A imagem de Jim
Morrison, sua poesia e suas performances, provocam ainda hoje uma
estranha sedução – mais de 40 anos depois de sua morte cercada de
mistérios em Paris, em 3 de julho de 1971, aos 27 anos. Mas o que há
em comum entre o rock'n'roll, a poesia e as religiões ancestrais? A
questão, central para a legião de fãs de Jim e para todos os
estudos biográficos assinados por jornalistas e pesquisadores que
seguiram a trilha do King Lizard, fornece o fio condutor para o livro “Jim Morrison: O poeta-xamã”, lançamento da
Editora UFMG.
Didático,
investigativo, o autor, que é professor da Faculdade de Letras da
UFMG, convida o leitor a uma viagem fascinante em busca de respostas
a partir da transcrição dos poemas em versão original e em
português. Nos caminhos que se bifurcam, surge em detalhes a
trilha de brilho intenso de Jim Morrison. No trajeto da argumentação sobre a definição de "poeta-xamã", as afinidades
eletivas entre a contracultura, a tradição literária e o
misticismo,
em meio a referências incomuns para um roqueiro que incluem a
mitologia da Antiguidade Clássica, os filhos de Zeus, Dionísio,
Apolo, os povos pré-colombianos, Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche,
Freud, Kafka, Lévi-Strauss, Castaneda, Kerouac, entre muitos
outros poetas, artistas, pensadores.
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Amoroso,
místico, científico
O
perfil de Jim Morrison, como destaca o autor do livro "Jim Morrison: O poeta-xamã", Marcel de Lima Santos, vai muito além
das fotografias do astro do rock reproduzidas ao infinito há quase
meio século. Jim é um personagem surpreendente, sofisticado, ao
mesmo tempo amoroso, místico, científico, que escapa a qualquer
rótulo simplificador porque ultrapassa os limites tênues entre arte, magia,
política, para alcançar as grandes questões de nossa época –
questões que não por acaso explodiram na década de 1960 e mantêm
uma atualidade que impressiona, como nos versos do século 19 de
outro poeta místico, William Blake, fonte de inspiração para Jim e
The Doors: “Se as portas da percepção estivessem abertas, tudo pareceria como sempre foi – infinito”.
Na
presença fulgurante de Jim, autêntico Orfeu imerso no turbilhão
industrial da cultura de massas, com seus escritos e performances de
poeta xamã, o livro reúne citações eruditas ao exercício semiótico em detalhes
reveladores, essenciais para a desconstrução e a busca do entendimento sobre
o mosaico de complexidades que conduz a trajetória do artista e que
sua obra representa. Exatamente como o xamã ancestral, que
detém os segredos de outros mundos e compartilha, com doses
generosas de lógica e magia, sonhos míticos habitados por utopias e
deuses e espíritos.
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Além
de “Jim Morrison: O poeta xamã”, há uma extensa lista de livros
sobre Morrison lançada no Brasil – incluindo muitas biografias e fotobiografias, estudos sobre sua poesia e sobre a trajetória da banda, também apresentada no filme ficcional de Oliver Stone, “The Doors”, de 1991,
com a convincente performance de Val Kilmer como protagonista. Há ainda os dois livros de poemas que
Jim Morrison publicou e as duas coletâneas de inéditos, póstumas, todos lançados pela editora portuguesa
Assírio & Alvim: “Os Mestres e as Criaturas Novas”, “Uma
Oração Americana”, "Abismos" e “Últimos Escritos”. A mesma editora
lançou “Daqui Ninguém Sai Vivo”, tida como sua principal
biografia, escrita pelos jornalistas Daniel Sugerman e Jerry Hopkins,
que acompanharam o percurso de Jim desde quando ele era estudante de
cinema na Universidade da Califórnia.
Poesia,
prosa, filosofia
A
arte que Jim Morrison representa faz lembrar que nem sempre a prosa e
a filosofia estão mais próximas da realidade do que a poesia. Nos textos mais antigos que sobreviveram desde o mais remoto da Antiguidade Clássica, na Grécia Antiga, encontramos aqueles fundamentos que
muitos escritores e muitos pensadores da linguagem e da Semiótica
como Walter Benjamin, Roland Barthes, Umberto Eco, propõem como
centro a partir do qual se desenvolve a cultura do que é humano: a
poesia no ponto de partida dos caminhos que se bifurcam nos domínios
da linguagem.
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A poesia de Jim Morrison editada em português,
em publicações da Assírio & Alvim, editora
de
Portugal: acima, capas do primeiro livro,
Os
Mestres e as Criaturas Novas, e de
Uma
Oração Americana, de publicação póstuma.
Abaixo,
Jim em Amsterdam, Holanda, em 1968,
fotografado
por Nico van der Stam; e na
Alemanha,
durante turnê da banda The Doors,
fotografado
em setembro de 1968 por Gunter Zint.
Também
abaixo, Jim e seu cão Stone no
Griffith
Observatory, Los Angeles, Califórnia,
em
fotografia de 1968 de Paul Ferrara, e
as
capas outros dois livros também de edição
póstuma, Abismos e Últimos
Escritos
Se
voltamos aos mais antigos textos que a historiografia pode localizar,
Platão e Aristóteles, e mesmo antes deles, na tradição da
mitologia, encontramos a palavra no que ela tem de mágico e de
criação do mundo tal e qual o conhecemos. Platão fala do “furor
poético” que incorpora alguns seres, os seres iluminados, e faz
deles interlocutores com o além, o sobrenatural, o desconhecido.
