Poucos
artistas contemporâneos levaram a experiência com a arte a extremos
tão aflitivos como Marina Abramovic. Com ela, os trabalhos e apelos
do fazer artístico são imprevistos, intensos, incômodos
–– são questionamentos sempre polêmicos e quase
sempre violentos que exploram a relação entre performer e
público, que expõem os limites do corpo, as
possibilidades da mente, e desafiam o
perigo. Uma retrospectiva do seu extenso
acervo construído em cinco décadas de
atuação e de provocação permanente está agora em cartaz em
Florença, na Itália. “Marina Abramovic, The Cleaner”, exposição
aberta ao público no tradicional Palazzo Strozzi
de setembro de 2018 a 20 de janeiro de 2019, que depois seguirá um roteiro itinerante por outros países, apresenta e
reapresenta as experiências radicais
da artista que
revolucionou a arte performática, colocando seu corpo à prova, como sujeito e como objeto, para
sondar seus limites
externos e seu potencial de expressão.
Com
links para transmissão on-line de um cronograma de eventos, dando
continuidade às atividades transmitidas pela internet (como as
exposições recentes no mesmo espaço de nomes também célebres e controversos da
arte contemporânea como o chinês Ai Weiwei e o norte-americano Bill
Viola), a retrospectiva que o Palazzo Strozzi dedica a Marina
Abramovic reúne um calendário de atividades incomuns para um museu
de arte que inclui performances em multimídia e re-performances ao vivo, com
atores selecionados e treinados pela artista, para mais de 100
trabalhos de sua trajetória, oferecendo ao visitante uma visão
geral de suas obras mais instigantes desde
os anos 1960 até experiências recentes. Nas salas do Palazzo Strozzi o visitante pode encontrar a presença da própria artista, ao vivo, e as re-performances com atores em ambientes sedutores que incluem telões para exibição de filmes, vídeos, fotografias,
pinturas e objetos em
diversas instalações que provocam e comovem. Além de atividades dirigidas para
crianças, escolas, famílias, estudantes de arte ou universitários, o calendário anuncia os eventos com a própria artista em
conferências e performances (veja os links para a exposição e
cronogramas do Palazzo Strozzi no final deste artigo).
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Performance
com Marina Abramovic: no alto,
Anima Mundi, trabalho da artista em
1983 em
parceria com o performer Frank
Uwe Laysiepen,
mais conhecido como Ulay, na
recriação da cena
bíblica em que Maria recebe nos braços o corpo
de
Cristo após a Crucificação. Acima, a artista em uma
das performances que integram a
série de oficinas
nomeadas como Limpando a casa, de
onde saiu
o nome da exposição atual em
Florença, The cleaner
(ou
“Il pulitore”, em italino). Abaixo,
Marina e Ulay
na performance AAA AAA em 1978, em Amsterdã,
exibida em filme na exposição do Palazzo Strozzi
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Arte em relação com o corpo
A
artista que
se autodefine como “cidadã do mundo” e como “avó da
arte da performance” nasceu em Belgrado, antiga
Iugoslávia, hoje capital da Sérvia, em 1946, ao
final da Segunda Guerra Mundial. Filha de dirigentes do Partido
Comunista, Marina Abramovic estudou na Academia de
Belas-Artes em Belgrado e em Zagreb, onde teve dedicação a
cursos de artes plásticas e artes cênicas. No final dos anos 1960,
ainda morando em seu país de origem, deu início a séries
de performances que provocaram escândalo e chamaram atenção para
seu nome –– entre elas apostas em limites da relação
com o corpo e com o público nomeadas
“Brincadeiras com facas” (Rhythm 10), “Deitar no meio de uma
estrela de fogo” (Rhythm 5), “Ficar sob efeito de drogas
controladas” (Rhythm 2) e “Estar semi-nua à disposição dos
espectadores” (Rhythm 0), esta última retomada e atualizada
em 2010 no MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York,
quando ela esteve presente durante os três meses da
exposição: extensas filas se formaram com os interessados em ficar
um minuto em silêncio, sentados, imóveis, diante da artista.
