Mas
a Quarta, com toda certeza, será com paus e pedras.
...... ––
Albert
Einstein em 1945.
A questão da arte moderna na
Ucrânia é uma questão política – assim como é política
qualquer questão sobre arte em qualquer circunstância. Na
Ucrânia, a evolução da arte foi especialmente marcante nas primeiras décadas do século 20, época da entrada do país na União Soviética, com artistas que influenciaram de maneira definitiva a arte moderna no
Ocidente, em várias frentes. Na atualidade, depois da tragédia que foi a eleição de Volodymyr Zelensky, em 2019, as crises foram se agravando na Ucrânia, com muita violência e destruição desde o início da guerra em fevereiro de 2022 – um
conflito de grandes proporções que já matou milhares de civis e militares e já é considerado como o maior
confronto militar ocorrido na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Como
estratégia emergencial, uma seleção dos acervos da arte moderna da
Ucrânia foi reunida, com apoio de museus e de colecionadores, e
transportada até o Museu Thyssen-Bornemisza, da Espanha, para a
exposição “En el ojo del huracán: vanguardia en Ucrânia,
1900-1930” (O olho do furacão: vanguarda na Ucrânia). Outras
ações de resgate e preservação de obras de arte em áreas de
bombardeios foram organizadas por historiadores e técnicos de museus
da Ucrânia e de outros países em um fórum on-line coordenado pelo historiador Kilian Heck, da Universidade de
Greifswald, da Alemanha, com apoio da Aliança Internacional
para Proteção de Patrimônio em Áreas de Conflito (Aliph), sediada
em Genebra, Suíça. Uma
das ações resgatou 16 peças de arte sacra
bizantina, com cerca de 1.500 anos, que estavam no
Museu Nacional de Arte Bohdan e Varvara Khanenko, de Kiev, e foram levadas para o Museu do Louvre, em Paris.
A
guerra, que oficialmente teve início com a invasão da Ucrânia pelas tropas militares da Rússia, no final de fevereiro de 2022, na
verdade começou bem antes, com a ascensão ao poder político de
grupos de orientação fascista e armamentista na Ucrânia a partir do período entre 2013 e
2014, com a escalada de grandes e violentos protestos urbanos que na época foram chamados de Euromaidan ou Primavera Ucraniana. Segundo maior país da Europa em área territorial (atrás apenas da Rússia, seu país vizinho, com o qual compartilha extensas fronteiras ao leste e ao nordeste), a Ucrânia em 2016 completou 25 anos de independência em relação à União
Soviética, mas seu destaque entre as maiores economias
do planeta vem se degradando de forma acelerada desde a separação.
Arte moderna na Ucrânia: no alto, Carrossel, pintura em óleo sobre tela de 1921, obra do artista Davyd Burliuk. Acima, trabalhadores e equipe técnica do Museu Nacional de Arte da Ucrânia preparam obras do acervo para serem transportadas para a Espanha. Abaixo, um retrato pintado no final da década de 1920 por Kostiantyn Yeleva; e Uma camponesa, pintura de 1910 de Volodymyr Burliuk.
Todas as obras reproduzidas abaixo fazem parte do acervo reunido na exposição do Museu Nacional Thyssen-Bornemysza, da Espanha, nomeada como En el ojo del huracán: vanguardia en Ucrânia, 1900-1930
De
11ª economia do mundo, no final do século 20, a Ucrânia começou a
decair em potencial no novo século, assistindo a sucessivas pioras
de seu parque industrial, que era complexo e desenvolvido quando o país fazia parte da União Soviética. Desde a separação, aconteceram perdas radicais
em sua pauta de exportação, baseada em máquinas e produção de
bens de alto valor agregado, além da grande produção agrícola, e houve uma progressiva
ampliação da dependência de importações. Também em 2016, o PIB
(Produto Interno Bruto) da Ucrânia já estava muito abaixo do nível
que tinha antes do país separar-se da União Soviética, de acordo
com Moniz Bandeira (no livro “A desordem mundial”, editora Civilização
Brasileira), e a concentração de riqueza em setores restritos da
elite ucraniana atingia níveis impressionantes.
O
caos na Ucrânia tem acontecimentos que antecedem em alguns
anos a guerra iniciada em fevereiro de 2022. A partir de 2013, o governo decidiu suspender um acordo com a União Europeia e retomar sua aproximação com a Rússia. Desde então, grupos
fascistas identificados com a sigla Pravy Sector conseguiram
incendiar o país com grandes protestos urbanos que levaram à
deposição do governo, dando início a um estado de
terror. A calamidade gerou conflitos de guerra civil em diversas áreas do país, com políticos fascistas tomando o poder pelas eleições ou com golpes institucionais para derrubar governos eleitos de forma democrática em suas 457 cidades reunidas em 27 regiões, sendo 24 oblasts (províncias), mais a República Autônoma da Crimeia e duas cidades na condição de distritos federais, Kiev e Sebastopol. A
crise teria um novo capítulo em 2019, com a surpreendente eleição de um comediante, Volodymyr
Zelensky, para presidente do país.
