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11 de novembro de 2017

Levantes por Didi-Huberman







 A perda, talvez inevitável em termos de realidade     
política, consumou-se, de qualquer modo, pelo     
esquecimento, por um lapso de memória que     
acometeu não apenas os herdeiros, mas     
também, de certa forma, os atores, as     
testemunhas, aqueles que por um fugaz     
momento retiveram o tesouro nas     
palmas de suas mãos.     


–– Hannah Arendt     

  















A palavra “levante” tem muitos significados além do ato ou efeito de erguer ou levantar. Os dicionários registram dúzias de sinônimos, todos com o mesmo sentido rebelde de desobediência, desordem, irreverência, indisciplina, insubordinação, insurreição, contestação, rebelião, revolta, motim, protesto, sublevação, subversão, transgressão, teimosia, resistência, revolução. Levantes, no plural, com todas as variantes que a palavra representa, é o tema da exposição internacional itinerante que chegou ao Brasil e está aberta ao público no Sesc Pinheiros, em São Paulo, de 19 de outubro até 28 de janeiro de 2018, seguindo depois uma extensa agenda itinerante que inclui temporadas no México e depois no Canadá e outros países.

Inaugurada no espaço Jeu de Palme em Paris, França, onde ficou em cartaz de outubro de 2016 a janeiro de 2017, sob curadoria do filósofo e historiador francês Georges Didi-Huberman, e com o título original de “Soulèvements”, a exposição teve temporadas nas cidades de Barcelona, na Espanha, e Buenos Aires, na Argentina, antes de chegar a São Paulo. A proposta original, através da seleção e exibição de cerca de 200 obras de diversos países, realizadas nos últimos dois séculos, entre instalações, fotografias, pinturas, desenhos, gravuras, vídeos, filmes e documentos diversos, é, nas palavras do curador, apresentar e representar múltiplas maneiras de transformar a quietude em movimento, a submissão em revolta, a renúncia em alegria expansiva.






Levantes por Georges Didi-Huberman: acima,
o filósofo e historiador fotografado em Buenos Aires,
em junho de 2017, por Bernardino Avila para o jornal
Página 12. Abaixo, o catálogo da exposição em cartaz
no Sesc Pinheiros, em São Paulo, que reproduz como
imagem de capa uma fotografia de 1969 de 
Gilles Caron sobre uma ação de resistência de
jovens manifestantes contra a discriminação
dos católicos pelo governo protestante na 
Irlanda do Norte. No alto, fotografia de
Lyslei Nascimento no saguão de entrada da
exposição em São Paulo no Sesc Pinheiros












A cada nova cidade que a exposição visita, desde Barcelona e Buenos Aires, a curadoria tem a iniciativa inédita em eventos semelhantes de inserir novas obras diretamente ligadas ao contexto local. No caso brasileiro, Didi-Huberman providenciou como complemento uma série de conteúdos relacionados à escravidão, à negritude e à pobreza – temas representados em obras que ele selecionou de nomes como Sebastião Salgado, Hélio Oiticica e Oswald de Andrade. Não se trata, contudo, de apresentar uma antologia de imagens de protestos populares, conforme esclarece o curador em entrevistas e no catálogo da exposição, editado com o acervo das obras e com ensaios escritos especialmente para o evento por pensadores de destaque, entre eles a norte-americana Judith Butler e os franceses Nicole Brenez e Jacques Rancière.



Uma constelação de imagens



O objetivo de “Levantes”, explicou Didi-Huberman em uma entrevista em junho de 2017 ao jornal “Página 12” da Argentina, é apresentar não uma antologia cronológica de imagens, mas uma constelação em que as imagens se relacionam em cinco blocos ou eixos: “elementos”, “gestos”, “palavras”, “conflitos”, “desejos”. “As imagens reunidas, a princípio”, destaca o curador, “funcionam por meio dos gestos. O fato é que quando se está alienado e se protesta contra essa alienação, o protesto toma uma forma corporal: é o braço que se levanta, o corpo que se movimenta, a boca que se abre, entre palavras e cantos, tudo isso é corporal. O corpo humano é a coisa mais antiga que possuímos, o corpo humano é mais antigo que um fóssil, que uma obra de arte grega; o corpo humano é muito antigo, é nossa antiguidade.”






