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18 de abril de 2012

Certas canções







Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudade
Rio teu mar, praias sem fim
Rio você foi feito pra mim


Tom Jobim,“Samba do Avião”   






Do Leme ao Pontal, não há nada igual – anuncia a canção de Tim Maia. Purgatório da beleza e do caos – completa o samba-funk “Rio, 40°”, de Fernanda Abreu, Laufer e Fausto Fawcett. A lista de canções que rendem tributo à Cidade Maravilhosa é quase interminável. Batizada de São Sebastião do Rio de Janeiro, quando foi fundada pelo português Estácio de Sá, em 1° de março de 1565, a cidade aparece como tema de canções que incluem de tudo, em todos os gêneros. Do mais antigo, até onde os registros da historiografia oficial alcançam, ao mais recente, são muitas as canções em homenagem ao Rio.

Há os clássicos do choro e as marchinhas de Chiquinha Gonzaga, os sambas de Noel Rosa, Cartola, Billy Blanco e dona Ivone Lara, a Bossa Nova de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a Tropicália de Gilberto Gil e Caetano Veloso, os hinos de amor ao Estácio de Luiz Melodia, o rock Brasil de Raul Seixas, Rita Lee, Blitz, Cazuza e Barão Vermelho, o rap e o funk de Claudinho e Bochecha a MV Bill e muito mais. Para contar esta história, um time de bambas foi convidado a percorrer e analisar a trajetória da música popular no Brasil.

A proposta para a viagem pelas canções foi um projeto organizado pelo jornalista Marcelo Moutinho. A investigação, que teve início na segunda metade do século 19 e chegou aos nossos dias, resultou num inventário minucioso sobre a presença da Cidade Maravilhosa no repertório dos nossos principais compositores. O projeto de Moutinho deu origem ao livro "Canções do Rio – A Cidade em Letra e Música", que reúne os ensaios assinados por Ruy Castro, Sérgio Cabral, João Máximo, Hugo Sukman, Nei Lopes e Sílvio Essinger – todos críticos de música com atuação em jornais e revistas e com livros publicados sobre a música popular.







Certas canções: no alto, detalhe da ilustração
na capa do livro Canções do Rio; nas imagens
acima, o Cristo Redentor em dois postais com
registros de 40 anos de diferença: fotografado
do avião, em 2010; e visto a partir de um dos
Belvederes da Floresta da Tijuca em fotografia
de 1970. Abaixo, duas vistas panorâmicas do
Pão de Açúcar: em fotografia de 1885 de
Marc Ferrez (1843-1923) e em fotografia
de um cartão postal da década de 1970




A ideia foi, no mínimo, original: destacar que o Rio de Janeiro  sempre esteve presente como uma inequívoca fonte de inspiração musical. "O objetivo do livro foi justamente demonstrar como nossos compositores cantaram o Rio em diferente épocas e gêneros. Do samba ao rock, da Bossa Nova ao funk, da marchinha ao rap", explica Marcelo Moutinho, que na apresentação ao projeto também confessa sua condição de apaixonado pelas diversas sonoridades da alma carioca.

"Faltava contar a história do Rio na música, do Rio idílico, cuja exuberante paisagem é capaz de arrebentar as retinas. Do Rio de valas negras e favelas no coração. Do Rio que foi, sempre, a cidade-musa”, destaca. Moutinho também recorda que  a antiga capital do Brasil também tem seu destaque no cinema, no teatro e na literatura. Entre as citações, ele lembra, entre outros, o cronista Marques Rebello – para quem o Rio de Janeiro podia ser definido como uma cidade com muitas cidades dentro, porque cada bairro carioca identifica uma personalidade muito própria. 










"Acredito que esta observação do Marques Rebello fica evidente nas canções que retratam o Rio. Muitos compositores perceberam estas muitas cidades dentro da cidade e isso foi traduzido na música”. Um marco importante entre todas as coisas foi registrado em 1935, destaca Moutinho, quando o compositor carioca André Filho, ao tomar de empréstimo uma expressão criada por volta de 1900 pelo escritor maranhense Coelho Neto, saudou pela primeira vez o Rio com o título de “Cidade Maravilhosa”.  


