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12 de março de 2012

Milton no Clube da Esquina








Milton Nascimento passou os últimos anos viajando a trabalho pelo Brasil e por cidades do mundo inteiro. Foram duas turnês ao mesmo tempo, intercalando a agenda de shows com os irmãos Lionel Belmondo (sax e flauta) e Stéphane Belmondo (trompete), com os quais gravou na França o CD "Milton Nascimento e Belmondo", e as apresentações com o Jobim Trio, dedicadas ao disco "Novas Bossas", que celebrou os 50 anos da Bossa Nova. Aproveitando um breve intervalo entre as viagens, Milton retornou a passeio a Belo Horizonte, onde fez o último show há um ano, em abril de 2011, acompanhado pela banda formada por Kiko Continentino (teclados), Wilson Lopes (guitarras, violões e violas), Gastão Villeroy (baixo) e Lincoln Cheib (bateria e percussão).

Na véspera da viagem do Rio de Janeiro, onde mora há muitos anos, para Belo Horizonte, Milton Nascimento concedeu esta entrevista por telefone falando da experiência das turnês simultâneas e da expectativa para o reencontro com a cidade, da instalação do Museu Clube da Esquina e dos músicos que de longa data o acompanham nos shows. "Em Belo Horizonte é diferente. Nem parece trabalho. Aliás, dessa vez é mais a passeio do que a trabalho", ele diz.

"Estar em Belo Horizonte já me deixa feliz por qualquer motivo. Tem os amigos, os lugares, as lembranças, os sobrinhos, os meus cinco afilhados. Sem falar de todo mundo que me ouve desde menino, nos bares e nos bailes da vida". Muito bem-humorado, sem pressa, com a voz pausada, inconfundível, e com uma memória surpreendente para nomes, canções e acontecimentos marcantes em sua trajetória profissional, Milton faz as contas e lembra que sua estreia aconteceu em 1956, quando, aos 14 anos, começou a cantar e tocar na noite da cidade de Três Pontas, com Wagner Tiso. 







Milton no Clube da Esquina: no alto,
a fotografia de Carlos da Silva Assunção
Filho, mais conhecido como Cafi,
transformada em 1972 na capa do LP
Clube da Esquina. Acima, Milton aos
três anos – em 1945, quando a família se
mudou do Rio de Janeiro para Três Pontas,
Minas Gerais, em foto que foi publicada no
encarte do LP Milagre dos Peixes, de 1973;
Milton com Lô Borges Beto Guedes
em fotografia do início da década de 1970,
em Belo Horizonte. Abaixo, Milton com seu
principal parceiro musical, Fernando Brant,
em Belo Horizonte, 1970; e com Chico
Buarque em junho de 1977 no Show de
Paraíso, em Três Pontas, que ficaria
conhecido como Woodstock Mineiro




 















Para o grande público, a estreia de Milton Nascimento foi em 1967, no Rio de Janeiro, quando classificou três canções no II Festival Internacional da Canção, entre as quais "Travessia", um de seus maiores sucessos, em parceria com Fernando Brant. "A única música que sempre faço questão de tocar em Belo Horizonte é 'Nos Bailes da Vida'. Porque é a minha história que está toda ali, contada nas palavras da canção”, ele explica.

Milton diz que o roteiro dos shows ele costuma decidir nos ensaios, ouvindo sempre o que a banda tem a propor. “Às vezes a decisão só vem no dia, na hora mesmo do show. Essa é a vantagem de tocar com músicos que você conhece muito e admira. As coisas ficam mais fáceis, tudo é mais espontâneo", reconhece, enquanto explica que nos shows prefere fazer retrospectivas das canções que foram importantes em fases diferentes de sua carreira.

"Numa das últimas vezes que estive em Belo Horizonte, para um show com o Jobim Trio, eu falava muito no palco, contava histórias. Cantava também, mas acho que falava mais do que cantava", brinca. Entre as experiências marcantes que viveu recentemente, Milton destaca o dueto póstumo que realizou com Elis Regina, por conta de um projeto do Selo Discobertas, do produtor musical Marcelo Fróes.






