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30 de março de 2014

Zoologia segundo Gervais







Acontece que quando você olha para um   
animal, pensa que talvez ele se lembre   
de algo que as pessoas esqueceram.   

–– Amós Oz.      




Pesquisadores da vida animal e das ciências naturais tiveram uma grata surpresa: o Biodiversity Heritage Library (BHL), consórcio de bibliotecas de História Natural, Zoologia e Botânica, criado em 2005, que reúne mais de 40 instituições de vários países, liberou na Internet, na última semana, para consulta e impressão gratuita, uma preciosidade – o lendário e até então pouco conhecido “Atlas de Zoologia”, escrito pelo paleontólogo francês François Louis Paul Gervais (1816–1879) e publicado em 1844, em Paris, pela livraria Germer Baillière.

O “Atlas de Zoologia” de Gervais inclui, além de textos minuciosos com classificações de taxonomia e anatomia, um total de 100 páginas de gravuras pintadas a mão, em policromia, reunindo cerca de 250 ilustrações científicas, produzidas em colaboração por Gervais e diversos artistas franceses na primeira metade do século 19. A edição original de 1844, agora disponível na íntegra, não traz a lista de identificação dos créditos dos autores das ilustrações, mas em algumas delas é possível reconhecer as assinaturas de Prêtre, Meunier e Vaillant.









Imagens da Zoologia segundo o
Atlas de 1844 de Paul Gervais:
no alto, a ave Dodô, também
chamada de Dronte (Raphus
cucullatus), já extinta, que
habitava as ilhas Maurício, no
Oceano Índico. Acima, a folha de
rosto da publicação, liberada para
consulta e download pela Biodiversity
Heritage Library, e o retrato de Gervais,
feito a bico de pena por autor anônimo do
século 19. Abaixo, três pássaros extintos
do Novo Mundo: o Pica-Pau do México;
o Pitylus Crysogaster do Chile; e o
Cacique montezuma, ave que habitava a
América Central. Todas as imagens abaixo
foram extraídas da edição original do
“Atlas de Zoologia” de Gervais
(veja link no final do texto)









 


Originalmente, o Atlas de Gervais fazia parte de uma série de publicações científicas da Germer Baillière, que editou em meados do século 19 cerca de 60 livros dedicados à Zoologia, à Botânica e à Paleontologia. Professor da Sorbonne e do Museu de História Natural da França, Paul Gervais também é autor de outros tratados de referência das Ciências Naturais, entre eles aquele que é considerado uma das “bíblias” da Zoologia, o catálogo taxonômico “Histoire Naturelle Des Mammiferes”, que teve sua primeira edição em 1923.



'Pai' dos Dinossauros



Pouco conhecido fora dos círculos acadêmicos, Gervais também é destacado no primeiro time da História das Ciências por diversas publicações que marcaram época, incluindo seus tratados sobre a moderna Zoologia e a Entomologia (ciência que estuda os insetos sob todos os seus aspectos e suas relações com o homem, as plantas, os animais e o meio ambiente), além de ter sido um dos primeiros a se dedicar com sucesso aos estudos da Paleontologia.










Zoologia segundo Gervais: aves
que eram muito comuns no século 19
e que hoje estão na lista das espécies
muito raras e ameaçadas de extinção:
a partir do alto, a Colin ou Perdiz da
Califórnia, que era encontrada no Oeste
dos EUA; o Tangará (Chiroxiphia caudata),
pássaro da fauna sul-americana que habitava
as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil;
e a Apteryx (Apteryx australis), ave
da Austrália e da Nova Zelândia


Ao pioneiro Paul Gervais também é atribuído o mérito de ter sido um dos primeiros a usar de forma científica o conceito de “Dinossauros” – termo derivado da expressão em grego para “lagartos terríveis”, proposto em 1842 por Richard Owen para classificar os esqueletos de répteis de grande porte já extintos, descobertos naquela época em áreas ermas do Reino Unido.

Além de Richard Owen, Paul Gervais divide o título de “pai” dos Dinossauros, em sua concepção científica, com seus contemporâneos William Buckland (o primeiro a publicar a descrição anatômica de um Dinossauro, o Megalossauro, em 1824) e Gideon Mantell, que havia descoberto em 1822 um fóssil gigantesco de um Iguanodonte. 