Levantes por Didi-Huberman: no alto, duas gravuras
de Francisco de Goya datadas do início do século 19,
El cargador e No harás nada con clamor. Acima,
a comemoração dos marinheiros no motim a bordo
do Encouraçado Potemkin, filme de 1925 de
Serguei Eisenstein. Abaixo, crianças brincando em
Barcelona, na época da Guerra Civil Espanhola,
em fotografia de 1936 de
Agustí Centelles











A investigação que a curadoria de Didi-Huberman propõe ao visitante da exposição, ou mesmo ao leitor que observa as imagens do catálogo, segue o percalço dos gestos – dos trabalhadores braçais individualizados em desenhos e aquarelas do espanhol Francisco de Goya (1746-1828) às associações de revolta coletiva em cenas dos filmes do russo Serguei Eisenstein (1898-1948) e daí às representações contemporâneas da contracultura e das contestações mais diversas da atualidade. Em cada gesto, diferentes formas de representações dos levantes de rebeldia, sejam elas de apenas um indivíduo ou de multidões engajadas em transformações sociais, políticas, religiosas, éticas, estéticas. Na maioria das representações, não por acaso, o protesto contra a opressão surge na imagem de um mesmo gesto que se repete aqui e ali com algumas variações: os braços erguidos em direção ao céu.

No catálogo da exposição, Didi-Huberman também ressalta esta coincidência do mesmo gesto. “Levantar-se é resistir, erguer o punho ou o braço é resistir”, destaca. “Antes mesmo de começar e levar adiante uma ação voluntária e compartilhada, o levantar se faz por um simples gesto que, de repente, vem revirar a prostração que até então nos mantinha submissos (por covardia, cinismo ou desespero). Levantar-se é jogar longe o fardo que pesava sobre nossos ombros e entravava o movimento. É quebrar certo presente – mesmo que a marteladas, como queriam Friedrich Nietzsche e Antonin Artaud – e erguer os braços ao futuro que se abre é um sinal de esperança e de resistência. É um gesto e uma emoção (…). No gesto do levante, cada corpo protesta por meio de todos os seus membros, cada boca se abre e exclama o não da recusa e o sim do desejo.”










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Levantes por Didi-Huberman: no alto, 
dois fotogramas de Le Route, filme de 2006
de Chen Chieh-Jen, artista de Taiwan. Acima,
Beaubien Street, fotografia de 1971 do
norte-americano Ken Hamblin. Abaixo,
fotografia de Eduardo Gil, da Argentina,
Niños desaparecidos, secunda marcha de la
Resistencia, Buenos Aires, 9-10 décembre
1982; e uma das fotografias de Bruno Barbey
em destaque, Manifestation, Paris,
France, mai 1968














Gestos contra tempos sombrios



A atualidade dos gestos de resistência e de rebelião contra os tempos sombrios do discurso do ódio e das ações violentas, de grupos da direita e da extrema direita, move a constelação de imagens, textos e objetos selecionados por Didi-Huberman para convidar a uma reflexão sobre as manifestações populares por meio da arte. Porque, afinal, não há levantes e resistência sem arte, sem música, hinos, palavras de ordem, nem sem imagens que ficarão na memória.

O próprio curador alerta, na apresentação à exposição, que um levante pode acabar em lágrimas de decepções, em lágrimas de mães chorando sobre os filhos mortos, mas ele também adverte que essas lágrimas não são de esgotamento: elas ainda podem ser força de ação e paixão, de teimosia e rebeldia –– “como nas marchas de resistência das mães e avós de Buenos Aires (…), seja na floresta do Chiapas, na fronteira greco-macedônica, em qualquer parte da China, no Egito, em Gaza ou na selva das redes da internet, pensadas como uma Vox Populi. Sempre haverá uma criança que pule o muro.”

Movimentos políticos ou objetos de arte? A potência física e visual dos corpos que resistem contra as formas de opressão está sempre na fronteira dos sentidos que podemos encontrar, conforme destacou Didi-Huberman na conferência “Imagens e Sons como Forma de Luta”, que marcou a abertura da exposição “Levantes” em São Paulo. Segundo o curador, “as imagens pertencem a todo mundo. Não há autoctonia, nem propriedade no universo das imagens. Como todos os objetos culturais, as imagens são feitas para migrar, a exemplo do selo que é feito para atravessar uma fronteira. Porém, o legado dos levantes depende de nós, da nossa capacidade de transmitir o sentido dessas imagens.”