Memórias do Clube da Esquina: acima,
Elis Regina, Milton Nascimento e
Ronaldo Bastos no estúdio, em 1972,
durante as gravações do álbum
Clube da Esquina 2, fotografados
por Cafi. Abaixo, Cristina Aché,
Tavinho Moura, Milton Nascimento e
Débora Bloch em 1984, reunidos no
intervalo das filmagens de Noites do
Sertão
 – adaptação da literatura de
Guimarães Rosa com roteiro e direção
de Carlos Alberto Prates Correia e
trilha sonora com composições de
Milton Nascimento e Tavinho Moura






No terceiro volume da trilogia “Beatles 69 – Abbey Road Revisited”, que celebrou os 40 anos da última safra de canções da banda, Milton reencontrou em estúdio a voz de Elis, sua parceira do ínicio da carreira. Na série de três discos produzidos por beatlemaníacos e para beatlemaníacos, contando com participações de diversos artistas nacionais (entre veteranos como João Donato, Joyce, Ivan Lins, e nomes das novas gerações, como BossaCucaNova, Fuzzcas e Sílvia Machete, entre outros), Milton e Elis estão presentes na suíte “Golden slumbers / Carry that weight” – sem nenhuma dúvida uma das mais especiais de todas as novas versões de canções dos Beatles reunidas no projeto.

Foi muito emocionante”, diz Milton, recordando os melhores momentos da experiência. “Pensei em utilizar minha própria banda, mas o Marcelo Fróes me apresentou outros músicos. Como não sou de fechar a porta para ninguém, seguimos em frente. Foi a melhor coisa que podia acontecer. Ficou bonito demais, foi como se a Elis estivesse presente. Os meninos sentiram a mesma coisa. Foi ótimo ter gravado aquilo”.





Falar em público e dar aulas para grandes plateias também foram experiências marcantes para Milton nos últimos tempos, desde que passou a ser convidado com frequência por universidades na Europa e nos Estados Unidos para apresentar conferências para os alunos. "Na primeira vez que convidaram eu fiquei surpreso, mas deu tudo certo, pelo jeito, pois depois vieram outros convites em outras universidades, em outros países”, conta Milton, explicando que estes encontros sempre resultam do improviso e acabam sendo muito especiais.
Falo de tudo nessas oportunidades. Do Brasil, da música brasileira, dos amigos, dos músicos que admiro. No meio da conversa sempre vem alguma canção, ou então é a canção que puxa outro assunto, outra canção", explica, recordando que os estudantes europeus o surpreenderam mais porque sempre demonstravam que conheciam muito o seu trabalho.
"Perguntavam sobre os discos, a história das músicas. Foi muito bom", recorda, lamentando apenas que as aulas não tenham sido gravadas ou filmadas. "Foi um descuido. Mas está nos planos para o futuro repetir a experiência e gravar tudo", justifica. Enquanto aguarda com seus companheiros de geração a instalação do Museu Clube da Esquina, a produção de um DVD com registro ao vivo de seus shows mais recentes também está nos projetos do cantor e compositor para os próximos meses.












 

Milton Nascimento retratado no inicio
dos anos 1990 em pintura em óleo
sobre tela por Carlos Bracher.
Abaixo, capa do CD Angelus, lançado
em 1994; e Milton com o jornalista
Fernando Faro em 2009, durante
a gravação do programa Ensaio 
para a TV Cultura








Enquanto nos palcos algumas das canções de Milton ocupam um lugar especial no roteiro dos shows, ele reconhece que, na extensa discografia que vem construindo, é o CD "Angelus", lançado em 1994, que ainda traz as melhores lembranças. "Costumo dizer que 'Angelus' é o terceiro 'Clube da Esquina'. É meu disco mais diferente, com muitas participações especiais de amigos que a gente vai fazendo pelo mundo", recorda, enumerando as histórias engraçadas e as coincidências que envolveram vários nomes do primeiro time do jazz e da música pop na produção do CD.

