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12 de outubro de 2016

O poder da flor







Uma companhia de PMs surgiu da direita,
correndo desajeitadamente como fantoches.
Estacaram diante da rampa, reagruparam-se,
colocaram os rifles em riste e avançaram.
Os manifestantes, incrédulos, abriram-lhes
passagem, atônitos, defrontando pela primeira
vez as armas dos “nossos rapazes”. Então
ocorreu algo extraordinário. As pessoas
começaram a rir. Algumas lançaram flores
amarelas sobre os soldados, que agora
estavam parados, petrificados, com armas
apontadas para moças e rapazes
da mesma idade deles.



Norman Mailer –– “Os Exércitos da Noite” (1968)  

  





Há fotografias que conseguem revelar a tradução de toda uma época. Uma delas, por certo, é a moça com a flor em frente à tropa policial no protesto contra a Guerra do Vietnã – fotografia que o francês Marc Riboud registrou durante a manifestação de 21 de outubro de 1967, próxima ao Pentágono, em Washington, EUA, que ficou conhecida como Marcha sobre o Pentágono. Riboud, que morreu no último dia 31 de agosto, aos 93, era fotojornalista da Agência Magnum, em 1967, e nomeou sua fotografia como “La jeune fille a la fleur” (A moça com a flor). A imagem, que seria reproduzida por jornais e revistas do mundo inteiro, popularizou a expressão “Flower Power” (Poder da flor) e se tornaria um símbolo para os movimentos pacifistas desde a década de 1960 e para toda a contracultura que prosperava naquele tempo.

A moça com a flor, na cena inusitada que sugere um estranho contraponto aos fuzis dos policiais, era Jan Rose Kasmir, mas Marc Riboud só descobriu o nome da protagonista de sua fotografia mais célebre depois de mais de três décadas, em 2003. Na época uma anônima estudante do ensino médio, de 17 anos, Jan Rose Kasmir havia se juntado à passeata do movimento pacifista quando saía da escola. No desfecho da marcha, o imprevisível aconteceu: a atitude de Jan Rose, oferecendo uma flor de crisântemo diante dos soldados armados, inspirou vários outros manifestantes a repetirem o gesto pacifista desde aquela época e até a atualidade (veja também Semióticas: Desobedeça!).










Flower Power – O poder da flor: a jovem
Jan Rose Kasmir e seu gesto de grande força
simbólica fotografado por Marc Riboud na
Marcha sobre o Pentágono no dia 21 de outubro
de 1967. No alto, a fotografia em cores que
foi revelada recentemente por Riboud. Abaixo,
o fotógrafo em 2009, em Paris, e em ação
durante a manifestação de 1967










Naquele dia, outros fotógrafos também registraram cenas semelhantes no mesmo protesto – caso de Bernie Boston, que fotografou para o jornal “The Washington Evening Star”, com filme em preto e branco, um outro estudante anônimo colocando uma flor no cano de um fuzil dos policiais que montavam guarda na entrada principal do Pentágono. Entre outras fotografias com manifestantes repetindo o gesto com a flor, naquela mesma manifestação, há também uma imagem em cores registrada por um fotógrafo anônimo do Departamento de Defesa e revelada pelo Instituto Smithsonian em 1997, 30 anos depois do evento em Washington. A foto mostra outra moça anônima, de cabelos longos e de chapéu, também oferecendo uma flor de crisântemo aos policiais durante a marcha.

A fotografia, encontrada nos arquivos do Instituto Smithsonian, era o único registro em cores da manifestação de 1967, mas recentemente o próprio Marc Riboud surpreendeu a todos quando apresentou uma versão colorida da célebre “La jeune fille a la fleur”. A novidade foi descoberta quando Riboud organizava seus arquivos para uma exposição em Paris, promovida pela Agência Magnum, com a retrospectiva de suas fotografias mais conhecidas em mais de 50 anos dedicados à profissão de fotojornalista.