Levantes por Didi-Huberman: acima,
fotogramas extraídos de Idomeni, 14 mars
2016, Frontière gréco-macédonienne, filme
de Maria Kourkouta, da Grécia. Abaixo,
fotogramas extraídos de Cruzar un Muro,
filme de 2013 do chileno Enrique Ramirez
que mostra a fotografia e como ela foi produzida;
Parangolé - Encuentros de Pamplona,
fotografias e montagem de 1972 de
Hélio Oiticica e Leandro Katz que
fazem parte do acervo Museo Nacional
Reina Sofia de Madri, Espanha














Na trajetória de Didi-Huberman, que nas últimas duas décadas está presente com seus livros e ensaios como teórico da arte e da cultura em destaque e como referência importante em diversas áreas da pesquisa acadêmica, a exposição “Levantes” marca um novo capítulo no percurso de curadoria que ele iniciou em 2010 com a mostra intitulada “Atlas –– Como levar o mundo às costas?”, inaugurada no Museu Reina Sofía, em Madri. “Atlas”, a exposição, foi motivada pelos estudos de Didi-Huberman sobre o historiador alemão Aby Warburg (1866-1929), conhecido pela criação de pranchas de montagens iconográficas, nomeadas por ele de “Atlas Mnemosyne”, um projeto concebido entre 1924 e 1929 e que ficou inacabado na meta de relacionar uma grande variedade de imagens de épocas e de geografias distintas.



Diálogo entre passado e presente



O observador atento poderá perceber que a figura mitológica do Atlas, o titã gigantesco imaginado na Grécia da Antiguidade que ergue os braços para sustentar o peso do globo terrestre, permanece como referência incontornável para a exposição “Levantes”. As diferenças são sutis: enquanto em “Atlas” o trabalho de curadoria encontrava analogias visuais entre representações diversas, exibindo lado a lado gravuras, vídeos e fotografias aleatórias que estabeleciam um certo diálogo conceitual, em “Levantes” são as constelações de variações sobre gestos de punhos e braços que fazem emergir trajetórias e memórias de manifestações históricas –– todas elas construindo entre si um diálogo intenso entre passado e presente, entre repetição e sobrevivência das formas e dos ideais.






Levantes por Didi-Huberman: acima, Mujer con
la bandera
, fotografia de 1928 da italiana Tina Modotti
no México. Abaixo, Black Panthers in Chicago, Illinois,
fotografia de 1969 do japonês Hiroji Kubota







À imensidão de levantes em épocas e geografias diversas, dos primórdios da Revolução Industrial à comoção das multidões em Havana no auge da Revolução Cubana, das legiões de estivadores chineses de meados do século 20 aos rostos contemporâneos nas fileiras do Occupy Wall Street em Nova York, de momentos dramáticos do movimento feminista a surpreendentes flagrantes anônimos ou desconhecidos sobre a natureza humana de mulheres e homens em seus anseios por melhores condições de vida, Didi-Huberman acrescenta, na montagem da exposição no Brasil, referências à memória da resistência e das insurreições em território nacional. A História sempre pode ser reconstruída através de cacos e de resquícios que foram considerados como detritos pela história oficial –– como professa o pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940), um dos mestres na linhagem a que se filia o trabalho e as ideias de Didi-Huberman.



Testemunho, paradoxo, esperança



Assim é que o público pode encontrar na montagem brasileira de “Levantes” as fotografias de Sebastião Salgado que registram ações do MST (Movimento dos Sem Terra), o cartaz “Seja marginal, seja herói” e os flagrantes libertários dos Parangolés de Hélio Oiticica (a partir de fotogramas que Eduardo Viveiros de Castro extraiu do filme “H.O.” de Ivan Cardoso), a poesia dos manifestos Pau-Brasil e Antropofágico de Oswald de Andrade, fragmentos de “Os Sertões” de Euclides da Cunha, fiéis na procissão de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas, Minas Gerais, em fotografias da década de 1950 de Marcel Gautherot, e a percepção do racismo em imagens da série “Dito Escuro”, que Rafael RG registrou em 2014. Entre tantas imagens de impacto, que provocam memórias e reflexões e paixões, Didi-Huberman repete a presença de quatro fotografias em pequeno formato que fazem parte de momentos anteriores de sua reflexão filosófica em livros, ensaios e conferências.





