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5 de fevereiro de 2019

O pintor Jack Kerouac










E foi exatamente assim que toda minha experiência na   
estrada de fato começou, e as coisas que estavam por   
vir são fantásticas demais para não serem contadas.   

––  Jack Kerouac, “On the Road”.      








O principal avatar da geração “beat”, que desafiou as convenções morais e sociais mais conservadoras do american way of life” com um coquetel de álcool, sexo livre, jazz e alucinógenos para uma alternativa menos materialista e mais espiritualizada de enfrentar a vida, volta ao destaque mais de 50 anos depois de sua morte –– não apenas pela literatura que o consagrou, mas também por um de seus talentos incomuns que poucos conheceram quando ele estava vivo: Jack Kerouac, autor de pinturas, desenhos e ilustrações em técnica mista. Uma seleção com 80 de suas obras originais, em vários formatos e materiais, na maioria inéditas, foi reunida para uma exposição apresentada pela primeira vez em um prestigiado espaço de artes plásticas na Itália, o MAGA Museo Arte Gallarate na Lombardia, próximo a Milão, região onde o escritor viveu por um período em meados dos anos 1960, e agora surge publicada no catálogo “Kerouac: Beat Painting”, lançamento da casa editorial Skira com textos e organização pelos curadores do museu italiano Sandrina Bandera, Alessandro Catiglioni e Emma Zanella.

Basta alguma observação atenta sobre as imagens produzidas pelo Kerouac pintor para perceber que ele transportou para as artes plásticas muito da composição sofisticada, experimental, surpreendente, sedutora, que ele imprimiu à criação literária nos romances em prosa poética, contos, novelas, diários, relatos confessionais, correspondências, poemas e haikais. A força da arte de Kerouac, para além de sua literatura, já encontrou transposições para o cinema, para a música, para as artes cênicas e para histórias em quadrinhos, mas seu caráter de composição visual feita pelo próprio autor é a última faceta a chegar ao público. Descrito por biógrafos como um de seus principais interesses e talentos, o acervo completo de artes plásticas que Kerouac produziu, e que por diversos motivos não divulgou, ficaria restrito a seus herdeiros indiretos e permaneceu inédito até recentemente nos Estados Unidos na sua cidade natal, Lowell, em Massachusetts.





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O pintor Jack Kerouac: no alto, em Nova York,
1958, fotografado por Jerome Yulsman. Acima,
em foto do documento de identidade em 1943 e
fotografado no estúdio de Tom Palumbo em 1956.
Abaixo, a capa do catálogo Kerouac: Beat Painting






Antes da exposição mais abrangente apresentada no museu italiano e agora com a maior parte do acervo editado em catálogo pela Skira, as pinturas e desenhos de Kerouac apareceram de forma pontual em fragmentos e amostras que ilustram algumas de suas obras literárias e também como parte integrante em três grandes mostras retrospectivas sobre a arte e a literatura da “beat generation” apresentadas na última década nos Estados Unidos (pelo Whitney Museum em Nova York), na França (pelo Centro Pompidou em Paris) e na Alemanha (pelo Centro de Arte e Mídia ZKM em Karlsruhe). No Brasil também houve uma mostra abrangente sobre a “beat generation” no Centro Cultural Banco do Brasil (em 2016 em Brasília e em 2017 em São Paulo e Rio de Janeiro), mas restrita a fotografias e a uma extensa programação de cinebiografias, documentários, adaptações para cinema de obras do movimento “beat” ou filmes em que os autores atuaram em suas diversas performances multiculturais.



Aura questionadora e libertária



A coleção de pinturas, desenhos e esboços deixados por Kerouac veio à tona depois da morte de seu último cunhado e amigo de infância na cidade de Lowell, John Stampas, aos 84 anos, em 2017. A irmã de John, Stella Stampas, também amiga de infância de Kerouac em sua cidade natal, se tornaria a terceira esposa do escritor quando ele retornou em 1966 da última temporada na Europa. O casamento durou poucos meses, assim como outros dois casamentos anteriores de Kerouac, e depois da morte do autor, aos 47 anos, em 1969, Stella ficou com as caixas de arquivos de papéis, rascunhos, fotografias, diários, correspondências e textos inéditos, além das pinturas e desenhos. Com a morte recente de Stella e de John, seus herdeiros negociaram a concessão de direitos para a primeira exposição no museu italiano e para a publicação do acervo no catálogo da casa editorial Skira.