 
Do samba ao rock



Parceiro de Noel Rosa na antológica “Filosofia” e um dos preferidos da estrela Carmen Miranda (que gravaria na década de 1930 suas canções “Alô, Alô” e “Mulato de Qualidade”, entre outras), André Filho teve a honra de transformar a citação “Cidade Maravilhosa” na marchinha que chegaria à condição de uma das mais tocada em todos os tempos no carnaval do Brasil. A partir de 1935 estava instituído, pela canção, o título pelo qual o Rio de Janeiro passaria a ser identificado e consagrado.
 






Cenas do Rio de Janeiro: duas imagens do
fotógrafo Augusto Malta (1864-1957) que
registram o Rio Antigo: no alto, o Largo da
Carioca; acima, uma vista da Enseada de
Botafogo em 1900. Abaixo, a praia do Leme,
na Zona Sul da cidade, em cartão postal de 1950



 
Em entrevista por telefone, Marcelo Moutinho explica que o livro, editado pela Casa da Palavra, apenas reuniu as histórias e canções que sempre estiveram no imaginário popular do carioca e de todos os brasileiros. Ele lembra que o Rio, com suas ruas, bairros e personagens, já aparecia no cancioneiro popular desde o século 19, em versos e canções que descortinavam a dor e a delícia de se viver num dos mais belos cenários do Brasil e do mundo.

"O objetivo foi investigar a presença marcante do Rio na música brasileira”, completa Moutinho, que nasceu em 1972 em Madureira, subúrbio do Rio, e tem outros livros publicados, como as prosas de ficção “A Palavra Ausente” (Rocco, 2011) e “Somos Todos Iguais nesta Noite” (Rocco, 2006). Colaborador das revistas “Bravo!” e “Cinemais” e do jornal “O Globo”, também organizou uma série de antologias que inclui "Prosas Cariocas – Uma Nova Cartografia do Rio" (Casa da Palavra, 2004), "Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa" (Casa da Palavra, 2009) e “Manual de Sobrevivência nos Butiquins mais Vagabundos” (Senac Rio, 2005).
 





Em “Canções do Rio”, o time de especialistas não apenas registra as canções de cada época que tiveram a Cidade Maravilhosa como personagem ou cenário, mas também analisa a formação da identidade carioca. No capítulo "A canção moderna", Hugo Sukman descreve: "O que a cidade do Rio de Janeiro tem de belo tem de complexidade e de declarações de amor incondicional. Lá do fundo do Rio, escapando das balas perdidas e franzindo o cenho para poder suportar tanta luz e tanta beleza, a música brasileira manda seu recado mais atual".

Autor do livro "Heranças do Samba" (2004) e das biografias de Moacir Santos (2006) e Djavan (2008), Sukman destaca como a música muitas vezes ressoou o processo permanente de brutalização da cidade. A palavra "arrastão" e seus dois sentidos direcionam a análise de Sukman – da rede que há séculos colhe no mar os peixes, tema da canção de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, ao recente e violento significado registrado pela população em pânico diante da ação das gangues nas avenidas e areias das praias da Zona Sul.










Cenas da Cidade Maravilhosa: no alto,
Sebastião Rodrigues Maia, que ficaria
conhecido como Tim Maia depois do
primeiro disco, gravado em 1970, em foto
aos 20 anos, em 1962, ao lado de Erasmo
Carlos, no bairro da Tijuca, zona norte do
Rio de Janeiro (Tim, Erasmo e Jorge Ben Jor
eram amigos e vizinhos desde a infância).
Acima, Tim passeando do Leme ao Pontal,
durante entrevista para o curta-metragem
realizado por Flávio Tambellini em 1987, e
um flagrante do funk nos morros cariocas em
em 2010. Abaixo, três mestres da Velha Guarda
do samba, Cartola, Ismael Silva e Mano
Décio da Viola celebrando a amizade em uma
mesa de bar no morro da Mangueira, em 1976;
e Paulo César Batista de Faria, o Paulinho
da Viola, cantor e compositor de clássicos
do samba como Foi um Rio que passou em
minha vida, na capa do LP de 1971








