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6 de março de 2026

Lisette Model contra os racistas

 




Não conheço nenhum fotógrafo que tenha fotografado

pessoas com tanta intimidade quanto Lisette Model”.

–– Berenice Abbott (1898-1991).  




Quem tem interesse pelos clássicos do jazz conhece o trabalho da fotógrafa Lisette Model: ela registrou, em belas imagens, flagrantes dos maiores músicos e intérpretes do jazz e seu público, incluindo os estreantes que em sua época ainda não eram famosos. Muitas das fotos feitas por Lisette Model ilustraram capas e encartes de álbuns lendários e reportagens diversas sobre os jazzistas mais célebres – e algumas ficaram tão conhecidas que não mais recebem o crédito de autoria da fotógrafa, como se fossem retratos naturais dos músicos ou imagens de domínio público. Lisette Model morreu aos 82 anos, em 1983, mas somente agora, décadas depois da apuração de seu espólio, uma parte surpreendente de seu legado é finalmente revelada: milhares de fotografias da cena jazzística dos anos 1940 e 1950 que permaneciam inéditas.


Uma coleção de 200 fotos, selecionadas do acervo de seus mais de 1.800 negativos de 35 mm, agora está publicada em “Lisette Model: The Jazz Pictures”, fotolivro de 240 páginas lançado pela Eakins Press Foundation, com breves ensaios escritos por Langston Hughes, Loren Schoenberg e Audrey Sands – que também assina a coordenação editorial. Lisette Model era um pseudônimo. Seu nome de batismo foi Elise Amelie Felicie Stern, nascida em 1901 em Viena, na Áustria, com ascendência judia. No final dos anos 1920, após a morte do pai, ela vai para Paris. Em 1938, ela e o marido, o pintor Evsa Model, nascido na Rússia, embarcam para os Estados Unidos, fugindo da ascensão dos nazistas. Em Nova York, Lisette Model adota o pseudônimo e o trabalho com fotografia para sobreviver, tornando-se associada da cooperativa Photo League, da qual faziam parte estreantes e veteranos, entre eles Paul Strand, Edward Weston, Berenice Abbot, Ruth Orkin, Helen Levitt e Robert Frank.

















Lisette Model contra os racistas: pressão do FBI
impediu
a fotógrafa de publicar seus registros sobre
Gigantes do Jazz nos anos 1950. Agora um fotolivro
revela
suas imagens lendárias. No alto da página,
Ray Nance (à esquerda) e Duke Ellington (à direita)
em apresentação no palco do Newport Jazz Festival.

Acima,
Louis Armstrong entre dois músicos brancos
no palco do Basin Street East, Nova York, em 1954;
e dois flagrandes do produtor musical
Ollie McLaughlin
e amigos em uma festa depois dos shows no Newport
Jazz Festival, em Rhode Island, em junho de 1956.

Abaixo,
Bud Powell ao piano no palco do New York
Jazz Festival, em 1957; fotografia que estampa a capa
do fotolivro
“Lisette Model: The Jazz Pictures”,
que inclui todas as imagens reproduzidas
nesta postagem



































Insinuações sem prova



Ainda na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Lisette Model conquistou destaque na Photo League e seu trabalho passou a ser publicado em revistas de prestígio como a Harper’s Bazaar. Sua atuação política e seu papel de liderança, no entanto, a tornaram alvo das investigações do FBI e do senador Joseph McCarthy, que na década de 1950 comandou uma caça às bruxas contra comunistas e contra todos que pudesse rotular por “atividades anti-americanas”. Como resultado da perseguição política e das imposições da censura, Lisette acabaria trocando a fotografia pelo trabalho de professora na New School for Social Research, em Nova York, onde teve alunos que se tornaram célebres na fotografia, entre eles Diane Arbus, Larry Fink, Helen Gee e John Gossage. Nos livros de história, o nome de Lisette Model passaria a constar como mais uma vítima do macarthismo, um termo que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, identifica a prática criminosa de “formular acusações sem provas e fazer perseguições ou insinuações de teor político”.




             


Lisette Model contra os racistas: acima,
Ella Fitzgerald em 1956 no palco
do Newport Jazz Festival.

