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20 de abril de 2016

Fetiches à mostra










O que leva à substituição do objeto pelo fetiche é uma
conexão simbólica de pensamentos que, na maioria das
vezes, não é consciente para a pessoa.

–– Sigmund Freud, 1905.   






A história do erotismo talvez seja inseparável de um certo fetiche para despir até a intimidade do corpo nu. Com suas regras fluidas e cada vez mais instáveis com o passar do tempo, na intimidade ou em público, a história e o jogo social do erotismo em vestir e despir, a partir dos últimos três séculos, recebem agora uma retrospectiva provocante que transfere as “roupas de baixo” à categoria de obras de arte. Batizada de “Undressed: A Brief History of Underwear” (Desvestidos: uma breve história da roupa íntima), uma exposição em Londres, aberta no Victoria & Albert Museum, resgata as relações entre o corpo, a moda e a roupa íntima desde 1750 até a atualidade.

Trata-se de um acervo nunca antes reunido com mais de 250 objetos e imagens que são puro fetiche (veja o link para uma visita virtual à exposição no final deste artigo) – incluindo fotografias, cenas de filmes, pinturas e desenhos, embalagens e anúncios publicitários que fizeram História. Entre tantos apelos de sedução, o grande destaque são as peças originais de roupas íntimas de várias épocas, tanto femininas quanto masculinas, criadas para envolver órgãos genitais, seios, cinturas, coxas, pernas, nádegas – peças que somente há poucas décadas a publicidade passou a expor em público sem bloqueios de recatos e pudores.

Diante da variedade tão sugestiva da coleção de calcinhas, sutiãs, cuecas, calções, espartilhos, corseletes, anáguas, meias transparentes, cintas-liga, camisolas e pijamas apresentados na exposição, em marcações cronológicas por vezes surpreendentes, o observador pode ter o prazer de cruzar as fronteiras fluidas e instáveis do erotismo e da sexualidade que a arte e a literatura descobriram bem antes de 1750 – data inicial da trajetória que o recorte temático da mostra reconstitui. São estas fronteiras de regras fluidas e instáveis que tiveram nos escritos do século 19 do francês Charles Baudelaire sobre a Modernidade seu marco inaugural como questão fundamental da vida em sociedade.







Fetiches à mostra: no alto, espartilho
em seda e metal fabricado em 1890
e usado para reduzir a cintura, manter
o tronco ereto e conferir mais elegância
ao corpo – uma das raridades reunidas
na exposição do Victoria & Albert
Museum. Acima, dioramas de
1900 registram damas da
nobreza vestindo espartilhos
e armações para saias e
vestidos. Abaixo, desfile
da primeira coleção de lingerie
de luxo lançada em 1998, em
Paris, pela estilista australiana 
Collette Dinnigan; e vitrine da
Corsetiere, última loja especializada
em corsetes, corseletes, espartilhos e
roupas íntimas sob encomenda, no East
End de Londres, que fechou as portas em
maio de 1968, fotografada em 1961 por
John Claridge. Todas as imagens
reproduzidas nesta página estão no
catálogo da exposição Undressed








O jogo social do erotismo gira hoje em torno da seguinte questão: até onde pode ir uma mulher digna sem se perder” – interrogava Walter Benjamin, na década de 1930, em uma das passagens de “Jogo e Prostituição”, um dos ensaios inspirados, instigantes, que o pensador alemão dedicou aos escritos de Baudelaire. É verdade que tanto Baudelaire quanto Benjamin tinham em mente as figuras femininas das ruas e salões do Oitocentos, cenários das transformações sociais que surgiram e se desenvolveram na Paris do Segundo Império, mas suas reflexões cabem, como uma luva, também para as mitologias de valor efêmero que a publicidade e a cultura pop disseminam em nosso tempo presente.



Contraponto histórico



A questão filosófica e sociológica, profundamente semiótica, que Walter Benjamin apresenta, espelhado em Charles Baudelaire, poderia constar em destaque, como epígrafe, na mostra do museu britânico, indicando um sem número de aspectos transdisciplinares que sobrepõem variáveis: das amarras da tradição aos hábitos de higiene, das normas da elegância aos impedimentos do poder econômico, dos hábitos cotidianos de consumo e comportamento condicionados em segmentos de classes sociais.