  






Princesinha do mar



Outro panorama contemporâneo é traçado por Silvio Essinger, autor dos livros "Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira" (1999), "Batidão: Uma História do Funk" (2005) e "Almanaque Anos 90" (2008), além de ter organizado a edição de "Baú do Raul Revirado" (2005). Essinger localiza o Rio como porto de desembarque e primeiro ponto de ocupação do rock'n'roll no Brasil – desde a primeira gravação realizada em Copacabana, em 1957, por um improvável Cauby Peixoto.

O rock pioneiro de Cauby, lembra Essinger, é sucedido pelo Rio mais descontraído nas leituras de Raul Seixas ("Ouro de Tolo"), Tim Maia ("Do Leme ao Pontal"), Caetano Veloso ("Menino do Rio") e pelos primeiros sucessos da geração 1980, entre eles Blitz ("Volta ao Mundo") e Barão Vermelho ("Billy Negão"). Essinger também registra a novidade do funk, que deu voz a compositores das comunidades mais pobres da cidade, entre eles os pioneiros Claudinho & Buchecha.








Certas Canções: no alto, a praia de Copacabana
em 1890, em fotografia de Marc Ferrez. Acima,
os veteranos da Velha Guarda do samba
João da Bahiana, Clementina de Jesus,
Pixinguinha e Donga participando da Passeata
dos Cem Mil contra a censura e contra a ditadura
militar, em fotografia publicada em 1968 na
revista Realidade. Abaixo, sambistas reunidos
na casa de Aracy de Almeida (com a mão no
rosto): a partir da esquerda, Jards Macalé,
Wally Salomão, Paulinho da Viola, Carlos
Cachaça (sentado), Albino Pinheiro, Cartola
e Clementina de Jesus. Também abaixo,
1) fotografia de Eurico Dantas: a
ditadura militar proíbe festa no Carnaval
da Mangueira em 1976 e Cartola, indignado,
fica no chão; 2) Cartola na comissão de
frente do desfile da Mangueira em 1978





.










Em "Dos primórdios à era de ouro", que abre o volume, João Máximo, autor das biografias de Noel Rosa (em parceria com Carlos Didier, publicada em 1990 pela editora LGE) e de Paulinho da Viola (editora Relume Dumará, 2003), explica que a história do Rio de Janeiro como cenário e personagem das canções vem desde o século 19. A diferença é que, naquela época, a música popular tratava dos morros e dos subúrbios em visões idealizadas, feitas a distância.

"Pois é a favela carioca, pobre, malvestida, não raro faminta, que seria citada em canções de homens que provavelmente nunca puseram os pés lá, caso do compositor semierudito Hekel Tavares e do teatrólogo Joraci Camargo”. Dos sambistas do século 20, Noel, Orestes Barbosa, Herivelto Martins e Wilson Batista são alguns dos mestres que têm suas canções analisadas no capítulo esquadrinhado por João Máximo.




 





Princesinha do mar: acima, a partir do alto,
a praia de Copacabana em fotografia de
1890 de Marc Ferrez e em cartões postais
das décadas de 1940 e 1960. Abaixo,
Beth Carvalho, chamada de militante de
esquerda, de  “madrinha do samba” e de
"madrinha do pagode", em dois momentos
históricos: em 1978, com Cartola, de
quem lançou sambas que se tornariam
grandes clássicos da música brasileira,
como As rosas não falam, e com o
futuro presidente Luiz Inácio Lula
da Silvaem 1989, nos bastidores do
show Saudades da Guanabara










E há também o Carnaval, um capítulo à parte na história. O jornalista Sérgio Cabral, biógrafo de Pixinguinha, Ataulfo Alves, Tom Jobim, Elisete Cardoso e Nara Leão, entre outros, no capítulo “As marchinhas” investiga o mais carioquíssimo dos gêneros da música popular e destaca o bairro "campeão das citações": Copacabana, a "princesinha do mar". O gênero criado por Chiquinha Gonzaga há mais de um século, aponta Cabral, continua à disposição para deliciar os ouvintes e para atender aos interessados em conhecer melhor o Rio e os cariocas.

