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12 de dezembro de 2012

Freud explica







O homem é dono do que cala
e escravo do que fala. Quando
Pedro me fala sobre Paulo, sei
mais de Pedro que de Paulo...


Sigmund Freud (1856–1939)  



Há mais de um século o gênio fascinante e por vezes contraditório do doutor Sigmund Freud sempre esteve em foco para outros pesquisadores e para os “leitores comuns”. O que não faltam são livros – os publicados pelo próprio Freud e centenas de outros, que relatam da biografia à correspondência do pai da Psicanálise, incluindo aqueles que se dedicam a aspectos incomuns na vida e obra do biografado ou mesmo os que recriam, em forma de ficção, momentos na trajetória do mestre. Dos muitos títulos sobre Freud das safras recentes nas livrarias, alguns são documentos preciosos sobre os ensinamentos do mestre na intimidade e na vida cotidiana.

Entre as edições nacionais, alguns destaques são a correspondência que Freud manteve com a filha Anna, cerca de 300 cartas enviadas entre 1904 e 1938, e dois estudos publicados pela Record, “Deuses de Freud” e “A Fuga de Freud”. A historiadora da arte Janine Burke é autora do primeiro, que revela o lado colecionador e menos conhecido do biografado. Freud, por mais de 40 anos, teve dedicação diária para reunir um extraordinário acervo de mais de 2 mil miniaturas, estátuas, vasos, joias e pedras preciosas esculpidas, remanescentes das civilizações da Antiguidade Clássica.

Enquanto Janine Burke pesquisa e desvenda hábitos incomuns na intimidade cotidiana do médico austríaco, o psicólogo, jornalista e cineasta David Cohen investiga os últimos tempos de vida de Freud, com o avanço do nazismo que o levaria a fugir de Viena para Londres. São três relatos com mais semelhanças que diferenças. Enquanto as cartas reunidas em “Correspondência – Sigmund Freud e Anna Freud” (“Briefwechsel”, L&PM Editores) revelam muito sobre as relações familiares e de afeto entre o pai e seus filhos – especialmente Anna, a caçula, de quem Freud se tornou analista entre 1918 e 1924 – tanto Burke quanto Cohen também fornecem, igualmente, elementos biográficos e analíticos.









A partir do alto, Sigmund Freud fotografado em
1922 para a revista Life, por Max Halberstadt
ao lado de sua filha, Anna Freud, em Viena, 
Áustria, em 1928; e personificado no cinema em
Freud” (1962), filme de John Huston, com
Montgomery Clift e Susannah York; e em
"Um Método Perigoso" (“A Dangerous
Method”, 2011), de David Cronenberg,
com Michael Fassbender como Jung
Viggo Mortensen como Freud. Abaixo,
a foto célebre de Freud por Halberstadt
recriada pelo artista Manuel Gervasini






Tanto na "Correspondência" quando nos relatos de Janine Burke e de David Cohen, o que está em evidência são dois perfis do doutor Freud: aquele da intimidade familiar e o outro, referência das mais importantes em seu tempo e protagonista de revoluções da cultura no último século que chegaram ao senso comum e permanecem até a atualidade. Nos relatos de Burke e Cohen, cada um dos perfis surgem como mosaicos, construídos pelas palavras e impressões de terceiros. Nas cartas, cada opinião ou decisão é anunciada nas palavras do próprio Freud.



Complexo de Édipo



Através de “Correspondência”, pela primeira vez o leitor brasileiro tem acesso aos bastidores de uma das mais famosas relações entre pai e filha da história: a correspondência mantida durante 34 anos entre o médico e a caçula dos seus seis filhos, a única a seguir seus passos na profissão. Escritas entre 1904 e 1938, as cartas compõem um registro abrangente da gênese e do desenvolvimento da psicanálise, enquanto enumeram as opiniões de Freud sobre seus discípulos mais próximos.

