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7 de dezembro de 2013

Jim Morrison aos 70





O xamã se move separado de todos  
os demais, vive sozinho, fala com os mortos  
e com a lua cheia em línguas que só ele entende  
porque só o xamã tem esse pensamento metamágico.  
Quando você olha para as mais diversas sociedades  
humanas tradicionais, todas têm xamãs. Mas o xamã  
não é descontrolado do jeito que é o esquizofrênico.  
O xamã sabe o ponto certo e só entra em transe  
na cerimônia certa porque ele é suave,  
tem poder, tem autocontrole.  

–– Robert Sapolsky, Crença e Biologia”     




A imagem de Jim Morrison, sua poesia e suas performances, provocam ainda hoje uma estranha sedução – mais de 40 anos depois de sua morte cercada de mistérios em Paris, em 3 de julho de 1971, aos 27 anos. Mas o que há em comum entre o rock'n'roll, a poesia e as religiões ancestrais? A questão, central para a legião de fãs de Jim e para todos os estudos biográficos assinados por jornalistas e pesquisadores que seguiram a trilha do King Lizard, fornece o fio condutor para o livro “Jim Morrison: O poeta-xamã”, lançamento da Editora UFMG.

Didático, investigativo, o autor, que é professor da Faculdade de Letras da UFMG, convida o leitor a uma viagem fascinante em busca de respostas a partir da transcrição dos poemas em versão original e em português. Nos caminhos que se bifurcam, surge em detalhes a trilha de brilho intenso de Jim Morrison. No trajeto da argumentação sobre a definição de "poeta-xamã", as afinidades eletivas entre a contracultura, a tradição literária e o misticismo, em meio a referências incomuns para um roqueiro que incluem a mitologia da Antiguidade Clássica, os filhos de Zeus, Dionísio, Apolo, os povos pré-colombianos, Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche, Freud, Kafka, Lévi-Strauss, Castaneda, Kerouac, entre muitos outros poetas, artistas, pensadores.









O poeta-xamã: no alto e acima,
Jim Morrison fotografado em
1968, em New York, por Yale Joel.
Também abaixo: 1) outra imagem da sessão
em estúdio com Yale Joel; 2) Jim Morrison e
The Doors no palco, em 1968, no Fillmore East,
Nova York, em fotografia de Elliott Landy;
3) em mais duas fotografias do ensaio de 1968
por Yale Joel; 4) em fotografia de Ken Regan
que registra a performance no palco, em janeiro
de 1970, no Westbury Music Fair; 5) no palco
em Phoenix, Arizona, em fevereiro de 1968,
fotografado por Paul Ferrara; e 6) a capa
do livro Jim Morrison: O poeta-xamã











Amoroso, místico, científico



O perfil de Jim Morrison, como destaca o autor do livro "Jim Morrison: O poeta-xamã", Marcel de Lima Santos, vai muito além das fotografias do astro do rock reproduzidas ao infinito há quase meio século. Jim é um personagem surpreendente, sofisticado, ao mesmo tempo amoroso, místico, científico, que escapa a qualquer rótulo simplificador porque ultrapassa os limites tênues entre arte, magia, política, para alcançar as grandes questões de nossa época – questões que não por acaso explodiram na década de 1960 e mantêm uma atualidade que impressiona, como nos versos do século 19 de outro poeta místico, William Blake, fonte de inspiração para Jim e The Doors: “Se as portas da percepção estivessem abertas, tudo pareceria como sempre foi – infinito”.

Na presença fulgurante de Jim, autêntico Orfeu imerso no turbilhão industrial da cultura de massas, com seus escritos e performances de poeta xamã, o livro reúne citações eruditas ao exercício semiótico em detalhes reveladores, essenciais para a desconstrução e a busca do entendimento sobre o mosaico de complexidades que conduz a trajetória do artista e que sua obra representa. Exatamente como o xamã ancestral, que detém os segredos de outros mundos e compartilha, com doses generosas de lógica e magia, sonhos míticos habitados por utopias e deuses e espíritos.
















