Grandes tesouros da arte produzida do século 15 ao
século 18 estão reunidos na exposição itinerante “Mestres da Gravura –
Coleção Fundação Biblioteca Nacional”. Com 170 obras
originais que fazem parte do acervo Real Biblioteca de Portugal, a exposição estará aberta ao público no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, até 22 de junho de 2014, seguindo depois para outras capitais. Produzidas pelos artistas mais importantes de diversas escolas
europeias, as gravuras do acervo estão sob a guarda
da Biblioteca Nacional, com sede no Rio de Janeiro, desde 1810, quando a
corte portuguesa de Dom João VI transferiu o acervo de Lisboa para o
Brasil.
Reunidos no acervo de quatro séculos da história da arte estão
81 grandes mestres do estilo com gravuras originais que representam
mitologias, alegorias, paisagens e cenas religiosas criadas na época
do Renascimento, do Maneirismo, do Barroco e do Rococó. Fazem parte
da exposição itinerante 30 gravuras da coleção alemã, 27 da holandesa, 35
da italiana, 26 da francesa, 14 da flamenga, oito da inglesa, 18 da
espanhola e 13 da portuguesa, em técnicas predominantes de
xilogravura (gravura impressa a partir de uma matriz de madeira) e
gravura a metal – incluindo obras em talho-doce ou gravura a buril,
gravura à ponta-seca, à água-forte, à maneira-negra, à
água-tinta e pontilhados em técnica mista.
As obras em exposição
foram criadas por artistas considerados os mais importantes da História da Arte, entre eles Albrecht Dürer (o principal nome da
renascença alemã), Rembrandt
Harmenszoon van Rijn (o maior da arte
neerlandesa) e Francisco José de Goya y Lucientes, o artista mais
importante do Romantismo na Espanha. Também foram selecionadas para
a mostra, entre as mais de 30 mil peças do acervo, obras satíricas
do inglês William Hogarth, que refletia sobre os desmandos da
política em seu tempo e acabou gerando o termo Hogartianas; o
italiano Giovanni Battista Piranesi, que registrava a arquitetura com
detalhes e é forte influência na arte contemporânea; a
extraordinária arte burlesca do francês Jacques Callot; e o talento
de retratista do flamengo Anton Van Dyck, entre outros grandes mestres.
 |
|
 |
Mestres da Gravura: no alto,
Le
Antichitá Romane,
obra-prima do italiano Giovanni
Battista Piranesi
(1720-1778). Acima,
Jesus Cristo descendo ao Limbo, do
italiano Andrea Mantegna (1431-1506),
e um mapa descritivo da Europa do
século
16. Abaixo, Santa Cecília
cantando os Louvores de Deus, do
francês Étienne Picart (1632-1721).
Todas as imagens reproduzidas
nesta página estão no catálogo da
exposição Mestres da Gravura
|
O acervo de obras-primas em exposição, com curadoria
de Fernanda Terra, abarca artistas que nasceram do século 15 ao 18 e
obras concebidas de acordo com as técnicas mais avançadas que foram
desenvolvidas no período – a única exceção são algumas obras
de Goya, que foram criadas em 1815 e trazidas posteriormente para o
Brasil, mas ainda assim o artista espanhol é tido essencialmente
como um gravador do século 18. A grande maioria do acervo de
gravuras foi adquirida por Portugal no período anterior ao
terremoto que arrasou Lisboa em 1755 – e sobreviveram ao terremoto,
ao maremoto e aos incêndios sucessivos que destruíram a cidade.
Trazidas para o Brasil por Dom João VI, a coleção de
gravuras, juntamente com milhares de caixas que incluíam livros,
partituras e mapas, deu origem à Biblioteca Nacional, que mantém
sua sede no Rio de Janeiro. Considerada a maior biblioteca da América
Latina, a Biblioteca Nacional também foi nomeada pela UNESCO entre
as 10 mais importantes do mundo. Todas as gravuras em exposição
foram selecionadas do acervo que hoje conta com mais de 30 mil obras,
raramente exibidas ao público. Em 2012, nos 200 anos da Biblioteca
Nacional, a mesma mostra foi aberta no Rio de Janeiro e, em 2013, foi
apresentada em Brasília. Depois de Belo Horizonte, a exposição
segue para Salvador, Recife e outras capitais do Nordeste.
 |
|
 |
|
 |
Mestres da Gravura: acima,
Orfeu e Eurídice, gravura de 1510
do mestre italiano Marco Antonio
Raimondi (1480-1534); Cupido
tocando
cravo (1538), do italiano Giovanni Battista
Ghizi
(1503-1575); e Adão e Eva (1504),
do alemão Albrecht Dürer. Abaixo,
A Sagrada Família, gravura de 1580 do
holandês Hendrik Goltizius (1558-1617)
|
Acervo de relíquias preciosas
Todo o acervo da mostra que chega a BH também está
reproduzido em um livro belíssimo de capa dura e 240 páginas.
