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21 de abril de 2012

Tancredo virou ficção







Os homens fazem a   
sua própria História, mas   
não a fazem como querem.   

Karl Marx –– "O Dezoito Brumário      
de Louis Bonaparte" (1852)      
 
 


Atravessar o Rubicão” é uma expressão que remete a um dos mais famosos episódios de Roma na Antiguidade Clássica: o general e estadista Júlio César, no ano 49 antes de Cristo, tomou a decisão crucial de atravessar o rio Rubicão com seu exército, transgredindo a lei que determinava o licenciamento das tropas armadas toda vez que elas retornassem pelo norte de Roma. Com a máxima “alea jacta est” (a sorte está lançada), César assumiu todos os riscos, transpôs o rio com suas tropas e mudou os rumos da história.

O episódio de César, alegoria milenar sobre aqueles que tomam decisões radicais e arcam com as consequências de suas atitudes, perpassa o romance “O Dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder” (editora Batel), terceiro livro publicado pelo jornalista Ramiro Batista. A proposta do romance não poderia ser mais corajosa: uma trama ficcional que reúne jornalistas às voltas com a cobertura política que alcança da frustrada campanha popular pelas Diretas Já até a posse malograda do presidente eleito Tancredo Neves (1910-1985).

O título do livro, aliás, além de remeter ao drama e à redenção de César na história do Império Romano, também é uma citação a uma das mais famosas frases de Tancredo, que os jornalistas que cobriam as pautas de política na década de 1980 conhecem de cor e salteado: “Ninguém tira os sapatos antes de chegar ao rio, mas ninguém vai ao Rubicão só para pescar”.







É uma mistura de ficção e realidade para desvendar Tancredo e sua campanha à Presidência da República”, destaca o autor, que naquele período histórico que fornece o pano de fundo ao romance fazia seu aprendizado como jornalista profissional em Belo Horizonte. Os personagens da política da época tiveram seus nomes reais mantidos no romance, mas os nomes dos profissionais de imprensa são todos fictícios, segundo o autor, que mistura experiências reais e literárias para contar aquele episódio que foi um dos momentos mais traumáticos da história recente do Brasil.



Ficção e jornalismo caminham juntos



No romance de Ramiro Batista, ficção e jornalismo caminham juntos, abarcando o breve período que vai do fim de janeiro 1984, quando é realizado o primeiro grande comício pelas Diretas, na Praça da Sé, em São Paulo, até o dia 15 de março de 1985, data da posse de Tancredo Neves como presidente da República. Não fossem as interfaces com os dramas da política brasileira da década de 1980, o livro também poderia ser descrito como um daqueles roteiros policiais de filmes “noir” que envolvem sexo, drogas e traições intrincadas.







Há um jovem repórter em busca do furo jornalístico, o desaparecimento de uma bela fotógrafa com um dossiê suspeito e a denúncia sobre os bastidores das armações de um grande jornal. Mas além da farsa, também há a tragédia: o fracasso do sonho de democracia da campanha das Diretas e as conspirações repletas de contradição, para abafar e conduzir a mobilização popular que tinha ganhado as ruas. Sem contar a pressão dos militares e os esquemas da corrupção eleitoral.

Tudo isso e mais a presença em cena do veterano Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas (1982-1954) que atravessaria a história brasileira do século 20 e chegaria como protagonista à eleição indireta em janeiro de 1985. No Colégio Eleitoral, Tancredo enfrenta e vence Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, sagrando-se como primeiro presidente civil depois de 20 anos de ditadura militar. Ironias do destino: Tancredo ganha, mas não leva. Em seu lugar assume o vice José Sarney, partidário do PDS, antiga Arena, partido que durante duas décadas havia dado sustentação política à ditadura militar. 




