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20 de junho de 2012

Tiro ao Álvaro







Seu forte sotaque caipira misturado a expressões e linguajares dos imigrantes italianos produziu uma prosódia personalíssima e muito familiar ao imaginário popular: histórias tristes de perdas, carência afetiva, abandono, traição, despejo, pobreza e desassossego. Compaixão e amargura, contudo, ganham um indisfarçável tom de pândega e de ritmo irresistível nas irreverentes canções de João Rubinato, cantor, compositor, ator e comediante de primeira, vaidoso da juventude às últimas vezes em que foi fotografado, sempre posando de terno, gomalina no cabelo, chapéu de lado, gravata borboleta e caixa de fósforos nas mãos.

Sétimo filho do casal Fernando e Emma, que migraram da Itália para São Paulo, João Rubinato deixaria sua marca na cultura brasileira sob um codinome que ele próprio inventou – Adoniran Barbosa (1910-1982). Sua trajetória é feita de mudanças: nasce na cidade de Valinhos, mas em seguida vai com a família para Jundiaí. Aos 14 anos, troca a escola pelo trabalho e segue outra mudança da família, agora para Santo André, na Grande São Paulo. Aos 22 anos vai para a capital, onde trabalha como vendedor de tecidos. Em seguida, toma gosto pela música e pelas participações em programas de calouros no rádio.

É nessa época que o filho caçula, chamado de Joanin pela família, também muda de nome: Adoniran era o nome de seu melhor amigo e Barbosa foi uma homenagem ao cantor Luís Barbosa, seu ídolo. O primeiro destaque aconteceu em 1934, quando conquistou com “Dona Boa”, feita em parceria com J. Aimberê, o primeiro lugar no concurso carnavalesco da prefeitura de São Paulo. Anos depois é convidado para trabalhar como ator cômico, locutor e discotecário na Rádio Record, mas o primeiro sucesso só viria em 1955, com “Saudosa Maloca”, duas décadas após aquele primeiro prêmio.








Lembranças de Adoniran Barbosa:
acima, com os Demônios da Garoa



Rubinato e os Demônios da Garoa



O conjunto Demônios da Garoa, que fez a primeira gravação de “Saudosa Maloca”, passaria desde então a ser inseparável dos grandes êxitos de Adoniran, com arranjos vocais cheios de onomatopeias e breques com dramatizações que ironizam o sotaque italianado de bairros paulistanos como Brás e Barra Funda. Outros intérpretes que imortalizaram canções de Adoniran mantiveram essa marca do compositor em suas parcerias com os Demônios da Garoa – entre eles Elis Regina, que gravou em 1980 a antológica “Tiro ao Álvaro”, uma das últimas composições de João Rubinato.

Foi nessa época, dois anos antes de morrer, que Adoniran recebeu uma bela e comovente homenagem produzida por Fernando Faro. Para marcar os 70 anos do compositor, o próprio Adoniran retornou aos estúdios para gravar um disco de parcerias inéditas, cantando ao lado de grandes nomes da música brasileira suas mais famosas composições, incluindo, entre outras, “Tiro ao Álvaro” (com Elis Regina), “Bom Dia Tristeza” (com Roberto Ribeiro), “Viaduto Santa Ifigênia” (com Carlinhos Vergueiro), “Aguenta a Mão, João” (com Djavan), “Vila Esperança” (com MPB4), “Iracema” (com Clara Nunes), “Despejo na Favela” (com Gonzaguinha) e “Torresmo à Milanesa” (com Clementina de Jesus e Carlinhos Vergueiro).