 





Zoologia segundo Gervais: a partir
do alto, o Thylacine (Thylacinus
cynocephalus), mais conhecido como
Tigre da Tasmânia, que habitava a
Austrália e ilhas do Oceano Pacífico,
foi extinto no século 20; o Diabo ou
Demônio da Tasmânia (Sarcophilus
harrisii), que habitava a Austrália e suas
ilhas, hoje restrito a uma área de pequena
extensão, protegida, na Tasmânia; e o
Coala (Phascolarctos cinereus),
mamífero marsupial, que tem registro
no Atlas de 1844 com diferenças
radicais em relação ao aspecto da 
espécie que atualmente é encontrada
apenas em zoológicos e áreas de
proteção no Sul da Ásia e Austrália.
Abaixo, um felino já extinto e pouco
conhecido, de grande porte, que
habitava áreas extensas da região
Centro-Oeste do Brasil, descrito no
Atlas de Gervais como Felis elegans







Os tratados de Gervais sobre Zoologia e Paleontologia também foram fundamentais para outros grandes cientistas do século 19, especialmente para o inglês Charles Darwin e para o dinamarquês Peter Wilhelm Lund – naturalista que em meados do século 19 veio da Europa para se dedicar à pesquisa de campo no Brasil, trabalhando em mais de 200 cavernas de Minas Gerais, na região de Lagoa Santa, e descrevendo 115 espécies de animais, na maioria extintos há milênios, entre eles o célebre Tigre de Dentes de Sabre (Smilodon populator).



Extintos nos últimos séculos e décadas



O livro original de Gervais inclui animais que sobreviveram até nossos dias, mas o que mais impressiona é que muitos deles, a maioria, foram extintos nos últimos séculos e nas últimas décadas, entre eles o pássaro Dodô, que habitava as Ilhas Maurício, no Oceano Índico, os famigerados Tigre da Tasmânia (felino) e Diabo ou Demônio da Tasmânia (marsupial), além de muitas espécies de pássaros e mamíferos que habitavam grandes extensões do território brasileiro.

Além da tragédia da extinção, que se agravou nas últimas décadas, uma observação atenta da maior parte das ilustrações provoca nos cientistas e também nos leigos algumas dúvidas difíceis de serem esclarecidas, entre elas as diferenças marcantes entre espécies desenhadas nas ilustrações do Atlas de 1844 e sua aparência tal como os conhecemos na atualidade. 










Outros mamíferos extintos após
a primeira edição do Atlas de
Gervais: no alto, o Semnopithecus
flavimanus, que habitava a Indonésia
até o final do século 19 e começo do
século 20; os antigos cães selvagens
da África; e dois de mamíferos da
Austrália, o Musaraigne e o
Myrmecobie. Abaixo, outro
marsupial já extinto: o Phalangista
ursina, que habitava a Indonésia e a
Austrália; três espécies de aracnídeos
peçonhentos que habitavam países do
continente europeu, também extintos
no século 20; e a Piramboia
 (Lepidosiren paradoxa), peixe
pulmonado ósseo muito raro, que
atualmente é encontrado apenas em
áreas restritas da Bacia Amazônica 
e em regiões pantanosas das
Américas Central e do Sul 

 
 
A pergunta mais frequente sobre alguns dos animais retratados pelas ilustrações do Atlas de 1844 diz respeito à aparência atual de muitos pássaros, felinos e marsupiais que ainda sobrevivem: teriam estas espécies passado por tantas e tão radicais transformações no decorrer dos últimos dois séculos ou os autores das ilustrações do Atlas de Gervais tomaram certas “liberdades artísticas” para a elaboração dos traços dos desenhos?

