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Minha
alma canta
Vejo o Rio de Janeiro Estou morrendo de saudade Rio teu mar, praias sem fim Rio você foi feito pra mim
Tom
Jobim,“Samba do Avião”
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Do
Leme ao Pontal, não há nada igual – anuncia a canção de Tim
Maia. Purgatório da beleza e do caos – completa o samba-funk “Rio,
40°”, de Fernanda Abreu, Laufer e Fausto Fawcett. A lista de
canções que rendem tributo à Cidade Maravilhosa é quase
interminável. Batizada de São Sebastião do Rio de Janeiro, quando
foi fundada pelo português Estácio de Sá, em 1° de março de
1565, a cidade aparece como tema de canções que incluem de tudo, em
todos os gêneros. Do mais antigo, até onde os registros da
historiografia oficial alcançam, ao mais recente, são muitas as
canções em homenagem ao Rio.
Há
os clássicos do choro e as marchinhas de Chiquinha Gonzaga, os
sambas de Noel Rosa, Cartola, Billy Blanco e dona Ivone Lara, a Bossa
Nova de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a Tropicália de Gilberto
Gil e Caetano Veloso, os hinos de amor ao Estácio de Luiz Melodia, o
rock Brasil de Raul Seixas, Rita Lee, Blitz, Cazuza e Barão
Vermelho, o rap e o funk de Claudinho e Bochecha a MV Bill e muito
mais. Para contar esta história, um time de bambas foi convidado a
percorrer e analisar a trajetória da música popular no Brasil.
A
proposta para a viagem pelas canções foi um projeto organizado pelo
jornalista Marcelo Moutinho. A investigação, que teve início na
segunda metade do século 19 e chegou aos nossos dias, resultou num
inventário minucioso sobre a presença da Cidade Maravilhosa no
repertório dos nossos principais compositores. O projeto de Moutinho
deu origem ao livro "Canções do Rio – A Cidade em Letra e
Música", que reúne os ensaios assinados por Ruy Castro, Sérgio
Cabral, João Máximo, Hugo Sukman, Nei Lopes e Sílvio Essinger –
todos críticos de música com atuação em jornais e revistas e com
livros publicados sobre a música popular.
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A
ideia foi, no mínimo, original: destacar que o Rio de Janeiro
sempre esteve presente como uma inequívoca fonte de inspiração
musical. "O objetivo do livro foi justamente demonstrar como
nossos compositores cantaram o Rio em diferente épocas e gêneros.
Do samba ao rock, da Bossa Nova ao funk, da marchinha ao rap",
explica Marcelo Moutinho, que na apresentação ao projeto também
confessa sua condição de apaixonado pelas diversas sonoridades da
alma carioca.
"Faltava
contar a história do Rio na música, do Rio idílico, cuja
exuberante paisagem é capaz de arrebentar as retinas. Do Rio de
valas negras e favelas no coração. Do Rio que foi, sempre, a
cidade-musa”, destaca. Moutinho também recorda que a antiga
capital do Brasil também tem seu destaque no cinema, no teatro e na
literatura. Entre as citações, ele lembra, entre outros, o cronista
Marques Rebello – para quem o Rio de Janeiro podia ser definido
como uma cidade com muitas cidades dentro, porque cada bairro carioca
identifica uma personalidade muito própria.
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"Acredito
que esta observação do Marques Rebello fica evidente nas canções
que retratam o Rio. Muitos compositores perceberam estas muitas
cidades dentro da cidade e isso foi traduzido na música”. Um marco
importante entre todas as coisas foi registrado em 1935, destaca
Moutinho, quando o compositor carioca André Filho, ao
tomar de empréstimo uma expressão criada por volta de 1900 pelo
escritor maranhense Coelho Neto, saudou pela primeira vez o Rio com o
título de “Cidade Maravilhosa”.
Do samba ao rock
Parceiro
de Noel Rosa na antológica “Filosofia” e um dos preferidos da
estrela Carmen Miranda (que gravaria na década de 1930 suas canções
“Alô, Alô” e “Mulato de Qualidade”, entre outras), André
Filho teve a honra de transformar a citação “Cidade Maravilhosa”
na marchinha que chegaria à condição de uma das mais tocada em
todos os tempos no carnaval do Brasil. A partir de 1935 estava
instituído, pela canção, o título pelo qual o Rio de Janeiro
passaria a ser identificado e consagrado.
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Em
entrevista por telefone, Marcelo Moutinho explica que o livro,
editado pela Casa da Palavra, apenas reuniu as histórias e canções
que sempre estiveram no imaginário popular do carioca e de todos os
brasileiros. Ele lembra que o Rio, com suas ruas, bairros e
personagens, já aparecia no cancioneiro popular desde o século 19,
em versos e canções que descortinavam a dor e a delícia de se
viver num dos mais belos cenários do Brasil e do mundo.
