Mostrando postagens com marcador jazz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jazz. Mostrar todas as postagens

6 de março de 2026

Lisette Model contra os racistas

 




Não conheço nenhum fotógrafo que tenha fotografado

pessoas com tanta intimidade quanto Lisette Model”.

–– Berenice Abbott (1898-1991).  




Quem tem interesse pelos clássicos do jazz conhece o trabalho da fotógrafa Lisette Model: ela registrou, em belas imagens, flagrantes dos maiores músicos e intérpretes do jazz e seu público, incluindo os estreantes que em sua época ainda não eram famosos. Muitas das fotos feitas por Lisette Model ilustraram capas e encartes de álbuns lendários e reportagens diversas sobre os jazzistas mais célebres – e algumas ficaram tão conhecidas que não mais recebem o crédito de autoria da fotógrafa, como se fossem retratos naturais dos músicos ou imagens de domínio público. Lisette Model morreu aos 82 anos, em 1983, mas somente agora, décadas depois da apuração de seu espólio, uma parte surpreendente de seu legado é finalmente revelada: milhares de fotografias da cena jazzística dos anos 1940 e 1950 que permaneciam inéditas.


Uma coleção de 200 fotos, selecionadas do acervo de seus mais de 1.800 negativos de 35 mm, agora está publicada em “Lisette Model: The Jazz Pictures”, fotolivro de 240 páginas lançado pela Eakins Press Foundation, com breves ensaios escritos por Langston Hughes, Loren Schoenberg e Audrey Sands – que também assina a coordenação editorial. Lisette Model era um pseudônimo. Seu nome de batismo foi Elise Amelie Felicie Stern, nascida em 1901 em Viena, na Áustria, com ascendência judia. No final dos anos 1920, após a morte do pai, ela vai para Paris. Em 1938, ela e o marido, o pintor Evsa Model, nascido na Rússia, embarcam para os Estados Unidos, fugindo da ascensão dos nazistas. Em Nova York, Lisette Model adota o pseudônimo e o trabalho com fotografia para sobreviver, tornando-se associada da cooperativa Photo League, da qual faziam parte estreantes e veteranos, entre eles Paul Strand, Edward Weston, Berenice Abbot, Ruth Orkin, Helen Levitt e Robert Frank.

















Lisette Model contra os racistas: pressão do FBI
impediu
a fotógrafa de publicar seus registros sobre
Gigantes do Jazz nos anos 1950. Agora um fotolivro
revela
suas imagens lendárias. No alto da página,
Ray Nance (à esquerda) e Duke Ellington (à direita)
em apresentação no palco do Newport Jazz Festival.

Acima,
Louis Armstrong entre dois músicos brancos
no palco do Basin Street East, Nova York, em 1954;
e dois flagrandes do produtor musical
Ollie McLaughlin
e amigos em uma festa depois dos shows no Newport
Jazz Festival, em Rhode Island, em junho de 1956.

Abaixo,
Bud Powell ao piano no palco do New York
Jazz Festival, em 1957; fotografia que estampa a capa
do fotolivro
“Lisette Model: The Jazz Pictures”,
que inclui todas as imagens reproduzidas
nesta postagem



































Insinuações sem prova



Ainda na década de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Lisette Model conquistou destaque na Photo League e seu trabalho passou a ser publicado em revistas de prestígio como a Harper’s Bazaar. Sua atuação política e seu papel de liderança, no entanto, a tornaram alvo das investigações do FBI e do senador Joseph McCarthy, que na década de 1950 comandou uma caça às bruxas contra comunistas e contra todos que pudesse rotular por “atividades anti-americanas”. Como resultado da perseguição política e das imposições da censura, Lisette acabaria trocando a fotografia pelo trabalho de professora na New School for Social Research, em Nova York, onde teve alunos que se tornaram célebres na fotografia, entre eles Diane Arbus, Larry Fink, Helen Gee e John Gossage. Nos livros de história, o nome de Lisette Model passaria a constar como mais uma vítima do macarthismo, um termo que, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, identifica a prática criminosa de “formular acusações sem provas e fazer perseguições ou insinuações de teor político”.