Além de “Jim Morrison: O poeta xamã”, há uma extensa lista de livros sobre Morrison lançada no Brasil – incluindo muitas biografias e fotobiografias, estudos sobre sua poesia e sobre a trajetória da banda, também apresentada no filme ficcional de Oliver Stone, “The Doors”, de 1991, com a convincente performance de Val Kilmer como protagonista. Há ainda os dois livros de poemas que Jim Morrison publicou e as duas coletâneas de inéditos, póstumas, todos lançados pela editora portuguesa Assírio & Alvim: “Os Mestres e as Criaturas Novas”, “Uma Oração Americana”, "Abismos" e “Últimos Escritos”. A mesma editora lançou “Daqui Ninguém Sai Vivo”, tida como sua principal biografia, escrita pelos jornalistas Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, que acompanharam o percurso de Jim desde quando ele era estudante de cinema na Universidade da Califórnia.

 

Poesia, prosa, filosofia



A arte que Jim Morrison representa faz lembrar que nem sempre a prosa e a filosofia estão mais próximas da realidade do que a poesia. Nos textos mais antigos que sobreviveram desde o mais remoto da Antiguidade Clássica, na Grécia Antiga, encontramos aqueles fundamentos que muitos escritores e muitos pensadores da linguagem e da Semiótica como Walter Benjamin, Roland Barthes, Umberto Eco, propõem como centro a partir do qual se desenvolve a cultura do que é humano: a poesia no ponto de partida dos caminhos que se bifurcam nos domínios da linguagem.


 



A poesia de Jim Morrison editada em português,
em publicações da Assírio & Alvim, editora
de Portugal: acima, capas do primeiro livro,
Os Mestres e as Criaturas Novas, e de
Uma Oração Americana, de publicação póstuma.
Abaixo, Jim em Amsterdam, Holanda, em 1968,
fotografado por Nico van der Stam; e na
Alemanha, durante turnê da banda The Doors,
fotografado em setembro de 1968 por Gunter Zint.
Também abaixo, Jim e seu cão Stone no
Griffith Observatory, Los Angeles, Califórnia,
em fotografia de 1968 de Paul Ferrara, e
as capas outros dois livros também de edição
póstuma, Abismos e Últimos Escritos









Se voltamos aos mais antigos textos que a historiografia pode localizar, Platão e Aristóteles, e mesmo antes deles, na tradição da mitologia, encontramos a palavra no que ela tem de mágico e de criação do mundo tal e qual o conhecemos. Platão fala do “furor poético” que incorpora alguns seres, os seres iluminados, e faz deles interlocutores com o além, o sobrenatural, o desconhecido.

Os poetas, entre estes seres iluminados, seriam aqueles tomados pelo sopro de Orfeu, o primeiro entre os poetas, o filho do deus Apolo e descendente da família do deus Dionísio. Orfeu, aquele que estava predestinado a inventar a arte da música, encantando a tudo e todos com sua lira e transmitindo o grande segredo, mas um segredo cifrado em poemas musicais.











A questão transcendental



Esta mística da criação pela arte e pela poesia, do grande segredo cifrado nas palavras da criação poética, talvez seja a questão mais transcendental que acompanha a Arte e a Literatura desde o mais antigo da civilização humana. Basta lembrar que os manuais de História da Arte vão situar o começo de tudo muito antes da Grécia e das culturas da Antiguidade – segundo alguns há mais de 10 mil, 20 mil ou 30 mil anos, com a arte rupestre da Pré-História e suas imagens representadas nas paredes das cavernas: figuras humanas e bisões e outros animais ruminantes com dois chifres e quatro patas, pintados com sangue, carvão e extratos vegetais.