Abaixo, Louis Armstrong e Velma Middleton
no palco do Basin Street East, em Nova York,
em 1954; 
e Louis no aquecimento para sua
apresentação no Newport Jazz Festival,
em 1956, no ônibus alugado que
também funcionava como camarim



                  












A dedicação e o entusiasmo de Lisette Model pelo jazz não deixam de evidenciar sua identificação com as lutas contra injustiças e com as atitudes de resistência que sempre estiveram presentes na trajetória dos músicos negros, desde os primórdios. Lisette Model já estava nos Estados Unidos em 1939, quando Billie Holiday cantou pela primeira vez e gravou “Strange Fruit”, a canção pioneira do protesto político que lamentava a realidade de milhares de pessoas negras vítimas de ataques racistas e de linchamento, assassinadas e dependuradas nas árvores. Não é por acaso que Billie Holiday surge em destaque entre as fotografias inéditas de Lisette Model, junto com as belas imagens em preto e branco de Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen McCrae, Miles Davis, Horace Silver, Art Blakey, Count Basie, Dizzy Gillespie e outros gigantes do mundo do jazz.



Censura e perseguição



Lisette Model também ficaria conhecida por suas fotografias de rua com seu estilo irônico e de crítica social, mas quando se observa seus retratos do jazz o que vem à tona é o tom de alegria e encantamento, com cuidados no enquadramento e na composição que ainda hoje surpreendem. Em 1952, diante do imenso acervo de seus retratos de personalidades do jazz e de cenas dos shows, ela deu início ao projeto da publicação de um livro de fotografias dedicado exclusivamente ao tema, em uma época em que a publicação de fotolivros era algo incomum e com raros antecedentes. Mas a edição do fotolivro não se concretizou e o desfecho foi melancólico: depois que a fotógrafa foi convocada para prestar depoimentos no FBI sobre suas atividades à frente da cooperativa New York Photo League, e de McCarthy ameaçar incluir seu nome na famigerada Lista de Vigilância de Segurança Nacional, as editoras e os financiadores cancelaram o apoio ao projeto.









Lisette Model contra os racistas: acima,
o pianista Teddy Wilson e o trompetista
Dizzy Gillespie proseando na mesa de uma
casa noturna em Nova York, em 1954.

Abaixo, dois registros do ano de 1957
no Café Bohemia do Greenwich Village:
o trompetista
Miles Davis assiste na plateia e
aplaude o pianista 
Willie “The Lion” Smith.

Miles Davis e outros músicos foram vítimas
de racismo e violência policial. Em agosto de
1959, em frente ao famoso clube de jazz
Birdland, onde estava se apresentando,
Miles sofreu um espancamento brutal.

Na mesma época, Art Taylor, depois de
ser ameaçado e espancado por policiais
diversas vezes, acabou se mudando para a
França, assim como outros músicos negros
que buscaram refúgio em países da Europa
contra a violência policial e a perseguição política












Na mesma época, a cooperativa de Nova York seria fechada pelo FBI e todas as revistas e agências de notícia deixaram de publicar e de comercializar as fotografias de Lisette Model. Confiante na importância do tema do jazz e na qualidade de seu acervo, Lisette Model chegou a contratar, para escrever um ensaio que acompanharia as fotografias, o jornalista e escritor Langston Hughes, um dos intelectuais e ativistas que tiveram destaque no movimento cultural e político conhecido como Harlem Renaissence (Renascimento do Harlem) que impulsionou a música e a literatura afro-americana nas décadas de 1920 e 1930. Hughes também foi a principal liderança, em 1930, da Liga de Luta pelos Direitos dos Negros. Foi o jazz que aproximou Lisette Model de Hughes e das lideranças comunistas, assim como atraiu outros fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas do teatro, do cinema e das artes plásticas.



A causa antirracista




O círculo de intelectuais e artistas que orbitavam a esquerda comunista se ampliava naquela época e todos eles abraçavam tanto a luta antirracista como a ideia de que o jazz representava a cultura mais profundamente democratizante dos Estados Unidos. O ensaio de Hughes sob encomenda de Lisette, no entanto, não foi concluído, e com a pressão do FBI a fotógrafa terminou adiando por tempo indeterminado a edição do livro. Seu acervo de fotografias sobre o mundo do jazz foi arquivado e permaneceu inédito durante décadas. Hughes morreu em 1967, aos 65 anos, e suas anotações para o ensaio somente agora são publicadas em “Lisette Model: The Jazz Pictures”.











