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9 de outubro de 2011

Vida de artista







Nas últimas décadas, o grafite deixou de ser simplesmente uma arte improvisada nas ruas, registrada em muros e fachadas, para ganhar cada vez mais prestígio em grandes galerias e museus. Às vezes confundida pelos leigos com pichações e vandalismo, a arte do grafite não tem necessariamente nenhuma relação com poluição, sujeira e agressão. O artista plástico Rui Santana, morto em 2008, aos 48 anos, vítima de câncer, que dedicou anos de esforço à arte do grafite, costumava dizer que o grafite não vai mudar o mundo.

Não vai mudar o mundo, mas pode mudar as pessoas, a atitude que elas têm diante da vida e do mundo ao redor”, dizia. Artista plástico, fotógrafo, designer, professor e agitador cultural, Rui Santana deixou sua marca de inconformismo e de educação pela arte em todos aqueles que conviveram com ele – em Juiz de Fora, sua terra-natal, mas também em Belo Horizonte, que ele escolheu para morar e trabalhar, e em outras tantas cidades do Brasil e do mundo que ele visitou a trabalho ou pelo simples prazer da descoberta.






Vida de artista: acima e abaixo,
Rui Santana fotografado no ateliê
em Belo Horizonte, em 2008. No alto,
uma das obras produzidas na Serraria
Souza Pinto durante a Bienal
Internacional do Grafite realizada
em Belo Horizonte em setembro de 2008






A empolgação de Rui no trato da arte impressionava – como destacam alguns dos depoimentos dos que conheceram seu trabalho intenso e inquieto em pintura, fotografia, desenho, colagens e grafite. "As pessoas costumam cobrar uma fidelidade a essa ou aquela escola, um respeito a determinada técnica. E o que eu quero é buscar uma linguagem própria, criando a minha visão de mundo. Procuro uma comunicação com o mundo e comigo mesmo", declarou o próprio Rui Santana em uma entrevista reproduzida no livro-tributo que foi lançado em sua homenagem, com sua fé inabalável nas qualidades da intuição.



O livro-tributo



Uma amostra das ideias, textos e obras realizadas pelo artista está agora reunida em uma publicação de qualidade – transcritos no livro-tributo “Rui Santana”, 47° volume da coleção Circuito Atelier, produzida pela Editora C/Arte e coordenada por Fernando Pedro e Marília Andrés. A edição e o lançamento do livro em homenagem a Rui Santana contou com apoio da família e dos amigos do artista.

 





Organizado pelo jornalista Mateus Santana, filho de Rui, em parceria com o poeta Luiz Edmundo Alves, a edição traz em 96 páginas uma seleção de depoimentos, entrevistas, breves comentários sobre a trajetória do artista, reproduções coloridas de uma seleção de suas obras mais importantes e fotografias inéditas. "Rui foi um artista plural e antenado com seu tempo. Por sorte, também acompanhou o planejamento do livro", aponta Mateus Santana.

O lançamento do livro, numa manhã de sábado, na Alameda dos Jacarandás, Condomínio Canto das Águas, em Rio Acima, onde o artista mantinha seu ateliê – contou com uma programação para emocionar: música ao vivo, muitos artistas convidados e exibição de um vídeo sobre Rui, sob a coordenação da jornalista e apresentadora da Rede Minas Mariana Tavares. 


 






Para homenagear a arte de Rui Santana, o diretor do vídeo, Paulo Henrique Rocha, realizou entrevistas com os amigos e familiares e traça um perfil alegre e descontraído. Também houve uma grande mostra dos trabalhos de Rui no próprio atelier, a maior reunião já organizada de suas obras, e inauguração de exposição virtual no site www.comarte.com. 



Grafite e responsabilidade social
 


"Fui educado pela Imaginação/ Viajei pela mão dela sempre/ Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso/ E todos os dias têm essa janela por diante/ E todas as horas parecem minhas dessa maneira" – aponta a epígrafe de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, que abre o livro-tributo sobre Rui Santana.