Fetiches à mostra: no alto, amostras
raras das roupas íntimas usadas pela
nobreza da Europa no século 18.
Acima, espartilhos com cordas
e metal usados no século 19.
Abaixo, corsete em seda
e algodão de 1890 com
detalhes bordados em ouro;
uma rara peça unissex: a cinta
usada por homens e mulheres
no Oitocentos para moldar a
cintura e reduzir a barriga; e uma
peça que fez história na década de
1990: o sutiã cônico em modelo corsete
criado por Jean-Paul Gaultier para a
turnê "Blonde Ambition"
de Madonna

 

















"Dos mestres de ofício dos séculos 18 e 19 aos designers e estilistas mais famosos de nossa época, permanece o apelo das relações fascinantes entre a roupa interior e a roupa exterior, entre a roupa íntima e o corpo", destaca Edwina Ehrman, diretora do acervo de moda e materiais têxteis do Victoria & Albert Museum e curadora da mostra. No dossiê de imprensa sobre a exposição, a curadora também destaca uma série de contrapontos históricos que distinguem a trajetória das roupas íntimas feitas para mulheres e para homens.

Um destes contrapontos: as roupas íntimas femininas sempre tiveram como objetivo o apelo sexy, a sedução, que não raro traziam junto o desconforto e até mesmo a exigência de um certo grau de sacrifício. Por outro lado, a roupa íntima masculina tem por princípios, desde outras épocas, o conforto e a simplicidade, das antigas faixas de recortes de linho, que eram fáceis de lavar e serviam para proteger os genitais do contato com as armaduras de metal e com os ásperos tecidos dos uniformes militares, aos mais modernos modelos contemporâneos feitos de tecidos sintéticos ou de algodão com costuras invisíveis.





 





Fetiches à mostra: no alto, cueca original
de algodão produzida na Inglaterra em
1890. Acima, a caixa de cuecas de papel
descartáveis lançada em Londres pela
L.R. Industries em 1970 e o anúncio
de lançamento de cuecas no novo
formato “sleep” que iria
revolucionar o mercado,
aposentar o formato da
tradicional cueca samba-canção e
se tornar uma peça de escândalo pela
ousadia do catálogo, também de 1970,
da grife inglesa Dean Rogers Menswear.
Abaixo, os Brixton Boys em anúncio da
Calvin Klein, em 2001, fotografados por
Jennie Baptiste; o anúncio de 2012 de
David Beckham exibindo a coleção
de cuecas da H&M; e um anúncio de
2015 das cuecas da grife AussieBum













A exposição, com sua meta de traçar um painel técnico e comportamental sobre a evolução no design de roupas íntimas, revela que o uso de materiais como metal, cordas e cordões vem, gradativamente, cedendo lugar a tecidos como linho, seda, algodão, rendas, cada vez mais suaves e em cortes e formatos progressivamente mais encurtados e simplificados nos adereços. A evolução das primeiras peças, exclusivas e artesanais, chega aos processos técnicos da fabricação em série, depois em escala industrial, mas sempre moldando os ajustes das silhuetas às formas de um almejado corpo ideal, seguindo os padrões de cada época e atendendo aos apelos libertários em detrimento do recato e das vigilâncias da moral.



O jogo: exibir e esconder



No jogo social do erotismo, o equilíbrio entre exibir e esconder vem, quase sempre, pontuado por determinados paradoxos e contradições: para mulheres da burguesia, desde o final do século 19, era comum mostrar parcialmente, em público, um ou outro detalhe das novas formas de lingerie como indicativo de poder e riqueza; para os homens, as novidades são menos numerosas e quase sempre restritas a mudanças mínimas na modelagem de ceroulas e calções.









Fetiches à mostra: no alto e acima,
peças da coleção de lingerie de 2015
da grife Stella McCartney; e a coleção
de calcinhas da Cheekfrills, criação
de Lily Fortescue e Katie Canvin.
Abaixo, dois anúncios da
coleção “pornô-chic”
batizada de Tamila, lançamento
de 2015 da grife Agent Provocateur,
fotografados por Sebastian Faena;
e o espartilho com cristais e pérolas
criado em 2011 por Mr. Pearl
para a atriz Dita Von Teese









Nas roupas íntimas masculinas, uma das poucas mudanças perceptíveis nas últimas décadas talvez sejam as calças mais folgadas na cintura, para deixar à vista as barras superiores de sungas e cuecas. A tendência, que primeiro causava um certo estranhamento, desde os célebres e pioneiros anúncios publicitários das grifes Calvin Klein e Empório Armani, nas décadas de 1980 e 1990, acabaria se tornando comportamento coletivo. A exposição também confirma que a roupa íntima, como a própria sexualidade e a intimidade de famosos e de anônimos, provoca muito interesse, debate e, quase sempre, controvérsias – mais pelas peças de escândalo do que pelas preciosidades resgatadas de outras épocas.

