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13 de setembro de 2012

Revistinha de vovô







Uma notícia policial trouxe “O Tico-Tico” de volta no tempo. As duas primeiras edições da primeira revista em quadrinhos do Brasil, publicadas em 1905, foram furtadas da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O crime ocorreu em 2011, mas não foi divulgado para não atrapalhar as investigações. Até hoje as revistas, extremamente raras e consideradas preciosidades do acervo da FBN, não foram recuperadas. A suspeita da Polícia Federal é de que o furto tenha sido ação de criminosos que se passaram por pesquisadores na seção de periódicos da instituição e simplesmente guardaram as duas edições da publicação em bolsas ou casacos, saindo sem serem notados.

Marco inicial das publicações dedicadas às crianças e fetiche confesso, com suas páginas coloridas, na infância de uma lista interminável de personalidades da cultura brasileira, a revista que o poeta Carlos Drummond de Andrade definiu como “a segunda vida dos meninos do começo do século” também havia sido notícia em 2005, ano do seu centenário, quando “O Tico-Tico” reapareceu, depois de décadas de esquecimento, nas páginas de dois livros especialíssimos.

A duas publicações, com títulos muito parecidos e muito diferentes no formato, resgatam uma amostragem do trabalho magistral de pioneiros das histórias em quadrinhos e das artes gráficas no Brasil: “O Tico-Tico, Cem Anos de Revista” (Editora Via Lettera) e “O Tico-Tico: Centenário da Primeira Revista em Quadrinhos do Brasil” (Opera Graphica). Escrito pelo colecionador de quadrinhos Ezequiel de Azevedo, mineiro de Juiz de Fora e formado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), “Cem Anos de Revista” apresenta e analisa, em 64 páginas com ilustrações coloridas, as galerias de imagens dos principais quadrinhos, colunas, adivinhações, páginas para recortar e armar e personagens que tiveram seu auge de popularidade nas primeiras décadas do século 20, antes de serem defenestrados pela invasão norte-americana do império Disney e dos super-heróis da Marvel.





Revistinha de vovô: no alto, ilustração
da capa do álbum de luxo O Tico-Tico:
Centenário da Primeira Revista em

Quadrinhos do Brasil. Acima, fac-símile
da primeira edição da revista, com data
de 11 de outubro de 1905, e outras três
capas de sucesso da publicação pioneira
na primeira década do século 20


Entre estes personagens que passaram de sucesso no imaginário nacional ao mais completo esquecimento, um dos destaques é o loiro Chiquinho, sucesso absoluto de popularidade em histórias inéditas publicadas até o fim das edições semanais, em 1957. Principal chamariz desde o primeiro número de “O Tico-Tico”, Chiquinho ainda viveria a maior polêmica na trajetória da revista. Depois de décadas ficaria provado que o Chiquinho, tão brasileirinho, era na verdade um decalque, copiado por Luís Gomes Loureiro e outros desenhistas, a partir das histórias de um outro personagem criado pelo norte-americano Richard Fenton Outcault (1863-1928). As histórias inéditas terminaram em 1957, mas Chiquinho ainda retornaria com algum sucesso nas décadas seguintes, nas compilações do "Almanaque O Tico-Tico".
 
Chiquinho, destaca Ezequiel de Azevedo, tem comprovadamente sua matriz original em “Buster Brown” (1902), do mesmo Outcault que passou à história como criador de “Yellow Kid” (1895), que rivaliza na disputa pelo título de primeiro personagem de histórias em quadrinhos com o "Nhô-Quim", criado no Brasil em 1869 pelo italiano naturalizado brasileiro Angelo Agostini (1843-1906). O argumento dos defensores de "Yellow Kid" é que ele foi o primeiro personagem com histórias narradas com o texto em balões, enquanto o "Nhô-Quim" de Agostini trazia o texto em legendas abaixo de cada quadro das ilustrações. 





A polêmica sobre a "adaptação" do personagem de Outcault nas páginas de "O Tico-Tico", aponta Azevedo, só veio à tona depois da Segunda Guerra. Mas o argumento é indefensável: Chiquinho, seu cãozinho Jagunço e a garota Lili têm, no traço dos personagens e nas tramas das aventuras, as mesmas características dos personagens criados por Outcault, batizados pelo autor como Buster Brown, Tige e Mary-Jane. Acontece que o Buster original parou de ser publicado em 1910, enquanto Chiquinho sobreviveu bravamente até dezembro de 1957, recriado em aventuras inéditas pela criatividade dos artistas nacionais de “O Tico-Tico”.