Na trajetória de descobertas como o Complexo de Édipo e nas repercussões de obras radicais como “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud constata, através das cartas, seu crescente prestígio na comunidade científica e o quanto a Psicanálise vai adquirindo reconhecimento como teoria do funcionamento do aparelho psíquico, dispondo de um método de investigação com a interpretação das associações livres na transferência.





No alto, Freud e seus cães da raça Chow Chow.
Freud tinha vários cães e dizia que eles possuíam
um certo sentido que os fazia capazes de analisar
caráter das pessoas. Um de seus cães, Jo-Fi, 
até participava das sessões de análise
acompanhando alguns pacientes. Freud também
foi pioneiro ao defender que a presença de cães
teria um efeito calmante, principalmente para
as crianças. Acima, Freud com seus amigos
e discípulos no começo do século 20 –
a partir da esquerda, de pé, Abraham A. Brill,
Ernest Jones e Sândor Ferenczi. Sentados,
Sigmund Freud, G. Stanley Hall e Carl G. Jung






A trajetória ascendente de Sigmund Freud também marca as cisões com discípulos importantes e amigos mais próximos, dos quais se separou sucessivamente desde 1908, quando fundou a Sociedade Psicanalítica de Viena, incluindo rompimentos dramáticos com Adler (em 1911), Jung (1913), Rank (1924) e Ferenczi (1929), entre outros pioneiros que fundamentam com Sigmund Freud a psicologia, a psicanálise e suas variações tanto nos métodos de psicoterapia quanto na sua aplicabilidade aos domínios da arte e da cultura contemporânea. 
 
Curiosamente, depois da morte de Freud, em 1939, Jung renunciou à presidência da Sociedade Médica Internacional para Psicoterapia. No pós-guerra, quando Freud e outros grandes pioneiros na teorias que fundamentam a Psicologia e a Psicanálise já estavam mortos, Jung ressurgiria com status de referência intelectual e celebridade na mídia internacional. Em 1955, aos 79 anos, lúcido e polêmico, Jung é reverenciado na capa da revista “Time”, com entrevista que marcou época criticando a massificação da Psicologia e da Psicanálise.





Carl Gustav Jung aos 33 anos, em 1909, na
Universidade de Viena, e em fevereiro de 1955,
aos 79 anos, na reportagem da revista Time
 


A compreensão e a escuta



As questões de sua época, das vanguardas na arte à política, da evolução de seu entendimento sobre os chistes às articulações espontâneas do inconsciente como linguagem, dos esboços de suas teorias sobre a psicologia das massas ao contraponto do nazismo em ascensão tudo está registrado nos comentários de Freud e nas respostas sempre breves da filha.

A formação de Anna, contudo, é o fio condutor de “Correspondência”. De criança problemática e precoce, a caçula de Freud passou a mulher independente e determinada, subverteu convenções sociais e tornou-se analista mundialmente reconhecida. Depois da morte de Freud, Anna também se destacou como guardiã do legado intelectual paterno – um legado que ela aprofundaria com rigor científico, sobretudo nos estudos sobre psicanálise infantil. 











Anna Freud e o pai, fotografados em
Viena, em 1920. Abaixo, a capa da
edição nacional de Correspondência
e o jovem Sigmund Freud (ao centro)
em retrato de família datado de 1872





 

As cartas acompanham a educação sentimental de Anna e seu envolvimento crescente com as pesquisas e com os discípulos do pai. "Olhando você me dou conta do velho que sou, porque tens exatamente a mesma idade que a psicanálise. As duas me deram preocupações, mas no fundo espero de tua parte mais alegrias que dela", escreveu Freud a Anna no final de 1920. Todas as cartas, com raras exceções, são iniciadas com "Minha querida Anna" ou "Querido papai", e deixam vislumbrar como no início da psicanálise essa prática era testada nos círculos dos iniciados e em família.