Henfil (1944-1988)




Glauco (1957-2010)       


Entre a farsa e a tragédia



Nas páginas do romance, farsa e tragédia estão na zona de fronteira que divide, e às vezes confunde, a ficção e o jornalismo: os personagens do romance investigam e Tancredo chega a montar um escritório secreto no Rio de Janeiro para se encontrar às escondidas com sinistras figuras do regime militar; também esconde até o limite sua doença, com medo de que a notícia possa interferir no processo. A posse, afinal, é malograda e o que seria a grande manchete da imprensa ninguém deu, para não colocar em risco a transição – ameaçada pela truculência dos baluartes da direita e dos setores mais reacionários, mal acostumados às benesses espúrias que a ditadura militar proporcionava.

A trama ficcional também lança mão do contexto jornalístico para situar o leitor sobre o que ocorria no mundo naquele momento histórico: o governo belicista do norte-americano Ronald Reagan planejava invadir a Nicarágua, o cardeal alemão e hoje Papa Joseph Ratzinger comandava no Vaticano uma perseguição implacável contra as lideranças da Teologia da Libertação no Brasil e na América Latina – e uma doença até então desconhecida, tida como uma “peste gay”, começava a dar seus primeiros sinais. Tudo isso num cenário cultural em que despontavam como novidades o teatro besteirol, as rádios FM e uma profusão de bandas de rock “made in Brazil”.






O Dossiê Rubicão”, que teve a primeira edição lançada no começo de 2010, é o terceiro livro publicado por Ramiro. A estreia na ficção foi em 1983 com “A Pintinha Negra”, coletânea de sátiras políticas sobre sua terra natal, Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, onde Ramiro trabalhou em jornais locais. Em 1986 ele lançaria seu primeiro romance, “O Camaleão no Abismo”, em que descreve a educação sentimental de seu protagonista.

Além de jornalista, Ramiro também se formou em Literatura e trabalhou em assessorias de imprensa. Da sua trajetória profissional constam ainda uma temporada como repórter no jornal “Estado de Minas” e um período como funcionário da Assembleia Legislativa de MG. Muito desta trajetória transparece em “O Dossiê Rubicão” na história de seu alter-ego Gustavo Guerra, jornalista inexperiente, mas cheio de ideais, que chega à redação de um jornal de São Paulo e se apaixona por uma bela fotógrafa.






É a fotógrafa, na trama do romance, que guarda o grande segredo: a cópia de um dossiê comprometedor, batizado Projeto FR ou Folha Rubicão. O dossiê parece ser uma seleção de documentos sobre uma possível reformulação do jornal, mas na verdade também inclui uma análise das artimanhas de certos bastidores da sucessão presidencial que poderia levar Tancredo Neves à Presidência da República.



Ameaças de retrocesso



No meio das falcatruas, o caso de amor entre Gustavo e Camila e a sucessão de pautas da cobertura jornalística, com uma série de ações militares que na verdade são ameaças de retrocesso frente à tentativa de abertura política. Há ainda a presença de alguns dos mais emblemáticos personagens do nosso passado recente: Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Lula e muitos outros. A certa altura, o jornalista e protagonista do romance descobre que Tancredo está doente. É assim em “O Dossiê Rubicão”: a cada lance, os acontecimentos reais servem de alavanca para a trama.




























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No alto, Vinicius de Moraes em comício
com Lula, em 1979, no Dia do Trabalho,
no Paço Municipal, São Bernardo (SP).
Acima, Lula e Fernando Henrique em
1984, no ABC paulista, fazem passeata e
distribuem panfletos pela redemocratização
do Brasil; e Lula no comício pelas Diretas Já 
no Vale da Anhangabaú, em São Paulo, no dia
25 de janeiro de 1984, com o jornalista
Osmar Santos e os atores Lídia Brondi
e José Wilker. Abaixo, mais três imagens
de 1984: Lula e Henfil no comitê de
organização das Diretas Já;
Ulisses Guimarães, Brizola, Lula,
Osmar Santos e Franco Montoro no
comício de 19 de abril, na Praça da Sé,
região central de São Paulo, que reuniu
o público recorde de 1,5 milhão de 
pessoas; e Lula no discurso que
encerrou o comício na Praça da Sé