             


Lisette Model contra os racistas: acima,
Ella Fitzgerald em 1956 no palco
do Newport Jazz Festival.

Abaixo, Louis Armstrong e Velma Middleton
no palco do Basin Street East, em Nova York,
em 1954; 
e Louis no aquecimento para sua
apresentação no Newport Jazz Festival,
em 1956, no ônibus alugado que
também funcionava como camarim



                  












A dedicação e o entusiasmo de Lisette Model pelo jazz não deixam de evidenciar sua identificação com as lutas contra injustiças e com as atitudes de resistência que sempre estiveram presentes na trajetória dos músicos negros, desde os primórdios. Lisette Model já estava nos Estados Unidos em 1939, quando Billie Holiday cantou pela primeira vez e gravou “Strange Fruit”, a canção pioneira do protesto político que lamentava a realidade de milhares de pessoas negras vítimas de ataques racistas e de linchamento, assassinadas e dependuradas nas árvores. Não é por acaso que Billie Holiday surge em destaque entre as fotografias inéditas de Lisette Model, junto com as belas imagens em preto e branco de Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen McCrae, Miles Davis, Horace Silver, Art Blakey, Count Basie, Dizzy Gillespie e outros gigantes do mundo do jazz.



Censura e perseguição



Lisette Model também ficaria conhecida por suas fotografias de rua com seu estilo irônico e de crítica social, mas quando se observa seus retratos do jazz o que vem à tona é o tom de alegria e encantamento, com cuidados no enquadramento e na composição que ainda hoje surpreendem. Em 1952, diante do imenso acervo de seus retratos de personalidades do jazz e de cenas dos shows, ela deu início ao projeto da publicação de um livro de fotografias dedicado exclusivamente ao tema, em uma época em que a publicação de fotolivros era algo incomum e com raros antecedentes. Mas a edição do fotolivro não se concretizou e o desfecho foi melancólico: depois que a fotógrafa foi convocada para prestar depoimentos no FBI sobre suas atividades à frente da cooperativa New York Photo League, e de McCarthy ameaçar incluir seu nome na famigerada Lista de Vigilância de Segurança Nacional, as editoras e os financiadores cancelaram o apoio ao projeto.









Lisette Model contra os racistas: acima,
o pianista Teddy Wilson e o trompetista
Dizzy Gillespie proseando na mesa de uma
casa noturna em Nova York, em 1954.

Abaixo, dois registros do ano de 1957
no Café Bohemia do Greenwich Village:
o trompetista
Miles Davis assiste na plateia e
aplaude o pianista 
Willie “The Lion” Smith.

Miles Davis e outros músicos foram vítimas
de racismo e violência policial. Em agosto de
1959, em frente ao famoso clube de jazz
Birdland, onde estava se apresentando,
Miles sofreu um espancamento brutal.

Na mesma época, Art Taylor, depois de
ser ameaçado e espancado por policiais
diversas vezes, acabou se mudando para a
França, assim como outros músicos negros
que buscaram refúgio em países da Europa
contra a violência policial e a perseguição política












Na mesma época, a cooperativa de Nova York seria fechada pelo FBI e todas as revistas e agências de notícia deixaram de publicar e de comercializar as fotografias de Lisette Model. Confiante na importância do tema do jazz e na qualidade de seu acervo, Lisette Model chegou a contratar, para escrever um ensaio que acompanharia as fotografias, o jornalista e escritor Langston Hughes, um dos intelectuais e ativistas que tiveram destaque no movimento cultural e político conhecido como Harlem Renaissence (Renascimento do Harlem) que impulsionou a música e a literatura afro-americana nas décadas de 1920 e 1930. Hughes também foi a principal liderança, em 1930, da Liga de Luta pelos Direitos dos Negros. Foi o jazz que aproximou Lisette Model de Hughes e das lideranças comunistas, assim como atraiu outros fotógrafos, jornalistas, escritores, artistas do teatro, do cinema e das artes plásticas.