O leitor familiarizado com os textos do pai da Psicanálise irá descobrir um tom afetivo comovente e surpreendente, em momentos em que o sisudo doutor Freud manifesta "uma humanidade profunda e palpável" – segundo as palavras de Anna. O leitor que não tem tanta leitura sobre as teorias de Freud também tem a descobrir outros tantos segredos nas cartas do destaque entre os mentores da “intelligentzia” de sua época. Um aprendizado: escrevendo à filha, o mestre parece evitar atitudes moralizantes e dá prioridade à compreensão e à escuta. 




 

O próprio Freud confessaria, em novembro de 1928: "Foi para mim uma experiência preciosa aprender quanto pode receber um de seus próprios filhos". Em outros momentos, a reflexão cede ao trivial, como na carta datada de julho 1904:


          Minha querida Anna,

    Foi muito gentil da tua parte me teres escrito, e por isto eu respondo conscienciosamente. Deves ter te enganado na tua carta, querendo dizer que engordaste um quilo; mas se realmente tiveres emagrecido, então a tia deve te alimentar com Salvelinus alpinus, até que tenhas recuperado teu peso. Na tua idade ainda se pode ganhar peso sem ter medo de engordar. A mamãe já está com a passagem de leito para a quinta-feira à noite, então vocês estarão completos, só faltando este último, que já está feliz por chegar em breve,

         teu velho papai.”



Navegando no mar dos sonhos



Freud não estava sozinho quando entrou no mar dos sonhos. Seus companheiros eram deuses do Egito, da Grécia e de Roma”, destaca Janine Burke na abertura de “Deuses de Freud”. Foi no final dos anos 1890, quando escrevia sua obra mais conhecida, “A Interpretação dos Sonhos”, que Freud se tornou um colecionador de arte.

A autora reveste de significados simbólicos, usando referências dos próprios conceitos e argumentos analíticos desenvolvidos pelo primeiro entre seus pares na Psicanálise, um detalhe importante: pouco depois de adquirir sua primeira peça de alto valor, ele tem uma notícia que o deixaria profundamente abalado: a morte de seu pai, Jacob Freud, em 25 de outubro de 1896. Desde então, Freud passaria a conviver com uma intensa obsessão por antiguidades da arte e pequenos objetos de culto, tesouros da Arqueologia.

Amuletos, alguém diria. Por certo, amuletos, alguns deles, não por acaso, transferidos à argumentação das teses mais conhecidas do doutor Freud, transformados em alegorias no método que ele celebrizou e que leva seu nome à categoria de adjetivo, "freudiano", tomando de empréstimo a metáfora da Arqueologia em que camadas sucessivas são removidas para revelar o mais importante, a chave do enigma: o sentido que permanece no fundo, submerso, a aguardar por seu resgate futuro.







Peças da coleção preciosa de miniaturas
e relíquias de civilizações da Antiguidade
na mesa de trabalho de Freud, em Viena







Seu gosto era preciso e sagaz”, aponta Burke, que persegue os percalços do gênio em seu estúdio vienense, onde todo espaço disponível – estantes, móveis, armários, gavetas – com o tempo ficaria apinhado de objetos antigos. Os mais valiosos ficavam inacessíveis à maioria dos visitantes, mas no restante da casa, especialmente no escritório, ele mal podia se mover sem arrastar algum objeto ou vários deles. A imagem de Freud como austero e hostil é contestada pelas revelações de Burke, que descobre no cotidiano do médico uma personalidade generosa, por vezes até hedonista, encantado pelos fetiches (para usar o termo tão caro às teorias freudianas) preciosos da coleção.



Segredos milenares da Arqueologia



De Viena, o médico avançava na teoria e acompanhava à distância que segredos milenares e tesouros da Arqueologia estavam sendo descobertos em todo o mundo: em 1871, o aventureiro Heinrich Schliemann, idolatrado pelo jovem Freud, desenterra as ruínas de Tróia; em 1900, data da publicação de “A Interpretação dos Sonhos”, Arthur Evans traz à tona os monumentos e estatuária de Creta; em 1922, Howard Carter penetra no túmulo de Tutankamon.