Além de sua importância para pesquisadores de várias áreas das ciências, o “Atlas de Zoologia” de Gervais também apresenta um grande interesse para o público leigo pela beleza das ilustrações – motivo pelo qual a divulgação recente pela imprensa da liberação, para consulta e download da íntegra do catálogo, provocou uma avalanche de acessos para o portal na Internet do Biodiversity Heritage Library, com ocasionais panes e travamentos do sistema. Além do Atlas de 1844 de Gervais, o consórcio científico BHL também apresenta milhares de publicações históricas originais e relatórios recentes sobre biodiversidade, totalizando mais de 100 mil volumes ilustrados, todos abertos para consulta pública e download gratuitos.



por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Zoologia segundo Gervais. In: ______. Blog Semióticas, 30 de março de 2014. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2014/03/zoologia-segundo-gervais.html (acessado em .../.../...).




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5 de janeiro de 2014

Tribos do fim do mundo









O inglês Jimmy Nelson apresentou ao público em livro e site um acervo fascinante: centenas de fotografias que registram as tribos mais remotas nos cinco continentes do Planeta Terra. São imagens estranhas e belíssimas do projeto “Before They Pass Away” (Antes que desapareçam), iniciado pelo fotógrafo em 2009 com a meta de visitar 31 tribos isoladas nos confins que mantêm suas tradições através de pouco ou nenhum contato com a “civilização” do resto do mundo.
Em 2009 eu decidi colocar em prática um antigo sonho de visitar as tribos mais isoladas em todos os continentes para registrar cenas de suas vidas cotidianas, suas tradições milenares, participar de seus rituais e alertar para o perigo de que o mundo 'civilizado' pode levar muito em breve estes povos indígenas e sua cultura à extinção”, relata o fotógrafo na apresentação do projeto.

As fotos da primeira etapa de "Before They Pass Away", registro das 13 excursões de Jimmy Nelson e sua equipe às tribos mais isoladas em 44 países, acabam de ser reunidas por ele em um site aberto ao público e um livro – na verdade um luxuoso catálogo fotográfico de 464 páginas, 500 imagens e textos em inglês, alemão e francês. O livro está à venda exclusivamente no site do fotógrafo (veja links no final deste texto). A próxima etapa do projeto, segundo Jimmy Nelson, é transformar os registros em um documentário para cinema.










Tribos do fim do mundo segundo
o fotógrafo Jimmy Nelson: no alto,
guerreiro da tribo Masai na Tanzânia.
Acima, o fotógrafo em ação, no
território da tribo Huli, em Papua,
Nova Guiné, a capa do catálogo e a
rota das expedições de Jimmy Nelson
por 44 países, e pontos de partida para
territórios isolados, iniciada em 2009.
Abaixo, guerreiros da tribo Yali,
na Indonésia, em fotografia de 2010





Histórico de massacres



Meu objetivo, desde o início do projeto, foi criar através das fotografias um documento estético ambicioso que pudesse resistir ao teste do tempo. O resultado é que acabei por reunir um grande acervo de registros insubstituíveis de um mundo que está desaparecendo muito rapidamente”, explica o fotógrafo, que entre o início de 2009 e o final de 2010 passou duas semanas em cada uma das diferentes tribos.

A meta inicial era registrar 31 tribos, mas no total foram visitadas 29. Duas das tribos, situadas na Amazônia do Brasil, por causa da legislação em vigor não puderam ser visitadas pelo fotógrafo e sua equipe. Em cada uma das tribos contactadas nos 44 países, as fotos de Jimmy Nelson revelam belezas e surpresas que incluem os cenários naturais incomuns e as antigas tradições pouco conhecidas – como os elementos culturais de vestimentas, animais exóticos domesticados, alimentação, cerimônias festivas e rituais religiosos. 









Tribos do fim do mundo: no alto,
guerreiros da tribo Vanuatu nas
pequenas ilhas do arquipélo da
Melanésia, no Oceano Pacífico,
seguidos por guerreiros da tribo
Samburu, no Quênia, África, e pela 
tribo Kalam em Papua, Nova Guiné.
Abaixo, guerreiros nômades da tribo
Masai no Parque Nacional de Seringeti,
ao norte da Tanzânia, África, com extensas
planícies que abrigam a maior migração
de mamíferos do planeta Terra; e um
chefe e seus dois filhos do povo Mursi,
nas montanhas isoladas ao sudoeste
da Etiópia, na África






 





O fotógrafo explica que ninguém sabe ao certo quantas tribos isoladas ainda existem atualmente. Os informes oficiais indicam que há pelo menos 100 – a maioria delas situada na Amazônia e nas ilhas dos oceano Índico e Pacífico, na região de Nova Guiné. Também há registros de tribos isoladas no Peru e em todos os países da área da floresta amazônica, assim como nas regiões mais ermas da Índia, da Malásia e da África Central.