O Dossiê Rubicão” consumiu três anos de trabalho, segundo o autor. “Há muitos anos que venho maquinando este livro, mas o começo da redação, de fato, foi há cerca de três anos, quando li O Código Da Vinci. Foi o best-seller do norte-americano Dan Brown que deflagrou a escrita do livro, mas acho que o modelo para a narrativa está mais para Agosto, do Rubem Fonseca”, aponta. Publicado em 1990, o romance policial de Fonseca também funde ficção e história do Brasil, culminando com o suicídio do presidente Vargas. Na versão oficial, Tancredo teria recebido das mãos do próprio Getúlio a carta-testamento que seria divulgada por ocasião da morte do presidente.

O título inicial era ‘Pequenas Vilanias’, para remeter às imposturas do dia a dia, tanto na imprensa e na política como na vida das pessoas comuns. Também cheguei a trabalhar com o título ‘O Código Tancredo’, mas gostei muito da sugestão do editor para o título definitivo. Ficou mais abrangente e mais literário”, avalia. Na época descrita no romance, o autor também trabalhava em jornal de BH, mas preferiu situar seus personagens em uma redação fictícia em São Paulo, por ele batizada de “Folha do Povo”.







A imprensa brasileira naquele período vivia muitos dilemas e transformações”, recorda o autor de “O Dossiê Rubicão”. “Era a transição da censura da ditadura militar para as liberdades democráticas e era o começo das mudanças na tecnologia para a produção industrial da notícia, das laudas de papel nas barulhentas máquinas de escrever para as primeiras telas silenciosas de computador”. 



Dan Brown e Rubem Fonseca 



O processo técnico do jornalismo, descrito em várias passagens do romance, fornece as imagens da primeira página do livro, que reproduz uma antiga lauda datilografada com a manchete que traz o “furo” de reportagem que mudaria a história do Brasil e que movimenta as intrigas criadas pelo “O Dossiê Rubicão”. Ao final do romance, mesmo para o leitor que não é jornalista paira uma certeza, ou antes uma suspeita: a farsa e a tragédia daquele momento resultaram das armações dos setores corruptos e conservadores da sociedade brasileira, mas também foram decorrência das limitações do trabalho jornalístico dos profissionais que cobriram a eleição e o fim de Tancredo.






Cenas que fizeram a História no
ano de 1984: acima, comício pelas
Diretas Já! na Praça da Sé, em São
Paulo. Abaixo, referências do
teatro, do cinema, da TV e da MPB
na luta contra a ditadura militar e pela
redemocratização: Dina Sfat, Raul Cortez
e Ruth Escobar, Belchior e Sonia Braga;
e Chico Buarque no palanque durante
o grande comício pelas Diretas Já! na
Praça da Sé, em São Paulo; e um registro
histórico do comício realizado na
mesma época, em 1984, no Rio de Janeiro,
em frente à Igreja da Candelária











Antes do drama de Tancredo, a campanha pelo voto direto para presidente mobilizou multidões em grandes comícios nas capitais que juntavam políticos a artistas e intelectuais. A campanha começou ignorada sistematicamente pelos maiores veículos de imprensa, mas o gigantismo das manifestações nas ruas em várias capitais rompeu o silêncio. Na Praça da Sé, em São Paulo, reuniram-se 500 mil pessoas. Na Candelária, no Rio de Janeiro, compareceram 1 milhão, e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, cerca de 1,5 milhão de pessoas.

Este distanciamento de quase três décadas nos ajuda a compreender melhor os boicotes, as traições e as ameaças de golpe que o Tancredo enfrentou. Tanto que, no livro, ele aparece mais humanizado, cercado por toda aquela teia complexa de acontecimentos que fizeram história”, explica o autor, reconhecendo que transcreveu frases históricas dos políticos envolvidos no processo e interligados à extensa galeria de eventos que incluem o primeiro Rock’n Rio e o que mais fosse notícia no Brasil e no mundo.