Adoniran no traço de Elifas Andreato
(no alto). Acima, uma homenagem em
retrato em um antigo painel no Bixiga





No encarte daquele disco, que foi relançado em CD pela EMI com o título “Adoniran Barbosa e Convidados”, Fernando Faro escreve sobre Adoniran e seu hobby de fabricar brinquedos. É um comentário breve, poético, que também pode ser lido como uma interpretação sobre suas canções mais conhecidas. “Buscando fundo na memória, ouvindo de vez em quando os amigos, e percorrendo ruas e bares, ele vai refazendo pedaço a pedaço, sem muita ordem, utilizando o metal, a madeira, os fios, e também a palavra e o samba, a humana e muito doce paisagem dessa cidade – uma cidade que muda a cada minuto, e se deforma e se reforma, e se transfigura. É São Paulo que ele constrói. Ou reconstrói".



Três décadas sem Adoniran



Oito anos antes do disco, considerado um dos melhores na discografia de Adoniran, Fernando Faro também gravou com ele um programa memorável da série “MPB Especial” na TV Cultura. O programa, com uma hora de duração e em preto e branco, que apresenta Adoniran cantando e falando de momentos marcantes da carreira, foi lançado em DVD pela Biscoito Fino na série dedicada aos nomes que passaram na verdade por outro programa, o “Ensaio”, também apresentado e dirigido por Fernando Faro na TV Cultura.








Entre outras histórias, algumas melancólicas, outras hilariantes, exatamente como nas melhores canções de Adoniran, o compositor reconhece, no programa de Fernando Faro, que andava triste e esquecido quando uma campanha publicitária da cerveja Antarctica comprou os direitos para usar um dos seus antigos bordões – “nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?” Adoniran recorda que foi “vapt-vupt”: o bordão caiu no gosto popular, trouxe de volta à mídia o compositor de “Saudosa Maloca” e ainda alavancou as vendas da cervejaria.

Além do programa na TV Cultura, outro registro memorável com Adoniran foi o especial de Elis Regina que a TV Bandeirantes exibiu em 1978, com direção de Roberto de Oliveira e Sueli Valente. Elis visita Rita Lee numa discoteca e depois mostra imagens das novelas e dos principais filmes da trajetória de Adoniran como ator (entre eles “O Cangaceiro”, de 1953, “Candinho”, de 1954, e “A Carrocinha”, de 1955), antes de sair passeando e cantando com o próprio Adoniran nos cenários que inspiraram suas mais conhecidas canções. 









Adoniran e Elis Regina em 1979, durante as
gravações de um programa da TV Bandeirantes
na Padaria Real, São Paulo, fotografados por
Marjorie Sonnenschein. Abaixo, Adoniran 
com Elis no Bar da Carmela, no Bexiga,
e Adoniran em 1980, no Viaduto
Major Quedinho, São Paulo,
fotografado por Pedro Martinelli


 



Autor de clássicos imbatíveis que as pessoas comuns têm na ponta da língua, como “Trem das Onze” e outras dezenas de grandes sucessos que permanecem há mais de meio século na memória nacional, Adoniran, que morreu há 30 anos, em 23 de setembro de 1982, tem recebido tímidos tributos desde então. Como a maior parte de sua discografia permanece fora de catálogo, um CD com gravações inéditas de seu repertório por novatos e veteranos da MPB em 2010, ano de seu centenário, foi a homenagem mais destacada em décadas para o artista que melhor retratou as histórias e os personagens paulistanos. 



Tributos e estudos biográficos


Vida e obra do compositor, que nos últimos anos de vida passava os dias fabricando brinquedos artesanais e tinha orgulho de ser corintiano doente, também foram lembradas em três estudos biográficos: “Adoniran – Uma Biografia” (Editora Globo, 2010), de Celso de Campos Jr.; o livro em formato de agenda permanente “Adoniran Barbosa” (Editora Anotações com Arte, 2010), de Fred Rossi; e “Pascalingundum! – Os eternos Demônios da Garoa” (Editora do Autor, 2009), de Assis Ângelo, uma biografia do conjunto que está na estrada há mais de 60 anos, mas que também destaca Adoniran em primeiro plano. 
 