A causa antirracista




O círculo de intelectuais e artistas que orbitavam a esquerda comunista se ampliava naquela época e todos eles abraçavam tanto a luta antirracista como a ideia de que o jazz representava a cultura mais profundamente democratizante dos Estados Unidos. O ensaio de Hughes sob encomenda de Lisette, no entanto, não foi concluído, e com a pressão do FBI a fotógrafa terminou adiando por tempo indeterminado a edição do livro. Seu acervo de fotografias sobre o mundo do jazz foi arquivado e permaneceu inédito durante décadas. Hughes morreu em 1967, aos 65 anos, e suas anotações para o ensaio somente agora são publicadas em “Lisette Model: The Jazz Pictures”.











Lisette Model contra os racistas
: acima,
pai e filho nas trilhas do jazz, Josh White Jr.
e
Josh White no Music Inn, Massachusetts,
em 1956.
Abaixo, o baterista Art Taylor no
Café Bohemia do Greenwich Village,
em Nova York, em foto de 1957






Ao apresentar a cronologia da obra de Lisette Model e o valor de seu acervo como patrimônio cultural e político, a historiadora Audrey Sands reconhece que a grande maioria da comunidade dos refugiados em Nova York, incluindo intelectuais, artistas e muitos empreendedores ligados à literatura e à música, entre eles os fundadores da gravadora Blue Note Records e os parceiros de Lisette Model na cooperativa Photo League, eram sim militantes de esquerda, assim como os músicos do jazz que compartilhavam ideais de igualdade e liberdade. Quanto à perseguição e ao silenciamento por imposição do macarthismo, Sands explica que havia muito racismo entrelaçado às questões ideológicas: os partidários do macarthismo eram partidários da supremacia branca, apoiavam a política segregacionista e perseguiam os defensores dos direitos civis sob o pretexto de combater o comunismo.

No ensaio de apresentação que abre o fotolivro, Audrey Sands reconstitui os percalços violentos e melancólicos de perseguição e silenciamento de Lisette Model e de muitos outros intelectuais, artistas e músicos do jazz – e faz um inevitável paralelo com o colapso contemporâneo provocado por um governo de inspiração fascista, militante da guerra e da violência, fomentado por ideias racistas da supremacia branca. Para todos nós, leitores, ouvintes do jazz e observadores das belas imagens registradas por Lisette Model, há um choque de realidade ao perceber que a repressão de hoje não é sem precedentes, mas um retorno a um período que parecia ter sido superado.






Lisette Model contra os racistas:
dois registros em 1957 no palco do
New York Jazz Festival – acima,
o cantor Joe Williams e abaixo,
o pianista
Count Basie













Uma arte interrompida



“O jazz é a montagem de um sonho permanentemente adiado”, escreveu Langston Hughes. Contudo, também é possível considerar a beleza do fotolivro de Lisette Model como uma conquista e um triunfo – uma vitória pela sobrevivência depois da censura e do silenciamento. Em cada imagem, cada gesto, cada expressão de um rosto ou cada contraste em claro e escuro das composições da fotógrafa, estão a beleza e a tradução de algo que permanece vivo e comovente. A trajetória de Lisette Model e a história do jazz têm um ponto de ruptura em 1959, quando Billie Holiday morre, de repente, aos 44 anos. Billie também sofreu perseguição violenta do aparato policial e político e Lisette Model, sua admiradora apaixonada, se preparou para fotografá-la em seu leito de morte. Mas foi tomada de forte emoção e não conseguiu continuar. Foram suas últimas fotos sobre o mundo do jazz.