No Brasil, os levantamentos da Funai identificaram nos últimos anos pelo menos 77 povos indígenas isolados nas regiões Norte e Centro-Oeste. Entre eles, estão os povos não-contactados, realmente desconhecidos, e também os “isolados voluntariamente”, aqueles que resistem a qualquer aproximação devido a contatos violentos no passado que resultaram em massacres de tribos inteiras.








Registros de Jimmy Nelson sobre
as tribos do fim do mundo: no alto,
mulheres Maori, tribo que há muitos
séculos habita a Nova Zelândia.
Acima, os Dropka, tribo da Índia,
e a tribo Bana, na Etiópia. Abaixo,
tribo Iatmul em Papua, Nova Guiné,
e os guerreiros Samburu no Quênia





.


.


O perigo mortal do contato


Mas nem só de elogios foi a recepção do projeto de Jimmy Nelson. Entidades como a Survival Internacional, que tem sede em Londres e atua na defesa dos direitos das populações indígenas, alertam que os contatos com as tribos isoladas sempre representam um perigo mortal, pela violência do próprio contato ou por consequências imprevisíveis como a propagação de doenças “civilizadas”: um simples vírus que provoca uma gripe sem gravidade pode dizimar tribos inteiras em poucos dias.

Há também quem acuse Jimmy Nelson de buscar promoção pessoal repetindo o trabalho já realizado por outros fotógrafos, como o brasileiro Sebastião Salgado. Os mesmos povos e as mesmas regiões isoladas do planeta que Salgado vem fotografando há uma década para o projeto Gênesis, em impecável preto-e-branco, agora surgem em cores vibrantes no projeto de Jimmy Nelson.
 







O fotógrafo Jimmy Nelson em 2010,
fotografado no Tibete, e em 2009 com
crianças da tribo Goroka, na Indonésia.
Abaixo: 1) nativos das Ilhas Marquesas,
um dos cinco arquipélagos da Polinésia
Francesa, em áreas remotas do Oceano
Pacífico; 2) o fotógrafo em ação, na África,
acompanhando mulheres da tribo
Himba no deserto da Namíbia;
3) meninos brincando na tribo Karo,
na Etiópia; 4) a família de esquimós
da tribo Nenets, em uma região
remota da Sibéria, ao norte da Rússia











Alheio às críticas e às polêmicas, Jimmy Nelson anuncia em seu site que o projeto "Before They Pass Away" vai continuar e que já estão sendo planejadas novas expedições às regiões mais inóspitas da Terra. Um detalhe interessante é o equipamento usado por Jimmy Nelson: uma antiga câmera 4 X 5 e negativos de grande formato que estão há décadas fora do mercado e que a maioria dos profissionais considera obsoletos.

“O ser humano é muito parecido em qualquer lugar, nas cidades, nas montanhas, nos campos de gelo, na selva, ao longo dos rios e nos vales silenciosos que se perdem de vista no horizonte”, explica o fotógrafo, relatando que em muitos casos ele sabia que estava diante dos últimos membros de cada tribo. “Meu trabalho pode contribuir para que o mundo nunca esqueça a forma como as coisas eram”, conclui.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Tribos do fim do mundo. In: ______. Blog Semióticas, 15 de janeiro de 2014. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2014/01/tribos-do-fim-do-mundo.html (acessado em .../.../...).



Para visitar o site oficial do fotógrafo  Jimmy Nelson,  clique aqui.


Para comprar o catálogo fotográfico  Before They Pass Away,  clique aqui.












16 de outubro de 2012

Lista vermelha da extinção







Provavelmente todos os seres orgânicos que já viveram
nesta terra descenderam de uma única forma primordial,
na qual a vida foi primeiramente soprada pelo Criador.