Lisette Model contra os racistas
: acima,
pai e filho nas trilhas do jazz, Josh White Jr.
e
Josh White no Music Inn, Massachusetts,
em 1956.
Abaixo, o baterista Art Taylor no
Café Bohemia do Greenwich Village,
em Nova York, em foto de 1957






Ao apresentar a cronologia da obra de Lisette Model e o valor de seu acervo como patrimônio cultural e político, a historiadora Audrey Sands reconhece que a grande maioria da comunidade dos refugiados em Nova York, incluindo intelectuais, artistas e muitos empreendedores ligados à literatura e à música, entre eles os fundadores da gravadora Blue Note Records e os parceiros de Lisette Model na cooperativa Photo League, eram sim militantes de esquerda, assim como os músicos do jazz que compartilhavam ideais de igualdade e liberdade. Quanto à perseguição e ao silenciamento por imposição do macarthismo, Sands explica que havia muito racismo entrelaçado às questões ideológicas: os partidários do macarthismo eram partidários da supremacia branca, apoiavam a política segregacionista e perseguiam os defensores dos direitos civis sob o pretexto de combater o comunismo.

No ensaio de apresentação que abre o fotolivro, Audrey Sands reconstitui os percalços violentos e melancólicos de perseguição e silenciamento de Lisette Model e de muitos outros intelectuais, artistas e músicos do jazz – e faz um inevitável paralelo com o colapso contemporâneo provocado por um governo de inspiração fascista, militante da guerra e da violência, fomentado por ideias racistas da supremacia branca. Para todos nós, leitores, ouvintes do jazz e observadores das belas imagens registradas por Lisette Model, há um choque de realidade ao perceber que a repressão de hoje não é sem precedentes, mas um retorno a um período que parecia ter sido superado.






Lisette Model contra os racistas:
dois registros em 1957 no palco do
New York Jazz Festival – acima,
o cantor Joe Williams e abaixo,
o pianista
Count Basie













Uma arte interrompida



“O jazz é a montagem de um sonho permanentemente adiado”, escreveu Langston Hughes. Contudo, também é possível considerar a beleza do fotolivro de Lisette Model como uma conquista e um triunfo – uma vitória pela sobrevivência depois da censura e do silenciamento. Em cada imagem, cada gesto, cada expressão de um rosto ou cada contraste em claro e escuro das composições da fotógrafa, estão a beleza e a tradução de algo que permanece vivo e comovente. A trajetória de Lisette Model e a história do jazz têm um ponto de ruptura em 1959, quando Billie Holiday morre, de repente, aos 44 anos. Billie também sofreu perseguição violenta do aparato policial e político e Lisette Model, sua admiradora apaixonada, se preparou para fotografá-la em seu leito de morte. Mas foi tomada de forte emoção e não conseguiu continuar. Foram suas últimas fotos sobre o mundo do jazz.

O fotolivro “The Jazz Pictures” não é primeiro a reunir o trabalho de Lisette Model. O primeiro, no projeto da própria fotógrafa, deveria ter sido publicado na década de 1950, mas terminou adiado. Duas décadas depois, o primeiro fotolivro sobre ela a ganhar edição e ampla distribuição foi “Photographs by Lisette Model”, com prefácio da fotógrafa Berenice Abbott, publicado em 1979 pela Aperture Foundation de Nova York, depois reeditado em 2008, como homenagem no 25º aniversário de sua morte. O segundo fotolivro viria em 1990, com o lançamento de “Lisette Model”, uma seleção de suas fotografias organizada por Ann Thomas, em edição da National Gallery do Canadá, como catálogo para uma exposição sobre o trabalho da fotógrafa.

