Mostrando postagens com marcador artes plásticas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artes plásticas. Mostrar todas as postagens

13 de agosto de 2019

Vik Muniz na Arte Sacra









A história da arte é a história da luta das imagens. 

–– Carl Einstein.   








São fotografias. Mas um olhar atento descobre logo, nos detalhes, materiais surpreendentes que compõem em pequenas partes cada uma das imagens. Tinta, açúcar, molho de tomate, chocolate, geleia, algodão, botões, fragmentos de plástico, pedras, madeira, folhas e caules de plantas, terra, metal, tiras e remendos de anúncios de publicidade, pedaços de folhetos coloridos, de revistas, de jornais, de fitas, de embalagens para presentes e de outros recortes de papel formam as novas obras que Vik Muniz montou para criar ilusões de ótica e depois fotografou. Batizada de “Imaginária”, a série, que reúne imponentes fotografias, 15 no total, ampliadas com dois metros de altura e emolduradas, como os modelos solenes das pinturas originais de santos católicos a que fazem referência, está em destaque no festival de fotografia Rencontres d’Arles (veja o link no final deste artigo), realizado a cada ano entre julho e setembro na cidade de Arles, às margens do mar Mediterrâneo, no sul da França.

Criado em 1970, o festival se mantém como um dos grandes eventos internacionais de fotografia e reúne dezenas de mostras que vão dos acervos históricos até as novas tendências, os experimentos recentes em novas tecnologias de câmeras e painéis de atualidades sobre fotojornalismo. As imagens de Vik Muniz frequentaram o festival nas últimas duas décadas como amostragens temáticas e em séries inéditas – como esta “Imaginária”, que pela primeira vez é exibida na Europa. Em entrevistas e no dossiê de imprensa distribuídos pela organização do festival, ele explica que a intenção foi homenagear grandes artistas que criaram imagens que há séculos fazem parte do imaginário coletivo, mas artigos na imprensa internacional destacam que a nova série, colorida e fulgurante, não esconde um melancólico tom de “réquiem”, de celebração fúnebre, em relação direta com a violência e as ações de destruição em vários níveis provocadas pelo governo de extrema-direita e de orientação fascista que em 2019 tomou o poder no Brasil.






Vik Muniz na Arte Sacra: no alto, retrato do artista por
Carolyn Cole. Acima e abaixo, as releituras para imagens
sagradas dos santos católicos segundo Vik Muniz: acima,
Santo Agostinho (após Philippe de Champaigne); abaixo,
Crucificação (após Thomas Eakins) e Imaculada Conceição
(após Giovanni Battista Tiepolo). Todas as imagens fazem
parte do dossiê de imprensa do festival Rencontres d’Arles









O simulacro da cópia e o peso da tradição



Diante das novas experiências de Vik Muniz com sua “Imaginária”, também são inevitáveis as referências sobre questões como o valor de culto e o valor de exposição, as interfaces entre o original e suas cópias, assim como as aproximações e as relações milenares entre a religião e a história da arte, entre o sagrado e o profano. Ao reconstruir formas e imagens tradicionais de obras de arte a partir de simulacros imprevistos, o artista provoca uma mistura por certo iconoclasta, mas que permite também interpretações extremas, em variações pontuadas tanto por veneração como por toques generosos de ousadia e ironia, diante do peso da tradição. Ao tomar como modelo figuras de devoção, perenes em seu significado e sua originalidade, as réplicas de Vik Muniz questionam a representação da obra de arte e o fascínio que o mistério da fé exerce, há séculos, sobre os grandes artistas.

A criação artística sempre teve fascinação pelo mistério da fé”, argumenta Vik Muniz em um breve depoimento reproduzido no dossiê de imprensa distribuído pela organização do festival. “A arte mistura elementos fundamentais que vêm da crença e das experiências coletivas e individuais para promover um consenso sobre a realidade, seja ela presentificada ou apenas imaginada. Com a obra de arte, a verossimilhança não é mais que uma ilusão. Escrever não é descrever, pintar não é evocar, mesmo se constatamos que grande parte do que admiramos na história da arte está, objetivamente, relacionada à arte sacra”, conclui. Segundo a descrição apresentada pelos organizadores da exposição, a nova série de Vik Muniz explora, incansavelmente, as possibilidades da fotografia e as mais variadas possibilidades da arte que buscam uma tradução para o indizível.






