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18 de abril de 2012

Certas canções







Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudade
Rio teu mar, praias sem fim
Rio você foi feito pra mim


Tom Jobim,“Samba do Avião”   






Do Leme ao Pontal, não há nada igual – anuncia a canção de Tim Maia. Purgatório da beleza e do caos – completa o samba-funk “Rio, 40°”, de Fernanda Abreu, Laufer e Fausto Fawcett. A lista de canções que rendem tributo à Cidade Maravilhosa é quase interminável. Batizada de São Sebastião do Rio de Janeiro, quando foi fundada pelo português Estácio de Sá, em 1° de março de 1565, a cidade aparece como tema de canções que incluem de tudo, em todos os gêneros. Do mais antigo, até onde os registros da historiografia oficial alcançam, ao mais recente, são muitas as canções em homenagem ao Rio.

Há os clássicos do choro e as marchinhas de Chiquinha Gonzaga, os sambas de Noel Rosa, Cartola, Billy Blanco e dona Ivone Lara, a Bossa Nova de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a Tropicália de Gilberto Gil e Caetano Veloso, os hinos de amor ao Estácio de Luiz Melodia, o rock Brasil de Raul Seixas, Rita Lee, Blitz, Cazuza e Barão Vermelho, o rap e o funk de Claudinho e Bochecha a MV Bill e muito mais. Para contar esta história, um time de bambas foi convidado a percorrer e analisar a trajetória da música popular no Brasil.

A proposta para a viagem pelas canções foi um projeto organizado pelo jornalista Marcelo Moutinho. A investigação, que teve início na segunda metade do século 19 e chegou aos nossos dias, resultou num inventário minucioso sobre a presença da Cidade Maravilhosa no repertório dos nossos principais compositores. O projeto de Moutinho deu origem ao livro "Canções do Rio – A Cidade em Letra e Música", que reúne os ensaios assinados por Ruy Castro, Sérgio Cabral, João Máximo, Hugo Sukman, Nei Lopes e Sílvio Essinger – todos críticos de música com atuação em jornais e revistas e com livros publicados sobre a música popular.







Certas canções: no alto, detalhe da ilustração
na capa do livro Canções do Rio; nas imagens
acima, o Cristo Redentor em dois postais com
registros de 40 anos de diferença: fotografado
do avião, em 2010; e visto a partir de um dos
Belvederes da Floresta da Tijuca em fotografia
de 1970. Abaixo, duas vistas panorâmicas do
Pão de Açúcar: em fotografia de 1885 de
Marc Ferrez (1843-1923) e em fotografia
de um cartão postal da década de 1970




A ideia foi, no mínimo, original: destacar que o Rio de Janeiro  sempre esteve presente como uma inequívoca fonte de inspiração musical. "O objetivo do livro foi justamente demonstrar como nossos compositores cantaram o Rio em diferente épocas e gêneros. Do samba ao rock, da Bossa Nova ao funk, da marchinha ao rap", explica Marcelo Moutinho, que na apresentação ao projeto também confessa sua condição de apaixonado pelas diversas sonoridades da alma carioca.

"Faltava contar a história do Rio na música, do Rio idílico, cuja exuberante paisagem é capaz de arrebentar as retinas. Do Rio de valas negras e favelas no coração. Do Rio que foi, sempre, a cidade-musa”, destaca. Moutinho também recorda que  a antiga capital do Brasil também tem seu destaque no cinema, no teatro e na literatura. Entre as citações, ele lembra, entre outros, o cronista Marques Rebello – para quem o Rio de Janeiro podia ser definido como uma cidade com muitas cidades dentro, porque cada bairro carioca identifica uma personalidade muito própria. 










"Acredito que esta observação do Marques Rebello fica evidente nas canções que retratam o Rio. Muitos compositores perceberam estas muitas cidades dentro da cidade e isso foi traduzido na música”. Um marco importante entre todas as coisas foi registrado em 1935, destaca Moutinho, quando o compositor carioca André Filho, ao tomar de empréstimo uma expressão criada por volta de 1900 pelo escritor maranhense Coelho Neto, saudou pela primeira vez o Rio com o título de “Cidade Maravilhosa”.  


