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A
história da arte é a história
da luta
das imagens.
–– Carl
Einstein.
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São
fotografias. Mas um olhar atento descobre logo, nos detalhes,
materiais surpreendentes que compõem em pequenas partes cada uma das
imagens. Tinta, açúcar, molho de tomate, chocolate, geleia, algodão,
botões, fragmentos de plástico, pedras, madeira, folhas e caules de
plantas, terra, metal, tiras e remendos de anúncios de publicidade,
pedaços de folhetos coloridos, de revistas, de jornais, de fitas, de
embalagens para presentes e de outros recortes de papel formam as novas
obras que Vik Muniz montou para criar ilusões de ótica e depois
fotografou. Batizada de “Imaginária”, a série, que reúne
imponentes fotografias, 15 no total, ampliadas com dois metros de
altura e emolduradas, como os modelos solenes das pinturas originais
de santos católicos a que fazem referência, está em destaque no
festival de fotografia Rencontres d’Arles (veja o link no final deste artigo), realizado a cada ano
entre julho e setembro na cidade de Arles, às margens do mar
Mediterrâneo, no sul da França.
Criado
em 1970, o festival se mantém como um dos grandes eventos
internacionais de fotografia e reúne dezenas de mostras que vão dos
acervos históricos até as novas tendências, os experimentos
recentes em novas tecnologias de câmeras e painéis de atualidades
sobre fotojornalismo. As imagens de Vik Muniz frequentaram o festival
nas últimas duas décadas como amostragens temáticas e em séries
inéditas – como esta “Imaginária”, que pela primeira vez é
exibida na Europa. Em entrevistas e no dossiê de imprensa
distribuídos pela organização do festival, ele explica que a
intenção foi homenagear grandes artistas que criaram imagens que há
séculos fazem parte do imaginário coletivo, mas artigos na imprensa
internacional destacam que a nova série, colorida e fulgurante, não
esconde um melancólico tom de “réquiem”, de celebração fúnebre, em
relação direta com a violência e as ações de destruição em vários níveis provocadas pelo governo de extrema-direita e de orientação fascista que em
2019 tomou o poder no Brasil.
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Vik
Muniz na Arte Sacra:
no alto, retrato do artista por
Carolyn
Cole.
Acima e
abaixo,
as
releituras para
imagens
sagradas
dos
santos
católicos segundo
Vik Muniz:
acima,
Santo
Agostinho
(após Philippe
de Champaigne);
abaixo,
Crucificação
(após Thomas
Eakins)
e Imaculada
Conceição
(após
Giovanni
Battista Tiepolo).
Todas as imagens fazem
parte
do dossiê de imprensa do festival
Rencontres d’Arles
O
simulacro da cópia e o peso da tradição
Diante
das novas experiências de Vik Muniz com sua “Imaginária”,
também são inevitáveis as referências sobre questões como o
valor de culto e o valor de exposição, as interfaces entre o
original e suas cópias, assim como as aproximações e as relações
milenares entre a religião e a história da arte, entre o sagrado e
o profano. Ao reconstruir formas e imagens tradicionais de obras de
arte a partir de simulacros imprevistos, o artista provoca uma
mistura por certo iconoclasta, mas que permite também interpretações
extremas, em variações pontuadas tanto por veneração como por toques generosos de ousadia e ironia, diante do peso da tradição. Ao tomar como modelo
figuras de devoção, perenes em seu significado e sua originalidade, as réplicas
de Vik Muniz questionam a representação da obra de arte e o
fascínio que o mistério da fé exerce, há séculos, sobre os
grandes artistas.
“A
criação artística sempre teve fascinação pelo mistério da fé”,
argumenta Vik Muniz em um breve depoimento reproduzido no dossiê de
imprensa distribuído pela organização do festival. “A arte
mistura elementos fundamentais que vêm da crença e das experiências
coletivas e individuais para promover um consenso sobre a realidade,
seja ela presentificada ou apenas imaginada. Com a obra de arte, a
verossimilhança não é mais que uma ilusão. Escrever não é descrever, pintar não é evocar, mesmo se constatamos que grande
parte do que admiramos na história da arte está, objetivamente,
relacionada à arte sacra”, conclui. Segundo a descrição
apresentada pelos organizadores da exposição, a nova série de Vik
Muniz explora, incansavelmente, as possibilidades da fotografia e as mais variadas possibilidades da arte que buscam uma tradução para o indizível.
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Vik
Muniz na Arte Sacra:
acima,
a releitura
para
Santa
Inês
(após Simon
Vouet).
Abaixo,
Maria
Madalena
(após Giovanni
Girolamo Savoldo)
e
São
João Batista no Deserto
(após Caravaggio)
Realidade
e representação: enganar o olho
O
indizível, no caso da série “Imaginária”, provoca um olhar que
nunca é neutro nem desinteressado. Diante das imagens que o artista
Vik Muniz selecionou e “montou” com a intenção de construir uma
ilusão de ótica, provocando uma semelhança inegável e irrecusável com um modelo religioso pré-existente, há uma quase obrigatória curiosidade que enlaça a
experiência da percepção à identificação dos detalhes.