Vik Muniz na Arte Sacra: acima, a releitura
para Santa Inês (após Simon Vouet). Abaixo,
Maria Madalena (após Giovanni Girolamo Savoldo)
e São João Batista no Deserto (após Caravaggio)










Realidade e representação: enganar o olho



O indizível, no caso da série “Imaginária”, provoca um olhar que nunca é neutro nem desinteressado. Diante das imagens que o artista Vik Muniz selecionou e “montou” com a intenção de construir uma ilusão de ótica, provocando uma semelhança inegável e irrecusável com um modelo religioso pré-existente, há uma quase obrigatória curiosidade que enlaça a experiência da percepção à identificação dos detalhes. Identificado pelo olhar mais atento, cada detalhe interroga o pensamento e leva o observador a considerar tanto o modelo original como a cópia que no momento se apresenta e a pensar, talvez, na origem da própria representação, na remota pré-história da arte, no sentido que ela evoca e no que ela desencadeia sobre o que seja falso ou verdadeiro.

A partir da brutalidade apenas aparente dos materiais utilizados, os pequenos fragmentos foram reunidos para “enganar o olho” e formar a imagem. Ao final do processo de montagem, o artista registrou em uma fotografia – porque a arte, neste caso específico, também é a arte da fotografia. Conhecidas desde a Antiguidade Clássica pelos mestres da arquitetura e da pintura, as técnicas de “trompe l’oeil” (em francês, “enganar o olho”) não surgem como novidade nas obras de Vik Muniz. Na verdade, são estratégias presentes na maioria de sua produção, seja em recriações de obras de arte muito conhecidas, seja em retratos de pessoas famosas, ou em recomposições de mosaicos sobrepostos e fotografados – estratégias muito semelhantes às montagens e colagens criadas pelos primeiros mestres do cubismo, Pablo Picasso e Georges Braque, além de outros artistas das vanguardas, desde o começo do século 20, e que desde a década de 1960 tornaram-se uma constante na Pop Art de nomes como Andy Warhol, Jasper Johns, Peter Blake, Robert Rauschenberg, Tom Wesselmann, Claes Oldenburg e Roy Lichtenstein, ou de brasileiros como Nelson Leirner, Athos Bulcão, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Regina Silveira, entre outros.





Vik Muniz na Arte Sacra: acima, a releitura
para São Tiago, o Maior (após Guido Reni).
Abaixo, São Pedro (após Girolamo Batoni)
e Santa Luzia (imagem da tradição)







Apagando as diferenças



A principal novidade das práticas de Vik Muniz, em especial nesta “Imaginária”, talvez esteja na “remediação”, ou no uso de novas mídias e tecnologias para reconstituir ou reconfigurar, reinventando ou apagando a diferença entre novas formas de expressão e outras já cristalizadas em formas tradicionais. Ainda que o conceito de “remediação” seja um neologismo proposto inicialmente por Jay Bolter e Richard Grusin (no livro “Remediation: Understanding New Media”, publicado no ano 2000 por The MIT Press, Cambridge, Massachusetts, USA) no contexto das teorias da literatura e da comunicação, para refletir sobre novas versões baseadas nos escritos de ficção científica e horror de Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), o termo tem equivalências com as estratégias de Vik Muniz em que uma mídia “toma emprestado” de outra as questões de forma e conteúdo, bem como nas relações com questões específicas da história da arte, tais como o valor de culto e o valor de exposição, ou nas referências diretas às relações fluidas e instáveis entre as categorias de “cultura de massa” e de “cultura erudita”.