Arte moderna na Ucrânia: no alto, Adão e Eva, pintura em óleo sobre tela de 1912, obra do artista Wladimir Baranoff-Rossiné. Acima, um esboço em aquarela sobre papel para um movimento coreográfico de Masks, da Escola de Dança Bronislava Nijinska, de Kiev, obra de 1919 de Vadym Meller; e desenhos de 1922 de Anatol Petrytskyi para o balé Danças Excêntricas, espetáculo apresentado pelo Ballet de Câmara de Moscou. Abaixo, 1º de maio, pintura em óleo sobre tela de 1929 de Viktor Palmov; e Composição, pintura de 1919 de El Lissitzky
A
guerra premeditada
Muito
popular na Ucrânia por sua carreira de ator e comediante antes de entrar na política para concorrer ao cargo de presidente, Zelensky teve
uma trajetória com atuações em várias frentes, incluindo
espetáculos cômicos em teatro em que simulava tocar piano com o pênis, e
também programas de TV, em especial a série “Servo do povo”,
exibida em rede nacional de 2015 a 2018 como campeã de audiência. Na série de
ficção, Zelensky fazia o papel principal de presidente da
Ucrânia. Com o sucesso na TV, o grupo de Zelensky registrou um
partido político com o mesmo nome da série. Nas eleições
seguintes, em 2019, com a Ucrânia mergulhada em violência, depois da liberação total para a comercialização de armas de fogo, Zelensky despontou nas pesquisas como favorito e terminou eleito presidente.
O
capítulo de Zelensky na Presidência da República da Ucrânia não foi tão imprevisível
como pode parecer. Com interesses muito próximos a
autoridades do Ocidente e a grandes conglomerados multinacionais, o novo presidente e seu partido Servo do Povo, que também conseguiu eleger a maioria para o parlamento, deram início a mudanças na legislação e aceleraram um completo rompimento com o governo russo. Ao mesmo tempo que buscavam por todos os meios uma maior aproximação do país com a União Europeia e com a OTAN (Organização do Tratado do
Atlântico Norte), Zelensky e os parlamentares de seu partido, a maior parte deles em primeiro mandato, derrubaram todos os impedimentos estratégicos e começaram séries de exercícios militares conjuntos com tropas dos norte-americanos no Mar Negro e em toda a extensão das fronteiras da Ucrânia com a Rússia, o que na
prática sinalizava uma declaração de guerra.
Arte moderna na Ucrânia: no alto, duas pinturas em têmpera sobre telado artista Mykhailo Boichuk, A leiteira, de 1922, e Mulheres sob a árvore de maçãs, de 1920. Boichuk liderou um grupo de artistas nacionalistas que promoveu um resgate das tradições folclóricas ucranianas, mas após a consolidação de Josef Stalin no poder na década de 1930, na União Soviética, a maior parte dos murais e pinturas de Boichuk e dos "boichukistas" foi destruída.
Acima, Os inválidos, pintura em óleo sobre tela de 1924 de Anatol Petrytskyi. Abaixo, duas pinturas de Oleksandr Bohomazov: Afiando as serras, de 1927, e Paisagem do Cáucaso, de 1915. Também abaixo, o cineasta e teórico do cinema Dziga Vertov em ação, nas filmagens de O homem com a câmera, de 1929, com imagens captadas nas cidades ucranianas de Kiev, Odessa e Kharkiv. Também abaixo, um trailer do filme em cópia restaurada de 2014
O
passo seguinte de Zelensky no poder foi dar início à guerra
premeditada: como resposta aos sucessivos exercícios militares
conjuntos de Ucrânia e norte-americanos nas fronteiras, e diante da deliberação
de Zelensky para que o país passasse a ser um território da
OTAN, as tropas russas começaram a ocupação das fronteiras com a Ucrânia. A ocupação dava continuidade a um processo que teve início em 2014, quando os russos ocuparam a Crimeia, logo após o golpe que levou à deposição do ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich, que tinha posição favorável à Rússia.
A Crimeia havia sido anexada à Ucrânia em 1952. Quatro décadas depois, em 1991, quando a Ucrânia se separou da União Soviética, a Crimeia conquistou a posição de República Autônoma. Desde
o final de fevereiro de 2022 a guerra na Ucrânia veio se agravando e gerou uma
enorme onda migratória de ucranianos para a Rússia, enquanto Estados
Unidos e OTAN seguem fornecendo um grande arsenal de armamentos pesados para
que tropas da Ucrânia, sob o comando do inexperiente Zelensky, elevado ao posto de comandante, enfrentem as tropas russas.
