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28 de abril de 2014

Mestres da Gravura













Grandes tesouros da arte produzida do século 15 ao século 18 estão reunidos na exposição itinerante “Mestres da Gravura – Coleção Fundação Biblioteca Nacional”. Com 170 obras originais que fazem parte do acervo Real Biblioteca de Portugal, a exposição estará aberta ao público no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, até 22 de junho de 2014, seguindo depois para outras capitais. Produzidas pelos artistas mais importantes de diversas escolas europeias, as gravuras do acervo estão sob a guarda da Biblioteca Nacional, com sede no Rio de Janeiro, desde 1810, quando a corte portuguesa de Dom João VI transferiu o acervo de Lisboa para o Brasil.

Reunidos no acervo de quatro séculos da história da arte estão 81 grandes mestres do estilo com gravuras originais que representam mitologias, alegorias, paisagens e cenas religiosas criadas na época do Renascimento, do Maneirismo, do Barroco e do Rococó. Fazem parte da exposição itinerante 30 gravuras da coleção alemã, 27 da holandesa, 35 da italiana, 26 da francesa, 14 da flamenga, oito da inglesa, 18 da espanhola e 13 da portuguesa, em técnicas predominantes de xilogravura (gravura impressa a partir de uma matriz de madeira) e gravura a metal – incluindo obras em talho-doce ou gravura a buril, gravura à ponta-seca, à água-forte, à maneira-negra, à água-tinta e pontilhados em técnica mista.

As obras em exposição foram criadas por artistas considerados os mais importantes da História da Arte, entre eles Albrecht Dürer (o principal nome da renascença alemã), Rembrandt Harmenszoon van Rijn (o maior da arte neerlandesa) e Francisco José de Goya y Lucientes, o artista mais importante do Romantismo na Espanha. Também foram selecionadas para a mostra, entre as mais de 30 mil peças do acervo, obras satíricas do inglês William Hogarth, que refletia sobre os desmandos da política em seu tempo e acabou gerando o termo Hogartianas; o italiano Giovanni Battista Piranesi, que registrava a arquitetura com detalhes e é forte influência na arte contemporânea; a extraordinária arte burlesca do francês Jacques Callot; e o talento de retratista do flamengo Anton Van Dyck, entre outros grandes mestres.






Mestres da Gravura: no alto,
Le Antichitá Romane,
obra-prima do italiano Giovanni
Battista Piranesi (1720-1778). Acima, 
Jesus Cristo descendo ao Limbo, do
italiano Andrea Mantegna (1431-1506),
e um mapa descritivo da Europa do
século 16. Abaixo, Santa Cecília
cantando os Louvores de Deus, do
francês Étienne Picart (1632-1721).
Todas as imagens reproduzidas
nesta página estão no catálogo da
exposição Mestres da Gravura








O acervo de obras-primas em exposição, com curadoria de Fernanda Terra, abarca artistas que nasceram do século 15 ao 18 e obras concebidas de acordo com as técnicas mais avançadas que foram desenvolvidas no período – a única exceção são algumas obras de Goya, que foram criadas em 1815 e trazidas posteriormente para o Brasil, mas ainda assim o artista espanhol é tido essencialmente como um gravador do século 18. A grande maioria do acervo de gravuras foi adquirida por Portugal no período anterior ao terremoto que arrasou Lisboa em 1755 – e sobreviveram ao terremoto, ao maremoto e aos incêndios sucessivos que destruíram a cidade.

Trazidas para o Brasil por Dom João VI, a coleção de gravuras, juntamente com milhares de caixas que incluíam livros, partituras e mapas, deu origem à Biblioteca Nacional, que mantém sua sede no Rio de Janeiro. Considerada a maior biblioteca da América Latina, a Biblioteca Nacional também foi nomeada pela UNESCO entre as 10 mais importantes do mundo. Todas as gravuras em exposição foram selecionadas do acervo que hoje conta com mais de 30 mil obras, raramente exibidas ao público. Em 2012, nos 200 anos da Biblioteca Nacional, a mesma mostra foi aberta no Rio de Janeiro e, em 2013, foi apresentada em Brasília. Depois de Belo Horizonte, a exposição segue para Salvador, Recife e outras capitais do Nordeste.








