![]() |
Eu via a fotografia como uma maneira maravilhosa para as
pessoas se entenderem. Eu realmente acreditava nesta utopia:
que conhecer os outros, compreender suas diferenças, poderia
ser uma linguagem de paz entre os seres humanos, e meu papel
seria contribuir para chegar à paz mundial por meio da fotografia.
–– Gisèle Freund em depoimento a Rauda Jamis em 1991.
Nenhum outro fotógrafo fez tantos retratos de escritores no século 19 como Félix Nadar em seus estúdios em Paris. Aclamado como um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Nadar também registrou em seu panteão os mais célebres artistas, os cientistas, as autoridades da política e as grandes celebridades de seu tempo. No século 20, vários fotógrafos poderiam disputar o título de recordista em retratos que coube a Nadar no Oitocentos, porque houve no último século a popularização dos equipamentos e são muitos nomes em destaque no fotojornalismo. Entre os candidatos, Gisèle Freund por certo seria uma forte concorrente ao título, considerando a variedade e a importância de seus retratos e o peso das personalidades que ela fotografou.
“Um
bom fotógrafo precisa ler cada rosto como se
fosse um
livro” – uma
frase de Gisèle Freund sempre citada, poderia ser o título de duas
exposições recentes sobre seus
célebres retratos. A
primeira, no
Museu
Nacional em Cracóvia, na Polônia,
reuniu
uma
seleção de 280 retratos de intelectuais
e artistas
com
o título “Gisèle
Freund: Cenas fotográficas e retratos”, incluindo
fotografias inéditas descobertas nos últimos anos em acervos
particulares.
A
segunda exposição,
“Gisèle
Freund: Uma escrita do olhar”, aberta
na
França, no
Pavillon Populaire em Montpellier, um espaço
de referência da fotografia, também
apresenta retratos
e imagens
inéditas da fotógrafa.
![]() |
Na
exposição de Montpellier está reunida pela primeira vez uma
seleção de 150 retratos surpreendentes, mas não são
retratos
de celebridades da
literatura e das artes e
sim
retratos de anônimos, pessoas comuns em cenas cotidianas. Este
retratos de
personagens desconhecidos
incluem manifestantes
nas marchas do
antinazismo
na Alemanha dos anos 1930, desempregados à beira-mar na Inglaterra
do pós-guerra, operários
e camponeses em peregrinações religiosas no México
ou
trabalhadores indígenas explorados em
situações extremas semelhantes à escravidão, em
flagrantes que
Gisèle Freund
fotógrafou
durante
visitas a
acampamentos improvisados nas
minas de estanho gerenciadas
por ingleses na
Argentina.
Temas de sociologia e estética
Sejam
semblantes de pessoas famosas ou desconhecidas, os retratos surgem
sempre belos e cativantes, em cada detalhe da composição, revelando
o olhar humanista da fotógrafa e sua preocupação com as questões
sociais. Nascida em 1908 em Berlim, na Alemanha, e morta por um
ataque cardíaco aos 91 anos em Paris, no ano 2000, Gisèle Freund
aliou seu trabalho marcante como fotojornalista à pesquisa teórica,
sendo a primeira mulher a defender uma tese de doutorado na
Universidade de Paris, em 1936, e não por acaso foi a primeira tese
sobre fotografia apresentada na Sorbonne, tendo na banca de avaliação
ninguém menos que Walter Benjamin, um dos grandes teóricos da
fotografia – que ela conhecia desde a Alemanha e com quem
partilhava ideais socialistas e a ascendência judaica.
A tese de Gisèle Freund, um estudo sociológico e histórico sobre a fotografia desde os primórdios, com o argumento de que a história da técnica não pode ser separada de uma história social e política, ganhou sua primeira edição em livro ainda em 1936, com o título “Fotografia Francesa no Século 19: um ensaio de sociologia e estética”, pela Maison des Amis des Livres, o que a aproximou dos editores Christian Bourgois e Adrienne Monnier, referências nos círculos da literatura modernista. Bourgois e Monnier tiveram grande importância na trajetória da Gisèle Freund, apresentando seu trabalho a Jean Paulhan, diretor da Nouvelle Revue Française, e a diversos artistas e intelectuais. Muitos deles ela viria a fotografar em retratos que, desde então, se tornariam definitivos.
