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28 de abril de 2026

O olhar de Gisèle Freund

 







Eu via a fotografia como uma maneira maravilhosa para as 

pessoas se entenderem. Eu realmente acreditava nesta utopia: 

que conhecer os outros, compreender suas diferenças, poderia 

ser uma linguagem de paz entre os seres humanos, e meu papel 

seria contribuir para chegar à paz mundial por meio da fotografia. 

–– Gisèle Freund em depoimento a Rauda Jamis em 1991.  



Nenhum outro fotógrafo fez tantos retratos de escritores no século 19 como Félix Nadar em seus estúdios em Paris. Aclamado como um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Nadar também registrou em seu panteão os mais célebres artistas, os cientistas, as autoridades da política e as grandes celebridades de seu tempo. No século 20, vários fotógrafos poderiam disputar o título de recordista em retratos que coube a Nadar no Oitocentos, porque houve no último século a popularização dos equipamentos e são muitos nomes em destaque no fotojornalismo. Entre os candidatos, Gisèle Freund por certo seria uma forte concorrente ao título, considerando a variedade e a importância de seus retratos e o peso das personalidades que ela fotografou.

Um bom fotógrafo precisa ler cada rosto como se fosse um livro” – uma frase de Gisèle Freund sempre citada, poderia ser o título de duas exposições recentes sobre seus célebres retratos. A primeira, no Museu Nacional em Cracóvia, na Polônia, reuniu uma seleção de 280 retratos de intelectuais e artistas com o título Gisèle Freund: Cenas fotográficas e retratos”, incluindo fotografias inéditas descobertas nos últimos anos em acervos particulares. A segunda exposição, “Gisèle Freund: Uma escrita do olhar”, aberta na França, no Pavillon Populaire em Montpellier, um espaço de referência da fotografia, também apresenta retratos e imagens inéditas da fotógrafa.







O olhar de Gisèle Freund: no alto, a fotógrafa em
autorretrato em seu estúdio em Paris, em 1975.

Acima,
Virginia Woolf em Londres, em 1939.
Abaixo,
Simone de Beauvoir em Paris, em 1948;
e
Victoria Ocampo em 1944 em Buenos Aires.
Todas as fotografias desta postagem foram feitas
por
Gisèle Freund, exceto quando indicado










Na exposição de Montpellier está reunida pela primeira vez uma seleção de 150 retratos surpreendentes, mas não são retratos de celebridades da literatura e das artes e sim retratos de anônimos, pessoas comuns em cenas cotidianas. Este retratos de personagens desconhecidos incluem manifestantes nas marchas do antinazismo na Alemanha dos anos 1930, desempregados à beira-mar na Inglaterra do pós-guerra, operários e camponeses em peregrinações religiosas no México ou trabalhadores indígenas explorados em situações extremas semelhantes à escravidão, em flagrantes que Gisèle Freund fotógrafou durante visitas a acampamentos improvisados nas minas de estanho gerenciadas por ingleses na Argentina.


Temas de sociologia e estética



Sejam semblantes de pessoas famosas ou desconhecidas, os retratos surgem sempre belos e cativantes, em cada detalhe da composição, revelando o olhar humanista da fotógrafa e sua preocupação com as questões sociais. Nascida em 1908 em Berlim, na Alemanha, e morta por um ataque cardíaco aos 91 anos em Paris, no ano 2000, Gisèle Freund aliou seu trabalho marcante como fotojornalista à pesquisa teórica, sendo a primeira mulher a defender uma tese de doutorado na Universidade de Paris, em 1936, e não por acaso foi a primeira tese sobre fotografia apresentada na Sorbonne, tendo na banca de avaliação ninguém menos que Walter Benjamin, um dos grandes teóricos da fotografia – que ela conhecia desde a Alemanha e com quem partilhava ideais socialistas e a ascendência judaica.










O olhar de Gisèle Freund: no alto, Walter Benjamin
em 1938, em Paris. Acima, James Joyce, também
em Paris, em 1939. Abaixo, uma visitantes anônima
diante dos retratos de James Joyce na exposição em
homenagem a Gisèle Freund em Cracóvia, na
Polônia, em fotografia de Mateusz Szczypiński








A tese de Gisèle Freund, um estudo sociológico e histórico sobre a fotografia desde os primórdios, com o argumento de que a história da técnica não pode ser separada de uma história social e política, ganhou sua primeira edição em livro ainda em 1936, com o título “Fotografia Francesa no Século 19: um ensaio de sociologia e estética”, pela Maison des Amis des Livres, o que a aproximou dos editores Christian Bourgois e Adrienne Monnier, referências nos círculos da literatura modernista. Bourgois e Monnier tiveram grande importância na trajetória da Gisèle Freund, apresentando seu trabalho a Jean Paulhan, diretor da Nouvelle Revue Française, e a diversos artistas e intelectuais. Muitos deles ela viria a fotografar em retratos que, desde então, se tornariam definitivos.

