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11 de julho de 2012

Gênesis por Sebastião Salgado







Fotografia é uma coisa tangível.
Você captura, você olha para ela.
É algo semelhante à memória.


Sebastião Salgado   








Tive a sorte de entrevistar Sebastião Salgado para um jornal de Belo Horizonte quando uma exposição com as primeiras imagens que ele havia produzido para o projeto Gênesis iria ser aberta no Museu de Artes e Ofícios. Era outubro de 2006 e comemorei a oportunidade de falar com o fotógrafo que sempre admirei. Os primeiros contatos com as assessorias, entretanto, não foram nada animadores: informaram que ele estava de passagem pelo Brasil, mas que não estava disponível para entrevistas, que estava com a agenda completa e que não viria a BH para a abertura da exposição.

Depois de várias tentativas sem resultado, tentei um caminho dos mais prosaicos. Naquela época eu também trabalhava como professor em uma faculdade na cidade de Congonhas e tinha uma aluna que dizia ser afilhada de batismo de Lélia Wanick Salgado, esposa do fotógrafo. Comentei com a aluna sobre a dificuldade para conseguir a entrevista e dias depois ela me passou um telefone de contato em São Paulo. Liguei e falei com uma secretária sobre o pedido de entrevista, expliquei que poderia ser por e-mail.

Para minha surpresa, a secretária pediu que eu aguardasse na linha e em poucos minutos o próprio Sebastião Salgado estava ao telefone. Ele atendeu e foi muito gentil, mas com uma ressalva: a entrevista teria que ser breve, brevíssima, porque ele estava esperando o carro que o levaria ao aeroporto. Conversamos durante mais ou menos 15 minutos. Confira um trecho da entrevista:







Pergunta – Como foi que Sebastião Salgado descobriu a fotografia?

Sebastião Salgado –
Foi completamente por acaso. Na época, no final da década de 1960, eu e minha esposa, que é arquiteta, vivíamos em Paris e estávamos impedidos de retornar ao Brasil por muitos anos por razões políticas, porque participávamos dos movimentos de esquerda contra a ditadura militar. Minha esposa comprou uma câmera Leica para tirar fotos de edifícios e, como eu sempre acompanhava o trabalho dela, comecei a olhar através da lente. Foi aí que a fotografia começou a invadir minha vida. Quando terminei meu doutorado em Economia, abandonei tudo para dedicar mais tempo a meus filhos, Juliano, que nasceu em 1974, e Rodrigo, que nasceu em 1979 e tem Síndrome de Down. Desde então comecei uma nova vida como fotógrafo, primeiro na Organização Internacional do Café, em Londres, entre 1971 e 1973, e depois nas agências internacionais Sygma, Gamma e Magnum. Mais tarde, em 1994, criei minha própria estrutura como agência, a Amazon Images. Isso ainda é minha vida até hoje.

Nossa época testemunha a passagem do equipamento analógico para as mídias digitais. As novas tecnologias da imagem, na sua avaliação, trouxeram mais qualidade para a fotografia?
 

Eu fotografei com rolos de filme por muitos anos, mas agora que estou começando a trabalhar com equipamento digital, percebo que a diferença é enorme. A qualidade é inacreditável: eu não uso flash e com o equipamento digital posso até mesmo trabalhar em condições de luz muito ruins. Além disso, é um alívio não perder mais as fotografias para máquinas de Raio-X nos aeroportos.



 


Imagens de Sebastião Salgado para
o projeto Gênesis: no alto, pescaria da
tribo Waurá na laguna chamada Piulaga,
na Amazônia. Acima, ritual dos Waurá
durante o Kuarup. Abaixo, uma índia
da tribo dos Waurá amamenta a filha







Qual dos mestres da fotografia mais influencia seu trabalho?

Todos eles (risos). Mas quando eu estava começando, tive a incrível sorte de conhecer Henri Cartier-Bresson em Paris. Lembro até hoje das palavras dele, quando o encontrei, já muito velhinho, dizendo que era preciso confiar nos meus instintos mais sutis para fazer um trabalho que tivesse algum valor além do registro banal. Acho que foi a principal lição que já ouvi em toda a minha vida.

Tem algum projeto agendado para depois da série Gênesis?