O pintor Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo sobre tela do final da década de 1950,
sem título, identificada como Woman with guitar.
Abaixo, pintura sem título do mesmo período e
um dos mapas em desenho a caneta feito no diário
de Kerouac para traçar, cidade por cidade, o trajeto
de uma viagem que ele fez de carona de julho a
outubro de 1948 e que, uma década depois, surgiria
como modelo para a jornada de aventuras de
Sal Paradise e Dean Moriartya dupla lendária
de protagonistas do romance On the Road










               



O catálogo inclui também, além de pinturas em óleo sobre tela e aquarelas, alguns desenhos feitos por Kerouac nos rascunhos e originais de seus textos, entre eles a ilustração feita a lápis e caneta de um autorretrato diante de uma estrada infinita que ele projetou para capa do romance “On the Road”, sua obra mais célebre, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada” e adaptado para o cinema em 2011 por Walter Salles com roteiro do porto-riquenho José Rivera, mesmo roteirista da adaptação de Salles para os diários do jovem Che Guevara em “Diários de Motocicleta”, filme de 2004. Consagrado como “Bíblia dos Hippies” e transformado em leitura lendária e obrigatória de gerações e gerações desde sua primeira edição em 1957, “On the Road” saiu editado sem a capa planejada pelo autor, mas foi um sucesso estrondoso desde que chegou às livrarias em lançamento da pequena Viking Press. Até mesmo as críticas negativas, que classificavam o livro como “imoral”, foram um ingrediente a mais como publicidade espontânea para expandir sua aura mítica de obra questionadora e libertária.

A publicação veio depois de sete anos de tentativas frustradas de apresentação em editoras, período em que o autor viajava com o original datilografado guardado na mochila. O original também é lendário pela gênese de ter sido escrito na forma de “escrita automática”, à maneira dos surrealistas franceses e do estilo be-bop dos músicos de jazz, na base do improviso criativo, sem parar para pensar ou reformular frases, totalmente datilografado em apenas três semanas em um rolo quilométrico de texto colado página a página com fita adesiva. Assim como seus textos fragmentados em diversas formas narrativas, a composição visual de Kerouac em pinturas e cores inclui referências a retratos distorcidos de pessoas que ele conhecia ou admirava, seus colegas escritores e músicos ainda anônimos, e também famosos como a atriz Joan Crawford ou o escritor Truman Capote. Há também muitas imagens de figuras nuas, eróticas, formas abstratas, paisagens incertas, crucifixos e outros signos relacionados ao sagrado do catolicismo em que ele foi criado e às crenças e ensinamentos identificados por sua aproximação com o budismo.






O pintor Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo sobre tela sem data identificada como
Woman (Joan Rawshanks) in blue with black hat.
Abaixo, Truman Capote, pintura de 1959, e uma
pintura em óleo sobre tela também de 1959 que
retrata o cardeal Giovanni Montini vestido
como papa, quatro anos antes do cardeal se tornar
o Papa Paulo VI. Também abaixo, três pinturas em
óleo sobre tela sem data e sem título, a primeira
identificada como Sunset scenee Kerouac
caminhando no Central Park, Nova York,
fotografado em 1959 por Robert Frank









Expressionismo abstrato



Uma das referências ao sagrado chama atenção do observador: uma pintura em cores expressionistas e sombrias da época da publicação de “On the Road” traça um retrato do cardeal italiano Giovanni Montini, que anos depois, em 1963, se tornaria o papa Paulo VI. Kerouac, que nunca o conheceu, viu a imagem do cardeal em trajes de papa durante ou depois de uma alucinação com mescalina ou LSD, e segundo informa no texto de apresentação Sandrina Bandera, ele teve como modelo para a pintura a óleo tão somente uma fotografia publicada pela revista “Time”. Entre outras revelações ou possibilidades, o leitor que conhece a literatura de Kerouac também vai perceber, nas imagens, algumas cenas que sugerem identificação com suas tramas e seus personagens –– caso da pintura nomeada como “Mulher de azul com chapéu preto”, uma figura andrógina, ambígua, fumando um cigarro, que traz à memória de imediato Joan Rawshanks, de seu romance de publicação póstuma “Visões de Cody”, que tem aquele célebre aviso do narrador ao leitor: “Estou escrevendo este livro porque vamos todos morrer...”