 

Dos três, o livro de Celso de Campos Jr. tem o maior fôlego: resgata minúcias da trajetória de Adoniran através de mais de 80 entrevistas e extensa pesquisa em arquivos públicos, em bancos de dados de jornais e no vasto acervo pessoal do Museu Adoniran Barbosa, esquecido nos subterrâneos da antiga sede do Banco de São Paulo. Para resgatar a trajetória do compositor, cantor, ator, artista de circo, poeta, o biógrafo parte da lenda de São Paulo como “túmulo do samba” para situar Adoniran como síntese da fala popular da cidade – o que fez com que ele alcançasse a proeza de criar versos que são ainda hoje reconhecidos por todos.

Selecionar o repertório de Adoniran não é difícil, porque ele tem uma coleção de canções que todo mundo gosta e canta junto de memória”, apontou o produtor Thiago Marques Luiz em entrevista que fiz com ele por telefone, na época do lançamento do CD. Assim como fez no final de 2009 com as canções do mineiro Ataulfo Alves, Thiago também realizou um eclético tributo ao centenário compositor paulista. “Adoniran 100 Anos”, lançado pela gravadora Lua Music, reúne uma bela coletânea de gravações inéditas.








Além do valor da homenagem, que atualiza os grandes sucessos do compositor, o tributo a Adoniran colocou lado a lado novos nomes – como Verônica Ferriani, Márcia Castro, Mateus Sartori – e veteranos de gêneros variados da música brasileira, do samba de Jair Rodrigues, Leci Brandão, Eduardo Gudin, Cristina Buarque e Thobias da Vai-Vai ao pop-rock de Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, Edgar Scandurra, e daí à vanguarda paulistana (Cida Moreira, Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Virginia Rosa, Passoca, Laert Sarrumor) e a medalhões da MPB como Demônios da Garoa, Cauby Peixoto, Célia, Wanderléa, Maria Alcina e Dominguinhos. 



Justiça ao talento



Entre os grandes sucessos e pérolas pouco conhecidas de Adoniran, o tributo da Lua Music faz justiça ao talento do compositor e impressiona tanto pela qualidade das interpretações, quanto pela variedade de artistas envolvidos. “Nossa prioridade foi convidar grandes cantores que nunca tinham gravado o repertório de Adoniran”, explica Thiago. Cada artista, ele conta, teve total liberdade para a interpretação e os arranjos. Algumas das releituras são radicais, outras se mantêm apenas respeitosas.
 







Entre as mais surpreendentes, Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra desconstroem a cadência festiva de “Trem das Onze”, transformada em experimento para guitarra, voz e percussão (por Guilherme Kastrup). Tetê Spíndola e Markinhos Moura também retornam em grande estilo. Ela, no registro habitual de agudos, na sempre comovente “Iracema”. Ele, com um tom quase feminino em “Despejo na Favela”, que faz lembrar à primeira audição a extensão vocal de Elis Regina.

Mart’nália (com “As Mariposas”), Zélia Duncan (“Tiro ao Álvaro”) e Maria Alcina (“Um Samba no Bixiga” e “Plac Ti Plac”) também brilham, assim como Wanderléa e Thomas Roth, reunidos na releitura de “Samba do Arnesto”. “O Adoniran é sim o mais paulista dos compositores e também um dos maiores da música brasileira em todos os tempos”, destaca Thomas Roth, cantor, compositor, dono da Lua Music e popular no Brasil inteiro por conta da presença nas bancadas de jurados dos programas de TV “Ídolos” (2006 e 2007), “Astros” (2008 e 2009) e atualmente no ar no “Qual É o Seu Talento?” do SBT.








O lugar e a importância de Adoniran vão além do samba e muito além de São Paulo. Ele foi incomparável pelo talento, pela originalidade e pela capacidade de transformar em canções de sucesso frases e expressões de tipos característicos da vida paulistana. Ele foi o primeiro e o melhor a fazer construções eminentemente populares, em uma época em que o academicismo e a língua culta prevaleciam e davam o tom. Adoniran é único e permanece, rigorosamente, no primeiro time da MPB”, completa Roth.