Imagens clássicas da Arqueologia: acima, Howard Carter
fotografado no Vale das Pirâmides, no momento da abertura
da antecâmara da tumba do faraó Tutankamon, no dia 26 de
novembro de 1922. Abaixo, Arthur Evans, Theodore Fyfe
e Duncan Mackenzie fotografados em 1900, na Grécia, nas
escavações que revelaram os palácios em Knossos, Creta,
onde nasceram as lendas de Minos, Teseu e o Minotauro

Uma das histórias que fascinaram o doutor Sigmund Freud
foi protagonizada por Howard Carter, que revelou uma das
maiores descobertas da Arqueologia: a tumba de Tutankamon
no Vale das Pirâmides, no Egito. A múmia do faraó, que morreu
há mais de 3.300 anos, estava em perfeito estado de conservação
e, junto a ela, estava guardado um tesouro inestimável em ouro,
joias e pedrarias, que tinha permanecido intocado ao longo dos
milênios. Há muitas lendas intrigantes sobre a descoberta feita
por Howard Carter, decorrentes de uma inscrição na tumba que
lança uma maldição contra aqueles que perturbarem o descanso
eterno de Tutankamon. Realmente, a maior parte da equipe que
trabalhou com Carter na descoberta da tumba morreu em situações
trágicas pouco tempo depois, atiçando a imaginação das pessoas.

Na tarde de 26 de novembro de 1922, o inglês Howard Carter
(fonte de inspiração para o personagem Indiana Jones criado para
a série de superproduções no cinema por Steven Spielberg) e seu
patrocinador, Lorde Carnarvon, encontraram a antecâmara da
tumba. Lorde Carnarvon morreria em poucos meses, em 5 de abril
de 1923, em circunstâncias ainda hoje não esclarecidas: registros
oficiais dão conta de que, no momento da sua morte, ocorreu na
capital do Egito uma falha elétrica sem explicação e a cadela do
lorde teria uivado e caído morta no mesmo momento na Inglaterra.
Nos meses seguintes morreriam um meio-irmão do lorde e também
sua enfermeira, o médico que fizera as radiografias e vários outros
visitantes do túmulo e trabalhadores acompanharam a expedição.

Há muitos e muitos outros eventos estranhos que reforçam a
maldição do faraó”. Entre eles, uma serpente que, no dia em que
o túmulo foi aberto de forma oficial, entrou na gaiola e devorou o
canário de Carter. Na mitologia egípcia, as serpentes protegem os
faraós dos seus inimigos. Os jornais da época fizeram alarde sobre
o assunto e contribuíram de forma sensacionalista para lançar no
público a ideia de uma maldição. Curiosamente, Howard Carter
morreria exatos 13 anos depois de sua grande descoberta.






Fascinado pela Antiguidade Clássica e pelas histórias sobre as descobertas recentes da Arqueologia, Sigmund Freud seguiu montando sua coleção de miniaturas, papiros e pequenas gravuras em relevo no intervalo entre 1871 e o final da década de 1930,  No início, réplicas de gesso. Quando começou a ganhar dinheiro com a Psicanálise, passa às peças verdadeiras, por vezes recorrendo ao mercado negro e, segundo fontes pesquisadas pela autora, também às redes de mercenários e assaltantes de tumbas. O relato de Burke é didático:

Para Freud, a religião cumpre a função de ajudar o ser humano a satisfazer na imaginação o que na realidade ele não se atreve ou não pode realizar na vida real", ela explica. "Para satisfazer estas necessidades, o indivíduo se identifica com um intermediário, que atua como 'muleta' para que a pessoa possa seguir com sua vida. Desta maneira, o indivíduo assim se expressa: 'Eu sofro, mas através de Cristo (ou de qualquer outro Deus) os meus sofrimentos serão recompensados'. Tudo isto nos mostra que o próprio Freud, em sua crítica sobre a religião, acaba nos mostrando que sua ligação com os Deuses e com a arte funcionava também como a "perna de pau" que o pirata usa para poder caminhar e seguir seu caminho”.