Escrito entre 1951 e 1952 e considerado pelo autor sua obra-prima, “Visões de Cody” seguiria inacabado, com apenas uma edição de fragmentos em pequena tiragem de 750 exemplares feita em 1960 pela New Directions, editora “beat” de Nova York. Como parte do espólio de Kerouac, só foi publicado na íntegra em 1973, revelando sua dimensão como estudo em tom autobiográfico sobre o herói de “On the Road”, Dean Moriarty, que neste livro é chamado de Cody Pomeray. Joan Rawshanks, que tem uma seção inteira em destaque no livro, teve inspiração, segundo Kerouac, na lembrança de uma noite quente e sufocante de 1952 em San Francisco em que ele assistiu, por acaso, a estrela Joan Crawford, a “vamp”, “femme fatale” de Hollywood, filmando nas ruas as cenas de um thriller criminal e “noir’ que se tornaria, para surpresa geral, um retumbante fracasso de público e de crítica, “This woman is dangerous” (Essa mulher é perigosa).











Seria equivocado ler essas obras de arte usando o método tradicional de um crítico de arte”, escreve Sandrina Bandera, destacando a coragem do trabalho do escritor que mesmo com o sucesso avassalador alcançando com “On the Road” ousou enveredar por outras searas como a música jazzística, os pinceis, as telas, as formas abstratas e as paletas de cores. “Porque Kerouac não era totalmente um artista plástico e nem somente um escritor. É preciso antes considerar que ele foi e continua sendo um fenômeno pop-cultural importante e que estas pinturas e desenhos agora são uma parte essencial daquela entidade potente reconhecida como Jack Kerouac. São como os membros de um único corpo girando em seu próprio eixo, tão dinâmicos que precisam de uma abundância de ferramentas diferentes para se expressar”.



Uma jornada poética



Enquanto relata as fontes de pesquisa para o trabalho de curadoria da primeira exposição no museu italiano e para a edição do catálogo, que incluiu, além do acervo dos herdeiros de Kerouac, obras cedidas por colecionadores como os irmãos Arminio e Paolo Ciolli, Sandrina Bandera revela as relações que alguns biógrafos estabelecem entre a dedicação do autor às artes plásticas e as mais diversas referências encontradas nas obras de literatura que ele produziu. Estudo e também inspiração, suas experiências sucessivas e simultâneas com uma ou outra forma de expressão são tentativas permanentes de testar seus limites, destaca a curadora, assim como têm significados muito especiais ao apontar suas relações com autores que influenciaram muito sua obra e com certos mestres da história da arte europeia, todos com um lugar decisivo no percurso de sua formação. 








O pintor Jack Kerouac: acima, pintura de
1960 em óleo sobre tela intitulada The slouch hat
(Chapéu descuidado) e The silly eye (portrait
of William Burroughs), pintura de 1959.
Abaixo, desenho a lápis e caneta sem data e sem
título identificado como retrato de Dody Muller.
Também abaixo, desenho a lápis sobre papel e
aquarela sobre papel, ambos sem título e sem data






Desta formação plural e dispersa também fazem parte: o círculo “beat” de amigos que o escritor conquistou nas temporadas de aventuras e viagens permanentes de costa a costa, de Nova York a San Francisco (a mais conhecida delas com seu maior parceiro, Neal Cassady, uma amizade que surgiu nos tempos de estudante na Universidade de Columbia e foi o ponto de partida que gerou “On the Road”), as primeiras viagens internacionais engajado na Marinha, as paixões sucessivas tão intensas como passageiras, as surpresas com as descobertas das invenções dos surrealistas, a dedicação tardia à cultura italiana, a aproximação afetiva e criativa com o fotógrafo e cineasta Robert Frank e, em maior ou menor grau de intimidade, com os mais destacados expoentes do expressionismo abstrato de Nova York, incluindo entre outros mentores Jackson Pollock, Willem de Kooning, Larry Rivers, Franz Kline, Ashile Gorky, Clyfford Still e, principalmente, Dody Muller, que permaneceu sua amante durante anos.