Celebridades de outras épocas



Tanto “O Tico-Tico, Cem Anos de Revista” como “O Tico-Tico: Centenário da Primeira Revista em Quadrinhos do Brasil”, apresentam a revista às novas gerações e descrevem o sucesso imediato de personagens originais do Brasil, como Zé Macaco e Faustina, Kaximbown, Jujuba, Carrapicho, a crioulinha Lamparina e o trio Reco-Reco, Bolão e Azeitona, entre muitos outros. “O Tico-Tico” também foi uma publicação pioneira ao apresentar celebridades estrangeiras que nasceram no começo do século 20 – todas com nomes abrasileirados pela revista, caso de, entre outros, Little Nemo (“O Pequeno Nemo”), Popeye (“Brocoió”), Mickey Mouse (“Ratinho Curioso”) e Felix The Cat (“Gato Maluco”).

 





A versão nacional e o personagem original:
Chiquinho, destaque na revista O Tico-Tico
 desde 1905, e Buster Brown, que foi criado e
publicado a partir de 1902 nos EUA pelo
norte-americano Richard Fenton Outcault


O principal destaque do livro de Azevedo são as ilustrações coloridas e os perfis de colaboradores que marcaram época na revista, entre eles artistas magistrais como Angelo Agostini. Coube a Agostini a honraria de ser um dos principais pioneiros dos quadrinhos no Brasil e no mundo. Seus trabalhos gráficos, que misturavam desenhos e pequenos textos, surgiram ainda nas últimas décadas do século 19 e teriam um marco com “As aventuras de Nhô-Quim”, publicadas entre 1869 e 1883.

Nhô-Quim estreou na historinha ilustrada “Impressões de uma viagem à Corte”, cujo primeiro capítulo foi publicado na revista “Vida Fluminense”, em 30 de janeiro de 1869, apresentando o personagem caipira que se muda para a cidade do Rio de Janeiro e que fica chocado com as novidades da civilização urbana. Com o sucesso de "Nhô-Quim", no mesmo ano seria publicada a primeira ilustração apresentando um outro personagem lendário criado por Agostini: o aventureiro Zé Caipora.





Um gênio da arte da ilustração:
Angelo Agostini, pioneiro na criação de
personagens e de ousadias gráficas


A importância da obra de Agostini é tão grande que, para alguns pesquisadores, Nhô-Quim e Zé Caipora foram o ponto de origem para a criação da revista “O Tico-Tico”. Nhô-Quim também passou a ser o símbolo dos quadrinhos no Brasil e comprova a surpreendente atualidade do trabalho de Agostini, que ainda tem outros méritos de pioneirismo: além de Nhô-Quim rivalizar com Yellow Kid e outros heróis estrangeiros na disputa pelo posto de primeiro dos personagens dos quadrinhos, muitos especialistas defendem que também foi ele o inventor da revista de quadrinhos, pois, em 1886, relançou as aventuras de Zé Caipora em fascículos individuais, encadernados com seis capítulos cada. 



Agostini, primeiro entre seus pares
 


Zé Caipora também consta em outra disputa como o primeiro dos heróis de aventura dos quadrinhos, décadas antes de personagens lendários como "Little Nemo" (1905), Tarzan (1912), Zorro (1920), Jim das Selvas e Flash Gordon (1934), Batman (1939) e super-heróis como Superman (1938), Capitão América e Mulher Maravilha (1941), entre outros. A lista de marcos pioneiros na trajetória de Agostini traz ainda a amada de Zé Caipora, a índia chamada Inaiá, primeira heroína do Brasil e do mundo com conotações eróticas.

Agostini foi homenageado no ano 2000, com a publicação de um catálogo ilustrado pelo Senado Federal. “Aventuras de Nhô-Quim & Zé Caipora: os primeiros quadrinhos brasileiros 1869-1883”, organizado pelo jornalista e pesquisador Athos Eichler Cardoso, traz na íntegra as histórias dos personagens criados por Angelo Agostini, reunindo o que foi publicado nas revistas “Vida Fluminense”, “O Malho” e “Don Quixote”.






Revistinha de vovô: acima, Hully Gee,
mais conhecido por Yellow Kid, criado
em 1895 por Richard Fenton Outcault.
Abaixo, uma amostra das aventuras e das
ousadias gráficas de Zé Caipora e de
Nhô-Quim, no traço de Angelo Agostini






Por conta da estreia de Nhô-Quim, o dia 30 de janeiro foi escolhido como data comemorativa das HQs nacionais. Agostini, sempre atuante na florescente imprensa brasileira, abraçou o projeto e foi um dos mais ativos mentores da novidade da primeira revista em quadrinhos: criou o projeto gráfico e o logotipo de “O Tico-Tico”, além de desenhar as primeiras capas, muitas das ilustrações e algumas histórias completas, como “História do Macaco”, “Chico Caçador” e “A História do Pai João”.