Objetos para amar



Eu preciso ter sempre um objeto para amar”, confessaria Freud certa vez a Jung, em passagem citada por Janine Burke. David Cohen e seu “A Fuga de Freud” vai em outra direção, deixando para trás a coleção de antiguidades e os prazeres secretos do médico na intimidade da família e da vida cotidiana. Cohen vai aos dias mais difíceis, quando Freud, famoso tanto na Europa quanto nos Estados Unidos na década de 1930, entrou em xeque quando a Áustria foi tomada pela Alemanha de Hitler, em 1938.






Miniaturas da coleção de Freud: a deusa Isis
e a Esfinge, artefatos sagrados do antigo Egito


Nascido em uma família judia, da pequena burguesia comerciante da Morávia, desde cedo aprendeu a conviver com problemas financeiros. Foram eles que obrigaram toda a família a se mudar para Viena, na Áustria, onde Freud viveria desde 1860, quando tinha apenas quatro anos. Aos 17, ingressou na Universidade de Viena. Formou-se em Medicina, com especialização em Neurologia. Aos 30, se casou com Martha Bernays e abriu uma clínica especializada em distúrbios nervosos, onde desenvolveria os princípios da Psicanálise. Em Viena, sempre usufruiu de vida financeira modesta, só ocasionalmente pontuada por regalias permitidas à sua classe social. Mas tudo mudou muito rápido em 1938.

Naquele ano, os nazistas obrigaram os judeus a declarar todos os seus bens – que passariam a ser tratados como riquezas ilegalmente adquiridas. Aí vem o golpe de sorte: Anton Sauerwald, estudante de Medicina e fã dos livros de Freud, foi designado para supervisionar os ganhos do médico de Viena, mas escondeu de seus superiores as provas de contas secretas na Suíça. Em “A Fuga de Freud”, todo o processo, a partir dos documentos oficiais, é investigado por David Cohen e narrado em primeira pessoa, em tom de novela policial.





Artefatos sagrados e valiosos na coleção:
deus Eros, de origem na antiga Grécia,
e o deus babuíno Thoth, do Egito


Cohen acompanha o agravamento da situação, os lances mais arriscados e o passo a passo de Freud em Viena, naqueles dias turbulentos, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, até sua escapada espetacular aos 82 anos para Londres, a bordo do Orient Express, com vistos conseguidos por Sauerwald. Contudo, muitos na família de Freud, incluindo suas quatro irmãs, não foram autorizados a deixar a Áustria, acabaram presos e morreram no campo de concentração de Auschwitz. Segundo Cohen, Sauerwald foi salvo dos tribunais que julgaram os crimes de guerra nazistas no último momento, em 1947, por intervenção emocionada e emocionante de Anna, filha de Freud.



Segredos de família



Segredos de família, fraudes, suicídios, transações bancárias: nada escapa ao faro do jornalista e cineasta David Cohen, que por sua formação profissional como psicólogo pode se dar ao luxo, inclusive, de pontuar as situações biográficas do pai da Psicanálise com trechos das obras principais e comentários do próprio Freud, incluindo o que há de mais polêmico.

Descrevendo a agonia do veterano pensador e médico austríaco em fuga para Londres, o relato de Cohen ressalta que Freud, simultaneamente, inovou em vários domínios, tanto ao desenvolver uma teoria da mente e da conduta humana, quanto ao apresentar técnicas terapêuticas revolucionárias para ajudar pessoas afetadas psiquicamente. Vastos domínios, que terminaram por afastar alguns seguidores, influenciados por um, mas não pelo outro campo de atuação.