Outros fotolivros sobre sua obra foram “Lisette Model – Photographien 1933-1983”, editado em 1992 pelo Museum Ludwig de Colônia, na Alemanha, também como catálogo de uma exposição em sua homenagem; “Lisette Model”, publicado em 2001 nos Estados Unidos pela Phaidon Press, com uma retrospectiva de sua trajetória com 50 fotografias em ordem cronológica, com apresentação de Elisabeth Sussman; “Lisette Model”, catálogo da exposição de 2010 na Fundación Mapfre de Madri, Espanha, e na Galeria Nacional do Jeu de Palme, em Paris, França que reuniu 120 imagens da fotógrafa, de seus primeiros registros em Paris, em 1933, aos últimos, no final dos anos 1950, em Nova York; e, mais recentemente, “Lisette Model: Street life”, de 2021, com edição e ensaios de Claudio Composti, Monica Poggi e Larry Fink, reunindo uma seleção de 100 fotografias, com destaque para retratos de anônimos, como catálogo de uma exposição realizada em Turim, na Itália, no Centro Italiano de Fotografia.












Lisette Model contra os racistas: no alto,
o trompetista 
Bunk Johnson no palco em
Nova York, em 1955. Acima, o pianista
Erroll Garner em 1956 no palco do New York
Jazz Festival. 
Abaixo, um flagrante da plateia
durante o Newport Jazz Festival em 1954;
e o beijo do casal anônimo em 1944 no
Nick's Jazz Joint, o lendário bar dos
jazzistas no Greenwich Village, Nova York.


No final da página,
Billie Holiday em 1957
no palco do New York Festival; 
e um
registro de
Arthur Fellig, mais conhecido
pelo codinome
Weegee, também integrante da
Photo League, com Lisette Model em ação,
em 1956, com sua câmera Rolleiflex e uma
sacola de flashes no Nick’s Jazz Joint














Força poética



No final de 2025, além de “The Jazz Pictures”, também foi publicado “Renegade: Photography in the life of Lisette Model”, ensaio biográfico ilustrado com uma coletânea de imagens da fotógrafa, escrito por Duncan Forbes, diretor de Fotografia do Victoria and Albert Museum, e editado pela Mack Books de Nova York. O lançamento mais recente, de fevereiro de 2026, é “Lisette Model: Retrospective”, pela Prestel Publishing, da Alemanha, com seleção e ensaio de Walter Moser, que apresenta uma seleção de 200 fotografias, inéditas em sua maioria, incluindo retratos irônicos de personagens anônimos nas ruas, as séries fotográficas de 1939 a 1941 sobre banhistas em Coney Island e um apanhado sobre as temporadas da fotógrafa na França, na Itália, na Venezuela e em outros países.

Assim como Audrey Sands argumenta, no ensaio em que apresenta “The Jazz Pictures”, Walter Moser também destaca que a obra de Lisette Model reflete um caso exemplar de uma artista interrompida de forma trágica – vítima de perseguição e silenciamento pelo aparato do governo dos Estados Unidos, um tema que nos últimos anos, infelizmente, tem retornado à prática cotidiana de forma cada vez mais violenta. São os paradoxos de um país na condição de potência mundial que promove guerras no mundo inteiro, com o falso argumento da democracia e da liberdade, enquanto em seu território reprime negros, imigrantes e opositores políticos. Acompanhando os relatos sobre a trajetória de Lisette Model, e diante da força poética das imagens que sobreviveram em seu acervo, permanece a impressão de que talvez sejam as experiências compartilhadas de perseguição uma questão central para conectar o trabalho da fotógrafa, que fugiu dos nazistas na Europa, com os gigantes do jazz que ela registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 6 de março de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/03/lisette-model-contra-os-racistas.html (acesso em .../.../…).




Para comprar o fotolivro  "Lisette Model: The Jazz Pictures",  clique aqui.













Veja também:



                Semióticas  –  Biografia de uma canção 

                Semióticas  –  Louis entre os cronópios


                Semióticas  –  Noite de Stanley Jordan 


                Semióticas  
–  Estilo Crumb        


3 de junho de 2025

Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos





Conheci no mesmo dia Alécio de Andrade e suas fotografias:

o homem e a obra de arte que ele vem criando. Não pude

fugir à admiração que me inspiraram, de tal modo o artista

se espelha em sua criação, e esta constitui um poderoso,

delicado e inesquecível comentário lírico do mundo.

–– Carlos Drummond de Andrade, fevereiro de 1964.  




Antes de Sebastião Salgado ganhar prestígio em Paris e no mundo inteiro, um outro fotógrafo do Brasil era o mais conhecido na França, figurando no panteão entre os grandes fotógrafos e como o primeiro brasileiro contratado pela Agência Magnum, a lendária cooperativa internacional fundada em 1947 por um grupo liderado por Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, da qual Sebastião Salgado também foi associado. O fotógrafo é Alécio de Andrade (1938-2003), amigo e parceiro de intelectuais e escritores como Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Celso Furtado e Julio Cortázar.