J. Carlos, meu amor, e outras tiras



Além da presença fundamental de Agostini, o livro de Azevedo também chama atenção para outros nomes da equipe de “O Tico-Tico” que estiveram entre os principais artistas nacionais do século passado, caso do carioca J. Carlos, na verdade José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), considerado nosso maior caricaturista e também ilustrador, designer gráfico, escultor, escritor, letrista de samba, autor de teatro de revista, inventor das melindrosas e de muitas capas, páginas e personagens de sucesso em “O Tico-Tico”.

À frente da revista com Agostini desde o primeiro número, J. Carlos foi um de seus principais ilustradores, criando e publicando a série “O talento de Juquinha” e diversos personagens de tiras e histórias completas, entre eles Jujuba e seu pai, Carrapicho, e a impagável negrinha Lamparina, que é considerada sua maior criação nas HQs. Além de Agostini e J. Carlos na linha de frente, também são surpreendentes as criações originais de Luiz Sá, Max Yantok, Alfredo e Oswaldo Storni, Leônidas Freire, Lino Borges, Theo e muitos outros.







 Revistinha de vovô: o pioneiro J. Carlos,
considerado o maior de todos os caricaturistas
brasileiros, e seu maior sucesso nas páginas de
O Tico-Tico, a negrinha Lamparina (1910)



Os saudosistas mais exigentes, entre os colecionadores e pesquisadores, por certo vão preferir a edição de luxo “O Tico-Tico 100 Anos – Centenário da Primeira Revista de Quadrinhos do Brasil”, organizada pelos professores universitários Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos. O álbum conta com colaboração de especialistas como Álvaro de Moya, Antônio Luiz Cagnin, Diamantino Silva, Sérgio Augusto, Franco de Rosa, Sônia Buyten e Marco Aurélio Lucchetti, que assinam capítulos analíticos e reproduzem depoimentos de grandes nomes da literatura e da imprensa que acompanharam as edições semanais e os famosos “Almanaques Tico-Tico”.



Trajetória no século 20



O livro de Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio alerta sobre a fragilidade de nossa memória cultural e destaca que a pioneira entre as revistas em quadrinhos nacionais também é citada em muitos poemas, crônicas, contos e romances, contando entre seus leitores os nomes de ilustres escritores como Carlos Drummond de Andrade e toda a geração dos modernistas, mais Rui Barbosa, Érico Veríssimo, Lygia Fagundes Telles, o sociólogo Gilberto Freyre, o folclorista Luiz Câmara Cascudo, o bibliófilo José Mindlin e centenas de outros, incluindo ainda expoentes da literatura infantil, dos cartuns e do grafite, numa lista extensa de fãs que tem, entre outros, de Ruth Rocha a Jaguar e Ziraldo, de Maurício de Souza a Millôr Fernandes e Henfil.





Além de ilustrações primorosas, “O Tico-Tico, Cem Anos de Revista” traz um brinde simplesmente irresistível para os fãs de HQ: um encarte em fac-símile com a reprodução completa e colorida da raríssima primeira edição da revista, fundada no Rio de Janeiro pelo grupo editorial que também editava “O Malho” (lançada em 1902), sob comando do jornalista Luiz Bartolomeu de Souza e Silva (1866-1932). Sobre o nome da revista há duas versões: seria uma referência ao passarinho típico do Brasil ou ainda uma alusão às escolas Tico-Tico, que apareceram no final do século 19 com a novidade de receber crianças pequenas para alfabetização.

A primeira edição de “O Tico-Tico” é uma história à parte: por erro de impressão, o dia 11 de outubro de 1905, data de lançamento da revista, foi grafado como quinta, e não como quarta-feira. A nova revista – alertam os estudos de Ezequiel de Azevedo, Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos – foi um sucesso imediato pelo ineditismo e pelas qualidades artísticas de seus colaboradores, mas também graças à logística do grupo “O Malho” e sua equipe de profissionais, incluindo parque gráfico e estrutura de distribuição.






Revistinha de vovô: a estreia dos heróis
estrangeiros em O Tico-Tico começa 
com Felix The Cat, rebatizado como
"Gato Maluco", e Mickey Mouse, que foi
apresentado como "Ratinho Curioso"



Disney e super-heróis: ameaça fulminante
 

Uma curiosidade: esgotado no lançamento, o primeiro número da revista rendeu um lucro que não estava previsto pelos editores, tanto que teve sucessivas reimpressões nos meses seguintes. As novas edições de “O Tico-Tico”, semanais a partir do início de 1906, atingiriam a impressionante tiragem inicial de 30 mil exemplares, chegando muitas vezes em sua trajetória ao número de 100 mil exemplares vendidos, sem contar reimpressões de exemplares antigos e reedições em formato almanaque – um sucesso que poucas vezes iria se repetir na trajetória de outras publicações, mesmo considerando as tiragens e vendagens da atualidade.