Vik Muniz na Arte Sacra: acima, a releitura
para São Sebastião (após José de Ribera) e
Santa Rita de Cássia (imagem da tradição).
Abaixo, a releitura para Santo Antônio de Pádua
(após Tanzio da Varallo) e Santa Terezinha
(segundo imagem da tradição). No final da página,
releituras de Vik Muniz para São Miguel Arcanjo
(após Darko Topalski) e para São Jorge e o Dragão
(após Gustave Moreau)








No contraste ou na fusão da riqueza das formas, situando em uma mesma obra elementos da expressão labiríntica e fragmentária pela escultura, pelo desenho, pela pintura e pela fotografia, Vik Muniz reúne e apresenta em um mesmo plano vários discursos simbólicos e vários objetos que constroem ou se transformam em uma só imagem, que por sua vez reproduz por semelhança uma imagem anterior muito conhecida. O paradoxo de atrelar o mosaico e o múltiplo à construção de uma só imagem é também um alerta ao observador, porque transforma a realidade e a representação em coisas semelhantes e equivalentes. Observar com atenção a metamorfose dos detalhes reunidos pelo artista, que se fundem para constituir a ilusão de uma forma conjunta, torna-se também uma questão ideológica, porque denuncia que não há mais lugar para o olhar ingênuo e que a visão não pode mais ser separada da interpretação.



por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Vik Muniz na Arte Sacra. In: ______. Blog Semióticas, 13 de agosto de 2019. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2019/08/vik-muniz-na-arte-sacra.html (acessado em .../.../...).


Para uma visita virtual às exposições do Rencontres d'Arles,  clique aqui.


Para comprar o catálogo Vik Muniz (Press Prestel, em inglês), clique aqui.






Para comprar Vik Muniz (Edição Capivara, em inglês),  clique aqui.














5 de fevereiro de 2019

O pintor Jack Kerouac










E foi exatamente assim que toda minha experiência na   
estrada de fato começou, e as coisas que estavam por   
vir são fantásticas demais para não serem contadas.   

––  Jack Kerouac, “On the Road”.      








O principal avatar da geração “beat”, que desafiou as convenções morais e sociais mais conservadoras do american way of life” com um coquetel de álcool, sexo livre, jazz e alucinógenos para uma alternativa menos materialista e mais espiritualizada de enfrentar a vida, volta ao destaque mais de 50 anos depois de sua morte –– não apenas pela literatura que o consagrou, mas também por um de seus talentos incomuns que poucos conheceram quando ele estava vivo: Jack Kerouac, autor de pinturas, desenhos e ilustrações em técnica mista. Uma seleção com 80 de suas obras originais, em vários formatos e materiais, na maioria inéditas, foi reunida para uma exposição apresentada pela primeira vez em um prestigiado espaço de artes plásticas na Itália, o MAGA Museo Arte Gallarate na Lombardia, próximo a Milão, região onde o escritor viveu por um período em meados dos anos 1960, e agora surge publicada no catálogo “Kerouac: Beat Painting”, lançamento da casa editorial Skira com textos e organização pelos curadores do museu italiano Sandrina Bandera, Alessandro Catiglioni e Emma Zanella.

Basta alguma observação atenta sobre as imagens produzidas pelo Kerouac pintor para perceber que ele transportou para as artes plásticas muito da composição sofisticada, experimental, surpreendente, sedutora, que ele imprimiu à criação literária nos romances em prosa poética, contos, novelas, diários, relatos confessionais, correspondências, poemas e haikais. A força da arte de Kerouac, para além de sua literatura, já encontrou transposições para o cinema, para a música, para as artes cênicas e para histórias em quadrinhos, mas seu caráter de composição visual feita pelo próprio autor é a última faceta a chegar ao público. Descrito por biógrafos como um de seus principais interesses e talentos, o acervo completo de artes plásticas que Kerouac produziu, e que por diversos motivos não divulgou, ficaria restrito a seus herdeiros indiretos e permaneceu inédito até recentemente nos Estados Unidos na sua cidade natal, Lowell, em Massachusetts.