Em outro ensaio de “As Canções do Rio”, batizado como “O samba”, o pesquisador e compositor Nei Lopes faz um passeio pela história dos compositores do morro e do asfalto, enumerando os preconceitos e os momentos que fizeram a glória de sambistas de todas as faixas de status e poder aquisitivo. Pesquisador da cultura do negro e do samba, autor de “Zé Kéti: O Samba sem Senhor” (Relume Dumará, 2000) e “Partido-Alto, Samba de Bamba” (editora Pallas, 2005), sambista e parceiro do compositor Wilson Moreira, Nei Lopes destaca que a relação do samba com o Rio é, antes de tudo, "uterina" – o útero, na metáfora, sendo representado pela baía de Guanabara.








Certas canções: dois flagrantes de João Gilberto em 1962, na
praia, em cenas do filme franco-italiano Copacabana Palace,
com Luiz Bonfá (à esquerda), Tom Jobim e três estrelas do
cinema europeu: Gloria Paul, Sylvia Koscina e Mylène
Demongeot. Abaixo, o calçadão da praia de Copacabana em
1970, na época em que o design e toda a urbanização foram
reformulados com projeto de Burle Marx; e em 2010











A matriz da Bossa Nova

 
E há também a Bossa Nova, apresentada no capítulo assinado por Ruy Castro. "A Bossa Nova nasceu no Rio, arquitetada por cariocas de todas as partes do país", recorda o autor, que já transformou em campeões de vendas do mercado editorial as biografias de Carmen Miranda, Nelson Rodrigues e Mané Garrincha, entre outros. Para Ruy Castro, são as praias do Rio que caracterizam a matriz solar da Bossa Nova, em contraste com a música dominante na conjuntura anterior, marcada pelo samba-canção e por muita dor de cotovelo.

Com ironia e sua habitual habilidade narrativa, Ruy Castro refaz o cenário das boates que consagravam a tal dor de cotovelo: "Que fossa! Com todas as portas e janelas fechadas, não se sabia se ainda era de noite ou se já era de manhã lá fora. E também ninguém queria saber. Até que, certo dia, por volta de 1958, alguém se arrastou até a porta e a abriu. O sol entrou pela boate e quase transformou aqueles vampiros em pó". 
 









Certas canções: no alto, um encontro de gerações da
música carioca, com Tom Jobim, Pixinguinha, João da
Bahiana e Chico Buarque em 1968; ao centro e acima,
João Gilberto entre amigos no Rio de Janeiro, no início
dos anos 1960, na boate Au Bon Gourmet, com Vinicius
de Moraes Tom Jobim; e com Maria Bethânia, Caetano
Veloso Gilberto Gil, em 1981, fotografados por Rogério
Sganzerla. Abaixo, um encontro de Pixinguinha, Dorival
Caymmi, Vinicius e Baden Powell na casa de Pixinguinha,
em 1968, fotografados por Walter Firmo; e a praia de
Copacabana em cartão postal de 2010






O mais curioso, destaca Ruy Castro, é que a Bossa Nova não nasceu na praia, mas foi na praia que suas canções germinaram. “Os grandes clássicos da Bossa Nova falam do mar o tempo todo, suas letras são suadas de verão – e seu supremo cantor é pálido como gesso, nunca pisou descalço numa onda, está há 50 anos sem tomar um raio de sol e há dúvidas até sobre se sabe nadar. João Gilberto, claro. Mas, pensando bem, que diferença faz?”

Na conclusão inspirada, Ruy Castro celebra a importância para as canções do Rio e do Brasil do cantor tido como excêntrico, com sua voz miúda e sua nunca superada batida original de violão. Nas palavras de Ruy Castro, ao inventar a Bossa Nova, com suas primeiras gravações, em 1959, João Gilberto provocou a grande revolução que abriu os portos da música brasileira para todas as nações.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Canções do Rio. In: ______. Blog Semióticas, 18 de abril de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/certas-cancoes.html (acessado em .../.../…). 