O fotolivro “The Jazz Pictures” não é primeiro a reunir o trabalho de Lisette Model. O primeiro, no projeto da própria fotógrafa, deveria ter sido publicado na década de 1950, mas terminou adiado. Duas décadas depois, o primeiro fotolivro sobre ela a ganhar edição e ampla distribuição foi “Photographs by Lisette Model”, com prefácio da fotógrafa Berenice Abbott, publicado em 1979 pela Aperture Foundation de Nova York, depois reeditado em 2008, como homenagem no 25º aniversário de sua morte. O segundo fotolivro viria em 1990, com o lançamento de “Lisette Model”, uma seleção de suas fotografias organizada por Ann Thomas, em edição da National Gallery do Canadá, como catálogo para uma exposição sobre o trabalho da fotógrafa.

Outros fotolivros sobre sua obra foram “Lisette Model – Photographien 1933-1983”, editado em 1992 pelo Museum Ludwig de Colônia, na Alemanha, também como catálogo de uma exposição em sua homenagem; “Lisette Model”, publicado em 2001 nos Estados Unidos pela Phaidon Press, com uma retrospectiva de sua trajetória com 50 fotografias em ordem cronológica, com apresentação de Elisabeth Sussman; “Lisette Model”, catálogo da exposição de 2010 na Fundación Mapfre de Madri, Espanha, e na Galeria Nacional do Jeu de Palme, em Paris, França que reuniu 120 imagens da fotógrafa, de seus primeiros registros em Paris, em 1933, aos últimos, no final dos anos 1950, em Nova York; e, mais recentemente, “Lisette Model: Street life”, de 2021, com edição e ensaios de Claudio Composti, Monica Poggi e Larry Fink, reunindo uma seleção de 100 fotografias, com destaque para retratos de anônimos, como catálogo de uma exposição realizada em Turim, na Itália, no Centro Italiano de Fotografia.












Lisette Model contra os racistas: no alto,
o trompetista 
Bunk Johnson no palco em
Nova York, em 1955. Acima, o pianista
Erroll Garner em 1956 no palco do New York
Jazz Festival. 
Abaixo, um flagrante da plateia
durante o Newport Jazz Festival em 1954;
e o beijo do casal anônimo em 1944 no
Nick's Jazz Joint, o lendário bar dos
jazzistas no Greenwich Village, Nova York.


No final da página,
Billie Holiday em 1957
no palco do New York Festival; 
e um
registro de
Arthur Fellig, mais conhecido
pelo codinome
Weegee, também integrante da
Photo League, com Lisette Model em ação,
em 1956, com sua câmera Rolleiflex e uma
sacola de flashes no Nick’s Jazz Joint














Força poética



No final de 2025, além de “The Jazz Pictures”, também foi publicado “Renegade: Photography in the life of Lisette Model”, ensaio biográfico ilustrado com uma coletânea de imagens da fotógrafa, escrito por Duncan Forbes, diretor de Fotografia do Victoria and Albert Museum, e editado pela Mack Books de Nova York. O lançamento mais recente, de fevereiro de 2026, é “Lisette Model: Retrospective”, pela Prestel Publishing, da Alemanha, com seleção e ensaio de Walter Moser, que apresenta uma seleção de 200 fotografias, inéditas em sua maioria, incluindo retratos irônicos de personagens anônimos nas ruas, as séries fotográficas de 1939 a 1941 sobre banhistas em Coney Island e um apanhado sobre as temporadas da fotógrafa na França, na Itália, na Venezuela e em outros países.