–– Charles Darwin  





O aumento do desmatamento na Amazônia colocou mais de 200 espécies e subespécies de animais e pássaros em risco maior de extinção, segundo a União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, sigla em inglês). Os dados pessimistas, que fazem parte do relatório de atualização da lista vermelha de espécies ameaçadas em todo o planeta, foram apresentados em Hyderabad, na Índia, onde ocorre desde 8 de outubro a 11ª Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP11), megaevento que reúne Chefes de Estado e ministros de 170 países, incluindo o Brasil, para avaliar o progresso em direção às metas para proteger a vida na Terra.

Entre os relatórios internacionais impactantes apresentados em Hyderabad está a lista de espécies declaradas oficialmente extintas neste começo de século e de milênio. São 10 espécies, incluindo dois pássaros da Amazônia brasileira, o João-de-barba-grisalha (Synallaxis kollari) e o Chororó-do-rio-branco (Cercomacra carbonaria), e o lendário Demônio da Tasmânia (Thylacinus cynocephalus). A única esperança para evitar a completa extinção é que, pelo fato de terem sumido da natureza há pouco tempo, alguns espécimes possam ter sobrevivido em zoológicos, centros de pesquisa ou locais ermos pelo mundo afora.

A conferência das Nações Unidas, concebida para proteger os recursos naturais do planeta, começou com o impacto das listas de espécies em extinção e muitos apelos para assegurar que a biodiversidade não se torne uma vítima da crise financeira global. Segundo a Agência Brasil, os delegados brasileiros e de outros países que participam da reunião de cúpula da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), um dos tratados resultantes da Cúpula da Terra, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, alertam que o mundo tem apenas uma década para evitar uma extinção generalizada das espécies, que também representa uma ameaça real e terrível para a Humanidade.







Lista vermelha da extinção: no alto,
nativos do Zimbawe, na África, posam
com um crocodilo gigante caçado pela
tribo no início de 2012 (AP Photo).
Acima, registro de queimada em setembro
de 2012 na Amazônia e mais um massacre
que tem se tornado corriqueiro: uma
carga clandestina de mais de 400 filhotes
de papagaios de uma subespécie
desconhecida, a maior parte morta durante
a viagem, apreendida pela polícia em
outubro de 2012 em um veículo no
interior de São Paulo. Abaixo, uma
revoada de periquitos na Amazônia
fotografada em janeiro de 2012 por
Tim Laman para a edição internacional
da revista National Geographic 



  


Os números, compilados a cada quatro anos pela União Internacional pela Conservação da Natureza, são impressionantes: quase a metade das espécies de anfíbios, um terço dos corais, um quarto dos mamíferos, um quinto de todas as plantas e 13% das aves do planeta correm risco de extinção, segundo a “Lista Vermelha” das espécies ameaçadas. A relação incluiu 402 espécies na categoria "ameaçado de extinção", totalizando 20.219. A lista completa tem 65.518 espécies, considerando outras categorias, como "quase ameaçado" e "extinto".

A última conferência da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), celebrada em Nagoya, no Japão, havia adotado em 2010 um plano mundial para reverter a perda da biodiversidade até 2020. Mas, desde então, tem sido difícil para os comitês e emissários da ONU levantar centenas de bilhões de dólares necessários para financiamentos. Especialmente nos dias atuais, em que os países desenvolvidos estão às voltas com quadros de crise econômica.


Criticamente ameaçados


Entre as muitas espécies da Amazônia incluídas na “lista vermelha” está o Chororó-do-rio-branco (Cercomacra carbonaria), marcado como “próximo da extinção”. De acordo com a associação internacional BirdLife, a espécie ocupa áreas muito pequenas entre o Brasil e a Guiana. As maiores ameaças são a construção de novas estradas em seus habitats para servir à economia de gado e soja. De acordo com projeções atuais, estes habitats terão desaparecido completamente em 20 anos.

O BirdLife também rebaixou o João-de-barba-grisalha (Synallaxis kollari), da mesma região de Rio Branco, na Amazônia, de “ameaçado” para “criticamente ameaçado.” A organização afirma que o pássaro tem apenas 206 quilômetros quadrados de habitat adequado e eles podem encolher 83,5% nos próximos 11 anos. O relatório culpa o enfraquecimento do Código Florestal do Brasil pela taxa de desflorestamento na Amazônia e em todo o território brasileiro.