Para quem conhece o universo literário de Kerouac (“um índio, norte-americano e bretão”, como definiu certa vez seu parceiro Allen Ginsberg) e de seus conterrâneos e contemporâneos da geração “beat”, as cenas e sugestões de suas pinturas e desenhos parecem mesmo completar, com confidências nas ilustrações, seus textos de poesia e prosa poética, pois as imagens estão em cruzamento constante com seus escritos. É assim, também, a conclusão de Sandrina Bandera, que escreve –– “as pinturas em seu conjunto reconstroem uma narrativa na qual as obras escritas e as incursões na arte figurativa coincidiram perfeitamente em diferentes aspectos para construir a mesma jornada poética”. A literatura de Kerouac, que alcançou destaque e importância universal na segunda metade do século 20, e suas imagens agora encadeadas, no fim das contas revelam e confirmam que tanto a escrita, como a composição de formas em cores, são apenas duas maneiras complementares e simultâneas de expressar e experimentar as complexidades infinitas da linguagem.


por José Antônio Orlando.



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. O pintor Jack Kerouac. In: ______. Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2019. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2019/02/o-pintor-jack-kerouac.html (acessado em .../.../...).



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14 de novembro de 2014

Segredos de Mafalda








Nós podemos realizar coisas agradáveis,
inteligentes, que façam refletir os adultos
e também as crianças. É preciso respeitar
as crianças. Os adultos falam com elas
como se fossem todas retardadas...

–– Quino, criador de Mafalda   

 




Mafalda, muito esperta e questionadora, conquista a maioria à primeira vista: tem paixão pela primavera e pelos Beatles e horror a sopa, a moscas e a guerras. Com seu humor pitoresco e observações tão breves quanto surpreendentes sobre o mundo, as pessoas, as coisas, que permanecem atualíssimas, Mafalda completa 50 anos em plena popularidade muito além das fronteiras da Argentina, sua terra natal.

Oficialmente, ela é traduzida em várias línguas e publicada em mais de 30 países – mas, curiosamente, ainda permanece inédita nos Estados Unidos. No Brasil, tem tanto prestígio que disputa, há mais de uma década, com ninguém menos que Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, o título de recordista em citações nas questões do ENEM, o Exame Nacional do Ensino Médio.

Na trajetória de meio século de Mafalda há, também, as lendas, as crises, as idas e vindas, os altos e baixos. Para começar, teve duas datas de nascimento: a princípio, ela foi criada em 1962, para compor um anúncio publicitário de eletrodomésticos, e seu nome tem a ver com as iniciais da marca do produto, mas até sobre a data verdadeira de seu aniversário pairam certas controvérsias. 












No alto, Mafalda e Quino em
setembro de 2014, em Buenos Aires,
fotografados por Natacha Pisarenko
na abertura da exposição El Mundo
Según Mafalda, em comemoração
aos 50 anos da personagem. Acima,
Quino em sessão de autógrafos em
Paris, 2004, e Mafalda com a família
e os amigos: a partir da esquerda,
Felipe, Manolito, Susanita, Liberdade,
Mamãe (Raquel), Papai (Pelicarpo),
Guilherme (seu irmão caçula, também
chamado de Guille ou Gui) e Miguelito





Seu criador, o argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, mais conhecido como Quino, desenhou, em 15 de março de 1962, as primeiras charges e algumas tiras de histórias em quadrinhos sobre Mafalda para uma agência publicitária. A personagem deveria ser publicada em anúncios da empresa de eletrodomésticos Mansfield no jornal “Clarín”. Mas, por ironia do destino, a empresa acabou recusando os desenhos, o “Clarín” rompeu o contrato e Quino, contrariado, decidiu arquivar suas tiras.



Mafalda pelo mundo inteiro



Em 1964, a ideia das tiras e charges da "enfant terrible" é retomada por Quino, que consegue finalmente publicar sua criação no semanário da Argentina "Primera Plana". A primeira vez da Mafalda impressa aconteceu em 29 de setembro daquele ano. A popularidade da personagem, no entanto, só passaria a crescer no ano seguinte, quando os desenhos chegam ao jornal diário "El Mundo". De novo, vem a ironia do destino nos caminhos de Mafalda: o jornal foi à falência em dezembro de 1967. 









