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18 de agosto de 2012

Unanimidade em Nelson Rodrigues










Modéstia à parte, eu mesmo sou um símbolo    
nacional. Tenho um canhão e não sei atirar.    

–– Oswald de Andrade em         
"Serafim Ponte Grande".         




Autor de clássicos absolutos como "Vestido de Noiva" e "Toda Nudez Será Castigada", Nelson Rodrigues (1912-1980), que completaria 100 anos no dia 23 de agosto, é uma unanimidade como maior nome do teatro moderno brasileiro e maior dos nossos cronistas esportivos, além de ter passado à história como um dos maiores polemistas do Brasil do século 20. Um destaque que, por certo, desmente ou, no mínimo, abre exceções para um dos muitos bordões consagrados pelo próprio Nelson, que gostava de repetir: “Não sou um escritor unânime, porque toda unanimidade é burrice”.

Além de seu lugar de destaque no panteão da dramaturgia e da crônica esportiva, foi também consagrado como autor de frases que ganharam o imaginário nacional e como ficcionista, especialmente com suas histórias populares publicadas primeiro na imprensa, a exemplo das centenas de contos reunidos sob os títulos "Confissões" e "A Vida como Ela É", ou em romances como "Asfalto Selvagem", “Meu Destino é Pecar” e "O Casamento". Sobre a trajetória de Nelson Rodrigues, também jornalista nascido em uma família de jornalistas, muito já foi escrito – em especial por Ruy Castro, na polêmica biografia "O Anjo Pornográfico" (Companhia das Letras). 

Ao relatar a vida do jornalista e escritor – que nasceu em Recife, em 1912, quinto de 14 irmãos, e mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916 – Ruy Castro revela algumas tragédias na trajetória de Nelson e uma sucessão espantosa de ocorrências dramáticas, com muito mais risos e lágrimas do que qualquer uma das conhecidas histórias burlescas do autor, todas recheadas com as mais variadas obsessões sobre sexo e morte. Nelson Rodrigues teve uma biografia que é, no mínimo, incomum. Nasceu em uma família de jornalistas e seu pai, Mário Rodrigues, fundou na década de 1920 o jornal carioca "A Manhã". Seu irmão, Mário Filho, também celebrado como um dos principais cronistas esportivos do Brasil, foi homenageado com a criação do estádio do Maracanã.








Desde a infância o futuro cronista e dramaturgo, como ele mesmo disse, certa vez, viu o mundo pelo "buraco da fechadura". Sua infância e adolescência são pontuadas por episódios bizarros: entre eles, a morte de um dos irmãos, Roberto, assassinado na redação do jornal. Com a Revolução de 1930, o jornal da família é embargado. Nos anos seguintes, o jovem Nelson passa a escrever crônicas policiais e sobre futebol, depois investe na criação de peças teatrais. Tudo, segundo ele mesmo, tão somente para "pagar o leite das crianças".

O próprio Nelson Rodrigues demorou anos para percebeu o valor real de suas crônicas e peças, mas seu centenário terá, ao que tudo indica, comemorações em pompa e circunstância, com novas montagens nos palcos do eixo Rio-São Paulo e um programa da Funarte para tradução da íntegra de suas 17 peças para o espanhol e o inglês. Há também uma nova versão nos cinemas de “Bonitinha, Mas Ordinária” com direção de Moacyr Góes e com Leandra Leal e João Miguel no elenco, uma grande exposição itinerante sobre a carreira do dramaturgo nas sedes do Instituto Itaú Cultural e a reformulação do site oficial (clique aqui para visitar), que passará a ter em destaque o tópico “Nelson por Ele Mesmo”, com trechos de entrevistas e crônicas, a maioria ainda inédita em livro.

No cenário literário, entretanto, há controvérsias. Sônia Rodrigues, filha do escritor e gestora do site oficial, prepara o lançamento da autobiografia póstuma “Nelson Rodrigues por Ele Mesmo” (Nova Fronteira). No livro, a voz do escritor surge em trechos de entrevistas e relatos pessoais em que Nelson cada uma de suas peças e apresenta suas ideias personalíssimas sobre o Brasil e os brasileiros, enquanto investe contra o divórcio, contra a imoralidade e o que mais o incomodava na sociedade.







