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13 de agosto de 2019

Vik Muniz na Arte Sacra









A história da arte é a história da luta das imagens. 

–– Carl Einstein.   








São fotografias. Mas um olhar atento descobre logo, nos detalhes, materiais surpreendentes que compõem em pequenas partes cada uma das imagens. Tinta, açúcar, molho de tomate, chocolate, geleia, algodão, botões, fragmentos de plástico, pedras, madeira, folhas e caules de plantas, terra, metal, tiras e remendos de anúncios de publicidade, pedaços de folhetos coloridos, de revistas, de jornais, de fitas, de embalagens para presentes e de outros recortes de papel formam as novas obras que Vik Muniz montou para criar ilusões de ótica e depois fotografou. Batizada de “Imaginária”, a série, que reúne imponentes fotografias, 15 no total, ampliadas com dois metros de altura e emolduradas, como os modelos solenes das pinturas originais de santos católicos a que fazem referência, está em destaque no festival de fotografia Rencontres d’Arles (veja o link no final deste artigo), realizado a cada ano entre julho e setembro na cidade de Arles, às margens do mar Mediterrâneo, no sul da França.

Criado em 1970, o festival se mantém como um dos grandes eventos internacionais de fotografia e reúne dezenas de mostras que vão dos acervos históricos até as novas tendências, os experimentos recentes em novas tecnologias de câmeras e painéis de atualidades sobre fotojornalismo. As imagens de Vik Muniz frequentaram o festival nas últimas duas décadas como amostragens temáticas e em séries inéditas – como esta “Imaginária”, que pela primeira vez é exibida na Europa. Em entrevistas e no dossiê de imprensa distribuídos pela organização do festival, ele explica que a intenção foi homenagear grandes artistas que criaram imagens que há séculos fazem parte do imaginário coletivo, mas artigos na imprensa internacional destacam que a nova série, colorida e fulgurante, não esconde um melancólico tom de “réquiem”, de celebração fúnebre, em relação direta com a violência e as ações de destruição em vários níveis provocadas pelo governo de extrema-direita e de orientação fascista que em 2019 tomou o poder no Brasil.






Vik Muniz na Arte Sacra: no alto, retrato do artista por
Carolyn Cole. Acima e abaixo, as releituras para imagens
sagradas dos santos católicos segundo Vik Muniz: acima,
Santo Agostinho (após Philippe de Champaigne); abaixo,
Crucificação (após Thomas Eakins) e Imaculada Conceição
(após Giovanni Battista Tiepolo). Todas as imagens fazem
parte do dossiê de imprensa do festival Rencontres d’Arles









O simulacro da cópia e o peso da tradição



Diante das novas experiências de Vik Muniz com sua “Imaginária”, também são inevitáveis as referências sobre questões como o valor de culto e o valor de exposição, as interfaces entre o original e suas cópias, assim como as aproximações e as relações milenares entre a religião e a história da arte, entre o sagrado e o profano. Ao reconstruir formas e imagens tradicionais de obras de arte a partir de simulacros imprevistos, o artista provoca uma mistura por certo iconoclasta, mas que permite também interpretações extremas, em variações pontuadas tanto por veneração como por toques generosos de ousadia e ironia, diante do peso da tradição. Ao tomar como modelo figuras de devoção, perenes em seu significado e sua originalidade, as réplicas de Vik Muniz questionam a representação da obra de arte e o fascínio que o mistério da fé exerce, há séculos, sobre os grandes artistas.

A criação artística sempre teve fascinação pelo mistério da fé”, argumenta Vik Muniz em um breve depoimento reproduzido no dossiê de imprensa distribuído pela organização do festival. “A arte mistura elementos fundamentais que vêm da crença e das experiências coletivas e individuais para promover um consenso sobre a realidade, seja ela presentificada ou apenas imaginada. Com a obra de arte, a verossimilhança não é mais que uma ilusão. Escrever não é descrever, pintar não é evocar, mesmo se constatamos que grande parte do que admiramos na história da arte está, objetivamente, relacionada à arte sacra”, conclui. Segundo a descrição apresentada pelos organizadores da exposição, a nova série de Vik Muniz explora, incansavelmente, as possibilidades da fotografia e as mais variadas possibilidades da arte que buscam uma tradução para o indizível.