O Tico-Tico”, que custava 200 Réis, trazia o atrativo de colunas fixas e personagens variados em quatro páginas coloridas e quatro páginas impressas em vermelho, verde e azul. A partir da Segunda Guerra, a chegada dos super-heróis norte-americanos em novas revistas e formatos avançaria como uma ameaça para o sucesso das edições ingênuas de “O Tico-Tico”. O último número semanal saiu em 1957, seguido do lançamento de uma ou outra edição especial, até o final definitivo da revista, em 1977.

Sem nenhum rival à altura, O Tico-Tico” seguiria rentável e imbatível até o final da década de 1930, quando outros jornais e revistas começaram a investir em seções infantis e passaram a importar os quadrinhos produzidos em escala industrial nos Estados Unidos. O humor, a novidade dos quadrinhos, o tom brasileiro de personagens e os joguinhos para preencher ou recortar estavam entre os trunfos principais da revista, mas havia também as atividades de caráter didático, que ajudaram a dar prestígio à revista e garantir seu reconhecimento e importância no meio intelectual.




Já a partir do número 3 começaram a ser narrados em "O Tico-Tico", em forma de quadrinhos, fatos da história do Brasil como “O Descobrimento”, de Leônidas Freire, com ilustrações e legendas, como era comum aos quadrinhos da época. Leônidas também foi o autor de uma série que marcou época, “História Ilustrada – Páginas Relembradas”, publicada em 1910, que abordava o regime de escravidão que vigorou até o final do século 19.



Diversão & educação: fronteiras



Outro trabalho importante na trajetória da revista, pelo que apresentava de inovação em questões pedagógicas, é apontado por Roberto Elísio: trata-se da série em quadrinhos “A vida de Floriano Peixoto”, com texto de A. Plessen e ilustrações de Cícero Valladares. Sobre o caráter didático da revista, há também o depoimento saboroso do poeta Drummond, que em carta a Álvaro de Moya confessa a saudosa lembrança que sentia da revista que o ajudou a aprender a ler e a ver figuras, no lendário ano de 1910. 



 

Segundo Drummond, a primeira reminiscência literária que o sensibilizou não foi de um texto de literatura em verso e prosa, mas legendas e quadrinhos de um personagem de romance – uma versão infantil de “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe (1660–1731), que saiu na revista “O Tico-Tico”. A ilha e o náufrago, em "Infância", segundo poema do livro de estreia de Drummond (“Primeira Poesia”, 1930), fornecem um contraponto marcante à oscilação entre reminiscências da infância e isolamento existencial, temas dos mais frequentes na obra de Drummond.

O poeta, mineiro de Itabira, também declarou que devia a Robinson Crusoé sua primeira emoção literária, pois quando este “conseguiu se mandar da ilha”, o menino Carlito sentiu um nó na garganta, uma emoção produzida por uma personagem literária, um mito. Queria que o herói continuasse lá, solitário e dominador, mas não era bem a solidão da ilha que o encantava e sim a sugestão poética. Para Drummond, menino antigo, “O Tico-Tico” revelou a literatura.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Revistinha de vovô. In: ______. Blog Semióticas, 13 de setembro de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/09/revistinha-de-vovo.html (acessado em .../.../…).


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Veja também "Semióticas: Criança e design em 1900"






Infância


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.


(Publicado em “Alguma Poesia”, de 1930, livro de
estreia do poeta Carlos Drummond de Andrade)






1 de dezembro de 2011

Aninha da ponte








O que é literatura? O que leva alguém a escrever? Estas questões foram apresentadas pelo poeta maior Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em uma crônica publicada no extinto Caderno B do "Jornal do Brasil", em dezembro de 1980. É um texto surpreendente, como muitas outras crônicas de Drummond. Sempre citado e copiado por muitos, com intenções as mais diversas, o texto de Drummond falava de Aninha, aliás Cora Coralina, na época conhecida apenas pelos muitos amigos e pela grande família em Goiás.
Depois da saudação entusiasmada de Drummond (reproduzida abaixo, no final desta página) e de outros cânones do primeiro time da literatura no Brasil, aquela velha senhora passou a ser admirada por um público maior por todo o Brasil. Quase três décadas depois de sua morte, a poeta que nasceu em Goiás Velho, em 1889, e viveu até as vésperas do centenário, em 1985, recebeu um tributo comovente com nova edição, revista e ampliada, da biografia "Cora Coralina – Raízes de Aninha", de Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda, lançamento da Editora Ideias & Letras.









Em entrevista por telefone, Rita Elisa Seda explica que seu interesse pela vida e obra de Cora Coralina surgiu no ano de 1983. "Esta data foi marcante para mim. Foi quando li 'Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais' e meu amor por ela aflorou", revela Seda, recitando alguns dos versos que os leitores da velha senhora também passaram a admirar.

