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25 de fevereiro de 2012

Bob Dylan no Brasil







O maior objetivo da arte é inspirar.
Arte é o movimento perpétuo da ilusão.

––  Bob Dylan.   







Bob Dylan e outros heróis da galeria do rock'n'roll têm sempre lugar marcado em todos os noticiários. Agora Mister Tambourine voltou a ser notícia e destaque nas redes sociais da internet por conta da confirmação do Brasil na rota da “turnê que nunca acaba” (Never Ending Tour), com shows em abril no Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre. Será a quinta vez que o legendário cantor e compositor da era do rock, mentor de algumas das principais canções de protesto e hinos da contracultura, se apresentará no Brasil.

Além de incluir com frequência o país do carnaval nas turnês, Bob Dylan sempre declarou que é um admirador do Brasil e da cultura brasileira e também visitou muitas vezes o Brasil no anonimato. Há alguns anos, o músico fez um tributo aos cenários brasileiros que rendeu destaque no mundo inteiro: Dylan, que tem investido cada vez mais em seu trabalho nas artes plásticas, apresentou sua nova coleção de quadros, intitulada "Brazil Series", em Copenhague, Dinamarca, no Statens Museum for Kunst. A coleção também foi publicada em um catálogo de luxo pela editora Prestel.

A coleção de imagens em que Bob Dylan tenta traduzir o Brasil reúne 40 telas pintadas em acrílico e cerca de 60 desenhos que mostram paisagens da vida cotidiana nas cidades, além de cenas das favelas e das matas com sinais de devastação. O músico viajou ao Brasil muitas vezes e, segundo consta, ele tem grandes amigos por aqui, incluindo cantores e compositores como Toquinho e Caetano Veloso e o jornalista e historiador Eduardo Bueno.

















Acima, Bob Dylan no palco, no Rod Laver
Arena, em Melbourne, Austrália, em abril
de 2011, na temporada de shows batizada
de The Never Ending Tour (A turnê que
nunca termina). No alto, Bob Dylan nas
artes plásticas com seu autorretrato e com
as pinturas da série dedicada ao Brasil.
Abaixo, uma imagem que marcou época
e virou capa de álbuns de coletâneas de
sucessos: Bob Dylan fotografado na
Inglaterra por Barry Feinstein durante
a lendária turnê pela Europa em 1966
 
 
No livro “Verdade Tropical” (Companhia das Letras, 1997), Caetano afirma que foi através de Toquinho, parceiro de Vinicius de Moraes, que ele conheceu e passou a ser amigo de Bob Dylan. “Achei curiosa a voz fanha e o jeito sujo de tocar violão e gaita”, recorda Caetano, que já gravou duas músicas de Dylan: “Jokerman”, em “Circuladô Vivo”, de 1992, e “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)”, em "A Foreign Sound”, de 2004. 



Amigos brasileiros

 

It’s Alright, Ma”, na versão original, está em “Bringing It All Back Home”, de 1965, um dos anunciados favoritos de Caetano, que registra no livro: “É este o disco de Dylan que mais me emociona”. Caetano também dividiu nos anos 1970 com Péricles Cavalcanti a autoria da mais conhecida das versões de Dylan em português: “Negro Amor”, escrita a partir de “It’s All Over Now, Baby Blue”, que foi gravada primeiro por Gal Costa em 1977.

No seleto grupo de brasileiros entre os amigos de Bob Dylan também está o gaúcho Eduardo Bueno, que acompanhou o músico em duas de suas visitas sem agenda de shows por cidades brasileiras, em 1990 e 1991. Entrevistei Bueno por telefone em 2003, quando ele estava lançando “Brasil: uma História: a Incrível Saga de um País” (Editora Ática), que se tornaria best-seller. Ele confessou a paixão desmedida por seu ídolo e afirmou que se considera um dos maiores “dylanófilos” do planeta. Segundo Bueno, tudo começou em 1975, quando, aos 17 anos, ouviu pela primeira vez o álbum “Before the Flood” e sua música predileta, “Like a Rolling Stone”.









Bueno também disse que até aquela data, em 2003, teve a sorte de assistir a mais de 100 shows de Dylan, sendo que em pelo menos 70 deles com presença privilegiada no backstage. “Like a Rolling Stone é a melhor e mais importante canção já composta na história do rock”, justificou Bueno – que assinou o posfácio e a tradução da edição brasileira de “Crônicas” (editora Planeta, 2005), o primeiro volume da trilogia autobiográfica de Dylan.