Nelson Rodrigues Filho: livro sobre a relação
com o pai nos tempos da ditadura militar.
Abaixo, Luís Augusto Fischer, autor de
Inteligência com dor, livro que aborda
as crônicas e a vertente ensaística na
extensa produção de Nelson Rodrigues







Nelsinho, outro filho, também prepara um livro: "Nelson Rodrigues – Pai e filho", sobre a relação entre eles, em especial durante a ditadura militar, quando o pai conservador viveu agoniado com o filho esquerdista mantido na prisão pelos militares por quase oito anos. Outros lançamentos e relançamentos, entretanto, ainda não foram confirmados, por conta principalmente de desentendimentos entre os herdeiros e a editora Nova Fronteira, que atualmente detém os direitos de publicação.  

 

Nelson, o Pensador



Nelson teve seis filhos: Joffre (morto em 2010) e Nelsinho, de seu casamento com Elza Bretanha; Maria Lúcia, Sonia e Paulo César, do casamento com Yolanda; e Daniela, com Lúcia. Hoje, os herdeiros, que já viveram uma trajetória de muitos impasses decorrentes de brigas sérias, até conseguem se reunir, mas há divergências sobre a cessão de direitos autorais para novas montagens, reedições ou publicação dos textos inéditos. Mais de mil crônicas de Nelson ainda não foram publicadas em livro. 
 




 
Entre tantas homenagens, há também as novas facetas que vêm reforçar o mito do dramaturgo e cronista de primeira grandeza. Uma delas foi proposta e defendida por um especialista: segundo o escritor e jornalista Luís Augusto Fischer, professor de literatura na UFRGS e doutor em Nelson Rodrigues, as crônicas do autor de "Vestido de Noiva" provam que ele foi, além de tudo, um dos grandes pensadores do Brasil.

Em seu mais recente livro, "Inteligência com Dor - Nelson Rodrigues Ensaísta", lançamento da editora gaúcha Arquipélago, Fischer analisa as crônicas do autor reunidas sob o título "Confissões" (publicadas em livros como "O Óbvio Ululante", "A Cabra Vadia", "O Reacionário", "A Menina Sem Estrela" e "O Remador de Ben-Hur", entre outros) para defender a tese: Nelson Rodrigues não era apenas cronista, mas também um pensador e ensaísta de primeira grandeza.

Para Fischer, o autor de “Toda Nudez Será Castigada” marcou época no Brasil do século 20 como uma espécie de Michel de Montaigne (1533-1592), em referência ao escritor francês considerado o fundador do gênero ensaio e filósofo das instituições e dos costumes sociais. Autor da antologia em tom de ironia "Dicionário de Porto-Alegrês", dos ensaios "Literatura Brasileira – Modos de Usar" e "Machado e Borges", além da premiada novela "Quatro Negros", Fischer se debruçou sobre as crônicas de Nelson Rodrigues com a intenção de estudá-las dentro da tradição do ensaio. Sua tese, controversa para alguns, foi defendida no doutorado da UFRGS e agora ganhou nova versão para o formato livro.






Montaigne do Brasil



O pai da ideia do estudo, revela Fischer, foi o jornalista, roteirista e professor de cinema Aníbal Damasceno Ferreira. "Ele sempre dizia que Nelson é o Montaigne do Brasil e também escreveu um artigo importante defendendo esta proposição. O artigo foi publicado em 1986 aí em Belo Horizonte, no Suplemento Literário do Minas Gerais", destaca. Fischer investe a fundo na ideia – e localiza nos textos em questão características marcantes dos melhores ensaístas, além de "acertar os relógios da crítica" diante de qualidades das crônicas-ensaios de Nelson Rodrigues como a intencionalidade quase profética de convicções e a incorporação da linguagem mais coloquial à literatura brasileira.

Luís Augusto Fischer argumenta que os textos de Nelson Rodrigues, lidos hoje, têm sua permanência assegurada por sua agudeza, densidade, coragem e maestria no trato com a linguagem. A tese de Fischer é corajosa, criativa e fundamentada em expressivo aparato teórico. Mas não há como negar que ela também soa contraditória no seu argumento principal – basta lembrar que as crônicas de Nelson, revalorizadas depois que Ruy Castro organizou os textos em vários volumes, constituem a face menos celebrada do autor.