Nos próximos anos, pretendo me dedicar a este projeto para que ele esteja completo e tenha um certo alcance. O que está agora em exposição é apenas uma pequena parte dele, uma prévia, com as fotografias que eu tinha feito em Galápagos, no Virunga, que é um parque nacional entre o Congo, Uganda e Ruanda, e a Península Valdes, na Argentina. O Gênesis surgiu há dois anos e tem como objetivo despertar a atenção das pessoas para conceitos de biodiversidade, de sociodiversidade e do papel que todos nós devemos ter na conservação ambiental. Metade do planeta Terra ainda está intacta e pretendo me dedicar através da fotografia para mostrar a parte que a ação do homem ainda não destruiu. Acredito que podemos compreender o que ainda é possível preservar.

O que Sebastião Salgado ainda não fez, mas pretende fazer? 
 
Pretendo continuar o trabalho que venho desenvolvendo. Devemos estar todos cientes de que o planeta está passando por uma situação limite, uma situação muito grave que ninguém pode ignorar. O homem já destruiu mais da metade do nosso planeta e não pode seguir nesta depredação brutal. Se eu puder contribuir com uma pequena parte para a preservação, se eu puder tocar o coração das pessoas, meu objetivo terá sido alcançado. Talvez este seja meu último longo projeto, mas não tenho do que reclamar. Muito pelo contrário. Tenho vivido uma vida extremamente privilegiada. Visitei mais de 120 países, vi muitas pessoas diferentes, vi coisas maravilhosas e coisas terríveis.









Gênesis por Sebastião Salgado:
no alto, o fotógrafo em ação na
África, fotografado por seu filho,
Juliano Salgado. Acima, campo
de gado da tribo Dinka, no sul do
Sudão; e guerreiro Dinka com a
pele coberta de cinzas para proteção
contra os insetos e parasitas. Abaixo,
mulher da tribo Himba, na Namíbia,
África; e Salgado fotografado por sua
esposa, Lélia Wanick, em 2005,
também na Namíbia, durante as
expedições do projeto Gênesis




.




 


Próxima exposição


Hoje, seis anos depois daquela entrevista por telefone, encontro uma notícia publicada no jornal inglês “The Guardian” sobre a próxima exposição de Sebastião Salgado. Será uma seleção de imagens inéditas registradas desde o início do projeto Gênesis, em 2004, no qual o fotógrafo desvia seu olhar da temática que o consagrou – a condição humana em meio às desigualdades sociais – para apresentar lugares e comunidades que ainda não foram tocadas pela mão do homem ocidental. A exposição está agendada para o início de 2013 no Museu de História Natural de Londres.

Segundo a reportagem do “The Guardian”, além da abertura da exposição em Londres, também está previsto para 2013 o lançamento do catálogo da Taschen sobre o trabalho de Sebastião Salgado, com os registros fotográficos do projeto Gênesis, e ainda o começo da produção do documentário “O Sal da Terra" (The Salt of Earth), filme dirigido pelo alemão Wim Wenders, que contará com a colaboração de Juliano Salgado, filho do fotógrafo. O documentário de Wenders sobre Salgado deve chegar aos cinemas em 2014.






Gênesis por Sebastião Salgado:
no alto, imagens do Alto Xingu, na
Amazônia, com chefe guerreiro da
tribo Kuikuro; e a família do xamã
Takara Kamayura. Abaixo, menina
no ritual da oca: depois de um ano
em reclusão, por causa da primeira
menstruação, ela se prepara para
entrar no mundo e casar; e Sebastião
Salgado na abertura da exposição
do projeto Gênesis em Londres,
em frente à fotografia dos xamãs
do Alto Xingu, fotografado
por Don Wong








Dividido em quatro blocos, intitulados “Criação”, “Arca de Noé”, “Homem Antigo” e “Sociedade Antiga", o projeto Gênesis, que tem financiamento da Unesco, apresenta para o mundo as paisagens naturais mais preservadas e distantes da interferência humana. O objetivo, anunciado por Sebastião Salgado já naquela entrevista em 2006, é registrar os últimos cenários intocados do planeta Terra e o modo de vida de tribos e comunidades que preservam suas tradições ancestrais.