Identificado pelo olhar mais atento, cada detalhe interroga o
pensamento e leva o observador a considerar tanto o modelo original
como a cópia que no momento se apresenta e a pensar, talvez, na origem da própria representação, na remota pré-história da arte, no sentido que ela evoca e no que
ela desencadeia sobre o que seja falso ou verdadeiro.
A
partir da brutalidade apenas aparente dos materiais utilizados, os
pequenos fragmentos foram reunidos para “enganar o olho” e formar
a imagem. Ao final do processo de montagem, o artista registrou em
uma fotografia – porque a arte, neste caso específico, também é
a arte da fotografia. Conhecidas desde a Antiguidade Clássica pelos
mestres da arquitetura e da pintura, as técnicas de “trompe
l’oeil” (em francês, “enganar o olho”) não surgem como
novidade nas obras de Vik Muniz. Na verdade, são estratégias
presentes na maioria de sua produção, seja em recriações de obras
de arte muito conhecidas, seja em retratos de pessoas famosas, ou em
recomposições de mosaicos sobrepostos e fotografados –
estratégias muito semelhantes às montagens e colagens criadas pelos primeiros mestres do cubismo, Pablo Picasso e Georges Braque, além de outros artistas das vanguardas, desde o começo do século 20, e que desde a década de
1960 tornaram-se uma constante na Pop Art de nomes como Andy Warhol, Jasper
Johns, Peter Blake, Robert Rauschenberg, Tom Wesselmann, Claes Oldenburg e Roy Lichtenstein, ou de brasileiros como Nelson Leirner, Athos Bulcão, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Regina Silveira, entre outros.
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Vik
Muniz na Arte Sacra:
acima,
a releitura
para
São
Tiago, o Maior
(após Guido
Reni).
Abaixo,
São
Pedro
(após Girolamo
Batoni)
e
Santa
Luzia
(imagem
da tradição)
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Apagando
as diferenças
A
principal novidade das práticas de Vik Muniz, em especial nesta
“Imaginária”, talvez esteja na “remediação”, ou no uso de
novas mídias e tecnologias para reconstituir ou reconfigurar,
reinventando ou apagando a diferença entre novas formas de expressão
e outras já cristalizadas em formas tradicionais. Ainda que o
conceito de “remediação” seja um neologismo proposto
inicialmente por Jay Bolter e Richard Grusin (no livro “Remediation:
Understanding New Media”, publicado no ano 2000 por The MIT Press,
Cambridge, Massachusetts, USA) no contexto das teorias da literatura
e da comunicação, para refletir sobre novas versões baseadas nos
escritos de ficção científica e horror de Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), o termo tem equivalências com as
estratégias de Vik Muniz em que uma mídia “toma emprestado” de
outra as questões de forma e conteúdo, bem como nas relações com
questões específicas da história da arte, tais como o valor de
culto e o valor de exposição, ou nas referências diretas às
relações fluidas e instáveis entre as categorias de “cultura de massa” e de “cultura erudita”.
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Vik
Muniz na Arte Sacra:
acima,
a releitura
para
São
Sebastião
(após José de Ribera) e
Santa
Rita de Cássia
(imagem da tradição).
Abaixo,
a
releitura para
Santo
Antônio de Pádua
(após
Tanzio
da Varallo) e
Santa
Terezinha
(segundo
imagem
da tradição).
No
final da página,
releituras
de Vik Muniz para São
Miguel Arcanjo
(após
Darko
Topalski)
e para São
Jorge e o Dragão
(após
Gustave
Moreau)
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No
contraste ou na fusão da riqueza das formas, situando em uma mesma
obra elementos da expressão labiríntica e fragmentária pela
escultura, pelo desenho, pela pintura e pela fotografia, Vik Muniz
reúne e apresenta em um mesmo plano vários discursos simbólicos e
vários objetos que constroem ou se transformam em uma só imagem,
que por sua vez reproduz por semelhança uma imagem anterior muito conhecida. O
paradoxo de atrelar o mosaico e o múltiplo à construção de uma só imagem é
também um alerta ao observador, porque transforma a realidade e a
representação em coisas semelhantes e equivalentes. Observar com
atenção a metamorfose dos detalhes reunidos pelo artista, que se
fundem para constituir a ilusão de uma forma conjunta, torna-se
também uma questão ideológica, porque denuncia que não há mais
lugar para o olhar ingênuo e que a visão não pode mais ser separada da
interpretação.
por José
Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. Vik
Muniz na Arte Sacra. In:
______. Blog
Semióticas,
13
de
agosto
de
2019. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2019/08/vik-muniz-na-arte-sacra.html
(acessado em .../.../...).
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