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17 de setembro de 2026

Fotografias que mudaram padrões

 




 

Fashion is about who you want to be, not who you are.

(Moda é sobre quem você quer ser e não sobre quem você é.)

–– Richard Avedon.  


Um dos mais importantes teóricos da fotografia, e também um dos pensadores da cultura mais influentes desde a segunda metade do século 20, o francês Roland Barthes nunca concluiu sua tese de doutorado. Uma parte dela foi publicada em 1967 no livro “O Sistema da Moda” – análise minuciosa a partir de revistas para tentar decifrar a moda como um sistema de significados, um código retórico de imagens e palavras que estabelecem gostos de consumo e tendências culturais. “O Sistema da Moda” não propõe uma história da indumentária e muito menos uma sociologia da moda ou uma psicologia da moda. O que Barthes apresenta é uma semiótica da moda, um estudo sobre a linguagem e os sentidos do que seja a moda e do que seja “estar na moda”.

Alguns dos pressupostos de Barthes, que deram à moda um verniz de assunto nobre e universitário, poderiam servir como epígrafe para uma retrospectiva em formato de reportagem fotográfica feita recentemente pelo jornal The New York Times em sua revista “T” (abreviação para The New York Times Style Magazine – veja link para a reportagem no final desta página). Um dos editores da revista, Nick Haramis, convidou um time de especialistas, que incluiu fotógrafos, estilistas, designers de moda, jornalistas e modelos, para elaborar uma lista com as fotografias de moda mais influentes do último século. Tendo como critérios para a seleção as questões de impacto e de originalidade, a proposta partiu de um desafio potencialmente impossível: nomear as imagens que mudaram padrões sobre beleza, estilo e comportamento.










Fotografias que mudaram padrões: no alto da página,
a capa do álbum “Homogenic”, de Björk, lançado em 1997,
com fotografia de Nick Knight que teve direção de arte
do estilista Alexander McQueen. Acima, a
fotografia
original de Björk antes da pós-produção. A foto, na
verdade, é uma recriação, com poucas alterações,
de outra foto que Knight e McQueen produziram,
também em 1997, para a revista Visionaire,
com a modelo Devon Aoki (uma das imagens
que estão nesta seleção de 25 fotografias).

Abaixo, a 
capa desdobrável de julho de 2005
da Vogue Itália com
fotografia de Steve Meisel









Nomes de referência


Como em toda lista, as imagens selecionadas estão sujeitas aos mais variados questionamentos e podem levar a argumentos sobre rejeições e dúvidas diante de outras fotografias igualmente marcantes que não foram incluídas. As possíveis ressalvas também servem para confirmar que esta não é uma lista definitiva e sim um conjunto mais ou menos memorável para reforçar alguns nomes como referência e apresentar um acervo de imagens e mensagens que provocaram polêmicas e rupturas em sua época e que foram normalizadas, realmente adotadas como norma ou diluídas pela profusão de imitadores que veio depois. A lista não está restrita à publicidade nem a editoriais de moda, desde que a foto tenha de alguma forma inspirado o mundo da moda ou promovido alterações importantes nos critérios sobre estilo e comportamento.

A lista das 25 fotografias marcantes que mudaram padrões sobre beleza e estilo, segundo os critérios da reportagem, inclui imagens muito conhecidas que vêm de fotojornalismo, fotos autorais sobre temas diversos, fotos que se tornaram capas de disco, ou que foram produzidas com esta finalidade, e até um registro feito por um paparazzo. Pelos critérios de votação, em que cada convidado escolhia 10 fotografias sem ordem de classificação, houve o caso do fotógrafo Steven Meisel, que aparece selecionado com mais de uma fotografia.

Na lista, a fotografia mais antiga é de 1951, de Irving Penn, e a mais recente é de Deana Lawson, de 2009. No conjunto de imagens selecionadas, as décadas mais lembradas são a de 1990, com sete fotografias, seguida dos anos 1970, com seis, e dos anos 1980, com cinco imagens selecionadas. Os perfis dos fotógrafos e as análises sobre cada fotografia, reproduzidas a seguir, em ordem cronológica, foram feitos por mim. E, sendo uma revista norte-americana, nenhuma surpresa pela maioria dos fotógrafos e das cenas registradas serem dos Estados Unidos.