Levantes por Didi-Huberman: acima, procissão
do Bom Jesus do Matosinhos em Congonhas
,
Minas Gerais, em fotografia da década de 1950
de Marcel Gautherot. Abaixo, Os ícones da
vitória
, fotografia de 1997 de Sebastião Salgado
que registra o Movimento dos Sem Terra.
No final da página, as quatro fotografias
tiradas clandestinamente por membros dos
Sonderkommandos, em agosto de 1944, no
campo de extermínio em Auschwitz-Birkenau






As quatro fotografias, à primeira vista enigmáticas e quase indecifráveis, permanecem como os únicos registros visuais que sobreviveram ao tempo dos campos de extermínio do Holocausto na Segunda Guerra, em Auschwitz-Birkenau. São imagens que só recentemente se tornaram conhecidas, depois de décadas, e como confessa o curador estão na gênese do que resultou no projeto “Levantes”.

Alguns pedaços de película de filme, alguns gestos políticos: as quatro fotografias foram feitas em agosto de 1944, clandestinamente, por um integrante dos Sonderkommandos, os pequenos grupos de judeus que tiveram a terrível tarefa de colocar na câmara de gás seus semelhantes, depois enterrá-los, sendo que eles próprios também eram executados em seguida. As fotografias ficaram escondidas em um tubo de pasta de dente com uma breve carta explicativa. Perturbadoras, mostram à distância fileiras de mulheres e, lado a lado, cadáveres queimados. Imagens que revelam. Testemunhos, extremos, que resistiram à violência, ao tempo, e chegaram ao futuro. E que também são, na escuridão, por paradoxo, esperança.



por José Antônio Orlando


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Levantes por Didi-Huberman. In: ______. Blog Semióticas, 11 de novembro de 2017. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2017/11/levantes-por-didi-huberman.html (acessado em .../.../...).



Para comprar o catálogo da exposição "Levantes",  clique aqui.






Para assistir a conferência Imagens e Sons como Formas de Luta, de Georges Didi-Huberman,  clique aqui.


Para ler a entrevista de Didi-Huberman ao jornal da Argentina Página 12 sobre a exposição Levantes,  clique aqui.


Para ler a entrevista de Didi-Huberman à revista francesa L'Humanité sobre a abertura da exposição Soulèvements na França,  clique aqui.








6 de maio de 2015

Revoluções de Orson Welles






Grandioso, grandiloquente, monumental, imponente, radical, majestoso, soberbo – são alguns dos adjetivos e superlativos que sempre vêm associados ao nome de Orson Welles, o gênio incontestado do cinema que hoje completa seu centenário de nascimento. George Orson Welles, nascido em 6 de maio de 1915 no Wisconsin, EUA, órfão de pai e mãe antes da adolescência, se tornaria uma celebridade que revolucionou o teatro, o rádio, o cinema – quando ainda era um jovem de pouco mais de 20 anos de idade.

Polêmico, controverso, inconformista, ele mantém a condição de unanimidade para a maioria dos críticos e historiadores como o maior diretor de cinema de todos os tempos, depois de 30 anos de sua morte, em Hollywood, em 10 de outubro de 1985. O centenário de Orson Welles recebe homenagens em vários países, inclusive no Brasil, com exibições de algumas de suas obras-primas como cineasta, ator, roteirista, entre elas “Citizen Kane” (“Cidadão Kane”, 1941).

Filme de estreia de Welles, depois das revoluções que antes provocou nos palcos de teatro e no rádio – quando espalhou o pânico nos EUA com sua célebre adaptação em um programa radiofônico em cadeia nacional, ao vivo, de “A Guerra dos Mundos”, clássico da literatura de ficção científica de H. G. Wells – “Cidadão Kane”, ainda hoje um marco capital da história do cinema, permanece como presença obrigatória e liderança absoluta nas listas de “melhores filmes de todos os tempos”, tanto pela abordagem crítica e feroz que apresenta sobre os meios de comunicação de massa, quanto pelas inovações técnicas e narrativas que estabelece na linguagem cinematográfica.









Revoluções de Orson Welles: no alto
e acima, o artista no estúdio, durante
a transmissão pelo rádio, na noite do
dia 30 de outubro de 1938, véspera
do Dia das Bruxas, de sua versão em
tom de flagrante jornalístico para o
clássico da literatura de ficção científica
A Guerra dos Mundos, de H. G.
Wells (1866-1946). O programa ficou
famoso no mundo inteiro porque
provocou pânico nos ouvintes dos
EUA, que imaginaram estar enfrentando
realmente uma invasão real e violenta
de seres extraterrestres


Entre as grandes homenagens a Orson Welles para celebrar seu legado, à altura de sua importância, as principais estão agendadas para o Festival de Cinema de Cannes, de 13 a 24 de maio. O tributo a Welles programado para Cannes inclui cerimônias com as presenças confirmadas de sua filha, Beatrice Welles, e de Oja Kodar, sua companheira nos últimos anos de vida, e as primeiras exibições de três filmes restaurados em alta resolução (4K): “Cidadão Kane” e “A Dama de Xangai” (1948), dirigidos por ele; e “O Terceiro Homem” (1949), de Carol Reed, que tem o ator Orson Welles como protagonista.



