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Realmente
me parece que Capa demonstrou,
sem
sombra de dúvida, que a câmera não precisa
ser
um instrumento mecânico frio. Como a pena,
ela
tem as qualidades daquele que a usa. Pode
ser
uma extensão da mente ou do coração.
John
Steinbeck
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Nenhum
outro fotógrafo construiu uma trajetória mais célebre viajando ao
redor do mundo para acompanhar a Segunda Guerra Mundial e outras
guerras. Coube ao húngaro Endre Erno Friedmann, mais conhecido pelo
pseudônimo Robert Capa, conferir à profissão de fotojornalista uma
aura de ideal romântico e sedutor. Antes dele, outros registraram as
tropas de soldados momentos antes ou momentos depois das batalhas,
mas ele foi o primeiro a registrar o que acontecia durante as
batalhas. Também é mérito de Capa, junto com Henri Cartier-Bresson
e David “Chim” Seymour, a iniciativa pioneira de criar a Agência
Magnum, em 1947, que revolucionou o mercado internacional de direitos
autorais na fotografia.
Nascido
há 100 anos, em 1913, o mais famoso dos fotojornalistas do século
20 voltará à cena em 2014 em uma exposição de suas fotos
coloridas, que permaneciam inéditas, e em duas superproduções de
cinema sobre suas aventuras extraordinárias dentro e fora das
trincheiras de guerra. Mesmo depois de décadas de sua morte trágica
e de suas muitas biografias, Capa, que também colecionou inimigos e
polêmicas, ainda guarda muitos segredos.
A
queda pela aventura começou ainda na adolescência, quando Endre
Erno Friedmann deixou sua terra natal e sua família de
judeus na Hungria e fugiu para a Alemanha. Com a chegada de Hitler e
dos nazistas ao poder, em 1933, fugiu novamente – desta vez para
Paris, onde adotou o pseudônimo americanizado para escapar do
antissemitismo, mas com um detalhe prosaico: “Capa”, que era seu
apelido desde a adolescência, significa “tubarão” em húngaro.
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No
alto, Robert Capa em Paris, em 1952,
fotografado
por Ruth Orkin. Acima, Capa
em
ação na Segunda Guerra e com sua
companheira Gerda
Taro em 1936,
durante
a Guerra Civil Espanhola.
Abaixo,
Gerda Taro ferida no campo
de
batalha, em Córdoba, Espanha,
fotografada
por Capa. Gerda Taro
morreria
em 1937, durante a
Guerra
Civil Espanhola, atropelada
por
um tanque de guerra conduzido
pelas
tropas do General Franco;
e
uma das primeiras experiências
de
Capa com fotografias coloridas,
em
1938, após um bombardeio sobre
Hanku, na
China, durante a guerra
deflagrada
entre China e Japão
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Segundo seus biógrafos, Capa sempre foi viciado em
pôquer e apostas com jogos de cartas, além de apaixonado pelas
farras da vida na boemia. Conquistador com fama de irresistível,
namorou estrelas de Hollywood como Ava Gardner e Ingrid Bergman,
entre outras, e teve como amigos e confidentes personalidades como
Pablo Picasso, Ernest Hemingway, John Steinbeck. O que todos dizem é
que era um homem incomum – tanto que outro de seus grandes amigos,
o escritor William Faulkner, certa vez declarou que Capa era
um fotógrafo “apenas nas horas vagas”.
Entre outras, Capa
também foi o único fotógrafo presente no dramático desembarque
das tropas aliadas no Dia D, em 6 de junho de 1944, nas praias da
Normandia, momento crucial para o desfecho da Segunda Guerra. Antes,
em 1937, viu sua companheira, a também fotógrafa Gerda Taro, ser morta
por um tanque desgovernado durante a Guerra Civil Espanhola. Entre
tantos trabalhos memoráveis e aventuras, morreu em uma explosão no
campo de batalha no Vietnã, em 25 de maio de 1954, durante a Guerra
da Indochina, quando se afastou da tropa francesa para procurar um
ângulo melhor de enquadramento e acabou pisando em um campo minado.
Sangue e Champanhe
Em seu centenário, celebrado em vários
países, Capa contou no Brasil com o lançamento de uma de suas biografias, “Sangue e Champanhe – A vida de Robert Capa” (Editora Record). Lançada
há 10 anos nos EUA, pelo jornalista Alex Kershaw, a biografia amplia
a lista de livros publicados no Brasil sobre vida e obra de Capa,
incluindo o romance histórico sobre o amor entre o fotógrafo e Gerda Taro, "Esperando Robert Capa", de Suzana Fortes (Record), e o célebre relato autobiográfico de Capa, de 1947, “Ligeiramente Fora de Foco”, editado em 2010 pela Cosac Naify, que também já havia lançado os catálogos “Robert Capa” (Coleção Photo Poche),
“Robert Capa – Fotografias” (com texto de Henri
Cartier-Bresson) e “Um Diário Russo”, com fotos de Capa e texto
de John Steinbeck.