 



Irving Penn, “Manga larga, Sunny Harnett”, Nova York, 1951


O norte-americano Irving Penn (1917-2009), um dos nomes mais importantes da fotografia de moda do século 20, muitas vezes copiado e tomado como referência por sua trajetória de excelência, trabalhou por mais de 60 anos para a revista Vogue e ficou conhecido tanto por seus enquadramentos inesperados como pelas perspectivas e enquadramentos incomuns que trouxeram mudanças radicais em relação à tradição centralizada que sempre dominou as fotos do mundo da moda. Nesta foto de 1951, a modelo Sunny Harnett tem o rosto cortado na altura dos olhos e o destaque vai para os detalhes da roupa.




Robert Frank, “Rodeio”, Nova York, 1954


Nascido na Suíça e radicado nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra,
Robert Frank (1924-2019) conseguiu uma bolsa da Fundação Guggenheim para viajar por 30 estados do país fotografando pessoas comuns. Seu primeiro trabalho, depois da guerra, foi como fotógrafo de moda para a Harper’s Bazaar e outras revistas, mas ele não se ajustava às limitações das pautas e partiu para a fotografia documental, registrada em sua obra-prima “The Americans” – livro de 1958 que virou obra de referência e inclui a foto do cowboy anônimo de chapéu, jeans e botas e couro encostado na cesta de lixo na cidade grande. 





Melvin Sokolsky, “Bolha no Sena” para a Harper's Bazaar, 1963


Nascido em Nova York, Melvin Sokolsky (1933-2022) dedicou-se a fotografias de moda e de publicidade. Em 1963, produziu um editorial de moda de 12 páginas para a
revista Harper’s Bazaar que tornou-se um acontecimento: inspiradas em um detalhe da pintura monumental “O Jardim das Delícias Terrenas” (1490), do holandês Hieronymus Bosch, as fotos apresentavam a modelo Simone D'Aillencourt, vestindo peças da coleção do estilista Philippe Venet, dentro de uma bolha de plástico, em vários cenários das ruas de Paris.





Diane Arbus, “Jovem com bobes em casa”, Nova York, 1966


Fotógrafa e escritora, Diane Arbus (1923-1971) começou trabalhando para revistas de moda, produzindo editorias e anúncios publicitários com o marido, Allan Arbus, mas terminou abandonando a parceria para fotografar as ruas de Nova York. Ficou conhecida por seus registros sobre pessoas anônimas e marginalizadas. Na fotografia de 1966, feita com uma câmera Rolleyflex, muito próxima do personagem, a impressão é que estamos presenciando a conversa.








Ed van der Elsken, “Zwitserland”, Alpes Suíços, 1967


O fotógrafo e cineasta holandês Ed van der Elsken (1925-1990)
trabalhou com Henri Cartier-Bresson e Robert Capa na Agência Magnum, em Paris, e viajou por diversos países. Seu foco principal eram as pessoas comuns em cenas urbanas e os marginalizados, abrangendo da Segunda Guerra até os anos 1980. Nesta foto enigmática de 1967, publicada em um editorial sobre viagens da revista Avenue, de Amsterdã, a jovem com a perna engessada contempla a paisagem na janela com uma sensualidade que era incomum para a época. Sofia Coppola reproduz esta imagem nos fotogramas iniciais do filme de 2003 "Lost in Translation" (Encontros e Despedidas).




Ron Galella, “Jackie ao Vento”, Nova York, 1971 

Chamado de “padrinho da cultura dos paparazzi dos Estados Unidos”, Ron Galella (1931-2022) era considerado o paparazzo mais controverso de todos, com várias desavenças e processos judiciais movidos por celebridades como Jacqueline Kennedy Onassis, Marlon Brando, Elvis Presley ou o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, entre outros. Ele dizia que a foto da ex-primeira dama passeando em Nova York era sua “Mona Lisa”, depois de permanecer como uma presença incômoda durante anos na vida cotidiana de Jackie.