A chegada a Londres, em 1938. Abaixo,
o pensador homenageado em escultura na
areia na praia de Pera, em Portugal, e na
fotobiografia em retratos de 1864 a 1839


Cohen transforma em ritmo de thriller de suspense o momento mais amargo da biografia de Freud. Seu relato encontra o médico atormentado pela decisão de deixar Viena e às vésperas da fuga, a bordo do Orient Express. No mesmo ritmo, Cohen passa em revista os preparativos para a fuga e os percalços da maturidade, o legado teórico, as inovações no campo científico, as questões do inconsciente que se articulam como linguagem, as reviravoltas introduzidas pelo conceito de “pulsão de morte”, o agravamento das diferenças fundamentais com seus discípulos, especialmente Jung, ou o estabelecimento pela comunidade científica internacional do novo modelo para o aparelho psíquico, que Freud desenvolvera ainda no começo do século, compreendendo o ego, o id, o superego.

No capítulo final, Cohen cita uma frase de Freud que poderia constar como epitáfio, ou quem sabe como epígrafe, num dos muitos livros que Freud publicou, ou num dos tantos livros sobre ele, sua exegese, seus conceitos e teorias, assim como em qualquer das dezenas de biografias que têm o mestre como protagonista. Uma frase que reflete muito das convicções, dos ensinamentos e do temperamento de um pensador genial: Só os estados de conflito e turbulência podem aprofundar nosso conhecimento.


por José Antônio Orlando. 


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Freud explica. In: ______. Blog Semióticas, 12 de dezembro de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/12/freud-explica.html (acessado em .../.../…). 



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22 de setembro de 2011

Ao sol, carta é farol





Depois que Mário de Andrade morreu, em fevereiro de 1945, aos 52 anos, sua consagração como um dos maiores renovadores da cultura nacional e como mentor do modernismo permaneceu como referência de peso entre seus companheiros de geração. O prestígio sobreviveu ao passar do tempo e a dedicação do escritor paulistano aos mais diversos aspectos da literatura, da arte e da política cultural mantém seu status de primeira grandeza na inteligência nacional – sem contar a atenção sem sossego de Mário ao que ele próprio chamava de "epistolomania": a intensa troca de correspondências.

Há quem diga que Mário de Andrade foi o brasileiro que mais escreveu cartas. Já estão publicadas edições de sua correspondência com nomes como Manuel Bandeira, Drummond, Pedro Nava, Fernando Sabino, Álvaro Lins, Murilo Mendes, Murilo Rubião, Paulo Duarte, Pedro Dantas, Augusto Meyer, Alphonsus de Guimaraens Filho, Tristão de Athayde, Luís da Câmara Cascudo, Moacir Werneck de Castro, Cândido Portinari, Rodrigo Mello Franco de Andrade, Oneida Alvarenga e Tarsila do Amaral, entre vários e vários outros. Lições de rigorosa composição poética e de vida perpassam cada uma das milhares de cartas escritas por Mário. A correspondência que ele recebeu, entretanto, permaneceu lacrada por 50 anos, por recomendação expressa dele próprio.
 





Retratos pintados: Mário de Andrade
retratado por alguns de seus companheiros
da geração modernista – no alto, em 1922,
por Tarsila do Amaral. Acima e abaixo,
por Anita Malfatti, em 1921 e 1922




"Ao sol, carta é farol", confessaria Mário de Andrade em correspondência a Guilherme de Figueiredo. Vencida em 1995 a proibição à exposição pública das cartas, o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) deu início à sistematização dos acervos e lançou as duas primeiras edições reunindo a correspondência completa entre Mário e Manuel Bandeira (1997) e entre Mário e Tarsila do Amaral (2000). O acervo de tantas cartas também envolve, como é inevitável, umas tantas polêmicas.

