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26 de novembro de 2016

Mitologias de Fidel






Explicação do título: falando dos complexos   
 
problemas cubanos, uma amiga francesa    
misturou os termos 'crítica' e 'política',    
inventando a palavra 'policritique'. Ao escutá-la    
pensei (também em francês) que entre 'poli' e    
'tique' situava-se a sílaba 'cri', ou seja, 'grito'.    
Grito político, crítica política na qual o grito    
aí está como um pulmão que respira; foi assim    
que sempre entendi, assim continuarei entendendo    
e dizendo. É preciso gritar uma política crítica,    
é preciso criticar gritando cada vez que se    
acredite justo: só assim poderemos acabar    
um dia com os chacais e as hienas...    

Julio Cortázar –– “Policrítica na      
hora dos chacais” (1971)      




No capítulo final de seu célebre “Mitologias”, publicado em 1957, o francês Roland Barthes alerta para o fato de que não mantemos com os mitos relações de verdade, mas de utilização. “Existem objetos míticos que são postos de lado, entregues ao sono, por uns tempos; são apenas vagos esquemas míticos, cuja carga política perece quase indiferente. Trata-se unicamente de uma oportunidade de situação, e não de uma diferença de estrutura” – destaca Barthes, antes de concluir: “O mito, como se sabe, é um valor: basta modificar o que o rodeia, o sistema geral (e precário) no qual se insere, para poder determinar com exatidão o seu alcance”.

Barthes utiliza como exemplo para suas reflexões as ocorrências e significados dos mitos apresentados na imprensa e na cultura de massa da França na década de 1950, mas suas reflexões também cabem perfeitamente para perceber a grandeza e o alcance de um mito atualíssimo como o líder cubano Fidel Castro, que morreu hoje, aos 90 anos. Dentro e fora de Cuba, Fidel há décadas já havia passado à História na condição de mito, alcançando a primeira grandeza, com todas as definições e características que tanto Barthes como outros grandes pensadores do século 20 apontam para o que seja “mitológico” – em suas questões e conjunções de representação coletiva elevada à categoria de metáfora universal.






Mitologias de Fidel: no alto, Otoño en el
Parque Almendares, fotografia de Julio
Maldonado Mourelle em Havana, Cuba, em
2006. Acima, o jovem Fidel Castro chupando
pirulito em foto com outros estudantes do colégio
Nuestra Señora de Dolores, em Santiago de Cuba,
1940; e na célebre fotografia de Alberto Korda,
que recebeu do autor o título David y Goliath,
durante a visita de Fidel ao Memorial Lincoln, em
Washington, EUA, meses depois da Revolução
Cubana de 1959. Abaixo, outro registro de
Alberto Korda, fotógrafo oficial da revolução
e de Fidel: El Comandante falando
a jornalistas em Havana, em 1961
 


 

Morto em 1980, Barthes por certo acompanhou o desfecho lendário da Revolução Cubana de 1959 e os capítulos dramáticos da Ilha de Fidel nos anos e décadas seguintes, as aproximações com a extinta União Soviética, a rejeição com equivalência e peso de declaração de guerra aos Estados Unidos – mas não chegou a visitar Cuba nem a conhecer pessoalmente El Comandante, como fizeram muitos importantes escritores e intelectuais da esquerda que foram seus contemporâneos e conterrâneos. A lista dos admiradores e convivas de Fidel entre os grandes da intelligentsia” é extensa, incluindo, entre muitos outros, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Henri Cartier-Bresson, Arthur Miller, Noam Chomsky, Ernest Hemingway, Italo Calvino, Bernard Kouchner, Régis Debray, Jorge Semprun, François Maspero, Pablo Neruda, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Octavio Paz, Carlos Fuentes, Gabriela Mistral, Violeta Parra, Fernando Birri, José Saramago, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Chico Buarque...



Herói mítico



Nenhum minuto da história é igual a outro; nenhuma ideia ou acontecimento humano pode ser julgado fora de sua própria época” – escreveu o próprio Fidel em 2004, em carta endereçada a outro líder revolucionário da América Latina, o venezuelano Hugo Chávez (1954-2013), reproduzida em “Fidel para Principiantes”, livro dos argentinos Néstor Kohan e Nahuel Skerma publicado em 2006 pela Era Naciente, editora de Buenos Aires. Herói mítico de sua própria época, desde o final da década de 1950 Fidel passou a representar a expressão máxima das rebeliões anti-imperialistas e socialistas do Terceiro Mundo – na América Latina, na África, na Ásia. Não é pouco.