Na entrevista, ele comentou suas melhores lembranças de quando acompanhou as viagens do músico pelo Brasil. O roteiro das viagens de Dylan, segundo Bueno, incluiu entre outras cidades Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. "Sei que ele também já visitou várias vezes a serra gaúcha, o parque das Agulhas Negras e Ilha Grande, entre muitos outros lugares do Brasil, sem que ninguém o reconhecesse”.

Bueno recorda que Dylan também presenciou cenas fortes nas ruas brasileiras, mas nem por isso parece ter ficado nada amedrontado. “Logo depois que o conheci, em 1990, quando fomos apresentados por seu empresário no Brasil, vimos um homem ser baleado no meio da rua, na Barão de Itapetininga, em São Paulo. No Rio de Janeiro, ele tentou ir a pé do hotel para o show, mas de tanto ser alertado pelos seguranças sobre os perigos, acabou desistindo”.







Robert Allen Zimmerman no álbum de
família, fotografado aos 19 anos, em 1960.
No ano seguinte, ele abandona a universidade
e se muda de Minneapolis para Nova York,
com a esperança de encontrar seu ídolo
musical, Woody Guthrie. Em Nova York,
adotou o nome artístico de Bob Dylan,
em homenagem ao poeta Dylan Thomas,
e passava as noites tocando gaita e cantando
em pequenos bares do bairro boêmio de
Greenwich Village. Sua habilidade musical
e as letras de suas canções chamaram a
atenção do conhecido produtor de jazz
John H. Hammond, que em 1962 lançaria
o primeiro LP de Bob Dylan pela Columbia
Records. O sucesso viria somente com o
segundo LP, The Freewheelin', que trazia
canções como Blowin' in the Wind e, na
capa, o músico com Suze Rotolo, na época
sua namorada, que exerceu forte influência
em suas primeiras composições. Abaixo, com
outra namorada, a cantora e compositora
Joan Baez, fotografados em 1965 por
David Gahr. O namoro com Joan Baez
terminou no ano seguinte, mas os dois
continuaram amigos e fizeram, juntos,
várias turnês e gravações em estúdio nos
anos seguintes. Também abaixo, em
preto e branco, Bob Dylan em Paris,
1966, durante a turnê pela Europa,
fotografado por Barry Feinstein


 



 

Nas palavras de Eduardo Bueno, Bob Dylan é um daqueles caras cheios de manias. “Se tem uma coisa que ele gosta de fazer é andar a esmo pelas cidades. Não pergunta nada, sai andando. Ele parece não ter medo de nada e vai entrando em qualquer bocada. Em geral tinha pelo menos um segurança atrás, a uns dez metros. Tem muitas manias esquisitas, mas é genial. De todo mundo que eu já conheci na vida, Dylan é o mais difícil de definir. É um cara enigmático que prefere lavar ele mesmo suas próprias roupas nos quartos de hotel, é um cara inconstante e, às vezes, chega até a ser gentil, quando menos se espera". 

 

Estudos biográficos



Com o reforço provocado pela turnê no Brasil, o que não faltam nas lojas são CDs e DVDs de Bob Dylan, que também está nos jornais e nas capas de revistas. Há também muitos livros, incluindo alguns escritos por ele mesmo. Entre os destaques na extensa lista de publicações estão duas preciosidades biográficas: “No Direction Home”, de Robert Shelton, e "Bob Dylan – Gravações Comentadas & Discografia Completa", de Brian Hinton. Os dois livros, lançados pela editora Larousse do Brasil, são considerados os mais completos estudos biográficos da carreira de Dylan.

Mais do que um biógrafo, o ex-crítico musical do The New York Times Robert Shelton, que morreu em 1995, foi talvez o maior amigo e confidente do artista. Os dois se conheceram em 1961, quando Dylan falou pela primeira vez à imprensa após um show no Gerde’s Folk City, reduto boêmio do Greenwich Village, em Nova York. Dali por diante, viraram “amigos de infância”. “A biografia de Shelton continua a ser a única escrita com a colaboração de Dylan”, explica Elizabeth Thomson, que divide com Patrick Humphries a edição revista, atualizada e ampliada de “No Direction Home”.
