Foi através das crônicas, por exemplo, que Nelson Rodrigues escreveu contra a organização das minorias pelos direitos civis e contra a esquerda, em plena Ditadura Militar. Por essas e outras, acabou ficando marcado pelo título de reacionário. Ainda assim, mesmo que a personalidade de Nelson sempre se destaque pela polêmica e cercada pelas muitas contradições, é difícil ficar indiferente diante do estudo que Fischer apresenta.

Para o autor de “Inteligência com Dor”, que teve primeira edição em 2009, o ensaio de Nelson Rodrigues, como também o ensaio em geral, pode ser compreendido como um canto de cisne: majestoso, altivo e desesperado. "Ele foi sim um reacionário, por vezes obtuso, medonho ou até risível, mas também era rigoroso e cruel consigo mesmo", argumenta Fischer, destacando que Nelson encerra um projeto construtivista moderno na literatura brasileira.

"Ele vem completar algo que teve início com os parnasianos, que prosseguiu com João do Rio, que alcançou os modernistas e que teve seu desfecho com os tropicalistas, contemporâneos das melhores crônicas de Nelson. O mais importante mesmo é reconhecer, diante do conjunto expressivo de suas crônicas, a obra maiúscula que Nelson produziu", conclui Fischer. "Ele definitivamente introduziu um patamar novo do ensaio no Brasil, e também fora daqui, por certo, quando sua obra for traduzida. É o trabalho de um mestre, um escritor de absoluto primeiro plano nas letras de língua portuguesa, ao lado dos maiores", completa.




Sapiência em cena



Enquanto Luís Augusto Fischer localiza em Nelson Rodrigues o pensador e ensaísta, o veterano Jacó Guinsburg, mestre do teatro no Brasil, também destaca que a obra de Nelson é singular, especialmente suas tragédias cariocas, elevando o autor, no último século, à condição de maior contribuição brasileira ao teatro universal. “Nelson é singular e construiu um lugar personalíssimo na dramaturgia que se faz no Brasil”, aponta em entrevista por telefone o crítico, ensaísta e mentor da Editora Perspectiva. 
















Vida e obra: no alto, o casal de noivos
Nelson Rodrigues e Elza Bretanha
 em 1940, e cenas da primeira montagem
de "Vestido de Noiva", apresentada em
1943, no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro, com o grupo Os Comediantes
contando com cenografia e figurinos
de Tomás Santa Rosa, sob direção
de Zbigniew Ziembinski (foto abaixo,
em 1966, durante os ensaios da peça
"O Santo Inquérito", de Dias Gomes), 
diretor, ator e comediante polonês
que fugiu da Segunda Guerra e veio
em 1941 para o Brasil, onde provocou
revoluções no teatro, no cinema e na TV.
Também abaixo, Jacó Guinsburg, tradutor,
jornalista, professor, crítico de teatro
e fundador da Editora Perspectiva








Extremamente lúcido e bem-humorado, aos 92 anos, Jacó Guinsburg, que foi homenageado na última edição do Prêmio Shell, pela contribuição ao pensamento crítico do teatro no Brasil, esteve recentemente em Belo Horizonte como convidado especial do Ecum – Centro Internacional de Pesquisa sobre a Formação em Artes Cênicas. Além do elogio à permanência de Nelson Rodrigues em cena, Guinsburg também destacou alguns dos requisitos que considera essenciais para a qualidade e a atualidade do teatro.

"O primeiro requisito para qualquer dedicação ao teatro tem que ser, em primeiro lugar, gostar de teatro", adverte. "Teatro é ação e reação. É a menos permanente das artes e a mais intensa, porque depende da relação presencial. O teatro é a arte do aqui e do agora, representado a partir do corpo do ator", completa o sábio veterano que nasceu na Bessarábia (hoje território da Moldávia, no Leste Europeu) e emigrou para o Brasil com os pais em 1924, aos 3 anos de idade.

Nas décadas seguintes, Guinsburg ganharia destaque como o principal teórico do teatro brasileiro, além de tradutor e editor de mais de uma centena de tratados de teoria e história das artes e do teatro em particular. Autor de dezenas de grandes clássicos sobre as artes cênicas, como "Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou", "Semiologia do Teatro", "Dicionário do Teatro Brasileiro" e obras sobre Diderot, Lessing e Nietzsche, entre outros, Guinsburg também é sempre destacado como fundador e editor da Perspectiva, uma das mais respeitadas editoras do Brasil, voltada para obras de vanguarda e teoria. 