A tese transformada em livro seria revista e ampliada pela autora, ganhando nova edição em 1974 com o título “Fotografia e Sociedade” (publicada em português em 1989 pela Editora Vega, de Lisboa), somando-se a outros livros e fotolivros publicados por ela que se tornaram obras de referência, entre eles “México Pré-Colombiano” (1954), James Joyce em Paris” (1965), “No País dos Rostos – 30 anos de arte e literatura através da câmera” (1968), O Mundo e Minha Câmera” (1974), “Memórias do Olho” (1977), “Poesia do Retrato: Fotografias de Escritores e Artistas” (1989), “Fotografia como Documento Social” (1997) e “Retrato: Entrevistas com Gisèle Freund por Rauda Jamis” (1991). Entre as homenagens que recebeu estão o prêmio pela carreira, em 1978, da Associação de Fotografia Alemã, e o Grande Prêmio das Artes do Ministério da Cultura da França, em 1980, pelo conjunto de sua obra. Em 1983, recebeu a Chevalier de la Légion d'honneur, a mais alta decoração da França, e em 1991 tornou-se a primeira fotógrafa a ter a retrospectiva de sua obra no Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Georges Pompidou.








O olhar de Gisèle Freund: no alto, Samuel Beckett
em Paris, em 1964. Acima,
Tennessee Williams em
Paris, em 1959. Abaixo, dois mestres da vanguarda
do modernismo em seus respectivos ateliês em Paris:
Henri Matisse, em 1948; e Jean Cocteau em 1939









A fotógrafa também atuou como professora e conferencista na França e em outros países, apresentando em diversas ocasiões cursos e aulas-espetáculo muito concorridas com projeções de seus retratos famosos e contextualização dos percalços das fotografias e dos intelectuais fotografados, incluindo destaques sobre a história da fotografia e questões técnicas sobre equipamentos, enquadramentos, composições e edições dos retratos. A trajetória de vida e trabalho de Gisèle Freund passaria também pela América Latina, a partir da Segunda Guerra Mundial. Em Berlim, no início da década de 1930, ela estudava sociologia e era aluna de Theodor Adorno, Max Horkheimer e Karl Mannheim na Escola de Frankfurt. Quando Adolf Hitler chegou ao poder, em 1933, ela refugiou-se em Paris, onde começou a trabalhar como fotógrafa e foi contratada por revistas de prestígio da época como Life, Weekly Illustrated, Regards e Paris-Match.













O olhar de Gisèle Freund: no alto, a fotógrafa
em autorretrato com a câmera no México, em 1950.

Acima, o jovem Jorge Luis Borges em Buenos Aires,
em 1943; e Julio Cortázar em Paris, em 1966.

Abaixo, o brasileiro Candido Portinari pintando
um retrato do poeta cubano Nicolás Guillén
em Montevidéu, no Uruguai, em 1947; e o compositor
de tango Enrique Santos Discépolo debaixo de um
retrato de Carlos Gardel em Buenos Aires, em 1970











Retratos da América Latina



Em Paris, às vésperas da Segunda Guerra, Gisèle Freund tornava-se um nome conhecido por seus retratos de escritores e intelectuais como André Malraux, Colette, André Gide, James Joyce, Samuel Beckett, Marcel Duchamp, André Breton, Henri Matisse, Jean Cocteau, Jean-Paul Sartre, Walter Benjamin e Virginia Woolf, com inovações técnicas como o uso da câmera Leica (com filmes de 35 mm para 36 fotografias) e filmes positivos coloridos Kodachrome e Agfacolor, uma novidade da época, na qual ela se tornaria pioneira. Em 1937, Adrienne Monnier organizou o casamento de Gisèle com Pierre Blum, para que ela tivesse nacionalidade francesa. Em 1940, quando os nazistas ocuparam a França e prenderam Pierre Blum, ela fugiu de Paris e buscou abrigo na Argentina, a convite da escritora Victoria Ocampo, permanecendo no exílio em Buenos Aires até 1947.







O olhar de Gisèle Freund: no alto, Frida Kahlo
nos jardins de sua casa
no México, em 1948.