 
Do samba ao rock



Parceiro de Noel Rosa na antológica “Filosofia” e um dos preferidos da estrela Carmen Miranda (que gravaria na década de 1930 suas canções “Alô, Alô” e “Mulato de Qualidade”, entre outras), André Filho teve a honra de transformar a citação “Cidade Maravilhosa” na marchinha que chegaria à condição de uma das mais tocada em todos os tempos no carnaval do Brasil. A partir de 1935 estava instituído, pela canção, o título pelo qual o Rio de Janeiro passaria a ser identificado e consagrado.
 






Cenas do Rio de Janeiro: duas imagens do
fotógrafo Augusto Malta (1864-1957) que
registram o Rio Antigo: no alto, o Largo da
Carioca; acima, uma vista da Enseada de
Botafogo em 1900. Abaixo, a praia do Leme,
na Zona Sul da cidade, em cartão postal de 1950



 
Em entrevista por telefone, Marcelo Moutinho explica que o livro, editado pela Casa da Palavra, apenas reuniu as histórias e canções que sempre estiveram no imaginário popular do carioca e de todos os brasileiros. Ele lembra que o Rio, com suas ruas, bairros e personagens, já aparecia no cancioneiro popular desde o século 19, em versos e canções que descortinavam a dor e a delícia de se viver num dos mais belos cenários do Brasil e do mundo.

"O objetivo foi investigar a presença marcante do Rio na música brasileira”, completa Moutinho, que nasceu em 1972 em Madureira, subúrbio do Rio, e tem outros livros publicados, como as prosas de ficção “A Palavra Ausente” (Rocco, 2011) e “Somos Todos Iguais nesta Noite” (Rocco, 2006). Colaborador das revistas “Bravo!” e “Cinemais” e do jornal “O Globo”, também organizou uma série de antologias que inclui "Prosas Cariocas – Uma Nova Cartografia do Rio" (Casa da Palavra, 2004), "Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa" (Casa da Palavra, 2009) e “Manual de Sobrevivência nos Butiquins mais Vagabundos” (Senac Rio, 2005).
 





Em “Canções do Rio”, o time de especialistas não apenas registra as canções de cada época que tiveram a Cidade Maravilhosa como personagem ou cenário, mas também analisa a formação da identidade carioca. No capítulo "A canção moderna", Hugo Sukman descreve: "O que a cidade do Rio de Janeiro tem de belo tem de complexidade e de declarações de amor incondicional. Lá do fundo do Rio, escapando das balas perdidas e franzindo o cenho para poder suportar tanta luz e tanta beleza, a música brasileira manda seu recado mais atual".

Autor do livro "Heranças do Samba" (2004) e das biografias de Moacir Santos (2006) e Djavan (2008), Sukman destaca como a música muitas vezes ressoou o processo permanente de brutalização da cidade. A palavra "arrastão" e seus dois sentidos direcionam a análise de Sukman – da rede que há séculos colhe no mar os peixes, tema da canção de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, ao recente e violento significado registrado pela população em pânico diante da ação das gangues nas avenidas e areias das praias da Zona Sul.










Cenas da Cidade Maravilhosa: no alto,
Sebastião Rodrigues Maia, que ficaria
conhecido como Tim Maia depois do
primeiro disco, gravado em 1970, em foto
aos 20 anos, em 1962, ao lado de Erasmo
Carlos, no bairro da Tijuca, zona norte do
Rio de Janeiro (Tim, Erasmo e Jorge Ben Jor
eram amigos e vizinhos desde a infância).
Acima, Tim passeando do Leme ao Pontal,
durante entrevista para o curta-metragem
realizado por Flávio Tambellini em 1987, e
um flagrante do funk nos morros cariocas em
em 2010. Abaixo, três mestres da Velha Guarda
do samba, Cartola, Ismael Silva e Mano
Décio da Viola celebrando a amizade em uma
mesa de bar no morro da Mangueira, em 1976;
e Paulo César Batista de Faria, o Paulinho
da Viola, cantor e compositor de clássicos
do samba como Foi um Rio que passou em
minha vida, na capa do LP de 1971