Mestres da Gravura: acima,
Orfeu e Eurídice, gravura de 1510
do mestre italiano Marco Antonio 
Raimondi (1480-1534); Cupido tocando 
cravo (1538), do italiano Giovanni Battista 
Ghizi (1503-1575); e Adão e Eva (1504),
do alemão Albrecht Dürer. Abaixo, 
A Sagrada Família, gravura de 1580 do
holandês Hendrik Goltizius (1558-1617)






Acervo de relíquias preciosas



Todo o acervo da mostra que chega a BH também está reproduzido em um livro belíssimo de capa dura e 240 páginas. Organizado pela mesma curadora Fernanda Terra e com o mesmo título da exposição “Mestres da gravura – Coleção Fundação Biblioteca Nacional”, o livro foi coeditado pela Artepadilla, Caramurê Publicações e Fundação Biblioteca Nacional, com patrocínio da Petrobras. Além do acervo completo da mostra, com imagens em fac-símile das 170 gravuras tanto em xilogravuras, a mais antiga técnica de gravar sobre papel, quanto nas variadas técnicas de gravação em metal, a publicação inclui um breve histórico de cada gravador e artigos assinados por especialistas.

A edição de luxo, subdivida em oito coleções e organizada por ordem cronológica e pela geografia de nascimento dos artistas, acompanha as mudanças técnicas da gravura através dos séculos – percurso delimitado pelos artigos “Mestres da gravura: Coleção Biblioteca Nacional”, resultado da pesquisa de Fernanda Terra; “Breve história da biblioteca: entre livros e símbolos”, escrito pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz; e “Manter o passado no futuro”, assinado pelo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Renato Lessa. Um texto mais extenso e minucioso apresenta e descreve a Divisão de Iconografia da FBN, assinado por Monica Carneiro Alves e Monica Velloso Azevedo.






Mestres da Gravura: acima,
capa do catálogo da exposição, que
reproduz uma das gravuras da série
Le carcere d'invenzione, de
Piranesi, datada de 1750; e Cristo na
Cruz (A Crucificação), do alemão Lucas
Cranach, Sênior (1472-1553). Abaixo,
Cristo perante Herodes, de Cranach;
As Três Cruzes (1653), A Anunciação
aos Pastores (1634) e Autorretrato com
boina e cachecol (1633), do holandês
Rembrandt (1606–1669); e duas gravuras
da série Les misères et les mal-heures
de la guerre, de 1633, do mestre francês
Jacques Callot (1592-1635), intituladas
A Batalha e O suplício da forca
 










Entre as centenas de preciosidades, os artigos destacam as séries mais valiosas do acervo da exposição, que não têm equivalentes em nenhuma outra coleção conhecida. Dos grandes mestres, ganham destaque pela ordem cronológica o item mais antigo do acervo, “Jesus Cristo descendo ao Limbo”, assinado por Andrea Mantegna (1431-1506). Na sequência está Albrecht Dürer (1471–1528), com as séries bíblicas dedicadas ao “Apocalipse” e a “Adão e Eva”, ambas datadas por volta de 1500, nas quais transparecem avanços no estudo das proporções humanas e a imensa variedade de tons e de texturas.



Importância histórica e simbólica



Na lista das obras mais valiosas do acervo também estão Rembrandt (1606–1669), com uma seleção de 12 gravuras, entre as quais estão quatro autorretratos; Francisco Goya (1746-1828), exímio gravador e maior pintor da Espanha no século 18, presente no livro e na exposição com nove obras-primas da série “Os provérbios” e mais cinco ilustrações para uma edição de “D. Quixote”, de Cervantes; e o italiano Giovanni Piranesi (1720-1778), que aparece com as séries “Le carcere d’invenzione” e “Le Antichità romane”.














