quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Mistérios de Clarice










O bonito me encanta.
Mas o sincero, ah! 
Esse me fascina... 

(Clarice Lispector)




Idolatrada como mística por uma legião de leitores, Clarice Lispector e sua densa personalidade rivalizam com Machado de Assis na classificação de autor brasileiro mais lido no exterior – mas nos últimos meses ela conquistou mais uma vantagem, com resenhas e críticas, pontuadas de altos elogios na imprensa internacional, para a publicação de seus livros em inglês pela Penguin Classics e pela editora New Directions, incluindo a biografia escrita por Benjamin Moser, “Why This World – A Biography of Clarice Lispector”, publicada no Brasil pela Cosac Naify, com o título “Clarice” e tradução de José Geraldo Couto.

Considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século 20 – para muitos, a principal – Clarice nasceu no exterior, na cidade de Chechelnyk, Ucrânia, e foi registrada como Chaya Pinkhasovna Lispector. O nome Clarice foi adotado em 1922, quando a família de imigrantes chegou ao Brasil e foi morar no Recife, capital de Pernambuco. Contudo, como ela mesmo sempre fez questão de declarar em entrevistas, a Ucrânia foi uma terra em que nunca pisou, pois chegou ao Brasil quando tinha um ano e dois meses de idade. Nascida enquanto seus pais percorriam várias aldeias, para fugir da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa de 1918-1920, ela foi a terceira filha de Pinkhas Lispector e de Mania Krimgold Lispector.

Sua biografia seria uma trajetória de muitas viagens: da Ucrânia para o Nordeste do Brasil e dalí para o Rio de Janeiro, quando completou 15 anos. Formada em Direito pela Universidade do Brasil, na década de 1940, começou a publicar seus escritos a partir de 1943 – mesmo ano de sua formatura e de seu casamento com o colega de turma Maury Gurgel Valente, futuro pai de seus dois filhos, Pedro e Paulo. Do Rio de Janeiro para a Europa, com o marido, que foi aprovado em concurso do Ministério das Relações Exteriores e transferido para a Itália, depois Inglaterra, Estados Unidos, Suíça e outros países. 



 
 

Mistérios de Clarice: no alto, a escritora
em seu apartamento no Leme, no Rio de
Janeiro, em 1969. Acima, Clarice no
grafite anônimo, em São Paulo, e na
infância, quando morava com a família
no Recife. Abaixo, Clarice em desenhos,
retratada por Dimitri Ismailovitch 
em 1974 e por Alfredo Ceschiatti,
durante a temporada em Paris, em 1947







 
 
Literatura no Leme



Com o fim do casamento, Clarice retornaria ao Rio de Janeiro em 1959 para morar com os filhos no Leme, onde escreveu seus romances, contos, crônicas e textos de literatura infantil. Morreu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu aniversário de 57 anos, mas não pôde ser enterrada no dia seguinte, que seria um “shabat”. O enterro aconteceria em 11 de dezembro, uma segunda feira, no Cemitério Israelita do Caju, Rio de Janeiro, com as inscrições em hebraico: “Chaya bat Pinkhas Chaya filha de Pinkhas” – referência ao primeiro nome que a família lhe deu: Chaya Pinkhasovna Lispector.

Ainda em vida e mais ainda depois da morte, o prestígio e o alcance de sua literatura entrariam em curva ascendente. Há décadas ela é traduzida em vários idiomas e apontada em países da Europa como um dos grandes nomes da literatura do século 20, mas nos EUA sua obra permanecia restrita aos círculos acadêmicos. A nova investida dos livros de Clarice na América começou com a biografia escrita por Moser e a publicação de seus romances.





Sob coordenação editorial de Moser, já foram publicados em inglês “A Hora da Estrela”, “Perto do Coração Selvagem”, “Água Viva”, “A Paixão Segundo G. H.” e “Um Sopro de Vida”, respectivamente com os títulos “The Hour of the Star” (com tradução do próprio Moser e apresentação de Colm Tóibín), “Near to the Wild Heart” (tradução de Alison Entrekin), “Água Viva” (idem, tradução de Stefan Tobler), “The Passion According to GH” (tradução de Idra Novey) e “A Breath of Life” (tradução de Johnny Lorenz).



A Grande Bruxa



Os lançamentos de Clarice em inglês repercutiram na imprensa internacional, com destaque surpreendente no “The New York Times”, “Los Angeles Times”, “The New Yorker”, “The Guardian”, The Huffington Post” e outros veículos impressos e on-line, além de matérias de capa e resenhas por autores em evidência nas principais revistas especializadas em literatura, incluindo “BookForum” e “Paris Review”.