  






Princesinha do mar



Outro panorama contemporâneo é traçado por Silvio Essinger, autor dos livros "Punk: Anarquia Planetária e a Cena Brasileira" (1999), "Batidão: Uma História do Funk" (2005) e "Almanaque Anos 90" (2008), além de ter organizado a edição de "Baú do Raul Revirado" (2005). Essinger localiza o Rio como porto de desembarque e primeiro ponto de ocupação do rock'n'roll no Brasil – desde a primeira gravação realizada em Copacabana, em 1957, por um improvável Cauby Peixoto.

O rock pioneiro de Cauby, lembra Essinger, é sucedido pelo Rio mais descontraído nas leituras de Raul Seixas ("Ouro de Tolo"), Tim Maia ("Do Leme ao Pontal"), Caetano Veloso ("Menino do Rio") e pelos primeiros sucessos da geração 1980, entre eles Blitz ("Volta ao Mundo") e Barão Vermelho ("Billy Negão"). Essinger também registra a novidade do funk, que deu voz a compositores das comunidades mais pobres da cidade, entre eles os pioneiros Claudinho & Buchecha.








Certas Canções: no alto, a praia de Copacabana
em 1890, em fotografia de Marc Ferrez. Acima,
os veteranos da Velha Guarda do samba
João da Bahiana, Clementina de Jesus,
Pixinguinha e Donga participando da Passeata
dos Cem Mil contra a censura e contra a ditadura
militar, em fotografia publicada em 1968 na
revista Realidade. Abaixo, sambistas reunidos
na casa de Aracy de Almeida (com a mão no
rosto): a partir da esquerda, Jards Macalé,
Wally Salomão, Paulinho da Viola, Carlos
Cachaça (sentado), Albino Pinheiro, Cartola
e Clementina de Jesus. Também abaixo,
1) fotografia de Eurico Dantas: a
ditadura militar proíbe festa no Carnaval
da Mangueira em 1976 e Cartola, indignado,
fica no chão; 2) Cartola na comissão de
frente do desfile da Mangueira em 1978





.










Em "Dos primórdios à era de ouro", que abre o volume, João Máximo, autor das biografias de Noel Rosa (em parceria com Carlos Didier, publicada em 1990 pela editora LGE) e de Paulinho da Viola (editora Relume Dumará, 2003), explica que a história do Rio de Janeiro como cenário e personagem das canções vem desde o século 19. A diferença é que, naquela época, a música popular tratava dos morros e dos subúrbios em visões idealizadas, feitas a distância.

"Pois é a favela carioca, pobre, malvestida, não raro faminta, que seria citada em canções de homens que provavelmente nunca puseram os pés lá, caso do compositor semierudito Hekel Tavares e do teatrólogo Joraci Camargo”. Dos sambistas do século 20, Noel, Orestes Barbosa, Herivelto Martins e Wilson Batista são alguns dos mestres que têm suas canções analisadas no capítulo esquadrinhado por João Máximo.




 





Princesinha do mar: acima, a partir do alto,
a praia de Copacabana em fotografia de
1890 de Marc Ferrez e em cartões postais
das décadas de 1940 e 1960. Abaixo,
Beth Carvalho, chamada de militante de
esquerda, de  “madrinha do samba” e de
"madrinha do pagode", em dois momentos
históricos: em 1978, com Cartola, de
quem lançou sambas que se tornariam
grandes clássicos da música brasileira,
como As rosas não falam, e com o
futuro presidente Luiz Inácio Lula
da Silvaem 1989, nos bastidores do
show Saudades da Guanabara










E há também o Carnaval, um capítulo à parte na história. O jornalista Sérgio Cabral, biógrafo de Pixinguinha, Ataulfo Alves, Tom Jobim, Elisete Cardoso e Nara Leão, entre outros, no capítulo “As marchinhas” investiga o mais carioquíssimo dos gêneros da música popular e destaca o bairro "campeão das citações": Copacabana, a "princesinha do mar". O gênero criado por Chiquinha Gonzaga há mais de um século, aponta Cabral, continua à disposição para deliciar os ouvintes e para atender aos interessados em conhecer melhor o Rio e os cariocas.

