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5 de fevereiro de 2019

O pintor Jack Kerouac










E foi exatamente assim que toda minha experiência na   
estrada de fato começou, e as coisas que estavam por   
vir são fantásticas demais para não serem contadas.   

––  Jack Kerouac, “On the Road”.      








O principal avatar da geração “beat”, que desafiou as convenções morais e sociais mais conservadoras do american way of life” com um coquetel de álcool, sexo livre, jazz e alucinógenos para uma alternativa menos materialista e mais espiritualizada de enfrentar a vida, volta ao destaque mais de 50 anos depois de sua morte –– não apenas pela literatura que o consagrou, mas também por um de seus talentos incomuns que poucos conheceram quando ele estava vivo: Jack Kerouac, autor de pinturas, desenhos e ilustrações em técnica mista. Uma seleção com 80 de suas obras originais, em vários formatos e materiais, na maioria inéditas, foi reunida para uma exposição apresentada pela primeira vez em um prestigiado espaço de artes plásticas na Itália, o MAGA Museo Arte Gallarate na Lombardia, próximo a Milão, região onde o escritor viveu por um período em meados dos anos 1960, e agora surge publicada no catálogo “Kerouac: Beat Painting”, lançamento da casa editorial Skira com textos e organização pelos curadores do museu italiano Sandrina Bandera, Alessandro Catiglioni e Emma Zanella.

Basta alguma observação atenta sobre as imagens produzidas pelo Kerouac pintor para perceber que ele transportou para as artes plásticas muito da composição sofisticada, experimental, surpreendente, sedutora, que ele imprimiu à criação literária nos romances em prosa poética, contos, novelas, diários, relatos confessionais, correspondências, poemas e haikais. A força da arte de Kerouac, para além de sua literatura, já encontrou transposições para o cinema, para a música, para as artes cênicas e para histórias em quadrinhos, mas seu caráter de composição visual feita pelo próprio autor é a última faceta a chegar ao público. Descrito por biógrafos como um de seus principais interesses e talentos, o acervo completo de artes plásticas que Kerouac produziu, e que por diversos motivos não divulgou, ficaria restrito a seus herdeiros indiretos e permaneceu inédito até recentemente nos Estados Unidos na sua cidade natal, Lowell, em Massachusetts.





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O pintor Jack Kerouac: no alto, em Nova York,
1958, fotografado por Jerome Yulsman. Acima,
em foto do documento de identidade em 1943 e
fotografado no estúdio de Tom Palumbo em 1956.
Abaixo, a capa do catálogo Kerouac: Beat Painting






Antes da exposição mais abrangente apresentada no museu italiano e agora com a maior parte do acervo editado em catálogo pela Skira, as pinturas e desenhos de Kerouac apareceram de forma pontual em fragmentos e amostras que ilustram algumas de suas obras literárias e também como parte integrante em três grandes mostras retrospectivas sobre a arte e a literatura da “beat generation” apresentadas na última década nos Estados Unidos (pelo Whitney Museum em Nova York), na França (pelo Centro Pompidou em Paris) e na Alemanha (pelo Centro de Arte e Mídia ZKM em Karlsruhe). No Brasil também houve uma mostra abrangente sobre a “beat generation” no Centro Cultural Banco do Brasil (em 2016 em Brasília e em 2017 em São Paulo e Rio de Janeiro), mas restrita a fotografias e a uma extensa programação de cinebiografias, documentários, adaptações para cinema de obras do movimento “beat” ou filmes em que os autores atuaram em suas diversas performances multiculturais.



Aura questionadora e libertária



A coleção de pinturas, desenhos e esboços deixados por Kerouac veio à tona depois da morte de seu último cunhado e amigo de infância na cidade de Lowell, John Stampas, aos 84 anos, em 2017. A irmã de John, Stella Stampas, também amiga de infância de Kerouac em sua cidade natal, se tornaria a terceira esposa do escritor quando ele retornou em 1966 da última temporada na Europa. O casamento durou poucos meses, assim como outros dois casamentos anteriores de Kerouac, e depois da morte do autor, aos 47 anos, em 1969, Stella ficou com as caixas de arquivos de papéis, rascunhos, fotografias, diários, correspondências e textos inéditos, além das pinturas e desenhos. Com a morte recente de Stella e de John, seus herdeiros negociaram a concessão de direitos para a primeira exposição no museu italiano e para a publicação do acervo no catálogo da casa editorial Skira.