Dois pássaros brasileiros na
lista vermelha criada pelo
BirdLife, que indica situação
irreversível de extinção. Acima, o
Chororó-do-rio-branco. No alto,
João-de-barba-grisalha







A “lista vermelha” do BirdLife cobre mais de 10 mil espécies de pássaros no mundo, 197 dos quais aparecem como “criticamente ameaçadas”. Além disso, 389 aparecem como ameaçadas, 727 como vulneráveis e 800 como “quase ameaçadas”. Apenas uma espécie da lista melhorou sua condição na atualização: um dos pássaros mais raros do mundo, o Pomarea (Pomarea dimidiata), avançou de “ameaçado” para “vulnerável”. Endêmico nas Ilhas Cook, no Pacífico Sul, tinha apenas 35 indivíduos em 1983. Esforços de conservação, incluindo programas de criação em cativeiro e remoção de predadores, aumentaram a população para 380 indivíduos.


Origem das espécies


Na época em que o termo "ecologia" foi descrito pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834–1919) no seu livro “Generelle Morphologie der Organismen” (1866), para designar o estudo das relações entre os seres vivos e o ambiente em que vivem, o mundo natural considerado estático e sem mudanças desde a criação original já havia sido questionado pelo estudo genial do naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809–1882). A teoria de Darwin ainda hoje soa como revolucionária, mas ele conseguiu convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução ao reunir algumas hipóteses para explicar seu raciocínio sobre como o processo aconteceu durante milhares de milhões de anos. Segundo Darwin, a evolução, ao passo da seleção natural, deu origem à diversidade de espécies vegetais e animais pelos quatro cantos do planeta Terra.





Charles Darwin e o percurso da viagem
 de pesquisa no século 19, a bordo do barco
inglês HMS Beagle. Abaixo, iguana no
parque dedicado à memória de
Charles Darwin nas Ilhas Galápagos,
no Oceano Pacífico, território do
Equador, fotografada por David Braun








Em seu livro de 1859, "A Origem das Espécies” (em inglês, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life), Darwin introduziu ideias que, em sua época e no século seguinte, levariam a comunidade científica a perceber que as novas descobertas do naturalista acabavam com a importante distinção entre homem e animais. Em paralelo a outras revoluções científicas em curso em seu tempo, o naturalista inglês marcou um capítulo dos mais fundamentais na civilização contemporânea.

Mais de 150 anos depois da publicação dos estudos revolucionários de Darwin, a lista atualizada de animais definitivamente extintos coloca em evidência o maior desafio que se impõe em nossos dias à espécie humana: a preservação da vida no planeta Terra. A lista de animais e plantas ameaçados de extinção é extensa e potencialmente infinita, ainda que mídia e opinião pública concentrem alguma referência somente em baleias, ursos polares e pandas. Veja, na listagem abaixo, alguns tristes registros de espécies que entraram para a “lista vermelha” da extinção.



Extintos no século 20





Rinoceronte Negro   Subespécie que teve por habitat Camarões, na África Ocidental, o Rinoceronte Negro Africano (Diceros bicornis longipes) foi oficialmente declarado extinto em 2011. O motivo: caça implacável para a venda de seus chifres no mercado negro. Aos chifres são atribuídas propriedades terapêuticas e afrodisíacas, embora não haja comprovação científica.





Tartaruga Gigante de Galápagos   Última das tartarugas gigantes (subespécie Chelonoidis nigra abingdon) que dão nome às Ilhas Galápagos, do Equador, o mundialmente famoso Jorge Solitário morreu em junho de 2012, aos 100 anos de idade. Outras espécies de tartaruga da ilha também estão sob risco, devido à baixa taxa de crescimento da população, a maturidade sexual tardia e o endemismo da espécie.