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20 de janeiro de 2012

O mundo segundo Tom Jobim








A linguagem musical me basta.


–– Tom Jobim.




Tem algo de estranho e de extremamente familiar em “A Música segundo Tom Jobim”. Não é um documentário no sentido tradicional, com entrevistas, narração em off, texto na tela. Na verdade, não há nenhum texto, nenhuma entrevista, nenhuma narração. Parece mais um show, ou antes um concerto: somente a beleza das canções de Tom com ele mesmo e com dezenas de grandes intérpretes do Brasil e de outros países. Um detalhe que faz toda a diferença para embalar as melhores lembranças dos admiradores de Tom e da boa música: os créditos identificando canções, intérpretes, datas e outras referências só aparecem no final do filme...

Encontrei o diretor Nelson Pereira dos Santos após a sessão especial para convidados em Belo Horizonte, no Diamond Mall. Foi uma breve entrevista, que por sorte continuou na manhã seguinte, pelo telefone, com o cineasta a caminho do aeroporto. Começo a conversa comentando sobre a estranheza do formato do documentário e pergunto qual foi o modelo, se há outro filme que segue esta mesma estrutura narrativa.

Não verdade não há outro filme assim. Acho que inventamos um novo modelo que não havia sido realizado antes”, ele diz, bem-humorado e feliz com a recepção emocionada da plateia de convidados que incluía imprensa, músicos e a família de Tom – sua irmã Helena, que mora há alguns anos em Belo Horizonte, e os netos, entre eles Dora Jobim, que dividiu com Nelson a direção do filme. “Mas não foi uma invenção premeditada”, alerta o cineasta, realizador de “Vidas Secas” (1963) e  “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971) e outros clássicos de primeira linha do cinema no Brasil. 






Durante nossas tentativas de encontrar uma linguagem original para apresentar este filme, nos trabalhos de produção e no processo de edição, este novo formato foi se impondo", explica o diretor. "Chegamos a produzir uma narração em off, depois descartamos e começamos a gravar depoimentos do Chico Buarque, que seriam uma forma de apresentar cada uma das cerca de 40 canções selecionadas. Mas também descartamos quando percebemos que cada canção falava por si só e tudo ficou mais espontâneo".

Nelson Pereira dos Santos recorda que foram muitas tentativas antes de encontrar o caminho para que o documentário apresentasse sua linguagem original. "Tentamos várias opções para a narração. Todas foram descartadas porque soavam repetitivas. Até que veio o formato definitivo, sem nenhuma narração, com maior espaço para a música e as imagens em fusões e sobreposições”, explica o diretor, que também anuncia para o início de 2013 um outro documentário sobre Tom Jobim, agora no formato tradicional.

Nelson destaca que o segundo filme, na verdade, ficou pronto antes deste “A Música Segundo Tom Jobim”. “O título do outro filme é 'A Luz do Tom' e ele foi feito primeiro. É um projeto meu e do Marcos Altberg e tem como foco três mulheres da maior importância na vida e na música do Tom. O outro documentário reúne os depoimentos das três, cada uma em seu espaço. São elas a Helena Jobim, irmã do Tom e autora de uma biografia sobre ele, mais a Thereza de Otero Hermanny, primeira namorada do Tom, primeira esposa e mãe do Paulo Jobim. E também a última esposa, a Ana Lontra Jobim, que acompanhou o Tom nos discos e nas turnês com a Banda Nova. Este segundo projeto vai estrear no início do próximo ano, assim que conseguirmos lugar na agenda dos blockbusters que dominam a programação dos cinemas brasileiros”.







Pergunto por qual motivo  “A Música Segundo Tom Jobim” foi lançado antes, se foi feito depois de “A Luz do Tom”. Nelson explica que preferiu lançar o filme musical primeiro. “O musical tem mais apelo de público, porque todo mundo no mundo inteiro conhece as músicas do Tom e não tem como não se encantar. O primeiro documentário vai ser também uma espécie de campanha de divulgação para o segundo filme”, ele diz.