A boa notícia é que um dos grandes trabalhos de Alécio de Andrade, sua cobertura fotográfica sobre a Revolução dos Cravos, ganha edição no Brasil com o lançamento do fotolivro “Luz de Abril, Portugal, 1974” pelas Edições Pinakotheke, selo editorial do grupo Pinakotheke Cultural, com sede no Rio de Janeiro (Rua São Clemente, 300, Botafogo), onde também acontece uma exposição com fotografias selecionadas a partir do livro. Filho do jornalista e escritor Almir de Andrade, o carioca Alécio de Andrade, que também foi pianista e poeta, partiu para o exílio em Paris em 1964, depois do golpe militar, e viveu na França até sua morte em 2003.






Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos:
no alto da página, "Descolonização, vitória do
povo livre"
, a multidão na manifestação em Lisboa
pela independência das colônias portuguesas,
no verão de 1974. Acima, Alécio de Andrade em
ação em Lisboa, na temporada a trabalho para
a cobertura das reações à revolução de abril,
fotografado por Chico Mascarenhas.

Abaixo, o cartaz de lançamento da edição nacional
do livro de fotografias e da exposição de Alécio pela
Pinakotheke Cultural, e a capa primeira edição
do livro na França, lançada em dezembro de 2023,
em comemoração aos 50 anos da revolução
que pôs fim à ditadura Salazar em Portugal.
Todas as fotografias nesta página são de autoria
de Alécio de Andrade, exceto quando indicado







Olhar brasileiro em Portugal


Em 1974, no verão europeu, Alécio de Andrade foi enviado pela Agência Magnum a Portugal para a cobertura do movimento que teve início no dia 25 de abril daquele ano, a Revolução dos Cravos, um levante que uniu civis e militares para a derrubada do Estado Novo, o regime ditatorial que governava Portugal desde a década de 1930. Com os cravos vermelhos simbolizando a paz e a liberdade, a revolução abriu caminho para a redemocratização do país e para a libertação das colônias portuguesas. A senha para o início da rebelião foi a transmissão pela rádio Renascença, às 0h20 do dia 25 de abril, da canção do cantor e compositor José Afonso, “Grândola, Vila Morena”, que estava proibida em Portugal pela ditadura, sob a alegação de que fazia alusão ao comunismo.






Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos:
abaixo, dois registros sobre a chegada dos
retornados na Gare Marítima em Alcântara, Lisboa,
no verão de 1974. Os retornados eram os portugueses
que vinham das ex-colônias portuguesas, principalmente
de países da África, que se tornaram ambientes hostis
aos cidadãos de Portugal depois dos processos
de luta pela independência




            












Na época em que explodia a revolução, Alécio de Andrade já contava com prestígio internacional no fotojornalismo. Estava envolvido em muitos projetos, foi elogiado pelo mestre Henri Cartier-Bresson, que Alécio fotografou pela primeira vez em 1972, no meio da multidão, e era reconhecido como especialista em retratos de personalidades e de anônimos nas ruas de Paris, sempre com sua habilidade incomum para revelar algo de insólito nos enquadramentos, a partir da aparente normalidade – como se vê, por exemplo, no caso das freiras em visita ao Museu do Louvre, diante das “Três Graças”, de Regnault, ou nos rostos da multidão reunida em frente ao Palácio de São Bento, em Lisboa, depois da demissão do general António de Spínola do cargo de presidente da República, onde cada olhar tem, estranhamente, o foco voltado para uma direção diferente.

Em Paris, Alécio viveu do fotojornalismo, viajando a trabalho para temporadas em diversos países, apresentando sua obra em exposições individuais e coletivas e sempre requisitado como colaborador da imprensa internacional, com suas fotografias publicadas com frequência nas revistas Stern, Newsweek, Le Nouveau Observateur, Fortune, Marie Claire, Elle, nas brasileiras Manchete, Fatos & Fotos, Isto É, Veja e no Jornal do Brasil. , também, sua ação pioneira na publicação de fotolivros, entre eles “Paris ou La vocation de l’image”, lançado em 1981 pela editora Rotovision, com fotos de Alécio e texto de Julio Cortázar, que também por motivos políticos havia trocado a Argentina por décadas de exílio na França; e “Enfances”, com texto de Françoise Dolto, publicado em 1986 pela Éditions du Seil, com uma seleção de suas fotos sobre crianças, projeto ao qual ele se dedicou durante toda sua trajetória.











Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos:
acima, a alegria no porto de Lisboa na acolhida
aos retornados e a vendedora de frutas, no verão de
1974.
Abaixo, Patrícia Newcomer, viúva de Alécio,
fotografada por ele em Lausanne, na Suíça, em 1983;
e o historiador Yves Léonard fotografado pela RFI em
Paris, no lançamento do livro “Lumière d’Avril” em 2023
;
e Alécio de Andrade em Paris, em 1985, em
fotografia de Gilles Peress


 















Câmera Leica, companhia inseparável


No período da Revolução dos Cravos, Alécio percorreu Portugal com uma câmera Leica, companhia inseparável, para encontrar os personagens principais do movimento e os anônimos que suas fotos destacaram para a história do país. Depois dos dias da revolução, Alécio retornaria a Portugal para completar o trabalho, primeiro no outono de 1974 e novamente em meados de 1975. Uma seleção de 38 destas fotografias estão na exposição da Pinakotheke Cultural, em grande formato, em preto e branco e em cores, revelando flagrantes das emoções do movimento; no fotolivro são 55 fotos, em 140 páginas, no formato 16 x 23 cm, com texto do historiador francês Yves Léonard, em tradução de Bruno Ferreira Castro e Fernando Scheibe.








Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos:
acima, a multidão em frente à Assembleia Nacional
(Palácio de São Bento), cada um olhando para
uma direção diferente, depois da demissão do
general Spínola da Presidência da República,
em 30 de setembro de 1974; e Mário Soares em
um ato público em Lisboa, 1974, em seu retorno
à liderança do campo democrático, depois de ter
sido preso político e deportado durante o
Estado Novo, no final dos anos 1960.


Abaixo, o dramaturgo brasileiro e diretor de teatro
Zé Celso Martinez Corrêa participa do encontro
do Partido Socialista Português, no Pavilhão dos
Desportos, em Lisboa, em outubro de 1974; e dois
flagrantes dos mais jovens nos dias da revolução









O livro havia sido publicado na França em 2023, pela editora Chandeigne, por iniciativa de Patricia Newcomer, viúva de Alécio, com quem teve dois filhos. Responsável pelo acervo do fotógrafo, Patricia fez uma pré-seleção de 100 fotografias de Alécio em Portugal, a partir de mais de 3 mil imagens em preto e branco e 300 slides a cores do arquivo. A edição final ficou a cargo de Anne Lima, da editora Chandeigne, e de Yves Léonard. “A ideia foi mostrar a diversidade do trabalho de Alécio. É uma seleção que apresenta figuras muito emblemáticas da Revolução dos Cravos, nomeadamente os capitães, os homens políticos, e também figuras anônimas do cotidiano de Portugal”, explica o historiador, na apresentação ao livro e à exposição.


Retratos dos que não têm voz


Para Yves Léonard, as imagens registradas por Alécio revelam, além dos fatos e figuras históricas, um retrato impressionante sobre a vida dos portugueses durante o processo revolucionário em Lisboa e nas regiões mais remotas do país. “Passeando seu olhar sobre o Portugal da Revolução dos Cravos, Alécio de Andrade captou instintivamente a imagem de um povo há muito habituado às maiores misérias, infinitamente resiliente, exemplar à sua maneira. Um povo cujos olhares e sorrisos são ainda mais desarmantes por se oferecerem com reserva. Um Portugal à altura dessas mulheres e desses homens captados com empatia em seu cotidiano, na esquina de uma rua, num campo ou num desfile”, escreve o historiador.








Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos:
o panfleto nas mãos do leitor do anúncio nas ruas
de Lisboa e o leitor atento das últimas notícias,
em duas fotografias de setembro de 1974.
No panfleto que ele tem nas mãos é possível
ler : “Manifestação de apoio ao MF4 e ao
governo provisório. Abaixo a reação”.