"O objetivo foi investigar a presença marcante do Rio na música brasileira”, completa Moutinho, que nasceu em 1972 em Madureira, subúrbio do Rio, e tem outros livros publicados, como as prosas de ficção “A Palavra Ausente” (Rocco, 2011) e “Somos Todos Iguais nesta Noite” (Rocco, 2006). Colaborador das revistas “Bravo!” e “Cinemais” e do jornal “O Globo”, também organizou uma série de antologias que inclui "Prosas Cariocas – Uma Nova Cartografia do Rio" (Casa da Palavra, 2004), "Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa" (Casa da Palavra, 2009) e “Manual de Sobrevivência nos Butiquins mais Vagabundos” (Senac Rio, 2005).
"O objetivo foi investigar a presença marcante do Rio na música brasileira”, completa Moutinho, que nasceu em 1972 em Madureira, subúrbio do Rio, e tem outros livros publicados, como as prosas de ficção “A Palavra Ausente” (Rocco, 2011) e “Somos Todos Iguais nesta Noite” (Rocco, 2006). Colaborador das revistas “Bravo!” e “Cinemais” e do jornal “O Globo”, também organizou uma série de antologias que inclui "Prosas Cariocas – Uma Nova Cartografia do Rio" (Casa da Palavra, 2004), "Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa" (Casa da Palavra, 2009) e “Manual de Sobrevivência nos Butiquins mais Vagabundos” (Senac Rio, 2005).
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Em
“Canções do Rio”, o time de especialistas não apenas registra
as canções de cada época que tiveram a Cidade Maravilhosa como
personagem ou cenário, mas também analisa a formação da
identidade carioca. No capítulo "A canção moderna", Hugo
Sukman descreve: "O que a cidade do Rio de Janeiro tem de belo
tem de complexidade e de declarações de amor incondicional. Lá do
fundo do Rio, escapando das balas perdidas e franzindo o cenho para
poder suportar tanta luz e tanta beleza, a música brasileira manda
seu recado mais atual".
Autor do livro "Heranças do Samba" (2004) e das biografias de Moacir Santos (2006) e Djavan (2008), Sukman destaca como a música muitas vezes ressoou o processo permanente de brutalização da cidade. A palavra "arrastão" e seus dois sentidos direcionam a análise de Sukman – da rede que há séculos colhe no mar os peixes, tema da canção de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, ao recente e violento significado registrado pela população em pânico diante da ação das gangues nas avenidas e areias das praias da Zona Sul.
Autor do livro "Heranças do Samba" (2004) e das biografias de Moacir Santos (2006) e Djavan (2008), Sukman destaca como a música muitas vezes ressoou o processo permanente de brutalização da cidade. A palavra "arrastão" e seus dois sentidos direcionam a análise de Sukman – da rede que há séculos colhe no mar os peixes, tema da canção de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, ao recente e violento significado registrado pela população em pânico diante da ação das gangues nas avenidas e areias das praias da Zona Sul.
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Princesinha do mar
Outro
panorama contemporâneo é traçado por Silvio Essinger, autor dos
livros "Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira"
(1999), "Batidão: Uma História do Funk" (2005) e
"Almanaque Anos 90" (2008), além de ter organizado a
edição de "Baú do Raul Revirado" (2005). Essinger
localiza o Rio como porto de desembarque e primeiro ponto de ocupação
do rock'n'roll no Brasil – desde a primeira gravação realizada em
Copacabana, em 1957, por um improvável Cauby Peixoto.
O
rock pioneiro de Cauby, lembra Essinger, é sucedido pelo Rio mais
descontraído nas leituras de Raul Seixas ("Ouro de Tolo"),
Tim Maia ("Do Leme ao Pontal"), Caetano Veloso ("Menino
do Rio") e pelos primeiros sucessos da geração 1980, entre
eles Blitz ("Volta ao Mundo") e Barão Vermelho ("Billy
Negão"). Essinger também registra a novidade do funk, que deu
voz a compositores das comunidades mais pobres da cidade, entre eles
os pioneiros Claudinho & Buchecha.
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Em
"Dos primórdios à era de ouro", que abre o volume, João
Máximo, autor das biografias de Noel Rosa (em parceria com Carlos
Didier, publicada em 1990 pela editora LGE) e de Paulinho da Viola
(editora Relume Dumará, 2003), explica que a história do Rio de
Janeiro como cenário e personagem das canções vem desde o século
19. A diferença é que, naquela época, a música popular tratava
dos morros e dos subúrbios em visões idealizadas, feitas a
distância.
"Pois é a favela carioca, pobre, malvestida, não raro faminta, que seria citada em canções de homens que provavelmente nunca puseram os pés lá, caso do compositor semierudito Hekel Tavares e do teatrólogo Joraci Camargo”. Dos sambistas do século 20, Noel, Orestes Barbosa, Herivelto Martins e Wilson Batista são alguns dos mestres que têm suas canções analisadas no capítulo esquadrinhado por João Máximo.