Vik Muniz na Arte Sacra: acima, a releitura
para Santa Inês (após Simon Vouet). Abaixo,
Maria Madalena (após Giovanni Girolamo Savoldo)
e São João Batista no Deserto (após Caravaggio)










Realidade e representação: enganar o olho



O indizível, no caso da série “Imaginária”, provoca um olhar que nunca é neutro nem desinteressado. Diante das imagens que o artista Vik Muniz selecionou e “montou” com a intenção de construir uma ilusão de ótica, provocando uma semelhança inegável e irrecusável com um modelo religioso pré-existente, há uma quase obrigatória curiosidade que enlaça a experiência da percepção à identificação dos detalhes. Identificado pelo olhar mais atento, cada detalhe interroga o pensamento e leva o observador a considerar tanto o modelo original como a cópia que no momento se apresenta e a pensar, talvez, na origem da própria representação, na remota pré-história da arte, no sentido que ela evoca e no que ela desencadeia sobre o que seja falso ou verdadeiro.

A partir da brutalidade apenas aparente dos materiais utilizados, os pequenos fragmentos foram reunidos para “enganar o olho” e formar a imagem. Ao final do processo de montagem, o artista registrou em uma fotografia – porque a arte, neste caso específico, também é a arte da fotografia. Conhecidas desde a Antiguidade Clássica pelos mestres da arquitetura e da pintura, as técnicas de “trompe l’oeil” (em francês, “enganar o olho”) não surgem como novidade nas obras de Vik Muniz. Na verdade, são estratégias presentes na maioria de sua produção, seja em recriações de obras de arte muito conhecidas, seja em retratos de pessoas famosas, ou em recomposições de mosaicos sobrepostos e fotografados – estratégias muito semelhantes às montagens e colagens criadas pelos primeiros mestres do cubismo, Pablo Picasso e Georges Braque, além de outros artistas das vanguardas, desde o começo do século 20, e que desde a década de 1960 tornaram-se uma constante na Pop Art de nomes como Andy Warhol, Jasper Johns, Peter Blake, Robert Rauschenberg, Tom Wesselmann, Claes Oldenburg e Roy Lichtenstein, ou de brasileiros como Nelson Leirner, Athos Bulcão, Hélio Oiticica, Lygia Clark e Regina Silveira, entre outros.





Vik Muniz na Arte Sacra: acima, a releitura
para São Tiago, o Maior (após Guido Reni).
Abaixo, São Pedro (após Girolamo Batoni)
e Santa Luzia (imagem da tradição)







Apagando as diferenças



A principal novidade das práticas de Vik Muniz, em especial nesta “Imaginária”, talvez esteja na “remediação”, ou no uso de novas mídias e tecnologias para reconstituir ou reconfigurar, reinventando ou apagando a diferença entre novas formas de expressão e outras já cristalizadas em formas tradicionais. Ainda que o conceito de “remediação” seja um neologismo proposto inicialmente por Jay Bolter e Richard Grusin (no livro “Remediation: Understanding New Media”, publicado no ano 2000 por The MIT Press, Cambridge, Massachusetts, USA) no contexto das teorias da literatura e da comunicação, para refletir sobre novas versões baseadas nos escritos de ficção científica e horror de Howard Phillips Lovecraft (1890-1937), o termo tem equivalências com as estratégias de Vik Muniz em que uma mídia “toma emprestado” de outra as questões de forma e conteúdo, bem como nas relações com questões específicas da história da arte, tais como o valor de culto e o valor de exposição, ou nas referências diretas às relações fluidas e instáveis entre as categorias de “cultura de massa” e de “cultura erudita”.








Vik Muniz na Arte Sacra: acima, a releitura
para São Sebastião (após José de Ribera) e
Santa Rita de Cássia (imagem da tradição).
Abaixo, a releitura para Santo Antônio de Pádua
(após Tanzio da Varallo) e Santa Terezinha
(segundo imagem da tradição). No final da página,
releituras de Vik Muniz para São Miguel Arcanjo
(após Darko Topalski) e para São Jorge e o Dragão
(após Gustave Moreau)