Mitologias de Fidel – El Comandante em
fotografias de Alberto Korda: acima,
a prisão de Fidel em 1953, após a invasão
que ele liderou ao Quartel Moncada; e com
seus companheiros na guerrilha em 1957 em
Sierra Maestra. Abaixo, Fidel e Che Guevara
na guerrilha, em 1957 e na foto histórica em 1961








No comando de sua ilha, “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos” – como diz a frase lendária e irônica atribuída a outra personalidade polêmica latino-americana, Porfírio Díaz, presidente do México no final do século 19 – Fidel sobreviveria a nada menos que 11 presidentes norte-americanos e a mais de 600 tentativas de assassinato, segundo informam seus biógrafos. El Comandante resistiu e continuou enfrentando por décadas o Grande Império, cujos dirigentes não conseguiram derrubá-lo, nem eliminá-lo, nem modificar os rumos da Revolução Cubana, até que em dezembro de 2014, com Barack Obama na Casa Branca, tiveram que admitir o fracasso e a derrota diplomática para, enfim, iniciar um processo de normalização das relações com o sistema político cubano.

Na exata medida de nossa alienação, não conseguimos ultrapassar uma apreensão instável do real: vagamos incessantemente entre o objeto e a sua desmistificação, incapazes de lhe conferir uma totalidade” – conclui Barthes em “Mitologias”. Novamente, o raciocínio serve como uma luva para o caso Fidel Castro, porque avaliar a figura mítica de Fidel não é tarefa fácil. Seu lugar é o do líder revolucionário que dividiu com outra figura mítica, Che Guevara (1928-1967), o enfrentamento contra o regime brutal e corrupto instalado em Cuba pelo ditador sanguinário Fulgêncio Batista, subserviente aos EUA, mas seu apoio a muitas guerrilhas do Terceiro Mundo e sua aliança posterior com Moscou também fizeram dele uma referência libertária e personagem-chave da Guerra Fria em escala planetária.







Mitologias de Fidel: acima, cenas da Revolução
Cubana em fotografias do inglês Lee Lockwood.
Abaixo, a capa do livro Fidel para Principiantes,
editado na Argentina; e a fotografia de Alberto Korda
de 1961 que registra a travessia de Fidel com
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
pelo pantanal de Cienaga de Zapata, durante a
visita do casal de intelectuais franceses a Cuba

 





Ação internacional



Para seus detratores, Fidel, em sua necessidade estratégica de fazer vingar a Revolução Cubana, atropelou direitos humanos e liberdades individuais, principalmente de opositores associados aos governos dos EUA e saudosos das práticas do antigo regime – ao que a imensa maioria da população da ilha responde com a salvaguarda dos avanços sociais, com a reforma agrária, com os sistemas de educação e saúde pública reconhecidos como exemplares no mundo inteiro, com a inexistência de analfabetismo e de desnutrição infantil e com a expectativa de vida que alcança 79 anos, muito além de qualquer país das vizinhanças.

Aos detratores de Fidel, muitos deles exilados e entrincheirados em Miami, a intelectualidade de Cuba vem repetindo o questionamento: como seria possível uma democracia formal com embargo comercial, econômico e financeiro? Durante décadas, Fidel resistiu bravamente e a revolução vingou em Cuba – e sua influência avançou muito além das fronteiras da ilha: ano após ano a reputação internacional do mito Fidel Castro foi construindo uma política externa de apoio a outras lutas no Terceiro Mundo, incluindo campanhas de alfabetização e de saúde pública, com destaque para a reputação humanitária da medicina e dos médicos cubanos – no caso brasileiro e também em vários outros países.






Mitologias de Fidel: acima, a entrada de
Fidel e Che com o Exército Rebelde em
Havana, em 1959; e El Comandante em
seu gabinete de trabalho, fotografado em
1959 por Burt Glinn. Abaixo, Fidel com
o líder soviético Nikita Khrushchev em
1963, durante a visita oficial a Moscou;
e Fidel no Brasil: poucos meses após a
Revolução Cubana, em 1959, com o
presidente Juscelino Kubitschek e seu
vice, João Goulart, fotografados no
Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro;
e com dona Marisa Letícia Lula da Silva,
com o líder sindical Jair Meneguelli e
com Lula, em 1989, em São Paulo,
durante um encontro de lideranças
de esquerda da América Latina












.