 





Tigres ou Lobos da Tasmânia em
fotografias do Zoológico de Hobart,
Austrália, datadas da década de
1930. Acima, exemplar mumificado 
atualmente em exibição na
Universidade de Sidney



Tigre da Tasmânia –  Nativo da Austrália e da Nova Guiné, o Tilacino (Thylacinus cynocephalus), mas conhecido como Tigre ou Lobo da Tasmânia (não confundir com o Diabo da Tasmânia ou Demônio da Tasmânia, animal feroz retratado como Taz no desenho animado da TV, que é parente dos ursos e que também está ameaçado de extinção) é considerado o maior marsupial conhecido dos tempos modernos. Foi extinto pela ação indiscriminada de caçadores e perda de habitat devido à ocupação humana. O animal tinha locomoção firme e um tanto esquisita, impossibilitando-o de correr em alta velocidade. Podia também realizar um salto bípede, de uma forma similar à do canguru. Os últimos exemplares morreram no Zoológico de Hobart, na Austrália, em 1936, mas apesar de ser oficialmente classificado como extinto, ainda há relatos de avistamentos em áreas mais ermas da Austrália.





Bucardo –  A subespécie de cabra Bucardo (Capra pyrenaicatem) tem uma das histórias mais interessantes entre os animais extintos, uma vez que foi a primeira espécie a ser “ressuscitada” por meio de clonagem, em 2003, morrendo apenas sete minutos depois de seu nascimento por insuficiência pulmonar. Era natural da cordilheira dos Pireneus, entre Andorra, França e Espanha. Sua população foi reduzida devido a uma perseguição lenta, mas contínua. No final da década de 1980, a população foi estimada entre 6 e 14 indivíduos. O último a nascer naturalmente morreu em 6 de janeiro de 2000, aos 13 anos.




Pardal Marinho  –  Subespécie não migratória encontrada no sul da Flórida, nas salinas naturais de Merritt Island e ao longo do rio St. Johns. O último Pardal Marinho (Ammodramus maritimus nigrescens) morreu em 17 de junho de 1987, mas só em 1990 o animal foi declarado oficialmente extinto. A população começou a declinar em 1940, quando as autoridades locais passaram a pulverizar a região pantanosa com pesticida, para controle dos mosquitos. O veneno contaminou a cadeia alimentar das aves, que gradativamente entraram em extinção.




Foca-monge do Caribe  –  Espécie descoberta por Cristóvão Colombo em sua segunda viagem à América, em 1494, a Foca-monge do Caribe foi declarada oficialmente extinta em 1952. Sobre ela escreveu Colombo: “Descobri um tipo maravilhoso de foca. São médias, tímidas e aparentemente têm boa pele, o que dá pra fazer casacos”. Daí em diante, o animal foi explorado como fonte de alimento (sua banha também era usada para iluminação e lubrificação) e para o comércio de peles. Desapareceu completamente a partir de 1952.





Huias  –  Nativas da Nova Zelândia, essas aves de plumagem preta, com a ponta das asas e cauda branca, papos laterais de cor laranja, foram extintas pela caça desenfreada. O exotismo das Huias (as fêmeas tinham bicos longos e curvados enquanto nos machos eles eram radicalmente curtos) e de outras espécies locais levaram os exploradores britânicos a fomentar a crença de que toda a flora e a fauna da colônia neozelandesa eram ruins e deveriam ser substituídas por variedades dos países europeus. O último registro visual confirmado de uma Huia ocorreu no final da década de 1970. 




.




Caça ao tigre: lazer e aventura
dos "nobres" e da aristocracia
da Europa, em viagens pelas
colônias do Oriente, era praticada
desde meados do século 19


Tigres de Java  –  Subespécie imponente, o maior dos felinos vivia na ilha indonésia de Java. No início do século 19, eram tão comuns em algumas áreas que chegaram a ser considerados pragas e tornaram a ilha um tabu para navegadores e colonizadores do Ocidente. Com o aumento da população humana, a maior parte da ilha tornou-se área de cultivo, resultando em uma redução grave no habitat natural do animal. Para se livrar do perigo, os homens caçavam os tigres. Os safáris de matanças, com o passar do tempo, seriam transformados em programa requintado de lazer e aventura para a aristocracia da Europa na ilha e nas demais colônias do Oriente. O último Tigre de Java foi morto no final do ano de 1972.


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Lista vermelha da extinção. In: ______. Blog Semióticas, 16 de outubro de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/10/lista-vermelha-da-extincao.html (acessado em .../.../...).










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