Não se pode negar, afinal, que Adoniran é uma figura dessas que têm lugar cativo no imaginário popular. “Série única, edição esgotada”, como define com propriedade Fernando Faro. Na fronteira entre o fraseado caipira e o sotaque italianado, falando em “lâmpida”, “progréssio”, tiro ao “álvaro”, fez sambas que no humor e no balanço não lembram em nada os clássicos dos bambas do Rio ou da Bahia. As belas canções de Adoniran se mantêm como as mais completas traduções dos cenários e dos tipos mais entranhados da Paulicéia, mesmo para quem não mora em São Paulo ou não conhece o Viaduto Santa Ifigênia, a Avenida São João e o Jaçanã.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Tiro ao Álvaro. In: ______. Blog Semióticas, 20 de junho de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/06/tiro-ao-alvaro.html (acessado em .../.../...).







Trecho do livro  'Adoniran - Uma Biografia'


Mas, para azar da família, o que João Rubinato almejava estava próximo demais da sua rota de trabalho. Como o jovem não era de resistir a tentações, as estações de rádio paulistanas, que despontavam como a coqueluche da época, ganharam um assíduo frequentador. As ondas sonoras desviavam o vendedor da labuta e o carregavam para as sedes das emissoras Cruzeiro do Sul, no largo da Misericórdia, Record, na praça da República, e Rádio São Paulo, recém-inaugurada na rua 7 de Abril. Além de acompanhar os programas, o rapaz procurava acomodar-se nos bares e botecos onde os funcionários das estações recarregavam as baterias. Entre uma branquinha e outra, acabaria conhecendo figuras já consagradas no meio radiofônico local, como o locutor Nicolau Tuma, os maestros Gaó e José Nicolini e os cantores Januário de Oliveira e Raul Torres.

Em pleno horário de expediente, usava sua lábia não para empurrar mercadorias aos comerciantes, mas para convencer os cartazes do rádio de que também ele poderia fazer e acontecer diante de um microfone. Não demorou para que o admirador de Noel Rosa e Carlos Gardel, dono de uma voz que poderia ser classificada entre o regular e o sofrível – mais para o sofrível –, se enturmasse com os artistas. De tanto insistir, recebeu em 1934 o convite para participar do programa Calouros do Rádio, pioneira criação do produtor Celso Guimarães para a Rádio Cruzeiro do Sul. João estava radiante: era a oportunidade que pedira a Deus. Cheio de prosa, foi escolher o terno, a gravata e comprar um pote extra de gomalina para ajeitar os cabelos. Tinha de ficar na estica para aquele sábado.


Extraído do primeiro capítulo
de Adoniran – Uma Biografia,
de Celso de Campos Jr. Abaixo, Adoniran
na plataforma da Estação Jaçanã em 1965






12 de março de 2012

Milton no Clube da Esquina








Milton Nascimento passou os últimos anos viajando a trabalho pelo Brasil e por cidades do mundo inteiro. Foram duas turnês ao mesmo tempo, intercalando a agenda de shows com os irmãos Lionel Belmondo (sax e flauta) e Stéphane Belmondo (trompete), com os quais gravou na França o CD "Milton Nascimento e Belmondo", e as apresentações com o Jobim Trio, dedicadas ao disco "Novas Bossas", que celebrou os 50 anos da Bossa Nova. Aproveitando um breve intervalo entre as viagens, Milton retornou a passeio a Belo Horizonte, onde fez o último show há um ano, em abril de 2011, acompanhado pela banda formada por Kiko Continentino (teclados), Wilson Lopes (guitarras, violões e violas), Gastão Villeroy (baixo) e Lincoln Cheib (bateria e percussão).