Imagens pintadas por quem e para quê? A resposta é difícil, quase impossível, mas abriga muitas possibilidades, a maior parte delas indicando que aquela arte rupestre estava a serviço de um ritual religioso: para festejar o passado, o presente ou o futuro, ou para registrar o sucesso da caça, ou para espantar os maus espíritos, ou para atrair os bons espíritos, mas por certo como diálogo do Homem com a Divindade do sobrenatural. 







Daqui Ninguém Sai Vivo, a mais
célebre das biografias de Mr. Mojo Risin',
foi publicada em 1979 por Daniel Sugerman
e Jerry Hopkins, e An American Prayer
última sessão de gravação de Jim Morrison
em estúdio, álbum que teve lançamento
póstumo e acréscimo de música incidental
por seus três companheiros de banda.
Abaixo, Jim Morrison em viagem pelo
deserto de Sierra Madre, no México, em
1969, fotografado por Jerry Hopkins;
Jim no palco em Nova York, em 1968,
fotografado por Yale Joel; e em uma
festa de amigos em Los Angeles
com a namorada de longa data,
Pamela Courson




 

Esta questão muito antiga reluz nas últimas décadas na figura e na poesia de Jim Morrison, esta persona bela e sedutora com suas imagens reproduzidas ao infinito nos últimos 50 anos, uma persona que encarna como nenhum outro, ou talvez mais do que qualquer outro, o espírito do tempo da Contracultura. Jim Morrison alcançou a personificação dos mitos da Antiguidade Clássica em plena Era Industrial.



Rock'n'roll e religiões ancestrais



Mas o que há em comum entre o rock'n'roll, a poesia e as religiões ancestrais? Estudioso da filosofia e da história, observador atento de seu tempo e da arte da literatura, Morrison, o poeta-xamã, também vem inscrever sua presença numa certa tradição da ruptura que é a própria tradição da poesia, da Antiguidade à Renascença, na baixa Idade Média, e daí às aspirações do sublime com os românticos da Europa, Goethe, Blake, Byron, Baudelaire, Rimbaud.
 





 
Esta mesma tradição da ruptura encontra e fornece os fundamentos, no começo do século 20, para a Arte Abstrata e para a Literatura nos movimentos de vanguarda, para o Surrealismo, para o elogio aos estados alterados de consciência como possibilidade visionária, louvada por sucessivas gerações de artistas e poetas no último século – que também está nas raízes do que se convencionou chamar de rock'n'roll.

Na explosiva década de 1960, Jim Morrison vai incorporar esta persona do poeta, radical, indecente, profano, uma espécie de sacerdote no "casamento do céu e do inferno", para usar a expressão de William Blake, autor dos versos que inspiram a Morrison o nome da banda, The Doors. O que mais impressiona em Jim Morrison, ainda hoje, além de sua imagem sedutora, talvez seja a densidade da poesia que ele improvisa, enquanto seus companheiros de banda Ray Manzarek (teclados), Robby Krieger (guitarra) e John Densmore tocavam ao vivo, entre referências de blues, cantos tribais, melodias dos cabarés da primeira metade do século 20 e também da bossa nova do Brasil.







 

No alto, Jim Morrison em 1968 em foto
de Linda McCartney. Acima, Morrison
& The Doors por Henry Diltz, fotógrafo
de Morrison Hotel e das capas e encartes
de outros álbuns da banda. Abaixo, The Doors
na praia de Venice, em Los Angeles, em
foto de Henry Diltz; e os quatro integrantes
na arte da capa do álbum de estreia da banda,
lançado em 4 de janeiro de 1967, com fotos
e arte de Joel Brodsky, fotógrafo preferido
de Morrison; e Morrison em três fotografias de
Brodsky: 1) na célebre sessão nos estúdios do
fotógrafo em Nova York, 1967, batizada como
The young lion2) nas capas dos livros e no
BLU-RAY R-Evolution, mais recente lançamento
de gravações e performances ao vivo que ainda
permaneciam inéditas; e 3) a reunião da banda em
cima de um outdoor em Los Angeles, em 1967










Percepção mística



Mas inscrever Jim Morrison nesta tradição da ruptura, com fundamentos na história e na história da literatura, também é correr o risco de diminuir seu valor. Afinal, se a obra do poeta Jim Morrison é feita de citações e de diálogos com outros poetas e outros pensadores, isso poderia ser entendido também como uma tentativa de retirar dele, de sua arte, de sua poesia, o que ele mantém de mais autêntico e mais original.