Assim como Audrey Sands argumenta, no ensaio em que apresenta “The Jazz Pictures”, Walter Moser também destaca que a obra de Lisette Model reflete um caso exemplar de uma artista interrompida de forma trágica – vítima de perseguição e silenciamento pelo aparato do governo dos Estados Unidos, um tema que nos últimos anos, infelizmente, tem retornado à prática cotidiana de forma cada vez mais violenta. São os paradoxos de um país na condição de potência mundial que promove guerras no mundo inteiro, com o falso argumento da democracia e da liberdade, enquanto em seu território reprime negros, imigrantes e opositores políticos. Acompanhando os relatos sobre a trajetória de Lisette Model, e diante da força poética das imagens que sobreviveram em seu acervo, permanece a impressão de que talvez sejam as experiências compartilhadas de perseguição uma questão central para conectar o trabalho da fotógrafa, que fugiu dos nazistas na Europa, com os gigantes do jazz que ela registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Lisette Model contra os racistas. In: Blog Semióticas, 6 de março de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/03/lisette-model-contra-os-racistas.html (acesso em .../.../…).




Para comprar o fotolivro  "Lisette Model: The Jazz Pictures",  clique aqui.













Veja também:



                Semióticas  –  Biografia de uma canção 

                Semióticas  –  Louis entre os cronópios


                Semióticas  –  Noite de Stanley Jordan 


                Semióticas  
–  Estilo Crumb        


27 de agosto de 2012

Biografia de uma canção






Billie Holiday consegue expressar, em apenas um refrão, 
mais emoção do que a maioria das atrizes em três atos. 
......... ––  Jeanne Moreau à The New Yorker em 1958.    


Poucas vezes uma canção foi tão longe ao denunciar a situação aviltante do preconceito e da violência indiscriminada contra os negros. E o acaso e a sorte fizeram com que esta mesma canção ficasse para sempre identificada com uma personalidade que superou todos os obstáculos imagináveis para permanecer, em primeiro plano, no Olimpo das grandes cantoras de todos os tempos: Billie Holiday (1915–1959).

Billie tinha 23 anos em 1939, quando cantou pela primeira vez “Strange Fruit” com seus versos sofridos que descrevem o horror dos linhamentos de negros no Sul dos Estados Unidos. A trajetória da canção que merece o título de emblemática está descrita em “Strange Fruit – Billie Holiday e a Biografia de uma Canção”, livro que o jornalista norte-americano David Margolick publicou no ano 2001 e que agora chega ao Brasil em edição da Cosac Naify, com tradução de José Rubens Siqueira e apresentação de André Midani, veterano “capo” da indústria do disco no Brasil.

Apaixonado por Lady Day, como é de praxe com todos os amantes do jazz e do blues, Margolick mergulhou fundo na história e no significado de “Strange Fruit”. Seu livro-reportagem esclarece e desfaz equívocos sobre a canção – uma obra alegórica e comovente que o historiador Leonard Feather definiu como "o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo".










 
Biografia de uma canção: no alto
e acima, Billie Holiday no estúdio,
fotografada em 1958 por Dennis Stock.

Abaixo, 1) Billie no palco, em 1939, na primeira vez
que cantou em público "Strange Fruit", também
a primeira vez que usou gardênias nos cabelos,
um adereço que marcaria sua imagem para sempre;
2)
no Sugar Hill Nightclub, em Newark, New Jersey,
em abril de 1957,
em fotografiade Bob Parent;
e
3) no palco do Newport Jazz Festival,
em 1954, acompanhada
pela orquestra de
Teddy Wilson
, em fotografia de John Vachon.

Também
abaixo, fotografada nas ruas em 1956,
por Moneta Sleet Jr. para uma reportagem
especial da revista Ebony; e em sua
última sessão de gravações no estúdio
em 3 de março de 1959












No mesmo ano em que canta nos palcos “Strange Fruit” pela primeira vez, Billie grava a canção em um disco em 78 rotações pelo selo Commodore. Anos depois, voltaria a gravá-la com outro arranjo pelo mesmo selo e outras quatro vezes para a Verve. Nas últimas décadas, muitos arriscaram novas versões para a canção, lembra Margolick, que destaca a gravação de Nina Simone e cita algumas outras muito além do universo das fronteiras do jazz e do blues, incluindo de Cassandra Wilson a Tori Amos e Siouxie & The Banshees, de Sting e UB-40 a Dee Dee Bridgewater, de Abbey Lincoln a Carmen McRae e Patti Smith, de Diana Ross a Jeff Buckley, Sidney Bechet, John Legend, Marcus Miller, Cocteau Twins, Beth Hart, Rokia Traoré e Björk.

