compreendida no Brasil, depois de tanto tempo.






Como André Midani chegou à Bossa Nova?

Quando penso na Bossa Nova, penso em um quarteto da maior importância: João Gilberto em primeiro lugar, Tom Jobim, Newton Mendonça e, logo depois, João Donato. Estes quatro personagens foram os mais essenciais para o que chamamos de Bossa Nova. Claro que tem outros nomes que contribuíram muito, tem os precursores do movimento, os destaques das gerações que vieram depois, o sucesso de Astrud Gilberto no exterior, tem Elis Regina e as outras cantoras... Mas sem o trabalho criativo daquele quarteto inicial, sem João Gilberto, Tom Jobim, Newton Mendonça e João Donato, a Bossa Nova não teria existido com tanta força e qualidade. 








Memórias de André Midani no Brasil:
no alto, João Donato e João Gilberto 
em 1957, em Copacabana, antes da
Bossa Nova. Acima, João Donato e
André Midani em 1972. Abaixo,
Tom Jobim e Elis Regina no
estúdio, em 1974, durante a gravação
da canção Águas de Março






Além da Bossa Nova, o senhor também tem importância fundamental na Tropicália, no que passou a ser chamado de MPB e também no sucesso dos principais nomes do rock nacional, a partir dos anos 1980…

Sim, é isso mesmo. Confesso que vivi (risos). E sobrevivi, para contar minha versão dessas histórias, todas maravilhosas. Cada um destes movimentos teve suas idiossincrasias, seus mitos. Na Tropicália, a grande questão foi o pensamento anárquico, talvez por isso Carmen Miranda, que morreu em 1955, tenha ressurgido com tanta força no movimento, depois de ter sido escorraçada durante uma década pela Bossa Nova. 

Para os tropicalistas, Carmen trazia o frescor de misturar cultura de massas com a autêntica cultura popular brasileira. Com a Tropicália, Carmen ajudou pela segunda vez a deixar a música e a cultura do Brasil menos introvertida. Por isso ela ainda é tão importante e marcante. Essa proposta de extroversão e festa também voltaria com força com Rita Lee nos Mutantes e depois na carreira solo da Rita, nos Secos & Molhados e em muitos e muitas. Nos anos 1980, o espírito de festa e carnaval que Carmen inventou voltaria à MPB com as melhores bandas do rock Brasil.











Memórias de André Midani: no alto,
o mais famoso anúncio publicitário da
MPB, publicado em 1973 em jornais e
revistas para divulgar o Phono 73, festival
realizado em São Paulo e produzido pela
Phonogram, que sob o comando de
André Midani detinha, na época, contrato
com a maioria das estrelas da música no 
Brasil. O Phono 73 também teve, segundo
Midani, o intuito de mostrar ao público a
ditadura militar e a censura que existia
no Brasil. Acima e abaixo, Rita Lee
com André Midani, em 1972; com
Os Mutantes, em uma de suas últimas
fotos na formação original do grupo;
e na capa do primeiro disco, de 1968

 
E a crise do mercado fonográfico? O senhor concorda que a indústria do disco chegou ao fim?

Chegou ao fim, definitivamente, sem nenhuma dúvida. Estamos assistindo a seus últimos momentos. A criatividade musical está em declínio, no Brasil e no mundo inteiro. Quase tudo o que aparece é relançamento, ou remix de algo antigo, ou uma releitura, ou mais um cover sem nada a acrescentar... Basta lembrar que o último instrumento musical, que é a guitarra elétrica, foi inventado há mais de 60 anos. 

Atualmente, com a facilidade para se reproduzir cópias de CDs e DVDs, com os mais de 18 milhões de sites musicais disponibilizando discos inteiros na Internet, não há futuro para a indústria tradicional. É o fim de uma época, mas ainda não sabemos direito o que está por vir. Temos sinais das novidades, mas ainda não sabemos como será a transformação com o passar do tempo.






E a música que se faz hoje no Brasil, é melhor ou pior do que nas últimas décadas?
 
Difícil responder a sua pergunta, porque hoje tem de tudo. Você, que é um especialista, pelo que estou vendo, sabe que o novo e o antigo hoje estão disponíveis ao mesmo tempo e pouca gente sabe diferenciar entre o que vale e o que não vale a pena. No fundo, tem alguma coisa interessante aqui e ali, mas também tem muito lixo, muita coisa descartável. 

Hoje temos menos qualidade, mas ainda assim tem novidades que merecem atenção. Das mais recentes, gosto muito da Fernanda Takai, da Céu, da Maria Gadú... e de outros estreantes por este meu Brasil afora. Ah, e preciso confessar que tenho me rendido à música eletrônica. Tem coisas muito surpreendentes aparecendo. Já ouviu os tangos em remix? Acho que é lá que está o futuro.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Um toque de Midani. In: ______. Blog Semióticas, 5 de agosto de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/08/um-toque-de-midani.html (acessado em .../.../...).


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