No passado recente, o mito Fidel paira sobre casos e números que impressionam: atualmente, mais de 51 mil profissionais de saúde de Cuba trabalham em 66 países do mundo, tanto como voluntários como em missões remuneradas. Depois do maior acidente nuclear da História, em Chernobyl, em 1986, a medicina cubana tem se destacado no tratamento a mais de 25 mil vítimas da radiação, entre adultos e crianças, que são recebidas em Cuba e atendidas no centro de atenção especial instalado no território cubano em Tarara desde 1990, tornando-se um complexo médico de referência internacional. Em 2010, o governo cubano enviou 1.200 médicos para combater a epidemia de cólera no Haiti após um terremoto, quando todas as outras missões estrangeiras de apoio à saúde haviam partido. Também recentemente, quando o pânico decorrente do Ebola assolava a África Ocidental, Cuba liderou os esforços de ajuda humanitária, enquanto as missões oficiais da Europa e dos EUA mantinham distância.

Além da ação surpreendente contra a epidemia de Ebola, os povos de países da América Latina, da África e da Ásia também devem a Fidel esforços de guerra contra ditaduras, pela soberania nacional e pela libertação das antigas colônias em processos de independência contra países europeus e contra os regimes de Apartheid. Os registros oficiais mais conhecidos destacam, entre outros casos, ações de Cuba para impulsionar movimentos de esquerda em países latino-americanos, em apoio a brasileiros, argentinos, venezuelanos, bolivianos, colombianos, uruguaios, paraguaios, nicaraguenses, salvadorenhos, chilenos.




Mitologias de Fidel: acima, Fidel em 2010,
durante as celebrações do 50º aniversário da
criação dos Comitês para a Defesa da Revolução,
em Havana, fotografado por Desmond Boylan.
Abaixo, Fidel recebe Nelson Mandela em Cuba,
em 1991, em fotografia de Omar Torres; e com
Vladimir Putin, presidente da Rússia, durante
a visita oficial de Putin a Havana, em 2000








Há, também, o apoio cubano à Argélia, na guerra contra o colonialismo francês, em 1961, e em 1963, na guerra contra o Marrocos; em 1965, quando Che Guevara e guerrilheiros cubanos passaram um ano no Congo, em Angola e em Guiné-Bissau; a participação direta de Fidel nos conflitos e nos acordos que levaram ao fim da Guerra do Vietnã, em 1973; o envio da força expedicionária de Cuba, através do Atlântico, em 1975, para ajudar a salvar Angola, na época recém-independente, de uma invasão sul-africana; e o apoio à libertação de Nelson Mandela e sua escalada de resistência rumo à presidência e à pacificação na África do Sul.

Com o Brasil os laços diplomáticos de Cuba seriam retomados em 1985 e sinalizaram a retomada da Democracia: a primeira ação internacional da ditadura militar que tomou o poder em 1964 havia sido o rompimento das relações oficiais entre o governo brasileiro e o governo cubano. O receio de que o Brasil seguisse o exemplo da Revolução Cubana e se alinhasse à União Soviética foi um dos pretextos para o apoio decisivo do governo norte-americano ao golpe de Estado que levou à deposição do presidente João Goulart e implantou a ditadura que duraria décadas.

Depois da retomada oficial das relações diplomáticas, uma missão oficial do Brasil visitou Cuba em 1987 e, em 1989, o presidente Fidel Castro visitou o Brasil e teve participação importante, ao lado do futuro presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um encontro de lideranças de esquerda da América Latina que aconteceu em São Paulo. Depois da eleição de Lula para a Presidência da República, as relações entre Brasil e Cuba ficaram mais próximas com acordos de cooperação em diferentes áreas. Lula realizou visitas oficiais a Cuba em 2003, em 2008 e em 2010. Em 2014, a presidenta Dilma Rousseff implantou um programa importante na área da saúde: o Mais Médicos, com participação ativa dos médicos cubanos no atendimento à população de baixa renda e também às comunidades mais afastadas dos grandes centros urbanos. 



Um mito e suas variações



Com o desfecho de sua trajetória mítica, as glórias e as polêmicas sobre Fidel proliferam. Herói revolucionário que enfrentou os EUA? Ditador que em nome da revolução ignorou os direitos humanos? Estrategista que treinou e armou guerrilheiros em lutas pela liberdade política em vários países de vários continentes? Tudo isso junto e misturado? Provavelmente sim: tudo isso e mais. Um mito é a soma de suas variações – explicaria Roland Barthes, nas reflexões reunidas em “Mitologias” – pois todas as possíveis variações são expressão da verdade última do mito.