Flower Power – O poder da flor: acima,
o estudante que Bernie Boston fotografou
durante a Marcha sobre o Pentágono para o
jornal The Washington Evening Star. Abaixo,
uma outra manifestante anônima repete o gesto
simbólico da flor, também na marcha, em
imagem registrada por um fotógrafo anônimo
do Departamento de Defesa dos EUA









O pintor da Torre Eifell



Segundo relato de Riboud, em entrevista concedida à Associated Press na abertura da exposição, em 2009, no Musée de la Vie Romantique, em Paris, ele usou todos os rolos de filme em preto e branco que carregava registrando a passeata, durante horas, naquele dia 21 de outubro de 1967. No final da tarde, quando percebeu a moça que avançava sozinha, com a flor de crisântemo, na linha de frente da marcha, em direção à tropa de policiais, viu que restavam poucas poses do seu último filme.

Foi então que Marc Riboud lembrou da outra câmera, com filme positivo, em cores, que ele havia usado pela manhã para fotografar paisagens para uma série de slides sob encomenda. Ele sacou esta outra câmera e clicou a cena três ou quatro vezes, mas depois, por descuido e também por pressa, acabou esquecendo do filme positivo que estava na câmera e divulgou apenas as fotos em preto e branco. Por acaso, só voltou a localizar as imagens na véspera da exposição em Paris, 42 anos depois do flagrante sobre aquela cena que marcou época.



Flower Power – O poder da flor: dois
flagrantes de Paris registrados em
fotografias de Marc Riboud. Acima,
“Zazou, le peintre de la Tour Eiffel”
(Zazou, pintor da Torre Eiffel), fotografia
de 1953. Abaixo, os estudantes nas ruas
nos protestos de maio de 1968





Marc Riboud foi um dos grandes fotógrafos que participaram das duas frentes: esteve presente nos campos de batalha, fazendo cobertura jornalística sobre a guerra do Vietnã, e também atuou como fotojornalista registrando os protestos contra a guerra, principalmente nos Estados Unidos, tendo suas fotografias publicadas pelas revistas “Look”, “Life”, “Stern”, “National Geographic” e “Paris Match”, entre outras. Por uma incrível coincidência, foi através de um convite de Robert Capa, o mais célebre dos fotógrafos de guerras, que Riboud começou na profissão de fotojornalista.



A força simbólica do gesto



Em 1953, exatamente 14 anos antes da fotografia de Jan Rose Kasmir e sua flor de crisântemo contra a tropa policial, Riboud ainda era um fotógrafo amador quando registrou uma outra imagem surpreendente – “Zazou, le peintre de la Tour Eiffel” (Zazou, pintor da Torre Eiffel). Na fotografia, o operário surgia como se estivesse executando um passo de balé nas alturas do monumento de Paris. Por um lance de sorte, a imagem foi selecionada para uma exposição coletiva em Paris e terminou publicada pela revista “Life”, chamando a atenção do mestre Robert Capa, que havia criado, em 1947, a Agência Magnum, junto com Henri Cartier-Bresson e David “Chim” Seymour (veja também Semióticas: Robert Capa em cores).

Robert Capa, impressionado com o retrato do operário Zazou na Torre Eiffel, convidou Marc Riboud para trabalhar na Agência Magnum. A partir daí, Riboud iria se consagrar como um dos grandes fotojornalistas do século 20 – registrando personagens anônimas e cenas poéticas ou prosaicas em cenários incomuns e tão diversos como a China nos primeiros tempos da Revolução de Mao Tsé-Tung, as guerras pela independência da Argélia e outros países da África, a turbulência e o exotismo do Afeganistão e da Revolução dos Aiatolás no Irã ou em Cuba, no começo da década de 1960, pouco depois da tomada do poder por Che Guevara e Fidel Castro, as barricadas dos estudantes nas ruas de Paris, em maio de 1968, e os protestos recentes contra a Guerra do Iraque e pela causa dos refugiados dos países árabes. Foi durante um protesto contra a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, nas ruas de Londres, que Riboud encontrou Jan Rose Kasmir pela primeira vez depois da Marcha sobre o Pentágono de 1967. 