No que se refere à importância histórica e simbólica da coleção Mestres da Gravura, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz destaca em seu artigo uma questão política, dramática e crucial: a coleção era tão valiosa que, na conta que o Brasil teve que pagar a Portugal pela sua Independência, a partir de 1822, o acervo da Biblioteca Nacional surgiu em um surpreendente segundo lugar, depois apenas do saldo da dívida pública.

A batalha acabou sendo ganha pelo Brasil, mas teve custo alto” – avalia Schwarcz. O acervo da Biblioteca Nacional aparecia avaliado em 800 Contos de Réis, um valor tremendamente alto no montante da dívida. “Para se ter uma ideia mais precisa”, destaca a historiadora, “tal valor correspondia a 12,5% do total a ser pago, quatro vezes mais do que a famosa prataria da coroa ou do que a equipagem deixada no Brasil. Significava, portanto, muito, e em muitos sentidos: autonomia por aqui, desapego para o lado de lá. Incrível pensar como os livros, mais uma vez, eram protagonistas, desta vez na conta que se pagava pela liberdade do país”.

Muito além do valor em dinheiro, ressalta Lilia Moritz Schwarcz, havia a importância simbólica – para um país tão jovem como era o Brasil, foi uma forma de afirmação e mesmo de soberania contar com tal acervo de preciosidades em uma biblioteca que ostentava proporções monumentais, só comparável já naquela época à biblioteca nacional dos Estados Unidos, superando em valor e importância a maioria dos países da Europa e toda a extensão das Américas. Não é pouco, definitivamente.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Mestres da Gravura. In: ______. Blog Semióticas, 28 de abril de 2014. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2014/04/mestres-da-gravura.html (acessado em .../.../…).



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Lista completa de artistas da exposição Mestres da Gravura:



COLEÇÃO ALEMÃ

Durër, Martin Schongauer, Israel van Meckenen, Lucas Cranach, Hans Sebald Beham, Martin Treu, Georg Pencz, Heinrich Aldegrever e Virgil Solis.

COLEÇÃO HOLANDESA

Rembrandt, Luca van Leyden, Cornelis Cort, Hendrik Goltzius, Zacharias Dolendo, Jan Müller, Jacob Matham, Jan Saenredam, Nicolas Ennes Visscher e Willem Jacobsz Delff.

COLEÇÃO ITALIANA

Piranesi, Andrea Mantegna, Benedetto Montagna, Agostino dei Musi – o Veneziano, Marco Antonio Raimondi, Giovanni Battista Ghisi – o Mantuano, Marcos Dente, Jacopo de Barbari, dito Mestre do Caduceu, Mestre do Dado, Adamo Ghisi, Enea Vico, Lodovico Carracci, Agostino Carracci, Annibale Carracci, Francesco Brizzi, Guido Reni, Stefano della Bella, Giovanni Benedetto Castiglioni, Salvatore Rosa, Francesco Bartolozzi e Giovanni Volpato.

COLEÇÃO FRANCESA

Callot, Noel Garnier, François Perrier, Claude Mellan, Egidio Rousselet, Gérard Audran, Étienne Picart, dito o Romano, Gerard Edelinck, Petrus Devret, Charles Dupuis e Henri Simon Thomassin.

COLEÇÃO FLAMENGA

Jacob Van Den Bos, Jan Sadeler Sênior, Raphael Sadeler Sênior, Cornelis Galle Sênior, Egidius Sadeler, Raphael Sadeler, o Jovem, Anton van Dyck, Peeter de Jode Junior e Paulus Pontius.

COLEÇÃO INGLESA

William Hogarth, Benjamin Smith, Peter Simon, Charles Gauthier Playter, John Ogborne, Samuel Middiman e Robert Thew.

COLEÇÃO ESPANHOLA

Francisco Goya, José de Ribera, Manuel Salvador Carmona, Fernando Selma, Francisco Muntaner, Joaquín Ballester e Joaquín Fabregat.