No contraste ou na fusão da riqueza das formas, situando em uma mesma obra elementos da expressão labiríntica e fragmentária pela escultura, pelo desenho, pela pintura e pela fotografia, Vik Muniz reúne e apresenta em um mesmo plano vários discursos simbólicos e vários objetos que constroem ou se transformam em uma só imagem, que por sua vez reproduz por semelhança uma imagem anterior muito conhecida. O paradoxo de atrelar o mosaico e o múltiplo à construção de uma só imagem é também um alerta ao observador, porque transforma a realidade e a representação em coisas semelhantes e equivalentes. Observar com atenção a metamorfose dos detalhes reunidos pelo artista, que se fundem para constituir a ilusão de uma forma conjunta, torna-se também uma questão ideológica, porque denuncia que não há mais lugar para o olhar ingênuo e que a visão não pode mais ser separada da interpretação.



por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Vik Muniz na Arte Sacra. In: ______. Blog Semióticas, 13 de agosto de 2019. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2019/08/vik-muniz-na-arte-sacra.html (acessado em .../.../...).


Para uma visita virtual às exposições do Rencontres d'Arles,  clique aqui.


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11 de novembro de 2018

Performance com Marina Abramovic









O seu papel como artista, Marina Abramovic
acredita com uma segurança que pode parecer
ingênua e uma humildade que desarma qualquer
impulso para nos irritarmos, é levar o seu público
através de uma passagem ansiosa para um lugar de
libertação do que quer que os estava a limitar.
Em todas as culturas antigas há rituais para
mortificar o corpo como forma de compreender
que a energia da alma é indestrutível.

(Judith Thurman)    


  





Poucos artistas contemporâneos levaram a experiência com a arte a extremos tão aflitivos como Marina Abramovic. Com ela, os trabalhos e apelos do fazer artístico são imprevistos, intensos, incômodos –– são questionamentos sempre polêmicos e quase sempre violentos que exploram a relação entre performer e público, que expõem os limites do corpo, as possibilidades da mente, e desafiam o perigo. Uma retrospectiva do seu extenso acervo construído em cinco décadas de atuação e de provocação permanente está agora em cartaz em Florença, na Itália. “Marina Abramovic, The Cleaner”, exposição aberta ao público no tradicional Palazzo Strozzi de setembro de 2018 a 20 de janeiro de 2019, que depois seguirá um roteiro itinerante por outros países, apresenta e reapresenta as experiências radicais da artista que revolucionou a arte performática, colocando seu corpo à prova, como sujeito e como objeto, para sondar seus limites externos e seu potencial de expressão.

Com links para transmissão on-line de um cronograma de eventos, dando continuidade às atividades transmitidas pela internet (como as exposições recentes no mesmo espaço de nomes também célebres e controversos da arte contemporânea como o chinês Ai Weiwei e o norte-americano Bill Viola), a retrospectiva que o Palazzo Strozzi dedica a Marina Abramovic reúne um calendário de atividades incomuns para um museu de arte que inclui performances em multimídia e re-performances ao vivo, com atores selecionados e treinados pela artista, para mais de 100 trabalhos de sua trajetória, oferecendo ao visitante uma visão geral de suas obras mais instigantes desde os anos 1960 até experiências recentes. Nas salas do Palazzo Strozzi o visitante pode encontrar a presença da própria artista, ao vivo, e as re-performances com atores em ambientes sedutores que incluem telões para exibição de filmes, vídeos, fotografias, pinturas e objetos em diversas instalações que provocam e comovem. Além de atividades dirigidas para crianças, escolas, famílias, estudantes de arte ou universitários, o calendário anuncia os eventos com a própria artista em conferências e performances (veja os links para a exposição e cronogramas do Palazzo Strozzi no final deste artigo).








Performance com Marina Abramovic: no alto,
Anima Munditrabalho da artista em 1983 em
parceria com o performer Frank Uwe Laysiepen,
mais conhecido como Ulayna recriação da cena
bíblica em que Maria recebe nos braços o corpo de
Cristo após a Crucificação. Acima, a artista em uma
das performances que integram a série de oficinas
nomeadas como Limpando a casa, de onde saiu
o nome da exposição atual em Florença, The cleaner
(ou “Il pulitore”, em italino). Abaixo, Marina e Ulay
na performance AAA AAA em 1978, em Amsterdã,
exibida em filme na exposição do Palazzo Strozzi 