Em
1976, Marina Abramovic mudou-se para Amsterdã, Holanda, onde
encontrou seu parceiro mais constante, o artista alemão Frank Uwe
Laysiepen, mais conhecido como Ulay. O
trabalho dos dois consistiu em testar e provocar os limites
do público em intransigentes façanhas de resistência e loucura, a
que os dois chamaram "trabalhos de relação", e
que algumas vezes terminaram com a intervenção policial depois de
denúncias dos mais conservadores sobre comportamento
obsceno ou ameaças de violência. Uma destas performances,
nomeada “Imponderabilia”, foi apresentada pela primeira vez na
Itália, em Bolonha, 1977, na Galeria Comunale d’Arte Moderna. A
aparente simplicidade da representação contrasta com altos níveis
de complexidade: em um portal de passagem estreita, o casal está
nu, imóvel, um corpo diante do outro, olhando-se
fixamente. Quem quiser chegar do outro lado da sala para
continuar a visita à exposição tem que passar entre os dois e
tem que passar de lado, optando por se virar para um ou para o outro.
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Performance
com Marina Abramovic: acima,
Imponderabilia (à
esquerda, a re-performance
em
cartaz na exposição do Palazzo Strozzi; à direita,
a performance
original, com Marina e Ulay em 1977,
em
Bolonha, na Itália, que foi interrompida pela
polícia).
Abaixo, uma das salas da exposição atual
com Luminosidade
casa-espírito, apresentada ao vivo,
com atores
(re-performance), na exposição em Florença;
e
a performance original Rhythm 5, realizada em 1974
por
Marina no Student Cultural Center, em Belgrado
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O
incômodo
da nudez
A
situação de nudez cria, naturalmente, desconforto, como em todas as performances e trabalhos que Marina Abramovic propõe,
com ou sem Ulay.
Mas a
nudez ou o desconforto não
impedem várias pessoas de avançar, largando bolsas
ou
casacos, e passarem roçando
nos
dois corpos nus. Geralmente, do outro lado há alguém que
fotografa o momento. A
primeira performance de “Imponderabilia” em
Bolonha foi
interrompida
muito antes das sete horas previstas, pela polícia, chamada para pôr
fim ao “comportamento indecente” dos artistas. A mesma peça
pode agora ser vista no Palazzo Strozzi, em Florença, integrada na
retrospectiva
de
Marina Abramovic, reencenada
por atores nus.
Desde
a abertura da exposição na
Itália, entretanto, não
houve, ainda, nenhuma
intervenção
policial e
nem protesto do público tentando impedir ou proibir as performances,
mas as muitas fotos e vídeos feitos pelos muitos visitantes são,
neste tempo de redes sociais, completamente invisíveis no espaço
público. A tentativa de publicar fotografias
da nudez da artista ou dos atores das re-performances em
uma
conta de Facebook, por exemplo, é imediatamente
impedida
por
mensagens
automáticas da
empresa de
Mark Zuckerberg avisando
que a imagem é
proibida por apresentar nus e violar ou não
respeitar
as regras da comunidade. Evoluiu
a tecnologia, mas a arte de Marina Abramovic permanece
plena
de ousadia e
um
tanto incômoda.
E
tanto
agora,
como antes, continua
a provocar
os instintos mais repressores e a intolerância da censura.
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Performance
com Marina Abramovic: acima,
a
artista nos bastidores, durante a montagem da
exposição
em 2010 no MoMA, em Nova York. Abaixo,
registros
de duas das performances do
início de sua
trajetória que
provocaram escândalo e chamaram
atenção
para seu nome: Rhytm
10 (de 1973), em
que
ela
crava uma faca entre os dedos, em ritmo crescente,
ferindo-se
várias vezes durante o processo; e
Relação
no espaço, um dos primeiros trabalhos
da
parceria na vida e na arte com Ulay
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Performance
e vida cotidiana
O
encontro da artista em 1975 com Ulay, filho de um soldado nazista,
nascido no mesmo dia que ela, 30 de novembro (Marina nasceu em
1946 e Ulay em 1943), marcou definitivamente sua trajetória e abriu
novas perspectivas para as experiências levadas ao limite.
Depois das obras mais tradicionais em pintura figurativa e
pintura com abstrações em sua juventude, e depois das primeiras
experiências radicais de performances em que o seu próprio corpo era
o suporte, a fase de parceria com Ulay durou exatos 12 anos e
estendeu o trabalho de performance para todos os
momentos da vida cotidiana, registrados em peças que marcaram
época e que sobreviveram em filmes e fotografias.