Segundo
analistas internacionais, o conflito armado está longe de um
desfecho (enquanto escrevo a versão final deste artigo, a revista Time destaca que o presidente Lula, do Brasil, surge como um
mediador para o fim da guerra na Ucrânia. A reportagem da Time
relata que tanto o presidente Zelensky da Ucrânia, como o presidente
Vladimir Putin, da Rússia, já estariam avaliando a proposta de Lula
para encerrar a guerra, mas nenhuma ação indica uma vontade política para estabelecer a paz. Além da Time, analistas de outros importantes veículos da imprensa
internacional também informam que a proposta de Lula pode criar
caminhos para a paz na Ucrânia).
Arte moderna na Ucrânia: no alto, O fotógrafo, pintura em têmpera sobre papel de 1927, obra de Ivan Padalka; acima, Gopak (dança ucraniana), pintura de 1926-30 de Ilya Repin. Abaixo, uma pintura em óleo sobre tela de Sonia Delaunay de 1925, Vestidos simultâneos (três mulheres, formas, cores); e duas obras de Aleksandra Ekster: uma colagem em técnica mista com pintura em óleo sobre tela, Natureza morta, de 1926, e Composição (Gênova), pintura em óleo sobre tela de 1912
Genocídio
e independência
O
percurso histórico da Ucrânia não foi menos violento no decorrer
do último século. Além das batalhas no território ucraniano
durante a Primeira Guerra Mundial, no período de 1914-1917, e na época
da Revolução Russa de 1917, houve diversos conflitos armados pela
independência do país no período de 1917 a 1921, até a
entrada definitiva da Ucrânia na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em
1922. Com os expurgos de Josef Stalin na União Soviética, na década de 1930, muitos líderes ucranianos foram presos ou mortos, o que gerou nova onda de protestos violentos. Com o início da Segunda Guerra Mundial, o país teve posições
contraditórias, com seus movimentos nacionalistas lutando simultaneamente contra os nazistas e contra os soviéticos.
Como saldo, os conflitos em decorrência da Segunda Guerra levaram à morte de cinco a oito milhões de ucranianos, na maior
parte civis. Nas décadas seguintes não houve paz: as fronteiras da Ucrânia foram
diversas vezes alteradas, quase sempre deflagrando mais violência e
novos conflitos armados, até o fim da União Soviética, em 1991,
com um referendo popular para a população ucraniana que aprovou a independência do país. No
último século, a Ucrânia ainda foi palco do acidente na usina nuclear de
Chernobil, em abril de 1986, que deixou milhares de mortos
e consequências permanentes de contaminação e envenenamento.
Arte moderna na Ucrânia: acima, Funeral, pintura em óleo sobre papel de 1920, obra de Oleksandr Bohomazov; e um autorretrato em pintura sobre madeira de 1922 de Vasyl Yermilov.
Abaixo, Retrato de Mykhailo Semenko, técnica mista em aquarela, grafite e nanquim sobre papel, obra de 1929 de Anatol Petrytskyi; e Nova arte, desenho em técnica sobre papel, obra em 1927 de Vasyl Yermilov para a capa da edição nº 23 da revista Nove Mystetstvo (Nova Arte), identificada como um marco inicial do movimento construtivista
Um raro período de paz e prosperidade aconteceu na década de 1920, com a entrada da Ucrânia na União Soviética. Na cultura, a
literatura, as artes plásticas, o teatro e o cinema prosperavam de forma surpreendente.
Sobre a literatura, o Brasil tem um vínculo importante com a
Ucrânia: Clarice Lispector, uma das grandes referências da
literatura brasileira, nasceu na cidade ucraniana de Tchetchelnik,
enquanto seus pais percorriam as aldeias para fugir da
perseguição aos judeus, durante a guerra civil na Rússia de
1920-1922. Contudo, como a própria Clarice declarou, a Ucrânia foi
uma terra em que nunca pisou, pois veio para o Brasil com um
ano e dois meses de idade, quando sua família de imigrantes chegou
ao Recife, capital de Pernambuco. Clarice não é a única referência da Ucrânia na cultura brasileira. Outro nome importante é Gregori Warchavchik, arquiteto e artista plástico que nasceu na cidade ucraniana de Odessa e chegou ao Brasil em 1923, no auge da vanguarda modernista, tornando-se um dos destaques da arquitetura moderna brasileira.
Depois
de muitas idas e vindas, muitas perseguições e destruições,
vários expoentes da arte moderna da Ucrânia permanecem na posição
privilegiada de cânones da arte mundial, pelo que representaram de
inovação e ruptura em seu tempo e pela influência que exercem até
a atualidade como mestres do cubismo, do suprematismo, do futurismo, do expressionismo e da arte abstrata. Um grupo destes mestres tem em comum uma trajetória de formação acadêmica no início do século 20, na Ucrânia, e posterior destaque entre os modernos para além das fronteiras do país, especialmente em Moscou, na União Soviética, e em Paris, na França, onde vários deles viveram na célebre colônia de arte La Ruche (A Colmeia): neste
grupo estão, entre outros, Sonia
Delaunay, Olexandr Archipenko, Olexandr Bohomazov, Nathan Alman e
Wladimir Baranoff-Rossiné.