O pintor Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo sobre tela do final da década de 1950,
sem título, identificada como Woman with guitar.
Abaixo, pintura sem título do mesmo período e
um dos mapas em desenho a caneta feito no diário
de Kerouac para traçar, cidade por cidade, o trajeto
de uma viagem que ele fez de carona de julho a
outubro de 1948 e que, uma década depois, surgiria
como modelo para a jornada de aventuras de
Sal Paradise e Dean Moriartya dupla lendária
de protagonistas do romance On the Road










               



O catálogo inclui também, além de pinturas em óleo sobre tela e aquarelas, alguns desenhos feitos por Kerouac nos rascunhos e originais de seus textos, entre eles a ilustração feita a lápis e caneta de um autorretrato diante de uma estrada infinita que ele projetou para capa do romance “On the Road”, sua obra mais célebre, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada” e adaptado para o cinema em 2011 por Walter Salles com roteiro do porto-riquenho José Rivera, mesmo roteirista da adaptação de Salles para os diários do jovem Che Guevara em “Diários de Motocicleta”, filme de 2004. Consagrado como “Bíblia dos Hippies” e transformado em leitura lendária e obrigatória de gerações e gerações desde sua primeira edição em 1957, “On the Road” saiu editado sem a capa planejada pelo autor, mas foi um sucesso estrondoso desde que chegou às livrarias em lançamento da pequena Viking Press. Até mesmo as críticas negativas, que classificavam o livro como “imoral”, foram um ingrediente a mais como publicidade espontânea para expandir sua aura mítica de obra questionadora e libertária.

A publicação veio depois de sete anos de tentativas frustradas de apresentação em editoras, período em que o autor viajava com o original datilografado guardado na mochila. O original também é lendário pela gênese de ter sido escrito na forma de “escrita automática”, à maneira dos surrealistas franceses e do estilo be-bop dos músicos de jazz, na base do improviso criativo, sem parar para pensar ou reformular frases, totalmente datilografado em apenas três semanas em um rolo quilométrico de texto colado página a página com fita adesiva. Assim como seus textos fragmentados em diversas formas narrativas, a composição visual de Kerouac em pinturas e cores inclui referências a retratos distorcidos de pessoas que ele conhecia ou admirava, seus colegas escritores e músicos ainda anônimos, e também famosos como a atriz Joan Crawford ou o escritor Truman Capote. Há também muitas imagens de figuras nuas, eróticas, formas abstratas, paisagens incertas, crucifixos e outros signos relacionados ao sagrado do catolicismo em que ele foi criado e às crenças e ensinamentos identificados por sua aproximação com o budismo.






O pintor Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo sobre tela sem data identificada como
Woman (Joan Rawshanks) in blue with black hat.
Abaixo, Truman Capote, pintura de 1959, e uma
pintura em óleo sobre tela também de 1959 que
retrata o cardeal Giovanni Montini vestido
como papa, quatro anos antes do cardeal se tornar
o Papa Paulo VI. Também abaixo, três pinturas em
óleo sobre tela sem data e sem título, a primeira
identificada como Sunset scenee Kerouac
caminhando no Central Park, Nova York,
fotografado em 1959 por Robert Frank









Expressionismo abstrato



Uma das referências ao sagrado chama atenção do observador: uma pintura em cores expressionistas e sombrias da época da publicação de “On the Road” traça um retrato do cardeal italiano Giovanni Montini, que anos depois, em 1963, se tornaria o papa Paulo VI. Kerouac, que nunca o conheceu, viu a imagem do cardeal em trajes de papa durante ou depois de uma alucinação com mescalina ou LSD, e segundo informa no texto de apresentação Sandrina Bandera, ele teve como modelo para a pintura a óleo tão somente uma fotografia publicada pela revista “Time”. Entre outras revelações ou possibilidades, o leitor que conhece a literatura de Kerouac também vai perceber, nas imagens, algumas cenas que sugerem identificação com suas tramas e seus personagens –– caso da pintura nomeada como “Mulher de azul com chapéu preto”, uma figura andrógina, ambígua, fumando um cigarro, que traz à memória de imediato Joan Rawshanks, de seu romance de publicação póstuma “Visões de Cody”, que tem aquele célebre aviso do narrador ao leitor: “Estou escrevendo este livro porque vamos todos morrer...”