Pergunto também sobre a ausência mais sensível neste “A Música Segundo Tom Jobim”: João Gilberto, o principal nome da Bossa Nova e para muitos o intérprete mais importantede todos para as canções de Tom. “Isso foi um problema. Mas, na verdade, João Gilberto aparece logo nas primeiras cenas do filme, quando apresentamos os primeiros passos da Bossa Nova. João aparece em segundo plano, tocando violão enquanto Elizeth Cardoso canta. Também aparece na imagem da capa do disco 'Chega de Saudade' e em uma fotografia de um texto do próprio Tom sobre ele".

Segundo Nelson, o impedimento de uso das imagens de João Gilberto foi devido a uma questão de direitos autorais. "Todo o material disponível com imagens do João Gilberto interpretando canções do Tom Jobim está comprometido com outro filme, também um documentário, que o próprio João está produzindo e que também deve ser lançado em breve. Queria muito ter incluído as imagens do João Gilberto cantando algum dos clássicos que fizeram a história da Bossa Nova, mas infelizmente não foi possível”, confessa o cineasta.








No alto, João Gilberto e Tom Jobim, amigos
desde o final da década de 1950. Acima, um
sexteto invejável nos primórdios da Bossa Nova,
fotografado em Nova York, em 1962, na época do
cérebro concerto no Carnegie Hall: Stan Getz,
Milton Banana, Tom, Creed Taylor e o casal
João Gilberto e Astrud Gilberto. Abaixo, Tom
com Sérgio Mendes em passeio pelas ruas de
Nova York, também em 1962; e Tom com
Dorival Caymmi no Rio de Janeiro, em 1964







 


Depois da justificativa do diretor sobre João Gilberto, pergunto sobre a outra ausência também marcante do documentário: a falta de Astrud Gilberto. Por que nenhuma sequência no filme com Astrud, primeira esposa de João Gilberto e primeira intérprete das canções de Tom Jobim em inglês, no mercado internacional, ainda no começo da década de 1960?

Ah, a Astrud... Foi outro problema, porque há muito pouco material disponível com imagens dela cantando e a negociação dos direitos autorais acabou não acontecendo a tempo. Não foi possível, ao contrário de todos os outros que aparecem no filme, com as negociações dos direitos que foram muito mais tranquilas, incluindo Elis Regina e todos os brasileiros e aqueles grandes nomes do jazz e da música internacional, de Frank Sinatra a Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn, Errol Garner, Oscar Petterson, Judy Garland, Henri Salvador, Sammy Davis Jr. e todos os outros", explica. Segundo Nelson, todos os herdeiros cederam os direitos das imagens, sem fazer nenhuma grande exigência.



























A partir do alto, imagens que surgem
intercaladas às canções do documentário
A Música Segundo Tom Jobim: Tom
em Ipanema, na década de 1970, e com
Chico Buarque, Vinicius de Moraes,
Elis Regina, Frank Sinatra. Acima,
Dora Jobim, neta de Tom, e Nelson
Pereira dos Santos no lançamento do
filme. Abaixo, Pixinguinha ao piano
e Tom Jobim na flauta, fotografados
durante a visita que Pixinguinha fez
a Tom em 1971, na casa da Rua
Codajás, no Leblon, Rio de Janeiro








Para concluir a entrevista, pergunto qual é o filme brasileiro preferido na agenda do cineasta. "Muitos", foi a resposta, entre sorrisos. Também pergunto sobre sua preferida entre todas as canções que têm a marca de Tom Jobim. Ele esboça uma gargalhada, faz uma breve pausa e diz que são todas. “Todas são lindas, cada uma mais que a outra. Mas na verdade o que acontece comigo acho que acontece com todo mundo, pois cada dia tenho uma preferida. Ou melhor, depende do dia, depende da hora, depende do estado de espírito. Mas são todas lindas”.