Na véspera da viagem do Rio de Janeiro, onde mora há muitos anos, para Belo Horizonte, Milton Nascimento concedeu esta entrevista por telefone falando da experiência das turnês simultâneas e da expectativa para o reencontro com a cidade, da instalação do Museu Clube da Esquina e dos músicos que de longa data o acompanham nos shows. "Em Belo Horizonte é diferente. Nem parece trabalho. Aliás, dessa vez é mais a passeio do que a trabalho", ele diz.

"Estar em Belo Horizonte já me deixa feliz por qualquer motivo. Tem os amigos, os lugares, as lembranças, os sobrinhos, os meus cinco afilhados. Sem falar de todo mundo que me ouve desde menino, nos bares e nos bailes da vida". Muito bem-humorado, sem pressa, com a voz pausada, inconfundível, e com uma memória surpreendente para nomes, canções e acontecimentos marcantes em sua trajetória profissional, Milton faz as contas e lembra que sua estreia aconteceu em 1956, quando, aos 14 anos, começou a cantar e tocar na noite da cidade de Três Pontas, com Wagner Tiso. 







Milton no Clube da Esquina: no alto,
a fotografia de Carlos da Silva Assunção
Filho, mais conhecido como Cafi,
transformada em 1972 na capa do LP
Clube da Esquina. Acima, Milton aos
três anos – em 1945, quando a família se
mudou do Rio de Janeiro para Três Pontas,
Minas Gerais, em foto que foi publicada no
encarte do LP Milagre dos Peixes, de 1973;
Milton com Lô Borges Beto Guedes
em fotografia do início da década de 1970,
em Belo Horizonte. Abaixo, Milton com seu
principal parceiro musical, Fernando Brant,
em Belo Horizonte, 1970; e com Chico
Buarque em junho de 1977 no Show de
Paraíso, em Três Pontas, que ficaria
conhecido como Woodstock Mineiro




 















Para o grande público, a estreia de Milton Nascimento foi em 1967, no Rio de Janeiro, quando classificou três canções no II Festival Internacional da Canção, entre as quais "Travessia", um de seus maiores sucessos, em parceria com Fernando Brant. "A única música que sempre faço questão de tocar em Belo Horizonte é 'Nos Bailes da Vida'. Porque é a minha história que está toda ali, contada nas palavras da canção”, ele explica.

Milton diz que o roteiro dos shows ele costuma decidir nos ensaios, ouvindo sempre o que a banda tem a propor. “Às vezes a decisão só vem no dia, na hora mesmo do show. Essa é a vantagem de tocar com músicos que você conhece muito e admira. As coisas ficam mais fáceis, tudo é mais espontâneo", reconhece, enquanto explica que nos shows prefere fazer retrospectivas das canções que foram importantes em fases diferentes de sua carreira.

"Numa das últimas vezes que estive em Belo Horizonte, para um show com o Jobim Trio, eu falava muito no palco, contava histórias. Cantava também, mas acho que falava mais do que cantava", brinca. Entre as experiências marcantes que viveu recentemente, Milton destaca o dueto póstumo que realizou com Elis Regina, por conta de um projeto do Selo Discobertas, do produtor musical Marcelo Fróes.






Memórias do Clube da Esquina: acima,
Elis Regina, Milton Nascimento e
Ronaldo Bastos no estúdio, em 1972,
durante as gravações do álbum
Clube da Esquina 2, fotografados
por Cafi. Abaixo, Cristina Aché,
Tavinho Moura, Milton Nascimento e
Débora Bloch em 1984, reunidos no
intervalo das filmagens de Noites do
Sertão
 – adaptação da literatura de
Guimarães Rosa com roteiro e direção
de Carlos Alberto Prates Correia e
trilha sonora com composições de
Milton Nascimento e Tavinho Moura






No terceiro volume da trilogia “Beatles 69 – Abbey Road Revisited”, que celebrou os 40 anos da última safra de canções da banda, Milton reencontrou em estúdio a voz de Elis, sua parceira do ínicio da carreira. Na série de três discos produzidos por beatlemaníacos e para beatlemaníacos, contando com participações de diversos artistas nacionais (entre veteranos como João Donato, Joyce, Ivan Lins, e nomes das novas gerações, como BossaCucaNova, Fuzzcas e Sílvia Machete, entre outros), Milton e Elis estão presentes na suíte “Golden slumbers / Carry that weight” – sem nenhuma dúvida uma das mais especiais de todas as novas versões de canções dos Beatles reunidas no projeto.

