A condição mínima para uma interpretação
é substituir um signo por outro signo que,
sob certo ponto de vista, possa ser julgado
equivalente – sejam eles pertencentes
a um mesmo sistema semiótico ou
a sistemas semióticos diferentes.
Umberto Eco, “O Código do
Mundo”
(Il Codice del Mondo, 1987)
O
italiano Umberto Eco (1932-2016), mestre da Semiótica e um dos
principais pensadores e escritores de nossa época, foi também um
dos pioneiros a destacar o valor e a importância da Mafalda, a
garotinha contestadora inventada pelo cartunista argentino Joaquín
Salvador Lavado Tejón, mais conhecido como Quino. Com
o crescente sucesso de público da pequena Mafalda em seu país de
origem, desde 1964, as tirinhas não demoraram a ser reunidas em livros que logo
cruzaram as fronteiras da Argentina e passaram a ser conhecidos no Brasil e em
outros países da América Latina e também de outros continentes.
Na
Europa, Mafalda desembarcou primeiro na Itália, por influência
direta de Umberto Eco. Os direitos de publicação foram comprados
pela Casa Editrice Valentino Bompiani, que também editava os livros
de Eco desde 1962, quando foi publicado seu primeiro grande sucesso
editoral, “A Obra Aberta” – o quarto livro que publicou, depois
de “O Problema Estético em Santo Tomás de Aquino” (“Il
Problema Estetico in San Tommaso”, Torino: Edizioni di Filosofia,
1956), “Filosofia na Liberdade” (“Filosofia in Libertà”,
Torino: Edizioni Taylor, 1958) e “Arte e Beleza na Estética
Medieval” (“Sviluppo dell'Estetica Medievale”, Milano: Edizioni
Marzorati, 1959).
Eco
permaneceu publicando seus livros pela Bompiani até 2015, quando foi
lançado seu último romance, “Número Zero” – uma crítica
feroz ao mau jornalismo e à manipulação de notícias apresentada
através de um jornal fictício criado para mentir, distorcer,
caluniar e chantagear autoridades e pessoas comuns. Na editora
Bompiani, Eco publicou cerca de 50 livros de ensaios e estudos
teóricos que são considerados obras de referência, três livros de
literatura infanto-juvenil e sete romances. Contudo, depois da publicação de
“Número Zero”, a Bompiani foi comprada pelo grupo Mondadori, controlado pela família Berlusconi. Em protesto, Eco e outros grandes nomes da literatura italiana tomaram a decisão de romper com a Bompiani e criaram uma nova editora, a La Nave di Teseo, batizada em homenagem ao mítico rei de Atenas na Antiguidade.
O primeiro livro da nova editora será também a primeira publicação póstuma de Eco, que morreu ontem, aos 84 anos, vítima de câncer: “Pape Satàn Aleppe”, que pode ser traduzido como “o Papa é adversário de Satanás” – com o subtítulo “Crônicas de uma sociedade líquida” – será lançado nos próximos dias, na Itália, reunindo uma coletânea de artigos que Eco publicou na revista semanal italiana “L'Espresso”. O enigmático título do novo livro retoma as palavras que abrem o primeiro verso do Canto VII do Inferno, da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, poeta da Idade Média e forte referência para o autor de “O Nome da Rosa”.
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Retratos do mestre Umberto Eco:
no alto, em sua casa em Milão, Itália, em
2013, fotografado por Andrea Frazzetta;
acima, com a trombeta que aprendeu a
tocar quando era menino, fotografado
em março de 2015, por Oliver Zehner;
aos 22 anos, em 1954, quando defendeu
sua tese sobre Santo Tomás de Aquino
na Universidade de Turim; e na infância,
em Alexandria, Itália, sua cidade natal.