Abaixo,
anônimos na manifestação pelo
reconhecimento da independência de
Guiné-Bissau por parte de Portugal,
na Praça do Rosário, em Lisboa, no
verão de 1974; e nas ruas de
Grândola, em outubro de 1974








Alécio estava habituado a fotografar personagens célebres – tem retratos de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Susan Sontag, Jean Genet, Michel Foucault, Arthur Rubinstein, Salvador Dalí, Alfred Brendel, Edgar Morin, Henry Miller, Lygia Clark, Oscar Niemeyer e Vinicius de Moraes, entre outros nomes que são referências do século 20. Mas o fotógrafo, no dia a dia, também voltava sua atenção para pessoas simples, para o anônimo que ele encontrava nas ruas.

Como fotógrafo e fotojornalista, Alécio sabia que a história não é feita só de grandes homens, embora seja com frequência escrita por eles”, destaca Yves Léonard na apresentação ao fotolivro. “Há também a história popular, a das pessoas a quem não se dá voz. Talvez pela sua formação, talvez pela sua capacidade de captar o cotidiano, a vida das pequenas coisas, Alécio também as fotografa. Vemos uma grande percentagem de anônimos em suas escolhas fotográficas”.







Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos:
acima, o policiamento em Lisboa, em 1974;
abaixo, a manifestação da multidão nas ruas







Economia de recursos


Em Paris, Alécio de Andrade fez coberturas importantes de eventos que marcaram época, como as barricadas dos estudantes nas ruas, em maio de 1968, e teve suas fotografias publicadas em destaque na imprensa internacional, mas também foi uma espécie de embaixador de forma afetiva para muitos brasileiros. Ele recebeu com hospitalidade seus conterrâneos e fotografou cada um dos que estavam na França a passeio ou que estavam no exílio para escapar da perseguição política da ditadura militar. Com seus retratos e séries temáticas, algumas delas dedicadas a crianças, casais, anônimos nas ruas, animais e visitantes do Museu do Louvre, Alécio desenvolveu desde os primeiros tempos um estilo muito particular no fotojornalismo que aprofunda o conceito de economia de recursos.

Tal conceito, de certo modo, é na prática uma estratégia – uma escolha que encontra no próprio ato de fotografar a essência do processo criativo, em contraposição às tendências da maioria que prefere fotografar usando flashes, filtros e lentes especiais ou buscando efeitos em etapas posteriores de recortes, ampliação e interferências diversas em processos de pós-produção. Na grande maioria das fotografias de Alécio de Andrade, o que se vê é a impressão direta do fotograma inteiro, sem reenquadramentos. “Luz de abril”, o título do livro e da exposição sobre a Revolução dos Cravos, confirma esta economia de recursos e anuncia um sentido poético, ou antes um duplo sentido que une a forma e o conteúdo: é um título que pode indicar que são fotos diretas, com iluminação natural, sem recortes e sem filtros, e também pode traduzir o sentimento que a maioria dos portugueses vivia nas ruas, naquele momento histórico, na esperança de que a liberdade havia chegado para ficar após um longo período de trevas.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Alécio de Andrade na Revolução dos Cravos. In: Blog Semióticas, 3 de junho de 2025. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2025/06/alecio-na-revolucao-dos-cravos.html (acesso em .../.../…).



Para comprar o livro  Luz de Abril, Portugal, 1974,  clique aqui.


Para visitar o site oficial de  Alécio de Andrade,  clique aqui.







Flagrantes de Alécio de Andrade em Paris:

acima, a cobertura de maio de 1968 em
destaque na edição da revista Manchete.
Abaixo, uma seleção de imagens do fotógrafo
no acervo do Instituto Moreira Salles:

1) meninos na rua Visconde de Albuquerque,
Leblon, RJ, em 1964, fotografia da primeira
exposição, no Rio de Janeiro, que levou o poeta
Carlos Drummond de Andrade a saudar Alécio
como um Mestre da Fotografia;

2) a fachada de anúncios 
na rua, em Paris, em 1971,
com a placa em destaque indicando Brecht;

3) o mestre da fotografia Henri Cartier-Bresson
em meio à multidão na abertura de uma feira
em Paris, em 1972; 

4) as três freiras
em visita ao Museu do Louvre
observando “As três graças”, de Regnault, em 1970
















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