Em outro ensaio de “As Canções do Rio”, batizado como “O samba”, o pesquisador e compositor Nei Lopes faz um passeio pela história dos compositores do morro e do asfalto, enumerando os preconceitos e os momentos que fizeram a glória de sambistas de todas as faixas de status e poder aquisitivo. Pesquisador da cultura do negro e do samba, autor de “Zé Kéti: O Samba sem Senhor” (Relume Dumará, 2000) e “Partido-Alto, Samba de Bamba” (editora Pallas, 2005), sambista e parceiro do compositor Wilson Moreira, Nei Lopes destaca que a relação do samba com o Rio é, antes de tudo, "uterina" – o útero, na metáfora, sendo representado pela baía de Guanabara.








Certas canções: dois flagrantes de João Gilberto em 1962, na
praia, em cenas do filme franco-italiano Copacabana Palace,
com Luiz Bonfá (à esquerda), Tom Jobim e três estrelas do
cinema europeu: Gloria Paul, Sylvia Koscina e Mylène
Demongeot. Abaixo, o calçadão da praia de Copacabana em
1970, na época em que o design e toda a urbanização foram
reformulados com projeto de Burle Marx; e em 2010











A matriz da Bossa Nova

 
E há também a Bossa Nova, apresentada no capítulo assinado por Ruy Castro. "A Bossa Nova nasceu no Rio, arquitetada por cariocas de todas as partes do país", recorda o autor, que já transformou em campeões de vendas do mercado editorial as biografias de Carmen Miranda, Nelson Rodrigues e Mané Garrincha, entre outros. Para Ruy Castro, são as praias do Rio que caracterizam a matriz solar da Bossa Nova, em contraste com a música dominante na conjuntura anterior, marcada pelo samba-canção e por muita dor de cotovelo.

Com ironia e sua habitual habilidade narrativa, Ruy Castro refaz o cenário das boates que consagravam a tal dor de cotovelo: "Que fossa! Com todas as portas e janelas fechadas, não se sabia se ainda era de noite ou se já era de manhã lá fora. E também ninguém queria saber. Até que, certo dia, por volta de 1958, alguém se arrastou até a porta e a abriu. O sol entrou pela boate e quase transformou aqueles vampiros em pó". 
 









Certas canções: no alto, um encontro de gerações da
música carioca, com Tom Jobim, Pixinguinha, João da
Bahiana e Chico Buarque em 1968; ao centro e acima,
João Gilberto entre amigos no Rio de Janeiro, no início
dos anos 1960, na boate Au Bon Gourmet, com Vinicius
de Moraes Tom Jobim; e com Maria Bethânia, Caetano
Veloso Gilberto Gil, em 1981, fotografados por Rogério
Sganzerla. Abaixo, um encontro de Pixinguinha, Dorival
Caymmi, Vinicius e Baden Powell na casa de Pixinguinha,
em 1968, fotografados por Walter Firmo; e a praia de
Copacabana em cartão postal de 2010






O mais curioso, destaca Ruy Castro, é que a Bossa Nova não nasceu na praia, mas foi na praia que suas canções germinaram. “Os grandes clássicos da Bossa Nova falam do mar o tempo todo, suas letras são suadas de verão – e seu supremo cantor é pálido como gesso, nunca pisou descalço numa onda, está há 50 anos sem tomar um raio de sol e há dúvidas até sobre se sabe nadar. João Gilberto, claro. Mas, pensando bem, que diferença faz?”