COLEÇÃO PORTUGUESA

Vieira Lusitano (Francisco Vieira de Matos), Joaquim Manuel da Rocha, Antonio Joaquim Padrão, Manuel da Silva Godinho, Gregorio Francisco de Queiroz e João Caetano Rivara.





Mestres da Gravura: acima,
The Bench (1758), do inglês
William Hogarth (1697-1764). Abaixo,
Disparate feminino e Modo de Vida,
duas gravuras originais da série
Os Provérbios (1815) do espanhol
Francisco Goya (1746-1828)







6 de outubro de 2013

De Humani Corporis Fabrica








O alojamento temporário e instrumento da
alma imortal, uma morada que em muitos
aspectos corresponde ao universo, por
essa razão foi chamado o pequeno
universo [microcosmo] pelos antigos.


–– Andreas Vesalius (1514-1564).   





Fonte inesgotável dos mais vivos e duradouros prazeres, dos sofrimentos mais lancinantes e também das mais grandiosas volúpias sensuais ou filosóficas ou científicas, o corpo humano em sua aparência e estrutura de ossos, músculos, pele, sangue, veias, nervos, membros, vísceras, secreções, coração e cérebro tem um capítulo fundamental na obra-prima "De Humani Corporis Fabrica", publicada originalmente em 1543 pelo sábio renascentista Andreas Vesalius (1514–1564).
A edição completa do livro de Vesalius, que se tornaria uma relíquia lendária para colecionadores e especialistas como a primeira obra a ilustrar em planos e posições perfeccionistas as diferentes partes do corpo humano, foi proibida e excomungada em sua época, para depois permanecer irremediavelmente perdida durante séculos. Um exemplar da primeira edição, de 1543, assim como a maioria das chapas em madeira das xilografias originais, reapareceram quase por milagre na década de 1930. Saudado como obra de arte e marco incontestável da Ciência, o livro de Vesalius foi novamente editado, com textos em inglês e alemão e fac-símile das anotações em latim (veja link para a edição nacional no final deste artigo).
Contemporâneo de artistas geniais como Michelangelo e Leonardo da Vinci, Vesalius passaria à História como fundador da Medicina e da Anatomia modernas. Sempre citado por todos os compêndios e pesquisadores, mas pouco conhecido durante séculos. Quando se observa suas centenas de estudos reunidos em “De Humani Corporis Fabrica” saltam aos olhos as qualidades de metodologia científica e registro historiográfico, assim como o progresso que representou no “diálogo” que seu livro impresso inaugura entre figuras e texto.






No alto, frontispício das edições originais
de 1543 e 1642, com trabalho de ourives
em policromia. Acima e abaixo, retratos em
xilogravuras do século 16 do mestre
Andreas Vesalius de Bruxelas e reproduções
de xilogravuras que retratam Johann Gutenberg
 e uma página de sua Bíblia de 42 linhas


Magia e ciência na Renascença


Andreas Vesalius de Bruxelas, como a maioria dos sábios medievais, foi acusado de feitiçaria e enfrentou as ameaças da Inquisição e os princípios sagrados da tradição judaico-cristã para sobreviver como pioneiro no que estuda e ensina dissecando cadáveres humanos. A heresia de mestre Vesalius, que o levou às listas de persona non grata, da qual faziam parte os "alquimistas" e integrantes das irmandades secretas, foi estabelecer a ciência, e não mais tão somente a religião, como base e referência primeira para a observação direta dos fenômenos. Mais um motivo para reconhecer sua obra de 1543, também, como notável revolução na historiografia do livro – como destacam autoridades como Marshall McLuhan em "Galáxia de Gutenberg" (1962) e Umberto Eco em “Conceito de texto” (1984) e “Sobre a Literatura” (2003).
Não bastasse o inventário completo descritivo e ilustrado da composição do corpo humano que Vesalius descobre e apresenta, suas ilustrações e elaborações em técnicas gráficas e tipográficas para as xilogravuras que ele prepara em parceria com o impressor Johannes Oporinus e de outros artistas de renome, como Ticiano, inventaram procedimentos instrumentais com cinzel em hachuras e retículas – no pontilhado e nos traços paralelos, oblíquos ou cruzados que ainda hoje, com a tecnologia digital, são usados como ferramentas de desenho e pintura para ressaltar sombreamentos, detalhes, dimensões e texturas para impressão e visualização em suportes variados.






