Uma
“ironia do destino”: ele se tornou fotógrafo para conhecer belas
mulheres, mas terminou famoso no mundo inteiro por causa do retrato
de um homem. Na verdade, não apenas um retrato qualquer – e sim,
aquela fotografia que é quase um consenso como a mais reproduzida de
todos os tempos: a imagem de Che Guevara. O retrato foi batizado na
década de 1960 de “Guerrilheiro Heróico” pelo autor, o
fotógrafo cubano Alberto Díaz Gutiérrez, mais conhecido pelo
pseudônimo Alberto Korda (1928-2001). Agora, as belas mulheres,
vertente de seu trabalho que ainda hoje é pouco conhecida do grande
público, estão finalmente reunidas na mais importante exposição
da PhotoEspanha, Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais, com sede em Madri, que programou uma edição dedicada à
fotografia na América Latina.
Trata-se
de “Korda, retrato feminino”, exposição aberta ao público no
Museu Cerralbo, em Madri, que reúne, pela primeira vez, o acervo de
fotografias de Alberto Korda que retratam as mulheres. São 60 imagens em
preto e branco, a maior parte delas realizadas nas décadas de 1950 e
1960, sendo muitas inéditas em publicação e exibição pública.
Considerado um dos mais tradicionais e consagrados eventos
internacionais dedicados à fotografia, a mostra PhotoEspanha ocupa,
em 2015, espaços de Madri e de várias cidades da Espanha e de
outros países, incluindo Cascais e Lisboa, em Portugal, além de
outras capitais da Europa – como Londres e Paris – Bogotá, na
Colômbia, e também São Paulo, com exposições e diversos eventos
até o mês de setembro.
Pelo
recorte temático, dos 395 fotógrafos selecionados para a
PhotoEspanha, a maioria vem da América Latina, incluindo nomes
pouco conhecidos e também celebridades, com destaque, entre outros,
para o brasileiro Mário Cravo Neto (1947-2009) e também Lola
Álvarez Bravo (1903-1993), do México, Julio Zadik (1916-2002), da
Guatemala, e Tina Modotti (1896-1942), italiana que viveu e trabalhou
no México e em outros países. Mesmo entre tantas personalidades de
importância central na fotografia do século 20, o cubano Alberto
Korda surge como o grande destaque na PhotoEspanha – com curadoria
da exposição a cargo de Ana Berruguete e contando com a colaboração
da filha do fotógrafo, Diana Diaz.
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Mulheres
de Alberto Korda: no alto
e acima, o fotógrafo em seu estúdio em
Havana, Cuba, no ano 2000, e o filme
de sua fotografia mais conhecida. Abaixo,
reproduções das fotografias de
Korda
selecionadas para a mostra retrospectiva
da PhotoEspanha, com
uma cena
da Revolução Cubana de 1959 e
fotografia de 1958 com a bela
Norka,
modelo que seria oficialmente a segunda
esposa de Korda; e
fotografia de 1956 de
Nidia Ríos, uma das musas de Korda e
dos anúncios de
publicidade produzidos
em Cuba durante a década de 1950
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Autodidata
que chegou à profissão de fotógrafo aprendendo e experimentando
com uma Kodak 35 que tomou emprestada, Alberto Korda sempre dizia que
buscou a fotografia somente com a intenção de conquistar mulheres,
seguindo os passos do mais célebre dos fotógrafos de moda e seu
preferido, o norte-americano Richard Avedon (1923-2004). A dedicação
à fotografia com o objetivo de seduzir namoradas é relatada no
livro "Cuba por Korda", lançado no Brasil pela Cosac &
Naify. Escrito pelos franceses Alessandra Silvestri-Lévy e
Christophe Loviny, o livro – perfil biográfico em edição
recheada por 82 fotografias impressionantes, apresentadas em ordem
cronológica – destaca que a trajetória de Korda foi marcada por
estes estilos opostos: a moda, através dos retratos de belas
mulheres, e as etapas da revolução de 1959 em Cuba, incluindo a
tomada do poder e seus desdobramentos.