Para concluir e lançar muitas outras dúvidas e perguntas, lembro um aspecto fundamental quando o assunto é a poesia de Jim Morrison: o fato de que vem dele, também, algumas das canções e performances mais intrigantes e explosivas da era do rock. Tão intrigantes que a imprensa dos EUA considerava Jim um "inimigo público" quando ele morreu, no início dos anos 1970. Sua imagem e a importância de The Doors entre o turbilhão de bandas da década de 1960 só seria reabilitada muitos anos depois.










 

Ou, dizendo por outras palavras: a poesia de Morrison, seus textos, suas performances, se tornam ainda mais absolutamente irresistíveis e encantadores quando vêm associados a sua voz, ao mesmo tempo máscula, vigorosa, estranha, sensual, melancólica, nas gravações que são a mais perfeita tradução dos festins apocalípticos do rock e também do xamã, do Rei Lagarto. Mr. Mojo risin'.

Um convite à reflexão, a poesia de Jim Morrison e suas gravações ao vivo e em estúdio com a banda The Doors estabelecem novas perspectivas e convergências cada vez mais raras e ausentes da cultura pop. Em seus extremos de poesia, música, teatro, ritual místico, as performances de Jim, com a banda e nos raros registros sem ela, alcançam e ultrapassam os nexos da cronologia existencial, conjugando o efêmero da experiência e a permanência visionária da percepção que nos permite ser e conviver – exatamente como convém à Grande Arte e à vida que segue, com seus mistérios cotidianos e revelações.


por José Antônio Orlando.



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Jim Morrison aos 70. In: ______. Blog Semióticas, 7 de dezembro de 2013. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2013/12/jim-morrison-aos-70.html (acessado em .../.../...).



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23 de maio de 2013

Uma noite com Janis










Janis Lyn Joplin sempre foi uma garota precoce. Estava no auge, mas morreu aos 27 anos. Décadas depois, permanece em destaque e como exceção, no primeiro escalão do universo quase sempre masculino do rock'n'roll. Janis está outra vez nos noticiários por conta de relançamentos em CD, DVD, Blu-Ray e novos projetos que incluem três filmes em produção por Hollywood, “Janis: Little Girl Blue, Janis Joplin: Get It While You Can” e “The Gospel According to Janis”, com previsão para estrear em 2016.

Há também um musical, “One Night with Janis Joplin”, escrito e dirigido por Randy Johnson, que desde a estreia nos palcos norte-americanos tem sido celebrado pelos fãs e tornou-se unanimidade entre público e crítica, com lotações esgotadas com meses de antecedência. Em uma breve entrevista concedida por e-mail, Johnson destaca que Janis é daqueles personagens centrais que traduzem toda uma época com sua presença e sua música feita de lirismo poético, rebeldia, amadurecimento político, muito além das fronteiras do rock ou de qualquer outro estilo.











Uma noite com Janis Joplin:
o fotógrafo Barry Feinstein registrou,
em setembro de 1970, o último
ensaio fotográfico de Janis em
estúdio, incluindo a imagem
que seria estampada na capa do
disco póstumo Pearl (abaixo)


















Foi assim desde o princípio, na primeira metade da década de 1960: enquanto o rock'n'roll completava uma década de existência e passava por uma transformação radical, Janis chegava à adolescência em uma família tradicional católica e começava a cantar no coral da igreja em sua cidade natal, Port Arthur, no Texas. Naquela época, Elvis ainda era o Rei para as novas gerações, até onde a indústria cultural norte-americana alcançava, mas o rock e a música como força dos movimentos de contestação estavam por ganhar capítulos importantes.