.



O pintor Jack Kerouac: no alto, em Nova York,
1958, fotografado por Jerome Yulsman. Acima,
em foto do documento de identidade em 1943 e
fotografado no estúdio de Tom Palumbo em 1956.
Abaixo, a capa do catálogo Kerouac: Beat Painting






Antes da exposição mais abrangente apresentada no museu italiano e agora com a maior parte do acervo editado em catálogo pela Skira, as pinturas e desenhos de Kerouac apareceram de forma pontual em fragmentos e amostras que ilustram algumas de suas obras literárias e também como parte integrante em três grandes mostras retrospectivas sobre a arte e a literatura da “beat generation” apresentadas na última década nos Estados Unidos (pelo Whitney Museum em Nova York), na França (pelo Centro Pompidou em Paris) e na Alemanha (pelo Centro de Arte e Mídia ZKM em Karlsruhe). No Brasil também houve uma mostra abrangente sobre a “beat generation” no Centro Cultural Banco do Brasil (em 2016 em Brasília e em 2017 em São Paulo e Rio de Janeiro), mas restrita a fotografias e a uma extensa programação de cinebiografias, documentários, adaptações para cinema de obras do movimento “beat” ou filmes em que os autores atuaram em suas diversas performances multiculturais.



Aura questionadora e libertária



A coleção de pinturas, desenhos e esboços deixados por Kerouac veio à tona depois da morte de seu último cunhado e amigo de infância na cidade de Lowell, John Stampas, aos 84 anos, em 2017. A irmã de John, Stella Stampas, também amiga de infância de Kerouac em sua cidade natal, se tornaria a terceira esposa do escritor quando ele retornou em 1966 da última temporada na Europa. O casamento durou poucos meses, assim como outros dois casamentos anteriores de Kerouac, e depois da morte do autor, aos 47 anos, em 1969, Stella ficou com as caixas de arquivos de papéis, rascunhos, fotografias, diários, correspondências e textos inéditos, além das pinturas e desenhos. Com a morte recente de Stella e de John, seus herdeiros negociaram a concessão de direitos para a primeira exposição no museu italiano e para a publicação do acervo no catálogo da casa editorial Skira.






O pintor Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo sobre tela do final da década de 1950,
sem título, identificada como Woman with guitar.
Abaixo, pintura sem título do mesmo período e
um dos mapas em desenho a caneta feito no diário
de Kerouac para traçar, cidade por cidade, o trajeto
de uma viagem que ele fez de carona de julho a
outubro de 1948 e que, uma década depois, surgiria
como modelo para a jornada de aventuras de
Sal Paradise e Dean Moriartya dupla lendária
de protagonistas do romance On the Road










               



O catálogo inclui também, além de pinturas em óleo sobre tela e aquarelas, alguns desenhos feitos por Kerouac nos rascunhos e originais de seus textos, entre eles a ilustração feita a lápis e caneta de um autorretrato diante de uma estrada infinita que ele projetou para capa do romance “On the Road”, sua obra mais célebre, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada” e adaptado para o cinema em 2011 por Walter Salles com roteiro do porto-riquenho José Rivera, mesmo roteirista da adaptação de Salles para os diários do jovem Che Guevara em “Diários de Motocicleta”, filme de 2004. Consagrado como “Bíblia dos Hippies” e transformado em leitura lendária e obrigatória de gerações e gerações desde sua primeira edição em 1957, “On the Road” saiu editado sem a capa planejada pelo autor, mas foi um sucesso estrondoso desde que chegou às livrarias em lançamento da pequena Viking Press. Até mesmo as críticas negativas, que classificavam o livro como “imoral”, foram um ingrediente a mais como publicidade espontânea para expandir sua aura mítica de obra questionadora e libertária.