Os
artistas que deixaram a Ucrânia desde o começo do século
20, e que por longos períodos viveram ou em Moscou, ou na Alemanha, ou na colônia parisiense La Ruche,
são conhecidos na história da arte como expoentes do Renascimento
Ucraniano – entre eles nomes como Arkhip
Kuindzhi, mestre da cor e dos efeitos
de luz na pintura, que exerceu forte influência em
seus contemporâneos e no surgimento da Arte Moderna, apontado como referência por nomes do primeiro time das vanguardas como Wassily Kandinsky e Marc Chagall, e também Dziga Vertov, de importância fundamental na história
do cinema. Vertov, na verdade, nasceu na Polônia, mas teve sua formação
acadêmica e técnica na Ucrânia, país onde realizou seus filmes
mais importantes, mesmo depois de fixar residência em Moscou.
Nascido Denis Arkadievitch Kaufman, ele mudou seu nome para Dziga
Vertov – a palavra “dziga” em ucraniano significa moto-contínuo
ou máquina de movimento perpétuo, e “vertov”, em russo
(“vertet”), significa mover, rodar, girar.
Arte moderna na Ucrânia: no alto, Depois da Chuva, pintura de 1881 de Arkhip Kuindzhi, nascido em Mariupol, Ucrânia, na época uma província do Império da Rússia.
Acima, a capa do catálogo da exposição realizada no museu da Espanha. Abaixo, Composição, pintura em óleo sobre tela de 1920 de Vadym Meller; e Composição em suprematismo, colagem em técnica mista sobre cartão, obra de 1921 de Boris Kosarev
Vanguarda na Ucrânia
Outro
expoente do Renascimento Ucraniano é Kazimir Malevich, nascido em
Kiev, mentor do movimento pioneiro da arte abstrata conhecido como
suprematismo, e muitas vezes identificado erroneamente como russo,
talvez por seu papel como artista central das vanguardas na União Soviética. Há outras situações semelhantes de erro de atribuição de nacionalidade de artistas ucranianos: uma delas é a trajetória de Aleksandra Ekster, uma das mulheres mais influentes das vanguardas
da Europa e muitas vezes identificada
como artista da Rússia, apesar de ter nascido na Polônia, ter vivido e
trabalhado a vida toda na Ucrânia e ter residido apenas quatro anos em
Moscou, antes de passar um longo período de exílio em Paris.
Há,
também, casos de grandes artistas da Ucrânia que vêm
de antes da arte moderna e que são erroneamente identificados
como russos: um deles é Ilya Repin, nascido na província ucraniana
de Chuguev e um dos nomes mais celebrados na Rússia na segunda
metade do século 19. Depois de décadas atuando como professor na Academia Russa de Artes em São Petesburgo, Repin deixou o cargo em 1905 e foi
morar na Finlândia. Quando a Finlândia se separou da
Rússia, em 1917, Repin se tornaria um dos entusiastas da revolução, mas
nunca mais foi autorizado a retornar a São Petesburgo ou a Moscou, nem
quando houve exposições com retrospectivas de suas obras.
Arte moderna na Ucrânia: acima, Três figuras de mulheres, pintura em óleo sobre tela de 1909 de Oleksandra Ekster. Abaixo, Anunciação, pintura em óleo sobre tela de 1908 de Oleksandr Murashko. No final da página, Cidade, pintura de 1917 de Issakhar Ber Ryback; e uma das curadoras da mostra, a ucraniana Katia Denysova, durante uma entrevista coletiva na abertura da exposição em Madri
Um
século depois de seu surgimento, uma amostragem realmente importante
do Renascimento Ucraniano e dos artistas de vanguarda da Ucrânia foi
finalmente reunida – contraditoriamente como consequência da guerra. Tudo começou com uma viagem que parece
enredo de um filme de ficção: quando teve início o bombardeamento em Kiev, em 2022, obras de arte muito valiosas que estavam no Museu Nacional da Ucrânia e em outros acervos e coleções particulares foram transportadas,
secretamente, em dois caminhões que partiram da Ucrânia em direção
à Espanha, para a exposição “En el ojo del huracán: vanguardia en Ucrânia, 1900-1930” (O olho do furacão: vanguarda na Ucrânia), aberta ao
público no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza.