O livro de Margolick, que foi sucesso imediato nos Estados Unidos e na Europa, deu origem a outros relatos “biográficos” escritos por jornalistas sobre discos e canções. Alguns deles também alcançaram a condição de best-sellers, caso de “A Love Supreme” (2002) e “Kind of Blue” (2007), de Steve Khan, publicados no Brasil pela Barracuda, e “Stardust Melodies” (2002), em que Will Friedwald apresenta a trajetória de clássicos do cancioneiro norte-americano, como “Body and Soul”, “Night and Day” e “Saint Louis Blues”. O primeiro exemplar da safra nacional foi anunciado para chegar às livrarias em 2015: o poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz está mergulhado na pesquisa para contar a história de um marco da bossa nova, composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes: “Garota de Ipanema – A biografia de uma canção”, que será publicado pela Companhia das Letras.



Relato em polifonia



Primeiro destaque do novo gênero que apresenta biografias de discos e canções, o livro de Margolick aposta no que o russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895–1975), um dos pioneiros dos estudos em Semiótica, batizou de “polifonia”: aquela estratégia narrativa em que fontes e versões distintas, apresentadas simultaneamente, contribuem para o melhor entendimento da história. Ao leitor, Margolick confessa que demorou a entender que os “estranhos frutos” em questão não eram cerejas ou maçãs, e sim negros enforcados e dependurados em árvores nos estados ao Sul de seu país.  














A origem da canção e todas as gravações de “Strange Fruit” feitas por Billie são investigadas por Margolick, desde aquela primeira noite no salão do Café Society, um bar construído no porão da Sheridan Square, no Greenwich Village de Nova York, um território frequentado por artistas e intelectuais em que a intolerância e o preconceito racial não eram admitidos. Uma das fontes para o relato incomum de Margolick é a autobiografia “Lady Sings the Blues”, publicada por Billie Holiday pouco antes de sua morte, em 17 de julho de 1959, em um quarto do Hospital Metropolitano de Nova York, pouco tempo depois de ter o quarto invadido por policiais. O atestado de óbito registrou que a morte ocorreu em decorrência de edema pulmonar, cirrose hepática e insuficiência cardíaca.

Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando terminei”, escreveu Billie em sua autobiografia. “Então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente e, de repente, todo mundo estava aplaudindo”. Naquela noite, Billie deixou o palco em silêncio, sem retornar para o bis habitual, porque ela estava mesmo com medo de interpretar uma canção que atacava de frente o ódio racial – recorda Barney Josephson, que era dono do Café Society em 1939 e foi entrevistado por Margolick em 1998.








Biografia de uma canção: abaixo,
Billie Holiday fotografada por Carl
Van Vechten para a a capa da
revista Down Beat, em fevereiro
de 1947. Acima, em 1949, também
fotografada por Van Vechten










A entrevista com Barney Josephson, publicada pela revista “Vanity Fair” em 1998, foi ampliada e deu origem ao livro, que abarca a trajetória de Billie Holiday e o avanço nas lutas contra a conivência da sociedade norte-americana com o preconceito e os linchamentos de negros. Através de outras entrevistas e de pesquisas em jornais e revistas, Margolick repercute aquela primeira apresentação da canção por Billie e o destaque que “Strange Fruit” foi ganhando nas apresentações das noites seguintes no mesmo clube e em outros palcos, numa época em que ainda nem se sonhava com a música de protesto. 