Várias das edições recentes em livros das cartas de Mário foram destacadas por premiações importantes como o Prêmio Jabuti, entre elas "Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa" (Editora Peirópolis), o terceiro livro do projeto gerenciado pelo IEB-USP, com organização e edição da professora emérita da UFMG Eneida Maria de Souza. "De toda a correspondência conhecida de Mário de Andrade, as cartas para Henriqueta Lisboa podem ser consideradas as melhores em vários aspectos", destaca nesta entrevista Eneida Maria de Souza.





No alto, Mário de Andrade em pintura
de 1922 de Tarsila do Amaral. Acima,
em pintura de 1922 por Hugo Adami.
Abaixo, Mário em fotografia de 1928




Carta aos Mineiros




Autora de "A Pedra Mágica do Discurso" (1988), estudo sobre o autor de "Macunaíma", e "Mário de Andrade - Carta aos Mineiros" (1997), em co-autoria com Paulo Schimidt, entre outros – além dos ensaios reunidos em "Crítica Cult" e “Janelas Indiscretas: Ensaios de Crítica Biográfica”, ambos lançados pela Editora UFMG – Eneida Maria de Souza incluiu, no livro sobre as cartas trocadas entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa, reproduções e análise de uma centena de documentos que permaneciam inéditos nos arquivos sob a guarda do IEB, em São Paulo, e no Acervo de Escritores Mineiros, na UFMG.

Enquanto "Crítica Cult" e “Janelas Indiscretas” analisam vida e obra de personalidades como Caetano Veloso, Carmen Miranda, Chico Buarque, o diário de guerra de Guimarães Rosa, retratos de Mário de Andrade e Cyro dos Anjos pintados por artistas do modernismo, o papel dos intelectuais no governo JK e outros temas que demonstram uma construção teórica inovadora sobre temas contemporâneos, "Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa" reúne as cartas, telegramas, postais, fotos e bilhetes, extensa bibliografia e manuscritos, tendo como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945.




Mario de Andrade segundo pintura de
1935 de Cândido Portinari. Abaixo,
em pintura de Flávio de Carvalho
de 1939; e em retrato de 1927
pintado por Lasar Segall






Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista que fiz com Eneida Maria de Souza.

Pergunta – Há quem diga que, além de se dedicar aos mais diversos aspectos da literatura, da arte e da política cultural, Mário de Andrade foi o brasileiro que mais escreveu cartas. Que faceta do trabalho de Mário de Andrade permaneceu com maior importância até a atualidade? O escritor, o poeta, o pesquisador, o gestor cultural, o professor, o mentor e maior renovador da cultura nacional no século 20?

Eneida Maria de Souza – Além de ficcionista e poeta, Mário de Andrade se destaca pela importância como construtor de um pensamento moderno brasileiro. Suas cartas são o testemunho dessa missão. Escrever para os jovens escritores, fornecendo-lhes direções poéticas, transmitir uma preocupação com os destinos da literatura e da cultura brasileiras são, talvez, o maior legado desse poeta. Um pesquisador da cultura nacional, como poucos, e o grande autor de "Macunaíma - O Herói Sem Nenhum Caráter".




E Henriqueta Lisboa, que lugar ela ocupa na literatura brasileira?

O lugar de Henriqueta Lisboa na literatura brasileira poderia ser mais valorizado, pois ela participa do movimento moderno sem ter sido modernista, ao pé da letra. Com uma linguagem concisa e depurada, sua poesia se iguala à de Cecília Meireles, uma de suas mais fortes interlocutoras. O papel desempenhado como intelectual é também relevante, por ter sido uma das primeiras mulheres a integrar a Academia Mineira de Letras, além de ter lutado pelos direitos feministas, como o direito ao voto.

Além de Henriqueta Lisboa, Mário de Andrade foi correspondente dedicado a toda uma geração de escritores, artistas, políticos e intelectuais, inclusive muitos mineiros. Depois de tantas publicações e tantas pesquisas sobre a correspondência de Mário de Andrade, ainda há muitas surpresas a serem reveladas?

