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O que pode uma casinha tão simples e colorida? A pergunta há décadas intriga a fotógrafa e artista plástica Anna Mariani, que viajou pelo sertão fotografando e organizando as cenas que parecem saídas da ficção. O primeiro livro com suas fotografias foi originalmente publicado em 1987, logo após a participação de impacto da artista plástica e fotógrafa na 19ª Bienal Internacional de São Paulo.
Aclamadas como grande arte no Brasil e no exterior, as fotografias de fachadas de pequenas casas de lugarejos do Nordeste brasileiro, sempre retratadas em ângulo frontal, sem a presença de pessoas e com enquadramento que exclui toda a paisagem ao redor, retornam às livrarias em nova edição do Instituto Moreira Salles para "Pinturas e Platibandas", revista e ampliada pela autora.
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Com belos textos, tão breves como inspirados, de Ariano Suassuna, de Caetano Veloso e do pensador francês Jean Baudrillard, as imagens registradas por Anna Mariani correram o mundo depois da Bienal de São Paulo. Desde 1987, a série ganhou exposições de destaque na França, Alemanha e outros países, retornando agora às livrarias e a uma mostra no Centro Cultural do IMS em São Paulo, que depois segue para as sedes do IMS em outras cidades e nas capitais.
Sete estados do Nordeste
A mostra do trabalho de Anna Mariani, com curadoria do crítico de arte Rodrigo Naves, reúne uma seleção de 24 imagens de fachadas multicoloridas - enquanto o livro reúne 200 das cerca de 2 mil imagens feitas pela fotógrafa de 1976 a 1995 em sete estados do Nordeste: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.
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Anna Mariani, que nasceu no Rio de Janeiro, em 1935, estudou fotografia com Claude Kubrusly, Cristiano Mascaro e Maureen Bisilliat. A partir da década de 1970, viajou ao Recôncavo Baiano para documentar paisagem e manifestações culturais tradicionais. Uma seleção fotográfica no trabalho no Recôncavo seria reunida em livro e exposição pela primeira vez em 1987.
Em 1992, a artista publicou "Paisagens, Impressões - O Semi-Árido Brasileiro", no qual apresentava fotografias de paisagens nordestinas que registravam a escassez de recursos e também a diversidade de formas da vegetação daquela região. Ingênuas, caprichadas e extremamente simples, as fachadas e platibandas nordestinas nos registros de Anna Mariani expressam também um modo de vida que comove por sua delicadeza.
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"O que dizem essas casas?", interroga Caetano Veloso, em texto que faz parte da edição e que foi escrito para a exposição de Anna Mariani no Centre Georges Pompidou, em Paris, em 1988. "Sob o sol-a-sol do Nordeste Brasileiro, em meio à dura vida humana, o que insinua sua lírica geometria?", prossegue Caetano. "Para mim, são coisas íntimas. Casas que conheço por dentro. Em Santo Amaro, onde nasci, no Recôncavo baiano, as pessoas pintam suas casas a cada fevereiro para as festas da padroeira: é como comprar um vestido novo. A cidade fica endomingada, como se fosse um cenário de teatro ingênuo, com todas as casas recém-pintadas".
No mesmo texto, abordando uma determinada sequência de fachadas, Caetano constrói uma metáfora com as célebres bandeirinhas e os casarios do pintor modernista Alfredo Volpi. "De frente para a câmera de Anna Mariani, elas parecem esboçar um sorriso silencioso. A câmera não pretende interpretar os seus signos", destaca Caetano, "mas entrar numa espécie de estado amoroso com a delicadeza de sua poesia. As fotografias são como monalisas pintadas por Volpi".
Irregulares e multicoloridas
As pinturas à base de cal de cada casinha, elaboradas sobre fachadas e platibandas irregulares, são resultado de práticas artesanais seculares de caiação – técnica que aos poucos, conforme os textos do livro ressaltam, tem sido substituída por novos materiais e processos sem as mesmas características. De tão marcantes na arquitetura nordestina, as imagens resultantes da pesquisa de Anna Mariani servem de referência para a cenografia de filmes e minisséries para a TV, a exemplo de “O Auto da Compadecida” (2000) e “A Pedra do Reino” (2007), entre outros, além de reforçar o interesse popular por esse marco na arquitetura nordestina brasileira.
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"São fotografias", aponta Jean Baudrillard (1929-2007) no breve artigo para a apresentação da exposição que Anna Mariani realizou no Georges Pompidou – "mas são fotografias que apareciam como verdadeiras pinturas ou baixo-relevos, surgidos não se sabe de qual friso geométrico de um palácio de Minos subequatorial".
Baudrillard, poeta, fotógrafo, sempre citado entre os mais respeitados e influentes sociólogos e filósofos de nossa época, referência tanto em teses acadêmicas como na cultura pop (entre outros feitos, é inspiração confessa para os irmãos Wachowski da trilogia “Matrix”), também destaca a poesia estranha que emana das imagens registradas por Anna Mariani. A poesia que sobrevive e emana de uma "miséria que não se expressa como miséria, mas como riqueza de linhas e aparências de uma fotografia que consegue, ela também, não ser mais fotografia".
Baudrillard, poeta, fotógrafo, sempre citado entre os mais respeitados e influentes sociólogos e filósofos de nossa época, referência tanto em teses acadêmicas como na cultura pop (entre outros feitos, é inspiração confessa para os irmãos Wachowski da trilogia “Matrix”), também destaca a poesia estranha que emana das imagens registradas por Anna Mariani. A poesia que sobrevive e emana de uma "miséria que não se expressa como miséria, mas como riqueza de linhas e aparências de uma fotografia que consegue, ela também, não ser mais fotografia".
por José Antônio Orlando.
Como citar:
Como citar:
ORLANDO,
José Antônio. Onde moram os anjos. In: ______. Blog
Semióticas,
14 de agosto de 2011. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2011/08/onde-moram-os-anjos.html
(acessado
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