Depois
da viagem arriscada de mais de 3 mil quilômetros atravessando a Europa, de Kiev a Madri, passando pela Polônia, as obras-primas da arte moderna da Ucrânia, talvez o patrimônio
cultural móvel mais valioso do país, estarão em exposição de gala
na Espanha até o final de abril. Depois da temporada na Espanha, o acervo segue para mostras em
outros grandes museus, em itinerário que começa no Museum Ludwig, na Alemanha. As 70 obras reunidas para a exposição destacam, em primeiro lugar, o absurdo da guerra, de todas as guerras, mas também traduzem a
importância de artistas célebres que nasceram ou trabalharam
durante muitos anos na Ucrânia. São obras e artistas que deixaram marcas definitivas tanto na cultura ucraniana como no estabelecimento das
revoluções radicais de sentido, de forma e de conteúdo, que convencionamos
nomear no mundo inteiro como Arte Moderna.
Quando entra em cena a Revolução Russa de 1917 estamos falando
do
surgimento de um Novo Mundo. Foi de fato a primeira
revolução
proletária do mundo e um retrato da primeira
experiência realmente
coletiva para tentar superar as
contradições do capitalismo, que
sempre produziu guerras e
massacres. A real importância e o
legado da Revolução Russa
jamais poderão ser esquecidos.
–– Eric Hobsbawm,
Revolutionaries: Contemporary Essays (1973).
Alguns
dos principais teóricos da imagem têm em comum a máxima de que
toda grande fotografia representa um momento libertado do tempo ––
uma definição que tem menos de surrealismo e muito mais de
realismo, como se poderia supor à primeira vista. Se pudéssemos ver
em detalhes o que aconteceu antes e depois daquela cena registrada, a
realidade da imagem já seria outra, por certo, dissolvida por sua
vez em outros acontecimentos passageiros e perdidos para sempre em
ondas sucessivas ou simultâneas de movimentos, de imagens, de
ruídos. Em vez disso, o fotógrafo conseguiu preservar aquele único
instante, aquele enquadramento que nunca mais vai se repetir no tempo
e no espaço –– o que pode elevar a imagem fotografada do mais
simples ao mais precioso e sublime, ou mesmo conferir a ela um poder
quase de devoção religiosa diante do que nunca mais irá se repetir
existencialmente.
Não
é só que o tempo congelou, mas toda aquela complexidade que, ao
interromper seu fluxo, a câmera revela e preserva: um brilho
estático, quase sobrenatural, um momento parado na quietude, um
silêncio, uma reverência na qual derramamos nossas crenças e
nossas interpretações motivadas por questões pessoais,
sentimentais ou estéticas, documentais, ideológicas. Quando estamos
frente a frente com o trabalho realizado por um grande fotógrafo,
esta percepção de um momento libertado do tempo é quase sempre
permanente, muitas vezes inevitável, como demonstram as imagens
reunidas em duas exposições itinerantes que estão na agenda de
Belo Horizonte e outras capitais brasileiras, ambas apresentando
imagens do século passado na antiga União Soviética, ou URSS
(União das Repúblicas Socialistas Soviéticas –– CCCP, na sigla em russo), que teve sua
vigência de 1922, no período posterior à Revolução Russa de
1917, até a dissolução oficial em 1991, quando 12 das repúblicas até então associadas tornaram-se independentes da Rússia.
.
Retratos
da União Soviética: no alto e
acima, fotografias da
Rússia na exposição
O último império, de Serguei
Maksimishin.
Na primeira, trabalhadores no Monastério
Aleksandro-Svirski, na região de São Petersburgo,
carregam
uma moldura com pintura sobre
a cena
bíblica da crucificação de Cristo para a montagem
de
uma exposição em 2002; na segunda
fotografia,uma
vista
da praça central na cidade
de Krasnokamensk,
região de Zabaikalski,
em
2006; na
terceira,
uma
ovelha é arrastada
para o sacrifício
na celebração muçulmana
do Eid
Al-Adha em
São Petersburgo, 2004.
Abaixo, duas fotografias de Viktor
Akhlomov,
apresentadas na exposição A
União Soviética
através da câmera:
na primeira, jovens sobre
uma estátua
de Stalin derrubada
em um
parque de Moscou, em 1991; na segunda,
uma
vista sobre a Kalinin Avenue, em
Moscou, em
fotografia de 1977
As
fotografias mostram cenas mais poéticas que prosaicas e por vezes
enigmáticas nas duas exposições. Para a primeira, “A União Soviética através da
câmera”, foram selecionadas 120 imagens em preto e branco
de seis veteranos da fotografia, cinco da Rússia e um da Lituânia. Na segunda, “O último império”, são 65 instantâneos mais contemporâneos
e em cores de Serguei Maksimishin, registrados a partir da década de
1990. Os seis fotógrafos da primeira exposição, que retratam o
período conhecido como “degelo soviético”, de 1956 a 1991, sob
curadoria de Luiz Gustavo Carvalho e Maria Vragova, têm em comum uma
visão humanista e otimista sobre a vida cotidiana: são eles Vladimir
Lagrange, Leonid Lazarev, Vladimir Bogdanov, Yuri Krivonossov, Victor
Akhlomov e Antanas Sutkus. Em contraste com os seis mestres veteranos da
primeira exposição, Maksimishin tem registros mais
jornalísticos, mas a composição elaborada de cores
e enquadramentos imprevistos retiram suas imagens do lugar comum mais usual que,
com frequência, encontramos em publicações de jornais e
revistas.