Os primeiros poemas escritos por Cora Coralina, uma seleção de seus textos inéditos, depoimentos de familiares e um vasto acervo fotográfico, recolhido dos álbuns de família e das coleções que a biógrafa organizou por cerca de 20 anos, compõem a homenagem de "Raízes de Aninha". Rita Elisa Seda faz questão de declarar que está satisfeita e realizada com a publicação do trabalho.



Filha, mãe, esposa, avó



"Foi uma pesquisa de muita dedicação e muitas idas e vindas antes da edição do livro", explica a biógrafa, que enumera alguns dos elogios que tem recebido de outros pesquisadores e a repercussão positiva das reportagens sobre o livro publicadas em jornais e revistas, além dos agradecimentos da legião de leitores de Cora Coralina. Rita Seda se identifica logo no começo da entrevista como uma filha, esposa, mãe e avó que já fez um pouco das coisas que mais gosta na vida: filosofia, jornalismo, arqueologia, fotografia, artesanato e literatura.







"Depois que encontrei desde a primeira vez aqueles poemas de Cora Coralina, fiquei encantada. Largava tudo para vê-la em entrevistas na TV e lia tudo que saía sobre ela em jornais e revistas", confessa. Para Rita Seda, que dividiu pesquisa, redação e edição do livro com um amigo de longa data, o doutorando em Sociologia pela UNB Clóvis Britto, "ensaio biográfico" é a melhor definição para o livro que rende tributo à poeta mais conhecida de Goiás.  

O trabalho de Rita Seda e Clóvis Britto, desde seu lançamento, vem sendo saudado como obra fundamental para o estudo da literatura de Cora Coralina. Fundamentados em uma extensa pesquisa, apresentam os escritos da poeta de Goiás e destacam a beleza artística dos poemas, contextualizados no que se refere à trajetória de vida de Aninha, nos acontecimentos da história do Brasil e nos usos e sotaques regionais da língua portuguesa. 



Menina feia da Ponte da Lapa



"Ela hoje está entre os mais consagrados nomes da literatura no Brasil e não era só poeta. Cora Coralina foi também cronista de mão cheia, contista e jornalista", destaca a autora, para quem a forma lírica é o que mais comove e emociona na poeta de Goiás. "Para mim, o que mais me comove é a forma lírica com que ela se mostra em Aninha, a menina feia da Ponte da Lapa”, confessa Seda.




Ela é irresistível, escreveu palavras que encantam assim que o leitor mergulha naquele mundo. Além dos poemas, o que mais me emociona são as crônicas nas quais ela se destaca como a Mulher da Terra", aponta Seda. O livro traz as primeiras poesias, textos inéditos, depoimentos de familiares e o acervo fotográfico que compõem a obra da velha senhora. Fruto de 15 anos de pesquisa e entrevistas, o ensaio biográfico resgata a trajetória de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, que passou à literatura como Cora Coralina.
Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão, Aninha nasceu e foi criada às margens do rio Vermelho, em uma casa que hoje abriga um museu em homenagem à escritora, comprada por sua família no século 19, quando seu avô ainda era uma criança.



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Apesar da pouca escolaridade (ela cursou somente as primeiras séries com uma professora particular chamada Mestra Silvina), começou a escrever os seus primeiros textos aos 14 anos de idade – alguns publicados desde o começo do século 20 pelos jornais de sua cidade natal. O primeiro texto publicado, que segundo a biógrafa a poeta de Goiás citava sempre com orgulho nas entrevistas, foi o conto “Tragédia na Roça”. 



Poeta e doceira



Tendo apenas instrução primária e sendo doceira de profissão por décadas e décadas, Aninha iria notabilizar-se por sua poesia ingênua publicada somente depois dos 70 anos. Poesia ingênua, mas personalíssima, na qual muitos identificam uma sabedoria popular que o passar do tempo foi deixando no passado. Como os versos iniciais de “Minha cidade”, que abre o livro "Melhores poemas de Cora Coralina", seleção póstuma feita por Darcy França Denófrio e publicada pela Global Editora, reunindo poemas inéditos e outros editados em vida pela autora.


Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas, 
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou aninha.

Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando histórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.



 


A sabedoria e a memória da infância preenchem cada verso, cada frase, cada sentido que aflora na literatura personalíssima de Aninha, como ela revela nos primeiros versos de outro poema emblemático, “Antiguidades”, publicado em "Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais":



Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um cesto de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina
em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos
para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.





Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” foi o primeiro livro de Cora Coralina. A primeira edição saiu pela Editora José Olympio em 1965, mas ficou restrita aos círculos literários de Goiás. A segunda edição da obra foi publicada em 1978, pelas Oficinas Gráficas ou Imprensa da Universidade Federal de Goiás. A editora da universidade não havia ainda sido criada, o que só aconteceria em 1980.



