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E
foi exatamente assim que toda minha experiência na
estrada
de fato começou, e as coisas que estavam por
vir
são fantásticas demais para não serem contadas.
–– Jack
Kerouac, “On the Road”.
|
O
principal avatar da geração “beat”, que desafiou as convenções morais e sociais mais conservadoras do “american way of life” com um coquetel de álcool, sexo livre, jazz e alucinógenos para uma alternativa menos materialista e mais espiritualizada de enfrentar a vida, volta ao destaque mais de 50
anos depois de sua morte –– não apenas pela literatura que o consagrou,
mas também por um de seus talentos incomuns que poucos conheceram
quando ele estava vivo: Jack Kerouac, autor de pinturas, desenhos e
ilustrações em técnica mista. Uma seleção com 80 de suas obras originais, em vários formatos e materiais, na maioria inéditas,
foi reunida para uma exposição apresentada pela primeira vez em um
prestigiado espaço de artes plásticas na Itália, o MAGA Museo Arte
Gallarate na Lombardia, próximo a Milão, região onde o escritor
viveu por um período em meados dos anos 1960, e agora surge
publicada no catálogo “Kerouac: Beat Painting”, lançamento
da casa editorial Skira com textos e organização pelos curadores do
museu italiano Sandrina Bandera, Alessandro Catiglioni e Emma
Zanella.
Basta
alguma observação atenta sobre as imagens produzidas pelo Kerouac
pintor para perceber que ele transportou para as artes plásticas
muito da composição sofisticada, experimental, surpreendente,
sedutora, que ele imprimiu à criação literária nos romances em
prosa poética, contos, novelas, diários, relatos confessionais,
correspondências, poemas e haikais. A força da arte de Kerouac,
para além de sua literatura, já encontrou transposições para o
cinema, para a música, para as artes cênicas e para histórias em
quadrinhos, mas seu caráter de composição visual feita pelo
próprio autor é a última faceta a chegar ao público. Descrito por
biógrafos como um de seus principais interesses e talentos, o acervo
completo de artes plásticas que Kerouac produziu, e que por diversos
motivos não divulgou, ficaria restrito a seus herdeiros indiretos e
permaneceu inédito até recentemente nos Estados Unidos na sua
cidade natal, Lowell, em Massachusetts.
.
O
pintor
Jack Kerouac:
no alto, em Nova York,
1958,
fotografado por Jerome
Yulsman.
Acima,
em
foto do documento de identidade em 1943 e
fotografado
no estúdio de Tom
Palumbo
em 1956.
Abaixo,
a capa do catálogo Kerouac:
Beat Painting
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Antes
da exposição mais abrangente apresentada no museu italiano e agora
com a maior parte do acervo editado em catálogo pela Skira, as
pinturas e desenhos de Kerouac apareceram de forma pontual em
fragmentos e amostras que ilustram algumas de suas obras literárias
e também como parte integrante em três grandes mostras
retrospectivas sobre a arte e a literatura da “beat generation”
apresentadas na última década nos Estados Unidos (pelo Whitney
Museum em Nova York), na França (pelo Centro Pompidou em Paris) e na
Alemanha (pelo Centro de Arte e Mídia ZKM em Karlsruhe). No Brasil
também houve uma mostra abrangente sobre a “beat generation” no
Centro Cultural Banco do Brasil (em 2016 em Brasília e em 2017 em
São Paulo e Rio de Janeiro), mas restrita a fotografias e a uma
extensa programação de cinebiografias, documentários, adaptações
para cinema de obras do movimento “beat” ou filmes em que os
autores atuaram em suas diversas performances multiculturais.
Aura
questionadora e libertária
A
coleção de pinturas, desenhos e esboços deixados por Kerouac veio
à tona depois da morte de seu último cunhado e amigo de infância
na cidade de Lowell, John Stampas, aos 84 anos, em 2017. A irmã de
John, Stella Stampas, também amiga de infância de Kerouac em sua cidade natal, se tornaria a terceira esposa do escritor quando ele retornou em 1966 da última temporada na Europa. O casamento durou poucos meses, assim
como outros dois casamentos anteriores de Kerouac, e depois da morte do autor, aos 47 anos, em 1969, Stella ficou com as caixas de arquivos
de papéis, rascunhos, fotografias, diários, correspondências e
textos inéditos, além das pinturas e desenhos. Com a morte recente
de Stella e de John, seus herdeiros negociaram a concessão de
direitos para a primeira exposição no museu italiano e para a
publicação do acervo no catálogo da casa editorial Skira.
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O
pintor
Jack Kerouac:
acima,
pintura em
óleo
sobre tela do final da década de 1950,
sem
título, identificada como Woman
with guitar.