Escrito entre 1951 e 1952 e considerado pelo autor sua obra-prima, “Visões de Cody” seguiria inacabado, com apenas uma edição de fragmentos em pequena tiragem de 750 exemplares feita em 1960 pela New Directions, editora “beat” de Nova York. Como parte do espólio de Kerouac, só foi publicado na íntegra em 1973, revelando sua dimensão como estudo em tom autobiográfico sobre o herói de “On the Road”, Dean Moriarty, que neste livro é chamado de Cody Pomeray. Joan Rawshanks, que tem uma seção inteira em destaque no livro, teve inspiração, segundo Kerouac, na lembrança de uma noite quente e sufocante de 1952 em San Francisco em que ele assistiu, por acaso, a estrela Joan Crawford, a “vamp”, “femme fatale” de Hollywood, filmando nas ruas as cenas de um thriller criminal e “noir’ que se tornaria, para surpresa geral, um retumbante fracasso de público e de crítica, “This woman is dangerous” (Essa mulher é perigosa).











Seria equivocado ler essas obras de arte usando o método tradicional de um crítico de arte”, escreve Sandrina Bandera, destacando a coragem do trabalho do escritor que mesmo com o sucesso avassalador alcançando com “On the Road” ousou enveredar por outras searas como a música jazzística, os pinceis, as telas, as formas abstratas e as paletas de cores. “Porque Kerouac não era totalmente um artista plástico e nem somente um escritor. É preciso antes considerar que ele foi e continua sendo um fenômeno pop-cultural importante e que estas pinturas e desenhos agora são uma parte essencial daquela entidade potente reconhecida como Jack Kerouac. São como os membros de um único corpo girando em seu próprio eixo, tão dinâmicos que precisam de uma abundância de ferramentas diferentes para se expressar”.



Uma jornada poética



Enquanto relata as fontes de pesquisa para o trabalho de curadoria da primeira exposição no museu italiano e para a edição do catálogo, que incluiu, além do acervo dos herdeiros de Kerouac, obras cedidas por colecionadores como os irmãos Arminio e Paolo Ciolli, Sandrina Bandera revela as relações que alguns biógrafos estabelecem entre a dedicação do autor às artes plásticas e as mais diversas referências encontradas nas obras de literatura que ele produziu. Estudo e também inspiração, suas experiências sucessivas e simultâneas com uma ou outra forma de expressão são tentativas permanentes de testar seus limites, destaca a curadora, assim como têm significados muito especiais ao apontar suas relações com autores que influenciaram muito sua obra e com certos mestres da história da arte europeia, todos com um lugar decisivo no percurso de sua formação. 








O pintor Jack Kerouac: acima, pintura de
1960 em óleo sobre tela intitulada The slouch hat
(Chapéu descuidado) e The silly eye (portrait
of William Burroughs), pintura de 1959.
Abaixo, desenho a lápis e caneta sem data e sem
título identificado como retrato de Dody Muller.
Também abaixo, desenho a lápis sobre papel e
aquarela sobre papel, ambos sem título e sem data






Desta formação plural e dispersa também fazem parte: o círculo “beat” de amigos que o escritor conquistou nas temporadas de aventuras e viagens permanentes de costa a costa, de Nova York a San Francisco (a mais conhecida delas com seu maior parceiro, Neal Cassady, uma amizade que surgiu nos tempos de estudante na Universidade de Columbia e foi o ponto de partida que gerou “On the Road”), as primeiras viagens internacionais engajado na Marinha, as paixões sucessivas tão intensas como passageiras, as surpresas com as descobertas das invenções dos surrealistas, a dedicação tardia à cultura italiana, a aproximação afetiva e criativa com o fotógrafo e cineasta Robert Frank e, em maior ou menor grau de intimidade, com os mais destacados expoentes do expressionismo abstrato de Nova York, incluindo entre outros mentores Jackson Pollock, Willem de Kooning, Larry Rivers, Franz Kline, Ashile Gorky, Clyfford Still e, principalmente, Dody Muller, que permaneceu sua amante durante anos.