Autópsia de uma Lenda



Cannes também terá exibições de dois documentários inéditos sobre o cineasta, ambos com cenas e depoimentos de Welles já anunciados como polêmicos e nunca antes exibidos: “Orson Welles, Autópsia de uma Lenda” e “Este é Orson Welles” – o primeiro com direção de Elisabeth Kapnist, produzido pela Phares et Balises e pela Arte France; o segundo com roteiro e co-direção de Clara e Julia Kuperberg, produzido pela TCM Cinéma e pela Wichita Films.






Orson Welles durante as filmagens e
em cena de Cidadão Kane (1941),
sua estreia no cinema, considerado
pela crítica como um dos melhores
filmes de todos os tempos e o mais
importante dirigido por Welles,
devido à temática de crítica à
manipulação do público pelos
meios de comunicação e pelas
inovações técnicas e narrativas que
incluem o uso dramático de ângulos
de câmera e a montagem que não
segue o tempo linear. Abaixo, Welles
chegando para a sessão de estreia
de Cidadão Kane, em Nova York,
fotografado por W. Eugene Smith;
e com Carol Reed nas filmagens de
O Terceiro Homem, filme dirigido
por Reed em 1949 com Welles
no papel de protagonista









A agenda do Festival de Cannes em tributo ao criador de “Cidadão Kane”, contudo, também traz uma frustração para a legião de admiradores e estudiosos das obras-primas de Orson Welles: não está programada, ao contrário das expectativas mais otimistas, a primeira exibição de “The Other Side of the Wind”, o filme épico que consumiu a última década de vida do cineasta e que não chegou a ser concluído. É provavelmente o filme mais famoso nunca lançado – na verdade, mais um de seus vários e grandiosos projetos incompletos, entre os quais também estão suas filmagens no Brasil para o explosivo documentário “It's All True” (É Tudo Verdade), jamais concluído por Welles.

A batalha interminável pela conclusão e lançamento de “The Other Side of the Wind”, que está completando 40 anos, tem sido anunciada e sucessivamente interrompida por motivos diversos, em grande parte por questões legais que envolvem os direitos da obra e os herdeiros do cineasta, entre eles as filhas Beatrice, Chris e Rebecca Welles, além dos netos e bisnetos. Welles foi casado oficialmente três vezes: com as atrizes Virginia Nicholson (1934–1940), mãe de Chris; com Rita Hayworth (1943–1948), mãe de Rebecca; e com Paola Mori (1955–1985), mãe de Beatrice.






Orson Welles e suas quatro esposas:
acima, com Virginia Nicholson,
em 1938, e com Rita Hayworth,
em 1941. Abaixo, com Paola Mori,
em 1955; e com a companheira dos
últimos anos de vida, Oja Kodar,
em 1975, durante as filmagens de
The Other Side of the Wind









Fronteiras entre realidade e ficção



Além dos casamentos oficiais, há os vários relacionamentos extra-conjugais do cineasta – o último e mais duradouro com Oja Kodar, sua companhia mais frequente nas duas últimas décadas de vida, enquanto ele ainda estava casado com Paola Mori. Atriz, modelo fotográfico, fotógrafa, escritora e roteirista nascida na Croácia, Oja Kodar aparece na filmografia de Welles como co-argumentista e co-roteirista de “F for Fake” e de “The Other Side of the Wind”, do qual detém ainda hoje todo o material originalmente filmado por Welles e para o qual já anunciou uma parceria firmada com a plataforma Netflix para pós-produção e exibição do filme.

O projeto grandioso de “The Other Side of the Wind” contou com um elenco que incluía dezenas de nomes conhecidos do cinema, entre eles os também cineastas John Huston, Peter Bogdanovich, Dennis Hopper, Claude Chabrol e Mercedes McCambridge. Ao que se sabe, o filme traz uma história que dilui as fronteiras entre realidade e ficção, ao estilo de “Cidadão Kane” e "F for Fake", para acompanhar a festa de 75 anos de Jake Hannaford, alter-ego de Welles. No filme, o cineasta ficcional é interpretado por John Huston, que foi um dos grandes amigos na trajetória pessoal e profissional de Orson Welles.