Abaixo, fotografado por Annie Leibovitz
na Universidade de Bologna, em 1980, na
época do lançamento de seu primeiro
romance, O Nome da Rosa; em 1985,
no antigo mosteiro de Kloster Eberbach,
na Alemanha, durante as filmagens de
"O Nome da Rosa", com os atores
F. Murray Abraham, Michael Lonsdale,
Sean Connery e o diretor Jean-Jacques
Annaud; a capa do primeiro livro póstumo,
intitulado Pape Satàn Aleppe; e Eco
durante a última entrevista, em 19 de
dezembro de 2015, em sua casa, em Milão,
fotografado pelo jornalista português do
"Diário de Notícias", João Céu e Silva
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A
primeira edição de Mafalda em livro, no continente europeu, foi
publicada pela Bompiani em 1969 com uma tarja indicando que se
tratava de “história em quadrinhos para adultos”. A edição
também incluiu um texto de apresentação de Umberto Eco, “Mafalda
ou a recusa”, que chamou imediatamente a atenção de pesquisadores
acadêmicos para a personagem criada por Quino. Não demorou muito
para Mafalda também conquistar França, Espanha, Portugal e outros
países, ganhando a simpatia de leitores de todas as idades e dos
intelectuais ligados aos movimentos
sociais e aos partidos políticos de Esquerda. Detalhe da maior importância:
nos Estados Unidos, Mafalda continua ainda hoje inédita e
desconhecida do grande público.
“
Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara” –
destaca Eco no breve ensaio publicado como apresentação às
tirinhas reunidas no livro de 1969, “Mafalda, La Contestataria”,
comparando Mafalda com o norte-americano Charlie Brown, criação de
Charles Schulz (1922-2000), e com a geração de jovens contestadores
que marcou a explosiva década de 1960. Mafalda voltaria à pauta de
vários outros ensaios que Eco publicou em jornais, revistas e
livros, mas este primeiro ensaio que ele dedicou à personagem tem o
mérito de ter sido uma carta de apresentação da garotinha zangada
e inconformista para milhões de leitores – entre os quais estou
incluído.
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Estive
uma única vez com o mestre Umberto Eco. Foi na década de 1990,
durante uma visita do professor da Universidade de Bologna ao Campus
da UFMG, em Belo Horizonte. Deveria ter sido uma entrevista, conforme estava marcado previamente com o cerimonial, mas um atraso levou ao
cancelamento de vários compromissos agendados para aquele dia. Restou apenas a
alegria de um breve encontro e da conversa rápida e emocionada que
tive com o mestre, interrompidos a cada minuto pela intérprete que o
acompanhava e pelos assessores do cerimonial, enquanto caminhávamos
de um prédio a outro, a caminho do auditório da reitoria, onde Eco
apresentaria uma conferência.
Lembro
que fiquei até altas horas, na noite anterior, fazendo e refazendo o
roteiro para a entrevista, folheando livros e ensaiando repetidas
vezes a pronúncia de algumas frases com meu italiano mínimo e
instrumental. A decepção pelo imprevisto do cancelamento da entrevista foi logo
substituída pela expectativa da conversa informal na curta
caminhada, com o mestre cordial e bem-humorado elogiando a música e
a literatura do Brasil – especialmente os clássicos da Bossa Nova
e, por recomendação de seus amigos brasileiros de longa data Haroldo de Campos, Augusto de Campos e
Décio Pignatari, os escritos de Oswald de Andrade, que naquela época
ele estava descobrindo, “felicíssimo”, segundo comentou.
Ele
também fez elogios ao português falado pelos brasileiros, em comparação ao de Portugal, e à força criativa da cultura popular que havia encontrado
de norte a sul do Brasil, nas várias viagens que fez, a passeio, e
nas cidades em que esteve para compromissos acadêmicos e palestras.
Já estávamos no auditório da reitoria quando arrisquei uma última
pergunta sobre as suas incursões nos rituais do Candomblé em Salvador, na Bahia, que
o deixaram encantado nas visitas anteriores ao Brasil, mas não houve
tempo para a resposta. Em homenagem a Umberto Eco, mestre dos
mestres, transcrevo a seguir o ensaio
que ele dedicou a Mafalda em 1969. Fiz a tradução a partir do
original em italiano que foi publicado no livro “Mafalda, La
Contestataria”.