Os
poetas, entre estes seres iluminados, seriam aqueles tomados pelo
sopro de Orfeu, o primeiro entre os poetas, o filho do deus Apolo e
descendente da família do deus Dionísio. Orfeu, aquele que estava
predestinado a inventar a arte da música, encantando a tudo e todos com sua
lira e transmitindo o grande segredo, mas um segredo cifrado em
poemas musicais.
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A
questão transcendental
Esta
mística da criação pela arte e pela poesia, do grande segredo
cifrado nas palavras da criação poética, talvez seja a questão mais
transcendental que acompanha a Arte e a Literatura desde o mais
antigo da civilização humana. Basta lembrar que os manuais de
História da Arte vão situar o começo de tudo muito antes da Grécia
e das culturas da Antiguidade – segundo alguns há mais de 10 mil,
20 mil ou 30 mil anos, com a arte rupestre da Pré-História e suas
imagens representadas nas paredes das cavernas: figuras humanas e bisões e outros
animais ruminantes com dois chifres e quatro patas, pintados com
sangue, carvão e extratos vegetais.
Imagens
pintadas por quem e para quê? A resposta é difícil, quase
impossível, mas abriga muitas possibilidades, a maior parte delas
indicando que aquela arte rupestre estava a serviço de um ritual
religioso: para festejar o passado, o presente ou o futuro, ou para
registrar o sucesso da caça, ou para espantar os maus espíritos, ou
para atrair os bons espíritos, mas por certo como diálogo do Homem
com a Divindade do sobrenatural.
Esta
questão muito antiga reluz nas últimas décadas na figura e na
poesia de Jim Morrison, esta persona bela e sedutora com suas imagens
reproduzidas ao infinito nos últimos 50 anos, uma persona que
encarna como nenhum outro, ou talvez mais do que qualquer outro, o
espírito do tempo da Contracultura. Jim Morrison alcançou a
personificação dos mitos da Antiguidade Clássica em plena Era
Industrial.
Rock'n'roll
e religiões ancestrais
Mas
o que há em comum entre o rock'n'roll, a poesia e as religiões
ancestrais? Estudioso da filosofia e da história, observador atento
de seu tempo e da arte da literatura, Morrison, o poeta-xamã, também
vem inscrever sua presença numa certa tradição da ruptura que é a
própria tradição da poesia, da Antiguidade à Renascença, na
baixa Idade Média, e daí às aspirações do sublime com os
românticos da Europa, Goethe, Blake, Byron, Baudelaire, Rimbaud.
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Esta
mesma tradição da ruptura encontra e fornece os fundamentos, no
começo do século 20, para a Arte Abstrata e para a Literatura nos
movimentos de vanguarda, para o Surrealismo, para o elogio aos
estados alterados de consciência como possibilidade visionária,
louvada por sucessivas gerações de artistas e poetas no último
século – que também está nas raízes do que se convencionou
chamar de rock'n'roll.
Na
explosiva década de 1960, Jim Morrison vai incorporar esta persona
do poeta, radical, indecente, profano, uma espécie de sacerdote no
"casamento do céu e do inferno", para usar a expressão de
William Blake, autor dos versos que inspiram a Morrison o nome da
banda, The Doors. O que mais impressiona em Jim Morrison, ainda hoje,
além de sua imagem sedutora, talvez seja a densidade da poesia que
ele improvisa, enquanto seus companheiros de banda Ray Manzarek
(teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore tocavam ao vivo,
entre referências de blues, cantos tribais, melodias dos cabarés da
primeira metade do século 20 e também da bossa nova do Brasil.
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Percepção
mística
Mas
inscrever Jim Morrison nesta tradição da ruptura, com fundamentos
na história e na história da literatura, também é correr o risco
de diminuir seu valor. Afinal, se a obra do poeta Jim Morrison é
feita de citações e de diálogos com outros poetas e outros
pensadores, isso poderia ser entendido também como uma tentativa de
retirar dele, de sua arte, de sua poesia, o que ele mantém de mais
autêntico e mais original.
Para
concluir e lançar muitas outras dúvidas e perguntas, lembro um
aspecto fundamental quando o assunto é a poesia de Jim Morrison: o
fato de que vem dele, também, algumas das canções e performances
mais intrigantes e explosivas da era do rock. Tão intrigantes que a
imprensa dos EUA considerava Jim um "inimigo público"
quando ele morreu, no início dos anos 1970. Sua imagem e a
importância de The Doors entre o turbilhão de bandas da década de
1960 só seria reabilitada muitos anos depois.
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Ou,
dizendo por outras palavras: a poesia de Morrison, seus textos, suas
performances, se tornam ainda mais absolutamente irresistíveis e
encantadores quando vêm associados a sua voz, ao mesmo tempo
máscula, vigorosa, estranha, sensual, melancólica, nas gravações
que são a mais perfeita tradução dos festins apocalípticos do
rock e também do xamã, do Rei Lagarto. Mr. Mojo risin'.
Um
convite à reflexão, a poesia de Jim Morrison e suas gravações ao
vivo e em estúdio com a banda The Doors estabelecem novas
perspectivas e convergências cada vez mais raras e ausentes da
cultura pop. Em seus extremos de poesia, música, teatro, ritual
místico, as performances de Jim, com a banda e nos raros registros sem ela, alcançam e ultrapassam os nexos da
cronologia existencial, conjugando o efêmero da experiência e a
permanência visionária da percepção que nos permite ser e
conviver – exatamente como convém à Grande Arte e à vida que
segue, com seus mistérios cotidianos e revelações.
por
José Antônio Orlando.
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Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. Jim Morrison aos 70. In: ______. Blog
Semióticas,
7 de dezembro de 2013. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2013/12/jim-morrison-aos-70.html
(acessado em .../.../...).
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