Mitologias de Fidel: acima, El Comandante
no Brasil, em 2003, na posse do ex-presidente 
Lula; e com a ex-presidente Dilma Rousseff 
durante encontro em Havana em 2014. Abaixo,
Gabriel García Márquez com Fidel em Havana
em 1982, ano em que ganhou o Prêmio Nobel;
Fidel com o Papa Francisco, também em Havana,
em 2015; e as homenagens póstumas ao líder 
revolucionário nas ruas e na Universidade de
Havana, em três fotografias de Alejandro Ernesto







A História me absolverá” – declarou certa vez o próprio Fidel, na época um jovem revolucionário de 26 anos, preso depois de liderar em julho de 1953 a invasão ao quartel militar de Moncada, em Santiago de Cuba, uma ação de resistência contra o golpe de Estado em que Fulgêncio Batista tomou o poder e instalou uma ditadura sangrenta. A invasão terminaria de forma trágica, com a morte da maioria dos manifestantes e com a prisão do líder Fidel. A história, porém, nunca tem fim: é um constante vir a ser, como destaca o cientista político Moniz Bandeira em "De Martí a Fidel  A Revolução Cubana e a América Latina", livro de referência em que analisa a evolução do regime revolucionário de Cuba e as conquistas sociais desde os antecedentes da Revolução de 1959.

Depois de passar 76 dias preso em um cela solitária, Fidel, recém-formado em Direito, apresentou-se em 1953 para fazer sua própria defesa no julgamento. As palavras com que encerrou seu discurso de defesa no tribunal têm um caráter premonitório, quase de profecia – antecipando uma trajetória que estava apenas no início: “Sei que a prisão será dura como nunca foi para ninguém, cheia de ameaças, de enfurecimento ruim e covarde, mas não a temo, como não temo a fúria do tirano miserável que arrancou a vida de 70 dos meus irmãos. Condene-me, não importa, a História me absolverá.”


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Mitologias de Fidel. In: ______. Blog Semióticas, 26 de novembro de 2016. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2016/11/mitologias-de-fidel.html (acessado em .../.../...).


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20 de fevereiro de 2016

Umberto Eco e Mafalda








A condição mínima para uma interpretação
é substituir um signo por outro signo que,
sob certo ponto de vista, possa ser julgado
equivalente – sejam eles pertencentes
a um mesmo sistema semiótico ou
a sistemas semióticos diferentes.

Umberto Eco, “O Código do Mundo”
(Il Codice del Mondo, 1987)




O italiano Umberto Eco (1932-2016), mestre da Semiótica e um dos principais pensadores e escritores de nossa época, foi também um dos pioneiros a destacar o valor e a importância da Mafalda, a garotinha contestadora inventada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, mais conhecido como Quino. Com o crescente sucesso de público da pequena Mafalda em seu país de origem, desde 1964, as tirinhas não demoraram a ser reunidas em livros que logo cruzaram as fronteiras da Argentina e passaram a ser conhecidos no Brasil e em outros países da América Latina e também de outros continentes.

Na Europa, Mafalda desembarcou primeiro na Itália, por influência direta de Umberto Eco. Os direitos de publicação foram comprados pela Casa Editrice Valentino Bompiani, que também editava os livros de Eco desde 1962, quando foi publicado seu primeiro grande sucesso editoral, “A Obra Aberta” – o quarto livro que publicou, depois de “O Problema Estético em Santo Tomás de Aquino” (“Il Problema Estetico in San Tommaso”, Torino: Edizioni di Filosofia, 1956), “Filosofia na Liberdade” (“Filosofia in Libertà”, Torino: Edizioni Taylor, 1958) e “Arte e Beleza na Estética Medieval” (“Sviluppo dell'Estetica Medievale”, Milano: Edizioni Marzorati, 1959).

Eco permaneceu publicando seus livros pela Bompiani até 2015, quando foi lançado seu último romance, “Número Zero” – uma crítica feroz ao mau jornalismo e à manipulação de notícias apresentada através de um jornal fictício criado para mentir, distorcer, caluniar e chantagear autoridades e pessoas comuns. Na editora Bompiani, Eco publicou cerca de 50 livros de ensaios e estudos teóricos que são considerados obras de referência, três livros de literatura infanto-juvenil e sete romances. Contudo, depois da publicação de “Número Zero”, a Bompiani foi comprada pelo grupo Mondadori, controlado pela família Berlusconi. Em protesto, Eco e outros grandes nomes da literatura italiana tomaram a decisão de romper com a Bompiani e criaram uma nova editora, a La Nave di Teseo, batizada em homenagem ao mítico rei de Atenas na Antiguidade.

