![]() |
Durante
o período da Política da Boa Vizinhança, programa instaurado pelo
governo norte-americano para forçar uma aproximação política e econômica com a
América Latina, uma artista é escolhida como símbolo do
continente: Carmen Miranda – destaca Eneida Maria de Souza
em “Janelas Indiscretas – Ensaios de Crítica Biográfica”,
coletânea de ensaios publicada pela Editora UFMG. “Entre 1939
e 1945, Carmen participou de vários filmes de sucesso de Hollywood.
Como a construção estilizada de sua imagem guardava um pouco de
cada lugar da América, é até difícil vê-la hoje como
representante de uma autêntica cultura brasileira”, completa.
Da
revisão dos estereótipos construídos sobre a estrela Carmen
Miranda aos diários de guerra de Guimarães Rosa e daí aos retratos
de mestres como Mário de Andrade e Cyro dos Anjos pintados pelos
grandes do Modernismo no Brasil. Em “Janelas Indiscretas”, Eneida
Maria de Souza reúne uma seleção especialíssima de ensaios que
focalizam e questionam o papel do intelectual e a construção da
identidade em torno da literatura e da cultura, das primeiras às
últimas décadas do século 20, até chegar à atualidade de nossos
dias.
Professora
emérita e titular da UFMG, pesquisadora do CNPq, autora de estudos
de peso como “A Pedra Mágica do Discurso” (1999), “Crítica
Cult” (2002), “Pedro Nava: O Risco da Memória” (2004), “Tempo
de Pós-Crítica” (2007) e “Modernidades Alternativas na América
Latina” (2009), entre outros, Eneida também é finalista do Prêmio
Jabuti 2011, com o belo “Correspondência de Mário de Andrade &
Henriqueta Lisboa” (Editora Peirópolis). "Janelas
Indiscretas", o novo livro, desvenda as intrincadas relações
entre biografia e ideologia, aprofundando análises críticas
iniciadas pela autora em publicações anteriores.
![]() |
As
novidades do viés interpretativo apresentado por Eneida Maria de
Souza alcançam questões polêmicas e quase sempre rompem com o
lugar-comum tantas vezes estabelecido como fronteira – não apenas
na correlação entre vida e obra nos arquivos de medalhões do
Modernismo, mas também nas diferenças que configuram nomes
contemporâneos como Silviano Santiago e João Moreira Salles ou
Caetano Veloso e Chico Buarque. Para além da sofisticação da
escrita e do repertório analítico, o resultado são reflexões
atualíssimas em que projetos políticos vêm abarcar projeto
autobiográfico e aventuras existenciais.
Enigmas da vida e da obra
Para
começar, a professora faz um alerta, avisando que é
ingênua aquela pesquisa que busca desvendar segredos e enigmas do
texto na vida dos escritores. “A escolha do método biográfico
impõe determinada disciplina e se afasta de aproximações ingênuas
e causalistas operadas por adeptos da pesquisa biográfica como caça
aos segredos e enigmas do texto”, destaca a autora na apresentação
a “Janelas Indiscretas”.
O
texto, o livro, o filme e as canções surgem em cada ensaio de
"Janelas Indiscretas" não pela via da explicação causal,
que vê a obra como espelho da existência, mas pela elucidação de
propostas poéticas, entre questões teóricas e contextuais. “O
mundo midiático fez nascer um novo fenômeno que deve ser
considerado pela crítica: o autor se converteu em personagem de si
mesmo. Assim, os acervos literários se tornaram uma janela para
compreensão dessas relações em que o escritor mistura a ficção e
a realidade”, explica Eneida.
Nesta
entrevista, concedida às vésperas do lançamento do livro em Belo
Horizonte, a autora de "Janelas Indiscretas" destacou
certos aspectos em que a biografia se traduz em arte e literatura a
partir das questões de identidade nacional como projeto
autobiográfico, introduzidas pelos modernistas no Brasil da década
de 1920. São questões que permanecem atuais, segundo Eneida.
“A
questão de identidade nacional representava um projeto mais
coletivo, por defender a necessidade de construção da nacionalidade
cultural brasileira”, aponta. “Somente mais tarde é que os
modernistas, como Drummond, Pedro Nava, Oswald de Andrade e Murilo
Mendes escreveram suas memórias. Mário de Andrade escreveu milhares
de cartas, logo, contribuiu para a sua autobiografia.”
![]() |
Questionada sobre a natureza da obra de arte, que sempre coloca em suspenso a verdade biográfica, Eneida explica que a biografia nunca precede a obra. “Esta posição diz respeito à antiga crítica biográfica. Hoje, a obra é que restaura a biografia, pelos elos metafóricos entre os dois registros. Não importa, também, se o que está sendo articulado como autobiografia tenha realmente acontecido, ou se pertence a uma verdade biográfica. O critico joga com os dois polos, a obra e a vida, por isso não se deve dar mais valor a cada um dos dois registros”, completa.