Entre ordenações de traços e reticulados que formam detalhes para ilustrações minuciosas, invenção de Vesalius e dos artistas e artesãos com os quais colaborou, deixou como saldo a primeira representação científica e pictórica, não mais manuscrita, mas impressa em livro. Ao reunir em páginas consecutivas seu vasto acervo de pesquisas e de dissecções para expor ossos e vísceras e músculos dorsais e espinhas, as figuras e os breves textos de Vesalius mesclam-se com surpreendente criatividade em “De Humani Corporis Fabrica”, levando o leitor-observador a um primoroso e estranho, porque inigualável, trabalho de diagramação em perspectiva e arte descritiva.

Bíblia de 42 linhas


A combinação de forma, tipografia e ilustração, na obra de Vesalius, representa um todo inseparável de precisão em referências cruzadas que ultrapassa e aperfeiçoa os padrões das formas gráficas de letras em frases e colunas de textos que simulam o traço da caligrafia – tudo isso poucas décadas depois do aparecimento da “Bíblia de 42 linhas” do ourives alemão Johann Gutenberg (1398 – 1468), reconhecida como primeira obra encadernada e impressa em série sobre papel, por volta do ano 1450.






Porém, enquanto o livro original de Vesalius utiliza a ilustração na página para eliminar ambiguidades e delimitar aspectos de exposição verbal, os exemplares da Bíblia Sagrada de Gutenberg eram impressos apenas com números e letras uniformes. Em Vesalius, o leitor encontra evidências de um diálogo esclarecedor e extremamente inovador em composição de palavras com cada gravura, enquanto a Bíblia de Gutenberg reunia manchas gráficas ordenadas em páginas com duas colunas de texto, cada uma com 42 linhas simétricas e paralelas.
Na impressão de Gutenberg, as páginas eram vendidas em separado, sem encadernação e sem ilustrações – ficando a cargo do comprador a ilustração e pintura posterior, feita a mão, por ourives, de acordo com gostos ou posses de seus privilegiados e nobres proprietários. Apontado como marco comparável à Bíblia de Gutenberg, o livro de Vesalius também estabelece parâmetros técnicos para impressão e composição de figuras e textos, motivo pelo qual seu pioneirismo é referência obrigatória em campos tão diversos do conhecimento como a História da Arte, da Medicina, da Anatomia, das artes gráficas, da linguagem e da metodologia científica. Como se não bastasse, "De Humani Corporis Fabrica" também apresenta raridades da melhor xilogravura produzida nos últimos séculos.













De Humani Corporis Fabrica: acima e
abaixo, amostras em fac-símile das primeiras
pranchas anatômicas do corpo humano
segundo Vesalius de Bruxelas,
impressas por xilogravuras em 1543






.



Lição de Anatomia


Nos detalhes das mais de 200 gravuras reunidas na edição nacional, e nas breves e precisas anotações de Vesalius, é possível reconhecer tanto a perfeição plástica quanto o entusiasmo com que o homem sábio da Renascença descobriu o corpo humano do obscurantismo medieval e dos milênios de tabus e dogmas religiosos. Na edição nacional, que faz parte do projeto Edições Históricas de Medicina, parceria entre Editora da Unicamp, Imprensa Oficial e Ateliê Editorial, o trabalho de Vesalius é apresentado em fac-símile à edição bilíngue inglês/alemão, de 1934, publicada pela Academia de Medicina de Nova York e pela Biblioteca da Universidade de Munique.
A edição bilíngue de 1934, intitulada “Icones Anatomicae” – que também foi a primeira sobre a qual há registros desde 1543 – em sua maior parte foi impressa direto das chapas de madeira originais, entalhadas em Veneza por Vesalius e redescobertas depois de 400 anos. A bela edição nacional, em capa dura e projeto gráfico que respeita as dimensões da publicação original, em formato semelhante à página de jornal impresso tamanho standard, inclui ensaio biográfico, análise das ilustrações e reprodução da íntegra da arte de Vesalius que sobreviveu até nossos dias.