Drummond e Estórias Mais



A biógrafa explica que foi um exemplar dessa segunda edição de Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” que caiu por obra do acaso nas mãos de Drummond, o que acabou conferindo prestígio nacional a Cora Coralina, a partir de uma carta que o poeta lhe enviou, por meio da Editora, em julho de 1979. No ano seguinte, Drummond publicaria a crônica no "Jornal do Brasil" que marcou época. A partir daí, Cora Coralina foi saudada com entusiasmo por outros medalhões no panteão da literatura nacional.





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"No diploma que ela recebeu com o título Doutor Honoris Causa está escrito o nome correto", destaca um dos depoimentos citados no livro. "Mas ela assinou o documento naquela solenidade como Cora Coralina, porque se fosse assinar Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ninguém ia saber quem era". Segundo Seda, Cora Coralina incorporou também na vida real cotidiana o nome inventado.

"Desde o dia em que criou esse pseudônimo, é ela e mais ninguém. Acho que é correto dizer que ela incorporou o nome Cora Coralina em sua alma", completa. Rita Seda diz que ainda hoje fica emocionada com fotos, entrevistas e poemas de sua biografada. Para a biógrafa, o trabalho de pesquisa rendeu uma experiência de vida muito intensa, uma vez que aprendeu muito com a pesquisa sobre a poeta de Goiás e sobre si mesma.



"Já plantei várias árvores, escrevi alguns livros e dancei muitos tangos com meu pai. Mas confesso que, dentre tudo isso, a magia de escrever é a que mais me fascina", destaca Seda, que está nos preparativos finais para publicar mais um livro biográfico, dessa vez em nova parceria, dividindo pesquisa e redação com a historiadora Sônia Gabriel.
"Será um livro que vai apresentar uma personalidade única, Eugênia Sereno, uma escritora formidável e quase completamente esquecida, dona de obra tão densa que chega mesmo a ser comparada por alguns estudiosos importantes de literatura com a obra magistral de Guimarães Rosa", conclui Rita Elisa Seda. O título do novo livro: "A Menina dos Vagalumes".

por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Aninha da ponte. In: ______. Blog Semióticas, 1° de dezembro de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/12/aninha-da-ponte.html (acessado em .../.../...).



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1 de novembro de 2011

O primeiro Drummond






Logo após completar 28 anos, no mês de outubro de 1930, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicava pela Imprensa Oficial, em Belo Horizonte, seu primeiro livro, "Alguma Poesia". Naquele mesmo ano, aconteceria a primeira honraria para o poeta, que nasceu em Itabira e viveu longos períodos em Belo Horizonte e Nova Friburgo antes da mudança em definitivo para o Rio de Janeiro, onde passou a maior parte de sua vida: um de seus poemas é declamado na conferência "Poesia Moderníssima do Brasil", feita no curso de férias da Faculdade de Letras de Coimbra, Portugal.

Drummond e sua poesia se tornariam, tempos depois, presenças capitais na literatura e na cultura do Brasil. Porém, nem tudo foi honraria ou homenagem desde o começo. Desde o primeiro livro, o poeta que durante a maior parte da vida foi funcionário público segue à risca a libertação proposta por Mário e Oswald de Andrade, com o verso livre e abolição das amarras tanto das rimas quanto da métrica da poesia tradicional. Contudo, a partir das primeiras semanas, logo que começou a circular, o primeiro livro de Drummond também seria objeto de polêmicas e críticas terríveis.

Entre outros, um artigo zombeteiro sobre “Alguma Poesia”, assinado por um tal Medeiros e Albuquerque anunciava na imprensa: "O título diz alguma poesia; mas é inteiramente inexato: não há no volume nenhuma poesia. Se ele dissesse 'alguma tipografia', seria exato, porque se trata de um volume bonito, bem impresso. Mas oco. Não tem nada dentro".






Álbum de Família: no alto, Drummond
aos 80, em 1982, fotografado por
Rogério Reis. Acima, o pequeno
Drummond aos dois anos de idade,
em 1904, retratado por Brás Martins
da Costa, pioneiro da fotografia em
Minas Gerais. Abaixo, Drummond
e sua filha Maria Julieta passeiam
na avenida, em Belo Horizonte, 1933








Ironias do destino: as críticas ferinas de Medeiros passariam às areias do esquecimento, enquanto os versos de Drummond passariam à condição de clássicos instantâneos, fazendo dele presença marcante da literatura nacional, aclamado nas décadas seguintes como o mais importante poeta brasileiro do século 20. O livro de estreia de Drummond, há muito tempo item de colecionadores, retornou agora às livrarias em edição comemorativa do Instituto Moreira Salles: "Alguma Poesia - O Livro em seu Tempo".