Na conclusão inspirada, Ruy Castro celebra a importância para as canções do Rio e do Brasil do cantor tido como excêntrico, com sua voz miúda e sua nunca superada batida original de violão. Nas palavras de Ruy Castro, ao inventar a Bossa Nova, com suas primeiras gravações, em 1959, João Gilberto provocou a grande revolução que abriu os portos da música brasileira para todas as nações.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Canções do Rio. In: ______. Blog Semióticas, 18 de abril de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/certas-cancoes.html (acessado em .../.../…). 



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18 de julho de 2011

O Bruxo e a crítica internacional











Machado de Assis é o maior escritor
já produzido pela América Latina
em qualquer época.


–– Susan Sontag, 1990.




O maior cânone da literatura brasileira conquista cada vez mais prestígio fora do Brasil, reconhecido por muitos, em vários países – e muito além das fronteiras da língua portuguesa – como um dos maiores escritores de todos os tempos. Romancista, dramaturgo, contista, poeta, jornalista, crítico, cronista e político respeitado, fundador da Academia Brasileira de Letras, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) foi aclamado em vida por seus contemporâneos e, depois de morto, passou a ser publicado e respeitado primeiro em Portugal, depois na Argentina e em outros países da América Latina e, na década de 1960, começou a ganhar traduções em outras línguas, incluído no pacote de lançamento na Europa e Estados Unidos dos escritores do "boom" do realismo mágico latino-americano.

Ironia do destino – pois o realismo mágico ou realismo fantástico, a rigor, é a referência às gerações de escritores contemporâneos ou posteriores a Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, na Argentina, Gabriel García Márquez na Colômbia, Carlos Fuentes e Juan Rulfo no México, e Mario Vargas Llosa, no Peru, entre outros que escreveram e publicaram pela primeira vez décadas e décadas depois da morte de Machado. Mais uma façanha do Bruxo do Cosme Velho, 'avant la lettre' (veja também Semióticas: Bodas do 'boom') . "Bruxo do Cosme Velho" é um antigo elogio – um codinome pelo qual  Machado é conhecido nos meios literários desde o começo do século 20, pela força e pelos "encantamentos" da sua literatura. O termo ganhou força quando Carlos Drummond de Andrade publicou o poema "A um bruxo, com amor" (no livro “A Vida Passada a Limpo”, de 1959), no qual o poeta fez referência à casa número 18 da rua Cosme Velho, situada no bairro de mesmo nome, no Rio de Janeiro, onde morou Machado de Assis. 


 



O Bruxo e a crítica internacional:
no alto, Machado de Assis em 1890,
no Rio de Janeiro, fotografado por
Marc Ferrez, um ano após a publicação
do romance Memórias Póstumas de
Brás Cubas, uma de suas obras-primas,
que causou grande polêmica. Acima,
o escritor em tela de 1905, retratado
pelo pintor Henrique Bernardelli



Assim como as gerações da vanguarda no Brasil e na América Latina que viriam depois dele, o autor de “Dom Casmurro” (1899) desafiou as convenções estabelecidas da literatura. Machado, um dos maiores escritores do século XIX, surge no mercado editorial e nos estudos da crítica do Primeiro Mundo na mesma leva dos grandes nomes da literatura da América Latina da segunda metade do século XX.

Político dos mais hábeis em sua época, elevado à categoria de efígie impressa nas notas de cruzeiro e de cruzado novo, retratado como personagem no cinema e na TV, tema de samba-enredo, Machado, quando vivo, assistiu evoluções e transformações das mais marcantes na vida política, social e cultural da nação - entre elas grandes descobertas científicas, o fim da escravidão e a proclamação da República. A abrangência e a complexidade das obras de Machado e sua fortuna crítica receberam mais um tributo à altura com os ensaios reunidos em "Machado de Assis e a Crítica Internacional", livro organizado por Benedito Antunes e Sérgio Vicente Motta, lançamento da Editora Unesp.