Mafalda
ou a recusa
Mafalda
não é apenas uma nova personagem dos quadrinhos: é a personagem
dos anos 1960. Se para a definir se utilizou o adjetivo
“contestadora” não foi para a alinhar a qualquer preço na moda
do anticonformismo. Mafalda é, de fato, zangada – e recusa o mundo
tal como ele é.
Para compreender Mafalda é necessário
estabelecer um paralelo com outro grande personagem: Charlie Brown.
Ele é norte-americano, Mafalda é sul-americana (o seu autor, Quino,
é argentino). Charlie Brown pertence a um país próspero, a uma
sociedade opulenta na qual procura desesperadamente integrar-se
mendigando solidariedade e felicidade. Mafalda pertence a um país
cheio de contrastes sociais que, no entanto, quer fazer dela
integrada e feliz, coisa que Mafalda recusa, afastando todas as
tentativas.
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Charlie
Brown vive no seu universo infantil de onde, rigorosamente, os
adultos estão excluídos (apesar de as crianças aspirarem a
comportar-se como adultos), enquanto Mafalda vive em contínua
contradição com o mundo adulto, que não estima nem respeita, antes
pelo contrário, ridiculariza e rejeita, reivindicando o seu direito
a permanecer uma menina que não quer assumir o mesmo universo adulto
dos pais. Charlie Brown leu, evidentemente, os “revisionistas”
de Freud e busca uma harmonia perdida. Mafalda leu, provavelmente, o
Che Guevara.
Na
verdade, Mafalda tem ideias confusas sobre política, não consegue
perceber o que se passa na Guerra do Vietnã, não sabe por que
existem pobres, desconfia dos governos, desconfia dos chineses. Mas
de uma coisa ela tem certeza: não está satisfeita.
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Ao redor
de Mafalda, há um pequeno grupo de personagens mais
“unidimensionais”: Manolito, o menino plenamente integrado num
capitalismo de bairro, que tem a certeza absoluta de que, no mundo, o
valor essencial é o dinheiro; Filipe, o sonhador tranquilo;
Susaninha, a doente de amor maternal, perdida nos seus sonhos
pequeno-burgueses. E, depois, os pais de Mafalda, resignados, que
aceitaram a rotina diária (com o recurso ao paliativo farmacêutico
de algum medicamento) e, além disso, vencidos pelo tremendo destino
que fez deles os guardiões da Contestadora...
O universo de
Mafalda não é apenas o de uma América Latina urbana e evoluída; é
também, de um modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, e
isso faz com que ela surja mais compreensível para nós do que
muitos personagens dos quadrinhos norte-americanos. Enfim: Mafalda é,
em todas as situações, “um herói do nosso tempo” – e isto
não parece uma qualificação exagerada para a pequena personagem de
papel e tinta que Quino propõe.
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Ninguém nega que histórias
em quadrinhos sejam (quando atingem um certo nível de qualidade)
questionadoras de hábitos e de costumes – e Mafalda reflete as
tendências de uma juventude inquieta que assumem, aqui, o aspecto de
uma dissidência infantil, de um esquema psicológico de reação aos
meios de comunicação de massa, de uma urticária moral provocada
pela lógica dos blocos, de asma intelectual provocada pelo cogumelo
atômico. Já que os nossos filhos se vão tornar – por escolha
nossa – outras tantas Mafaldas, será prudente tratarmos Mafalda
com o respeito que merece um personagem real. (Umberto Eco)
Traduzido e
editado por José Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. Umberto Eco e Mafalda. In: ______. Blog
Semióticas, 20 de fevereiro de 2016. Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2016/02/umberto-eco-e-mafalda.html
(acessado em .../.../...).
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Na biblioteca do Mestre dos Mestres:
um passeio com Umberto
Eco na biblioteca
de sua casa em Milão, Itália, em fotografias
de setembro de 2007 por Leonardo Cendamo
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