Tributo a Rui Santana como artista
e arte-educador nas ruas de BH: grafite
assinado por Gnomo Sabão. Abaixo,
imagem que registra um dos debates
durante a primeira e única BIG, Bienal 
Internacional do Grafite de Belo Horizonte,
com presença da artista plástica e arte-educadora
Júlia Pontesde Rui Santana, do rapper de
Belo Horizonte e ativista social Renegado
e do professor da UFMG Juarez Dayrell,
que apresentaram ao público o tema
Grafite como identidade nos séculos 20 e 21.
Também abaixo, Guga Baygon, um dos
artistas convidados para participar da BIG













 

"Sempre atento, Rui observou a arte com o olhar de um pássaro, conhecendo um universo amplo que o levou a reconhecer e a incluir o outro, como nos projetos coordenados com os grafiteiros, que tiveram a oportunidade de ter recuperado sua autoestima através do trabalho artístico. Essa preocupação social sempre esteve presente nas ações de Rui Santana”, destaca Fernando Pedro.

O mentor da editora C/Arte lembra que o artista Rui Santana fez valer sua responsabilidade social promovendo e orientando o trabalho dos grafiteiros e organizando eventos importantes como a BIG-BH, Bienal Internacional do Grafite em Belo Horizonte. A bienal, primeira e única, aconteceu entre os dias 30 de Agosto e 7 de Setembro de 2008, na Serraria Souza Pinto.

 


       
Coordenada por Rui Santana, a bienal foi o primeiro evento do gênero no mundo, e trouxe a BH uma extensa e bem-sucedida programação seminários, oficinas, exposições e intervenções urbanas. Com atrações vindas dos quatro cantos do mundo, que incluíam países como Inglaterra, Holanda, Japão, Alemanha, Chile, Porto Rico e Estados Unidos, o evento mostrou o que vem sendo produzido nos cenários nacional e mundial do grafite. 



A cena do grafite
 


A ideia é transformar o local em uma grande galeria, com desenhos, pinturas, estêncils e stickers”, declarou Rui Santana na abertura da BIG-BH. “Belo Horizonte é uma grande geradora de talentos. Nas artes plásticas temos uma grande tradição, e a cena do grafite – que é fortíssima na capital – cresce em ética e estética com diversos projetos, grande parte deles beneficiado comunidades”.


















Vida de artista: no alto, dois grafites
do alemão Klaus Klinger em fachadas de
prédios em Dusseldorf, Alemanha. Também
acima, grafites dos irmãos Otávio e Gustavo
Pandolfo (foto abaixo), conhecidos como
OsGêmeos, com participação de Nunca e
Nina Pandolfo (esposa de Otávio), pintados
no Castelo de Kelburnna Escócia, em
projeto concluído em junho de 2007







Com uma vida artística fértil, Rui foi idealizador e coordenador de vários projetos de sucesso. Além da Bienal Internacional de Grafite, foi o mentor de projetos que fizeram história como o “Muros do Jardim Teresópolis”, em Betim, vinculado o programa “Árvore da Vida”, da Fiat; e de vários projetos de arte-educação, como o “Arena da Cultura”, da Fundação Municipal de Cultura, que buscava a democratização dos acessos à produção e apreciação artísticas.

Faço questão de manter uma produção artística, porque sou um apaixonado pela pintura e também porque, como educador, tenho que estar sempre dinamizando a arte”, diz Rui Santana em um dos textos selecionados para a publicação da C/Arte. Para o filho, Mateus Santana, a obra de Rui aponta para o futuro. Segundo Mateus, há ainda um acervo de trabalhos inéditos que serão apresentados ao público em eventos futuros.

 




Vida de artista: acima, Rui Santana
homenageado no grafite de Gabriel Dias.
Abaixo, amostras da arte de Rui Santana
em pinturas que combinam técnicas em
tinta acrílica, óleo sobre tela e aquarelas













"Vamos planejar exposições para apresentar as últimas obras inéditas de Rui, incluindo seus três últimos quadros em grandes formatos", explica Mateus. Ele também destaca a disposição de Rui para os novos projetos e os enfrentamentos cotidianos da vida de artista. "Rui participava de tudo e acompanhava tudo. O livro é uma homenagem merecida por tudo aquilo que ele fez", completa. 



Um epitáfio do artista

 

Existir é ser possível haver ser – poderia ser o epitáfio do artista, parodiando Fernando Pessoa e seus heterônimos. Ou, como registrou no poema "Passagem das horas" Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, preferido de Rui Santana:


Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles, Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
— Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas”...



por José Antônio Orlando. 



Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Vida de artista. In: ______. Blog Semióticas, 9 de outubro de 2011. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2011/10/vida-de-artista.html (acessado em .../.../...).









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