Desde 2004, Sebastião Salgado já percorreu lugares ermos em territórios dos cinco continentes, com especial interesse em regiões como Sudão, Namíbia, Patagônia, Antártica, Indonésia, Cazaquistão e Brasil, onde o fotógrafo passou uma temporada no Pará acompanhando a vida cotidiana da tribo Zo'e. No site do “The Guardian” estão disponíveis imagens do projeto Gênesis e um vídeo que mostra o trabalho do fotógrafo durante a temporada com os índios no Pará. Além do “The Guardian”, imagens do projeto Gênesis também foram publicadas desde 2004 na França (“Paris Match”), Estados Unidos (“Rolling Stone”), Espanha (“La Vanguardia”), Portugal (“Visão”), Itália (“La Repubblica”) e por várias agências internacionais de notícias. 








Projeto Gênesis: a partir do alto, nativo
caçando pássaros no Deserto de Kalahari,
no sul da África; moradores do Vale de
Lalibela, na Etiópia, África; e uma grande
manada de búfalos selvagens no Kafue,
território de Zâmbia, também na África.
Abaixo, o cartaz original da exposição






 

Apontado como um dos mais premiados e respeitados fotojornalistas da atualidade, Sebastião Ribeiro Salgado Júnior é mineiro da cidade de Aimorés, nascido no dia 8 de fevereiro de 1944. Formado em Economia, trabalhava na Organização Internacional do Café até 1973, quando decidiu se dedicar integralmente à fotografia. Depois da publicação de seus primeiros trabalhos, foi contratado pelas agências de fotografia Sygma e Gamma. Em 1979, entrou para a Agência Magnum e dois anos depois foi pautado para uma série de fotos nos EUA sobre os primeiros 100 dias do governo de Ronald Reagan.

Até que aconteceu o imponderável da sorte: acompanhando a comitiva do presidente em Washington, na tarde do dia 30 de março de 1981, Salgado foi o único fotógrafo a registrar o atentado a tiros sofrido por Reagan. A venda daquelas fotos para jornais e revistas do mundo inteiro permitiu ao fotógrafo financiar seus primeiros projetos pessoais de viagens pelos locais mais remotos do planeta. Em 1994, abriu sua própria agência, a Amazonas Images. 








Sebastião Salgado presenteia o
presidente Lula com o catálogo
Trabalhadores, em outubro de 2006.
No alto, as fotos de Salgado na cena
do atentado contra o então presidente
dos EUA, Ronald Reagan, publicadas
no Brasil pela extinta revista Manchete 
em 1981. Abaixo, Salgado e a esposa
Lélia Wanick em autorretrado em
Paris na década de 1970








Desde então, Sebastião Salgado tornou-se embaixador do UNICEF, criou em sua terra natal (a fazenda Bulcão, em Aimorés) uma reserva ambiental como sede do Instituto Terra, gerenciado por ele e por sua esposa, e publicou vários livros com seleções de suas fotografias, sempre com imagens em preto e branco que denunciam a violação dos direitos humanos em meio a situações de guerra, de pobreza e de outras injustiças. Entre seus livros de fotografias, sempre lançados em parcerias com instituições humanitárias e com exposições internacionais itinerantes, estão “Trabalhadores” (1996), “Terra” (1997), “Serra Pelada” (1999), “Êxodos” (2000), "O Fim da Pólio" (2003) e “África” (2007). Na introdução de “Êxodos”, Sebastião Salgado escreveu:

"Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes no mundo inteiro. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas. Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma.”


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Gênesis por Sebastião Salgado. In: ______. Blog Semióticas, 11 de julho de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/07/genesis-por-sebastiao-salgado.html (acessado em .../.../...).



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Gênesis: a partir do alto, nativo da tribo
Yali em caçada nas montanhas Jayawijaya
de Irian Jaya, na Papua Ocidental, Indonésia;
o refúgio da vida selvagem no extremo norte
do Alaska; pinguins Chinstrap que vivem
sobre icebergs nas Ilhas Sandwich do Sul,
Antártica; uma menina no ritual do peixe
sagrado, no Alto Xingu, Amazônia; e o
detalhe da pata de um lagarto nas
Ilhas Galápagos, Equador



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