Para quem conhece o universo literário de Kerouac (“um índio, norte-americano e bretão”, como definiu certa vez seu parceiro Allen Ginsberg) e de seus conterrâneos e contemporâneos da geração “beat”, as cenas e sugestões de suas pinturas e desenhos parecem mesmo completar, com confidências nas ilustrações, seus textos de poesia e prosa poética, pois as imagens estão em cruzamento constante com seus escritos. É assim, também, a conclusão de Sandrina Bandera, que escreve –– “as pinturas em seu conjunto reconstroem uma narrativa na qual as obras escritas e as incursões na arte figurativa coincidiram perfeitamente em diferentes aspectos para construir a mesma jornada poética”. A literatura de Kerouac, que alcançou destaque e importância universal na segunda metade do século 20, e suas imagens agora encadeadas, no fim das contas revelam e confirmam que tanto a escrita, como a composição de formas em cores, são apenas duas maneiras complementares e simultâneas de expressar e experimentar as complexidades infinitas da linguagem.


por José Antônio Orlando.



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. O pintor Jack Kerouac. In: ______. Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2019. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2019/02/o-pintor-jack-kerouac.html (acessado em .../.../...).



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4 de fevereiro de 2017

Cenas de Sinequismo











Eu tenho pouco a dizer sobre magia. Na verdade eu acho
que nosso contato com o sobrenatural deve ser feito em
silêncio e numa profunda meditação solitária. A inspiração,
em todas as formas de arte, tem um toque de magia porque
a criação é uma coisa absolutamente inexplicável.

Clarice Lispector. Trecho do discurso para o
Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria
realizado em 1975, em Bogotá, Colômbia;
Clarice escreveu várias versões do discurso,
mas decidiu não ler nenhuma delas no evento.


    
 
Há algumas fotografias, bem como grafites e outras expressões da chamada “arte de rua”, que podem ser destacados como modelos exemplares para aqueles fenômenos que o principal teórico da Semiótica, Charles Sanders Peirce (1839-1914), define com o conceito de “sinequismo” –– ou seja, a representação do “continuum” que produz o sentido. Nos termos descritos e desenvolvidos por Peirce, o sinequismo indica a formulação de hipóteses ou interpretações que envolvam a ideia de continuidade tanto para a produção como para a potencialização de sentido em determinados aspectos e circunstâncias de espaço, tempo, sentimento e/ou percepção.

O conceito de sinequismo vai encontrar, nos pressupostos da semiótica de Peirce, uma complexa rede de argumentos sobre a lógica dos procedimentos de raciocínio ou dos significados pragmáticos da mente. Sobre tal complexidade vale reproduzir aqui alguns trechos brevíssimos extraídos do seu imenso arcabouço teórico. Em primeiro lugar, segundo Peirce, “assim como afirmamos que um corpo está em movimento, e não que o movimento está em um corpo, do mesmo modo devemos dizer que nós estamos no pensamento, e não que os pensamentos estão em nós”, conforme citado em “Collected Papers” 5.289, 1868 (observação: para citações dos "Collected Papers" de Peirce, convencionou-se que o primeiro dígito refere-se ao volume e, após a pontuação, o número do parágrafo; o trecho citado, portanto, foi extraído do volume 5, parágrafo 289, datado de 1868). 




 




Cenas de Sinequismo: no alto, “Afro Taino”,
grafite assinado pelo artista Gabriel Abreu
em San Cristóbal, província da República
Dominicana, na América Central. Acima,
grafite anônimo na cidade de São Paulo
fotografado em 22 de janeiro, data em que
o prefeito recém-eleito, João Dória (PSDB),
tomou a decisão criminosa de mandar cobrir
com tinta cinza todos os grafites, incluindo o
maior mural de arte urbana da América Latina
que estava localizado na Avenida 23 de maio e
foi inaugurado no início de 2015, com 15 mil
metros e com obras de mais de 200 artistas,
entre eles OsGêmeos, Nina Pandolfo, Nunca,
Finok e Zefix. Também acima, grafite anônimo
nas ruas de Londres, datado de 2013, cria uma
sugestão erótica a partir da vegetação sobre
o muro. Abaixo, grafite do artista Vyrüs
em Calais, cidade do norte da França,
reunindo arte com detalhes da natureza e da
arquitetura das ruas; e a recriação de Vik Muniz
para a clássica personagem da mitologia
grega, com molho de tomate e espaguete:
Medusa Marinara, obra e fotografia de 1999










 

O mesmo conceito de sinequismo vai representar a expressão de continuidade entre o mundo representado pelos signos da cultura humana em sua equivalência com os signos da natureza, ou seja, aqueles objetos ou relações materiais que, na sua origem, independem do princípio gerativo da intervenção humana. Nas palavras de Peirce: “Tudo o que está presente a nós é uma manifestação fenomenológica de nós mesmos. Isso não impede que seja também um fenômeno de algo fora de nós, assim como o arco-íris é ao mesmo tempo uma manifestação do sol e da chuva. Quando pensamos, então, nós mesmos, como somos naquele momento, aparecemos como signo” (CP 5.283).



