sábado, 20 de dezembro de 2014

Natal surreal de Salvador Dalí







Não há nenhum vestígio real, 
bem entendido, de anjos, de riqueza 
ou de liberdade. Apenas imagens.


––  Walter Benjamin em "O surrealismo, último
instantâneo da inteligência europeia" (1929).




Duas coleções de cartões de Natal criadas por Salvador Dalí (1904-1979) são as mais recentes novidades do acervo da Fundação Gala-Salvador Dalí com sede na Espanha. As obras foram incluídas no Catálogo Raissoné, que é a publicação completa dos trabalhos oficiais do artista, depois de aprovadas por especialistas que passaram anos entre avaliações e laudos técnicos. Uma das coleções, com as aquarelas criadas por Dalí sob encomenda, na década de 1950, para a editora norte-americana Hallmark, permanecia inédita. A outra coleção reúne aquarelas e ilustrações feitas entre 1958 e 1976 para os cartões de Natal que a empresa farmacêutica Hoechst Ibérica enviava a seus clientes a cada final de ano.

As obras que chegaram ao Catálogo Raissoné são surpreendentes e polêmicas, como sempre, em se tratando da arte de Dalí. “A diferença entre os surrealistas e eu é que eu sou surrealista” – costumava dizer, em estado de provocação, o mestre Salvador Domingo Felipe Jacinto Dalí i Domènech, 1º Marquês de Dalí de Púbol. Dalí sempre teve a seu favor uma técnica de pintura extraordinária, com habilidade e domínio criativo tão grandes quanto sua loucura e originalidade, e atravessou o último século influenciando artistas de todas as tendências e nacionalidades, da brasileira Tarsila do Amaral ao norte-americano Andy Warhol, entre muitos e muitos outros.





As imagens do Natal surreal segundo
Salvador Dalí: no alto e acima,
o artista fotografado em seu castelo
em Cadaqués, Espanha, no Natal de
1970, pelo turco Ara Güller. Abaixo,
dois cartões de Natal criados por Dalí,
sob encomenda, para a empresa
farmacêutica Hoechst Ibérica (“O Anjo
de Natal”, 1967) e para a editora 
Hallmark na década de 1950








Dalí também merece destaque, entre os mestres da arte no século 20, como um dos que mais produziram, segundo apontam seus mais importantes biógrafos, Robert Descharnes e Gilles Néret. Suas obras, disputadas pelos grandes museus, estão em sua maioria nas coleções do Museu Salvador Dalí em Saint Petersbourg, na Flórida, Estados Unidos, e na Fundação Gala-Salvador Dalí, na Espanha. A fundação, criada pelo próprio Dalí, em 1983, administra três museus na Catalunha: a sede, em Figueras, e as duas residências de Dalí e Gala, sua esposa e musa inspiradora desde 1929, transformadas, após a morte do artista, no Teatro-Museu Dalí, também em Figueras, e no Museu Port Lligat, em Cadaqués.



Uma trajetória de polêmicas



O acervo do Catálogo Raissoné das obras de Dalí conta, entre suas peças mais valiosas, com mais de 1.500 quadros que se inscrevem entre as mais celebradas e reproduzidas pinturas do último século. Também fazem parte do acervo completo mais de uma centena de esculturas, milhares de desenhos e ilustrações sob encomenda para livros e revistas, cartazes publicitários, obras realizadas em colaborações e parcerias para teatro e cinema, cartas e manuscritos autobiográficos, séries de performances em fotografias, entrevistas e vários outros projetos.





Os cartões de Natal segundo
a arte de Salvador Dalí: acima,
a Sagrada Família em aquarela
criada para a Hallmark na década
de 1950. Abaixo, variações para as
árvores de Natal nas ilustrações criadas
para a Hoechst Ibérica, a primeira
em 1958 e as duas seguintes em 1968









Dalí foi muito criticado no século passado por conta de sua dedicação ao “irracional” e por suas posições políticas reacionárias, entre elas o apoio ao general Francisco Franco, que chegou ao poder no rescaldo da Guerra Civil Espanhola. Contudo, passou ileso pelas incontáveis polêmicas e continua em evidência, como uma autêntica celebridade, quase 30 anos depois de sua morte, com as exposições de suas obras sempre atraindo multidões e batendo recordes de público pelo mundo afora.

A trajetória de controvérsias e provocações de Dalí teve início nas primeiras décadas do século 20, com a expressão radical de suas obras que firmou o conceito de Surrealismo nas artes plásticas. No final da década de 1930, entretanto, ele foi expulso do grupo dos surrealistas da Europa pelo poeta e mentor do “Manifesto Surrealista” (1924), André Breton – que passaria a se referir ao desafeto como “Avida Dólares” (ávido por dólares), um anagrama perfeito para o nome Salvador Dalí.