O ritmo de trabalho para o livro foi intenso, confessa Ramiro. “Li muito, pesquisei jornais e revistas, e tentei ser metódico na redação de pelo menos três páginas por dia”, recorda. Do primeiro comício pelas Diretas Já, até as vésperas da posse do presidente Tancredo, em abril de 1985, o romance segue os passos imprevistos e imprevisíveis da história. 

Conduzidos pela farsa e pela tragédia, a sequência dos capítulos de "O Dossiê Rubicão" persegue a história e seus registros oficiais. Enquanto Tancredo investe nos acordos de toda ordem para tomar a frente na cena política, as tramas da ficção descrevem o triângulo amoroso entre o jovem repórter, uma editora do “Folha do Povo” e Leão Machado, personagem emblemático que, não por acaso, redige a carta-testamento que encerra o romance. Trata-se, afinal, de um daqueles casos declarados da ficção em que qualquer semelhança com os fatos reais não terá sido mera coincidência.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Tancredo virou ficção. In: ______. Blog Semióticas, 21 de abril de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/04/tancredo-virou-ficcao.html (acessado em .../.../...).


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11 de novembro de 2011

Desobedeça!







 "Que fogo poderia se igualar a um
raio de sol num dia de inverno?" 

––  Henry David Thoreau   

  




Tempos de proliferação dos mais diversos aparatos de controle na vida cotidiana – com aprovação de leis controversas e tantas proibições que, para alguns, ferem as liberdades individuais, além de outros problemas que para outros são segurança e vão da instalação indiscriminada de câmeras de vigilância, invasões rituais de privacidade e denúncias intermináveis de corrupção envolvendo o poder público. Tempos em que é bem-vinda a lembrança de ensinamentos marcantes e questionadores sobre o estabelecido e o melhor que poderia vir a ser, entre eles os escritos do pensador Henry David Thoreau (1817-1862).
O texto mais conhecido do autor norte-americano, "A Desobediência Civil", mais de 160 anos depois da data de publicação permanece extremamente atual e, por certo, mais polêmico e explosivo do que na data de sua primeira edição. Trata-se de uma das defesas da transgressão mais célebre dos últimos séculos: no argumento brilhante de Thoreau, a desobediência individual surge como forma de oposição legítima frente ao que seja injusto.
Nada mal para um ensaio de ocasião em que o autor queria tão somente explicitar suas razões para se recusar a pagar seus impostos: Thoreau, escritor e filósofo que passaria à posteridade como pioneiro na teoria relativa à desobediência civil, fazia um ato de protesto contra a escravidão e contra a guerra de seu país contra o México.

 


Um pensador muito à frente de seu
tempo: o escritor norte-americano
Henry David Thoreau retratado
em daguerreótipo datado de 1856
e atribuído ao pioneiro da fotografia
Benjamin Maxham (1810-1895)







Sem negar que as formas republicanas e democráticas de governo sejam um avanço político, a obra de Thoreau (traduzida pela primeira vez no Brasil em 1984, pela Rocco, com o título "Desobedecendo - A Desobediência Civil & Outros Escritos") critica a aplicação indiscriminada do princípio do poder da maioria e defende a rebeldia de indivíduos e minorias contra padrões majoritariamente instituídos.
 


A lei e o cumprimento da lei



Thoreau, pensando à frente de seu tempo, interroga o senso comum: se toda pessoa é dotada de uma consciência, por que deve prevalecer sempre a consciência do legislador ou do aplicador da lei? Para o filósofo, o argumento que alega serem os legisladores ou os "fiscais" do cumprimento da lei os representantes legítimos da coletividade, eleitos por uma maioria, não surge como resposta convincente. 






De acordo com Thoreau, a tirania de uma lei não é abrandada por sua origem majoritária. Tal defesa da rebeldia como forma efetiva de ação política teve interpretações radicais, no decorrer do último século, e influenciou a política e as artes. A lição ideológica de Thoreau alcançou consciências iluminadas em 160 anos de história – abarcando pensadores, escritores, artistas, poucos políticos e heróis pacifistas como Mahatma Gandhi (1869-1948), líder da libertação da Índia da condição de colônia da Inglaterra, até as sociedades alternativas do movimento hippie, as contestações estudantis e as revoluções comportamentais que proliferaram desde a década de 1960.