Flower Power – O poder da flor: as provas
de contato do filme usado por Marc Riboud
em 1967, incluindo o gesto simbólico de
Jan Rose Kasmir e o trajeto dos
manifestantes até o Pentágono (abaixo)


 


 
Entre todas as fotografias da trajetória de Marc Riboud, muitas delas premiadas, a imagem mais célebre e a mais lembrada nas últimas décadas continua sendo “La jeune fille a la fleur” – a mais completa tradução de uma época e de uma marcha que deu origem a muitas e muitas outras manifestações de protesto por causas diversas, em seu contraponto simbólico de mais de 100 mil pessoas, na sua maioria estudantes, hippies e militantes pacifistas de movimentos sociais de um lado, tendo do outro lado a tropa de 2.500 soldados fortemente armados em frente ao Pentágono.

A força simbólica do gesto de Jan Rose Kasmir, registrada naquela foto de Marc Riboud, e a surpreendente multidão reunida na manifestação, entretanto, não foram suficientes para interromper a Guerra do Vietnã – e terminaram resultando, no final daquele dia 21 de outubro de 1967, em uma resposta violenta e desproporcional da tropa de soldados, que avançou contra os manifestantes com cassetetes, tiros e bombas de gás lacrimogêneo, provocando pânico e deixando centenas de feridos.





Flower Power – O poder da flor: acima,
o destaque da Marcha sobre o Pentágono na
capa da revista Time na última semana de
outubro de 1967. Abaixo, dois registros em
cores feitos por fotógrafos anônimos a serviço
do Departamento de Defesa dos EUA







Exércitos da noite



Naquele dia 21 de outubro de 1967, cerca de 700 manifestantes foram presos – mas a repressão e a violência policial, ao contrário de amedrontar a militância do movimento pacifista, acabou gerando muitos outros protestos nos meses e anos seguintes. O escritor Norman Mailer (1923-2007) estava entre os manifestantes que foram presos e transformou a experiência em um livro antológico que registra, em detalhes, a passeata e o confronto final. O livro, que passaria a ser considerado um marco do chamado “New Journalism” com sua renovação das técnicas narrativas nas décadas de 1960 e 1970 – recebeu o título “Os Exércitos da Noite” (Armies of the Night) e foi publicado no Brasil pela Editora Record.

Importante expoente da contracultura e um dos fundadores do influente jornal alternativo “The Village Voice”, Norman Mailer situa seu relato entre os dias 19 e 22 de outubro de 1967, às vésperas e no dia seguinte à marcha pacifista. Permeando sua mistura visionária de literatura e jornalismo com o explosivo contexto da vida norte-americana do período, Mailer apresenta, como autor-personagem-testemunha, em duas partes simétricas (a primeira, intitulada “A História como Romance”; a segunda, “O Romance como História”), uma reflexão inovadora sobre a força da contracultura e o surgimento da cultura hippie, a emergência dos movimentos sociais e os antecedentes das lutas libertárias que ficariam conhecidas como “protestos pelos direitos civis”.




Flower Power – O poder da flor: acima,
o jornalista e escritor Norman Mailer, autor
de Os Exércitos da Noite, fotografado
em 1968, em Nova York, por Inge Morath.
Abaixo, a capa da primeira edição do livro
lançado no Brasil pela Editora Record





No painel traçado por Norman Mailer, o “poder do amor e da flor” surge como antídoto e repúdio aos ideais burgueses e contra toda forma de violência, discriminação, repressão, consumismo e massificação. Povoado por militantes que se multiplicavam em roupas não convencionais, com cabelos compridos e desalinhados, pés descalços ou de chinelos e sandálias de couro, jeans desbotados, batas em estilo indiano e palavras de ordem de contestação e protesto contra o sistema, o livro de Norman Mailer fez História e venceu as principais premiações da literatura e do jornalismo dos EUA em 1968, incluindo o Pulitzer, o National Book Award e os prêmios honorários concedidos pela Universidade de Long Island e outras instituições.