Nas viagens pelo mundo afora, Milton também vai descobrindo aqui e ali novidades musicais surpreendentes. A mais recente é um coral de vozes da Bulgária. "E o que mais tenho ouvido ultimamente, junto com Miles Davis, Villa-Lobos, Ravel... Depois do projeto com os irmãos Belmondo estou mais atento à música erudita. Mas o que mais me encanta, sempre, é a música de Minas Gerais", reconhece. Para Milton, a música de Minas, incluindo compositores novos e antigos, cantoras, cantores, instrumentistas e bandas, é a melhor música que se faz hoje no Brasil.



Os sonhos na origem



Amigo de Milton Nascimento de longa data, desde antes da criação do Clube da Esquina, Márcio Borges diz que seu livro "Os Sonhos não Envelhecem" conta, antes de tudo, a história de uma amizade. "Não é uma biografia, nem autobiografia, nem reportagem. É uma crônica sobre a história de minha amizade com Milton", define o autor e protagonista da história, compositor de "Equatorial", "Gira Girou" e outros clássicos do Clube da Esquina, que apresenta no livro um belo relato poético, apesar de rememorar, entre outras histórias, páginas da ditadura militar que calou a utopia de várias gerações de brasileiros.






O livro, que estava esgotado há anos, ganhou recentemente uma nova edição. A primeira, que saiu em 1996, em pouco tempo esgotou em todo o Brasil toda a tiragem de 30 mil exemplares. A nova versão, que mereceu uma edição de luxo da Geração Editorial, tem preço promocional, graças ao apoio conseguido junto ao Ministério da Cultura.

O novo “Os Sonhos não Envelhecem” manteve o texto original de 1996, que vai dos primórdios da adolescência aos últimos tempos da parceria de Márcio com Milton Nascimento, que resultou no sucesso do Clube da Esquina. A história transformada em livro chega às lojas com formato diferenciado, com 376 páginas, farta iconografia e um acréscimo de peso para agradar aos fãs mais exigentes: um CD com uma seleção musical que inclui "Girassol", "Canto Latino", "Tudo que você podia ser" e outras canções marcantes de Milton, Lô Borges, Wagner Tiso e outros nomes de referência no movimento.







Duas fotos de Cafi reproduzidas no
livro Os Sonhos não Envelhecem:
a contracapa do LP Clube da Esquina
 e os amigos na estrada, nos anos 1970,
a bordo do Jeep Manuel Audaz
pilotado por Toninho Horta




Narrador de histórias saborosas – da explosiva década de 1960 aos anos 1980 e 1990 – Márcio Borges no livro fala ao leitor numa prosa apaixonada, emocionante. Seu livro parece um roteiro de filme, até porque o cinema tem presença constante no repertório do autor e dos personagens retratados, em especial aqueles que, como ele, viveram na pele os piores momentos da ditadura militar.

Há quase 10 anos, Márcio Borges vem se dedicando à criação e instalação do Museu Clube da Esquina – que terá sede física no prédio do Servas, atrás do Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. O museu, que ainda aguarda liberação de verbas do Ministério da Cultura, por enquanto está limitado ao formato virtual (clique aqui para visitar). Nos planos de Márcio Borges também estão o lançamento em breve de outros livros e a transformação de "Os Sonhos não Envelhecem" em cinema.



Dilma e o Clube da Esquina



Márcio Borges prepara dois novos livros: o primeiro será um romance, o outro será uma coletânea de cartas. Enquanto os outros livros não chegam às livrarias, ele trabalha para transformar "Os Sonhos não Envelhecem" em filme. Para isso, ele está concluindo as negociações para produção com o cineasta Paulo Thiago. "Ainda não sabemos se será documentário ou obra de ficção. Estamos acertando", explica.






Tempos sombrios: Dilma Rousseff aos
22 anos, na sede da Auditoria Militar
 no Rio de Janeiro, em novembro de 1970;
na foto, tirada depois de mais de 20 dias
de tortura, Dilma mostra um olhar firme,
mas os militares que a interrogam tentam
esconder o rosto. Abaixo, Milton e
Tom Jobim no Rio de Janeiro, em 1990,
em fotografia de Cristina Granato








Entre canções de poesia irresistível que fizeram história, o autor mistura no livro “Os Sonhos não Envelhecem” a história de músicas e muitas memórias compartilhadas. Sem contar uma curiosidade que ganharia força com passar do tempo: Márcio Borges teve como colega de turma no colégio, em Belo Horizonte, Dilma Rousseff, que abraçaria a militância política de resistência à ditadura militar e chegaria décadas depois à Presidência da República.