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Orson Welles em cena: no alto,
com Rita Hayworth, em 1947, em
A Dama de Xangai. Acima, com
Jeanne Moreau, em 1967, em duas
cenas de The Deep, baseado no romance
Dead Calm”, de Charles F. Williams,
um dos vários projetos grandiosos e
inacabados do cineasta. Abaixo,
uma prosa animada entre dois gênios:
 Orson Welles e Charles Chaplin
em um bar de Los Angeles, em 1947 









Desde a estreia nos palcos, aos 17 anos, como ator e diretor de teatro, ou no grande escândalo provocado com sua versão radiofônica de “A Guerra dos Mundos”, e daí às turbulentas produções dos 13 filmes de longa-metragem que concluiu, de “Cidadão Kane” a “F for Fake”, uma grande questão perpassa todos os projetos de Orson Welles, incluindo os argumentos da maioria dos mais de 100 filmes em que participou como ator ou narrador: a denúncia contra o fascismo explícito ou dissimulado na manipulação da opinião pública através dos aparatos da mídia.

Esta grande questão, considerada uma afronta pelos grandes executivos de Hollywood desde “Cidadão Kane”, está na origem das maiores dificuldades que Welles enfrentou em seus projetos mais ambiciosos – mas também fez dele um mestre e uma referência exemplar diante de sucessivas gerações de cineastas e pensadores do cinema, dos pioneiros do Neo-Realismo italiano no pós-guerra aos lendários críticos da revista "Cahiers du Cinéma" e aos diretores da Nouvelle Vague francesa. Não por acaso, coube ao teórico do cinema, André Bazin, um dos fundadores da "Cahiers du Cinéma", o título como um dos principais biógrafos de Orson Welles.








Orson Welles em terras brasileiras em 1942:
no alto, com Vinicius de Moraes no
Cassino da Urca. Acima, com Dorival Caymmi,
contratado para compor as canções da trilha
sonora para o filme It's All True. Abaixo,
Welles na praia de Copacabana, Rio de Janeiro,
durante o Carnaval de 1942, e em uma
entrevista coletiva no Copacabana Palace,
também no Rio de Janeiro, fotografado para
a revista O Cruzeiro; e os flagrantes de
Welles com a equipe de It's All True
durante as filmagens em Fortaleza,
registrados em fotografias de
Chico Albuquerque (1917-2000)











Orson Welles no Brasil



O reconhecimento a Welles como cineasta mais importante de todos os tempos também vem dos nomes mais importantes do cinema do “Terceiro Mundo” – entre eles os brasileiros Paulo Emílio Salles Gomes, Vinicius de Moraes (que durante anos foi crítico de cinema e conviveu com Welles desde 1940, quando Vinicius atuou como Adido Diplomático em Los Angeles), bem como para Glauber Rocha, para Rogério Sganzerla e para os demais protagonistas do Cinema Novo no Brasil.

Vinicius de Moraes dedicou ao cinema de Orson Welles textos que são elogios incondicionais, publicados nas décadas de 1940 e 1950 nos jornais “Última Hora” e “A Manhã” e nas revistas “Diretrizes” e “Sombra”. O mesmo se dá com o principal pensador do cinema no Brasil, Paulo Emílio Sales Gomes, que dedica à importância de Orson Welles um autêntico dossiê em dezenas de crônicas publicadas nas décadas de 1950 e 1960, no jornal “Estado de São Paulo”, e posteriormente reunidas nos dois volumes de “Crítica de Cinema no Suplemento Literário” (Editora Paz e Terra, 1982).











Entre os cineastas do Brasil, o prestígio de Orson Welles também foi destacado em longos e poéticos ensaios de Glauber Rocha, que antes de cineasta foi crítico de cinema do “Diário de Notícias” e do “Jornal do Brasil”. Welles e “Cidadão Kane”, segundo Glauber, também foram a referência confessa para “Terra em Transe” (1967), uma das principais obras-primas do cinema brasileiro. “Se Eisenstein foi o maior intérprete da revolução soviética”, escreve Glauber no livro “O Século do Cinema” (Cosac Naify, 2006), “Orson Welles é o maior intérprete da tragédia imperialista”.