Foi muito emocionante”, diz Milton, recordando os melhores momentos da experiência. “Pensei em utilizar minha própria banda, mas o Marcelo Fróes me apresentou outros músicos. Como não sou de fechar a porta para ninguém, seguimos em frente. Foi a melhor coisa que podia acontecer. Ficou bonito demais, foi como se a Elis estivesse presente. Os meninos sentiram a mesma coisa. Foi ótimo ter gravado aquilo”.





Falar em público e dar aulas para grandes plateias também foram experiências marcantes para Milton nos últimos tempos, desde que passou a ser convidado com frequência por universidades na Europa e nos Estados Unidos para apresentar conferências para os alunos. "Na primeira vez que convidaram eu fiquei surpreso, mas deu tudo certo, pelo jeito, pois depois vieram outros convites em outras universidades, em outros países”, conta Milton, explicando que estes encontros sempre resultam do improviso e acabam sendo muito especiais.
Falo de tudo nessas oportunidades. Do Brasil, da música brasileira, dos amigos, dos músicos que admiro. No meio da conversa sempre vem alguma canção, ou então é a canção que puxa outro assunto, outra canção", explica, recordando que os estudantes europeus o surpreenderam mais porque sempre demonstravam que conheciam muito o seu trabalho.
"Perguntavam sobre os discos, a história das músicas. Foi muito bom", recorda, lamentando apenas que as aulas não tenham sido gravadas ou filmadas. "Foi um descuido. Mas está nos planos para o futuro repetir a experiência e gravar tudo", justifica. Enquanto aguarda com seus companheiros de geração a instalação do Museu Clube da Esquina, a produção de um DVD com registro ao vivo de seus shows mais recentes também está nos projetos do cantor e compositor para os próximos meses.












 

Milton Nascimento retratado no inicio
dos anos 1990 em pintura em óleo
sobre tela por Carlos Bracher.
Abaixo, capa do CD Angelus, lançado
em 1994; e Milton com o jornalista
Fernando Faro em 2009, durante
a gravação do programa Ensaio 
para a TV Cultura








Enquanto nos palcos algumas das canções de Milton ocupam um lugar especial no roteiro dos shows, ele reconhece que, na extensa discografia que vem construindo, é o CD "Angelus", lançado em 1994, que ainda traz as melhores lembranças. "Costumo dizer que 'Angelus' é o terceiro 'Clube da Esquina'. É meu disco mais diferente, com muitas participações especiais de amigos que a gente vai fazendo pelo mundo", recorda, enumerando as histórias engraçadas e as coincidências que envolveram vários nomes do primeiro time do jazz e da música pop na produção do CD.

Nas viagens pelo mundo afora, Milton também vai descobrindo aqui e ali novidades musicais surpreendentes. A mais recente é um coral de vozes da Bulgária. "E o que mais tenho ouvido ultimamente, junto com Miles Davis, Villa-Lobos, Ravel... Depois do projeto com os irmãos Belmondo estou mais atento à música erudita. Mas o que mais me encanta, sempre, é a música de Minas Gerais", reconhece. Para Milton, a música de Minas, incluindo compositores novos e antigos, cantoras, cantores, instrumentistas e bandas, é a melhor música que se faz hoje no Brasil.