Organizado por Eucanaã Ferraz, o primeiro livro de poeta traz um fac-símile do volume que pertenceu ao próprio Drummond, com anotações manuscritas de mudanças que o poeta iria incorporar nas edições seguintes. A nova edição – concluída com a colaboração dos netos de Drummond, Pedro Augusto e Luis Mauricio Graña Drummond, e da Fundação Casa de Rui Barbosa, especificamente do seu Arquivo Museu de Literatura Brasileira, onde estão depositados os recortes, fotos e cartas que ilustram o livro – também traz cartas de amigos e críticos, bem como uma amostra de resenhas e artigos publicados por jornais e revistas em 1930, data da primeira publicação.






No texto de apresentação, Eucanaã Ferraz traça o percurso de Drummond de 1924 até maio de 1930, data da publicação original, e destaca a importância da correspondência que o poeta trocou com o paulista Mário de Andrade (1893-1945) – a quem o livro é dedicado e cujas observações foram decisivas para a publicação – mostrando que "Alguma Poesia" fez o ano de 1930 entrar para a história da literatura brasileira.



Edições Pindorama



Drummond, que somava 28 anos na época do primeiro livro, enfrentou as dificuldades habituais de um iniciante: sob o selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, romancista, tipógrafo e seu amigo pessoal, foram impressos 500 exemplares, pagos do seu próprio bolso sob a chancela da Imprensa Oficial (em que trabalhava como redator), mediante descontos em sua folha de vencimentos.






O primeiro Drummond: acima, ao lado de um
dos profetas em pedra sabão esculpidos por
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho,
em Congonhas, Minas Gerais, em fotografia
da década de 1940. Abaixo, no Rio de Janeiro,
em fotografia da década de 1980.




Entre outros belíssimos destaques, "Alguma Poesia" abre com "Poema de Sete Faces" ("Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ falou: Vai, Carlos! ser gauche na vida) e traz o emblemático "No Meio do Caminho" ("No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra"), que Mario de Andrade considerou formidável, mas fruto de um certo cansaço intelectual. 

Comovente e surpreendente ainda hoje, "Alguma Poesia" traz facetas as mais diversas – de breves poemas-piadas até construções mais elaboradas, de reflexão amarga, sobre o absurdo da existência e o impasse entre o sentimento do artista e a sociedade, que revelam uma das marcas que Drummond aperfeiçoaria até seus últimos escritos, em meados da década de 1980, com seu senso particular de observação minuciosa da vida cotidiana.






No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra. 


Sem nenhuma dúvida, "No meio do caminho" está entre os mais conhecidos e dos mais polêmicos poemas da literatura brasileira. Com apenas 10 versos, que na realidade se reduzem a três, pois repete muitas vezes umas poucas palavras, o poema foi escrito na década de 1920 e publicado pela primeira vez em julho de 1928, no número 3 da “Revista de Antropofagia”, dirigida por dos medalhões do modernismo no Brasil, o paulista Oswald de Andrade (1890-1954).






Acima, quatro fotografias de Drummond
em casa, no apartamento em que morou
em Copacabana, no Rio de Janeiro, nas
décadas de 1950 (no alto) e 1960, do
acervo atualmente sob a guarda do
Instituto Moreira Salles. Abaixo,
uma sequência de fotografias do
acervo CDA do IMS registra
o poeta em 1982, na época da
 comemoração dos 80 anos






Desde sua primeira edição, “No meio do caminho” serve como divisor de águas – e também o grande pomo da discórdia entre os mais conservadores e os defensores da novidade da estética modernista. Em 1967, para marcar os 40 anos de publicação daqueles versos polêmicos, o próprio Carlos Drummond de Andrade trouxe a público "Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de um Poema".



Poeminha da pedra



O livro que Drummond apresentava reunia algo inusitado: a fortuna crítica de seu mais célebre poema. A edição apresentava os versos polêmicos traduzido para muitas línguas, discutidos, parodiados, atacados, interpretados, louvados - o poema já estava definitivamente incorporado à cultura nacional pelos intelectuais e também por pessoas simples, que o aplicavam à vida cotidiana.






Agora, mais de 40 anos depois, o livro que faz o inventário do poema também retornou às livrarias em publicação produzida pelo Instituto Moreira Salles. A nova edição, revista e ampliada, também tem organização do consultor de literatura do IMS, Eucanaã Ferraz. Para o organizador, o livro é uma espécie de resposta de Drummond às duras críticas recebida pelo "poeminha da pedra".

Em entrevista por telefone, Eucanaã Ferraz destaca que houve um tempo em que um trabalho miúdo e constante de difamação do modernismo tomava como exemplo da pior literatura o poema "No meio do caminho". Ferraz explica que os insultos ao poema transformaram o próprio texto em obstáculo ao escritor, como a pedra criada pelos seus versos. 