As peças mais valiosas, no acervo reunido pelo Victoria & Albert Museum, são também as mais antigas – da segunda metade do século 18 e do começo do século 19. Entre outras raridades de exotismo que sobreviveram por séculos até nossos dias, há as “roupas de baixo” e as calçolas majestosas com rendas, armações de metal e madeira e adornos infinitos criados sob encomenda da realeza e da nobreza. E há as formas de ampulheta distorcida em espartilhos, corpetes e corseletes de barbatanas em ouro e pedrarias, com dezenas de fios e hastes metálicas reforçando a amarração – peças usadas pela maioria das mulheres da nobreza e de posição social destacada até as duas primeiras décadas do século 20, quando foram enfim inventados os sutiãs – oficialmente patenteados nos EUA, em 1914, pela costureira Mary Phelps Jacob.













Fetiches à mostra: no alto, meia-calça
transparente com cinta-liga, criação de
artesãos franceses na década de 1870
que voltou à moda com o sucesso de
Marlene Dietrich no filme alemão de
Joseph von Sternberg O Anjo Azul
(Der Blaue Engel, 1930). Acima,
duas criações de Christian Dior:
colete em corsete com cinta-liga,
em releitura de 1950 para
as peças tradicionais do
século 19, e a camisola com
robe de chambre em fotografia
de 1953 de Irving Penn para
a revista Vanity Fair. Abaixo,
a camisola de luxo com saia curta,
criação de Cristobal Balenciaga de
1958; o corpete de nylon, novidade
da década de 1960 em criação de
Mary Quant; o vestido com espartilho
aparente criado por Antonio Berardi
em 2008 para a atriz Gwyneth Paltrow;
e Kate Moss, com Naomi Campbell em
uma festa da Elite Models em 1993,
em Nova York, causando escândalo
na imprensa com o vestido
transparente que deixava à mostra
a calcinha e os seios nus











 
Contudo, não são estas peças raras de outros séculos, das eras vitoriana e eduardiana, que mobilizam a atenção da grande maioria do público, e sim as peças de roupas íntimas que ganharam fama graças a celebridades do mundo fashion e da cultura pop às quais elas estão por algum motivo associadas. Nesta seção da mostra estão também os modelos de trajes transparentes de 1911 de Paul Poiret, as criações das décadas de 1920, 1930 e 1940 de Coco Chanel, as peças históricas de Dior, Givenchy, Balenciaga e Mary Quant dos anos 1950 e 1960 e, entre vários outros, sucessos recentes das passarelas e das linhas de lingeries de luxo de Vivianne Westwood, Gianni Versace, Jean Paul Gaultier, Alexander McQueen, John Galliano, Dolce & Gabbana e Stella McCartney.

A retrospectiva equivale a uma boa aula de História – em suas interfaces com a moda, a sexualidade, a moralidade e a tecnologia industrial. Porém, para além do sucesso de público, dos holofotes e das referências a celebridades muitas vezes tão instantâneas quanto efêmeras, o sentido de uma mostra dedicada a roupas íntimas, em um museu conceituado, por certo permite muitas leituras e polêmicas. Também permite críticas negativas argumentando sobre a falência da alta cultura, sobre os sintomas da obra de arte inexistente na pós-modernidade, do culto à futilidade, à submissão feminina, ao fetichismo da mercadoria. Ou, talvez, exposições como esta do Victoria & Albert Museum sejam apenas sinais bem característicos do tempo enigmático em que vivemos.


por José Antônio Orlando.



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Fetiches à mostra. In: ______. Blog Semióticas, 20 de abril de 2016. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2016/04/fetiches-mostra.html (acessado em .../.../...).



Para uma visita virtual à exposição do Victoria & Albert Museum,  clique aqui.