A partir das anotações traduzidas do latim por J.B.D. Saunders e Charles O'Malley – além das séries de entalhes didáticos das “Tabulae Sex” e da “Carta da Vivissecção”, que circularam como excertos anônimos em diversos livros de Medicina desde o século 16, e dos impressionantes esboços de frontispício (as primeiras páginas da edição, ou páginas de rosto originais) para o “De Humani Corporis Fabrica” – a mesma que seria recriada quase um século depois, em 1623, por Rembrandt, na célebre pintura “Lição de Anatomia do Professor Tulp”.


Náufrago no Paraíso


Vesalius, nascido Andries Van Wesel, em Bruxelas, ficou conhecido nas academias da Europa na Renascença por suas aulas e demonstrações de dissecação do corpo humano, testemunhadas por estudiosos, nobres e magistrados. Catedrático de Bolonha, o sábio autodidata escreveu, organizou, e acompanhou os minuciosos trabalhos da impressão pioneira de sua obra magnífica em diversos aspectos.
Em ilustrações, diagramações e considerações teóricas, o trabalho de Vesalius também revela tributos e correções importantes a clássicos que vieram antes dele, na tradição greco-latina, com interpretações revolucionárias para a fisiologia do corpo humano e sobre preceitos de saúde, meio ambiente e3 atividade física que vigoravam desde a Antiguidade, atribuídos a Aristóteles (384-322 a.C.) e Galeno de Pergamum (século 2 d.C.), entre outros mestres.







Acima, pranchas anatômicas publicadas em
1543 no livro De Humani Corporis
Fabrica e Vesalius em autorretrato em
xilogravura com detalhes de ourives na
policromia sobre papel. Abaixo, Vesalius
representado em litografia em policromia
de 1861 por Edouard Hamman; a capa
da edição nacional; e a célebre pintura
de Rembrandt de 1632, considerada
uma homenagem a Vesalius, intitulada
Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp





O pioneirismo de Vesalius estende-se à noção de arte, concebida por ele como “criação da inteligência, sujeita a regras de perfeição apreensíveis e que podem ser formuladas e ensinadas com precisão científica”. Pela audácia de seu trabalho sem precedentes, Vesalius de Bruxelas acabou condenado à morte pela Inquisição, sob acusação de ter dissecado um homem vivo. Escapou por misericórdia de Filipe 2°, rei da Espanha, que conseguiu transformar a sentença final em uma peregrinação de Vesalius a Jerusalém.
No ensaio biográfico que acompanha “De Humani Corporis Fabrica”, o leitor descobre que, depois de enfrentar séries intermináveis de peripécias dignas de galerias de heróis picarescos da melhor ficção, Vesalius ainda sobreviveria de forma mirabolante a um naufrágio, na sua viagem de volta de Jerusalém à Europa. Morreria como náufrago, esquecido na ilha grega de Zante, até hoje citada como um dos cenários especialmente paradisíacos no Hemisfério Norte.

por José Antônio Orlando. 

Como citar:


ORLANDO, José Antônio. De Humani Corporis Fabrica. In: ______. Blog Semióticas, 6 de outubro de 2013. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2013/10/de-humani-corporis-fabrica.html (acessado em .../.../...).