Caminhando e cantando



Os ecos provocados pela Marcha sobre o Pentágono, pela força do gesto simbólico da moça com a flor fotografado por Marc Riboud e pelo relato confessional publicado por Norman Mailer encontraram terreno fértil e repercussão em outras partes do mundo – inclusive no Brasil. Também aqui a segunda metade da década de 1960 traz o cenário do rompimento com a ordem imposta e com os valores da tradição conservadora, agravado pela censura e pela repressão decorrentes da ditadura militar instaurada com o golpe de 1964.




Flower Power – O poder da flor: acima,
capa do LP Tropicália ou Panis et Circences,
de 1968, que reúne, a partir do alto, em sentido
horário, Arnaldo Baptista, Caetano Veloso
(com a foto de Nara Leão), Rita Lee, Sérgio
Dias, Tom Zé, Torquato Neto, Gal Costa,
Gilberto Gil (com a foto de Capinam) e Rogério
Duprat. Abaixo, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias
e Rita Lee, Os Mutantes, chegam com
Gilberto Gil ao Teatro da TV Record para
a apresentação de Domingo no Parque
no palco do Festival Internacional
da Canção, em 1967
 



O final de 1967 tem, no Brasil, a marca dos grandes festivais de música e do nascimento do movimento tropicalista, tendo à frente as canções “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso e “Domingo no Parque”, parceria de Gilberto Gil com Os Mutantes. Abandonando qualquer princípio de xenofobia e o estilo didático dos movimentos da esquerda tradicionais, os tropicalistas vão misturando referências diversas à cultura brasileira, quebrando preconceitos e atualizando o Manifesto Antropófago de 1928 de Oswald de Andrade: devorar a influência estrangeira para recriá-la em bases nacionais, tipicamente brasileiras.

Este procedimento “antropofágico” alcança a Marcha Pacifista de Washington de 1967, a fotografia “La jeune fille a la fleur” de Marc Riboud e o relato romanceado de Norman Mailer especialmente através de uma canção lançada em 1968 pelo cantor e compositor Geraldo Vandré – “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, que disputou o 3° Festival Internacional da Canção, realizado em setembro de 1968 no ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, e ficou classificada em segundo lugar no julgamento final, mesmo sendo a favorita do público. Ao final do festival, alguns dos jurados, entre eles a cantora Bibi Ferreira e o cartunista Ziraldo, se declararam muito surpresos e decepcionados com o resultado, porque deram nota máxima à canção de Vandré.



Hino contra a ditadura militar



Anos depois, em 1991, Walter Clark, que em 1968 era diretor geral da Rede Globo de Televisão, organizadora e transmissora exclusiva do festival, fez uma revelação explosiva em sua autobiografia, "O Campeão de Audiência", escrita em parceria com o jornalista Gabriel Priolli e relançada recentemente pela Editora Summus. Segundo Walter Clark, a Rede Globo, porta-voz e aliada incondicional da ditadura militar, teria recebido orientação do Exército para que a canção de Vandré, considerada um manifesto mobilizador do público contra a censura e contra o governo militar, fosse sumariamente desclassificada. A vencedora do festival, sob intensas vaias da plateia, foi a canção “Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim.