Com o passar do tempo, a arte do pensamento e das palavras de Thoreau projetou utopias de liberdade e participação social, presentes ainda hoje na mobilização popular que cada vez mais volta às ruas, no mundo inteiro, pelos direitos das minorias e contra a discriminação racial e sexual, na luta pela preservação do meio ambiente e na resistência contra leis autoritárias e opressoras, da recente primavera dos países do mundo árabe ao vazamento explosivo de informações confidenciais dos governos de países do primeiro mundo no WikiLeaks, passando pelas manifestações crescentes nas ruas de países da Europa, Estados Unidos, Brasil...




Um protesto que entrou para a história:
milhares de estudantes em greve tomam
as ruas de Paris no mês de maio de 1968;
abaixo, o momento histórico recriado no
cinema em 2003 por Bernardo Bertolucci
em Os Sonhadores (The Dreamers)









Para a artista plástica Teresinha Soares, que na década de 1970, no auge da ditadura militar, apresentou instalações ousadas que fizeram história, a contestação sempre será a palavra de ordem. "O mundo está aí, cheio de problemas. Nesse sentido, é preciso ver a questão do feminino diretamente ligada à arte do contestar", argumenta, lembrando muitos episódios recentes que foram notícia e causam repulsa e indignação. "Para quem lutou contra os desmandos da ditadura no Brasil, é difícil demais ver a maioria silenciar diante de paradoxos absurdos", protesta a artista. "Não dá para ficar calada diante de tanta arbitrariedade". 



Rupturas com a tradição


"A rebeldia e a contestação são os elementos comuns a todos os modernos na cultura e na arte, desde os movimentos da vanguarda do início do século 20", aponta Eneida Maria de Souza, professora da UFMG e autora do recém-lançado “Janelas Indiscretas” (Editora UFMG), que investiga certos aspectos da cultura e da literatura no Brasil e os cânones do Modernismo à Tropicália.

"Ainda hoje", destaca a professora, "a contestação é a condição para que a obra tenha reconhecimento como obra de vanguarda. Se pensarmos no pós-moderno e na atualidade, mesmo que a obra trabalhe com pastiches e citações, seu valor tem que surgir de algo novo, de original, em relação à tradição e ao lugar-comum".








Na cena política, entretanto, Eneida reconhece que o valor da rebeldia e da contestação está ausente, com poucas exceções. "No Brasil, infelizmente, a contestação na política, na maior parte das vezes, tem caído no vazio. A contestação na política sempre vem a reboque dos interesses imediatos, oportunistas, dos partidos políticos", completa, lembrando episódios do acúmulo quase diário de denúncias de corrupção e quebra de decoro que vêm se arrastando por causa da ausência de contestação popular.

Referências à desobediência civil propostas por Thoreau, um dos precursores dos movimentos libertários de nossa época, são encontradas em homens que estiveram à frente de seu tempo – numa lista em que também é preciso destacar musas que marcaram época com suas revoluções singulares, como as brasileiras Chiquinha Gonzaga, Maria Lacerda de Moura, Nísia Floresta, Pagu, Carmen Miranda, Luz del Fuego, Elvira Pagã, Anaíde Beiriz e Leila Diniz, entre muitas outras.

Há também referências às ideias de Thoreau em quase toda a bagagem de muitos rebeldes também na cultura pop, de Rita Lee e Os Mutantes com a geração tropicalista à sociedade alternativa de Raul Seixas, Novos Baianos e Secos & Molhados; de heróis da era do rock como Bob Dylan, John Lennon, Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix à utopia representada pelo Festival de Woodstock, em 1969, e daí à rebeldia grupal dos primeiros movimentos punks, passando por lideranças universais surpreendentes do Terceiro Mundo como Bob Marley e Che Guevara, pelas vanguardas do Modernismo e pela tradição da ruptura dos adoráveis malditos na literatura, no cinema, na música, no teatro, na dança.