O primeiro livro da nova editora será também a primeira publicação póstuma de Eco, que morreu ontem, aos 84 anos, vítima de câncer:
Pape Satàn Aleppe”, que pode ser traduzido como o Papa é adversário de Satanás com o subtítulo Crônicas de uma sociedade líquida será lançado nos próximos dias, na Itália, reunindo uma coletânea de artigos que Eco publicou na revista semanal italiana L'Espresso. O enigmático título do novo livro retoma as palavras que abrem o primeiro verso do Canto VII do Inferno, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, poeta da Idade Média e forte referência para o autor de O Nome da Rosa.  












Retratos do mestre Umberto Eco:
no alto, em sua casa em Milão, Itália, em
2013, fotografado por Andrea Frazzetta;
acima, com a trombeta que aprendeu a
tocar quando era menino, fotografado
em março de 2015, por Oliver Zehner;
aos 22 anos, em 1954, quando defendeu
sua tese sobre Santo Tomás de Aquino
na Universidade de Turim; e na infância,
em Alexandria, Itália, sua cidade natal.
Abaixo, fotografado por Annie Leibovitz
na Universidade de Bologna, em 1980, na
época do lançamento de seu primeiro
romance, O Nome da Rosa; em 1985,
no antigo mosteiro de Kloster Eberbach,
na Alemanha, durante as filmagens de
"O Nome da Rosa", com os atores
F. Murray Abraham, Michael Lonsdale,
Sean Connery e o diretor Jean-Jacques
Annaud; a capa do primeiro livro póstumo,
intitulado Pape Satàn Aleppe; e Eco
durante a última entrevista, em 19 de
dezembro de 2015, em sua casa, em Milão,
fotografado pelo jornalista português do
"Diário de Notícias", João Céu e Silva

 











A primeira edição de Mafalda em livro, no continente europeu, foi publicada pela Bompiani em 1969 com uma tarja indicando que se tratava de “história em quadrinhos para adultos”. A edição também incluiu um texto de apresentação de Umberto Eco, “Mafalda ou a recusa”, que chamou imediatamente a atenção de pesquisadores acadêmicos para a personagem criada por Quino. Não demorou muito para Mafalda também conquistar França, Espanha, Portugal e outros países, ganhando a simpatia de leitores de todas as idades e dos intelectuais ligados aos movimentos sociais e aos partidos políticos de Esquerda. Detalhe da maior importância: nos Estados Unidos, Mafalda continua ainda hoje inédita e desconhecida do grande público.
 
Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara” – destaca Eco no breve ensaio publicado como apresentação às tirinhas reunidas no livro de 1969, “Mafalda, La Contestataria”, comparando Mafalda com o norte-americano Charlie Brown, criação de Charles Schulz (1922-2000), e com a geração de jovens contestadores que marcou a explosiva década de 1960. Mafalda voltaria à pauta de vários outros ensaios que Eco publicou em jornais, revistas e livros, mas este primeiro ensaio que ele dedicou à personagem tem o mérito de ter sido uma carta de apresentação da garotinha zangada e inconformista para milhões de leitores – entre os quais estou incluído.







Estive uma única vez com o mestre Umberto Eco. Foi na década de 1990, durante uma visita do professor da Universidade de Bologna ao Campus da UFMG, em Belo Horizonte. Deveria ter sido uma entrevista, conforme estava marcado previamente com o cerimonial, mas um atraso levou ao cancelamento de vários compromissos agendados para aquele dia. Restou apenas a alegria de um breve encontro e da conversa rápida e emocionada que tive com o mestre, interrompidos a cada minuto pela intérprete que o acompanhava e pelos assessores do cerimonial, enquanto caminhávamos de um prédio a outro, a caminho do auditório da reitoria, onde Eco apresentaria uma conferência.

Lembro que fiquei até altas horas, na noite anterior, fazendo e refazendo o roteiro para a entrevista, folheando livros e ensaiando repetidas vezes a pronúncia de algumas frases com meu italiano mínimo e instrumental. A decepção pelo imprevisto do cancelamento da entrevista foi logo substituída pela expectativa da conversa informal na curta caminhada, com o mestre cordial e bem-humorado elogiando a música e a literatura do Brasil – especialmente os clássicos da Bossa Nova e, por recomendação de seus amigos brasileiros de longa data Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, os escritos de Oswald de Andrade, que naquela época ele estava descobrindo, “felicíssimo”, segundo comentou.