Imagens
do “país fantasma”
A curadoria
da exposição “A União Soviética através da câmera”, no
informe distribuído à imprensa, usa uma expressão incomum
para se referir ao antigo Estado Soviético: “país
fantasma”. Incomum mas não inadequado, já que a dissolução da
União Soviética em 1991 criou, de fato, uma
fantasmagoria: o estado com a maior abrangência
territorial e geopolítica do século 20, não mais
existente, ficou no passado e deixou margens para que as
fronteiros entre o real e o abstrato permaneçam apenas como
registros da memória que as fotografias, e a História,
presentificam. “Através do olhar de fotógrafos diferentes, a
exposição propõe uma reflexão sobre a vida cotidiana deste ‘pais
fantasma’, do Degelo de Khrushchov à Perestroika de Gorbatchov,
assim como sobre o papel singular exercido pela fotografia na
sociedade soviética pós-stalinista”, destacam os curadores.
Retratos
da União Soviética: acima e abaixo,
cinco fotografias
de Vladimir Lagrange na
exposição A
União Soviética através da câmera.
Acima, Mãe e Refeição, fotografias de 1966; abaixo, Jovens bailarinas, de
1963; crianças na escola em O Kamchatka (O dia começa aqui), fotografia de 1964; e os estudantes reunidos em Comemoração na Praça Vermelha, fotografia de 1962 em Moscou
Diante
da diversidade de autores e de obras que as duas exposições
reúnem, é importante destacar a herança construtivista que todos
eles possuem, com ressonância em nomes que marcaram época e
permanecem como referência incontornável como Serguei
Eisenstein (1898-1948), Dziga Vertov (1896-1954), Alexandr
Rodchenko (1891-1956) e outros grandes mestres das
artes em geral e do cinema e da fotografia em
particular –– expoentes das vanguardas no período posterior à
Revolução de 1917 e que exerceram influência
central, muito além de suas fronteiras geográficas ou
políticas, nos principais movimentos que estão na origem do que chamamos de Arte Moderna e nas expressões vigentes da abrangência de áreas como a arquitetura e o design no último século.
Ao
contrário do culto às autoridades e aos desfiles cívicos para
reverência à pátria dos tempos de Josef Stalin, no período de
1937-1953, o que os retratos selecionados da antiga União
Soviética colocam em cena é a vida social no cotidiano de pessoas comuns por
trás do que, durante décadas, o mundo do Ocidente conhecia como
“Cortina de Ferro”: trabalhadores, homens e mulheres em
cenários indistintos, crianças em salas de aula, pais brincando com
os filhos, adolescentes em momentos de lazer, o movimento urbano de
ruas e praças. O intervalo de tempo que a exposição
acompanha, de 1956 a 1991, tem quase a mesma extensão da chamada
“Guerra Fria”, deflagrada no pós-guerra, no final da década de
1940, quando Estados Unidos estabelecem a “Doutrina Truman”
como tentativa de travar a expansão soviética e intensificam o
conflito mundial pela influência ideológica –– mas o tema da
“Guerra Fria” parece ter sido sistematicamente excluído das
imagens selecionadas.
Retratos da União Soviética: quatro fotografias de Antanas Sutkus na exposição "A União Soviética através da câmera". Acima e abaixo, crianças na Lituânia: Alunas de ginástica, de 1963, Mão materna, de 1965; O pequeno Ignalina, de 1964; e a destituição do posto da estátua de Lênin de uma praça em Moscou, fotografia de 1991 nomeada pelo autor como Adeus aos camaradas do partido
Ausências
e esquecimentos
Como
muitas vezes acontece, contudo, nem sempre o retrato é fiel e
completo em relação ao que é retratado. Também estão
ausentes da exposição "A União Soviética através da
câmera”, entre outras questões e acontecimentos que fizeram
a História, imagens ou referências às multidões em
mobilizações políticas ou mesmo às grandiosas campanhas
militares da expansão da URSS, que formou o país de dimensões
continentais, assim como foram sintomaticamente esquecidas nos
acervos pesquisados pela curadoria as fotografias que registram o Dia da Vitória do Exército Vermelho da União Soviética sobre a
Alemanha Nazista, em 9 de maio de 1945, que livrou a Europa do
nazismo e levou ao fim da Segunda Guerra Mundial.Também estão ausentes todas as cenas de comoções
populares diante das surpreendentes investidas da União
Soviética durante a corrida pela conquista do Espaço
Sideral.