Che Guevara (1928-1967), comandante
da revolução cubana, posa em 1960 para
a célebre fotografia de Alberto Korda
intitulada Guerrilheiro Heroico



Sem a influência das ideias de Thoreau seria impossível também conceber a existência de muitos clássicos da literatura e obras ideologicamente transgressoras identificadas com a cultura das mídias – a exemplo do bom e velho rock´n´roll. Entre as muitas obras derivadas de Thoreau, há algumas que preservam seu espírito libertário e contestador, ganhando uma impressionante atualidade, a exemplo de "On the road" (1957) de Jack Kerouac e outros clássicos da Geração Beatnik, que se mantêm emblemáticas depois de décadas. O mesmo valor antecipatório acontece com certos romances da ficção científica como  “Admirável Mundo Novo” e “1984”.  



Valores do "futuro"

 

Escrito pelo inglês Aldous Huxley (1884-1963) e publicado em 1932, “Admirável Mundo Novo” narra um hipotético futuro em que as pessoas são pré-condicionadas a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse "futuro" criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada "soma". 











HERÓIS DA ERA DO ROCK:
a partir do alto, Leila Diniz, musa
libertária que quebrou tabus de
uma época em que a repressão
dominava o Brasil; a célebre reunião
dos mentores da Tropicália na
capa do disco lançado em 1968;
Raul Seixas, um dos profetas
do misticismo e da sociedade
alternativa; e Bob Dylan, o
menestrel dos anos 1960.
Abaixo, Jim Morrison, o
poeta-xamã, um dos principais
"malditos" da cena do rock, líder
da banda The Doors; John Lennon,
que passou de ex-integrante dos
Beatles a herói pacifista, assassinado
em 1980; e Bob Marley, primeiro
grande astro da cultura pop
saído do Terceiro Mundo









Publicado em 1949, exatamente um século depois de "A Desobediência Civil", "1984" o romance do também inglês George Orwell (1903-1950) descreve uma sociedade totalitária do futuro (daí a data fatídica do título), na qual as mínimas ações e até a expressão facial dos indivíduos são vigiadas por aparatos tecnológicos a serviço de um suposto "Big Brother" – que tudo vê e tudo sabe, agindo com plenos poderes em nome do Estado e usando vigilância e informação para punir qualquer dissidência, mantendo no poder a estrutura do autoritarismo.

Ironia do destino e sinal dos tempos: em nossa época, a metáfora do "Big Brother" virou título para a franquia mundial do "reality show" na TV – que extrai seu apelo de audiência justamente do exibicionismo e da "invasão" da privacidade alheia. No romance, que foi adaptado para o cinema também em 1984, um humilde funcionário desobedece as leis e o senso comum ao se apaixonar. Quanto tenta enfrentar a repressão, é esmagado pelo sistema.





A capa da primeira edição do
romance de George Orwell,
publicado em 1949, e uma cena
do filme, que chegou aos cinemas
no ano de 1984, dirigido por
Michael Radford, com John Hurt,
Richard Burton e Suzanna Hamilton



Apesar do desfecho pessimista do romance, Orwell segue a cartilha de Thoreau – afinal, um cidadão solitário ou uma minoria renitente são os agentes mais prováveis de uma ação positiva e bem-sucedida de desobediência civil. No lado oposto aos que ousam desobedecer, a multidão e suas maiorias silenciosas podem continuar seu caminho e obedecer, conformadas.

Mas, por outro lado, a multidão ou as minorias ou o indivíduo solitário podem ainda pressionar contra a repressão dos dissidentes – e podem, também, começar a desobedecer, descobrindo a defesa da diversidade e estabelecendo a tolerância à divergência como regra primeira de convivência. Neste caso, a lição de Thoreau terá superado as barreiras de seu tempo e fincado suas raízes libertárias no tempo presente.