A publicação veio depois de sete anos de tentativas frustradas de apresentação em editoras, período em que o autor viajava com o original datilografado guardado na mochila. O original também é lendário pela gênese de ter sido escrito na forma de “escrita automática”, à maneira dos surrealistas franceses e do estilo be-bop dos músicos de jazz, na base do improviso criativo, sem parar para pensar ou reformular frases, totalmente datilografado em apenas três semanas em um rolo quilométrico de texto colado página a página com fita adesiva. Assim como seus textos fragmentados em diversas formas narrativas, a composição visual de Kerouac em pinturas e cores inclui referências a retratos distorcidos de pessoas que ele conhecia ou admirava, seus colegas escritores e músicos ainda anônimos, e também famosos como a atriz Joan Crawford ou o escritor Truman Capote. Há também muitas imagens de figuras nuas, eróticas, formas abstratas, paisagens incertas, crucifixos e outros signos relacionados ao sagrado do catolicismo em que ele foi criado e às crenças e ensinamentos identificados por sua aproximação com o budismo.






O pintor Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo sobre tela sem data identificada como
Woman (Joan Rawshanks) in blue with black hat.
Abaixo, Truman Capote, pintura de 1959, e uma
pintura em óleo sobre tela também de 1959 que
retrata o cardeal Giovanni Montini vestido
como papa, quatro anos antes do cardeal se tornar
o Papa Paulo VI. Também abaixo, três pinturas em
óleo sobre tela sem data e sem título, a primeira
identificada como Sunset scenee Kerouac
caminhando no Central Park, Nova York,
fotografado em 1959 por Robert Frank









Expressionismo abstrato



Uma das referências ao sagrado chama atenção do observador: uma pintura em cores expressionistas e sombrias da época da publicação de “On the Road” traça um retrato do cardeal italiano Giovanni Montini, que anos depois, em 1963, se tornaria o papa Paulo VI. Kerouac, que nunca o conheceu, viu a imagem do cardeal em trajes de papa durante ou depois de uma alucinação com mescalina ou LSD, e segundo informa no texto de apresentação Sandrina Bandera, ele teve como modelo para a pintura a óleo tão somente uma fotografia publicada pela revista “Time”. Entre outras revelações ou possibilidades, o leitor que conhece a literatura de Kerouac também vai perceber, nas imagens, algumas cenas que sugerem identificação com suas tramas e seus personagens –– caso da pintura nomeada como “Mulher de azul com chapéu preto”, uma figura andrógina, ambígua, fumando um cigarro, que traz à memória de imediato Joan Rawshanks, de seu romance de publicação póstuma “Visões de Cody”, que tem aquele célebre aviso do narrador ao leitor: “Estou escrevendo este livro porque vamos todos morrer...”

Escrito entre 1951 e 1952 e considerado pelo autor sua obra-prima, “Visões de Cody” seguiria inacabado, com apenas uma edição de fragmentos em pequena tiragem de 750 exemplares feita em 1960 pela New Directions, editora “beat” de Nova York. Como parte do espólio de Kerouac, só foi publicado na íntegra em 1973, revelando sua dimensão como estudo em tom autobiográfico sobre o herói de “On the Road”, Dean Moriarty, que neste livro é chamado de Cody Pomeray. Joan Rawshanks, que tem uma seção inteira em destaque no livro, teve inspiração, segundo Kerouac, na lembrança de uma noite quente e sufocante de 1952 em San Francisco em que ele assistiu, por acaso, a estrela Joan Crawford, a “vamp”, “femme fatale” de Hollywood, filmando nas ruas as cenas de um thriller criminal e “noir’ que se tornaria, para surpresa geral, um retumbante fracasso de público e de crítica, “This woman is dangerous” (Essa mulher é perigosa).











Seria equivocado ler essas obras de arte usando o método tradicional de um crítico de arte”, escreve Sandrina Bandera, destacando a coragem do trabalho do escritor que mesmo com o sucesso avassalador alcançando com “On the Road” ousou enveredar por outras searas como a música jazzística, os pinceis, as telas, as formas abstratas e as paletas de cores. “Porque Kerouac não era totalmente um artista plástico e nem somente um escritor. É preciso antes considerar que ele foi e continua sendo um fenômeno pop-cultural importante e que estas pinturas e desenhos agora são uma parte essencial daquela entidade potente reconhecida como Jack Kerouac. São como os membros de um único corpo girando em seu próprio eixo, tão dinâmicos que precisam de uma abundância de ferramentas diferentes para se expressar”.