O Natal segundo Salvador
Dalí em aquarelas criadas
para os cartões da Hoechst
Ibérica: acima, Felicitación
de Navidad Astronautica, de
1962, reflete o impacto que as
notícias sobre os primeiros voos
espaciais exerceram no artista.
Abaixo, variações para as árvores
de Natal em ilustrações criadas
em 1967, 1971 e 1970 
 









A grande arte: caos e criação



Depois do rompimento com os surrealistas, Dalí e Gala partiram em 1940, rumo aos Estados Unidos, para prestar serviços em Hollywood e “comercializar” sua produção em artes plásticas (veja mais em Semióticas: Alice volta ao futuro). A temporada de uma década na América foi brilhante e também polêmica, como tudo o que se refere à obra do mestre surrealista. De volta, com Gala, à sua terra natal, Figueras, na Catalunha, Espanha, na década de 1950, Dalí iria diversificar cada vez mais seus projetos – incluindo, entre eles, as séries de aquarelas e ilustrações para cartões de natal criadas sob encomenda.

Pelo que relatam Robert Descharnes e Gilles Néret, nas biografias e catálogos publicados pela Taschen (“Dalí – A Obra Pintada” e “Salvador Dalí – A Conquista do Irracional”), Dalí produziu 19 aquarelas e ilustrações para os cartões de Natal produzidos pela empresa farmacêutica Hoechst Ibérica, entre 1958 e 1976. Os cartões foram impressos em formato de 10,04cm X 6,93cm e enviados, a cada final de ano, para médicos e profissionais de saúde. Atualmente, estes cartões originais com as ilustrações de Dalí são relíquias valiosas, disputadas por colecionadores.





O Natal surreal de Salvador
Dalí: acima, a homenagem a
Don Quijote em cartão criado
para a Hoechst Ibérica em
1960. Abaixo, homenagem a
Las Meninas, célebre pintura
de 1656 de Diego Velázquez,
no cartão criado em 1961, e a
árvore de Natal no cartão de 1974







As imagens da série sob encomenda para a Hoechst Ibérica não foram as únicas criadas por Dalí com temas de Natal. Ele também criou cartões de Natal exclusivos para amigos e colaboradores como Enrique Sabater, seu secretário particular a partir de 1969. Há ainda uma série de pinturas em óleo sobre tela, criada entre 1964 e 1967, com variações sobre imagens de São José e da Virgem Maria com o Menino Jesus. Como quase tudo que o mestre produziu, são pinturas que também impressionam, talvez porque, mesmo representando o tema religioso, a série, batizada de “Iesu Nativitas” (Natal, em latim), revela imagens que fogem ao lugar-comum da tradição das cenas de Natal.

Também na década de 1950, Dalí criou outra coleção de ilustrações do Natal por encomenda para um projeto da editora Hallmark. Todas as imagens, no entanto, foram consideradas pelos executivos da empresa “surreais” em excesso e terminaram rejeitadas, não sendo comercializadas no formato de cartões, como antes estava previsto, e permaneceram inéditas.

Além dos cartões para a Hoechst Ibérica e para a Hallmark, Dalí também criou outras ilustrações natalinas sob encomenda para revistas e para anúncios publicitários. Alguns destes trabalhos já estavam no catálogo de suas obras-primas, caso das pinturas e aquarelas que tiveram versões publicadas em dezembro de 1948 na capa da revista “Vogue” norte-americana e dos anúncios de publicidade para as meias de nylon da marca Bryans, publicadas na edição de Natal da “Harper's Bazaar”, também em 1948.






Cartões de Natal segundo Salvador
Dalí: acima, o cartão criado em 1969
para presentear seu secretário
particular, Enrique Sabater.
Abaixo, a Virgem Maria e Jesus
 em aquarela criada para o cartão
da Hoechst Ibérica em 1960






As estranhas simetrias



Nas pinturas, desenhos e ilustrações com os temas de Natal criados por Salvador Dalí, existe a inevitável persistência de determinados símbolos que percorrem toda a sua trajetória: no lugar dos típicos cenários de neve, de pinheiros verdejantes, de laços e bolas coloridas, as imagens natalinas do mestre surrealista representam outros elementos, com sugestões arquitetônicas e formas geométricas em estranhas simetrias de corpos femininos, além dos adornos propositalmente incomuns que provocam saborosas ilusões de ótica e remetem a polêmicas que marcaram época.

O Natal surreal de Dalí é repleto de analogias que fogem dos limites da religiosidade e avançam em aproximações com o abstrato, o irreal, o sonho. Mesmo quando o que está representado é a Sagrada Família, formada por São José, a Virgem Maria e o Jesus Cristo recém-nascido, a imagem vai revelar outras simetrias – com cores imprevistas, com fragmentos de peixes e insetos, com anjos e árvores delineados em forma de ambiguidades, às vezes bizarras, e também com figuras lendárias da história da arte e da literatura, como a Infanta Margarita Teresa, imortalizada em “Las Meninas”, pintura de 1656 de Diego Velázquez, ou o Don Quijote de la Mancha criado por Miguel de Cervantes no livro de 1600.