O outro estudo biográfico, "Bob Dylan – Gravações Comentadas & Discografia Completa", integra a mesma coleção que já tem livros sobre os Beatles e os Rolling Stones. É uma bela obra de referência, completa e irrepreensível, sobre o artista nascido Robert Allen Zimmerman no estado norte-americano de Minnesota, neto de imigrantes judeus russos e que, diz a lenda, aprendeu sozinho a tocar piano e guitarra. Sobre a escolha do nome artístico, adotado a partir de 1959, ele próprio confessa, no primeiro volume de “Crônicas”, que foi uma homenagem a um de seus ídolos, o lendário poeta galês Dylan Thomas (1914-1953):

"Eu havia visto alguns poemas de Dylan Thomas. A pronúncia de Dylan e Allyn era parecida. Robert Dylan. A letra D tinha mais força. Entretanto, o nome Robert Dylan não era tão atraente como Robert Allyn. As pessoas sempre haviam me chamado de Robert ou Bobby, mas Bobby Dylan me parecia vulgar, e além disso já havia Bobby Darin, Bobby Vee, Bobby Rydell, Bobby Neely e muitos outros Bobbies. Mas aí aconteceu. A primeira vez que me perguntaram meu nome em Saint Paul, instintiva e automaticamente soltei: Bob Dylan".



Trajetória surpreendente
 


Às vésperas de completar 71 anos (em 24 de maio), o cantor e compositor mantém a plena força criativa que influencia gerações e gerações pelo mundo afora, desde o inícios dos anos 1960. Além das histórias saborosas por trás de cada canção, o biógrafo Brian Hinton reúne informações minuciosas para deleite de fãs e pesquisadores, como datas de lançamento, encartes, fotografias, produtores, versões alternativas, arranjos, desavenças entre os músicos e sobras de estúdio.

E não é apenas uma avaliação de Brian Hinton: a maioria dos biógrafos são unânimes em destacar a importância inquestionável de Bob Dylan em várias frentes, da música à militância política de esquerda. Como cantor, ele redefiniu o papel do vocalista. Como músico e compositor, sua "petulância" foi muito além de gêneros como o rock, o pop, o blues, o folk ou o country, com canções que se tornaram trilha sonora de muitas histórias e influenciam há 50 anos o estilo e as opiniões de muitos outros músicos e fãs.













Música em cores fortes: no alto e acima,
Bob Dylan em Woodstock, Nova York,
e em Greenwood, Mississippi, em 1965,
em fotografias de Elliot Landy. Abaixo,
dois registros de 1966: fotografado por
Barry Feinstein em Paris; e na Factory
de Andy Warhol, em Nova York


Enquanto mergulha na trajetória surpreendente de um dos nomes fundamentais da história da música, o leitor atento pode saborear uma aula divertida sobre os percalços da indústria cultural de nossos dias. Com 56 álbuns lançados desde a estreia – com "Bob Dylan", de 1962, totalmente dedicado ao folk mais tradicional – o cantor e compositor sempre se destacou pela ousadia e pelo pioneirismo que aponta em várias direções.

O livro de Robert Shelton por certo é mais divertido, recheado de histórias de bastidores e anedotas impagáveis, mas o estudo de Brian Hinton, que publicou biografias consideradas definitivas de nomes como Van Morrison, Joni Mitchell e Elvis Costello, vai fundo nos detalhes sobre a obra do compositor de canções como "Like a Rolling Stone" – como lembrou Eduardo Bueno, o clássico dos clássicos da era do rock, listado em primeiro lugar entre as 500 melhores músicas da história, segundo a revista "Rolling Stone".

Hinton também é sábio no juízo de valor sobre a trajetória do artista ao apontar alguns dos aspectos que confirmam a importância inquestionável de Dylan. O biógrafo destaca que, como cantor, Dylan redefiniu o papel do vocalista. Como músicoe compositor, sua "petulância" foi muito além de gêneros como o rock, o pop, o blues, o folk ou o country, com canções que se tornaram trilha sonora de muitas histórias e influenciam há 50 anos o estilo e o conteúdo de muitos em muitos países dos cinco continentes. 