Uma jornada poética



Enquanto relata as fontes de pesquisa para o trabalho de curadoria da primeira exposição no museu italiano e para a edição do catálogo, que incluiu, além do acervo dos herdeiros de Kerouac, obras cedidas por colecionadores como os irmãos Arminio e Paolo Ciolli, Sandrina Bandera revela as relações que alguns biógrafos estabelecem entre a dedicação do autor às artes plásticas e as mais diversas referências encontradas nas obras de literatura que ele produziu. Estudo e também inspiração, suas experiências sucessivas e simultâneas com uma ou outra forma de expressão são tentativas permanentes de testar seus limites, destaca a curadora, assim como têm significados muito especiais ao apontar suas relações com autores que influenciaram muito sua obra e com certos mestres da história da arte europeia, todos com um lugar decisivo no percurso de sua formação. 








O pintor Jack Kerouac: acima, pintura de
1960 em óleo sobre tela intitulada The slouch hat
(Chapéu descuidado) e The silly eye (portrait
of William Burroughs), pintura de 1959.
Abaixo, desenho a lápis e caneta sem data e sem
título identificado como retrato de Dody Muller.
Também abaixo, desenho a lápis sobre papel e
aquarela sobre papel, ambos sem título e sem data






Desta formação plural e dispersa também fazem parte: o círculo “beat” de amigos que o escritor conquistou nas temporadas de aventuras e viagens permanentes de costa a costa, de Nova York a San Francisco (a mais conhecida delas com seu maior parceiro, Neal Cassady, uma amizade que surgiu nos tempos de estudante na Universidade de Columbia e foi o ponto de partida que gerou “On the Road”), as primeiras viagens internacionais engajado na Marinha, as paixões sucessivas tão intensas como passageiras, as surpresas com as descobertas das invenções dos surrealistas, a dedicação tardia à cultura italiana, a aproximação afetiva e criativa com o fotógrafo e cineasta Robert Frank e, em maior ou menor grau de intimidade, com os mais destacados expoentes do expressionismo abstrato de Nova York, incluindo entre outros mentores Jackson Pollock, Willem de Kooning, Larry Rivers, Franz Kline, Ashile Gorky, Clyfford Still e, principalmente, Dody Muller, que permaneceu sua amante durante anos.

Para quem conhece o universo literário de Kerouac (“um índio, norte-americano e bretão”, como definiu certa vez seu parceiro Allen Ginsberg) e de seus conterrâneos e contemporâneos da geração “beat”, as cenas e sugestões de suas pinturas e desenhos parecem mesmo completar, com confidências nas ilustrações, seus textos de poesia e prosa poética, pois as imagens estão em cruzamento constante com seus escritos. É assim, também, a conclusão de Sandrina Bandera, que escreve –– “as pinturas em seu conjunto reconstroem uma narrativa na qual as obras escritas e as incursões na arte figurativa coincidiram perfeitamente em diferentes aspectos para construir a mesma jornada poética”. A literatura de Kerouac, que alcançou destaque e importância universal na segunda metade do século 20, e suas imagens agora encadeadas, no fim das contas revelam e confirmam que tanto a escrita, como a composição de formas em cores, são apenas duas maneiras complementares e simultâneas de expressar e experimentar as complexidades infinitas da linguagem.


por José Antônio Orlando.



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. O pintor Jack Kerouac. In: ______. Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2019. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2019/02/o-pintor-jack-kerouac.html (acessado em .../.../...).



Para comprar o catálogo Kerouac: Beat Painting,  clique aqui.





Para comprar o livro On the Road (Pé na Estrada),  clique aqui.





Para comprar o livro Visões de Cody,  clique aqui.













Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Páginas recentes