Arte em relação com o corpo


A artista  que se autodefine como “cidadã do mundo” e como “avó da arte da performance” nasceu em Belgrado, antiga Iugoslávia, hoje capital da Sérvia, em 1946, ao final da Segunda Guerra Mundial. Filha de dirigentes do Partido Comunista, Marina Abramovic estudou na Academia de Belas-Artes em Belgrado e em Zagreb, onde teve dedicação a cursos de artes plásticas e artes cênicas. No final dos anos 1960, ainda morando em seu país de origem, deu início a séries de performances que provocaram escândalo e chamaram atenção para seu nome –– entre elas apostas em limites da relação com o corpo e com o público nomeadas “Brincadeiras com facas” (Rhythm 10), “Deitar no meio de uma estrela de fogo” (Rhythm 5), “Ficar sob efeito de drogas controladas” (Rhythm 2) e “Estar semi-nua à disposição dos espectadores” (Rhythm 0), esta última retomada e atualizada em 2010 no MoMA, Museu de Arte Moderna de Nova York, quando ela esteve presente durante os três meses da exposição: extensas filas se formaram com os interessados em ficar um minuto em silêncio, sentados, imóveis, diante da artista.

Em 1976, Marina Abramovic mudou-se para Amsterdã, Holanda, onde encontrou seu parceiro mais constante, o artista alemão Frank Uwe Laysiepen, mais conhecido como Ulay. O trabalho dos dois consistiu em testar e provocar os limites do público em intransigentes façanhas de resistência e loucura, a que os dois chamaram "trabalhos de relação", e que algumas vezes terminaram com a intervenção policial depois de denúncias dos mais conservadores sobre comportamento obsceno ou ameaças de violência. Uma destas performances, nomeada “Imponderabilia”, foi apresentada pela primeira vez na Itália, em Bolonha, 1977, na Galeria Comunale d’Arte Moderna. A aparente simplicidade da representação contrasta com altos níveis de complexidade: em um portal de passagem estreita, o casal está nu, imóvel, um corpo diante do outro, olhando-se fixamente. Quem quiser chegar do outro lado da sala para continuar a visita à exposição tem que passar entre os dois e tem que passar de lado, optando por se virar para um ou para o outro.








Performance com Marina Abramovic: acima,
Imponderabilia (à esquerda, a re-performance
em cartaz na exposição do Palazzo Strozzi; à direita,
performance original, com Marina e Ulay em 1977,
em Bolonha, na Itália, que foi interrompida pela
polícia). Abaixo, uma das salas da exposição atual
com Luminosidade casa-espírito, apresentada ao vivo,
com atores (re-performance), na exposição em Florença;
e a performance original Rhythm 5, realizada em 1974
por Marina no Student Cultural Center, em Belgrado












O incômodo da nudez



A situação de nudez cria, naturalmente, desconforto, como em todas as performances e trabalhos que Marina Abramovic propõe, com ou sem Ulay. Mas a nudez ou o desconforto não impedem várias pessoas de avançar, largando bolsas ou casacos, e passarem roçando nos dois corpos nus. Geralmente, do outro lado há alguém que fotografa o momento. A primeira performance de “Imponderabilia” em Bolonha foi interrompida muito antes das sete horas previstas, pela polícia, chamada para pôr fim ao “comportamento indecente” dos artistas. A mesma peça pode agora ser vista no Palazzo Strozzi, em Florença, integrada na retrospectiva de Marina Abramovic, reencenada por atores nus.

Desde a abertura da exposição na Itália, entretanto, não houve, ainda, nenhuma intervenção policial e nem protesto do público tentando impedir ou proibir as performances, mas as muitas fotos e vídeos feitos pelos muitos visitantes são, neste tempo de redes sociais, completamente invisíveis no espaço público. A tentativa de publicar fotografias da nudez da artista ou dos atores das re-performances em uma conta de Facebook, por exemplo, é imediatamente impedida por mensagens automáticas da empresa de Mark Zuckerberg avisando que a imagem é proibida por apresentar nus e violar ou não respeitar as regras da comunidade. Evoluiu a tecnologia, mas a arte de Marina Abramovic permanece plena de ousadia e um tanto incômoda. E tanto agora, como antes, continua a provocar os instintos mais repressores e a intolerância da censura.