Dilma Rousseff é personagem do livro do Márcio Borges porque surge no relato na época em que os dois estudaram no antigo Colégio Estadual Central. O reencontro com a colega dos tempos de colégio só aconteceu em 2010, durante um dos compromissos de Dilma na campanha presidencial em BH. Mas não é Dilma e sim Milton Nascimento o personagem central do relato, que tem prefácio assinado por Caetano Veloso.

Reza a lenda que a mitologia do Clube da Esquina surgiu do encontro de um grupo de amigos que se reuniam na esquina da Rua Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte. Formado, entre outros, por Tavinho Moura, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant e os integrantes do 14 Bis, o grupo de jovens amigos se juntava para cantar e tocar desde a segunda metade da década de 1960.









Cenários do Barroco Mineiro: acima,
os amigos do Clube da Esquina
em Diamantina, Minas Gerais,
no Beco do Mota e no encontro
histórico com o ex-presidente
Juscelino Kubitschek, em 1974,
fotografados por Juvenal Pereira.
Abaixo, Fernando Brant, Lô Borges,
Márcio Borges e Milton ensaiam
nas ladeiras de Diamantina






Nas reuniões informais dos amigos no bairro de Santa Tereza e nos passeios do grupo pelas cidades históricas de Minas foram criadas as canções e o imaginário de um dos discos mais antológicos da MPB, o LP “Clube da Esquina”, gravado em 1972 e tendo como protagonistas Milton Nascimento e Lô Borges, com produção de Ronaldo Bastos. Mas o Clube da Esquina também foi feito de histórias das estradas de ferro. 

Basta lembrar dos versos dos maiores clássicos de Milton Nascimento e companhia: o trem que ligava Minas ao porto, ao mar, a ferrovia, o caminho de pedra, a travessia, a paisagem na janela. A histórica estrada de ferro Vitória-Minas, que já rendeu inspiração para todos os compositores do grupo, também surge homenageada em outro livro de Márcio Borges, "Entradas e Outras Bandeiras: A Chegada da Vitória-Minas".

Com breves textos e versos de Márcio Borges, mais fotografias e direção de arte de Arthur Senra, o livro foi editado pelo clube de amigos do Museu Clube da Esquina, com recursos do Fundo Estadual de Cultura. "É um tema muito especial para cada um de nós, porque está ligado à memória afetiva do mineiro e à história do Clube da Esquina em particular", explica Márcio Borges. 






A capa do LP Clube da Esquina 2 e o
reencontro dos amigos, organizado na
passagem dos 35 anos do lançamento
do primeiro disco. Abaixo, Milton
e a islandesa Björk no camarim da
cantora, após o show na Marina da
Glória, Rio de Janeiro, em 2007



 
"Este livro, que batizamos de 'Entradas e Outras Bandeiras: A Chegada da Vitória-Minas', é um retrato desta ligação afetiva, entrando pela viagem poética a que o assunto convida. Agora, com a instalação do Museu Clube da Esquina, fiquei mais atento às questões da memória, da história oral, do registro fotográfico. Senão, a gente não consegue evitar aquele risco perigoso do passado se perder", confessa.

O convênio de instalação do museu no antigo espaço do Servas já foi assinado com o Governo do Estado e, segundo Márcio Borges, a instalação do projeto está adiantada. "Já há inclusive uma emenda parlamentar aprovada pelo Congresso Nacional que destinou recursos para a instalação do museu", explica. O Museu Clube da Esquina tem meta de instalação e abertura ao público na inauguração do Circuito Cultural Praça da Liberdade, previsto para os próximos meses. O projeto do museu, segundo Borges, tem orçamento de R$ 10 milhões.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Milton no Clube da Esquina. In: ______. Blog Semióticas, 12 de março de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/03/o-clube-da-esquina.html (acessado em .../.../...).



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