 






Bob Dylan segundo Zé Ramalho



Mesmo sem constar da lista privilegiada de amigos brasileiros do músico norte-americano, Zé Ramalho sempre foi associado a Bob Dylan por suas letras messiânicas e seu tom politizado de fazer música. Em 2008, o "parentesco" foi realçado com "Zé Ramalho Canta Bob Dylan - Tá Tudo Mudando" (EMI), CD e DVD produzidos por Robertinho do Recife (parceiro de longa data), e que reúnem canções de Dylan, sucessos dos anos 1960 e 1970, reinventadas pelo paraibano.

As mais conhecidas letras e melodias de Dylan ganharam equivalentes fieis e inspirados em português, além de arranjos que trazem os standards da galeria do rock para o universo da MPB e da música nordestina de repentistas e rabequeiros. Clássicos como "Like a Rolling Stone" ("Como uma Pedra a Rolar") e "Blowin' in the Wind" ("O Vento Vai Responder") incorporam novas sonoridades que lembram xotes, forrós e baiões.

"Like a Rolling Stone" é conhecida no Brasil de outros carnavais: teve uma versão em português de sucesso na década de 1970, gravada por Diana Pequeno, e volta e meia surge cantarolada, em sua versão original, pelo senador Eduardo Suplicy no Congresso e em outras ocasiões públicas. Dos mais de 50 álbuns lançados por Dylan, Zé Ramalho elege três – “Blood On The Tracks”, “Desire” e “Slow Train Coming”, todos da década de 1970 – como os seus prediletos.








Em 30 anos de carreira, o compositor de "Admirável Gado Novo" e "Chão de Giz" continua a surpreender. No ano 2000, lançou "Nação Nordestina", álbum com belas canções inéditas e uma capa surpreendente (imagem abaixo), paródia para a capa do antológico "Sgt. Pepper's" dos Beatles. Em 2001, reinventou sua própria trajetória ao lançar o CD de estreia do projeto "Zé Ramalho canta...", com releituras de Raul Seixas. Depois viriam o também surpreendente “Zé Ramalho canta Bob Dylan – Tá Tudo Mudando” (EMI, 2008), seguido por “Zé Ramalho canta Luiz Gonzaga” (Discobertas/Sony, 2009), mais “Zé Ramalho canta Jackson do Pandeiro” (Discobertas/Sony, 2010) e “Zé Ramalho canta Beatles” (Discobertas/Sony, 2011). 



Hurricane: Frevoador

 

Quanto a Bob Dylan, não é a primeira vez que ele foi traduzido por Zé Ramalho – que há mais de duas décadas já havia gravado "Blowin'in the Wind" ("O Vento Vai Responder") e "Knocking on Heaven's Door" ("Batendo na Porta do Céu"), além de "Hurricane" (que, traduzida como "Frevoador", foi a faixa-título do CD de 1992). Zé Ramalho também recupera a beleza de "Negro Amor", a versão de Caetano e Péricles Cavalcanti para "It's All Over Now, Baby Blue", lançada por Gal Costa e regravada por Toni Platão, Zé Geraldo e Paulo Ricardo e Engenheiros do Hawai, entre outros.

Com sua voz única, cavernosa e apocalíptica, Zé Ramalho junta sonoridades nordestinas para surpreender quem espera um mero disco de versões. Inteligente e criativo, o artista foge do óbvio e busca músicas não tão famosas de seu ídolo, como o caso de "Man Give Name To All Animals", que virou "O Homem Deu Nome a Todos os Animais" – canção que também também ganhou outras duas versões bastante diferentes entre si, uma recente, gravada por Adriana Calcanhotto, e outra na década de 1980, gravada por Rui Maurity. A única faixa que Zé Ramalho não verteu ao português foi "If Not For You", mas, em compensação, recriou a música, indo ao extremo nos ritmos populares do Nordeste brasileiro.





Uma exceção entre as mais antigas é "Tá Tudo Mudando", faixa-título do CD e do DVD, versão de "Things Have Changed", da trilha do filme "Garotos Incríveis" (2000), de Curtis Hanson, que rendeu um Oscar a Dylan. A versão tem assinatura de Maurício Baia e Gabriel Moura, carioca identificado com o samba. Baia é colaborador de Zé Ramalho também em "Tombstone Blues", transformada em "Rock Feelingood".