Acho que ainda falta muito a ser revelado. Por exemplo, a correspondência de Fernando Sabino com Mário, de Otto Lara Resende e de tantos outros, poderá contribuir para maiores esclarecimentos sobre a relação de amizade e o respeito que mantinha com os mineiros.





Mário de Andrade em caricatura
de 1928 assinada por Emiliano
Di Cavalcanti (1897-1956). Abaixo,
reprodução da ilustração de capa
do livro Querida Henriqueta,
que reúne as cartas de Mário
para Henriqueta Lisboa, e
fac-símile de uma carta de
Di Cavalcanti enviada para
Mário de Andrade em 1930









Depois da correspondência entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa e dos ensaios reunidos em “Janela Indiscreta”, qual são seus próximos projetos em livros?

Entre os projetos destaco a publicação do "Diário de Guerra", de Guimarães Rosa, edição feita com a parceria de Reinaldo Marques e Georg Otte, que continua ainda inédita. A família do escritor não libera a publicação. Com isso, muita informação importante do escritor vai ficando esquecida, assim como confissões relativas à ascensão do nazismo, a perseguição dos judeus e a ajuda que o casal (Rosa e sua segunda mulher, Aracy Moebius de Carvalho, que ele conheceu em Hamburgo, em 1938, às vésperas da Segunda Guerra) prestou a essa causa.







 

Memórias de Mário de Andrade:
no alto, Cândido Portinari, Antônio Bento,
Mário e Rodrigo Melo Franco fotografados
no Palace Hotel, no Rio de Janeiro, em 1936.
Acima, Mário e uma geração de escritores
mineiros: de pé, a partir da esquerda, Hélio
Pellegrino, Alphonsus de Guimarães filho,
Otto Lara Resende e Alexandre Drumond;
sentados, Oscar Mendes, Mário de Andrade 
e João Etienne Filho. Abaixo, a grande amiga
e confidente de Mário, Tarsila do Amaral,
"madrinha" do Modernismo no Brasil, que
confessou em uma das cartas endereçadas
a Mário: "Eu invento tudo na minha pintura.
E o que eu vi ou senti, eu estilizo. Minha
força vem da lembrança da infância na
fazenda, de correr e subir em árvores.
E das histórias fantásticas que as
empregadas negras me contavam”





Obras de Mário de Andrade:

Há uma Gota de Sangue em Cada Poema – 1917
Paulicéia Desvairada – 1922
A Escrava que Não é Isaura – 1925
Losango Cáqui – 1926
Primeiro Andar – 1926
O Clã do Jabuti – 1927
Amar, Verbo Intransitivo – 1927
Ensaio Sobre a Música Brasileira – 1928
Macunaíma – 1928
Compêndio da História da Música – 1929
Modinhas Imperiais – 1930
Remate de Males – 1930
Música, Doce Música – 1933
Os contos de Belazarte – 1934
O Aleijadinho de Álvares de Azevedo – 1935
Lasar Segall – 1935
Música do Brasil – 1941
Poesias – 1941
O Movimento Modernista – 1942
O Baile das Quatro Artes – 1943
Os Filhos da Candinha – 1943
Aspectos da Literatura Brasileira – 1943
O Empalhador de Passarinhos – 1944
Lira Paulistana – 1945
O Carro da Miséria – editado em 1947
Contos Novos – editado em 1947
O Turista Aprendiz – editado em 1976
O Banquete – editado em 1978
Dicionário Musical Brasileiro – editado em 1989
Será o Bendito! – editado em 1992
Introdução à Estética Musical – editado em 1995


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Ao sol, carta é farol. In: ______. Blog Semióticas, 22 de setembro de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/09/ao-sol-carta-e-farol.html (acessado em .../.../...). 







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