Machado e sua esposa, Dona Carolina,
em daguerreótipo datado de 1900 (de autor
desconhecido). Abaixo, Dona Carolina
em daguerreótipo datado de 1890 e
Machado em 1864, aos 25 anos,
em duas fotografias no estúdio
de Joaquim José Insley Pacheco,
português que veio trabalhar no 
Brasil a partir da década de 1850 



Machado como testemunha de revoluções de seu tempo e como tradutor do turbilhão realista para uma dimensão de alta literatura, atemporal e universal, é uma tese que permeia o discurso da maioria dos 12 autores do Brasil e de outros países reunidos no dossiê de Benedito Antunes e Sérgio Vicente Motta. O ponto de partida foi o Simpósio Caminhos Cruzados: Machado de Assis pela Crítica Mundial, realizado em 2008, ano do centenário da morte do autor, em São Paulo, com diversos estudiosos internacionais de Machado apresentando suas críticas e olhares sobre o autor.

Roberto Schwarz, Jean Michel Massa, K. David Jackson, Paul Dixon, Thomas Sträter, Todd Garth, Élide Valarini Oliver, Amina Di Munno, Luiz Roncari e Daphne Patai, além dos organizadores, trazem contribuições privilegiadas que intensificam e ampliam o debate sobre o Bruxo, estimulando novas abordagens e interpretações.

Na apresentação aos ensaios reunidos, Antunes e Motta constatam a crescente valorização do Machado no exterior, bem como o interesse despertado pelas ambiguidades surpreendentes em seus trabalhos. Entre os tantos destaques na diversidade, Schwarz, no texto "Martinha vs. Lucrecia", discute a divisão entre críticos universalistas e localistas, lembrando que "a grandeza de Machado suscitou linhas de explicação contrárias que em algum momento teriam de discutir e competir".


















No artigo que encerra o livro "Machado de Assis e a Crítica Internacional", Jean Michel Massa aponta "A França que nos legou Machado de Assis". Na sua argumentação, a cada ano que passa Machado de Assis é cada vez menos "um estrangeiro fora de seus país". Massa sugere que os leitores façam o caminho inverso, buscando o olhar de Machado para o exterior.

Nestes tantos caminhos cruzados, o leitor atento mais familiarizado com o universo literário de Machado acaba percebendo uma breve cartografia dos estudos, das tendências e das conquistas crítico-analíticas nacionais e internacionais em relação à obra ímpar e extensa de um dos maiores nomes da literatura. Benedito Antunes e Sérgio Motta, professores de Literatura e Cultura Brasileira da Unesp, destacam que tanto o simpósio de 2008 como o livro agora lançado representam importante passo para a descoberta de comentários não só inovadores, mas multiplicadores das formas de ler Machado de Assis. 







Retrato atualizado: o escritor, que
foi apelidado por seus pares de Bruxo
do Cosme Velho, nas ilustrações em estilo
Pop Art da capa e da contracapa do livro
Machado de Assis e a Crítica Internacional








"Trata-se de um autor que oferece reflexões universais sobre a alma e o comportamento humano, mesmo se reconhecidos seus vínculos regionais", diz Antunes. Os caminhos cruzados entre a crítica nacional e internacional, segundo Antunes, resultam em panoramas surpreendentes que destacam a qualidade do grande escritor e verificam como sua valorização no exterior é gradual e progressiva.

Na apresentação aos ensaios, Antunes e Motta ainda apontam que "há um universalismo que Machado legou à nossa literatura e uma projeção de nossa literatura à esfera internacional, ao construir uma arte ao mesmo tempo brasileira e universal". A invenção machadiana já pressupunha, portanto, os "caminhos cruzados".






Machado de Assis fotografado por
seus contemporâneos: acima, o escritor
é acudido na rua, no Rio de Janeiro,
em 1907, durante o que se supõe ser
uma crise de epilepsia, em fotografia
de Augusto Malta. Abaixo, a elite da
literatura brasileira da época, em
daguerreótipo anônimo: de pé, Rodolfo
Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Souza,
Olavo Bilac, Veríssimo, Bandeira, Filinto de
Almeida, Passos, Magalhães, Bernardelli,
Rodrigo Octavio, Peixoto; sentados,
João Ribeiro, Machado de Assis,
Lúcio de Mendonça e Silva Ramos 














Machado de Assis era um realista?