Abaixo,
pintura sem título do mesmo período e
um dos mapas em desenho a caneta feito no diário
de Kerouac para traçar, cidade por cidade, o trajeto
de uma viagem que ele fez de carona de julho a
outubro de 1948 e que, uma década depois, surgiria
como modelo para a jornada de aventuras de
Sal Paradise e Dean Moriarty, a dupla lendária
de protagonistas do romance On the Road
um dos mapas em desenho a caneta feito no diário
de Kerouac para traçar, cidade por cidade, o trajeto
de uma viagem que ele fez de carona de julho a
outubro de 1948 e que, uma década depois, surgiria
como modelo para a jornada de aventuras de
Sal Paradise e Dean Moriarty, a dupla lendária
de protagonistas do romance On the Road

O
catálogo inclui também, além de pinturas em óleo sobre tela e
aquarelas, alguns desenhos feitos por Kerouac nos rascunhos e
originais de seus textos, entre eles a ilustração feita a lápis e
caneta de um autorretrato diante de uma estrada infinita que ele
projetou para capa do romance “On the Road”, sua obra mais célebre, traduzido no Brasil como “Pé na Estrada” e adaptado para o cinema em 2011 por Walter Salles com roteiro do porto-riquenho José Rivera, mesmo roteirista da adaptação de Salles para os diários do jovem Che Guevara em “Diários de Motocicleta”, filme de 2004. Consagrado
como “Bíblia dos Hippies” e transformado em leitura lendária e
obrigatória de gerações e gerações desde sua primeira edição
em 1957, “On the Road” saiu editado sem a capa planejada pelo
autor, mas foi um sucesso estrondoso desde que chegou às livrarias
em lançamento da pequena Viking Press. Até mesmo as críticas
negativas, que classificavam o livro como “imoral”, foram um
ingrediente a mais como publicidade espontânea para expandir sua
aura mítica de obra questionadora e libertária.
A
publicação veio depois de sete anos de tentativas frustradas de
apresentação em editoras, período em que o autor viajava com o
original datilografado guardado na mochila. O original também é
lendário pela gênese de ter sido escrito na forma de “escrita
automática”, à maneira dos surrealistas franceses e do estilo be-bop dos músicos de jazz, na base do improviso criativo, sem parar para
pensar ou reformular frases, totalmente datilografado em apenas três
semanas em um rolo quilométrico de texto colado página a página
com fita adesiva. Assim como seus textos fragmentados em diversas
formas narrativas, a composição visual de Kerouac em pinturas e
cores inclui referências a retratos distorcidos de pessoas que ele
conhecia ou admirava, seus colegas escritores e músicos ainda
anônimos, e também famosos como a atriz Joan Crawford ou o escritor
Truman Capote. Há também muitas imagens de figuras nuas, eróticas, formas abstratas, paisagens incertas, crucifixos e outros signos relacionados ao
sagrado do catolicismo em que ele foi criado e às crenças e ensinamentos identificados por sua aproximação com o budismo.
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O pintor
Jack Kerouac: acima, pintura em
óleo
sobre tela sem data identificada como
Woman (Joan
Rawshanks) in blue with black hat.
Abaixo, Truman
Capote, pintura de 1959, e uma
pintura em óleo sobre tela também de 1959 que
retrata o cardeal Giovanni Montini vestido
como papa, quatro anos antes do cardeal se tornar
o Papa Paulo VI. Também abaixo, três pinturas em
óleo sobre tela sem data e sem título, a primeira
identificada como Sunset scene; e Kerouac
caminhando no Central Park, Nova York,
pintura em óleo sobre tela também de 1959 que
retrata o cardeal Giovanni Montini vestido
como papa, quatro anos antes do cardeal se tornar
o Papa Paulo VI. Também abaixo, três pinturas em
óleo sobre tela sem data e sem título, a primeira
identificada como Sunset scene; e Kerouac
caminhando no Central Park, Nova York,
fotografado em 1959 por Robert Frank
Expressionismo
abstrato
Uma
das referências ao sagrado chama atenção do observador: uma
pintura em cores expressionistas e sombrias da época da
publicação de “On the Road” traça um retrato do
cardeal italiano Giovanni Montini, que anos depois, em
1963, se tornaria o papa Paulo VI. Kerouac, que nunca o
conheceu, viu a imagem do cardeal em trajes de papa durante ou depois de uma alucinação com mescalina ou LSD, e segundo informa no texto de apresentação Sandrina
Bandera, ele teve como modelo para a pintura a óleo tão
somente uma fotografia publicada pela revista “Time”. Entre outras revelações ou possibilidades, o leitor que conhece a literatura de Kerouac também vai perceber, nas
imagens, algumas cenas que sugerem identificação com
suas tramas e seus personagens –– caso da
pintura nomeada como “Mulher de azul com chapéu preto”, uma
figura andrógina, ambígua, fumando um cigarro, que traz à memória
de imediato Joan Rawshanks, de seu romance de publicação
póstuma “Visões de Cody”, que
tem aquele célebre aviso do narrador ao leitor: “Estou
escrevendo este livro porque vamos todos morrer...”