Ele também fez elogios ao português falado pelos brasileiros, em comparação ao de Portugal, e à força criativa da cultura popular que havia encontrado de norte a sul do Brasil, nas várias viagens que fez, a passeio, e nas cidades em que esteve para compromissos acadêmicos e palestras. Já estávamos no auditório da reitoria quando arrisquei uma última pergunta sobre as suas incursões nos rituais do Candomblé em Salvador, na Bahia, que o deixaram encantado nas visitas anteriores ao Brasil, mas não houve tempo para a resposta. Em homenagem a Umberto Eco, mestre dos mestres, transcrevo a seguir o ensaio que ele dedicou a Mafalda em 1969. Fiz a tradução a partir do original em italiano que foi publicado no livro “Mafalda, La Contestataria”. 
 

 


 

Mafalda ou a recusa



Mafalda não é apenas uma nova personagem dos quadrinhos: é a personagem dos anos 1960. Se para a definir se utilizou o adjetivo “contestadora” não foi para a alinhar a qualquer preço na moda do anticonformismo. Mafalda é, de fato, zangada – e recusa o mundo tal como ele é.

Para compreender Mafalda é necessário estabelecer um paralelo com outro grande personagem: Charlie Brown. Ele é norte-americano, Mafalda é sul-americana (o seu autor, Quino, é argentino). Charlie Brown pertence a um país próspero, a uma sociedade opulenta na qual procura desesperadamente integrar-se mendigando solidariedade e felicidade. Mafalda pertence a um país cheio de contrastes sociais que, no entanto, quer fazer dela integrada e feliz, coisa que Mafalda recusa, afastando todas as tentativas. 










 
Charlie Brown vive no seu universo infantil de onde, rigorosamente, os adultos estão excluídos (apesar de as crianças aspirarem a comportar-se como adultos), enquanto Mafalda vive em contínua contradição com o mundo adulto, que não estima nem respeita, antes pelo contrário, ridiculariza e rejeita, reivindicando o seu direito a permanecer uma menina que não quer assumir o mesmo universo adulto dos pais. Charlie Brown leu, evidentemente, os “revisionistas” de Freud e busca uma harmonia perdida. Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara.

Na verdade, Mafalda tem ideias confusas sobre política, não consegue perceber o que se passa na Guerra do Vietnã, não sabe por que existem pobres, desconfia dos governos, desconfia dos chineses. Mas de uma coisa ela tem certeza: não está satisfeita.








Ao redor de Mafalda, há um pequeno grupo de personagens mais “unidimensionais”: Manolito, o menino plenamente integrado num capitalismo de bairro, que tem a certeza absoluta de que, no mundo, o valor essencial é o dinheiro; Filipe, o sonhador tranquilo; Susaninha, a doente de amor maternal, perdida nos seus sonhos pequeno-burgueses. E, depois, os pais de Mafalda, resignados, que aceitaram a rotina diária (com o recurso ao paliativo farmacêutico de algum medicamento) e, além disso, vencidos pelo tremendo destino que fez deles os guardiões da Contestadora...

O universo de Mafalda não é apenas o de uma América Latina urbana e evoluída; é também, de um modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, e isso faz com que ela surja mais compreensível para nós do que muitos personagens dos quadrinhos norte-americanos. Enfim: Mafalda é, em todas as situações, “um herói do nosso tempo” – e isto não parece uma qualificação exagerada para a pequena personagem de papel e tinta que Quino propõe.








Ninguém nega que histórias em quadrinhos sejam (quando atingem um certo nível de qualidade) questionadoras de hábitos e de costumes – e Mafalda reflete as tendências de uma juventude inquieta que assumem, aqui, o aspecto de uma dissidência infantil, de um esquema psicológico de reação aos meios de comunicação de massa, de uma urticária moral provocada pela lógica dos blocos, de asma intelectual provocada pelo cogumelo atômico. Já que os nossos filhos se vão tornar – por escolha nossa – outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda com o respeito que merece um personagem real. (Umberto Eco)



Traduzido e editado por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Umberto Eco e Mafalda. In: ______. Blog Semióticas, 20 de fevereiro de 2016. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2016/02/umberto-eco-e-mafalda.html (acessado em .../.../...). 


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Na biblioteca do Mestre dos Mestres:
um passeio com Umberto Eco na biblioteca
de sua casa em Milão, Itália, em fotografias
de setembro de 2007 por Leonardo Cendamo





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