Organizado pela mesma curadora Fernanda Terra e com o mesmo título
da exposição “Mestres da gravura – Coleção Fundação
Biblioteca Nacional”, o livro foi coeditado pela Artepadilla,
Caramurê Publicações e Fundação Biblioteca Nacional, com
patrocínio da Petrobras. Além do acervo completo da mostra, com
imagens em fac-símile das 170 gravuras tanto em xilogravuras, a mais
antiga técnica de gravar sobre papel, quanto nas variadas técnicas
de gravação em metal, a publicação inclui um breve histórico de
cada gravador e artigos assinados por especialistas.
A edição de luxo, subdivida em oito coleções e
organizada por ordem cronológica e pela geografia de nascimento dos
artistas, acompanha as mudanças técnicas da gravura através dos
séculos – percurso delimitado pelos artigos “Mestres da gravura:
Coleção Biblioteca Nacional”, resultado da pesquisa de Fernanda
Terra; “Breve história da biblioteca: entre livros e símbolos”,
escrito pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz; e “Manter o
passado no futuro”, assinado pelo presidente da Fundação
Biblioteca Nacional, Renato Lessa. Um texto mais extenso e minucioso
apresenta e descreve a Divisão de Iconografia da FBN, assinado por
Monica Carneiro Alves e Monica Velloso Azevedo.
 |
|
 |
Mestres da Gravura: acima,
capa do catálogo da exposição, que
reproduz uma das gravuras da série
Le carcere d'invenzione, de
Piranesi, datada de 1750; e Cristo na
Cruz (A Crucificação), do alemão Lucas
Cranach, Sênior (1472-1553). Abaixo,
Cristo perante Herodes, de Cranach;
As Três Cruzes (1653), A Anunciação
aos Pastores (1634) e Autorretrato com
boina e cachecol (1633), do holandês
Rembrandt (1606–1669); e duas gravuras
da série Les misères et les mal-heures
de la guerre, de 1633, do mestre francês
Jacques Callot (1592-1635), intituladas
A Batalha e O suplício da forca
|
Entre as centenas de preciosidades, os artigos destacam
as séries mais valiosas do acervo da exposição, que não têm
equivalentes em nenhuma outra coleção conhecida. Dos grandes
mestres, ganham destaque pela ordem cronológica o item mais antigo
do acervo, “Jesus Cristo descendo ao Limbo”, assinado por Andrea
Mantegna (1431-1506). Na sequência está Albrecht Dürer
(1471–1528), com as séries bíblicas dedicadas ao “Apocalipse”
e a “Adão e Eva”, ambas datadas por volta de 1500, nas quais
transparecem avanços no estudo das proporções humanas e a imensa
variedade de tons e de texturas.
Importância histórica e simbólica
Na lista das obras mais valiosas do acervo também estão
Rembrandt (1606–1669), com uma seleção de 12 gravuras, entre as
quais estão quatro autorretratos; Francisco Goya (1746-1828), exímio
gravador e maior pintor da Espanha no século 18, presente no livro e
na exposição com nove obras-primas da série “Os provérbios” e
mais cinco ilustrações para uma edição de “D. Quixote”, de
Cervantes; e o italiano Giovanni Piranesi (1720-1778), que aparece
com as séries “Le carcere d’invenzione” e “Le Antichità
romane”.
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
No
que se refere à importância histórica e simbólica da coleção
Mestres da Gravura, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz destaca em
seu artigo uma questão política, dramática e crucial: a coleção
era tão valiosa que, na conta que o Brasil teve que pagar a Portugal
pela sua Independência, a partir de 1822, o acervo da Biblioteca
Nacional surgiu em um surpreendente segundo lugar, depois apenas do
saldo da dívida pública.