 















Drummond, com ironia, resolveu então publicar todas as críticas sobre seu poema e devolveu aos seus leitores os documentos produzidos ao longo de 40 anos. É um livro único, sem similar na literatura brasileira, porque é o próprio poeta que resgata a vida intensa que o poema alcançou", explica Ferraz.

O livro traz todo o conteúdo de sua versão original: texto de apresentação de Arnaldo Saraiva e fortuna crítica do poema mais discutido do modernismo brasileiro. A publicação do IMS oferece também duas seções inéditas: "Ainda a pedra", que complementa a seleção feita por Drummond com textos, charges e ilustrações sobre o poema posteriores a 1967; e "Biografia da biografia", que reúne comentários sobre o livro desde seu lançamento. 

 





Eucanaã Ferraz, autor de uma dissertação de mestrado sobre Carlos Drummond de Andrade, confessa que foi extremamente prazeroso organizar a nova edição da "Biografia de um Poema". Segundo ele, a publicação original com o trabalho do poeta estava completa e quase irretocável. 

"Depois de publicar o livro, em 1967, o próprio Drummond continuou, talvez por costume, a arquivar a fortuna crítica relativa a 'No meio do caminho'. Drummond guardou muita coisa que saiu sobre ele ao longo da vida, tudo separado com muito cuidado em fichas e pastas, por assunto ou pelo sobrenome do crítico", destaca o organizador das novas edições de “Alguma Poesia” e "Uma Pedra no Meio do Caminho - Biografia de um Poema".



Drummondiana



O lançamento dos dois livros foi o ponto de partida para o projeto de uma futura "Drummondiana" do IMS, que promoveu no dia 31 de outubro o primeiro “Dia D”, com homenagens ao poeta em várias capitais e cidades de interior do Brasil. A proposta é que a partir de agora, o “Dia D” se repita todo ano, na data de nascimento do poeta.

"O neto de Drummond, Pedro Augusto Graña, com seus dois irmãos, doou todo o acervo de Drummond para o IMS", explica Ferraz. "Estes dois livros são a etapa inicial de um projeto que poderá sim render outras edições no futuro, como fruto do trabalho de pesquisa e de organização do acervo que é muito extenso e abrangente". 








Drummond em Copacabana: acima,
o poeta em casa, em 1982, quando
completava 80 anos; caminhando pelo
calçadão de Copacabana; e observando a
paisagem na Avenida Atlântica, no Posto 6 de
Copacabana, fotografado por Rogério Reis.
A fotografia seria modelo para a estátua
de bronze criada pelo mineiro Leo Santana e
instalada no mesmo local, em outubro de 2002,
em homenagem ao centenário do poeta. Abaixo,
um detalhe da estátua, uma outra fotografia
de Rogério Reis que registra o poeta no mesmo
banco do Posto 6 e uma imagem da estátua
com a inscrição de um verso de Drummond:

No mar estava escrita uma cidade



Uma parte do acervo de Drummond, a mais literária, foi doada em vida pelo poeta para a Fundação Casa de Rui Barbosa. A parte restante, que está agora no IMS, inclui os originais que deram origem aos dois primeiros livros e gerou uma terceira publicação, que acaba de ser lançada. "Trata-se também de uma edição também fac-similar, reunindo dedicatórias que Drummond fez durante a vida", revela Ferraz.

O pesquisador e editor recorda que o poeta tinha o hábito de copiar em um caderno todas as dedicatórias que enviava para os amigos. "O novo livro reúne cerca de 500 dedicatórias, todas inéditas, que são verdadeiros poemas. A edição inclui o título de cada livro, quem recebeu a dedicatória, a data e a transcrição da dedicatória na letra do próprio Drummond", completa.






Ferraz também aponta o lugar de destaque, indiscutível, que Drummond ocupa não somente na literatura brasileira, mas em toda a literatura em língua portuguesa. "Dummond é o maior de todos os poetas da nossa língua. É maior até que Camões, se considerarmos que Drummond, na modernidade, atingiu toda a potencialidade da língua portuguesa. Não houve experiência estética que Drummond não tenha feito. Com sua poesia, a língua foi levada ao ponto máximo", destaca.

E os defensores de outro gigante da poesia em língua portuguesa, Fernando Pessoa? "Pessoa é outro poeta que tocou no ponto máximo da nossa língua, mas Drummond foi mais longe que ele, sem nenhuma dúvida", polemiza Ferraz. "Fernando Pessoa e seus heterônimos fragmentaram o sujeito com radicalidade, tocaram na complexidade filosófica da personalidade, mas Drummond foi muito mais vasto, mais ambicioso", completa.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. O primeiro Drummond. In: _____. Blog Semióticas, 1° de novembro de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/11/drummond.html (acessado em .../.../…).



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