Além de Glauber, há ainda Rogério Sganzerla, que dedicou ao cinema de Orson Welles, e à sua tumultuada passagem pelo Brasil, quatro filmes: “Nem Tudo é Verdade” (1986), “A Linguagem de Orson Welles” (1991), “Tudo é Brasil” (1998) e “O Signo do Caos” (2003). A influência de Welles sobre a obra de Sganzerla impressiona pelas questões de forma e conteúdo – presentes já em seu filme de estreia, “O Bandido da Luz Vermelha” (1969), que faz uma paráfrase permanente ao tom épico de “Cidadão Kane” e é apresentado como narração radiofônica – não por acaso remetendo ao tom alarmante de Welles em sua versão para o rádio de “A Guerra dos Mundos”.















Papéis verdadeiros



Para Orson Welles, segundo informa o ensaio biográfico escrito em 1950 por André Bazin (publicado no Brasil com o título “Orson Welles" pela Editora Jorge Zahar, em 2005), as filmagens no Brasil representavam uma parte importante da visão progressista do cineasta sobre a cultura afrodescendente – que teve início com o trabalho de Welles nos palcos da Broadway, em 1936, especialmente na montagem de “Macbeth”, de Shakeaspeare, transferindo a ação da Escócia para o Haiti, com as bruxas transformadas em feiticeiros do Vodu e um elenco formado somente por atores negros, com a presença de músicos haitianos no palco.

Nosso objetivo não era extravagante”, descreve Welles a Bazin. “Queríamos dar a artistas negros a oportunidade de interpretar papéis que fossem papéis verdadeiros, em vez de confiná-los nos eternos personagens de babás de touca ou tios Tom”. A abordagem da cultura afrodescendente por Orson Welles, destaca Bazin, seria também o centro de outras duas de suas obras monumentais, mas infelizmente inacabadas: a adaptação do romance “Coração das trevas”, de Joseph Conrad, cujo argumento seria depois transformado no “Apocalipse Now” (1979) de Francis Ford Coppola, e o documentário “It’s All True”, filmado no Brasil, em 1942, mas que teve a produção bruscamente interrompida naquele ano pelos executivos dos estúdios RKO. 









No alto, Orson Welles com
Oja Kodar durante as filmagens
do inacabado The Other Side
of the Wind, seu último projeto,
com participação de seus amigos,
os cineastas John Huston e
Peter Bogdanovich (acima).
Abaixo, Welles, Oja Kodar e
Gary Graves, também nas
filmagens de The Other Side of
the Wind, no encontro registrado
por outro grande amigo de Welles,
o fotógrafo Frank Marshall  




 
Orson Welles tinha 27 anos e um contrato ambicioso com os Estúdios RKO quando veio para o Brasil em fevereiro de 1942 com a missão de realizar um filme musical sobre o samba, o carnaval e outros elementos da cultura brasileira. A missão foi organizada por Nelson Rockefeller, na época coordenador de Assuntos Interamericanos do governo dos EUA e maior acionista dos Estúdios RKO, para apoiar os esforços de guerra e de aproximação com o Brasil, que ficariam conhecidos como Política da Boa Vizinhança. Welles vinha do sucesso no teatro, da prodigiosa carreira no rádio e da explosão criativa e impactante que foi seu projeto de estreia no cinema, com “Cidadão Kane”. Em troca, como parte dos acordos entre os dois países, a maior estrela do rádio, do teatro e do cinema do Brasil, Carmen Miranda, havia sido enviada aos EUA para atuar na Broadway e em Hollywood.

O desfecho é conhecido: Welles ficou encantado pelo Brasil e pela cultura brasileira, gastou muito mais dinheiro que o previsto, esgotou todos os cronogramas e mudou completamente o projeto inicial, por conta própria. Ao invés de filmar um documentário espetacular sobre o samba e o carnaval carioca, decidiu acompanhar e reconstituir a viagem de 61 dias de quatro jangadeiros que foram de Fortaleza ao Rio de Janeiro para chamar a atenção do então presidente Getúlio Vargas para os problemas trabalhistas dos pescadores.







Orson Welles na Europa: no alto,
em visita a Paris, em 1952, para o
lançamento de seu filme Othelo
fotografado por Fred Brommet.
Acima, com o escritor e cineasta
Pier Paolo Pasolini, em 1962, na
Itália, durante as filmagens de
A Ricota, filme com roteiro e
direção de Pasolini e participação
de Welles como ator. Abaixo,
Welles em Paris, em 1962, com
o ator Anthony Perkins, nas
filmagens de O Processo,
adaptação de Welles para
o conto de Franz Kafka



 


Grandioso, porém inacabado



Mas algo desastroso ocorreu durante a produção de "It's All True" e deflagrou a tragédia. No período das filmagens da reconstituição da travessia pelo mar de Fortaleza para o Rio de Janeiro, numa tarde chuvosa, um dos jangadeiros conhecido como Jacaré recusou-se a sair ao mar para gravar por questões de segurança. Orson Welles insistiu e ofereceu um cachê maior ao jangadeiro, que no final acabou aceitando. Durante a viagem, a jangada virou, jogando os jangadeiros ao mar e Jacaré desapareceu. Seu corpo foi encontrado dias depois, quase irreconhecível, devorado por tubarões.

