![]() | |
Cenas de silêncio, solidão e cores fortes são as características
mais marcantes das imagens do pintor e desenhista Edward Hopper
(1882–1967). Leitor dos estudos psicológicos de Sigmund Freud e
observador realista da vida cotidiana, em uma época em que a
influência do Cubismo e da Arte Abstrata avançava nas artes
plásticas e o som dos discos, do rádio e do cinema ficava
onipresente, Hopper retratou com frequência os mesmos fragmentos de
solidão em figuras anônimas que jamais se comunicam, olhando pela
janela ou perdidas em um mundo à parte, para além do quadro, em
paisagens sempre melancólicas, iluminadas por uma luz estranha que
suas cores registram como se fosse um elemento arquitetônico de linhas finas e
formas largas.
O vazio dos cenários de Hopper tem balcões de bares e
lanchonetes, hotéis, postos de gasolina, ferrovias ou ruas no
deserto, recriados com riqueza de detalhes em casas e prédios,
fachadas, calçadas, postes, telhados, estações de passageiros,
como se cada imagem, estática, contasse uma história muito
particular sobre o cotidiano de homens e mulheres, todos solitários,
pessoas comuns, como a leitora de “Hotel Room” (1931), as
mulheres no café de “Chop Suey” (1929), o casal de “Room in
NY” (1932), os pescadores de “Ground Swell” (1939), a jovem tristonha de “Morning Sun (1952), os poucos fregueses da lanchonete
da esquina em “Nighthawks” (1942).
![]() |
No posto de destaque da Arte Moderna,
precursor da Pop Art e reivindicado por escolas muito diferentes,
Hopper se mantém como influência e referência para importantes
fotógrafos, pintores, diretores de teatro, dramaturgos, escritores e
cineastas os mais diversos, de Hitchcock a Alain Resnais, Antonioni,
George Stevens, Douglas Sirk, Elia Kazan, Nicholas Ray, Samuel
Fuller, Fassbinder, Wenders, Lynch, Terrence Malick. Mas Hopper ainda
reserva surpresas, meio século depois de sua morte, como revela a
primeira exibição de seus desenhos em Nova York, no Whitney Museum
of Modern Art.
Grafite, giz preto, carvão
“Hopper drawing” reúne uma amostra da coleção
completa com 2.500 desenhos em técnicas diversas de todas as fases
do artista, com um panorama de sua carreira como desenhista desde os
tempos em que ele era aluno do New York School of Art até os útimos
anos de vida. A coleção, doada ao Whitney pela viúva Josephine
Hopper, permaneceu inédita por tanto tempo porque o próprio Hopper
vendeu poucos deles e guardou a maioria para usar como referência.
Para a exposição, que pode ser visitada on-line (veja link no final
deste texto), os curadores, sob coordenação de Carter E. Foster,
trazem finalmente a público os rascunhos e estudos de Hopper para
espaços de ruas, bares, fachadas, quartos e estradas.
O estilo do Hopper desenhista é
econômico. Na maioria dos desenhos em exposição, pode-se mesmo
contar os traços através dos quais ele delineia suas figuras. Na
sequência dos papeis originais, Forter e equipe intercalaram lado a
lado os estudos traçados a grafite, giz preto ou carvão, que Hopper
iria transformar em muitos de seus mais conhecidos quadros a óleo,
entre eles “Early Sunday Morning” (1930), “New York Movie”
(1939), “Office at Night” (1940). Confrontados com seus desenhos
preparatórios, cada quadro ganha em complexidade e lança luzes
sobre o processo criativo do artista.
A
obra mais conhecida e também a mais valiosa da mostra, “Nighthawks”
– emprestada pelo Art Institute of Chicago –
é mostrada pela primeira vez ao lado dos 19 estudos feitos por
Hopper, no intervalo de alguns meses. Há esboços de figuras
deslocadas, como o homem que está sentado no balcão de frente, o
que está de costas, bules e açucareiros com indicações de cor
“âmbar” e “prata” escritas pelo artista. Entre estudos e
obras finalizadas, veem-se retratos, testes de diferentes partes do
corpo e até uma versão de “O tocador de pífano”, de Manet.
![]() |
![]() |
Segredos
de composição
Outra
das obras-primas de Hopper, “Soir bleu” (1914) ganha um espaço
em separado, acompanhada por dezenas de esboços feitos nas três
temporadas passadas em Paris, entre 1906 e 1910. Os desenhos em
papeis de diferentes formatos registram tipos urbanos e detalhes
captados nas ruas, que mais tarde seriam usados para compor a tela.
Comparar desenhos e esboços com a obra finalizada pode revelar
segredos de composição e perspectiva, caso de “New York movie”
e seus 52 estudos para detalhes reais dos cinemas que o artista
frequentava em Manhattan, incluindo o lanterninha de olhos fechados,
em pé, no fundo da sala, que tornou-se o foco do quadro.
Idealizada
pelo crítico de arte e curador Carter
E. Foster, a mostra “Hopper drawing”
reconstitui a formação do artista desde o início do século 20,
até sua morte, como pintor consagrado, em 1967. Para explicar esse
percurso, a primeira parte da exposição reúne imagens dos anos de
sua formação (1900- 1924), assim como suas referências e
influências. É a época em que Hopper aprendia no ateliê de Robert
Henri na New York School of Art. Aluno dedicado, Hopper estava entre
os discípulos de Henri na fundação da chamada Ashcan School
("Escola da Lixeira", literalmente).