Sobre seus próximos projetos no cinema, depois de ter dedicado os últimos anos ao mergulho em profundidade na música e na Bossa Nova, através dos dois documentários sobre Tom Jobim, Nelson diz que já está trabalhando em um roteiro sobre outro brasileiro por certo fundamental: seu próximo filme será dedicado ao imperador Dom Pedro 2°.

Para este próximo projeto estamos ainda naquela fase tortuosa da captação de recursos", explica o diretor. "Mas está certo que será um filme sobre Dom Pedro 2°. O que pretendo é que também seja um filme diferente, que possa investir em questões de linguagem e acrescentar algo à memória que o brasileiro tem sobre nosso último imperador. O que já decidi é que será um filme que vai misturar documentário e recriação de cenas com atores, reconstituindo alguns aspectos daquela época, na segunda metade do século 19".







O mundo segundo Tom Jobim: no alto,
Nelson Pereira dos Santos no Rio de
Janeiro, durante as filmagens do segundo
documentário que realiza sobre Tom Jobim,
A Luz do Tom; acima, Oscar Niemeyer,
Vinicius de Moraes e sua esposa
Lila Bôscoli com Tom Jobim, em 1956,
nos bastidores da estreia do espetáculo
teatral Orfeu da Conceição. Abaixo,
Tom Jobim com Miúcha, que dividiu com
Nelson a autoria do roteiro do documentário,
fotografados no palco do Canecão, no Rio de Janeiro,
em 1977; e mais quatro imagens: 1) Tom ao piano,
no Rio de Janeiro, 1956; 2) na sessão de gravação
de Águas de Março,  com Elis Reginaem 1972;
3) o cartaz do filmee 4) Tom no palcono Rio
de Janeiro, em seu último show, em 1994







.

"Posso dizer que este próximo trabalho será um filme com muito de ficção, mas baseado no trabalho de um historiador importante, o mineiro José Murillo de Carvalho, que em 2007 publicou uma biografia maravilhosa do imperador", explica o diretor. "É um projeto para os próximos meses ou para o próximo ano, porque por enquanto ainda estou com as atenções voltadas para o Tom Jobim e para o lançamento aqui e no exterior dos dois documentários. Quero acompanhar os filmes e a recepção que eles vão alcançar”, completa.

Depois da entrevista, ainda em estado de graça pela beleza do filme e das canções e pela sabedoria do cinema de Nelson Pereira dos Santos, fico pensando nas imagens e na música que, a partir do Rio de Janeiro, Tom Jobim compôs para o mundo. Uma frase muito conhecida do próprio Tom, que encerra o documentário – na verdade, a única frase, escrita ou falada, que o filme apresenta – é emblemática: “A linguagem musical me basta”.

Frase exemplar, precisa, resumo do existido, poética e extremamente familiar, que traduz à perfeição um documentário inspirado e inspirador, “inventado” a partir dos encadeamentos da seleção de canções do maestro da Bossa Nova. O filme e a frase final me fazem lembrar de outras frases célebres de Tom Jobim, quase sempre irônicas e zombeteiras, bem no espírito que o compositor fazia transparecer nas entrevistas que os programas de TV sempre reprisam. Escolho apenas duas, para concluir. A primeira é aquela de quando lhe perguntaram o que ele tinha a dizer sobre o fato de “Garota de Ipanema” ser a segunda canção mais gravada do mundo, só perdendo para “Yesterday”, dos Beatles, e Tom respondeu: “Ah, aí não vale. Eles eram quatro e já compunham direto em inglês”. A segunda tem maior complexidade, e eleva a ironia a uma interface mais amarga, em parentesco talvez com algo de trágico ou de profundamente melancólico, quando se observa uma linha do tempo da trajetória acidentada do Brasil e dos brasileiros: Tom declarou, certa vez, que o Brasil, definitivamente, não é para principiantes


por José Antônio Orlando. 


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. O mundo segundo Tom Jobim. In: ______. Blog Semióticas, 20 de janeiro de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/01/musica-segundo-tom-jobim.html (acessado em .../.../…).



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