Entre
os trabalhos mais conhecidos da parceria entre Marina e Ulay
estão “Breathing In / Breathing Out” (em que um respirava
para dentro da boca do outro durante 19 minutos), “Light / Dark”
(em que os dois se esbofeteavam criando um ritmo durante 20 minutos),
“AAA AAA” (em que ambos gritavam desesperadamente, cara a cara,
durante 15 minutos), “Relação no espaço" (os dois
correm de pontos opostos, completamente nus, e passam um pelo outro,
repetindo o movimento durante 58 minutos, até que no último momento
colidem, correndo em alta velocidade) ou “Rest Energy”
(Energia de repouso), de 1980, talvez a cena mais angustiante, entre
tantas outras, na qual Marina segura um arco e Ulay segura uma flecha
apontada para o coração dela, ambos em uma posição de evidente
desequilíbrio, durante quatro minutos e 10 segundos. A tensão
e o perigo iminente provocaram, como sempre, desconforto e
reações extremas do público.
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Performance
com Marina Abramovic: acima,
Rest
energia (Energia de repouso), da parceria com
Ulay. Abaixo,
o reencontro de surpresa do casal
em
2010 no MoMA, depois de duas décadas:
Ulay
sentou-se à frente de Marina e
os dois
ficaram
emocionados e emocionaram o público
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Arte
em novas fronteiras
Durante
o período de 12 anos da parceria, o casal morou em uma van
Citroën de cor preta na maior parte do convívio (a
van também está em exposição, aberta ao público, no
pátio do Palazzo Strozzi) e teve aproximação maior com
questões místicas e espirituais em temporadas e
performances que incluíram viagens pelos cinco continentes ––
com momentos históricos em uma tribo de nativos na Austrália ou em
rituais com monges budistas no Tibete. O final da
relação em 1988 também foi uma performance,
monumental, nomeada em comum acordo pelos dois como
“The Lovers” (Os amantes), com duração de três
meses registrada por câmeras de fotografia e vídeo: cada um
caminhou de um ponto extremo da Grande Muralha da China até se
encontrarem, no meio do trajeto, para se despedirem um do
outro com um demorado e afetuoso abraço de adeus.
Sem
Ulay, nas últimas décadas, Marina Abramovic seguiu em direção
a novas fronteiras: fez uma parceria com o dramaturgo britânico
Robert Wilson para a montagem de um espetáculo teatral chamado "A
vida e a morte de Marina Abramovic", apresentado com trilha
sonora de Antony Hegarty em 2011 no festival internacional de
Manchester, Inglaterra, e em 2012 no Teatro Basel, na Suíça, com
Marina dividindo a autoria com Robert Wilson e dividindo as cenas no
palco com o ator Willem Dafoe; e passou a investir no treinamento de
atores para novas performances e para retomar antigos trabalhos, no
que ela chama de re-performances ao vivo, como as que
agora ela apresenta em Florença.
Sobre
as críticas proibitivas de um ou outro teórico mais purista, que
insista em defender o caráter da unicidade das performances, tal
como elas surgiram no final da década de 1960, Marina Abramovic
argumenta que a montagem em re-performance ao vivo é exatamente
isto: uma forma de arte cênica e presencial para fazer perdurarem
trabalhos que têm natureza efêmera, ao contrário do que ela mesmo
professava nos anos 1970, quando havia um consenso defendendo que as
performances eram únicas e irrepetíveis, o que as distanciava
radicalmente do espetáculo de teatro. Nas duas últimas décadas,
a artista também retornou à sua terra natal para buscar
inspiração para trabalhos como “Barroco dos Balcãs” (1997),
que traduz de forma simbólica as tragédias da Guerra da
Bósnia. Apresentada na Bienal de Veneza, rendeu a Marina
Abramovic o prêmio máximo do evento, o Leone d’Oro.