A
tese
transformada
em livro seria
revista
e ampliada pela
autora,
ganhando
nova
edição
em 1974 com o título “Fotografia e Sociedade” (publicada
em português em 1989 pela Editora
Vega, de
Lisboa),
somando-se
a outros livros e fotolivros publicados por ela que se tornaram obras
de referência, entre eles “México
Pré-Colombiano”
(1954),
“James
Joyce em
Paris” (1965),
“No
País
dos Rostos
– 30
anos
de arte e literatura através da câmera” (1968),
“O
Mundo
e Minha
Câmera”
(1974),
“Memórias
do Olho”
(1977),
“Poesia
do Retrato: Fotografias de Escritores
e Artistas”
(1989),
“Fotografia
como Documento Social” (1997) e “Retrato: Entrevistas com Gisèle
Freund por
Rauda Jamis”
(1991).
Entre
as homenagens
que
recebeu estão o
prêmio pela carreira, em 1978, da Associação de Fotografia Alemã,
e o Grande Prêmio das Artes do Ministério da Cultura da França, em
1980, pelo conjunto de sua obra. Em
1983, recebeu a Chevalier de la Légion d'honneur, a mais alta
decoração da França, e em 1991 tornou-se a primeira fotógrafa a
ter a retrospectiva de sua obra no Museu Nacional de Arte Moderna do
Centro Georges Pompidou.
![]() |
O
olhar de Gisèle Freund:
no alto, Samuel
Beckett |
A
fotógrafa também atuou como professora e conferencista na França e
em outros países, apresentando em diversas ocasiões cursos e
aulas-espetáculo muito concorridas com projeções de seus retratos
famosos e contextualização dos percalços das fotografias e dos
intelectuais fotografados, incluindo destaques sobre a história da
fotografia e questões técnicas sobre equipamentos, enquadramentos,
composições e edições dos retratos. A
trajetória
de
vida
e trabalho de
Gisèle Freund passaria
também
pela
América Latina, a
partir
da
Segunda Guerra Mundial.
Em Berlim, no
início da década de 1930, ela
estudava sociologia e era
aluna de Theodor Adorno, Max
Horkheimer
e Karl Mannheim na
Escola
de Frankfurt. Quando Adolf Hitler chegou
ao poder, em
1933, ela refugiou-se em Paris, onde começou a trabalhar como
fotógrafa
e
foi
contratada
por
revistas
de
prestígio da
época como
Life, Weekly
Illustrated, Regards
e Paris-Match.
![]() |
![]() |
Retratos da América Latina
Em
Paris, às vésperas da Segunda Guerra, Gisèle Freund tornava-se um
nome conhecido por seus retratos de escritores e intelectuais como
André Malraux, Colette, André Gide, James Joyce, Samuel Beckett,
Marcel Duchamp, André Breton, Henri Matisse, Jean Cocteau, Jean-Paul
Sartre, Walter Benjamin e Virginia Woolf, com inovações técnicas
como o uso da câmera Leica (com filmes de 35 mm para 36 fotografias)
e filmes positivos coloridos Kodachrome e Agfacolor, uma novidade da
época, na qual ela se tornaria pioneira. Em 1937, Adrienne Monnier
organizou o casamento de Gisèle com Pierre Blum, para que ela
tivesse nacionalidade francesa. Em 1940, quando os nazistas ocuparam
a França e prenderam Pierre Blum, ela fugiu de Paris e buscou abrigo
na Argentina, a convite da escritora Victoria Ocampo, permanecendo no
exílio em Buenos Aires até 1947.

Além
da Argentina, Gisèle Freund passou temporadas no Uruguai, no Chile,
no
Brasil
e no México, antes de seu retorno à Europa com
o fim da guerra,
sempre fotografando artistas e escritores e também a paisagem local
com
um olhar atento
para as questões sociais.