Fetiches à mostra: Sophia Loren na capa da revista Life
em setembro de 1966, fotografada por Alfred Eisenstaedt
durante as filmagens de Matrimonio all'Italiana, filme de
Vittorio De Sica. Abaixo, galerias da exposição no
Victoria & Albert Museum em Londres 











26 de setembro de 2015

Arte no Bordel








Nessa imensa galeria da vida de Londres e da vida de   
Paris, encontramos os diferentes tipos da mulher errante,   
da mulher revoltada em todos os níveis: primeiro, a mulher   
galante, na flor da idade, com pretensões a ares aristocráticos,   
orgulhosa ao mesmo tempo da sua juventude e do seu luxo (…);   
seguindo a escala, nós descemos até essas escravas confinadas   
nessas espeluncas frequentemente decoradas como se fossem   
bares: umas infelizes colocadas sob a mais mesquinha tutela.   


–– Charles Baudelaire       






Desde as relíquias da mais remota Antiguidade às instalações multimídia contemporâneas, não faltam obras-primas da história da arte dedicadas ao tema. Na Arte Moderna, os exemplos também formam uma extensa lista – incluindo criações a seu tempo polêmicas e revolucionárias. Da “Olympia” (1863), de Édouard Manet, a “L'Absinthe” (1875), de Edgar Degas, ou às “Les Demoiselles d’Avignon” (1907), de Pablo Picasso, e daí a tantas outras mais ou menos consagradas, as mulheres dos bordéis e cabarés são as musas inspiradoras e presença constante na obra de Henri de Toulouse-Lautrec, Paul Gauguin, Edvard Munch, Maurice de Vlaminck, Kees van Dongen, František Kupka, Jean-Auguste Ingres, Pierre Bonnard ou Vincent van Gogh, entre outros mestres.

Muitas destas obras-primas da Arte Moderna estarão reunidas no Musée d'Orsay, em Paris, de 22 de setembro até 20 de janeiro de 2016, no primeiro grande evento dedicado ao tema Arte & Prostituição. Intitulada “Splendeurs et Misères. Images de la Prostitution, 1850-1910”, a programação tem uma grande exposição de artes plásticas – também a maior já realizada sobre o assunto, reunindo um extenso acervo de peças originais que inclui pinturas, esculturas, cartazes, desenhos, objetos decorativos, daguerreótipos e fotografias de época – e uma série de palestras, debates, mostra de filmes, apresentação de recitais de ópera, concertos e performances.

Todas as obras na exposição principal e nos eventos paralelos da programação abordam a prostituição – ou “o amor em troca de dinheiro nos bordéis e cabarés e também nas ruas, hotéis, cinemas ou na Opera House”, como define o ensaio de apresentação à exposição, a cargo da equipe de curadoria formada por Marie Robert e Isolde Pludermacher, diretoras do Musée d'Orsay, com as colaborações de Richard Thomson, professor de História da Arte da Universidade de Edimbourg, do Reino Unido, e de Nienke Bakker, do Van Gogh Museum, da Holanda. 











Arte no Bordel – imagens que
provocaram escândalos na Arte Moderna
estão na exposição Splendeurs et Misères.
Images de la Prostitution, 1850-1910,
no Musée d'Orsay, em Paris. No alto e
acima, obras-primas de Édouard Manet:
Olympia e Le Déjeneur sur l'Herbe,
ambas de 1863, Bal masqué à
l'Ópera, de 1873, e La Serveuse
de Bocks, de 1878. Abaixo, Rolla,
pintura em óleo sobre tela de 1878
de Henri Gervex, e Scène de fête
au Moulin Rouge óleo sobre tela
 de 1889 de Giovanni Boldini








Esplendor e Miséria



A partir do recorte temático ousado para uma grande exposição, tão polêmico que permanecia inédito no circuito dos grandes museus – a abordagem da prostituição pelas obras-primas reunidas pela curadoria do Musée d'Orsay permite estabelecer novos olhares sobre o século 19. Há os avanços nas questões de moralidade e na liberalização dos costumes, mas também há as questões específicas das descobertas científicas e dos avanços da técnica que estão na gênese do que conhecemos atualmente como Arte Moderna.

Pela trajetória cronológica das obras que formam o acervo da exposição “Esplendores e Misérias”, é possível perceber estes avanços da técnica através do modo como artistas franceses e estrangeiros, estabelecidos em Paris e fascinados pelas mulheres da vida boêmia e mundana dos bordéis e das ruas, também procuravam, entre o Segundo Império e o fim da Belle Époque, por novos e às vezes radicais meios pictóricos para representar realidades e fantasias.