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9 de março de 2012

Bracher barroco





Considerado por unanimidade um dos grandes artistas plásticos em atividade no Brasil, o pintor, desenhista, escultor e poeta Carlos Bracher apresenta mais um trabalho de excelência: o livro "Ouro Preto – Olhar Poético", com texto e aquarelas de sua autoria. Partindo das referências históricas desde as origens de Vila Rica e de personalidades emblemáticas do século 18 como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, além de Tiradentes, Marília de Dirceu, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e outros heróis e poetas da Inconfidência, Bracher apresenta um roteiro poético sobre a cidade que, em suas palavras, deu origem à "civilização mineira".

Mineiro de Juiz de Fora, expoente de uma família de artistas, Bracher escolheu Ouro Preto para viver desde 1971. "Eu conhecia Ouro Preto de passeios e temporadas. A partir do Carnaval de 1971 fui morar na cidade e desde então, com a vivência e as experiências do dia a dia, a minha paixão por Ouro Preto tem sido cada vez mais avassaladora", confessa.

"Ouro Preto – Olhar Poético" é o segundo livro que Bracher publica. O primeiro, dedicado a Brasília ("Bracher Brasília"), foi lançado em setembro de 2006 reunindo uma seleção de textos e 66 quadros sobre os cenários mais conhecidos da Capital Federal. "Na verdade este livro sobre Ouro Preto foi o primeiro que escrevi”, ele explica, em entrevista por telefone. “Foi concluído no primeiro semestre de 2006, mas por diversas razões o livro sobre Brasília saiu primeiro e o projeto sobre Ouro Preto ficou adiado, primeiro por um motivo, depois por outro”.










Bracher barroco: no alto,
o Cristo segundo Bracher,
pintura em óleo sobre tela
reproduzida na capa do livro
Ouro Preto –– Olhar Poético.
Acima, o artista em ação, em seu
ateliê, na casa onde mora, e nas
ruas de Ouro Preto; abaixo,
Bracher nas ruas da cidade de
Tiradentes, com os cenários
da cidade barroca traduzidos
na pintura em óleo sobre tela







O livro propõe uma visita a Ouro Preto numa perspectiva que alcança muito além da história e do conjunto arquitetônico, levando o leitor a passear pelos logradouros, museus, igrejas, contando casos da cidade, do “renascimento” ocasionado pelas visitas dos modernistas na década de 1920 e do estilo que encanta turistas e pesquisadores. “São muitos detalhes para publicar um livro de qualidade. A própria edição é demorada, cheia de detalhes e revisões, e tem também a questão do patrocínio, que é sempre um complicador", revela o artista.



Barroco em roteiro amoroso



Nas páginas de "Ouro Preto – Olhar Poético", Carlos Bracher apresenta um roteiro amoroso que remonta à Vila Rica de 300 anos no passado, com seus personagens históricos e outros mais recentes – como Dona Olímpia, Bené da Flauta, os artesãos – e cenários, fotografias, imagens de Rugendas, referências culinárias e um leque de questões culturais. O projeto, ele explica, nasceu de uma proposta que pretendia uma “síntese amorosa”.








"Posso dizer que é uma síntese amorosa sobre o sentimento das coisas encantadas", destaca. A Ouro Preto de Carlos Bracher se desnuda em personagens, artistas, poetas e sonhadores, propondo uma viagem por imagens da história e cenas retratadas em aquarelas que ele produziu ao longo do tempo. Entre outros personagens da trajetória da cidade, presentes no livro, Bracher define o Aleijadinho:

"Donde vinha a força daquele homem? Do mutilado com seus ferrões presos às mãos paralíticas, ferros invioláveis da dor, da excrescência máxima da feiúra do corpo a transitar a intangível beleza revertida, de alguém a dialogar com o divino da encarnação, transfigurando chagas em cantaria, suplício em poesia. Aleijadinho detinha a real senha da pulsação, os vórtices fecundos e a entrega devocional dos desígnios definitivos do que seja, em verdade, arte".