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Grandes momentos de Nelson Rodrigues
no cinema: acima, cenas de A Falecida,
filme de 1965 com Fernanda Montenegro
e Paulo Gracindo e com roteiro e direção
de Leon Hirszman. Abaixo, Toda Nudez
Será Castigada, filme de 1973 com
Darlene Glória e Paulo Porto e com
roteiro e direção de Arnaldo Jabor











 

Recordes de adaptações



Jacó Guinsburg recorda na entrevista que sua maior aproximação com a arte dramática e seu ensino começou em 1964, na Escola de Arte Dramática (EAD), onde ministrou a cadeira de crítica teatral e, posteriormente, em 1967, no então recém-criado Departamento de Teatro, mais tarde de Artes Cênicas, da Escola de Comunicações e Artes da USP. Sob este novo prisma, passou a concentrar seus estudos em teoria e estética teatral e nos grandes clássicos do teatro russo, judeu e iídiche, além da dedicação ao chamado teatro do absurdo.

"Fico extremamente honrado e feliz com a homenagem do Ecum, que apresentou uma curadoria impecável sobre o panorama do teatro russo", destaca Guinsburg, que reconhece qualidades no "caminho trôpego" que o teatro brasileiro cultiva desde tempos remotos. "A grande contribuição do teatro do Brasil para o mundo são alguns momentos que refletiram genialidade e ousadia e que têm alguns registros importantes de reconhecimento no exterior”, explica.






Nelson Rodrigues no cinema: acima,
A Dama do Lotação (1978), adaptação
de um texto de Nelson Rodrigues com
roteiro e direção de Neville de Almeida,
com Sonia Braga como protagonista,
tornou-se um dos maiores campeões de
bilheteria do cinema brasileiro. Abaixo,
Nelson Rodrigues flagrado em um passeio
no calçadão da praia de Copacabana, em
1979; na ativa, na década de 1970; e o
túmulo do escritor no Cemitério São
João Batista, no Rio de Janeiro







A extensa obra de Nelson Rodrigues também conta com um número recorde de adaptações para o cinema e a TV, algumas com sucesso raro e imbatível de público e crítica. Mas é na cena do teatro que ela se revela como uma revolução na crônica de costumes e na série inédita de avanços que incorpora à carpintaria das artes cênicas, conforme destaca Guinsburg. Entre os grandes momentos de ousadia do teatro brasileiro, ele enumera a obra completa de Nelson Rodrigues, seguindo os mesmos critérios do crítico Sábato Magaldi, que agrupou as 17 peças do autor em três categorias: peças psicológicas, peças míticas e tragédias cariocas.

Não há como negar, reconhece Guinsburg, que Nelson Rodrigues mudou radicalmente a trajetória do teatro no Brasil e criou referências que ganharam destaque também no plano internacional, como no caso da montagem ímpar e revolucionária para “Vestido de Noiva”, com direção de Zibgniew Ziembinski (1908–1978), cenários e figurinos originais de Tomás Santa Rosa (1909–1956) e elenco do grupo Os Comediantes, que estreou entre aplausos e vaias em 28 de dezembro de 1943 e inaugurou em grande estilo o teatro moderno brasileiro. “Nelson Rodrigues é um caso muito especial”, completa Guinsburg. “Mas o teatro é sempre singular e nem sempre a melhor qualidade tem a repercussão que merece. Igual a tudo na vida, afinal de contas..."


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Unanimidade para Nelson Rodrigues. In: ______. Blog Semióticas, 18 de agosto de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/08/unanimidade-para-nelson-rodrigues.html acessado em .../.../…).



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6 de abril de 2012

Ensaios de Lya Luft








Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro   
com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo,   
é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo   
e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade.   


––  Hélio Pellegrino      


 



A escritora Lya Luft é um sucesso inquestionável de público, com mais de 20 livros publicados. Mas há controvérsias. Por décadas considerada unanimidade, nos últimos anos ela tem ousado cada vez mais, expôs suas posições políticas e opções partidárias e acabou dividindo as opiniões da crítica. Alguns de seus desafetos na imprensa até chegaram a acusá-la de trocar a literatura pela produção de livros de auto-ajuda.