Rock & Jazz & Blues



Na adolescência de Janis, entrava em cena a convergência entre música e política, estreavam as canções em estilo Folk de Bob Dylan e chegava pelo rádio e pela TV a novidade do rock inglês de Beatles e Rolling Stones. Os primeiros passos da canção como força importante de crítica social começaram antes, contando com um marco poderoso quando Billie Holiday provocou revoluções com a singular “Strange Fruit”. Manifesto poderoso contra o racismo e contra o preconceito, “Strange Fruit” com Billie Holiday também foi o primeiro caso de uma canção de protesto a se tornar sucesso na indústria fonográfica (veja mais em "Semióticas: Biografia de uma canção").



















A década de 1960 veria o florescer de grandes nomes e bandas importantes na galeria da contestação e da contracultura, mas no mundo do rock ainda estava por surgir uma voz feminina com o impacto que Billie Holiday imprimiu à mitologia do Jazz e do Blues. Como nas antigas lendas traçadas para a trajetória dos heróis, havia uma trama de artimanhas do destino: Janis, adolescente tímida em Port Arthur, tornou-se uma fã precoce e apaixonada por Billie Holiday e outras grandes do jazz e do blues, Bessie Smith, Etta James, Nina Simone.

Quando completou o curso secundário na Jefferson High School, aos 17 anos, Janis começou sua dedicação para cantar blues e vai de mudança para Los Angeles, Califórnia, onde estreia cantando em bares e casas noturnas. Também descobriria a atitude rebelde dos hippies e a literatura de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Lawrence Felinghetti, William Burroughs e outros poetas da geração Beatnik, além dos livros de Hermann Hesse e Friedrich Nietzsche.



Monterey Pop Festival



A estreia de Janis para o grande público acontece no Monterey Pop Festival, em junho de 1967, como vocalista do grupo Big Brother & the Holding Company. Explodindo seu canto apaixonado, desesperado, com todos os decibéis, agitando os cabelos longos e acariciando o microfone, amparada por longos solos de guitarra, Janis rapidamente se tornaria o centro das atenções. Bastou meia dúzia de canções, incluindo "Ball and Chain", “Down on Me” e “Piece of My Heart”, para Janis sair do palco em Monterey consagrada como uma das vozes mais marcantes da era do rock, além de conquistar a amizade de Jimi Hendrix, Ravi Shankar, Grateful Dead, The Mamas and The Papas, The Who, Jefferson Airplane, Johnny Rivers e Otis Redding, entre outras estrelas e bandas no elenco do festival.





















Janis Joplin no Monterey Pop
Festival: a futura estrela chega
para a apresentação, fotografada
em preto e branco por Nurit Wilde;
e no palco, em fotos de Paul Ryan.
Abaixo, Janis no palco do Monterey Pop
e em outra lendária apresentação, no
Festival de Woodstock, em duas
fotos: a primeira de Rowland Scherman
e a segunda de Paul Fusco. Também 
abaixo, Janis no palco, em Nova York,
1967, fotografada por Linda McCartney.
A foto feita por Linda seria depois
reproduzida no cartaz original do
documentário Janis, filme que teve
roteiro e direção de Howard Alk
e foi lançado em 1974 nos cinemas,
três anos após a morte de Janis







A partir daquela apresentação, a trajetória de Janis seria meteórica: em pouco tempo, faria shows e gravações memoráveis, em estúdio e ao vivo, para suas composições e para clássicos da canção de outras épocas, que já contavam com interpretações memoráveis de Billie Holiday, Bessie Smith, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong e outros grandes do Jazz e do Blues. Janis representava uma síntese que era o sonho de muitos de sua geração: reunia com talento inédito a tradição da música dos negros e o novo, com canções conhecidas encontrando na sua voz as versões definitivas – caso de “Summertime”, ária da ópera “Porgy and Bess”, de Ira e George Gershwin, que em 1969 ela apresentaria ao vivo pela primeira vez no Festival de Woodstock (veja mais em "Semióticas: A viagem de Woodstock").