Escrito
entre 1951 e 1952 e considerado pelo autor sua obra-prima, “Visões
de Cody” seguiria inacabado, com apenas uma edição de fragmentos
em pequena tiragem de 750 exemplares feita em 1960 pela New
Directions, editora “beat” de Nova York. Como parte do espólio
de Kerouac, só foi publicado na íntegra em 1973,
revelando sua dimensão como estudo em tom autobiográfico
sobre o herói de “On the Road”, Dean Moriarty, que neste
livro é chamado de Cody Pomeray. Joan Rawshanks, que tem uma seção
inteira em destaque no livro, teve inspiração, segundo Kerouac, na lembrança de uma noite quente e sufocante de
1952 em San Francisco em que ele assistiu, por acaso, a
estrela Joan Crawford, a “vamp”, “femme fatale” de
Hollywood, filmando nas ruas as cenas de um thriller criminal e
“noir’ que se tornaria, para surpresa geral, um
retumbante fracasso de público e de crítica, “This
woman is dangerous” (Essa mulher é perigosa).
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“Seria
equivocado ler essas obras de arte usando o método tradicional de um
crítico de arte”, escreve Sandrina Bandera, destacando
a coragem do
trabalho do escritor que mesmo
com o sucesso avassalador alcançando com “On the Road” ousou
enveredar por outras searas como a música jazzística, os
pinceis, as telas, as formas abstratas
e as paletas de cores. “Porque Kerouac não era
totalmente um artista plástico e nem somente um escritor. É
preciso antes considerar que ele foi e continua sendo um
fenômeno pop-cultural importante e que estas pinturas e
desenhos agora são uma parte essencial daquela entidade
potente reconhecida como Jack Kerouac. São como os membros de
um único corpo girando em seu próprio eixo, tão dinâmicos que
precisam de uma abundância de ferramentas diferentes para se
expressar”.
Uma
jornada
poética
Enquanto
relata as fontes de pesquisa para o trabalho de curadoria da primeira
exposição no museu italiano e para a edição do catálogo, que
incluiu, além do acervo dos herdeiros de Kerouac, obras cedidas por
colecionadores como os irmãos Arminio e Paolo
Ciolli, Sandrina Bandera revela as relações que
alguns biógrafos estabelecem entre a dedicação do autor às
artes plásticas e as mais diversas referências encontradas
nas obras de literatura que ele produziu. Estudo e também inspiração, suas
experiências sucessivas e simultâneas com uma ou outra
forma de expressão são tentativas permanentes de testar seus
limites, destaca a curadora, assim como têm significados muito especiais ao apontar
suas relações com autores que influenciaram muito
sua obra e com certos mestres da história da arte
europeia, todos com um lugar decisivo no percurso de sua formação.
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O
pintor
Jack Kerouac:
acima,
pintura de
1960
em óleo
sobre tela intitulada
The
slouch hat
(Chapéu
descuidado) e
The
silly eye (portrait
of
William Burroughs),
pintura
de 1959.
Abaixo,
desenho a lápis e caneta sem data e sem
título
identificado como retrato
de Dody Muller.
Também abaixo, desenho a lápis sobre papel e
aquarela sobre papel, ambos sem título e sem data
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Desta
formação plural e dispersa também fazem parte: o círculo
“beat” de amigos que o escritor conquistou nas
temporadas de aventuras e viagens permanentes de costa a
costa, de Nova York a San Francisco (a mais conhecida delas com seu
maior parceiro, Neal Cassady, uma amizade que surgiu nos tempos
de estudante na Universidade de Columbia e foi o ponto de partida que
gerou “On the Road”), as primeiras viagens internacionais
engajado na Marinha, as paixões sucessivas tão intensas
como passageiras, as surpresas com as descobertas das invenções dos
surrealistas, a dedicação tardia à cultura italiana, a
aproximação afetiva e criativa com o fotógrafo e
cineasta Robert Frank e, em maior ou menor grau
de intimidade, com os mais destacados expoentes do expressionismo abstrato de
Nova York, incluindo entre outros mentores Jackson Pollock,
Willem de Kooning, Larry Rivers, Franz Kline, Ashile Gorky,
Clyfford Still e, principalmente, Dody Muller, que permaneceu sua
amante durante anos.
Para
quem conhece o universo literário de Kerouac (“um índio,
norte-americano e bretão”, como definiu certa vez seu parceiro
Allen Ginsberg) e de seus conterrâneos e contemporâneos
da geração “beat”, as cenas e sugestões de suas
pinturas e desenhos parecem mesmo completar, com confidências nas ilustrações, seus textos de poesia e prosa poética, pois as imagens estão em cruzamento constante com seus escritos. É assim,
também, a conclusão de Sandrina Bandera, que escreve ––
“as pinturas em seu conjunto reconstroem uma narrativa na qual as
obras escritas e as incursões na arte figurativa coincidiram
perfeitamente em diferentes aspectos para construir a mesma jornada poética”. A literatura de Kerouac, que alcançou destaque e importância universal na segunda metade do século 20, e suas imagens agora encadeadas, no fim das contas revelam e confirmam que tanto a escrita, como a composição de
formas em cores, são apenas duas maneiras complementares e simultâneas de expressar e
experimentar as complexidades infinitas da linguagem.
por José
Antônio Orlando.
Como
citar:
ORLANDO,
José Antônio. O pintor Jack Kerouac. In: ______. Blog
Semióticas,
5 de fevereiro de 2019.
Disponível no link
http://semioticas1.blogspot.com/2019/02/o-pintor-jack-kerouac.html
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