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No alto e abaixo, imagens da espetacular
cobertura fotográfica de Robert Capa
para o desembarque das tropas dos
Aliados em Omaha Beach, Normandia,
no Dia D, em 6 de junho de 1944,
momento crucial para o desfecho
da Segunda Guerra. Acima, uma das
raras e inéditas imagens coloridas produzidas pelo fotógrafo
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Quando lançou a biografia nos EUA, Kershaw se viu no
centro de polêmicas semelhantes às que ele descreve na trajetória
de aventuras de Capa. Pelos detratores do fotógrafo lendário, foi
acusado de exagero e mistificação em várias passagens. Dos fãs
declarados, recebeu críticas por ter simplificado momentos de maior
complexidade da história, como o primeiro trabalho importante do
biografado, em 1932, quando o jovem Endre Erno Friedmann viajou da
Alemanha à Dinamarca e fotografou o dissidente russo Leon Trotsky,
que discursava para estudantes em Copenhague – ou ainda as
circunstâncias de sua foto mais conhecida, de 1936, que mostra a
queda de um combatente na Guerra Civil Espanhola, com arma na mão,
morto durante uma batalha em Córdoba.
As controvérsias sobre esta fotografia mais famosa de
Robert Capa, publicada na revista francesa “Vu” em 1936 (e
republicada na norte-americana “Life” no ano seguinte, quando
ganhou repercussão internacional), permaneceram depois que Kershaw
publicou a biografia. Como o próprio Capa nunca revelou em detalhes
as circunstâncias em que a foto foi feita, há quem afirme que se
trata de uma imagem encenada, ou mesmo que se trata do registro de um
escorregão, e não do momento da morte do soldado.
Os fatos verdadeiros e as lendas
Algumas das dúvidas sobre a veracidade da foto de 1936
que registra a morte do combatente espanhol foram diluídas em 2008,
anos depois da primeira edição da biografia escrita por Kershaw,
quando três pastas de papelão contendo cerca de 3.500 negativos,
que Capa considerava ter pedido em 1944, durante um cerco nazista,
foram encontradas por acaso no México. Esse material precioso,
chamado de “a maleta mexicana”, foi encaminhado ao International
Center of Photography, fundado e mantido em Nova York pelo irmão de
Capa, Cornell Friedmann.
O
acervo da “maleta mexicana” tem gerado muitos
estudos, dois deles já publicados em livros ilustrados também polêmicos, ainda inéditos
no Brasil, escritos por veteranos jornalistas que conviveram com o
fotógrafo: “Robert Capa: The
Paris Years 1933–1954”, de Bernard Lebrun e Michel Lefebvre, e
“Get the picture”, de John Morris. Mesmo depois de tantas
décadas, ainda
restam muitas perguntas sobre o trabalho de Capa, mas suas imagens
emblemáticas permanecem como símbolos poderosos do absurdo de
qualquer guerra – e também demonstram como o fotojornalismo é um
terreno minado, difícil, cheio de ambiguidades.
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O
fotógrafo e seu amigo escritor em
autorretrato
diante do espelho:
Robert
Capa e John Steinbeck
em
Moscou, 1947. No alto, as capas da
primeira
edição do livro Um diário Russo,
publicado
em 1948, e a edição de 2013.
Abaixo,
Capa registra seu amigo Pablo Picasso
com a
esposa Françoise Gilot e o sobrinho
Javier
Vicaro caminhando na praia,
no
Sul da França, em 1948
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Construindo seus argumentos narrativos baseado nas raras
entrevistas do próprio Capa e nos depoimentos de amigos e
contemporâneos do fotógrafo, além da pesquisa em jornais e revistas da época, arquivos da
Rússia, da França e de relatórios do FBI, até então inéditos, a
biografia escrita por Kershaw apresenta uma trajetória que parece
roteiro de um filme de aventuras. Ao alternar os casos mais
pitorescos e os perigos permanentes nos campos de batalha, o biógrafo
completa as lacunas e propõe interpretações para questões que
surgiram desde a publicação de “Ligeiramente Fora de Foco”, a
aubiografia que Capa publicou em 1947.
O Pós-Guerra e a novidade das cores
Depois das celebrações de seu centenário que
ocorreram em 2013, com mostras e retrospectivas abertas ao público
em museus e centros de pesquisa na França, Estados Unidos, Hungria,
Itália, Espanha, México, Inglaterra, Alemanha, Israel, Robert Capa
volta à cena no começo de 2014 com a apresentação pela
primeira vez seus trabalhos com fotografia em cores. A exposição
“Capa in Color” será aberta em 31 de janeiro em Nova York, no
International Center of Photography, onde fica até maio e depois
segue em mostra itinerante por diversos países.
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Robert
Capa em cores: no alto, Pablo Picasso
na
França em 1948. Acima, três experiências com
variações
de tempo de exposição do Kodachrome
para
registrar a musa de Hollywood Ava Gardner,
uma
das paixões de Capa, fotografada em Tivoli,
na
Itália, em 1954, durante as filmagens de
A
Condessa Descalça (The Barefoot Contesse),
escrito
e dirigido por Joseph L. Mankiewicz.