Os sonhos na origem



Amigo de Milton Nascimento de longa data, desde antes da criação do Clube da Esquina, Márcio Borges diz que seu livro "Os Sonhos não Envelhecem" conta, antes de tudo, a história de uma amizade. "Não é uma biografia, nem autobiografia, nem reportagem. É uma crônica sobre a história de minha amizade com Milton", define o autor e protagonista da história, compositor de "Equatorial", "Gira Girou" e outros clássicos do Clube da Esquina, que apresenta no livro um belo relato poético, apesar de rememorar, entre outras histórias, páginas da ditadura militar que calou a utopia de várias gerações de brasileiros.






O livro, que estava esgotado há anos, ganhou recentemente uma nova edição. A primeira, que saiu em 1996, em pouco tempo esgotou em todo o Brasil toda a tiragem de 30 mil exemplares. A nova versão, que mereceu uma edição de luxo da Geração Editorial, tem preço promocional, graças ao apoio conseguido junto ao Ministério da Cultura.

O novo “Os Sonhos não Envelhecem” manteve o texto original de 1996, que vai dos primórdios da adolescência aos últimos tempos da parceria de Márcio com Milton Nascimento, que resultou no sucesso do Clube da Esquina. A história transformada em livro chega às lojas com formato diferenciado, com 376 páginas, farta iconografia e um acréscimo de peso para agradar aos fãs mais exigentes: um CD com uma seleção musical que inclui "Girassol", "Canto Latino", "Tudo que você podia ser" e outras canções marcantes de Milton, Lô Borges, Wagner Tiso e outros nomes de referência no movimento.







Duas fotos de Cafi reproduzidas no
livro Os Sonhos não Envelhecem:
a contracapa do LP Clube da Esquina
 e os amigos na estrada, nos anos 1970,
a bordo do Jeep Manuel Audaz
pilotado por Toninho Horta




Narrador de histórias saborosas – da explosiva década de 1960 aos anos 1980 e 1990 – Márcio Borges no livro fala ao leitor numa prosa apaixonada, emocionante. Seu livro parece um roteiro de filme, até porque o cinema tem presença constante no repertório do autor e dos personagens retratados, em especial aqueles que, como ele, viveram na pele os piores momentos da ditadura militar.

Há quase 10 anos, Márcio Borges vem se dedicando à criação e instalação do Museu Clube da Esquina – que terá sede física no prédio do Servas, atrás do Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. O museu, que ainda aguarda liberação de verbas do Ministério da Cultura, por enquanto está limitado ao formato virtual (clique aqui para visitar). Nos planos de Márcio Borges também estão o lançamento em breve de outros livros e a transformação de "Os Sonhos não Envelhecem" em cinema.



Dilma e o Clube da Esquina



Márcio Borges prepara dois novos livros: o primeiro será um romance, o outro será uma coletânea de cartas. Enquanto os outros livros não chegam às livrarias, ele trabalha para transformar "Os Sonhos não Envelhecem" em filme. Para isso, ele está concluindo as negociações para produção com o cineasta Paulo Thiago. "Ainda não sabemos se será documentário ou obra de ficção. Estamos acertando", explica.






Tempos sombrios: Dilma Rousseff aos
22 anos, na sede da Auditoria Militar
 no Rio de Janeiro, em novembro de 1970;
na foto, tirada depois de mais de 20 dias
de tortura, Dilma mostra um olhar firme,
mas os militares que a interrogam tentam
esconder o rosto. Abaixo, Milton e
Tom Jobim no Rio de Janeiro, em 1990,
em fotografia de Cristina Granato








Entre canções de poesia irresistível que fizeram história, o autor mistura no livro “Os Sonhos não Envelhecem” a história de músicas e muitas memórias compartilhadas. Sem contar uma curiosidade que ganharia força com passar do tempo: Márcio Borges teve como colega de turma no colégio, em Belo Horizonte, Dilma Rousseff, que abraçaria a militância política de resistência à ditadura militar e chegaria décadas depois à Presidência da República.