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Performance
com Marina Abramovic: acima,
Vida
e morte de Marina Abramovic, parceria da
artista
com o dramaturgo britânico Robert Wilson
apresentada
nos palcos do festival internacional de
Manchester
em 2011 e no Teatro Basel, na Suíça,
em 2012. Abaixo, Barroco dos Balcãs, uma
em 2012. Abaixo, Barroco dos Balcãs, uma
performance
com ossos de animais premiada com o
Leone
d’Oro no Festival de Veneza em 1997
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O
espaço além
Também
ambientadas
em sua terra natal são “O Herói” (2001), performance dedicada a
seu pai, que lutou na resistência contra nazistas e fascistas,
durante a Segunda Guerra, e “Épico Balkaniano”, instalação
com três telões e imagens individuais de Marina, seu pai, sua mãe
– somente Marina fala, contando histórias macabras sobre sua
infância, na fronteira entre a realidade da memória e a imaginação
fabulosa. Outra referência à sua terra natal e aos cenários de
guerra aparece em destaque em "A casa com vista para o mar"
(2002), apresentada na Galeria Sean Kelly, Nova York: durante 12
dias, de forma ininterrupta, ela ficou em completo silêncio e em
completo jejum, observada pelos visitantes em uma estrutura suspensa
que teve como único acesso escadas feitas com facas afiadas.
A
fase mais recente da trajetória da artista avança pelo misticismo:
em “Contando o arroz”, de 2015, criada como parte de uma série
de oficinas nomeadas como “Limpando a casa” (também apresentadas
em Florença e de onde saiu o nome da exposição atual, “The
cleaner”, ou “Il pulitore”, em italiano), a artista propõe ao
público um isolamento com fones de ouvido à prova de som para cada
um, sentado à mesa, separar o arroz branco misturado a
lentilhas pretas, anotando em uma folha o número de grãos –
um convite à reflexão e à conexão consigo mesmo em busca de calma
e concentração. Em “Objetos transitórios”, também
de 2015, ela apresenta ferramentas incomuns feitas de cristais
de quartzo e outros materiais frágeis para serem manuseadas com
cuidado, provocando viagens interiores de meditação e
transcendência.
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Performance
com Marina Abramovic: acima,
A
casa com vista para o mar (imagem da performance
original
de 2002), uma alegoria sobre os cenários da
Guerra
dos Balcãs. Abaixo, cenas do
documentário
Espaço
Além – Marina Abramovic e o Brasil
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Com
retrospectivas de seu trabalho realizadas nos últimos anos em diversos países,
incluindo uma temporada no Sesc Pompeia em São Paulo, em 2015 (a
primeira exposição retrospectiva da artista apresentada em um país
da América Latina), o capítulo mais recente de sua
trajetória de experimentações também se passa no Brasil: em
parceria com o diretor Marco Del Fiol, Marina Abramovic apresenta em
um documentário,
“Espaço Além”, uma viagem esotérica de 87 minutos com uma série de performances e
registros audiovisuais sobre lugares
místicos, sobre preces de invocação e sobre cultos de devoção muito diferentes entre si. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 2016 e segue
sua trajetória de exibição em outros países e em festivais pelo
mundo afora.
No “Espaço Além”, Marina Abramovic é a protagonista e a voz narrativa que tudo conduz. Com sua equipe de produção, a artista pesquisou e visitou, a partir de 2012, em diversos períodos, comunidades espirituais que incluem, entre outros cenários e ambientações, dos diversos rituais que convivem no Vale do Amanhecer, em Brasília, ao xamanismo na Chapada Diamantina, e daí a momentos de emoção e reflexão no candomblé da Bahia, nas cerimônias com chás de ayahuasca, nas benzeções tradicionais em Goiás, nas simpatias com sessões em banhos de ervas ou de lama, nas curas operadas por médiuns, por pessoas comuns, por cristais e outras pedras de poder que nomearam há séculos o território de Minas Gerais. Uma frase de Marina Abramovic, em algum momento do filme, talvez seja uma tradução fiel sobre sua trajetória: ela diz que sempre quis, desde o começo, em seu país de origem, ampliar a consciência através da arte para que outras pessoas pudessem ver a si mesmas em seu próprio reflexo. A artista, em sua presença imponente, polêmica e benevolente, não se esconde.
por
José Antônio Orlando.
Como citar:
Como citar:
ORLANDO,
José Antônio. Performance com Marina Abramovic. In: ______. Blog
Semióticas,
11 de novembro de 2018. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2018/11/performance-com-marina-abramovic.html
(acessado em .../.../...).
Para
uma visita virtual à exposição no Palazzo
Strozzi, clique aqui.
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