Abaixo,
outras raras imagens em cores de
Capa: no Piccadilly Circus,
Londres, no dia
2
de junho de 1953, durante a procissão
de
coroação
da rainha Elizabeth II; no Marrocos,
em
1949, com espectadores que assistem, no alto
da
árvore, a visita do sultão Sidi Mohammed;
o
desembarque de imigrantes em Israel, em 1949;
o
encontro da tropa com uma família de gansos
na Indochina,
em 1954; e uma das últimas fotos
de
Capa, em 25 de maio de 1954, data em que
ele morreu
numa explosão, ao pisar em uma
mina,
enquanto acompanhava tropas no Vietnã,
durante
os combates na Guerra da Indochina
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As 125 fotos anunciadas para a mostra
no ICP de Nova York foram selecionadas do acervo de mais de 4 mil
imagens em cores que Capa produziu e que, na quase totalidade, ainda
permanecem inéditas. Na maioria, são imagens feitas sob encomenda
para as revistas norte-americanas durante a Segunda Guerra, no
Pós-Guerra e no início da década de 1950, e revela, que Capa
– reconhecido como um dos grandes mestres da fotografia em preto-e-
branco – também foi um dos primeiros fotógrafos do primeiro time
a investir na novidade das cores, testando novos filmes e o manuseio de novos equipamentos.
A técnica das fotos coloridas, que
havia sido introduzida em escala industrial pela Kodak (Kodachrome)
em 1936, foi esnobada até a década de 1950 pela maioria dos
profissionais da fotografia contemporâneos de Capa. Ele, entretanto,
investiu na novidade, contra tudo e contra todos, e começou a explorar a técnica dos filmes coloridos a partir de 1938, durante a guerra entre China e Japão. Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, Capa experimentaria alguns registros a cores, mas teve dificuldades em vender as fotografias coloridas, motivo pelo qual continuou a fotografar em preto e branco e só regressou à cor depois de 1945, durante suas viagens pela Europa, pela África e por países do Oriente Médio. O resultado, pelo
que se vê nas amostras do material distribuído à imprensa pelo
ICP, impressiona.
Inéditos e cinebiografias
Entre as experiências inéditas de
Robert Capa com a cor que serão apresentadas pela primeira vez em
Nova York estão cenas urbanas e a crônica social sobre famosos e
anônimos no Pós-Guerra, nas capitais da Europa. Também fazem parte
das 125 fotos anunciadas para a exposição no ICP belas imagens de
seu amigo Picasso em 1948, passeando com a família na praia, no sul da França, e
brincando dentro d'água com o filho recém-nascido. Ava Gardner, uma
de suas musas, também foi registrada em cores por Capa, durante as
filmagens de “A Condessa Descalça” na Itália, em 1954, assim
como a chegada dos primeiros judeus no Pós-Guerra ao recém-fundado
Estado de Israel, além de novos enquadramentos revelados em cores sobre cenas de guerra que na versão em preto e branco fizeram dele uma celebridade internacional aclamado como mestre da fotografia.

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A
foto polêmica de Robert Capa
em 1936, durante a Guerra Civil
Espanhola. Abaixo, amostras do
lirismo do fotógrafo ao registrar a
plateia que assistia à final da corrida
no Hipódromo de Longchamp, em
Paris, 1952; um soldado francês no
deserto da Tunísia, em 1943, durante
os combates da Segunda Guerra;
duas fotografias produzidas sob
encomenda da Maison Dior, também
em Paris, 1948; o registro do beijo
do casal anônimo
às margens do
rio Sena, em Paris, em 1952; e
Capa em ação, durante a Segunda
Guerra, durante e depois do célebre
desembarque na Normandia, em
junho de 1944, fotografado
por David
Scherman
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Também são aguardados com expectativa pelos fãs da fotografia, e pelos admiradores da trajetória do maior de todos os fotógrafos de guerra, dois
filmes sobre a vida e as aventuras de Robert Capa pelos cinco continentes. Um deles
é “Close enough”, que vai abordar sua passagem pela Guerra Civil
Espanhola e tem Tom Hiddleston (o Loki de “Os Vingadores”) no
papel do fotógrafo. O título do filme, que tem direção de Paul
Andrew Williams e pode ser traduzido como “perto o suficiente”, é
baseado numa das frases famosas atribuídas ao fotógrafo, que
costumava dizer: “se as fotografias não são suficientemente boas,
é porque você não está suficientemente perto”.
Um outro filme, que vai abordar a descoberta da
fotografia pelo jovem Endre Erno Friedmann, é “Capa”, com
direção de Michael Mann, com Andrew Garfield (de “O Espetacular
Homem-Aranha”) no papel principal. Como os dois filmes se propõem
a recriar passagens da biografia como obras de ficção, e não como
documentários, tanto os ferrenhos detratores como os fãs dedicados de Robert
Capa podem ir se preparando para encontrar novas e antigas questões polêmicas.
por
José Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. Robert Capa em cores. In: ______. Blog
Semióticas, 22 de dezembro de 2013.
Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2013/12/robert-capa-em-cores.html
(acessado em .../.../...).