Flower Power – O poder da flor: acima
e abaixo, Geraldo Vandré, compositor de
Pra Não Dizer que Não Falei das Flores,
no palco do ginásio do Maracanãzinho, em
setembro de 1968, durante o Festival
Internacional da Canção. Também abaixo,
fotos dos mortos e desaparecidos dos arquivos
da Comissão Nacional da Verdade, que 
funcionou entre 2012 e 2014; e uma imagem
da célebre Passeata dos Cem Mil contra a
Censura e Contra a Ditadura Militar, que
foi organizada pelo movimento estudantil
e contou com a participação de muitos
intelectuais e artistas, em 26 de julho de
1968. A fotografia é de Evandro Teixeira
com intervenções em cores e textos feitos a
mão por Marcelo Brodsky em 2015 




Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, que também ficaria conhecida por “Caminhando”, alcançou imediato e imenso sucesso popular. Vandré compôs sua melodia em acordes simples e ritmo que lembram um hino, e sua letra com versos que citam a luta armada e criticam tanto a imobilidade das pessoas diante do regime autoritário como os movimentos que pregavam “paz e amor”.


Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões

Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão

Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer



A letra da canção cita as flores em três passagens: “ainda fazem da flor / seu mais forte refrão”, “e acreditam nas flores / vencendo o canhão” e “os amores na mente / as flores no chão / a certeza na frente / a história na mão”. A mensagem de convocação pela resistência contra o golpe militar era evidente: não adiantava falar de flores diante dos que atacavam com armas. Logo após o desfecho do Festival Internacional da Canção, “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” foi proibida oficialmente em todo o território nacional.









No final de 1968, a ditadura militar decretou o Ato Institucional N° 5 (AI-5) que fechou o Congresso Nacional, cassou direitos políticos, suspendeu as garantias constitucionais e reforçou a censura. Assim como centenas de políticos, cientistas, intelectuais e artistas, Geraldo Vandré também foi obrigado a deixar o Brasil e partir para o exílio – primeiro no Chile, de onde seguiria para a Argélia, Alemanha, Grécia, Áustria, Bulgária e França. Mas nem todos conseguiram escapar da perseguição política.

Recentemente, quase 30 anos depois do fim da ditadura militar, começaram a surgir os números de vítimas assassinadas durante o período de 1964 a 1985. Depois de dois anos e sete meses de trabalho, realizado entre 2012 e 2014, o relatório final apresentado pela Comissão Nacional da Verdade registrou, além de milhares de pessoas presas, torturadas e mutiladas, 434 mortes ou desaparecimentos políticos oficialmente vítimas dos militares que tomaram o poder no Brasil. Destas 434 mortes, 191 pessoas foram assassinadas, 210 foram registradas como desaparecidas e 33 foram listadas como desaparecidas, mas depois seus corpos foram encontrados. Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, a lista completa de vítimas da ditadura militar pode ser ainda muito maior, já que as Forças Armadas pouco colaboraram com as apurações.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. O poder da flor. In: ______. Blog Semióticas, 12 de outubro de 2016. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2016/10/flower-power-o-poder-da-flor.html (acessado em .../.../...).



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21 de abril de 2012

Tancredo virou ficção







Os homens fazem a   
sua própria História, mas   
não a fazem como querem.   

Karl Marx –– "O Dezoito Brumário      
de Louis Bonaparte" (1852)      
 
 


Atravessar o Rubicão” é uma expressão que remete a um dos mais famosos episódios de Roma na Antiguidade Clássica: o general e estadista Júlio César, no ano 49 antes de Cristo, tomou a decisão crucial de atravessar o rio Rubicão com seu exército, transgredindo a lei que determinava o licenciamento das tropas armadas toda vez que elas retornassem pelo norte de Roma. Com a máxima “alea jacta est” (a sorte está lançada), César assumiu todos os riscos, transpôs o rio com suas tropas e mudou os rumos da história.

O episódio de César, alegoria milenar sobre aqueles que tomam decisões radicais e arcam com as consequências de suas atitudes, perpassa o romance “O Dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder” (editora Batel), terceiro livro publicado pelo jornalista Ramiro Batista. A proposta do romance não poderia ser mais corajosa: uma trama ficcional que reúne jornalistas às voltas com a cobertura política que alcança da frustrada campanha popular pelas Diretas Já até a posse malograda do presidente eleito Tancredo Neves (1910-1985).