Arte no Bordel – obras-primas de
Edgar Degas: acima, a melancolia
em Dans un café (L’Absinthe),
pintura em óleo sobre tela de 1873,
e L'Attente d'un client (1876-1877).
Abaixo, a intimidade da nudez em
Le Tub (A banheira), de 1886,
e Ballet (L’Étoile), de 1878






 
Os negócios privados com ramificações públicas, que a prostituição representava e representa, ganharam maior destaque no final do século 19 e também passaram à condição de interesse central na obra de vários artistas e escritores, ao mesmo tempo em que o progressivo movimento migratório das populações rurais formava as multidões empobrecidas e proletárias das cidades, provocando aumento crescente da criminalidade. Nas cenas retratadas pelos mestres da literatura e da Arte Moderna, multidões, criminosos, bordéis e prostitutas vão se tornando inseparáveis da paisagem urbana

No período histórico traçado pela exposição, que tomou o título de um dos romances de Honoré de Balzac, “Esplendor e Misérias das Cortesãs” – parte integrante de “As Ilusões Perdidas” (1843), que trata das desventuras do jovem poeta Lucien de Rubempré – são duas revoluções, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, que formam o pano de fundo da crônica social e mundana da Paris, onde a prostituição passou a ser assunto frequente e interesse central na rotina da cidade e de seus habitantes.





Arte no Bordel: acima, La femme
en chemise ou Danseuse, pintura de
André Derain. Abaixo, Au Café
d'Harcourt à Paris, pintura em óleo
sobre tela de 1897 de Henri Evenepoel;
Noël au Bordel, de Edvard Munch 












Nudez embrutecida e melancólica



Além das cortesãs do livro de Balzac, o esplendor e a miséria da prostituição na França do Oitocentos também surgem entre as tramas e personagens de outros grandes nomes da literatura da época, incluindo Charles Baudelaire, Émile Zola, Gustave Flaubert – e também de outros países, com destaque para o brasileiro José de Alencar e seu romance “Lucíola”, publicado em formato de folhetim em 1862, muito avançado para seu tempo. Assim como os mestres franceses e como outros autores brasileiros que viriam depois dele, Alencar também aborda uma trama de contradições e dificuldades econômicas que culmina com a hipocrisia, o preconceito latente e a intolerância implacável da sociedade, seja contra a presença de cortesãs e prostitutas ou contra "pecadores" que tentam esquecer o passado para recomeçar uma vida nova e "honrada".

As atividades das prostitutas eram permitidas, mas também eram rigidamente regulamentadas por leis e vigiadas na França durante todo o século 19 e até o começo do século 20. Fazer ponto nas ruas, o chamado “trottoir”, mesmo à noite, era ilegal – mas nem por isso era uma prática incomum. Para atender clientes dentro da lei, as mulheres tinham que se registrar na polícia, empregar-se oficialmente em um único bordel e pagar pontualmente seus impostos.


 





Arte no Bordel – três obras-primas
de Henri de Toulouse-Lautrec: acima,
Rue des Moulins, L'Inspection Médicale
e Femme tirant son bas. Abaixo, em
detalhe e tela completa, a imagem destacada
no cartaz da exposição do Musée d'Orsay,
 Au Moulin Rouge, pintura em óleo sobre
tela de 1892-1895 de Toulouse-Lautrec







Depois de fichadas nas delegacias de polícia, as prostitutas da França do século 19 também tinham que fazer exames médicos todos os meses, algo que podia ser mais humilhante do que o próprio ato de vender o corpo. O pintor Henri de Toulouse-Lautrec, obcecado pelos bordéis e pelas prostitutas, captou estas cenas de humilhação em obras célebres – entre elas duas pinturas em óleo sobre tela de 1894, “Rue des Moulins, L'Inspection médicale” e “Femme tirant son bas”, em que revela a nudez embrutecida e melancólica das mulheres em nada sensuais.

Toulouse-Lautrec foi um dos nomes centrais da interface entre Arte & Prostituição: de 1892 a 1895 ele criou mais de 50 pinturas em grande formato e mais de 100 desenhos – tudo com inspiração nas mulheres e cenários dos bordéis. Pioneiro da Arte Moderna, Toulouse-Lautrec era descendente da nobreza francesa e boêmio inveterado desde a juventude, quando decidiu abandonar a família abastada e fugir para Montmartre, onde se reuniam prostitutas, artistas e aventureiros. Passava dias e noites no Moulin Rouge e outros cabarés e bordéis da região do Pigalle. Morreu jovem, mas revolucionou a pintura, a litografia e as técnicas para o design gráfico dos cartazes publicitários, definindo o estilo que seria posteriormente conhecido como Art Nouveau.