Helmut Newton, “Yves Saint Laurent, Rue Aubriot”, 1975


O fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) ficou conhecido por seus estudos de nu feminino que são associados, com muita frequência, aos mais variados fetiches. Depois da Segunda Guerra, ele fixou residência na Austrália, mas seguiu durante décadas trabalhando para revistas de moda, especialmente para a Vogue francesa. Nesta foto emblemática, a modelo Vibeke Knudsen está inteiramente vestida, em uma pose em estilo andrógino, para o catálogo da Saint Laurent, em uma rua deserta do centro histórico de Paris, tarde da noite ou de madrugada.





Robert Mapplethorpe, “Patti Smith”, Nova York, 1975


Patti Smith e o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) foram amantes, no final da década de 1960, quando moravam no lendário Chelsea Hotel e iniciavam suas carreiras, e depois foram amigos muito próximos. Nesta foto, produzida para a capa de “Horses”, álbum de estreia de Patti Smith, é notável a complexidade da composição por trás de um retrato aparentemente simples. No contraste suave entre preto e branco, a luz ilumina somente metade do rosto de Patti e os punhos da camisa foram cortados. Uma fita pende do seu pescoço até a cintura, como se fosse uma gravata desfeita e o paletó masculino está jogado sobre o ombro. Patti declarou, em uma entrevista, que a foto “tem um pouco de Baudelaire, um pouco de garoto católico, um pouco de Frank Sinatra e muito de Robert”.






Joseph Szabo, “O Beijo”, Nova York, 1977

Nascido em Ohio, em 1944, Joseph Szabo concluiu seu mestrado em Belas Artes no Pratt Institute, no Brooklyn, e começou a trabalhar como professor em uma escola pública de ensino médio em Long Island. Suas fotos mais conhecidas registram seus alunos em situações cotidianas e junto de outros adolescentes e jovens suburbanos, namorando ou passeando por Nova York, segundo ele próprio com inspiração nas célebres fotos dos libertinos e modernos parisienses nas décadas de 1920 e 1930 feitas pelo húngaro Brassaï. As atitudes rebeldes presentes em suas fotos foram reproduzidas por diversos anúncios publicitários e estilistas de moda.






Cindy Sherman, “Fotografia sem título nº 21”, Nova York, 1978


A fotógrafa Cindy Sherman também é a modelo nesta fotografia de 1978, da série de retratos sem título em que a ela interpreta diferentes atrizes promovendo filmes fictícios. Nascida em 1954 em Nova Jersey, Cindy especializou-se em criar personas fictícias para criticar estereótipos de gênero, papéis sociais e hábitos de consumo. Embora ela tenha colaborado com publicações de moda em editoriais de sátira, seu foco central é a reflexão sobre identidade e representação visual, como neste retrato da jovem que tem os arranha-céus emoldurando seu rosto preocupado e seu olhar fixo em algo fora do enquadramento da fotografia.








Guy Bourdin, “Mulher com um retrato de John Travolta”, 1979


O francês Guy Bourdin (1928-1991) ficou conhecido por suas fotos publicadas em revistas como a Vogue e a Harper’s Bazaar, mas também conquistou reconhecimento por sua obra experimental e fora dos padrões do mercado da moda e da publicidade. Influenciado pelas experiências estéticas dos mestres do surrealismo, especialmente por Man Ray, Bourdin criou fotos ousadas por seus enredos enigmáticos, eróticos, com cores fortes e provocantes – como nesta imagem, feita para um anúncio publicitário da marca francesa de calçados Charles Jourdan, em que a modelo está reclinada sobre o sofá em uma pose provocante e tem uma foto emoldurada de John Travolta entre suas pernas. Madonna reproduz a pose e a cena no videoclipe de "Hollywood", sob a direção de Jean-Baptiste Mondino.