Revolução
e retratos femininos
Primeiro
a moda e os retratos femininos – e mais tarde a fotorreportagem
sobre a revolução e seus líderes Fidel Castro e Che Guevara. Nos
depoimentos transcritos por Alessandra Silvestri-Lévy e Christophe
Loviny, Alberto Korda revela que inicialmente havia optado por uma
"vida frívola", mas reconhece que, aos poucos e
sucessivamente, os rumos da revolução em Cuba mudaram sua maneira
de ver o mundo. "Percebi que valia a pena dedicar um trabalho à
revolução que propunha a supressão das extremas desigualdades
sociais", confessa Korda, que acompanhou Fidel e Che Guevara até
as altitudes da Sierra Maestra, ainda no período das guerrilhas,
tornando-se um olhar privilegiado que fez História ao registrar, por
dentro, os momentos cruciais de afirmação do novo regime.
Mulheres de Alberto Korda: acima,
duas fotografias produzidas por ele
para anúncios de publicidade em
revistas femininas publicadas em
Cuba e consideradas pornográficas
depois da revolução de 1959. Abaixo,
Julia López Cruz, que foi a primeira
esposa de Korda, fotografada por
ele em Brisas del Mar, em 1956
Na
apresentação à exposição “Korda, retrato feminino”, a
curadora Ana Berruguete lembra que as imagens de Che Guevara, de
Fidel e de Cuba no período da revolução são a vertente mais
conhecida e divulgada do trabalho do fotógrafo, mas destaca que ele
sempre teve uma verdadeira obsessão em capturar a beleza das
mulheres, do começo ao fim de sua trajetória dedicada à
fotografia. “É indiscutível que a beleza feminina foi o gênero
por excelência do trabalho de Alberto Korda”, aponta Berruguete.
Entre as fotografias inéditas de Korda, reunidas na exposição,
estão suas últimas imagens de belas mulheres, registradas em São
Paulo, no ano 2000, e três retratos de sua primeira esposa, Julia
López Cruz, mãe de Diana Diaz.
Alberto
e Julia se casaram em 1951 e se separaram cinco anos mais tarde, na
época em que o fotógrafo não fazia segredo sobre seus
relacionamentos amorosos com as beldades que viriam a posar no
Metropolitan, estúdio que fundou em 1954, em Havana, em parceria com
Luis Pierce. Foi também nesta época que ele adotou o pseudônimo
Alberto Korda, em homenagem aos cineastas húngaros Zoltan e
Alexander Korda, irmãos que naquele tempo dirigiam superproduções
de Hollywood que faziam sucesso nos cinemas em Havana, e porque a
sonoridade do nome Korda, segundo ele próprio, lembrava a marca
Kodak.
Mulheres de Alberto Korda: acima
e abaixo, Norka, musa e
segunda
esposa do fotógrafo, em ensaios
fotográficos produzidos para capas
do suplemento feminino do
Diario de la Marina, em 1956
O
grande domínio da luz
De
todas as mulheres que visitavam seu estúdio em Havana – que também
era ponto de encontro de artistas e intelectuais – destacam-se
Nidia Ríos e Natalia Méndez, também conhecida como Norka, as duas
beldades e musas principais das campanhas publicitárias produzidas
em Cuba na década de 1950. Tanto Nidia quanto Norka – que se
tornaria mais tarde, oficialmente, a segunda esposa de Korda – eram
altas, magras e loiras, com aparência que não lembrava em nada a
maioria das mulheres de Cuba. A estratégia diária do trabalho de
Korda, de acordo com o que relatou para seus biógrafos, começava com a
procura, nas ruas, por manequins inexperientes que fossem jovens,
belas, elegantes, e que, principalmente, transbordassem erotismo.