O ensaísta e professor Gustavo Bernardo defende uma tese que vai contra quase um século de crítica literária no Brasil. Em seu livro "O problema do realismo de Machado de Assis" (Editora Rocco), que está chegando às livrarias, ele argumenta que Machado, cânone maior da literatura no Brasil, não é um escritor realista. Em entrevista ao Hoje em Dia, o autor aponta que seu estudo, por certo audacioso, busca mostrar que os escritos do Bruxo do Cosme Velho não condizem com a classificação acadêmica imposta e ensinada há décadas em salas de aula de todo o Brasil.


No livro você destaca que a ficção de mestres como Machado de Assis estabelece um duplo caráter da linguagem, que tanto diz mais do que queria dizer quanto não consegue dizer exatamente o que queria dizer. Diante de tantos paradoxos, qual é o lugar de Machado de Assis na literatura e na cultura brasileira?

Gustavo Bernardo – Eu quis dizer que toda a linguagem que usamos tem esse caráter duplo: sempre dizemos mais do que queríamos dizer e nunca conseguimos expressar exatamente o que queríamos dizer. Ao contrário do que imagina o senso comum escolar, a linguagem é fundamentalmente equívoca. A compreensão da língua de escritores como Machado faz com que eles explorem os equívocos de linguagem da sua sociedade e do seu tempo, em especial aqueles que confundem a realidade com os discursos sobre a realidade. Essa circunstância faz com que possamos considerar Machado de Assis não apenas nosso maior escritor mas também como nosso mais importante filósofo, uma vez que a sua obra até hoje parece pensar profundamente sobre os nossos equívocos, sobre os nossos paradoxos, sobre as nossas hipocrisias.






O Bruxo do Cosme Velho em adaptações
no cinema e na TV: acima Petrônio Gontijo
e Viétia Rocha vivem o jovem Brás Cubas
e sua amada Virgília em cena do filme de
2001, Memórias Póstumas, com roteiro e
direção de André Klotzel. Abaixo, o casal
Michel Melamed e Maria Fernanda Cândido
vivem Bentinho e Capitu na minissérie de
2008 da TV Globo Capitu, com roteiro
adaptado do romance Dom Casmurro
e direção de Luiz Fernando Carvalho


 


Considerando a literatura em língua portuguesa e a literatura produzida no Brasil, o gênio de Machado de Assis encontra algum precursor?

Não há precursor na literatura em língua portuguesa para Machado de Assis. É certo que autores como Eça de Queirós e José de Alencar foram muito importantes para ele, mas para que escrevesse antes contra eles do que como se os sucedesse esteticamente. Dom Casmurro é de certa forma uma resposta a ambos, tanto a O primo Basílio, de Eça, quanto a Lucíola, de Alencar: o romance machadiano desmonta tanto o realismo do autor português quanto o romantismo do brasileiro, de tabela desconstruindo radicalmente a visão que ambos tinham da mulher. Luísa e Lúcia/Maria da Glória começam suas histórias como personagens femininas densas e fortes, mas os autores as enfraquecem tanto que chegam mesmo a matá-las ao final, enquanto Capitu mantém sua força, sua densidade, sua ambiguidade e sua dignidade do princípio ao fim do romance, morrendo não em função das ações e omissões do narrador mas sim em função da idade. 

Então é um erro apontar Eça de Queirós ou José de Alencar como precursores da literatura de Macho de Assis?

Encontro precursores verdadeiros para Machado quer no filósofo francês Michel de Montaigne quer no escritor espanhol Miguel de Cervantes. Concordo inteiramente com o escritor mexicano Carlos Fuentes, que considera Machado de Assis o único herdeiro literário de Cervantes em toda a América, chegando a chamá-lo pela alcunha de “Machado de La Mancha”. Na nossa língua, o melhor sucessor de Machado, até porque muito diferente dele, é João Guimarães Rosa, que por mágica coincidência nascia no mesmo ano em que morria Machado de Assis. Sua Diadorim, de Grande sertão: veredas, é sem dúvida a melhor companheira de Capitu na literatura brasileira.