Graúna, símbolo da contestação
e da luta pela liberdade, criação de
Henfil (1944–1988), acima, em um
cartum que foi publicado no extinto
Jornal do Brasil após as eleições de 1986


Brasileiro revê esquerda dos EUA


Livros sobre a esquerda norte-americana são praticamente inexistentes no Brasil. Há quem acredite até que a esquerda nunca existiu ou nunca teve importância no país em que o capitalismo mais prosperou. Ledo engano – que começa a ser desfeito com "A Nova Esquerda Americana: de Port Huron aos Weathermen (1960-1969)", de Rodrigo Farias de Sousa, lançado pela Editora FGV. 
 
 



Versão revista e ampliada da dissertação de mestrado do autor, premiada na Universidade Federal Fluminense (UFF), "A Nova Esquerda Americana" revela os trunfos de Rodrigo na pesquisa documental, valendo-se de depoimentos e entrevistas com lideranças políticas de uma época em que a utopia de construir um mundo melhor e mais justo pareceu bem próxima para um grande número de pessoas no mundo inteiro.

"Logo no começo da pesquisa, que conclui como tese e agora sai em livro, percebi que eu precisava seguir numa direção diferente", explica o autor, em entrevista por telefone. "Não queria ser repetitivo com um tema tão importante em nossa época. Optei pela esquerda dos Estados Unidos dos anos 1960 porque era e ainda é um tema relativamente pouco conhecido por aqui. O que há no Brasil são obras importantes falando sobre 1968 ou sobre assuntos específicos daquela época, como as barricadas de maio dos estudantes em Paris, os protestos contra a guerra do Vietnã, a revolução do rock'n'roll ou a contracultura que explodiu de repente no mundo todo".






Duas imagens do documentário
Woodstock (1969), com roteiro,
fotografia, produção e direção de
Michael Wadleigh, o único cineasta
a registrar na íntegra o evento mais
mitológico da era do rock



"Mas há também algo da maior importância que ainda hoje têm consequências que foi o movimento estudantil norte-americano naquele período. É um tema que raras vezes é divulgado na mídia e que não havia sido ainda abordado no Brasil. O que é surpreendente, considerando o papel dos EUA na história do século 20 e nos anos 1960 em particular”, destaca Rodrigo.

A lacuna sobre aquele contexto naquele momento da história é difícil de explicar, concorda o autor de "A Nova Esquerda Americana”. “Quando se fala de 1968, lembramos das barricadas estudantis do maio francês ou dos protestos dos estudantes brasileiros contra a ditadura que deram origem à luta armada. Mas poucos sabem sobre este período nos EUA, que foi terrivelmente turbulento e que pouquíssimas vezes chegou ao cinema e à mídia em geral".





Em uma narrativa sedutora, que enumera eventos que fizeram história e análises por vezes poéticas, a pesquisa apresentada em seus percalços – contando na primeira pessoa a história do autor, brasileiro que estuda a história do estrangeiro no território estrangeiro – Rodrigo Farias de Sousa consegue alcançar reflexos do passado no tempo presente, em especial a vitória espetacular de Barack Obama nas eleições para a sucessão do retrógrado governo de George W. Bush, além dos empreendimentos tecnológicos e visionários de protagonistas como Steve Jobs, entre outros que surgiram nas últimas décadas e foram tidos, à primeira vista, como propostas estéreis e delirantes.


Zabriskie Point: rebeldia e silêncio infinito


Como resultado, o livro de Rodrigo Farias de Sousa lança luzes sobre a complexa cena política atual e os primórdios das grandes questões contemporâneas nos anos 1960 - quando surgem nos EUA, com notável vigor, as lutas sociais das chamadas "minorias": lideranças feministas, gays, negros e outras etnias mobilizam-se, enquanto surgem inovações na arte e no movimento estudantil.
 





A investigação apresentada pelo autor revela o jogo de efervescência cultural e política nas universidades dos EUA, um cenário que também foi retratado em "Zabriskie Point" (1970), de Michelangelo Antonioni – uma obra-prima da contracultura e da contestação traduzidas em cinema, com os longos planos de panoramas em silêncio infinito, característicos do cineasta, e trilha sonora hipnótica que inclui Rolling Stones, The Gratful Dead, Jerry Garcia e The Youngbloods, com destaque para o até então pouco conhecido Pink Floyd.