“A
batalha acabou sendo ganha pelo Brasil, mas teve custo alto” –
avalia Schwarcz. O acervo da Biblioteca Nacional aparecia avaliado em
800 Contos de Réis, um valor tremendamente alto no montante da
dívida. “Para se ter uma ideia mais precisa”, destaca a
historiadora, “tal valor correspondia a 12,5% do total a ser pago,
quatro vezes mais do que a famosa prataria da coroa ou do que a
equipagem deixada no Brasil. Significava, portanto, muito, e em
muitos sentidos: autonomia por aqui, desapego para o lado de lá.
Incrível pensar como os livros, mais uma vez, eram protagonistas,
desta vez na conta que se pagava pela liberdade do país”.
Muito
além do valor em dinheiro, ressalta Lilia Moritz Schwarcz, havia a
importância simbólica – para um país tão jovem como era o
Brasil, foi uma forma de afirmação e mesmo de soberania contar com
tal acervo de preciosidades em uma biblioteca que ostentava
proporções monumentais, só comparável já naquela época à
biblioteca nacional dos Estados Unidos, superando em valor e
importância a maioria dos países da Europa e toda a extensão das
Américas. Não é pouco, definitivamente.
por
José Antônio Orlando.
Como
citar:
Para
comprar o livro "História
da Arte", de Gombrich, cliqueaqui.
Para comprar Mestres da Gravura da Fundação Biblioteca Nacional, clique aqui.
Lista completa de artistas da exposição Mestres da Gravura:
COLEÇÃO ALEMÃ
Durër, Martin Schongauer, Israel van
Meckenen, Lucas Cranach, Hans Sebald Beham, Martin Treu, Georg Pencz,
Heinrich Aldegrever e Virgil Solis.
COLEÇÃO HOLANDESA
Rembrandt, Luca van Leyden,
Cornelis Cort, Hendrik Goltzius, Zacharias Dolendo, Jan Müller,
Jacob Matham, Jan Saenredam, Nicolas Ennes Visscher e Willem Jacobsz
Delff.
COLEÇÃO ITALIANA
Piranesi, Andrea Mantegna, Benedetto
Montagna, Agostino dei Musi – o Veneziano, Marco Antonio Raimondi,
Giovanni Battista Ghisi – o Mantuano, Marcos Dente, Jacopo de
Barbari, dito Mestre do Caduceu, Mestre do Dado, Adamo Ghisi, Enea
Vico, Lodovico Carracci, Agostino Carracci, Annibale Carracci,
Francesco Brizzi, Guido Reni, Stefano della Bella, Giovanni Benedetto
Castiglioni, Salvatore Rosa, Francesco Bartolozzi e Giovanni Volpato.
COLEÇÃO FRANCESA
Callot, Noel Garnier, François
Perrier, Claude Mellan, Egidio Rousselet, Gérard Audran, Étienne
Picart, dito o Romano, Gerard Edelinck, Petrus Devret, Charles Dupuis
e Henri Simon Thomassin.
COLEÇÃO FLAMENGA
Jacob Van Den Bos, Jan Sadeler
Sênior, Raphael Sadeler Sênior, Cornelis Galle Sênior, Egidius
Sadeler, Raphael Sadeler, o Jovem, Anton van Dyck, Peeter de Jode
Junior e Paulus Pontius.
COLEÇÃO INGLESA
William Hogarth, Benjamin Smith,
Peter Simon, Charles Gauthier Playter, John Ogborne, Samuel Middiman
e Robert Thew.
COLEÇÃO ESPANHOLA
Francisco Goya, José de Ribera, Manuel
Salvador Carmona, Fernando Selma, Francisco Muntaner, Joaquín
Ballester e Joaquín Fabregat.
COLEÇÃO
PORTUGUESA
Vieira
Lusitano (Francisco Vieira de Matos), Joaquim Manuel da Rocha,
Antonio Joaquim Padrão, Manuel da Silva Godinho, Gregorio Francisco
de Queiroz e João Caetano Rivara.
 |
Mestres da Gravura: acima,
The Bench (1758), do inglês
William
Hogarth (1697-1764). Abaixo,
Disparate feminino e Modo de Vida,
duas gravuras originais da série
Os
Provérbios (1815) do espanhol
Francisco Goya (1746-1828)
|