O título do livro, aliás, além de remeter ao drama e à redenção de César na história do Império Romano, também é uma citação a uma das mais famosas frases de Tancredo, que os jornalistas que cobriam as pautas de política na década de 1980 conhecem de cor e salteado: “Ninguém tira os sapatos antes de chegar ao rio, mas ninguém vai ao Rubicão só para pescar”.







É uma mistura de ficção e realidade para desvendar Tancredo e sua campanha à Presidência da República”, destaca o autor, que naquele período histórico que fornece o pano de fundo ao romance fazia seu aprendizado como jornalista profissional em Belo Horizonte. Os personagens da política da época tiveram seus nomes reais mantidos no romance, mas os nomes dos profissionais de imprensa são todos fictícios, segundo o autor, que mistura experiências reais e literárias para contar aquele episódio que foi um dos momentos mais traumáticos da história recente do Brasil.



Ficção e jornalismo caminham juntos



No romance de Ramiro Batista, ficção e jornalismo caminham juntos, abarcando o breve período que vai do fim de janeiro 1984, quando é realizado o primeiro grande comício pelas Diretas, na Praça da Sé, em São Paulo, até o dia 15 de março de 1985, data da posse de Tancredo Neves como presidente da República. Não fossem as interfaces com os dramas da política brasileira da década de 1980, o livro também poderia ser descrito como um daqueles roteiros policiais de filmes “noir” que envolvem sexo, drogas e traições intrincadas.







Há um jovem repórter em busca do furo jornalístico, o desaparecimento de uma bela fotógrafa com um dossiê suspeito e a denúncia sobre os bastidores das armações de um grande jornal. Mas além da farsa, também há a tragédia: o fracasso do sonho de democracia da campanha das Diretas e as conspirações repletas de contradição, para abafar e conduzir a mobilização popular que tinha ganhado as ruas. Sem contar a pressão dos militares e os esquemas da corrupção eleitoral.

Tudo isso e mais a presença em cena do veterano Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas (1982-1954) que atravessaria a história brasileira do século 20 e chegaria como protagonista à eleição indireta em janeiro de 1985. No Colégio Eleitoral, Tancredo enfrenta e vence Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, sagrando-se como primeiro presidente civil depois de 20 anos de ditadura militar. Ironias do destino: Tancredo ganha, mas não leva. Em seu lugar assume o vice José Sarney, partidário do PDS, antiga Arena, partido que durante duas décadas havia dado sustentação política à ditadura militar. 




Henfil (1944-1988)




Glauco (1957-2010)       


Entre a farsa e a tragédia



Nas páginas do romance, farsa e tragédia estão na zona de fronteira que divide, e às vezes confunde, a ficção e o jornalismo: os personagens do romance investigam e Tancredo chega a montar um escritório secreto no Rio de Janeiro para se encontrar às escondidas com sinistras figuras do regime militar; também esconde até o limite sua doença, com medo de que a notícia possa interferir no processo. A posse, afinal, é malograda e o que seria a grande manchete da imprensa ninguém deu, para não colocar em risco a transição – ameaçada pela truculência dos baluartes da direita e dos setores mais reacionários, mal acostumados às benesses espúrias que a ditadura militar proporcionava.

A trama ficcional também lança mão do contexto jornalístico para situar o leitor sobre o que ocorria no mundo naquele momento histórico: o governo belicista do norte-americano Ronald Reagan planejava invadir a Nicarágua, o cardeal alemão e hoje Papa Joseph Ratzinger comandava no Vaticano uma perseguição implacável contra as lideranças da Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina – e uma doença até então desconhecida, tida como uma “peste gay”, começava a dar seus primeiros sinais. Tudo isso num cenário cultural em que despontavam como novidades o teatro besteirol, as rádios FM e uma profusão de bandas de rock “made in Brazil”.