Outra boa surpresa é a versão para a instrumental "Wigwam" - que virou "Para Dylan". A letra diz: "Eu te vejo assim como uma vela que acende/ Ou como disse Elton John/ 'Like a candle in the wind". Na capa do CD e DVD, Zé Ramalho posa com um cartaz, em referência ao clipe de Dylan para "Subterranean Homesick Blues" – mais um cuidado da produção que vai agradar tanto aos fãs de Dylan quanto ao público de Zé Ramalho. É um belo disco, que mantém a verve autoral do cantor e compositor sem se afastar do universo nordestino que desde o disco de estreia, em 1978, norteia sua carreira e discografia.

Além de “Zé Ramalho canta Bob Dylan”, outro tributo feito no Brasil merece muita atenção dos fãs de Mister Tambourine: o quinto volume da série em CD "Letra & Música", lançamento do selo Discobertas, que é dedicado ao cantor e compositor. São 14 faixas que trazem as melhores gravações feitas ao longo das últimas décadas.

Entre as canções selecionadas, há regravações e versões inéditas das canções de Dylan por Caetano Veloso (“Jokerman”), Gal Costa (“Negro Amor”), Evandro Mesquita ("Knockin'on Heaven's Door"), Renato Russo ("If You See Him Say Hello"), Mallu Magallhães ("It Ain't Me Babe") e Ruy Maurity (“Batismo dos Bichos/Man Gave Name To All Animals”), entre outros. Se ouvir o tributo de Zé Ramalho ou a coletânea selecionada no CD "Letra & Música", mister Bob Dylan por certo vai aprovar, sem nenhuma ressalva.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Bob Dylan no Brasil. In: ______. Blog Semióticas, 25 de fevereiro de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/02/bob-dylan-no-brasil.html (acessado em .../.../...).



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Crônicas de Bob Dylan, volume 1,  clique aqui.





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17 de dezembro de 2011

Diva descalça




A cena e a música podem parecer estranhamente familiares ao público brasileiro: um grupo afinado e sorridente de músicos, todos negros ou mulatos, uma percussão de ritmo exótico, dançante e irresistível. Depois dos acordes iniciais, uma velha senhora caminha, hesitante, descalça, para o centro do palco. A plateia aplaude com euforia.

A velha senhora também é negra, baixa estatura, gordinha, vestida com certa simplicidade. Olhar humilde, alguma timidez, mas quando começa a cantar evoca uma aura de elegância e sofisticação. Canta em português, com um sotaque de nuances indescritíveis, que misturam em sua voz personalíssima e triste um pouco de francês e dialetos africanos.

É Cesária Évora, rainha da morna, embaixadora da música de Cabo Verde, o pequeno arquipélago do Atlântico, na costa africana, que entoa dramática seus grandes sucessos – além das mornas, coladeras, batuques e funanás, melodias típicas de seu país e ao mesmo tempo próximas e distantes da música brasileira, em seu parentesco com o fado português e com os ritmos trazidos da África.















Aos 70 anos, a diva dos pés descalços, como foi batizada pela imprensa da França, na década de 1980, morreu hoje em sua terra natal, três meses depois de seus músicos terem anunciado o fim de uma carreira de mais de 50 anos. Cesária lançou 25 discos, entre originais, coletâneas, remixes celebrados pelos principais DJs em atividade e parcerias com outros artistas – entre eles Caetano Veloso e Marisa Monte. “Sôdade”, lançada na década de 1980, foi a música mais conhecida da cantora e compositora de Cabo Verde.



Performance parisiense



Além dos discos gravados, lançou dois belos DVDs: “Cesária Évora Live D'Amor” e “Live in Paris”. O primeiro, gravado em abril de 2004 no Le Grand Rex, um dos principais teatros de Paris, traz um registro à perfeição que, além da íntegra das 20 canções do repertório do show, inclui três bônus de primeira: um documentário com os bastidores da performance parisiense (que a acompanha do desembarque no aeroporto da capital da França à entrada em cena no teatro), outro com entrevistas e cenas das turnês pelos Estados Unidos, Japão e capitais da Europa, e “Mar del Canal”, um comovente videoclipe com ela e sua banda, produzido para o World Food Programme, fundo humanitário da ONU que atende crianças carentes e refugiados de guerra em 70 países.