 

Clarice, fotografada por Maureen Bisilliat,
na capa da edição do mês da BookForum,
e em matéria de destaque na Paris Review
No alto, o retrato formado pelas capas de
quatro romances editados em inglês.
Abaixo, Clarice aos 19 anos, em 1939,
quando ingressou na Faculdade de Direito
da Universidade Federal do Rio de Janeiro;
em retrato pintado em 1972 por seu amigo
Carlos Scliar; e em foto de 1965 com a
equipe da primeira montagem no teatro de
seu romance Perto do Coração Selvagem,
formada por Fauzi Arap, José Wilker,
Glauce Rocha e Dirce Migliaccio



São elogios e mais elogios, além de uma sequência de classificações repetidas que já se tornaram lugar comum nas referências que os leitores de Clarice conhecem de longa data: “a grande bruxa da literatura brasileira”, “um Kafka do sexo feminino”, “uma autora para a mesma estante de Joyce, Borges, Cortázar”, “a mulher mais importante da literatura em Língua Portuguesa”.

Entre as resenhas de peso, Nicholas Shakespeare, editor do “The Telegraph”, cita a frase de um antigo tradutor de Clarice, Gregory Rabassa, que comparava a autora brasileira a Marlene Dietrich (no traço físico) e a Virginia Woolf (no traço estilístico). No “The New York Times”, ela mereceu um caderno especial com reportagens e ensaios de especialistas – todos unânimes em elogios, definindo Clarice como “a principal escritora latino-americana de prosa do século 20”.










Verdadeiramente notável”



Os livros de Clarice chegaram às livrarias em inglês com um projeto gráfico sedutor: juntas, as capas reproduzem uma foto de Clarice jovem. Nas contracapas, frases marcantes da escritora e elogios de personalidades e autoridades como Jonathan Franzen (“uma escritora verdadeiramente notável”), Orhan Pamuk (“uma das mais misteriosas autoras do século 20”) e Colm Toíbín (“um dos gênios ocultos do último século”).

No Brasil, a editora Rocco, que detém os direitos sobre a obra de Clarice, também anuncia lançamentos e relançamentos – entre eles, as primeiras edições em livro de crônicas e textos diversos que ela publicou em jornais e revistas, além de seus livros infanto-juvenis. Desta série, já chegaram às livrarias "A Vida Íntima de Laura", ilustrado por Odilon Moraes, e "A Mulher Que Matou os Peixes", por Renato Moriconi. 







Benjamin Moser, biógrafo de Clarice:
"A proximidade só a torna mais espetacular".
No alto, Clarice em seu apartamento no
Leme, no Rio de Janeiro, em 1961. Abaixo,
fotografada no Natal de 1975; e trabalhando
em casa, em sua máquina de escrever
portátil, fotografada por Claudia Andujar



 
 

À frente da redescoberta de Clarice no exterior, Benjamin Moser atribui o sucesso a ocorrências do acaso. Nascido em Huston (EUA), em 1976, ele diz que se apaixonou pela escritora depois de ler “A Hora da Estrela” durante um curso universitário sobre literatura brasileira nos Estados Unidos e, quando soube que Clarice seria homenageada pela Festa Literária Internacional de Paraty, em 2005, veio ao Brasil para acompanhar o evento. Em seguida, começou o projeto de pesquisa para escrever a biografia.



Um amor incondicional



Eu nunca tinha ouvido falar de Clarice”, declarou Moser, na entrevista sobre a edição nacional da biografia. “Quando li 'A hora da estrela' no curso de literatura brasileira, fiquei impressionadíssimo. Ainda estou. Logo na primeira página, pensei: essa é uma grande escritora. Depois viajei pela América do Sul de ônibus, do Rio de Janeiro a Buenos Aires, voltando pelo Paraguai. Diante de mim, o tango, Iguaçu, o Pão de Açúcar e tudo mais, e realmente a única coisa de que me lembro foi 'A paixão segundo G. H.', que comprei em Florianópolis. Perto daquele livro, nada mais podia me impressionar”. 





 

Para Moser, Clarice tornou-se um amor incondicional. Segundo ele, a coisa mais perigosa em escrever uma biografia é o risco do biógrafo, pelo excesso de pesquisa e informação, passar a detestar o biografado – mas sua dedicação trilhou outros caminhos. “Depois de anos de estudos, pesquisas e escrita, a amo e respeito ainda mais. A proximidade só a torna mais espetacular, sobretudo agora, que entendo muito melhor os desafios humanos que ela enfrentou para se tornar uma entre os maiores escritores do século 20, não somente do Brasil, mas do mundo”.