A 'morte do autor'
Sobre a “morte do autor” defendida nos anos de 1970 pelo pensador francês Roland Barthes (1915-1980), como uma das condições para que a crítica pudesse alcançar a complexidade da obra de arte, Eneida alerta que, nos ensaios do novo livro, as reflexões sobre autoria não abandonam as célebres teorias lançadas por Barthes.
“Considero principalmente as reflexões que seguem o que, na década de 1970, Roland Barthes entendeu como a volta do autor”, explica Eneida. “Esta volta do autor, ou seja, o autor tomado como personagem, retoma e amplia o lugar teatral e distanciado do autor em relação ao seu texto original. Só que acrescentada com sua presença enunciativa, com a escrita do corpo e o apelo ao leitor”.
![]() |
Janelas
Indiscretas: o pensador francês
Roland
Barthes fotografado em ação,
na
sala de aula, no Collège de France,
em Paris,
no ano de sua morte, 1980
|
O título do livro, "Janelas Indiscretas", remete a uma das obras-primas de Alfred Hitchcock, um dos principais ilusionistas da história do cinema e autor de uma das filmografias mais pontuadas de referências autobiográficas. O título foi escolhido para uma relação intencional, segundo a autora. “O titulo remete sim ao filme de Hitchcock”, reconhece.
“Só que o título do livro está no plural e tende a ser tanto as janelas abertas do mundo virtual da Web quanto a posição da crítica em esmiuçar, pela janela do texto, obra e vida dos escritores. Mas sem a preocupação jornalística de desvendar segredos ou de apontar verdades escondidas dos mesmos. Essas janelas têm, inclusive, lentes de aumento como zooms.”
Entre tantos enfoques e gêneros que “Janelas Indiscretas” alcança, há autores e obras que definem a atualidade da “crítica biográfica”. “Há, entre outros, Silviano Santiago, que sempre pautou sua obra pela relação com a ficção de sua vida. Daí a autoficção construída com os restos e o jogo malicioso entre dados pessoais e recriação ficcional”, explica a professora. “Muitos dos livros de Silviano Santiago brincam com essa relação deslizante entre os polos da arte e da vida. Sem esquecer, é claro, de Jorge Luis Borges, o escritor que mais burilou e inventou associações falsas e verdadeiras entre os dois registros da arte e da vida”.
Há
também em “Janelas Indiscretas” referências saborosas
à citação do modernista Oswald de Andrade e seu trocadilho sempre
repetido – “a massa ainda comerá do biscoito fino que eu
fabrico” – e a Carmen Miranda, personalidade que também aparece
em foco nos ensaios “Do kitsch ao cult” e “O tic-tac do meu
coração”. As análises de Eneida destacam que a figura
pública de Carmen Miranda teve várias metamorfoses. Há a fase
brasileira da cantora, que também participou de filmes e compreende
os 10 anos entre a sua primeira gravação (1929) e a partida para os
Estados Unidos (1939). Nesta primeira fase destaca-se especialmente a
ênfase na brasilidade e a importância de Carmen na popularização
do samba e do carnaval.
E
há a fase americanizada, que por força das críticas pesadas e
frequentes na imprensa do Brasil terminou estigmatizada na memória
do público, mas nem por isso menos popular. Hoje em dia, quase 60
anos depois de sua morte, sobrevivem na mídia sobretudo a imagem
festiva e carnavalesca de Carmen, carregada de clichês visuais como
as bananas e abacaxis na cabeça, os turbantes exóticos e os
vestidos de baiana estilizados, de cores fortes, que apresentava nos
filmes de Hollywood. Carmen viveu por 16 anos nos
Estados Unidos e foi – durante muito tempo, a artista mais bem
remunerada do país e a maior pagadora de imposto de renda da
América.
Eneida
conclui sua análise com o argumento de que Carmen Miranda profetiza
uma convivência conflitiva e, ao mesmo tempo, salutar entre arte e
mercado. Segundo Eneida, se hoje a academia em geral aceita, com
certa naturalidade, as lições que a música popular pode oferecer
às nossas mentes ilustradas, tal fato se deve à contaminação
dessas manifestações artísticas, até pouco tempo consideradas
espúrias, no universo nem tão puro da arte e da literatura.
por José
Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. As
janelas indiscretas.
In: ______. Blog
Semióticas,
30
de setembro
de
2011.
Disponível no link
https://semioticas1.blogspot.com/2011/09/janelas-indiscretas.html
(acessado em .../.../…).
Para comprar Janelas Indiscretas, de Eneida Maria de Souza, clique aqui.
Para comprar Arquivos Literários, de Eneida Maria de Souza, clique aqui.