Abalado pelas dificuldades e ameaçado pelos estúdios, Welles ainda filmou várias sequências com pescadores e cenas poéticas com os belos cenários de cartões postais do Nordeste do Brasil, filmou em Ouro Preto e em outras cidades com igrejas e casario da época do Barroco em Minas Gerais, visitou os morros cariocas e participou de reuniões com as principais lideranças políticas de esquerda, antes de voltar para os EUA, onde seguiria sua carreira cada vez mais polêmica, radical e conturbada. As centenas de rolos filmados no Brasil terminaram extraviadas e nunca seriam editadas por ele.





Orson Welles em cena: acima,
durante as filmagens de Chimes at
Midnight, em 1964, fotografado
por Nicolas Tikhomiroff. Abaixo,
Welles filmando The Black Rose 
no Marrocos, em 1948,
fotografado por Robert Capa





Tal como uma ficção que tivesse sido imaginada pelo gênio de Orson Welles, “It's All True” foi dado como definitivamente perdido durante décadas, até que os rolos de filme foram encontrados em um antigo depósito de Hollywood em 1990. O material então foi editado e transformado em um filme lançado em 1993 que é pura metalinguagem: um documentário sobre o documentário apaixonado que Welles filmou no Brasil e não conseguiu finalizar. “It's All True” e suas imagens tão belas quanto melancólicas, editadas à revelia do cineasta, vem completar a lista de seus projetos grandiosos e inacabados, junto a suas adaptações épicas para “Moby Dick”, “O Coração das Trevas”, “Don Quixote” e  também “The Other Side of the Wind”, entre outras.



Um aventureiro legítimo



Sobre a temporada de Orson Welles no Brasil e sobre a importância das revoluções provocadas pelo cinema que ele produziu, vale lembrar as palavras de Vinicius de Moraes em uma crônica publicada ainda na década de 1940 no jornal “A Manhã” e incluída em "O Cinema de Meus Olhos", coletânea publicada em livro em 1992 pela Companhia das Letras com os textos que Vinicius dedicou ao cinema: “É preciso confiar em Orson Welles. Tudo o que há de perigoso nesse homem, na sua arte, na sua violência, na sua crítica, no seu desmando, é necessário à cultura de um novo cinema que nasce (…). Welles aí está, impuro, manchado de astúcia, de fraude muitas vezes, um aventureiro legítimo”.





O último filme lançado por Orson Welles:
F for Fake (no Brasil, “Verdades e 
Mentiras"), mistura de autobiografia com
documentário e ficção que aborda as
verdades e falsificações da arte – uma
brincadeira de gênio, com Welles
como apresentador e protagonista
e com participação de Oja Kodar e
Joseph Cotten, ator de Cidadão Kane
e da maioria dos filmes que Welles
realizou. Abaixo, Welles filma Oja Kodar,
sua companheira nas duas últimas
décadas de vida, e o cartaz original
para o lançamento de It's All True






O jovem Vinicius de Moraes havia percebido que Orson Welles trazia outra coisa além do cinema tradicional, algo novo, talvez a Grande Arte – mesmo constatando que em sua época, em tempos de guerra, ninguém andava mais em busca de arte, nem de crítica. “De arte está o mundo cheio, dessa arte artística de contornos exatos e estética determinada, que se faz sem sofrimento. Orson Welles traz-nos uma natureza persuasiva, que não se vexa da própria sordidez e sabe-se com prazer no espetáculo da grandeza e da miséria da vida” – completa. Para o jovem Vinicius, como para o genial Orson Welles, arte é, inevitavelmente, a imitação da vida. Ou seria o contrário?


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Revoluções de Orson Welles. In: ______. Blog Semióticas, 6 de junho de 2015. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2015/05/revolucoes-de-orson-welles.html (acessado em .../.../...).




No alto, Orson Welles em sua última imagem,
fotografado por Michael O'Neill em maio de 1985.
Acima, o cineasta no papel dele mesmo
em cena de F for Fake



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