O segundo, “Live in Paris”, de 2002, é mais modesto, com o registro do show em som direto. Foi gravado ao vivo no Zenith parisiense e inclui como bônus duas breves sequências: cenas da apresentação de Cise (como era chamada carinhosamente pelos amigos e pelos músicos que a acompanhavam desde os anos 1980) em Havana, Cuba, com participação especial dos remanescentes do Buena Vista Social Club, e da apresentação no mesmo ano no Brasil, onde a rainha da morna dividiu a cena com Marisa Monte.

No Brasil, ainda nos anos 1980, Caetano Veloso foi o primeiro a elogiar as mornas de Cesária Évora. Nos shows do final da década de 1980 e começo dos anos 1990, Caetano incluía “Sôdade”, “Angola” e “Petit Pays”, imitando o sotaque de Cise, quase incompreensível aos ouvidos brasileiros. Eu mesmo, assim como muitos dos fãs da cantora que conheço, temos que confessar que foi através de Caetano que chegamos à arte de Cesária Évora.





Caetano alardeava em entrevistas sua admiração por Cise, a diva que saiu da simplicidade do pequeno país no litoral africano para ganhar o mundo, apresentando-se sempre com os pés descalços em solidariedade às mulheres e crianças miseráveis de seu país. Os elogios de Caetano por certo contribuíram para que os discos de Cesária fossem lançados por aqui, com boas críticas e surpreendente sucesso de vendas.


Mornas, blues, boleros e MPB



Em cenas dos documentários incluídos como bônus em “Live D'Amor”, Cesária Évora fala com carinho do seu público – especialmente dos fãs apaixonados que conheceu no Brasil, em Cuba, nos Estados Unidos e na França. Diz que canta porque não saberia fazer outra coisa na vida. Modéstia de uma artista genial, que comprova na performance gravada com a plateia do Le Grand Rex porque era considerada uma das presenças mais marcantes e poderosas da música contemporânea.

Sua arte cresceu em popularidade internacional especialmente a partir de 2004, quando bateu estrelas de primeira grandeza na mídia e conquistou o Grammy para melhor disco de “world music”. Sempre acompanhada pelos músicos de Cabo Verde, com quem trabalhava desde a gravação do primeiro disco na França, em 1988 (“La Diva aux Pieds Nus”), Cise mistura um aparente descompasso do fraseado com elaboradas harmonias acústicas de violões, cavaquinho, violino, acordeão, percussão e clarineta. 




 
Os ritmos são uma diversidade, variando desde a morna tradicional de Cabo Verde até o bolero, passando pelo blues norte-americano, com um toque de música do Caribe, alguma coisa do fado português e muito do samba-canção da velha guarda da melhor música popular brasileira.

Quando no documentário de “Live D'Amor” um jornalista pergunta sobre Billie Holiday e outras possíveis influências do jazz, Cesária sorri, baixa os olhos, faz silêncio, tira uma longa baforada do cigarro, recusa e diz que não concorda com a comparação. Fala com carinho da música dos Estados Unidos, agradece o carinho do público que cultiva em vários países, mas diz que prefere ser comparada às vozes brasileiras, que desde a infância ouvia no rádio.

Quem conhece seus discos sabe que Cise sempre incluiu aqui e ali algum clássico do samba, caso de “Beijo Roubado”, de Adelino Moreira, sucesso dos anos 1950 na voz de Ângela Maria e destaque no repertório de “Live D'Amor”. “Negue” (“seu amor, seu carinho...”), do mesmo Adelino Moreira, é outra pérola da MPB que sempre esteve presente nos shows de Cesária, além de canções dos baianos Dorival Caymmi e Caetano Veloso.





Amor e liberdade



Impressiona o toque sentimental de profunda devoção, algo entre o transe místico e o cantarolar casual numa mesa de bar, registrada por uma edição sempre discreta nas imagens de “Live D'Amor”. Ao invés do ritmo alucinante de videoclipe de hip-hop, que vem contaminando as gravações ao vivo de qualquer gênero, as imagens do show no Le Grand Rex são contemplativas, quase nunca se afastam da bela performance em closes e um ou outro passeio das câmeras pelo palco, no momento dos poucos e inspirados solos do violinista Julián Corrales Subida ou do pianista Fernando Andrade, responsável há décadas pelos arranjos das canções de Cesária.