Ela
fotografou
personalidades como Julio Cortázar, Jorge
Luis Borges,
Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Octavio Paz, Alejo Carpentier, Juan
Perón e
Eva Perón, Victoria Ocampo, Angélica Ocampo, María Rosa Oliver,
Joaquín Torres García, Frida Kahlo e Diego Rivera, Rufino Tamayo e
José Clemente Orozco, entre outros. Em
2022,
a editora La Fábrica publicou o fotolivro “Gisèle
Freund: In the Oh-So-Distant South” (No
Sul tão Distante),
reunindo
uma
seleção de 100
personalidades em retratos feitos durante
a
permanência
da
fotógrafa na
América Latina.
Na
Argentina,
Gisèle Freud foi contratada pela revista Sur, dirigida por Victoria
Ocampo, e colaborou
em
outras publicações. Seu
trabalho como fotojornalista ganharia fôlego a
partir de 1947 – quando,
de
volta à Europa,
ela
tornou-se
colaboradora
associada
da
Agência Magnum, com sede em Paris. Em
1948, atuando
como
correspondente internacional
da
Magnum, ela retornou para nova
temporada no México e viajou
a
trabalho pelos
países da América Latina. Em 1954, no
entanto,
a parceria com a Magnum terminou
de
forma dramática com
sua demissão, depois
de
ter sido denunciada
nos Estados Unidos como comunista e nomeada
“persona
non grata” pelos
relatórios
do
Comitê de Atividades Antiamericanas liderado pelo senador Joseph
McCarthy.
Uma escrita do olhar
No ensaio para o fotolivro “In the Oh-So-Distant South”, Juan Bonet destaca que a demissão de Gisèle Freund, na época a única mulher atuando na Magnum, foi motivada por uma decisão de Robert Capa, como estratégia para salvar a si mesmo e aos outros sócios fundadores da agência (David Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e William Vandivert) das investigações do FBI e da perseguição pelo macarthismo. O rompimento com a Magnum, contudo, não interrompeu a trajetória de Gisèle Freund, que continuou atuando como fotojornalista de forma obstinada, registrando, em compromissos e viagens por vários países, retratos de escritores e artistas em suas vidas cotidianas, quase sempre no lugar em que moravam ou em seus ambientes de trabalho.
No dossiê de imprensa para a exposição “Uma escrita do olhar”, apresentada no Pavillon Populaire, os curadores Gilles Mora e Lorraine Audric destacam trechos de depoimentos da fotógrafa extraídos de publicações sobre sua obra e de entrevistas que monstram como ela transitou com desenvoltura entre o fotojornalismo engajado e a reportagem sociológica. Alguns trechos evidenciam sua ironia e senso de humor, quando ela diz que, observando grupos de turistas, descobriu que “um em cada dois franceses, americanos e japoneses são fotógrafos” – ou sobre o próprio ato de fotografar, quando ela aponta que de forma alguma a lente da câmera é um olho imparcial porque, na verdade, “a câmera permite toda distorção possível diante da realidade: o caráter da imagem é determinado pelo ponto de vista do fotógrafo e pelas exigências de seus clientes”.
Em outros depoimentos, muito confessionais, ela lamenta que o primeiro inventor da fotografia, Nicéphore Niépce, tenha morrido na miséria, e reconhece seu fascínio incondicional pelos retratos feitos por Nadar. Pelo olhar de Gisèle Freund, Nadar é definido como o primeiro a redescobrir o rosto humano por meio da câmera. “A lente de Nadar conseguia estabelecer uma relação íntima com a fisionomia. Porque ele não estava em busca apenas da harmonia ou da beleza exterior de um rosto. Nadar procurava, acima de tudo, trazer à tona a expressão característica de cada pessoa”, ela ressalta. Pelo visto, as impressões de Gisèle Freund sobre o talento extraordinário de Nadar talvez possam servir à perfeição para definir as qualidades dos incontáveis retratos que ela própria registrou para a posteridade.
por
José Antônio Orlando.
Como citar:
ORLANDO,
José Antônio. O
olhar de Gisèle Freund.
In:
Blog Semióticas,
28
de abril de 2026. Disponível em:
https://semioticas1.blogspot.com/2026/04/o-olhar-de-gisele-freund.html
(acesso em .../.../…).
Para comprar Fotografia e Sociedade, de Gisèle Freund, clique aqui.
![]() |
![]() |


