Impávida e segura de si, ela segue em frente e continua trilhando novas possibilidades com seus textos às vezes difíceis de classificar. Há pouco tempo, decidiu investir em ensaios, com a publicação de “Múltipla Escolha” pela editora Record. Antes de chegar a esta coletânea de ensaios, a lista de livros escritos por Lya Luft – que nasceu na pequena cidade gaúcha de colonização alemã Santa Cruz do Sul e completa em setembro 74 anos – já incluía gêneros diversos, habilidade que sempre intrigou seus críticos mais renitentes.

Entre os livros que publicou estão romances, coletâneas de poemas, crônicas e livros infantis, a maior parte deles traduzidos para diversos idiomas, como alemão, inglês, espanhol e italiano. Professora universitária aposentada, mestre em linguística e em literatura brasileira (com tese sobre Lígia Fagundes Telles), colaboradora de jornais e revistas, tradutora de Virginia Woolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass e Thomas Mann, entre outros, Lya Luft concedeu esta entrevista por telefone às vésperas de viajar para Belo Horizonte, onde esteve para mais uma sessão de autógrafos e debate com o público no projeto Sempre Um Papo. 

 




"Você leu este Múltipla Escolha?”, ela questiona, gentil mas também desafiadora, logo no início da entrevista por telefone, de Porto Alegre, onde mora desde a década de 1960. “Pois então você percebeu que são textos que tentam traduzir alguns exercícios de reflexão", explicou, citando um ou outro dos temas abordados no livro. Pergunto sobre as polêmicas na imprensa e sobre os juízos de valor radicais sobre seu livro de ensaios. Ela argumentou, também questionando, se tais opiniões talvez não venham da pouca intimidade de alguns críticos veteranos ou iniciantes com a ousadia que o gênero ensaio representa, uma vez que sua característica essencial é a reflexão e não a certeza das teses ou a pesquisa centrada em fontes da reportagem jornalística.

"O gênero ensaio é uma prática muito mais frequente entre escritores e pensadores dos países da Europa. No Brasil, com raríssimas exceções, é um gênero que nunca vingou. Há, sim, entre nós, a tradição do ensaio acadêmico, monográfico. Mas como gênero mais livre, abrangente, é pouco comum nas nossas letras". A edição de “Múltipla Escolha” reúne 50 textos breves que têm em comum a abordagem do que Lya Luft chamou de "mitos enganosos da cultura brasileira e das relações humanas e familiares".









Três mulheres em destaque na galeria
de referências da escritora Lya Luft: no
alto, Virginia Woolf e Doris Lessing,
escritoras que admira e traduziu. Acima,
Lygia Fagundes Telles, tema da tese
sobre literatura brasileira que Lya
defendeu na UFRGS em 1978





"É um livro de questionamentos. Esta é uma boa definição para os ensaios que selecionei para a edição. São textos em que tento atrair o leitor para dividir comigo as dúvidas sobre muitas perguntas que dificultam nossa tarefa existencial", destacou, lembrando que desde a mais remota Antiguidade é uma prática comum a cultura humana criar muitos mitos na tentativa de explicar o que os homens não podem entender, como o nascimento e a morte, o desejo de eternidade, os impulsos mais sombrios e insuspeitados.



Mitos modernos



"Hoje são muitos os mitos modernos criados para abafar nossos enganos, nossa angústia e nossa futilidade no dia a dia. O que não deixa de ser compreensível. Nosso instinto de alegria precisa sobreviver para escaparmos dessas armadilhas", alertou. Sobre o retorno à capital mineira, Lya Luft disse que para os mineiros guarda sempre as melhores expectativas.

"Minha relação com Belo Horizonte e com Minas Gerais é muito antiga, vem de muito antes da ligação amorosa que tive com o Hélio Pellegrino. Sempre cultivei um afeto especial por Minas e pelos mineiros, talvez por causa da personalidade forte de toda produção intelectual e artística que vem da gente daí, das Minas Gerais. Basta prestar atenção, por exemplo, na literatura brasileira, que tem uma raiz mineira tão forte e influente". A literatura no Brasil de hoje, na avaliação de Lya Luft, vive um bom momento, mas está em um processo de franca transição. 