Acima, a evolução dos traços da
personagem desde 1964 e Mafalda e
Quino em maio de 2014, fotografados
para a agência EFE. Abaixo, o retrato de
Mafalda em tempos de autoritarismo
e ditadura militar em sua terra natal,
Argentina, com os cidadãos proibidos
em sua liberdade de falar, de ouvir,
de ver, e Mafalda no Brasil, nas capas
da revista Patota, publicada na década
de 1970 pela Editora Artenova, e nas
primeiras versões em livro, em 1982,
publicadas pela Global Editora




.


Mafalda retornaria firme e forte seis meses depois, em outro jornal, o “Siete Días Illustrados”. Com o crescente sucesso de público da pequena Mafalda em seu país de origem, as tirinhas não demoraram a ser reunidas em livros que logo cruzaram as fronteiras da Argentina e passaram a ser conhecidos em outros países da América Latina e também na Europa, onde tanto as tirinhas quanto os livros de Mafalda foram sucesso imediato na Itália, França, Espanha, Grécia, Portugal e outros países.

Na Europa, Mafalda desde o início foi publicada com a tarja indicando que se tratava de “história em quadrinhos para adultos” – e não demorou a conquistar a simpatia dos intelectuais ligados aos movimentos sociais e aos partidos de Esquerda. Um dos primeiros a saudar a personagem foi o italiano Umberto Eco, mestre da Semiótica, que dedicou à criação de Quino um célebre ensaio, publicado pela primeira vez em 1969, em que destacava: “Mafalda leu, provavelmente, o Che Guevara...”






Mafalda em terras brasileiras



No Brasil, Mafalda apareceu primeiro sem periodicidade, como presença ocasional em charges reproduzidas no final da década de 1960 nas páginas do lendário “Pasquim”. Em 1972, também no “Pasquim”, foi saudada por Ziraldo: “Mafalda é uma personagem criada na América Latina que logrou obter uma fama universal; acho incrível que uma menina da classe média da Argentina tenha podido ter sucesso na Finlândia”.

A estreia oficial, sob contrato, aconteceria por aqui somente em 1972, nas páginas de uma revista infantil chamada “Patota”, publicada pela Editora Artenova em 27 edições mensais, entre 1972 e 1975, em coletâneas que incluíam outros personagens de autores na maioria norte-americanos, entre eles o guerreiro viking trapalhão Hagar, o Horrível (criado por Dik Browne), a dupla Frank e Ernest (de Bob Thaves), Snoopy e a turma do Charlie Brown (de Charles Schulz), além da presença ocasional de personagens brasileiros como o psiquiatra Doutor Fraud, criado por Renato Canini. Nos anos seguintes, Mafalda apareceria ocasionalmente em outros jornais e revistas brasileiros, por conta da comercialização de séries limitadas de charges e tirinhas, também por intermédio da Editora Artenova.




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Em 1982, a presença de Mafalda no Brasil ganharia um capítulo importante: com os direitos de publicação transferidos da Artenova para a Global Editora, os cartuns originais de Quino passaram a contar com uma parceria especialíssima na tradução e adaptação por um dos grandes nomes do humor e do cartum brasileiro, Henrique de Souza Filho, o Henfil (1944-1988), célebre por seu trabalho de resistência à ditadura militar e de apoio aos movimentos sociais com a Graúna, os Fradinhos, a Mãe e outras criações geniais que marcaram época.

A aventura de Mafalda em tradução de Mouzar Benedito e edição final de Henfil foi publicada em cinco livretos pela Global Editora, em preto e branco, exceto na capa, com formato de brochura horizontal em dimensões de em 14cm por 21cm. Os livretos, que alcançaram uma surpreendente vendagem de 30 mil exemplares na primeira edição, tiveram cinco números consecutivos, de fevereiro a julho de 1982, com 76 páginas e duas tirinhas por página. Em 1988, a trajetória de Mafalda em terras brasileiras passaria por outra transferência de editora e de tradução, desta vez com versões para o português por Monica Stahel para a Martins Fontes. A nova editora reeditou, em formato de livretos, todos os cartuns, até 1991, quando toda a saga da personagem lendária de Quino foi finalmente reunida no livro de capa dura “Toda Mafalda”.