A sequência de aquarelas com cenários de igrejas, ladeiras, casarios e a Praça Tiradentes é intercalada com textos breves em linguagem poética. Bracher recria o passado – com traços e palavras em busca dos enigmas encobertos e das raízes profundas que fizeram da antiga Vila Rica e da moderna Ouro Preto as matrizes do pensamento artístico e libertário da identidade nacional.



Mestres de primeira grandeza



Aos 72 anos e depois de quase seis décadas de vida dedicada às artes plásticas, Bracher está entre os brasileiros que mais tiveram exposições de seus trabalhos no exterior, com dezenas de mostras individuais em importantes museus e palácios em Paris, Roma, Milão, Londres, Madri, Haia, Moscou, Bruxelas, Miami, Tóquio, Pequim, entre outras cidades do mundo. Otimista, absorto pela verdade da obra de arte e encantado pelos cenários barrocos de Ouro Preto, ele faz do livro uma declaração de amor à cidade que desde 1971 adotou como sua.








Uma conversa com Carlos Bracher é um encadeamento sem fim de lembranças e de ideias inspiradas sobre o tempo presente. No pouco tempo da entrevista ao telefone, ele descreve os passos de composição do livro e recorda momentos importantes de sua formação, que teve início num ambiente familiar propício para a arte. Ele conta com orgulho que foi desde a infância, em Juiz de Fora, que a literatura, as artes plásticas e a música nortearam sua trajetória.

A dedicação à arte, que o levaria às primeiras experiências do reconhecimento ainda na década de 1950, iria ultrapassar em pouco tempo as fronteiras de sua cidade-natal. Além dos primeiros estudos em Juiz de Fora, Bracher também teve a sorte, como ele diz, de ter sido aluno em sua temporada em Belo Horizonte de Fayga Ostrower (1920–2001) e de Inimá de Paula (1918–1999), entre outros mestres de primeira grandeza. 




 
Já em 1967, Bracher conquistava a premiação máxima de pintura no país, com o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro", do Salão Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro, pelo qual permaneceu por dois anos na Europa participando de cursos e oficinas de aperfeiçoamento em pintura. Em 1968, outro destaque surpreendente: o Prêmio Revelação do Ano, concedido pelo “Jornal do Brasil”. Os fatos marcantes de sua carreira são muitos, enumerados no decorrer das últimas décadas, entre eles a grande retrospectiva "Pintura Sempre", em 1989, com curadoria de Olívio Tavares de Araújo, no MASP de São Paulo.



A família do artista



Fiel ao uso de telas, tintas, pincéis e cores, sem nunca ter se filiado aos movimentos de vanguarda que se aproximaram de outros suportes e outras tecnologias, Bracher também destaca com orgulho em sua trajetória a série de 100 quadros que realizou, entre 1990 e 1992, para comemorar o centenário da morte do pintor Van Gogh (1853-1890) – que teve exposições em diversas galerias e museus no Brasil e no exterior. Outro destaque importante é uma retrospectiva itinerante e abrangente de sua obra que, desde 2006, está em curso na Europa, com exposições em Luxemburgo, Alemanha e Rússia. 




 
Filho do pintor, professor e compositor Waldemar Bracher e irmão dos artistas plásticos Nívea e Décio Bracher, casado com Fani Bracher, outro nome de destaque na pintura brasileira contemporânea, e pai de duas filhas, Blima e Larissa, Carlos Bracher defende que a obra de arte é, desde sempre, o melhor que o ser humano pode produzir. 

“A arte e a cultura formam um conjunto que distingue o ser humano de todos os outros seres do planeta”, ele diz, quando questionado sobre o valor e a importância da obra de arte no mundo atual. “Sem a obra de arte o ser humano não seria em nada diferente dos outros animais. A arte é a descoberta do mais humano que existe em nós mesmos”, conclui.


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Bracher barroco. In: ______. Blog Semióticas, 9 de março de 2012. Disponível no link https://semioticas1.blogspot.com/2012/03/bracher-barroco.html (acessado em .../.../...).


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Carlos Bracher fotografado em Ouro Preto,
cidade que escolheu para viver desde 1971




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