Relações de causa e efeito



Na sua origem, a palavra “sinequismo” vem da Grécia da Antiguidade e significa “continuidade”, podendo também ser considerada como o contrário de “tiquismo”, que poderíamos, seguindo as formulações de Peirce, traduzir por “acaso”. O sinequismo estabelece relações de causa e efeito para produzir ou potencializar o sentido, enquanto o acaso seria aquele resultado não provocado ou que tenha surgido por processos indeterminados de geração espontânea. Assim como as hipóteses e as interpretações são ideias ou ações que operam em sinequismo, também o acaso pode ser considerado como a manifestação de algo cuja ocorrência tenha formas ou consequências injustificáveis.






Cenas de Sinequismo: acima, uma das
gravuras mais conhecidas de Mondrian,
pioneiro da Abstração, Composition
with Yellow, Black, Blue, Red and Gray,
de 1921, foi adaptada por um artista
anônimo na Venezuela, na favela de
Petare – que conta com mais de 800 mil
moradores e é considerada a maior favela da
América, ocupando um território três vezes
maior que a favela da Rocinha, no Rio de
Janeiro. Abaixo, dois grafites anônimos
no chão da praça Marília de Dirceu, em
Belo Horizonte, em fotografias de 2010:
no primeiro, menina em coreografia de
torcida; no segundo, que surgiu no mesmo
local, um mês depois, substituindo o primeiro,
dois dançarinos em estilo "black power";
também abaixo, Resistance, grafite anônimo
em fotografia de 2012 em Paris, França


 










Sinequismo e tiquismo engendram um terceiro sistema: o “agapismo”, também referido por Peirce como “lei do amor evolutivo”, como “busca de um interpretante final” ou como “lógica da investigação conscientemente aplicada”. Em consonância com as categorias definidas com as tríades de Primeiridade, Secundidade e Terceiridade, no complexo arcabouço teórico que Peirce apresenta, os termos sinequismo, tiquismo e agapismo fundamentam o crescimento contínuo, a variedade e a diversificação entre nossos conhecimentos em relação às leis universais da natureza.

O sinequismo, nos pressupostos da semiótica formulados por Peirce, também vem a ser considerado como uma ocorrência de “abdução”: uma hipótese extremamente criativa, ou um tipo de raciocínio, instintivo e intuitivo, baseado na afinidade de nossa mente com a natureza e capaz de proporcionar, até mesmo de forma não consciente ou não racional, um conhecimento realmente novo –– identificado, portanto, como “invenção” ou “descoberta”. Para Peirce, assim como para Platão e outros sábios desde a Antiguidade Clássica, a natureza deve ser sempre tomada como parâmetro para o pensamento porque é a mais perfeita entre todas as obras de arte.








Cenas de Sinequismo: acima, Ballerina, arte
pintada delicadamente em 2012 pelo misterioso
artista do grafite Banksy, com spray, a percorrer
a parte de trás de um quadro não identificado do
Museu Britânico, em Londres, sobre o fio que
surge como se fosse uma corda bamba; e um
mural de setembro de 2001 do artista francês
Nicolas de Crécy em Manhattan, Nova York.
Abaixo, o esqueleto em rosa choque
criado em uma grade de esgoto de rua no
bairro de Trastevereem Roma, Itália,
em fotografia de 2012; e Alien, arte e
fotografia de 2009 nas ruas de Nova York
em criação do grafiteiro e designer Joe Baran














Cruzamentos entre vários códigos



Sobre este aspecto da cultura humana coexistir em relação permanente, e sempre dependente, ao grau de perfeição das leis da natureza, Peirce escreveu: “O universo como um argumento é por força uma grande obra de arte, um grande poema – pois um belo argumento é sempre um poema, uma sinfonia – da mesma forma que o verdadeiro poema é sempre um argumento significativo. Comparemo-lo antes com uma pintura – com uma marinha impressionista” (CP 5.119).