E a literatura brasileira hoje? Está melhor ou pior do que há tempos passados?

Darei uma resposta categórica: não sei! Acho que não temos como responder a essa pergunta, e sempre me incomodam aqueles que tentam, o que acontece periodicamente. Como diria o historiador Fernand Braudel, “a fumaça dos acontecimentos nubla a visão dos contemporâneos”. Primeiro, não temos a distância necessária para avaliar a literatura contemporânea; segundo, não temos meios adequados para comparar termos incomparáveis, quais sejam os escritores e as suas obras. O estudo da literatura, no meu entender, é o estudo da singularidade, não da similaridade. Penso que empobrece a literatura e a leitura enquadrar obras e autores, quer nos escolares estilos de época, quer nos modernos rankings de melhores e piores.





Dos tantos escritos que compõem a obra de Machado, qual você escolhe como o seu favorito?

São justamente tantos e tão bons que esta pergunta se faz a mais difícil de todas. Meu primeiro impulso é oscilar entre Dom Casmurro O alienista, pela crítica devastadora que ambos os títulos fazem à maneira moderna de pensar, mas logo me vem à mente um romance da chamada primeira fase, tão desprestigiada e tão excepcional quanto a chamada segunda fase. Trata-se justamente do primeiro romance de Machado de Assis, sua obra-prima nos dois sentidos do termo: Ressurreição. Este romance, de maneira discreta, já contém em germe todas as qualidades estéticas e filosóficas de Machado, a começar pela excepcional ironia contida no título: não há ressurreição alguma.

Esta ironia é um golpe de “canhões de pelica” no romantismo...

Isso mesmo. Machado é o nosso escritor mais cético. Aliás, são três as qualidades de Machado que mais incomodam nossa crítica e nossa pedagogia, e por isso seus próceres tentam negá-las quase desesperadamente: primeiro, nosso maior escritor é negro (logo, tentam embranquecê-lo de diversas maneiras pouco sutis); segundo, nosso maior escritor é o maior adversário do realismo (logo, tentam sustentar o absurdo, de que ele mesmo seria não só realista como o próprio fundador do realismo no Brasil); terceiro, nosso maior escritor é cético (logo, tentam desqualificar seu ceticismo, vendo-o equivocadamente como pessimismo ou niilismo).








Woody Allen, em recente entrevista ao jornal inglês The Guardian, destaca que Machado é um de seus escritores preferidos e que ele se identifica com o estilo e as tramas do autor de Dom Casmurro. Você concorda que há semelhanças entre os filmes de Woody Allen e a literatura de Machado?

Sim, sem dúvida. Primeiro, ambos são tremendamente irônicos e engraçados, apesar de não provocarem gargalhadas mas sim sorrisos inteligentes. Segundo, ambos são mestres na arte difícil da tragicomédia, a tal ponto que suas obras não evoluem da comédia para a tragédia, como de hábito, mas são cômicas e trágicas do início ao fim, da primeira à última página ou cena. Terceiro, ambos são herdeiros da meta-ficção de Cervantes, porque ambos quebram a cada página ou cena o contrato de ilusão realista entre autor e leitor, ou entre diretor e espectador. Quarto, ambos questionam a raiz de todos os discursos humanos, desconfiando sempre de que não sabemos o que temos certeza de que sabemos, o que prova que ambos são profundamente céticos – o que não torna nem um nem outro pessimista ou niilista, mas todo o contrário. Ambos, por fim, são príncipes da dúvida, da inteligência e da tolerância.



por José Antônio Orlando. 


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. O Bruxo e a crítica internacional. In: ______. Blog Semióticas, 18 de julho de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/07/o-bruxo-e-critica-internacional.html (acessado em .../.../...).


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