Há
somente uma única menção direta às imagens heroicas e
lendárias do período em que os soviéticos tomaram a dianteira
frente aos norte-americanos e enviaram para além da atmosfera
terrestre as primeiras espaçonaves que no imaginário popular
pareciam saídas da imaginação mirabolante de artistas da ficção
científica. São ausências graves que provocam lacunas historiográficas e, caso tenham sido intencionais, podem ser interpretadas como uma tentativa de apagamento de momentos de grande importância para a União Soviética e para a história mundial. É inexplicável que um trabalho de curadoria tenha ignorado cenas lendárias do final da Segunda Guerra e dos avanços da tecnologia espacial que marcaram, definitivamente, o imaginário do século 20.
Entre estas imagens da saga espacial soviéticas que foram ignoradas, embora tenham sido amplamente registradas pelos fotógrafos soviéticos e reproduzidas pela imprensa do mundo inteiro, estão as fotografias do primeiro satélite
artificial, o Sputnik 1 (de 1957); do primeiro animal a orbitar o
Planeta Terra, a cadela Laika (em 1957); e da primeira
nave que fez um pouso na Lua, a sonda Luna E-6M (em 1966). A
única referência na exposição à corrida espacial está em uma imagem
do primeiro homem a viajar pelo espaço – o
astronauta Yuri Gagarin, fotografado por Leonid Lazarev em
1961, na Praça Vermelha, em Moscou, caminhando ao lado do secretário geral do
Partido Comunista, Nikita Khrushchov. As cenas que marcaram época com as reações das multidões,
perplexas ou incrédulas, que segundo relatos célebres de muitos
historiadores assistiram aos acontecimentos em projeções em
teatros, em televisores instalados em pontos comerciais e em desfiles
organizados com toda pompa e circunstância, foram solenemente
ignoradas pela curadoria e sua ausência, por descuido, por esquecimento ou por intenção ideológica, não encontram justificativa para quem tem alguma informação sobre a história social do período.
Retratos da União Soviética:duas fotografias de Leonid Lazarev na exposição "A União Soviética através da câmera". Acima, o astronauta Yuri Gagarin fotografado em 1961, na Praça Vermelha, em Moscou, com o secretário do Partido Comunista, Nikita Khrushchov. Abaixo, Lembranças da infância, fotografia de 1957
Vladimir
Lagrange, talvez o mais conhecido dos seis fotógrafos reunidos na
exposição, por conta da comercialização desde 1963 de seu
trabalho como fotojornalista por publicações alemãs como a
revista “Freie Welt”, tem um pequeno mas revelador
depoimento sobre a vida cotidiana na “Cortina de Ferro” da
URSS exibido ao lado de uma de suas fotografias. “Havia uma
vida pessoal: pais, casa, trabalho, amor, filhos, amigos”, relata
Lagrange. “E a vida do país: slogans, reuniões, obrigações,
condecorações, planos do partido e do povo. Não ficávamos
surpresos, pois éramos habituados a viver assim. Não conhecíamos
outra vida. Pensavam por nós, nos privavam de qualquer
autonomia, tudo era familiar, cada um fazia o seu trabalho. E sempre
recordo de algumas palavras que faziam parte de nossa vida cotidiana:
Stalin, queda de preços (o que todos esperávamos), querosene,
abrigo antiaéreo, jornal Pravda, lenha, filas e assim
por diante”.
Pessoas comuns e mudanças de hábitos
Os
seis fotógrafos reunidos na mostra “A União Soviética através
da câmera” pertencem à mesma geração, nascidos após a
Revolução de 1917, nas décadas de 1920 e 1930, e
todos conquistaram prêmios importantes dentro e fora das
fronteiras da Rússia. O mais velho, Yuri Krivonossov, que
nasceu em Moscou, em 1926, ganhou notoriedade exatamente em 1953, ano próximo do período inicial da mostra, quando publicou na
revista soviética “Ogonek” uma fotografia histórica
que retrata o funeral de Stalin. Leonid Lazarev e Vladimir
Bogdanov nasceram em 1937, Victor Akhlomov e Vladimir Lagrange em 1939. O único dos
seis fotógrafos que não nasceu na Rússia foi também o
mais censurado: Antanas Sutkus nasceu em 1939 na Lituânia
e, assim como todos os outros, permanece na ativa, à exceção de
Akhlomov, morto em 2017.