Na trama que a câmera de Antonioni observa, dois protagonistas, os estreantes Daria Halprin e Mark Frechette, são reunidos pelas forças do acaso e da sorte e encontram o idealismo de uma revolta universitária no campus, viajam em uma mistura de fuga e aventura. Terminam sozinhos, em silêncio, no monumental deserto de Zabriskie Point, na Califórnia.





Roger Waters, Nick Mason,
Syd Barrett e Richard Wright
em Londres, em 1966, antes da
primeira apresentação com o
nome Pink Floyd - abreviação
de The Pink Floyd Sound, uma
escolha de Barrett em homenagem
aos músicos de blues Pink Anderson
e Floyd Council. O cineasta italiano
Michelangelo Antonioni assistiu a
este primeiro show em 1966, durante
um intervalo das filmagens de Blow Up,
e convidou os quatro estreantes para
compor a trilha sonora do que seria seu
próximo filme, Zabriskie Point. O
guitarrista David Gilmour juntou-se aos
integrantes da banda depois dos primeiros
discos, quando Barrett acabou se afastando


Veja mais em: Pink Floyd na lua 

 


A vida imita a arte: depois das filmagens tumultuadas, o filme de Antonioni sofreu boicote dos estúdios na distribuição e estreou em poucos cinemas nos Estados Unidos. Pelo mundo afora, em 1970, foi aplaudido pelo público e pela crítica em vários festivais, mas não conseguiu espaço nos circuitos comerciais e permaneceu fora de circulação durante décadas. A bela Daria Halprin rejeitou muitos convites em Hollywood e abandonou a carreira de atriz quando se casou com o ator e diretor Denis Hopper, de “Sem Destino / Easy Rider” (1969). 

Mark Frechette, por sua vez, protagonizou um drama que lembra muito o de seu personagem em "Zabriskie Point": não conseguiu papel em nenhum outro filme e, desempregado, acabou participando de um mal sucedido assalto a banco em 1973 no qual um de seus cúmplices foi morto. Frechette foi condenado a 15 anos e morreu na prisão.

O paralelo com "Zabriskie Point" surge no livro "A Nova Esquerda Americana" apenas de passagem, mas serve como analogia à perfeição para o relato que Rodrigo Farias de Sousa apresenta. Com precisão e argumentos apresentados em narração que lembra lances de intrigas da ficção, o autor lança luzes sobre causas e consequências dos rumos dos Estados Unidos e do mundo a partir do grupo Students for a Democratic Society (SDS), que reforçou na mentalidade do cidadão mediano da América e de muitos outros países, por extensão, a partir dos idos do final dos anos de 1960, a urgência que não se pode adiar para uma mobilização de lutas pelos direitos civis e contra o que seja injusto.



por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Desobedeça. In: ______. Blog Semióticas, 11 de novembro de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/11/desobedeca.html (acessado em .../.../...).


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O cineasta Michelangelo Antonioni
com Daria Halprin e Mark Frechette
no deserto de Zabriskie Point, em
Death Valley (EUA), em 1969.
Abaixo, a cena final de Zabriskie Point


 


'Aqui estão os loucos. Os desajustados.
Os rebeldes. Os criadores de caso.
Os pinos redondos nos buracos
quadrados. Aqueles que veem as coisas
de forma diferente. Eles não curtem
regras. E não respeitam o status quo.
Você pode citá-los, discordar deles,
glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única
coisa que você não pode fazer é ignorá-los.
Porque eles mudam as coisas. Empurram
a raça humana para a frente. E, enquanto
alguns os veem como loucos, nós os vemos
como geniais. Porque as pessoas loucas
o bastante para acreditar que podem mudar
o mundo, são as que o mudam.'

  Bilhete para Thoreau (1969), de Jack Kerouac (foto abaixo)





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