Pelas
imagens selecionadas para a exposição em Madri é possível
perceber o grande domínio da luz no trabalho do fotógrafo –
especialmente no uso da luz natural, já que muitas de suas fotos
publicitárias eram produzidas fora do estúdio, em lugares como
hotéis, praças e praias, construindo cenas que parecem saídas dos
filmes clássicos de Hollywood, com suas personagens posando de
divas, com ar de mistério. O mesmo domínio da luz também é
visível em suas fotos que registram as pessoas anônimas nas ruas e
nos desfiles militares, na época da revolução. A mudança do tema
de belas mulheres para os anônimos e os militares nas fotos de
Korda, entretanto, não é tão radical como pode parecer.
Mulheres de Alberto Korda: acima,
Norka em fotografia para um anúncio
publicitário da joalheria Cuervo y
Sobrinos, em
1958. Abaixo, Korda
ajustando a luz em uma sessão no
estúdio, no começo da década
de 1950; e a fotografia da garota
pobre em um vilarejo na região de
Pinar de
Rio, em 1958, que marca
uma mudança radical na
trajetória de Korda
Os
biógrafos destacam que, com a tomada do poder em Cuba pela revolução
comunista, a demanda pelo trabalho de Korda em publicidade caiu e
muitas de suas fotos chegaram a ser consideradas “pornográficas”.
Mas sua decisão de mudar veio antes mesmo da revolução: ele relata
que, certo dia, em 1958, viu nas ruas de um vilarejo muito pobre, na
região de Pinar de Rio, uma menina pequena que de repente ficou
assustada com sua presença e com a câmera que ele carregava. Ele
lembrou de sua filha quando observou que a menina fazia uma saia
improvisada de papel sujo para vestir uma boneca que, na verdade, era
apenas um pedaço de madeira. Comovido, desde aquele dia resolveu se
unir ao ideal revolucionário que prometia acabar com a injustiça
social. Depois da revolução, seria o fotógrafo oficial de Fidel.
Guerrilheiro
Heróico
As
mulheres não estão ausentes na trajetória de Korda no período
posterior à revolução de 1959. Pelo contrário. Na seleção
apresentada pela PhotoEspanha, em Madri, não faltam retratos de
belas mulheres, sejam elas as camponesas, as milicianas carregando
armas e vestindo uniformes militares ou ainda as espectadoras dos
desfiles nas ruas de Havana. Quase três décadas depois da
revolução, já na década de 1980, Korda retomou o trabalho
dedicado à moda e à publicidade, um retorno às origens que não
mais abandonaria. Suas últimas fotografias também estão na
exposição em Madri: foi um ensaio produzido em uma estação
ferroviária de São Paulo, onde Korda retratou belas e sensuais
modelos em dezembro do ano 2000. Ele morreu cinco meses depois, em
Paris.
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Mulheres de Alberto Korda: depois
da Revolução Cubana de 1959,
o fotógrafo continuaria a registrar
imagens de belas mulheres, não mais
para anúncios publicitários e ensaios de
revistas de
moda, e sim personagens
anônimas nas ruas, no campo
e nos desfiles
militares
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Para
os biógrafos, a paixão pelas belas mulheres, pelas doses generosas
de rum e pela Revolução Cubana foram os gostos pessoais da
dedicação de vida e das vertentes principais do trabalho de Alberto
Korda, o fotógrafo que imortalizou o retrato de Che Guevara. Em
1959, ano em que as tropas lideradas por Fidel Castro ocuparam
Havana, Korda já
acompanhava como fotojornalista as ações da guerrilha em Sierra
Maestra e depois, foi
convocado
para
fazer parte da equipe do jornal "Revolución".
Meses
depois de instalado o governo da revolução em Havana, Korda
permananece em ação, tanto nas ruas como no papel de enviado
especial que acompanhava
Fidel ou
Guevara em
viagens internacionais, alternando retratos oficiais e fotojornalismo
em
ambientes mais
descontraídos.