Cenas do álbum de família: acima,
os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, os
amigos mineiros reunidos, Fernando
Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara
Resende e Paulo Mendes Campos.
Abaixo, Hélio e Lya Luft em uma das
raras fotografias conhecidas do casal



"Temos alguns veteranos na ativa, produzindo obras da maior qualidade, e temos jovens autores muito bons. As editoras brasileiras nunca venderam tanto, em nenhuma outra época. O problema é que também se publica muita bobagem. Hoje todo mundo quer publicar livros. É a última moda. O momento é de transição, mas o lugar da literatura no Brasil é dos melhores, com toda certeza". 

Sobre este momento atual, de transição, ela relatou suas suspeitas de que talvez as mudanças sejam motivadas pelas novas tecnologias e pela avalanche de novidades e hábitos de comportamento que a Internet trouxe para o cotidiano das pessoas comuns. "O computador e a Internet estão na minha vida há quase duas décadas. Creio que fui uma das pioneiras entre os escritores brasileiros. Uso muito as mensagens de e-mail, compro livros e pesquiso na rede todos os dias, o tempo todo. Só não participo de Twitter, Facebook, Orkut. Ainda prezo muito minha intimidade e minha privacidade".



Múltipla escolha



Enquanto viajava para participar do evento em Belo Horizonte, Lya Luft já estava envolvida com uma nova publicação reunindo suas crônicas mais recentes publicadas na imprensa – “A Riqueza do Mundo”, também lançado pela Record em 2011. O próximo projeto em livro, depois dos ensaios e das crônicas, vai marcar seu retorno ao que ela diz ser o seu ambiente de predileção: a arte do romance. 


 
"O próximo livro tem o título provisório de 'A Mulher que não Existia', mas está bem no começo. Não tenho nem previsão para concluir. Vou escrevendo, enquanto faço outras coisas, entre um livro e outro, e acompanho de perto a vida de meus filhos e netos". Em 1985, ela divorciou-se de seu primeiro marido para viver um grande amor com o psicanalista e escritor mineiro Hélio Pellegrino, que morreria em 1988. 

"Minha vida com Hélio foi uma tempestade de primavera – tão breve quanto intensa. Nós estivemos juntos por dois anos e três meses. Foi meu segundo casamento e uma sorte, um privilégio. Aliás, preciso reconhecer que tive o privilégio de encontrar parceiros excepcionais”, recordou, entre pausas, fazendo alguma ironia sobre seus percalços sentimentais. Em 1992, ela voltaria ao casamento com o primeiro marido, Celso Pedro Luft, de quem ficou viúva em 1995. 

O primeiro casamento com Celso, ela recorda, aconteceu em 1963, logo depois de seu aniversário de 21 anos. Celso, que naquela época era irmão marista e 19 anos mais velho, deixou a vida religiosa para viverem juntos um caso de amor. Os dois se conheceram numa situação das mais prosaicas: durante uma prova de vestibular, para a qual ela chegou atrasada.





Vivendo atualmente o terceiro casamento, Lya Luft é mãe de três filhos e comemora a condição de avó. Os três filhos nasceram do primeiro casamento com Celso. "Meus filhos são meus amores mais permanentes. Suzana é médica, André é agrônomo e Eduardo é filósofo. Tenho muito orgulho dos três, que me deram sete netos maravilhosos". Foi no início do primeiro casamento que ela começou a escrever poemas, em pouco tempo reunidos no livro "Canções de Limiar", de 1964. 

O segundo livro de poemas foi publicado em 1972, "Flauta Doce". Em 1978, lançou sua primeira coletânea de contos, com o título "Matéria do Cotidiano". A consagração viria em 1980, quando Lya Luft publicou o romance "As Parceiras", seguido por "A Asa Esquerda do Anjo" (1981) e "Reunião de Família" (1982). "A Asa Esquerda do Anjo' é uma exceção entre tudo o que publiquei porque é dos meus poucos trabalhos em que o título já estava definido muito antes do próprio livro".



Histórias da Bruxa



Lya Luft estrearia na literatura infantil em 2004, com "Histórias da Bruxa Boa", retornando ao gênero em 2007, com "A Volta da Bruxa Boa", e em 2009, quando publicou "Criança Pensa" – produzido em parceria com seu filho filósofo, Eduardo, e seguindo uma certa linha de pensamento que busca estimular na infância e adolescência a observação, a análise e o discernimento sobre as coisas simples e complexas da vida. 