O Dossiê Rubicão”, que teve a primeira edição lançada no começo de 2010, é o terceiro livro publicado por Ramiro. A estreia na ficção foi em 1983 com “A Pintinha Negra”, coletânea de sátiras políticas sobre sua terra natal, Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, onde Ramiro trabalhou em jornais locais. Em 1986 ele lançaria seu primeiro romance, “O Camaleão no Abismo”, em que descreve a educação sentimental de seu protagonista.

Além de jornalista, Ramiro também se formou em Literatura e trabalhou em assessorias de imprensa. Da sua trajetória profissional constam ainda uma temporada como repórter no jornal “Estado de Minas” e um período como funcionário da Assembleia Legislativa de MG. Muito desta trajetória transparece em “O Dossiê Rubicão” na história de seu alter-ego Gustavo Guerra, jornalista inexperiente, mas cheio de ideais, que chega à redação de um jornal de São Paulo e se apaixona por uma bela fotógrafa.






É a fotógrafa, na trama do romance, que guarda o grande segredo: a cópia de um dossiê comprometedor, batizado Projeto FR ou Folha Rubicão. O dossiê parece ser uma seleção de documentos sobre uma possível reformulação do jornal, mas na verdade também inclui uma análise das artimanhas de certos bastidores da sucessão presidencial que poderia levar Tancredo Neves à Presidência da República.



Ameaças de retrocesso



No meio das falcatruas, o caso de amor entre Gustavo e Camila e a sucessão de pautas da cobertura jornalística, com uma série de ações militares que na verdade são ameaças de retrocesso frente à tentativa de abertura política. Há ainda a presença de alguns dos mais emblemáticos personagens do nosso passado recente: Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Lula e muitos outros. A certa altura, o jornalista e protagonista do romance descobre que Tancredo está doente. É assim em “O Dossiê Rubicão”: a cada lance, os acontecimentos reais servem de alavanca para a trama.




























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No alto, Vinicius de Moraes em comício
com Lula, em 1979, no Dia do Trabalho,
no Paço Municipal, São Bernardo (SP).
Acima, Lula e Fernando Henrique em
1984, no ABC paulista, fazem passeata e
distribuem panfletos pela redemocratização
do Brasil; e Lula no comício pelas Diretas Já 
no Vale da Anhangabaú, em São Paulo, no dia
25 de janeiro de 1984, com o jornalista
Osmar Santos e os atores Lídia Brondi
e José Wilker. Abaixo, mais três imagens
de 1984: Lula e Henfil no comitê de
organização das Diretas Já;
Ulisses Guimarães, Brizola, Lula,
Osmar Santos e Franco Montoro no
comício de 19 de abril, na Praça da Sé,
região central de São Paulo, que reuniu
o público recorde de 1,5 milhão de 
pessoas; e Lula no discurso que
encerrou o comício na Praça da Sé










O Dossiê Rubicão” consumiu três anos de trabalho, segundo o autor. “Há muitos anos que venho maquinando este livro, mas o começo da redação, de fato, foi há cerca de três anos, quando li O Código Da Vinci. Foi o best-seller do norte-americano Dan Brown que deflagrou a escrita do livro, mas acho que o modelo para a narrativa está mais para Agosto, do Rubem Fonseca”, aponta. Publicado em 1990, o romance policial de Fonseca também funde ficção e história do Brasil, culminando com o suicídio do presidente Vargas. Na versão oficial, Tancredo teria recebido das mãos do próprio Getúlio a carta-testamento que seria divulgada por ocasião da morte do presidente.

O título inicial era ‘Pequenas Vilanias’, para remeter às imposturas do dia a dia, tanto na imprensa e na política como na vida das pessoas comuns. Também cheguei a trabalhar com o título ‘O Código Tancredo’, mas gostei muito da sugestão do editor para o título definitivo. Ficou mais abrangente e mais literário”, avalia. Na época descrita no romance, o autor também trabalhava em jornal de BH, mas preferiu situar seus personagens em uma redação fictícia em São Paulo, por ele batizada de “Folha do Povo”.