Os “retratos femininos”, porém, com o passar dos anos foram se
tornando a parte menos conhecida de sua extensa obra – que soma
mais de 20 mil negativos, na maior parte ainda inéditos e
só recentemente identificados.
Mulheres de Alberto Korda: acima,
o fotojornalista em ação nas ruas de Havana,
em dezembro de 1959, registra Che Guevara
ao lado da esposa Aleida March. Abaixo,
em seu estúdio em Havana, 1964,
fotografado por Ida Kar
Sua
foto mais famosa também ficou muito tempo inédita. Che Guevara foi
retratado por Korda em Havana, em 5 de março de 1960, em um encontro
organizado por Fidel após o atentado contra o navio La Coubre,
ancorado no porto de Havana, em que morreram 69 marinheiros cubanos e
seis franceses. Che participava, ao lado de várias autoridades
cubanas, da cerimônia em homenagem às vítimas da explosão. Também
estavam presentes na cerimônia, na tribuna, Fidel Castro e o casal de
intelectuais franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que
naquela data visitavam Cuba. Korda, na época, já trabalhava para o “Revolución”, mas por algum motivo a foto de Che não foi
publicada pelo jornal.
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Mulheres de Alberto Korda: no alto,
modelo em um dos últimos ensaios
do fotógrafo, realizado em dezembro
do ano 2000, em São Paulo. Acima,
a beleza feminina das
milicianas em um
desfile na época da revolução, em
Havana. Abaixo, Fidel Castro em 1962;
Che Guevara com acompanhando o casal
Jean-Paul Sartre e
Simone de Beauvoir,
em visita a Cuba, em 1960; Che na foto
mais famosa de Korda, também de 1960,
que o próprio fotógrafo batizou de
Guerrilheiro Heróico; e as intervenções
artísticas que ajudaram a propagar o
mito Che Guevara em gravuras de
Jim Fitzpatrick e de Andy Warhol,
ambas datadas de 1968
Somente
anos depois, em 1967, pouco antes da morte de Che na Bolívia, o
editor Giangiacomo Feltrinelli obteve a imagem capturada por Korda.
De volta a Milão, Feltrinelli imprimiu milhões de pôsteres e
postais, pelos quais Korda nunca recebeu um centavo. Segundo os depoimentos transcritos por Alessandra Silvestri-Lévy e
Christophe Loviny, ele teria ficado ressentido apenas porque a foto
vinha sem crédito. Depois disso a fotografia quase acidental do
“Guerrilheiro Heróico” foi finalmente publicada na França, pela
revista “Paris
Match”, e em seguida ganhou o mundo, impulsionada pela morte de
Che. No ano seguinte, duas intervenções de artistas ajudaram ainda
mais a popularizar a fotografia de Alberto Korda.
O
primeiro foi o irlandês Jim Fitzpatrick, que em 1968 transformou a
imagem em um pôster pintado em preto, branco e vermelho, mas sem
nenhuma menção à autoria de Korda. O retrato de Che também foi
transformado em 1968 em serigrafias de cores contrastadas por Andy
Warhol – que repetiu a técnica e a ideia original de sua obra mais
famosa, as serigrafias de Marilyn Monroe em policromia, criadas assim
que a morte da atriz foi anunciada, em agosto de 1962.
Assim
como fez com a imagem de Marilyn, em que omitiu o nome de Frank
Powolny (que havia fotografado a atriz em 1953), Warhol também não
fez qualquer menção ao nome de Alberto Korda como autor do retrato
de Che Guevara, mas ganhou fortunas com a venda das gravuras
originais e com os direitos de reprodução. É um caso
impressionante: passaram-se décadas e a imagem do “Guerrilheiro
Heróico” continua a ser usada por muitos, em situações e
intenções diversas. Nas vezes em que foi questionado sobre as apropriações que faziam de sua fotografia mais famosa, Korda declarava ter esperança de que aquela imagem jamais perderia a
força de representar a utopia e a ternura. Tudo indica que ele
estava certo.
por
José Antônio Orlando.
Como
citar:
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