Janis vivia na intensidade de suas canções, como contam os biógrafos. Em fevereiro de 1970, fez uma pausa na maratona de shows e gravações para passar uma temporada no Brasil, porque queria conhecer o Carnaval com o namorado, o roqueiro brasileiro Serguei. Janis morreria em outubro daquele ano, apenas três anos depois da estreia no Festival Monterey Pop. Tinha 27 anos e oficialmente sofreu uma overdose, em circunstâncias não totalmente esclarecidas. Estava no auge, mas havia lançado apenas quatro álbuns: “Big Brother and the Holding Company” (1967), “Cheap Thrills” (1968) e “I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama!” (1969), que ganharam capa e projeto gráfico de seu amigo, o cartunista Robert Crumb, e o póstumo “Pearl” (1971), lançado seis meses após sua morte.
















Mitologia e cultura pop



Ao contrário de outros nomes do rock e da música pop, que também morreram jovens e deixaram incontáveis gravações inéditas, com Janis o acervo, ao que tudo indica, ficou concluído com as canções de “Pearl”, além das performances ao vivo na TV e em festivais, todas lançadas em vídeo e DVD. Janis também foi assunto de vários documentários, sendo o mais conhecido deles “Janis”, de 1974, com roteiro e direção de Howard Alk, que reuniu uma seleção de cenas de entrevistas, ensaios e apresentações ao vivo.

Janis também teve sua história romanceada no filme “The Rose”, de 1979, com roteiro e direção de Mark Rydell e tendo Bette Midler como protagonista. “The Rose” foi exibido nos festivais de cinema, ganhou prêmios e indicações ao Bafta, César, Globo de Ouro e Oscar, mas faltava nele o principal: Janis e sua música. Outra tentativa de reviver o mito Janis Joplin aconteceu há alguns anos com o musical da Broadway “Love, Janis”, baseado no livro homônimo escrito por Laura Joplin, irmã de Janis, mas a resposta do público não foi além das primeiras temporadas.








Viagem ao Brasil: Janis na praia de
Copacabana, Rio de Janeiro, em
fevereiro de 1970, fotografada por
Ricky Ferreira, e com o roqueiro
brasileiro Serguei. Abaixo, Janis no
Carnaval carioca, também em
fevereiro de 1970, e na Dinamarca,
em abril de 1969, fotografada
por Jan Persson










 









Agora a presença lendária de Janis está de volta com os novos filmes previstos para estrear em breve (“Janis: Little Girl Blue, Janis Joplin: Get It While You Can” e “The Gospel According to Janis”) e nos palcos, com “One Night with Janis Joplin”, espetáculo que vem sendo aclamado nos palcos dos EUA como “uma experiência musical com o melhor do rock'n'roll”. O espetáculo de teatro que se transforma em concerto de rock para trazer Janis de volta aos palcos só tem recebido elogios, talvez porque sabiamente o diretor e roteirista não tenha destacado o envolvimento áspero da cantora com álcool e drogas químicas. O destaque, unânime, tem ido muito além das páginas das publicações dedicadas exclusivamente à cultura pop.



Efeito de euforia



Depois da estreia, até o sisudo “The Washington Post” destacou na primeira página o sucesso surpreendente do musical sobre Janis: "É um espetáculo que vai seduzir grandes plateias porque tem muitos trunfos em seu favor. Este concerto de rock escrito e dirigido por Randy Johnson alcança seu efeito de euforia porque retrata, mais do que qualquer outra coisa, um romance: uma cantora apaixonada pelo abraço de sua multidão de fãs". Pelo repertório anunciado no espetáculo, parece mesmo difícil para um fã resistir ou ficar indiferente.