No
texto de apresentação ao catálogo da exposição, Foster explica
que este primeiro período deixa claro o encanto de Hopper pelas
técnicas impressionistas, tanto que ele conseguiu estabelecer
temporadas para estudos em Paris, em 1906, 1909 e 1910. “Seus
desenhos desta fase são estudos para tentar reproduzir os ângulos e
a teatralização do mundo de Degas, as luzes de Félix Vallotton, a
mise-en-scène de Walter Scikert”, explica Foster.
Alienação
e isolamento
A
mostra inclui também séries de Hopper vendidas na época como material de
ilustração para jornais e revistas, que lhe garantiram o sustento
financeiro. Mas o centro das atenções no percurso é mesmo a segunda parte da
trajetória de Hopper, com a chegada de sua maturidade como artista,
quando os mais respeitados críticos de arte reconhecem que poucos
pintores conseguiram expressar tão bem a alienação e o isolamento
das pessoas nos centros urbanos como Hopper.
![]() |
![]() |
Cenas
da vida cotidiana segundo
Hopper:
abaixo,
Night Windows, pintura de 1928,
seguida
por estudo para Study for Morning
Sun, em giz sobre papel de 1952
|
![]() |
Prosaico,
corriqueiro, cotidiano, para o observador comum os cenários
retratados por Hopper poderiam estar em uma página de revista, ou
num álbum de retratos de família. Com uma diferença: as cenas de
Hopper parecem dominadas por um silêncio perturbador e remetem à
introspecção, nunca à euforia do consumismo irrefreável do sonho
americano ou às poses publicitárias que acompanham sua ideologia.
Hopper destaca o mistério e o silêncio em obras-primas como
“Nighthawks”.
Também há as controvérsias. Entre elas, a gênese curiosa que é descrita por Gail
Levin, biógrafa de Hopper. Em "Edward Hopper: An Intimate Biography" (New York: Alfred A. Knopf, 1995), ela especula que “Nighthawks” (Gaviões da
noite), divisor de águas na trajetória do artista, teve sua inspiração no quadro “Le Café de nuit a Place Lamartine” (1888),
de Vincent Van Gogh, que Hopper visitou várias vezes em 1942, durante
uma temporada de exposição em Nova York.
A similaridade nas luzes, na perspectiva e nos temas tanto na obra-prima de Van Gogh quanto na "releitura" de Hopper confirma esta possibilidade. Segundo Gail Levin, Hopper começou a pintar “Nighthawks” em janeiro de 1942, ainda sob o impacto do ataque militar dos japoneses a Pearl Harbor, no mês anterior, quando a Segunda Guerra Mundial estava no começo. Mas há algo em "Nighthawks" que vai muito além da possível influência fauvista, impressionista ou expressionista de Van Gogh.
![]() |
A similaridade nas luzes, na perspectiva e nos temas tanto na obra-prima de Van Gogh quanto na "releitura" de Hopper confirma esta possibilidade. Segundo Gail Levin, Hopper começou a pintar “Nighthawks” em janeiro de 1942, ainda sob o impacto do ataque militar dos japoneses a Pearl Harbor, no mês anterior, quando a Segunda Guerra Mundial estava no começo. Mas há algo em "Nighthawks" que vai muito além da possível influência fauvista, impressionista ou expressionista de Van Gogh.
Há as cores marcantes, o contorno das figuras realistas, mas também há uma atmosfera comovida de solidão e um sentimento de tristeza que são estranhamente retratados por Hopper. A rua
está vazia fora do restaurante. No interior, no balcão de madeira, três clientes, mas nenhum dos três está conversando uns com os outros. Todos estão
distraídos, perdidos nos seus próprios pensamentos. Dois são um casal, enquanto
o terceiro é um homem sentado sozinho, de costas para o espectador.
De boné e uniforme branco, o funcionário olha para fora da janela, como se ignorasse a presença dos clientes. Pairando sobre tudo, a iluminação noturna, a acentuar a sensação de melancolia e confinamento, somada ao vazio provocado pelas paredes do restaurante, que formam um triângulo na esquina, de vidro transparente em dois lados. Em destaque no sonho norte-americano, segundo Hopper, parece haver somente mistério e silêncio.
De boné e uniforme branco, o funcionário olha para fora da janela, como se ignorasse a presença dos clientes. Pairando sobre tudo, a iluminação noturna, a acentuar a sensação de melancolia e confinamento, somada ao vazio provocado pelas paredes do restaurante, que formam um triângulo na esquina, de vidro transparente em dois lados. Em destaque no sonho norte-americano, segundo Hopper, parece haver somente mistério e silêncio.
por
José Antônio Orlando.
Como citar:
Para comprar o catálogo editado pela Taschen, "Hopper", clique aqui.
Como citar:
ORLANDO,
José Antônio. Silêncio de Hopper. In: ______. Blog
Semióticas,
4 de junho de 2013. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2013/06/silencio-de-hopper.html
(acessado em .../.../...).
Para comprar o catálogo editado pela Taschen, "Hopper", clique aqui.
Para uma visita virtual à exposição no Whitney Museum, clique aqui.
Veja também Semióticas: Inventando a Abstração.
![]() |




