Nas imagens de grafites e fotografias reproduzidas e apresentadas como exemplificação neste artigo, destacamos a presença do sinequismo nas relações de sentido e de representação que são produzidas por meio dos cruzamentos entre vários códigos. Tais cruzamentos, conforme as sínteses dos conceitos e teorias de Peirce apresentadas por Umberto Eco em obras fundamentais como “Tratado Geral de Semiótica” (1976), “Semiótica e Filosofia da Linguagem” (1984) e “Os Limites da Interpretação” (1990), entre outras, podem ser verificados no processo de generalização das sensações particulares, vividas por cada um de nós, quando estamos em busca pelo significado de uma determinada obra.








Cenas de Sinequismo: no alto, arte e instalação
de 2013 do artista turco Mehmet Ali Uysal no
parque de Chaudfontaine, na Bélgica, utiliza um
pregador gigante de três metros de altura. Acima,
Caravane, grafite de 2011 do artista conhecido
como OakOak nas ruas de Paris. Abaixo, grafite
anônimo no bairro Floresta, em Belo Horizonte,
Minas Gerais, em fotografia de 2013; e o
mural batizado de Tanuasú, Tierra y Nobleza,
criado por Matías Mata, membro do
coletivo Sabotaje al Montaje, em julho
de 2016, durante o Festival de El Paso
en La Palma, nas Ilhas Canárias,
arquipélago espanhol situado no Oceano
Atlântico, ao leste da costa do Marrocos










O significado, entre signos, objetos e interpretantes, vai brotar da percepção de um plural de possibilidades e, por meio da comunicação, poderá produzir o fundamento comum de sentimentos compartilhados em uma mentalidade coletiva, contínua, tanto na experiência científica como na formulação filosófica e artística. Exatamente porque depende de vários, e não apenas de um único código, o significado só pode ser representado como um sistema dinâmico: está sempre em movimento, em toda e qualquer circunstância, sob todos os aspectos.



Relações de signos simultâneos



Ou seja: as relações permanentes entre a obra e o seu contexto histórico, social e cultural permitem a descoberta de elementos que ressignificam não apenas a leitura da própria obra, mas também o signo exterior –– inscrito no âmbito do imaginário social –– que passa a ter com a obra uma determinada ligação ou relação. De novo estamos diante do conceito de sinequismo: nas imagens apresentadas, o significado, ou antes a produção de sentido, está, na verdade, no cruzamento que resulta de pelos menos três signos simultâneos:

1° signo –– a vegetação, ou a estrutura física, ou o condicionante material que já existia naquele contexto antes da iniciativa da representação;

2° signo –– o ângulo da fotografia, ou a perspectiva do desenho ou da pintura, ou a intervenção artística que tomou aquele determinado material como seu objeto para a representação;

3° signo –– a obra (o 1° signo somado ao 2°) que se apropriou da vegetação, ou do espaço, ou do contexto material pré-existente para produzir ou potencializar um sentido.











Cenas de Sinequismo: no alto, um convite à
arte e um alerta sobre a preservação ambiental
em Värikynä (lápis de cor), intervenção e
fotografia de 2011 de Jonna Pohjalainen,
artista da Finlândia. Acima, dois murais
de autores diferentes, em países diferentes,
compartilham a mesma ideia –– a partir do alto, 
arte de novembro de 2014 na fachada de um
prédio em Esteponana província de Málaga,
Espanha, criação de José Fernandez Ríos; e arte
de setembro de 2013 de Natalia Rak na fachada
de um prédio em Bialystok, cidade do nordeste
da Polônia. Abaixo, uma seleção de seis imagens
do portfólio do fotógrafo britânico Denis Cherim
que registram momentos decisivos” e foram
premiadas em outubro de 2016, em Londres,
durante o festival Parallax Art Fair







Esses pressupostos da semiótica da comunicação, apresentados em sua complexidade nos argumentos de Peirce, que foram tão mal recebidos e tão pouco compreendidos em seu tempo, no final do século 19 e na primeira metade do século 20, surgem, na contemporaneidade, como parâmetros transdisciplinares fundamentais nos quais o signo é definido, simultaneamente, como meio e mensagem –– por onde a informação perpassa e se desenvolve. Estranhamente, são esses mesmos parâmetros transdisciplinares que ganham cada vez mais os holofotes, em destaque, com a proliferação dos sistemas de Inteligência Artificial e das mídias interativas nestas primeiras décadas do século 21.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Cenas de Sinequismo. In: ______. Blog Semióticas, 4 de fevereiro de 2017. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2017/02/cenas-de-sinequismo.html (acessado em .../.../…).


Sobre Sinequismo e outras questões de Semiótica,












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