A
baixo, Diego Rivera em seu ateliê pintando
“História do Mundo", em 1951; e Eva Perón
em Buenos Aires em 1950. Também abaixo,
uma menina indígena na Patagônia, em 1942;
uma mulher indígena recolhendo pedras com
as mãos em uma mina de estanho gerenciada
por ingleses no norte da Argentina, em 1942;
e camponeses em uma peregrinação religiosa
na Cidade do México em 1952












Além da Argentina, Gisèle Freund passou temporadas no Uruguai, no Chile, no Brasil e no México, antes de seu retorno à Europa com o fim da guerra, sempre fotografando artistas e escritores e também a paisagem local com um olhar atento para as questões sociais. Ela fotografou personalidades como Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Octavio Paz, Alejo Carpentier, Juan Perón e Eva Perón, Victoria Ocampo, Angélica Ocampo, María Rosa Oliver, Joaquín Torres García, Frida Kahlo e Diego Rivera, Rufino Tamayo e José Clemente Orozco, entre outros. Em 2022, a editora La Fábrica publicou o fotolivro “Gisèle Freund: In the Oh-So-Distant South” (No Sul tão Distante), reunindo uma seleção de 100 personalidades em retratos feitos durante a permanência da fotógrafa na América Latina.

Na Argentina, Gisèle Freud foi contratada pela revista Sur, dirigida por Victoria Ocampo, e colaborou em outras publicações. Seu trabalho como fotojornalista ganharia fôlego a partir de 1947 – quando, de volta à Europa, ela tornou-se colaboradora associada da Agência Magnum, com sede em Paris. Em 1948, atuando como correspondente internacional da Magnum, ela retornou para nova temporada no México e viajou a trabalho pelos países da América Latina. Em 1954, no entanto, a parceria com a Magnum terminou de forma dramática com sua demissão, depois de ter sido denunciada nos Estados Unidos como comunista e nomeada “persona non grata” pelos relatórios do Comitê de Atividades Antiamericanas liderado pelo senador Joseph McCarthy.











Uma escrita do olhar


No ensaio para o fotolivro “In the Oh-So-Distant South”, Juan Bonet destaca que a demissão de Gisèle Freund, na época a única mulher atuando na Magnum, foi motivada por uma decisão de Robert Capa, como estratégia para salvar a si mesmo e aos outros sócios fundadores da agência (David Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e William Vandivert) das investigações do FBI e da perseguição pelo macarthismo. O rompimento com a Magnum, contudo, não interrompeu a trajetória de Gisèle Freund, que continuou atuando como fotojornalista de forma obstinada, registrando, em compromissos e viagens por vários países, retratos de escritores e artistas em suas vidas cotidianas, quase sempre no lugar em que moravam ou em seus ambientes de trabalho.

No dossiê de imprensa para a exposição “Uma escrita do olhar”, apresentada no Pavillon Populaire, os curadores Gilles Mora e Lorraine Audric destacam trechos de depoimentos da fotógrafa extraídos de publicações sobre sua obra e de entrevistas que monstram como ela transitou com desenvoltura entre o fotojornalismo engajado e a reportagem sociológica. Alguns trechos evidenciam sua ironia e senso de humor, quando ela diz que, observando grupos de turistas, descobriu que “um em cada dois franceses, americanos e japoneses são fotógrafos” – ou sobre o próprio ato de fotografar, quando ela aponta que de forma alguma a lente da câmera é um olho imparcial porque, na verdade, “a câmera permite toda distorção possível diante da realidade: o caráter da imagem é determinado pelo ponto de vista do fotógrafo e pelas exigências de seus clientes”.

Em outros depoimentos, muito confessionais, ela lamenta que o primeiro inventor da fotografia, Nicéphore Niépce, tenha morrido na miséria, e reconhece seu fascínio incondicional pelos retratos feitos por Nadar. Pelo olhar de Gisèle Freund, Nadar é definido como o primeiro a redescobrir o rosto humano por meio da câmera. “A lente de Nadar conseguia estabelecer uma relação íntima com a fisionomia. Porque ele não estava em busca apenas da harmonia ou da beleza exterior de um rosto. Nadar procurava, acima de tudo, trazer à tona a expressão característica de cada pessoa”, ela ressalta. Pelo visto, as impressões de Gisèle Freund sobre o talento extraordinário de Nadar talvez possam servir à perfeição para definir as qualidades dos incontáveis retratos que ela própria registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. O olhar de Gisèle Freund. In: Blog Semióticas, 28 de abril de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/04/o-olhar-de-gisele-freund.html (acesso em .../.../…). 



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O olhar de Gisèle Freund: acima, personagens
anônimos em uma manifestação antifascista
nas ruas de Frankfurt, Alemanha, no dia 1º de
maio de 1931, fotografia em destaque na
exposição em homenagem a Gisèle Freund
Pavillon Populaire em Montpellier na França.

Abaixo, uma raridade: a primeira fotografia
colorida feita por Gisèle Freund na América do
Sul, a bordo do navio em que ela viajava para
Buenos Aires, em 1942: um barco soltando
fumaça sob as águas cristalinas da Baía da
Guanabara, no Rio de Janeiro.


Também abaixo, Jean-Paul Sartre com
Simone de Beauvoir nas ruas de Paris,
em 1966; e Gisèle Freund em autorretrato
em montagem da fotógrafa para o fotolivro
“O Mundo e Minha Câmera”, de 1974












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