A imprensa brasileira naquele período vivia muitos dilemas e transformações”, recorda o autor de “O Dossiê Rubicão”. “Era a transição da censura da ditadura militar para as liberdades democráticas e era o começo das mudanças na tecnologia para a produção industrial da notícia, das laudas de papel nas barulhentas máquinas de escrever para as primeiras telas silenciosas de computador”. 



Dan Brown e Rubem Fonseca 



O processo técnico do jornalismo, descrito em várias passagens do romance, fornece as imagens da primeira página do livro, que reproduz uma antiga lauda datilografada com a manchete que traz o “furo” de reportagem que mudaria a história do Brasil e que movimenta as intrigas criadas pelo “O Dossiê Rubicão”. Ao final do romance, mesmo para o leitor que não é jornalista paira uma certeza, ou antes uma suspeita: a farsa e a tragédia daquele momento resultaram das armações dos setores corruptos e conservadores da sociedade brasileira, mas também foram decorrência das limitações do trabalho jornalístico dos profissionais que cobriram a eleição e o fim de Tancredo.






Cenas que fizeram a História no
ano de 1984: acima, comício pelas
Diretas Já! na Praça da Sé, em São
Paulo. Abaixo, referências do
teatro, do cinema, da TV e da MPB
na luta contra a ditadura militar e pela
redemocratização: Dina Sfat, Raul Cortez
e Ruth Escobar, Belchior e Sonia Braga;
e Chico Buarque no palanque durante
o grande comício pelas Diretas Já! na
Praça da Sé, em São Paulo; e um registro
histórico do comício realizado na
mesma época, em 1984, no Rio de Janeiro,
em frente à Igreja da Candelária











Antes do drama de Tancredo, a campanha pelo voto direto para presidente mobilizou multidões em grandes comícios nas capitais que juntavam políticos a artistas e intelectuais. A campanha começou ignorada sistematicamente pelos maiores veículos de imprensa, mas o gigantismo das manifestações nas ruas em várias capitais rompeu o silêncio. Na Praça da Sé, em São Paulo, reuniram-se 500 mil pessoas. Na Candelária, no Rio de Janeiro, compareceram 1 milhão, e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, cerca de 1,5 milhão de pessoas.

Este distanciamento de quase três décadas nos ajuda a compreender melhor os boicotes, as traições e as ameaças de golpe que o Tancredo enfrentou. Tanto que, no livro, ele aparece mais humanizado, cercado por toda aquela teia complexa de acontecimentos que fizeram história”, explica o autor, reconhecendo que transcreveu frases históricas dos políticos envolvidos no processo e interligados à extensa galeria de eventos que incluem o primeiro Rock’n Rio e o que mais fosse notícia no Brasil e no mundo.






O ritmo de trabalho para o livro foi intenso, confessa Ramiro. “Li muito, pesquisei jornais e revistas, e tentei ser metódico na redação de pelo menos três páginas por dia”, recorda. Do primeiro comício pelas Diretas Já, até as vésperas da posse do presidente Tancredo, em abril de 1985, o romance segue os passos imprevistos e imprevisíveis da história. 

Conduzidos pela farsa e pela tragédia, a sequência dos capítulos de "O Dossiê Rubicão" persegue a história e seus registros oficiais. Enquanto Tancredo investe nos acordos de toda ordem para tomar a frente na cena política, as tramas da ficção descrevem o triângulo amoroso entre o jovem repórter, uma editora do “Folha do Povo” e Leão Machado, personagem emblemático que, não por acaso, redige a carta-testamento que encerra o romance. Trata-se, afinal, de um daqueles casos declarados da ficção em que qualquer semelhança com os fatos reais não terá sido mera coincidência.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Tancredo virou ficção. In: ______. Blog Semióticas, 21 de abril de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/tancredo-virou-ficcao.html (acessado em .../.../...).


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