As mornas e os sambas cantados com a voz sentida de Cesária Évora são acompanhados quase sempre em coro pela plateia parisiense, especialmente “Nho Antone Escaderode”, “Nha Cancera ka Tem Medida”, “Angola” e “Sôdade” (“quem mostrava este caminho longe...”). Mesmo as então inéditas “Isolada” e “Velocidade” provocam comoção e passagens espontâneas com palmas ritmadas.

São canções inesquecíveis, depois que se ouve uma delas pela primeira vez, com atenção, com sons de cordas e percussão suave, pautadas com gentileza, talvez por isso distantes dos ritmos brasileiros mais dançantes. Falando de saudade, de amores errados e de sentimentos que mais separam do que unem as pessoas, a música de Cesária Évora, com seu sotaque carregado que constrói enigmas para outros falantes da mesma língua portuguesa, é daqueles casos que encantam.




Cantora de Mindelo



Cesária Joana Évora nasceu em agosto de 1941 em Mindelo, cidade portuária na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, país formado por uma dúzia de pequenas ilhas montanhosas e quase desérticas, de formação vulcânica, ao largo do Senegal, na costa da África. Descoberto em 1456, o arquipélago foi uma importante base de expansão marítima e do comércio colonial português, particularmente no tráfico de escravos.

Desde sua independência de Portugal, em 1975, entretanto, Cabo Verde tem enfrentado dificuldades econômicas as mais complicadas, motivo pelo qual se diz que a música de Cesária Évora é o principal produto de exportação daquele país, que sobrevive do cultivo de milho, café e processamento de pescado. As mornas e coladeras que Cesária canta quase sempre tocam na história amarga e violenta da dominação portuguesa e do isolamento secular de Cabo Verde.










Na entrevista incluída em “Live D'Amor”, Cesária conta que nasceu em uma família de músicos e que canta desde a infância, em festas populares de sua terra-natal e em programas de rádio. Mas sua carreira ficou interrompida entre 1975 e 1985, quando parou de cantar para procurar trabalho em fábricas e no comércio fora de Cabo Verde.

Em 1985, a sorte sorriu para a diva dos pés descalços: a convite do proprietário de um restaurante e de uma discoteca com música ao vivo em Lisboa, ela volta a cantar e grava um disco, “Crioula Sofredora”, que passou despercebido. No ano seguinte, vai para Paris e é "descoberta" pela imprensa cantando em praças e bares. Dalí seguiria para os palcos do mundo.









Em 2004, depois de vencer o Grammy, iniciou sua fase de maior popularidade e chegou às pistas de dança e ao circuito das “raves” por conta do lançamento de “Club Sodade”, surpreendente disco em que suas canções mais populares ganharam remixes e versões eletrônicas por alguns dos DJs mais famosos do planeta, como Rork & Demon Ritchie, Uwe Schmidt (Señor Coconut), Kerri Chandler, Carl Craig, Pepe Bradock, Cris Prolific e François K., entre outros.

Um dos parceiros de Cise de longa data, o músico cabo-verdiano Tito Paris foi entrevistado hoje pela agências de notícias France Presse (AFP) e lamentou a perda. "O artista e o poeta praticamente não morrem. Desaparecem mas não morrem e nós vamos ouvir Cesária até ao fim da nossa vida, ela vai existir com as suas mornas e coladeras até ao último dia das nossas vidas", afirmou Tito. O mundo da música e Cabo Verde a partir de hoje ficaram mais pobres, tal como enriqueceram no dia em que Cesária Évora nasceu.


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Diva descalça. In: ______. Blog Semióticas, 17 de dezembro de 2011. Disponível no link https://semioticas1.blogspot.com/2011/12/diva-descalca.html (acessado em .../.../…).



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14 de agosto de 2011

Onde moram os anjos






O que pode uma casinha tão simples e colorida? A pergunta há décadas intriga a fotógrafa e artista plástica Anna Mariani, que viajou pelo sertão fotografando e organizando as cenas que parecem saídas da ficção. O primeiro livro com suas fotografias foi originalmente publicado em 1987, logo após a participação de impacto da artista plástica e fotógrafa na 19ª Bienal Internacional de São Paulo.

Aclamadas como grande arte no Brasil e no exterior, as fotografias de fachadas de pequenas casas de lugarejos do Nordeste brasileiro, sempre retratadas em ângulo frontal, sem a presença de pessoas e com enquadramento que exclui toda a paisagem ao redor, retornam às livrarias em nova edição do Instituto Moreira Salles para "Pinturas e Platibandas", revista e ampliada pela autora.