Dilma Rousseff é personagem do livro do Márcio Borges porque surge no relato na época em que os dois estudaram no antigo Colégio Estadual Central. O reencontro com a colega dos tempos de colégio só aconteceu em 2010, durante um dos compromissos de Dilma na campanha presidencial em BH. Mas não é Dilma e sim Milton Nascimento o personagem central do relato, que tem prefácio assinado por Caetano Veloso.

Reza a lenda que a mitologia do Clube da Esquina surgiu do encontro de um grupo de amigos que se reuniam na esquina da Rua Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa, em Belo Horizonte. Formado, entre outros, por Tavinho Moura, Wagner Tiso, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, Toninho Horta, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant e os integrantes do 14 Bis, o grupo de jovens amigos se juntava para cantar e tocar desde a segunda metade da década de 1960.









Cenários do Barroco Mineiro: acima,
os amigos do Clube da Esquina
em Diamantina, Minas Gerais,
no Beco do Mota e no encontro
histórico com o ex-presidente
Juscelino Kubitschek, em 1974,
fotografados por Juvenal Pereira.
Abaixo, Fernando Brant, Lô Borges,
Márcio Borges e Milton ensaiam
nas ladeiras de Diamantina






Nas reuniões informais dos amigos no bairro de Santa Tereza e nos passeios do grupo pelas cidades históricas de Minas foram criadas as canções e o imaginário de um dos discos mais antológicos da MPB, o LP “Clube da Esquina”, gravado em 1972 e tendo como protagonistas Milton Nascimento e Lô Borges, com produção de Ronaldo Bastos. Mas o Clube da Esquina também foi feito de histórias das estradas de ferro. 

Basta lembrar dos versos dos maiores clássicos de Milton Nascimento e companhia: o trem que ligava Minas ao porto, ao mar, a ferrovia, o caminho de pedra, a travessia, a paisagem na janela. A histórica estrada de ferro Vitória-Minas, que já rendeu inspiração para todos os compositores do grupo, também surge homenageada em outro livro de Márcio Borges, "Entradas e Outras Bandeiras: A Chegada da Vitória-Minas".

Com breves textos e versos de Márcio Borges, mais fotografias e direção de arte de Arthur Senra, o livro foi editado pelo clube de amigos do Museu Clube da Esquina, com recursos do Fundo Estadual de Cultura. "É um tema muito especial para cada um de nós, porque está ligado à memória afetiva do mineiro e à história do Clube da Esquina em particular", explica Márcio Borges. 






A capa do LP Clube da Esquina 2 e o
reencontro dos amigos, organizado na
passagem dos 35 anos do lançamento
do primeiro disco. Abaixo, Milton
e a islandesa Björk no camarim da
cantora, após o show na Marina da
Glória, Rio de Janeiro, em 2007



 
"Este livro, que batizamos de 'Entradas e Outras Bandeiras: A Chegada da Vitória-Minas', é um retrato desta ligação afetiva, entrando pela viagem poética a que o assunto convida. Agora, com a instalação do Museu Clube da Esquina, fiquei mais atento às questões da memória, da história oral, do registro fotográfico. Senão, a gente não consegue evitar aquele risco perigoso do passado se perder", confessa.

O convênio de instalação do museu no antigo espaço do Servas já foi assinado com o Governo do Estado e, segundo Márcio Borges, a instalação do projeto está adiantada. "Já há inclusive uma emenda parlamentar aprovada pelo Congresso Nacional que destinou recursos para a instalação do museu", explica. O Museu Clube da Esquina tem meta de instalação e abertura ao público na inauguração do Circuito Cultural Praça da Liberdade, previsto para os próximos meses. O projeto do museu, segundo Borges, tem orçamento de R$ 10 milhões.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Milton no Clube da Esquina. In: ______. Blog Semióticas, 12 de março de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/03/o-clube-da-esquina.html (acessado em .../.../...).



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