"Pois é a favela carioca, pobre, malvestida, não raro faminta, que seria citada em canções de homens que provavelmente nunca puseram os pés lá, caso do compositor semierudito Hekel Tavares e do teatrólogo Joraci Camargo”. Dos sambistas do século 20, Noel, Orestes Barbosa, Herivelto Martins e Wilson Batista são alguns dos mestres que têm suas canções analisadas no capítulo esquadrinhado por João Máximo.
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E há também o Carnaval, um capítulo à parte na história. O jornalista Sérgio Cabral, biógrafo de Pixinguinha, Ataulfo Alves,
Tom Jobim, Elisete Cardoso e Nara Leão, entre outros, no capítulo
“As marchinhas” investiga o mais carioquíssimo dos gêneros da
música popular e destaca o bairro "campeão das citações":
Copacabana, a "princesinha do mar". O gênero criado por
Chiquinha Gonzaga há mais de um século, aponta Cabral, continua à
disposição para deliciar os ouvintes e para atender aos
interessados em conhecer melhor o Rio e os cariocas.
Em outro ensaio de “As Canções do Rio”, batizado como “O samba”, o pesquisador e compositor Nei Lopes faz um passeio pela história dos compositores do morro e do asfalto, enumerando os preconceitos e os momentos que fizeram a glória de sambistas de todas as faixas de status e poder aquisitivo. Pesquisador da cultura do negro e do samba, autor de “Zé Kéti: O Samba sem Senhor” (Relume Dumará, 2000) e “Partido-Alto, Samba de Bamba” (editora Pallas, 2005), sambista e parceiro do compositor Wilson Moreira, Nei Lopes destaca que a relação do samba com o Rio é, antes de tudo, "uterina" – o útero, na metáfora, sendo representado pela baía de Guanabara.
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A matriz da Bossa Nova
E
há também a Bossa Nova, apresentada no capítulo assinado por Ruy
Castro. "A Bossa Nova nasceu no Rio, arquitetada por cariocas de
todas as partes do país", recorda o autor, que já transformou
em campeões de vendas do mercado editorial as biografias de Carmen Miranda, Nelson Rodrigues e
Mané Garrincha, entre outros. Para Ruy Castro, são as praias do Rio
que caracterizam a matriz solar da Bossa Nova, em contraste com a
música dominante na conjuntura anterior, marcada pelo samba-canção
e por muita dor de cotovelo.
Com ironia e sua habitual habilidade narrativa, Ruy Castro refaz o cenário das boates que consagravam a tal dor de cotovelo: "Que fossa! Com todas as portas e janelas fechadas, não se sabia se ainda era de noite ou se já era de manhã lá fora. E também ninguém queria saber. Até que, certo dia, por volta de 1958, alguém se arrastou até a porta e a abriu. O sol entrou pela boate e quase transformou aqueles vampiros em pó".
Certas
canções: no alto, um encontro de gerações da
música
carioca, com Tom Jobim, Pixinguinha, João da
Bahiana
e Chico Buarque em 1968; ao centro e acima,
João
Gilberto entre amigos no Rio de Janeiro, no início
dos
anos 1960, na boate Au Bon Gourmet, com Vinicius
de
Moraes e Tom Jobim; e com Maria
Bethânia, Caetano
Veloso e Gilberto
Gil, em 1981, fotografados por Rogério
Sganzerla.
Abaixo, um encontro de Pixinguinha, Dorival
Caymmi,
Vinicius e Baden Powell na casa de Pixinguinha,
em
1968, fotografados por Walter Firmo; e a praia de
Copacabana em
cartão postal de 2010
O
mais curioso, destaca Ruy Castro, é que a Bossa Nova não nasceu na
praia, mas foi na praia que suas canções germinaram. “Os grandes
clássicos da Bossa Nova falam do mar o tempo todo, suas letras são
suadas de verão – e seu supremo cantor é pálido como gesso,
nunca pisou descalço numa onda, está há 50 anos sem tomar um raio
de sol e há dúvidas até sobre se sabe nadar. João Gilberto,
claro. Mas, pensando bem, que diferença faz?”
Na conclusão inspirada, Ruy Castro celebra a importância para as canções do Rio e do Brasil do cantor tido como excêntrico, com sua voz miúda e sua nunca superada batida original de violão. Nas palavras de Ruy Castro, ao inventar a Bossa Nova, com suas primeiras gravações, em 1959, João Gilberto provocou a grande revolução que abriu os portos da música brasileira para todas as nações.
Na conclusão inspirada, Ruy Castro celebra a importância para as canções do Rio e do Brasil do cantor tido como excêntrico, com sua voz miúda e sua nunca superada batida original de violão. Nas palavras de Ruy Castro, ao inventar a Bossa Nova, com suas primeiras gravações, em 1959, João Gilberto provocou a grande revolução que abriu os portos da música brasileira para todas as nações.
por José Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. Canções
do Rio.
In: ______. Blog
Semióticas,
18
de abril
de 2012. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/certas-cancoes.html
(acessado
em .../.../…).
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