Três imagens de Vladimir Bogdanov selecionadas para a exposição A União Soviética através da câmera: acima, Primeiros passos em Moscou, fotografia de 1976. Abaixo, Meninos em Moscou, fotografia do ano de 1989; e A boneca (1976)
Considerado
o fotógrafo mais importante de seu país, Sutkus mantém, desde
1976, entre outros projetos, uma série contínua e monumental de
referência em estudos de antropologia, ainda sem similares em outros
países. Intitulada “Pessoas da Lituânia”, o projeto de Sutkus
registra cidadãos comuns em uma proposta de estudo comparado para
documentar as pessoas e as mudanças de hábitos cotidianos. Ao que
se sabe, Antanas Sutkus teve durante décadas seu
trabalho sistematicamente arquivado e não autorizado para
publicação na URSS, exatamente porque registrava sempre
pessoas comuns em cenas prosaicas, ao invés dos
trabalhadores e dos cidadãos tidos como modelos idealizados pelo regime
soviético. Nos últimos anos as fotografias de Sutkus ganharam
retrospectivas no Victoria & Albert Museum da Inglaterra e em outros grandes museus da França, Dinamarca e Estados Unidos.
Diferencial
da cor e choque cultural
Assim
como os seis veteranos reunidos na primeira mostra, Serguei
Maksimishin retrata cenas da vida cotidiana na exposição “O
último império”, também sob curadoria de Luiz Gustavo
Carvalho e Maria Vragova. Nascido na Rússia, em 1964, e considerado
um dos principais fotógrafos das novas gerações de seu país,
Maksimishin estreou na fotografia com publicações em jornais e
revistas da Rússia e de outros países no começo dos anos 1990, depois de estudar na Universidade de
São Petersburgo, simultaneamente aos novos tempos
da Perestroika instituída por Mikhail Gorbatchov. Com
o diferencial da cor, as 65 fotografias selecionadas de Maksimishin também revelam pessoas comuns em situações aparentemente corriqueiras –– mas destacam as belas performances do fotógrafo em
composições, luminosidades e enquadramentos que impressionam à
primeira vista.
Retratos
da União Soviética:
acima, duas
imagens de Yuri
Krivonossov,
"Meninos
mergulham em frente ao Kremlin",
fotografia
de 1960; e "Crianças durante
a celebração dos 40 anos do
movimento
Pioneiros", fotografia de 1962.
Abaixo, duas
fotografias de Maksimishin:
na primeira, Estudantes em
sala de aula
na Faculdade de Teologia do Daguestão,
em 2004; na segunda, soldados e crianças
em frente ao monumento da Fonte Amizade
dos Povos, em Moscou,
em 2005
As
diferenças culturais do país continental em relação aos hábitos
mais comuns dos países do Ocidente também sobressaem no
trabalho de Maksimishin. O fotógrafo esteve no Brasil para a
abertura de sua primeira exposição na América
Latina, em maio, na Caixa Cultural de São Paulo, e surpreendeu
quando declarou, em várias entrevistas, que em sua
formação como fotógrafo e no “choque cultural” representado pelas imagens selecionadas de seu país, ele reconhece apenas um
professor principal de fotografia: o escritor Nikolai Gogol
(1809-1854), autor de grandes clássicos da literatura
universal, publicados pela primeira vez exatamente na mesma época em que, por coincidência histórica, também surgiam os primeiros
experimentos de registros fotográficos. Entre estes grandes clássicos que Gogol escreveu e publicou estão romances, contos e peças de teatro, tais como “Almas
Mortas” (1842), “O Inspetor Geral” (1836), “Taras Bulba” (1934), “O Diário de um
Louco” (1835), “O Capote” (1942), “O Retrato” (1842) e outras obras-primas.
Se
considerarmos que a literatura de Gogol inaugurou o realismo no
Império da Rússia do século 19, influenciando todos os
escritores que vieram depois dele, inclusive de outras línguas
e de outras nacionalidades, como o brasileiro Machado de Assis, com rasgos
de absurdo, de humor amargo e de uma percepção onírica
da vida em sociedade, que seriam retomados com destaque como uma das
principais influências do surrealismo, nas décadas de 1920 e 1930, a referência de Maksimishin
parece bastante adequada –– com os detalhes imprevisíveis de temas e de composições que suas fotografias revelam. Em
uma delas, para ser mais preciso na descrição, o que vemos em
primeiro plano é uma pessoa vestida como um personagem do
programa infantil de TV Teletubbies, produzido pela BBC de Londres no final da década de 1990, em frente a uma pequena
igreja isolada em um povoado do interior da Rússia. O
Teletubbie, vestido de vermelho, está em destaque no centro da
fotografia e, atrás dele, dois homens conversam, na sombra; à sua direita, saindo do enquadramento da foto, uma longa fila de
mulheres e crianças caminha em direção à entrada da igreja que está em ruínas.
O
último império: acima, Igreja
no vilarejo, fotografia de
2003 de Serguei Maksimishin.
Abaixo, o fotógrafo na
abertura da exposição em São Paulo, em maio de 2018, em fotografia de Valéria Gonçalvez, e uma de
suas fotografias
que registra outra cena incomum no cotidiano
da Rússia: dois executivos no teleférico de acesso para as montanhas Vorobyovy em Moscou, 2004