 

Branco, judeu, comunista



O jornalista também investiga as relações de “Strange Fruit” com o movimento pelos direitos civis, que só eclodiria 16 anos depois, após a prisão de Rosa Parks, ativista que se negou a ceder seu lugar no ônibus para um branco na cidade de Atlanta, na Geórgia. Os números garimpados por Margolick impressionam: de acordo apenas com os registros oficiais, entre 1889 e 1940 mais de 2.700 negros foram linchados e assassinados no Sul dos EUA.
 







David Margolick, autor do livro
“Strange Fruit Billie Holiday e
a Biografia de uma Canção”.
Abaixo, Billie na capa da revista
Ebony Magazine em julho de 1949;
e a gravação original de "Strange Fruit"
feita em 1939 por Billie Holiday
pelo selo Commodore Records









.


Daquela noite no Café Society até sua morte em 1959, aos 44 anos, Billie Holiday causava comoção todas as vezes que entoava “Strange Fruit”, tanto que tomou para si a autoria da canção. Margolick comenta o passo a passo de sua investigação a partir do momento em que entendeu o significado dos versos entoados por Billie. E confessa que seu interesse pelo assunto cresceu quando ele descobriu que o autor da canção era Abel Meeropol, um homem branco, judeu, membro do partido comunista e considerado por seus amigos um grande idealista, tanto que adotou os filhos do casal Julius e Ethel Rosenberg, executados nos Estados Unidos em 1953 sob a acusação de serem espiões a serviço da extinta União Soviética.

Admirado por lendários compositores como Kurt Weill e Ira Gershwin, Abel Meeropol tinha pouco mais de 30 anos e era professor no bairro negro do Bronx, em Nova York, quando viu pela primeira vez uma fotografia feita por Lawrence Beitler. A foto, publicada na revista “New York Teacher”, estampava o linchamento e o enforcamento de dois negros em 1930, em Indiana. O impacto da imagem levou Meeropol a escrever um poema, “Bitter Fruit”, mais tarde transformado na bela e alegórica letra da canção.








      
   


Biografia de uma canção: Billie
com Louis Armstrong, seu amigo
de várias parcerias em estúdios e
também em turnês. Acima, Louis
e Billie com Barney Bigard em
1947, em cena de New Orleans,
filme de Arthur Lubin. Abaixo, Billie
no palco, em 1951, acompanhada pela
orquestra de Count Basie









.

              






Polêmica demais para o jazz



O próprio Abel Meeropol levou “Strange Fruit” para Billie Holiday. Em 1939, ele assistiu Lady Day se apresentando no Café Society. Impressionado com a performance da cantora, apresentou a ela sua composição. Billie, no entanto, não teve interesse imediato e demorou a apresentar a canção no palco pela primeira vez, em arranjo para voz e piano. Mas desde a primeira vez que Billie cantou “Strange Fruit” foi uma comoção na plateia.

A gravação, entretanto, teve que superar um impasse: a gravadora Columbia Records, com a qual Billie tinha um contrato de exclusividade, não autorizou e recusou-se a gravar a canção, temendo protestos. Billie recorreu ao principal produtor da Columbia, John Hammond, e mesmo assim não teve autorização. Billie continuou apresentando “Strange Fruit” nos shows, algumas vezes cantando a cappella, sem acompanhamento dos músicos, e sempre comovendo a plateia, até que Milt Gabler, executivo da Commodore Records, assistiu a uma dessas apresentações e ficou tão impressionado que procurou os escritórios da Columbia, conseguindo um contrato especial para que Billie fizesse a gravação.

Margolick justifica o estranhamento e a comoção das plateias que assistiam às apresentações ao vivo e também o sucesso quando a gravação começou a ser vendida em discos e passou a ser tocada com frequência nas estações de rádio. Ele esclarece que “Strange Fruit” era muito diferente de tudo o que Billie interpretara até então: não lembrava as baladas de amor que ela havia gravado na década anterior e tampouco se alinhava à tradição do blues ou às inovações estilísticas no cenário do jazz. A interpretação personalíssima de Billie, sua agonia pessoal, acentuava o tema angustiante da canção – um grito contra o racismo – que também representava os obstáculos que alguém como Billie, uma cantora negra numa sociedade dividida entre brancos no poder e negros subalternos, teria de superar. 





