Acima, Quino em Buenos Aires, em
visita à exposição El Mundo Según
Mafalda, e na prancheta de trabalho,
em autorretrato dos anos 1970. Abaixo,
uma seleção das tirinhas da Mafalda,
em versão nacional; e Quino em Buenos
Aires, na praça batizada em homenagem
a Mafalda e na abertura da exposição
El Mundo Según Mafalda 




  
 
As versões de Quino



Mesmo com todo sucesso na Argentina e em outros países, Quino, o criador, decidiu acabar com a publicação das histórias da Mafalda em 1973. Desde então, Quino ainda voltaria a desenhar Mafalda algumas poucas vezes, principalmente para promover campanhas sobre os Direitos Humanos – como aconteceu em 1976, quando Quino aceitou o convite para fazer um pôster para a UNICEF ilustrando a Declaração Universal dos Direitos da Criança.

Filho de imigrantes espanhóis, Quino nasceu em Mendoza, Argentina, em 1932, e mantém uma rotina discreta em Madri, Espanha, onde mora há duas décadas. Sempre avesso à curiosidade dos fãs de Mafalda e aos convites para participar de programas de TV, Quino abriu uma exceção no começo deste ano, quando foi anunciado vencedor do prestigiado Prêmio Príncipe das Astúrias, na Espanha, e concedeu uma longa entrevista à agência de notícias EFE.










Na entrevista, Quino afirmou que permanece marxista e pessimista em relação à política, lembrou as situações que levaram à criação e ao sucesso de Mafalda, reconheceu que, para ele, a célebre e insolente garotinha é um "mais um desenho" e se autodefiniu como um carpinteiro que projetou um "móvel lindo".

"Eu sou como um carpinteiro que fabrica um móvel, e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho", minimizou Quino, explicando que há décadas sofre de um problema de visão que o faz viver em um "mundo um pouco desfocado". Para surpresa do entrevistador, Quino também declarou que Mafalda não foi sua "melhor aliada" para dizer "o que queria e quando queria".













O futuro de Mafalda



"Meu melhor aliado fui eu mesmo, porque deixei de dizer muitas coisas que gostaria e não se podia dizer. Desde que cheguei a Buenos Aires com minha pastinha (em 1954), me disseram que não podia fazer desenhos sobre militares, sobre a igreja, o divórcio, a moral. Então me acostumei a desenhar as coisas que me permitiam", lembrou. Quino também reconheceu que a primeira encomenda para criar Mafalda pedia algo no estilo de Charlie Brown e a turma de Peanuts, a mais famosa criação de Charles Schulz (1922–2000).

"Copiei as cenas de minha rotina e de minha casa, e as pessoas gostaram, porque poucos desenhistas faziam isso. Charlie Brown me agrada muito, mas me parece um horror que não haja adultos. Em meu trabalho, apelava para as notícias do dia, e escrevia sobre o que saía nos jornais; o mundo era assim. Eu não disse, 'vou a fazer uma menina contestadora'; não, saiu assim".











Quino também declarou à agência EFE que está consciente sobre o sucesso de Mafalda, que continua sendo uma personagem querida no mundo todo, por leitores de todas as idades. Contudo, na conclusão da entrevista faz questão de dizer que não tem nenhuma ilusão sobre o que poderá acontecer com Mafalda no futuro.

"Não acredito que Mafalda ultrapasse as fronteiras da História e se transforme em algo parecido com a música de Mozart”, destacou Quino. “Haverá no futuro outras temáticas muito mais importantes que as coisas que Mafalda disse há tanto tempo. Além disso, aparecerão muitos outros suportes de mídia que ainda não se conhece, outras muitas personagens, talvez mais interessantes. Hoje, olhando para o passado, penso que ou o mundo não evoluiu ou então a Mafalda é que sempre foi muito evoluída".


por José Antônio Orlando.



Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Segredos de Mafalda. In: ______. Blog Semióticas, 14 de novembro de 2014. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2014/11/segredos-de-mafalda_14.html (acessado em .../.../...). 



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