Performance com Marina Abramovic: acima,
a artista nos bastidores, durante a montagem da
exposição em 2010 no MoMA, em Nova York. Abaixo,
registros de duas das performances do início de sua
trajetória que provocaram escândalo e chamaram
atenção para seu nome: Rhytm 10 (de 1973), em que
ela crava uma faca entre os dedos, em ritmo crescente,
ferindo-se várias vezes durante o processo; e
Relação no espaço, um dos primeiros trabalhos
da parceria na vida e na arte com Ulay










Performance e vida cotidiana



O encontro da artista em 1975 com Ulay, filho de um soldado nazista, nascido no mesmo dia que ela, 30 de novembro (Marina nasceu em 1946 e Ulay em 1943), marcou definitivamente sua trajetória e abriu novas perspectivas para as experiências levadas ao limite. Depois das obras mais tradicionais em pintura figurativa e pintura com abstrações em sua juventude, e depois das primeiras experiências radicais de performances em que o seu próprio corpo era o suporte, a fase de parceria com Ulay durou exatos 12 anos e estendeu o trabalho de performance para todos os momentos da vida cotidiana, registrados em peças que marcaram época e que sobreviveram em filmes e fotografias.

Entre os trabalhos mais conhecidos da parceria entre Marina e Ulay estão “Breathing In / Breathing Out” (em que um respirava para dentro da boca do outro durante 19 minutos), “Light / Dark” (em que os dois se esbofeteavam criando um ritmo durante 20 minutos), “AAA AAA” (em que ambos gritavam desesperadamente, cara a cara, durante 15 minutos), “Relação no espaço" (os dois correm de pontos opostos, completamente nus, e passam um pelo outro, repetindo o movimento durante 58 minutos, até que no último momento colidem, correndo em alta velocidade) ou “Rest Energy” (Energia de repouso), de 1980, talvez a cena mais angustiante, entre tantas outras, na qual Marina segura um arco e Ulay segura uma flecha apontada para o coração dela, ambos em uma posição de evidente desequilíbrio, durante quatro minutos e 10 segundos. A tensão e o perigo iminente provocaram, como sempre, desconforto e reações extremas do público.





Performance com Marina Abramovic: acima,
Rest energia (Energia de repouso), da parceria com
Ulay. Abaixo, o reencontro de surpresa do casal
em 2010 no MoMA, depois de duas décadas:
Ulay sentou-se à frente de Marina e os dois
ficaram emocionados e emocionaram o público








Arte em novas fronteiras



Durante o período de 12 anos da parceria, o casal morou em uma van Citroën de cor preta na maior parte do convívio (a van também está em exposição, aberta ao público, no pátio do Palazzo Strozzi) e teve aproximação maior com questões místicas e espirituais em temporadas e performances que incluíram viagens pelos cinco continentes –– com momentos históricos em uma tribo de nativos na Austrália ou em rituais com monges budistas no Tibete. O final da relação em 1988 também foi uma performance, monumental, nomeada em comum acordo pelos dois como “The Lovers” (Os amantes), com duração de três meses registrada por câmeras de fotografia e vídeo: cada um caminhou de um ponto extremo da Grande Muralha da China até se encontrarem, no meio do trajeto, para se despedirem um do outro com um demorado e afetuoso abraço de adeus.

Sem Ulay, nas últimas décadas, Marina Abramovic seguiu em direção a novas fronteiras: fez uma parceria com o dramaturgo britânico Robert Wilson para a montagem de um espetáculo teatral chamado "A vida e a morte de Marina Abramovic", apresentado com trilha sonora de Antony Hegarty em 2011 no festival internacional de Manchester, Inglaterra, e em 2012 no Teatro Basel, na Suíça, com Marina dividindo a autoria com Robert Wilson e dividindo as cenas no palco com o ator Willem Dafoe; e passou a investir no treinamento de atores para novas performances e para retomar antigos trabalhos, no que ela chama de re-performances ao vivo, como as que agora ela apresenta em Florença.

Sobre as críticas proibitivas de um ou outro teórico mais purista, que insista em defender o caráter da unicidade das performances, tal como elas surgiram no final da década de 1960, Marina Abramovic argumenta que a montagem em re-performance ao vivo é exatamente isto: uma forma de arte cênica e presencial para fazer perdurarem trabalhos que têm natureza efêmera, ao contrário do que ela mesmo professava nos anos 1970, quando havia um consenso defendendo que as performances eram únicas e irrepetíveis, o que as distanciava radicalmente do espetáculo de teatro. Nas duas últimas décadas, a artista também retornou à sua terra natal para buscar inspiração para trabalhos como “Barroco dos Balcãs” (1997), que traduz de forma simbólica as tragédias da Guerra da Bósnia. Apresentada na Bienal de Veneza, rendeu a Marina Abramovic o prêmio máximo do evento, o Leone d’Oro.