Billie Holiday e outras lendas do jazz no
Bop City Nighclub, em Nova York: no alto,
em duas fotografias feitas por Elliot Erwitt 
em
1958. A
cima, com o escritor William Falkner
em 1956, em fotografia de Moneta Sleet;
e em três registros fora do palco, em 1950,
na plateia do Bop City Nighclub: com
 Louis Armstrong e com Duke Ellington,
em fotografias de Joseph Schwartz;
e com Ella Fitzgerald em fotografia
de William “Popsie” Randolph.

Abaixo, Billie em Parisem 1958, no aeroporto
e em dois momentos no palco do lendário
Le Mars Club na noite de 20 de novembro,
em fotografias de Jean-Pierre Leloir.

Também abaixo: 1) Billie no ensaio fotográfico
de Phil Stern em agosto de 1955, durante as
gravações do álbum Music for Touching;
2) Billie em fotografia de 1949 no estúdio de
Carl Van Vechten; 3) Billie no palco do New York
Jazz Festival, em agosto de 1957, em fotografia
de Jerry Dantzic4) Billie em uma clássica
sequência de fotos em cores feita por
Carl Van Vechten em 1949; e 5) uma cena
de horror: o linchamento de dois homens
negros na Virginia, EUA, sem nenhum
julgamento. A prática do linchamento contra
negros tem sua origem na década de 1780
nos Estados Unidos, atribuída a dois militares
e latifundiários: Charles Lynch e William Lynch
(daí a palavra "linchamento), da Virgínia, que
instituíram a "lei de Lynch" para designar o
ódio racial contra negros e índígenas




















 
A canção “Strange Fruit”, como destaca David Margolick, escapa a qualquer categorização musical e não lembra em nada “Lover Man”, “My Man”, “God Bless the Child”, “Glummy Sunday” ou “Blue Moon”, entre outros sucessos que Billie já havia emplacado naquela época. “É uma canção artística demais para ser música folk, politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz", reconhece. Os versos alegóricos de Meeropol, que marcaram profundamente a carreira de Lady Day e foram definitivos para mudar os rumos da história no século 20, ganharam uma versão do poeta Carlos Rennó:


Árvores do Sul dão uma fruta estranha
Folha ou raiz em sangue se banha
Corpo negro balançando, lento
Fruta pendendo de um galho ao vento

Cena pastoril do Sul celebrado
A boca torta e o olho inchado
Cheiro de magnólia chega e passa
De repente o odor de carne em brasa

Eis uma fruta para que o vento sugue,
Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue,
Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta,
Eis uma estranha e amarga fruta









Do Café Society para outros palcos e daí aos discos, aos programas de rádio e aos ouvintes do mundo inteiro, o peso da canção lançada por Billie Holiday rendeu a ela muitos desafetos e agressões as mais diversas, inclusive físicas. Margolick reconstitui os capítulos do drama e lembra que Billie declarou em 1947 à revista “Downbeat”: “Fiz uma porção de inimigos, sim. Cantar aquilo não me ajudou em nada”. Puro engano. A mais mítica dos intérpretes do jazz e do blues, batizada como Eleanora Fagan Gough pelos pais adolescentes, prostituída aos 12 anos e drogada daí em diante, Lady Day a cantar com sua voz sublime e levemente rouca “Strange Fruit” forçou toda uma nação a enfrentar alguns dos seus mais sombrios impulsos.



por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. Biografia de uma canção. In: Blog Semióticas, 27 de agosto de 2012. Disponível no link http://semioticas1.blogspot.com/2012/08/biografia-de-uma-cancao.html (acessado em .../.../…).














Outras páginas de Semióticas