Além das novas traduções para o inglês, previstas para os próximos meses, Clarice também deve chegar ao cinema, com um longa que já está em fase de pré-produção, baseado na biografia escrita por Moser. Vale lembrar que, no cinema, a literatura de Clarice gerou pelo menos uma obra-prima: “A Hora da Estrela”, dirigido por Suzana Amaral em 1985, com roteiro de Alfredo Oros – filme premiado em festivais no Brasil e no exterior, incluindo o Festival de Berlim, com prêmio da crítica para Suzana Amaral, indicação ao Urso de Ouro e vencedor do Urso de Prata de melhor atriz para Marcélia Cartaxo como Macabéa, a protagonista.


por José Antônio Orlando.


Para acessar a edição da “BookForum” sobre Clarice Lispector, clique aqui.


Para acessar o ensaio de Colm Tóbín no “The Guardian”, clique aqui.


Para comprar a biografia "Clarice", escrita por Benjamin Moser,  clique aqui.









19 comentários:

  1. Magistral. Profunda. Poderosa. Sábia, Bruxa, Eterna. Amo Clarice há muitos e muitos anos. Agradeço muito, Semióticas: sou grata por este seu texto mais lindo e estas imagens de encanto. Alguém mais segura a respiração quando lê Clarice ou só eu? Ela é incrível. Semióticas, este blog também é incrível. Ganhou mais uma fã.

    Luíza Ramos

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  2. Clarice é do mundo. Sucesso merecido. Parabéns pelo site completo e de altíssimo nível, Semióticas. Sucesso merecido, também. Sou grato pelas coisas boas que sempre encontro por aqui. - Edimilson Santiago

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  3. Claríssima! (2) Simplesmente demais. Eduardo de Souza

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  4. Sou inquieta, áspera e desesperançada, embora amor dentro de mim eu tenha... Descobri Clarice com aquela canção que a Cassia Eller gravou e para mim foi uma revelação. As pessoas de todas as línguas precisam conhecer e ler Clarice para aprender o delicado e o importante da vida e o gosto da melhor literatura.
    Parabéns, José Antonio Orlando. Este seu blog Semióticas é o paraíso. Sou fã.

    Heloísa Furtado

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  5. Alexandre Leite Galvão13 de março de 2014 15:31

    Claríssima (4) Bravo!

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  6. Amo. Claríssima (5)

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  7. Ana Clara de Souza18 de abril de 2014 12:25

    Amo demais da conta. Claríssima (6)

    Ana Clara de Souza

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  8. Não somente amo Clarice, como também o site SEMIÓTICA, com textos riquíssimos e deliciosos de ler. Nem dá vontade de sair daqui tamanho o prazer que proporciona os seus textos José Antônio Orlando. Bravo, parabéns!!!

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  9. Que boa notícia e que matéria mais linda! Clarice merece. Virei fã deste blog Semióticas. Parabéns pelo alto nível e por tanta beleza.

    Clareana Moraes

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  10. Ana Lúcia Moreira14 de agosto de 2014 10:25

    Amo Clarice. Agradeço pelas novidades e por este ensaio fantástico.
    Este Semióticas é Show! Sou fã. Parabéns demais. Ana Lúcia Moreira

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  11. Mariângela Rezende15 de abril de 2015 14:11

    Amo, amo, amo, amo, amo. Claríssima (7)
    Mariângela Rezende

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  12. Lélia Figueiredo30 de abril de 2015 12:12

    Amei. Claríssima (8) Lélia Figueiredo

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  13. Beatriz Domononi Lourençao15 de junho de 2015 03:20

    Clarice é única, incomparável. Puro néctar. E este blog é maravilhoso; desperta paixões antigas, adormecidas.

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  14. Clarice Bagrichevsky17 de julho de 2015 18:20

    Prefiro a Clarice cronista, depois a contista e por último a romancista.
    Meus avós também fugiram da Ucrânia (Kiev) por causa da perseguição russa aos judeus em 1918. Nosso único ponto em comum além do nome.

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  15. Maria Stella Peixoto10 de dezembro de 2015 09:55

    Claríssima, maravilhosa. E que maravilhoso é este blog Semióticas! Parabéns, José! Show!!!

    Maria Stella Peixoto

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  16. Gostei da informação cuidada com que se aprende sempre ...

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  17. Belíssima matéria! Eu como filho de pai crítico literário & mãe de origem ucraniana curti 'pacas'(Y)...

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