 




Os ensaios, por sua vez, surgiram na sua trajetória de escritora em 1996, ano de publicação de "O Rio do Meio", premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte. "Este 'O Rio do Meio' na verdade tinha mais parentesco com a ficção", ela fez questão de ressaltar. "Bem diferente dos ensaios reunidos neste livro mais recente, que estão centrados em questões de ética, política, comportamento e antropologia".

No breve tempo da entrevista ela evitou contradizer as polêmicas e os ataques quase ofensivos assinados por um ou outro crítico em jornais e revistas. Os ataques ela considera que tenham sido uma forma de resposta a alguns de seus posicionamentos políticos pontuais, vindos de comentaristas rancorosos para os quais, talvez, o livro de ensaios não teria nenhuma relação com a importância da literatura que ela vem produzindo há décadas.

Algumas das questões sobre a política e a vida cotidiana que apresento na entrevista ela prefere não responder. Mas explica, com gentileza, suas intenções com a reflexão reunida nos textos de “Múltipla Escolha”. “Isso está no livro. Lá o raciocínio está mais elaborado porque é o que eu tinha em mente, denunciar certos problemas cruciais dos dias atuais, algo trabalhado também nos dias de hoje por uns poucos escritores nos quais ainda se encontram ideias", destacou, citando de passagem um ou outro título de Zygmunt Bauman e de Umberto Eco, entre outros pensadores contemporâneos sobre os quais ela declara admiração e que lê com muita frequência. 



A polêmica dos temas difíceis




Ainda sobre os pontos em comum entre seus ensaios e o que propõe um ou outro livro de grandes pensadores contemporâneos, Lya Luft destaca a questão dos medos, da insegurança, da dificuldade atual de se manter uma identidade e de se tomar decisões. “Por isso este livro de ensaios gerou tanta polêmica”, reconheceu, tomando como exemplo a cobertura sempre parcial da imprensa sobre certos acontecimentos recentes. “São temas difíceis, que tendem a ser amplos, variados e especialmente focalizados na vida cotidiana de homens e mulheres comuns”.






Peço licença para ler um trecho de “Múltipla Escolha” que eu havia marcado para citar na redação da entrevista, que diz: “O olho do outro está grudado em mim e me sinto permanentemente avaliado, nem sempre aprovado: se eu não for como sugerem ou exigem meu grupo, família, sociedade, se não atender às propagandas, aos modelos e ideais sugeridos, serei considerado diferente”. Ela elogiou a escolha e continuou a citação do texto, provando que o conhecia de cor: 

É isso mesmo. Como adolescentes queremos ser iguais à turma, como adultos queremos ser aceitos pela tribo: a pressão social é um fato inegável", completou. “Globalização, sociedade de consumo, amor, comunidade, individualidade são algumas das questões sobre as quais busco a reflexão com os ensaios que estão no livro, sempre tentando salientar a dimensão amorosa que deve nortear tudo o que diz respeito à condição humana”. 

 




Reflexões a respeito dos principais problemas sociais como a pobreza, desigualdade social, e também de questões afetivas ligadas a relacionamentos estão presentes a todo momento na mídia e na imprensa. A diferença é que os ensaios de Lya Luft caminham pelo lado prático e pelo lado ético, simultaneamente, tratando desses assuntos por intermédio de sua própria vivência e sem dar um caráter acadêmico ao texto. Como resultado, ela consegue conduzir o leitor em um tom de conversa, quase como se fizesse uma "auto-entrevista". 

Segundo Lya Luft, o título do livro, "Múltipla Escolha", na verdade traduzia à perfeição sua filosofia de vida. "É um livro de questionamentos. Não é uma coletânea de certezas. São textos em que tento dividir as dúvidas com o leitor. Porque eu realmente acredito que são estas as grandes questões para cada um de nós nos dias que correm. É preciso saber escolher, é preciso ter consciência de nossas escolhas", alertou. "Este talvez seja o grande desafio de nossas vidas”. 



por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Ensaios de Lya Luft. In: ______. Blog Semióticas, 6 de abril de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/ensaios-de-lya-luft.html (acessado em .../.../…). 



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