Trabalho em equipe: no alto,
Michael Joplin, irmão de Janis,
com Mary Bridge Davies e
Randy Johnson, a atriz principal
e o diretor do musical One Night
With Janis Joplin. Acima,
Mary Bridge Davies no palco


Randy Johnson concebeu para “One Night with Janis Joplin” um roteiro que tem breves passagens de encenações teatrais, para situar as plateias em detalhes biográficos da “peróla branca do Texas”, mas pelo que se pode ver nas prévias e trailers disponíveis on-line, é um espetáculo que centra o foco no que era mais importante para sua estrela: a música. E convence, porque todas as críticas se rendem às performances de todo o elenco e ao cuidado da produção, incluindo uma banda de veteranos no palco, liderada pelo diretor musical Len Rhodes.

O espetáculo criado e conduzido por Randy Johnson lança mão de um aparato multimídia que Janis não conheceu, incluindo projeções em telões, holografias e efeitos psicodélicos de neblina e luzes estroboscópicas. Ao final, uma apresentação de fogos de artifícios ainda surpreende o público do lado de fora do teatro. A estratégia: provocar uma experiência sensorial para reconstituir em pequenos e grandes detalhes as lendárias performances de Janis, que surge no palco incorporada pela atriz e cantora Mary Bridget Davies. A semelhança e o tom de voz impressionam as plateias, que cantam e dançam como se Janis estivesse em cena.





Janis e a história coletiva



Quando eu soube da estreia e do sucesso do espetáculo (atualmente em cartaz no Milwaukee Repertory Theater, em Wisconsin, nos EUA), tentei contato com a produção e com o diretor, explicando meu interesse de pesquisa por Janis e outros heróis de referência da Contracultura. A resposta de Randy Johnson foi de cortesia, mas sem muitos detalhes. Na breve resposta ao primeiro e-mail, Johnson disse que o projeto só se tornou realidade porque ele teve a sorte de poder contar com o “auxílio luxuoso” de dois irmãos de Janis, Laura e Michel Joplin, e que sua dedicação e veneração à lenda que Janis criou vem de longa data.

"Nestes dias em que a fama é instantânea e a verdadeira musicalidade é rara, a palavra 'artista' é uma afirmação muitas vezes mal utilizada”, escreve o diretor Randy Johnson. “Como estamos reféns de uma cultura pop que fabrica estes 'artistas' diariamente, eu sinto que nós devemos constantemente revisitar a nossa história cultural e explorar as forças autênticas que moldaram a paisagem de nossas vidas. Uma dessas forças autênticas para mim é Janis Joplin”.








Mary Bridge Davies traz Janis
de volta ao palco em "One Night
With Janis Joplin". Abaixo,
Janis em casa, em San Francisco,
em 1968, fotografada por
seu amigo Baron Wolman


Na definição precisa de Johnson, Janis faz parte daquela categoria rara de artistas que não dependem do artifício da publicidade nem do marketing intensivo para alcançar o grande público. “As pessoas gostam de dizer que Janis estava à frente de seu tempo. Não concordo. Eu acredito que ela estava certa na hora certa”, destaca Johnson.

A ambição maior de "One Night With Janis Joplin", segundo o diretor e roteirista, é resgatar um personagem que vai muito além do rock'n'roll. "Não estamos contando apenas a história pessoal de Janis, porque ela é parte da história coletiva e suas canções fazem parte da vida afetiva de muitos, no mundo inteiro. Também acredito que o mundo é um lugar melhor porque Janis esteve aqui por um momento. Por isso confio que o espetáculo traz consigo um pouco de Janis, um pedaço de seu coração, seu espírito e sua sabedoria".


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Uma noite com Janis. In: ______. Blog Semióticas, 23 de maio de 2013. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2013/05/uma-noite-com-janis.html (acessado em .../.../...).


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