Arte no Bordel – duas obras-primas
que abordam a presença ambígua de
mulheres nas ruas de Paris: acima,
L'Attente (A espera), pintura em óleo
sobre tela de 1880 de Jean Béraud.
Abaixo, Traversant la rue (Atravessando
a rua), pintura de 1875 de Giovanni Boldini






Choque estético e moral



Fugindo aos estereótipos do Impressionismo e da pintura francesa anterior a 1900, com suas paisagens naturais e imagens de doces personagens, as figuras realistas ou amargas de bordéis e prostitutas reunidas pela exposição do Musée d'Orsay podem mesmo provocar algum choque estético e moral. Mas trata-se do retrato fiel de uma época. No final do século 19, Paris era uma cidade em plena transição social – e a prostituição estava em toda parte, fazendo do amor algo incerto, efêmero e fugaz, como escreveu Charles Baudelaire no soneto “A uma passante”, incluído em seu célebre “As Flores do Mal” (1857), publicado no Brasil em 1985 pela Nova Fronteira, em tradução de Ivan Junqueira.

Hoje, como no passado, a arte espelha a sociedade com suas transformações e paradoxos – talvez por isso, diante das obras-primas reunidas na exposição “Esplendores e Misérias”, a centralidade deste mundo obscuro de prostitutas e bordéis no desenvolvimento da pintura moderna torna-se evidente. A modernidade da vida urbana entrou com força na cultura e, nos domínios da arte, muito pouco, ou quase nada, ficou escondido – nem mesmo os segredos de alcova em cabarés de Montmartre ou os encontros furtivos e mundanos em hotéis às margens do Sena, entre cavalheiros com suas cortesãs, com dançarinas de Can-Can ou com as mulheres anônimas que faziam, durante noites e madrugadas, o “trottoir” proibido por ruas e avenidas. 







Arte no Bordel – acima, fotografias
de Maurice Gilbert de 1895 registram
Toulouse-Lautrec no ateliê, finalizando
Moulin Rouge, La Danse e com uma
de suas musas, Mireille, dançarina de
Can-Can. Abaixo, La Goulue tenant
un verre de vin (A gananciosa segura
uma taça de vinho), fotografia de 1885
de Louis Victor Paul Bacard que
registra uma das mulheres da vida
noturna de Montmartre; e uma
fotografia de 1904 do célebre
bistrô Auberge du Clou,
também em Montmartre





 

Nas primeiras décadas do século 20, a prostituição sofreria mudanças radicais: as duas guerras mundiais moveram fronteiras, aumentaram a miséria e a proliferação das doenças e, em 1946, os bordéis se tornariam ilegais na França. A legislação teria outras idas e vindas nas décadas seguintes, mas ainda há muita controvérsia sobre a presença ostensiva de prostitutas em lugares públicos. Atualmente, receber dinheiro em troca de sexo é uma atividade legal na França, mas o país ainda trava um intenso debate sobre criminalizar ou não o ato de pagar por sexo, como na Suécia – outra demonstração do acerto do Musée d'Orsay em lançar luzes sobre a questão.

Além da atualidade do tema, o fator ineditismo também conta muitos pontos a favor de “Esplendores e Misérias”, já que a mostra é a primeira a examinar de perto um assunto por certo explosivo, ainda tão polêmico e tão comum na pintura moderna, especialmente na França. Tudo indica que a reunião valiosa desta coleção de obras-primas, garimpadas no acervo do museu ou tomadas de empréstimo a outras instituições, será motivo suficiente para marcar época, garantindo destaque nas agendas de cultura e o interesse do público – e, quem sabe, talvez também possa ajudar no combate ao preconceito e à intolerância.


por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Arte no Bordel. In: ______. Blog Semióticas, 26 de setembro de 2015. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2015/09/arte-no-bordel.html (acessado em .../.../…).



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Arte no Bordel: acima, fotografia de
1895 de Carabin François-Rupert,
escultor, gravador e fotógrafo
profissional, exibida na exposição
Esplendores e Misérias, intitulada
“Femme nue assise de trois-quarts dos,
sur une chaise, visage de profil gauche”
(Mulher nua de costas, sentada em uma
cadeira, perfil da face esquerda).
Abaixo, o cartaz original
 da exposição no Musée d'Orsay 






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