O Natal surreal de Salvador
Dalí: acima, adaptação da ilustração
do artista na capa da revista Vogue,
em dezembro de 1948. Abaixo,
a mesma ilustração nas duas
versões originais criadas por Dalí








O próprio Dalí declarou muitas vezes que a irracionalidade e o apelo ao universo do pensamento onírico sempre foram os princípios condutores de todo o seu processo criativo. Em dois dos documentários que ele realizou, em parcerias com o fotógrafo Philippe Halsman (“Chaos and Creation”, 1960) e o cineasta Jack Bond (“Dalí in New York”, 1965), Dalí explica, com muitos exemplos e em mínimos detalhes, as etapas de seu processo de criação, condenando toda arte que esteja pautada sobre as regras da tradição e do “bom gosto”.






O Natal surreal segundo Dalí:
acima, o anúncio publicitário
para as meias de nylon da marca
Bryans, publicado em dezembro de
1948 pela revista Harper's Bazaar.
Abaixo, uma pintura de 1967 e
duas de 1964, da série intitulada
Iesu Nativitas, e Dalí homenageado
em dezembro de 2013 na escadaria
do Philadelphia Museum of Art,
nos Estados Unidos













A tradição da ruptura



No filme em parceria com o fotógrafo Philippe Halsman, seu mais fiel colaborador desde a década de 1940, Dalí volta às suas declarações polêmicas da época do rompimento com o grupo surrealista (“a diferença entre os surrealistas e eu é que eu sou surrealista”) para avaliar os avanços que a Arte Moderna e o Surrealismo proporcionaram ao século 20, em influências que segundo ele vão do comportamento individual e coletivo às questões de ciência e tecnologia. Ao final, o artista das controvérsias e das polêmicas apresenta uma conclusão profética que permanece extremamente atual, depois de mais de 50 anos:

O Surrealismo irá, pelo menos, ter servido para provar que a esterilidade e as tentativas de automatizações foram longe demais e ainda correm o sério risco de conduzir toda arte e toda civilização a um único sistema totalitário", alerta. Não resta nenhuma dúvida: o provocador Salvador Dalí permanece como um daqueles grandes mestres, raros e visionários, que sempre surpreendem.


por José Antônio Orlando.



Para comprar o catálogo Taschen Dalí, A Obra Pintada,  clique aqui.






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 Para uma visita ao acervo da Fundação Gala-Salvador Dalí, clique aqui.






8 comentários:

  1. Uau, José! Encontrei matérias maravilhosas e ilustrações de tirar o fôlego aqui no Semióticas, mas esta história do Natal de Dalí é a melhor de todas elas. Que espetáculo!

    Fernando Cabral

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  2. Parabéns por mais este ensaio sensacional. Seu texto, que é de uma clareza invejável, e esta linda seleção de imagens, explicam perfeitamente o valor da grande arte do mestre Salvador Dalí e me ajudaram a entender melhor por que ele é tão importante, mesmo com trabalhos que à primeira vista até parecem desarticulados e perturbadores. Este blog Semióticas é um espetáculo em todas as páginas. Parabéns de novo. Leonel Martinez

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  3. Maria Luísa Vieira5 de janeiro de 2015 10:36

    Amei. Dalí é sempre genial. Este blog também. Parabéns de novo.

    Maria Luísa Vieira

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  4. Que maravilha! José eu amo você e amo este seu blog Semióticas.
    Show! Tenho até inveja de seu talento. Parabéns pra você.

    Thamires Camargo

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  5. Bravo, professor! Que matéria! Tudo lindo e inteligente como suas aulas inesquecíveis. Amei, amei.

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  6. Muito bom mesmo. Não costumo deixar comentários nos sites que visito, mas aqui vou abrir uma exceção porque fiquei impressionado com a qualidade desta e das outras matérias que encontrei. Esta aqui é a melhor abordagem que já encontrei sobre Salvador Dalí. Parabéns. Show!

    Ricardo Cabral.

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  7. José Hamilton Teixeira22 de dezembro de 2015 09:12

    Cada postagem que encontro aqui neste blog Semióticas é um show de beleza e inteligência. Esta, sobre as ilustrações de Natal de Dalí, deveria ser a indicação do Google como matéria sobre a comemoração do Natal. Sensacional!!! Só posso agradecer e desejar toda a sorte do mundo e vida longa a você, José Antonio Orlando, e a este blog maravilhoso. Parabéns demais.

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  8. Parabéns por este beleza de matéria sobre Dalí e por tudo neste blog Semióticas que é fantástico. Virei fã.

    Francesca Ruzza

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