Com belos textos, tão breves como inspirados, de Ariano Suassuna, de Caetano Veloso e do pensador francês Jean Baudrillard, as imagens registradas por Anna Mariani correram o mundo depois da Bienal de São Paulo. Desde 1987, a série ganhou exposições de destaque na França, Alemanha e outros países, retornando agora às livrarias e a uma mostra no Centro Cultural do IMS em São Paulo, que depois segue para as sedes do IMS em outras cidades e nas capitais. 



Sete estados do Nordeste
 


A mostra do trabalho de Anna Mariani, com curadoria do crítico de arte Rodrigo Naves, reúne uma seleção de 24 imagens de fachadas multicoloridas - enquanto o livro reúne 200 das cerca de 2 mil imagens feitas pela fotógrafa de 1976 a 1995 em sete estados do Nordeste: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.








Anna Mariani, que nasceu no Rio de Janeiro, em 1935, estudou fotografia com Claude Kubrusly, Cristiano Mascaro e Maureen Bisilliat. A partir da década de 1970, viajou ao Recôncavo Baiano para documentar paisagem e manifestações culturais tradicionais. Uma seleção fotográfica no trabalho no Recôncavo seria reunida em livro e exposição pela primeira vez em 1987.

Em 1992, a artista publicou "Paisagens, Impressões - O Semi-Árido Brasileiro", no qual apresentava fotografias de paisagens nordestinas que registravam a escassez de recursos e também a diversidade de formas da vegetação daquela região. Ingênuas, caprichadas e extremamente simples, as fachadas e platibandas nordestinas nos registros de Anna Mariani expressam também um modo de vida que comove por sua delicadeza.














"O que dizem essas casas?", interroga Caetano Veloso, em texto que faz parte da edição e que foi escrito para a exposição de Anna Mariani no Centre Georges Pompidou, em Paris, em 1988. "Sob o sol-a-sol do Nordeste Brasileiro, em meio à dura vida humana, o que insinua sua lírica geometria?", prossegue Caetano. "Para mim, são coisas íntimas. Casas que conheço por dentro. Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo. A cidade fica endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas".

No mesmo texto, abordando uma determinada sequência de fachadas, Caetano constrói uma metáfora com as célebres bandeirinhas e os casarios do pintor modernista Alfredo Volpi. "De frente para a câmera de Anna Mariani, elas parecem esboçar um sorriso silencioso. A câmera não pretende interpretar os seus signos", destaca Caetano, "mas entrar numa espécie de estado amoroso com a delicadeza de sua poesia. As fotografias são como monalisas pintadas por Volpi".



Irregulares e multicoloridas



As pinturas à base de cal de cada casinha, elaboradas sobre fachadas e platibandas irregulares, são resultado de práticas artesanais seculares de caiação – técnica que aos poucos, conforme os textos do livro ressaltam, tem sido substituída por novos materiais e processos sem as mesmas características. De tão marcantes na arquitetura nordestina, as imagens resultantes da pesquisa de Anna Mariani servem de referência para a cenografia de filmes e minisséries para a TV, a exemplo de “O Auto da Compadecida” (2000) e “A Pedra do Reino” (2007), entre outros, além de reforçar o interesse popular por esse marco na arquitetura nordestina brasileira.















"São fotografias", aponta Jean Baudrillard (1929-2007) no breve artigo para a apresentação da exposição que Anna Mariani realizou no Georges Pompidou – "mas são fotografias que apareciam como verdadeiras pinturas ou baixo-relevos, surgidos não se sabe de qual friso geométrico de um palácio de Minos subequatorial".

Baudrillard, poeta, fotógrafo, sempre citado entre os mais respeitados e influentes sociólogos e filósofos de nossa época, referência tanto em teses acadêmicas como na cultura pop (entre outros feitos, é inspiração confessa para os irmãos Wachowski da trilogia “Matrix”), também destaca a poesia estranha que emana das imagens registradas por Anna Mariani. A poesia que sobrevive e emana de uma "miséria que não se expressa como miséria, mas como riqueza de linhas e aparências de uma fotografia que consegue, ela também, não ser mais fotografia".


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Onde moram os anjos. In: ______. Blog Semióticas, 14 de agosto de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/08/onde-moram-os-anjos.html (acessado em .../.../...).



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