Performance com Marina Abramovic: acima,
Vida e morte de Marina Abramovic, parceria da
artista com o dramaturgo britânico Robert Wilson
apresentada nos palcos do festival internacional de
Manchester em 2011 e no Teatro Basel, na Suíça,
em 2012. Abaixo, Barroco dos Balcãs, uma
performance com ossos de animais premiada com o
Leone d’Oro no Festival de Veneza em 1997





O espaço além



Também ambientadas em sua terra natal são “O Herói” (2001), performance dedicada a seu pai, que lutou na resistência contra nazistas e fascistas, durante a Segunda Guerra, e “Épico Balkaniano”, instalação com três telões e imagens individuais de Marina, seu pai, sua mãe – somente Marina fala, contando histórias macabras sobre sua infância, na fronteira entre a realidade da memória e a imaginação fabulosa. Outra referência à sua terra natal e aos cenários de guerra aparece em destaque em "A casa com vista para o mar" (2002), apresentada na Galeria Sean Kelly, Nova York: durante 12 dias, de forma ininterrupta, ela ficou em completo silêncio e em completo jejum, observada pelos visitantes em uma estrutura suspensa que teve como único acesso escadas feitas com facas afiadas.

A fase mais recente da trajetória da artista avança pelo misticismo: em “Contando o arroz”, de 2015, criada como parte de uma série de oficinas nomeadas como “Limpando a casa” (também apresentadas em Florença e de onde saiu o nome da exposição atual, “The cleaner”, ou “Il pulitore”, em italiano), a artista propõe ao público um isolamento com fones de ouvido à prova de som para cada um, sentado à mesa, separar o arroz branco misturado a lentilhas pretas, anotando em uma folha o número de grãos – um convite à reflexão e à conexão consigo mesmo em busca de calma e concentração. Em “Objetos transitórios”, também de 2015, ela apresenta ferramentas incomuns feitas de cristais de quartzo e outros materiais frágeis para serem manuseadas com cuidado, provocando viagens interiores de meditação e transcendência.






Performance com Marina Abramovic: acima,
A casa com vista para o mar (imagem da performance
original de 2002), uma alegoria sobre os cenários da
Guerra dos Balcãs. Abaixo, cenas do documentário
Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil










Com retrospectivas de seu trabalho realizadas nos últimos anos em diversos países, incluindo uma temporada no Sesc Pompeia em São Paulo, em 2015 (a primeira exposição retrospectiva da artista apresentada em um país da América Latina), o capítulo mais recente de sua trajetória de experimentações também se passa no Brasil: em parceria com o diretor Marco Del Fiol, Marina Abramovic apresenta em um documentário, “Espaço Além”, uma viagem esotérica de 87 minutos com uma série de performances e registros audiovisuais sobre lugares místicos, sobre preces de invocação e sobre cultos de devoção muito diferentes entre si. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 2016 e segue sua trajetória de exibição em outros países e em festivais pelo mundo afora.

No “Espaço Além”, Marina Abramovic é a protagonista e a voz narrativa que tudo conduz. Com sua equipe de produção, a artista pesquisou e visitou, a partir de 2012, em diversos períodos, comunidades espirituais que incluem, entre outros cenários e ambientações, dos diversos rituais que convivem no Vale do Amanhecer, em Brasília, ao xamanismo na Chapada Diamantina, e daí a momentos de emoção e reflexão no candomblé da Bahia, nas cerimônias com chás de ayahuasca, nas benzeções tradicionais em Goiás, nas simpatias com sessões em banhos de ervas ou de lama, nas curas operadas por médiuns, por pessoas comuns, por cristais e outras pedras de poder que nomearam há séculos o território de Minas Gerais. Uma frase de Marina Abramovic, em algum momento do filme, talvez seja uma tradução fiel sobre sua trajetória: ela diz que sempre quis, desde o começo, em seu país de origem, ampliar a consciência através da arte para que outras pessoas pudessem ver a si mesmas em seu próprio reflexo. A artista, em sua presença imponente, polêmica e benevolente, não se esconde.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Performance com Marina Abramovic. In: ______. Blog Semióticas, 11 de novembro de 2018. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2018/11/performance-com-marina-abramovic.html (acessado em .../.../...).


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