Nan Goldin, “O Abraço”, Nova York, 1980


Nascida em 1953 em Washington, Nan Goldin tinha 20 anos quando começou a fotografar a si e a seus amigos anônimos, artistas, músicos e drag queens em situações cotidianas de intimidade. Seu diário visual resultaria nas imagens confessionais de uma exposição, apresentada pela primeira vez em 1979 e como fotolivro em 1986, com o título “A Balada da Dependência Sexual” – uma coleção de centenas de fotos que causaram polêmica e a consagraram como uma das fotógrafas e artistas visuais mais importantes de sua geração. Nesta fotografia, a luz do flash projeta a sombra das figuras e dissolve as fronteiras entre documento e autobiografia.





Richard Avedon, “Brooke Shields para Calvin Klein Jeans”, 1980


Talvez Richard Avedon (1923-2004) tenha feito uma concessão ao fotografar Brooke Shields em cores para uma campanha da Calvin Klein Jeans em 1980, já que ele sempre foi conhecido por suas fotos em preto e branco para editoriais de moda, anúncios de publicidade e retratos de celebridades. Na foto, ela tinha apenas 15 anos e a exposição do anúncio na mídia e em outdoors intensificou as controvérsias sobre a sexualização de menores na mídia – Brooke Shields já estava no centro da polêmica, por seu papel de criança coagida à prostituição quando tinha 12 anos no filme de 1978 “Pretty Baby”, de Louis Malle. Não é a foto mais marcante na trajetória de Avedon, mas foi um divisor de águas na publicidade, destacando um estilo de campanhas com foco na provocação e no erotismo que traria fama e fortuna para fotógrafos e publicitários que vieram depois, como o italiano Oliviero Toscani e suas fotos polêmicas criadas
para a grife Benetton. No Brasil houve um episódio semelhante em 1987, com a campanha publicitária “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto para a marca de lingerie Valisére; Patricia Lucchesi, atriz dos anúncios, na época tinha 12 anos.





Jean-Paul Goude, “Grace Jones, Azul-Preto sobre Marrom”, 1981

Nascido em 1938 na França, o fotógrafo, designer e cineasta Jean-Paul Goude conheceu a jamaicana Grace Jones nos anos 1970, quando ele era um respeitado diretor de arte da revista “Esquire” e ela se apresentava no Les Mouches, um bar e discoteca que era um reduto da comunidade LGBT em Nova York. Eles se tornaram um casal inseparável. Goude passou a produzir seu estilo estético e a apresentou a artistas como Andy Warhol e Keith Haring. “Ela se tornou minha obsessão”, declarou Goude em entrevista recente. Foram muitas colaborações entre os dois, de videoclipes a shows e capas de álbum. Esta imagem foi a capa de “Nightclubbing”, quinto disco de Grace Jones, lançado em 1981. O corte de cabelo geométrico, a maquiagem, o smoking Armani e a pele pintada com pigmento azul brilhante mudaram o visual de Grace Jones e da beleza negra desde então.





Andy Warhol, “Jean-Michel Basquiat”, Nova York, 1982


Multiartista, produtor cultural e principal referência da Pop Art, Andy Warhol (1928-1987) trabalhou em todas as mídias e todas as formas da arte em seu tempo, o que inclui o universo da moda através de seu estúdio The Factory, que misturava arte, música e publicidade. Também produziu milhares de fotografias de celebridades, algumas delas com câmeras Polaroid, que revelam e imprimem a imagem segundos após o clique fotográfico. Este retrato em Polaroid foi feito após o primeiro encontro do jovem e desconhecido Basquiat, aos 21 anos, com o marchand de arte suíço Bruno Bischofberger. O marchand levou o trabalho de Basquiat para a Europa e o transformou em uma lenda das artes plásticas.






Hans Feurer, “Susan Hess para Comme des Garçons”, 1983


O fotógrafo suíço Hans Feurer (1939-2024) era um nome de referência no mundo da moda quando produziu esta foto para um catálogo do estilista japonês Rei Kawakubo e sua grife Comme des Garçons em 1983. A silhueta do vestido preto perde a forma e esconde o corpo da modelo Susan Hess, que usa luvas pretas e calça tênis; na pose do salto, um echarpe de cor clara enrolado em várias voltas cobre totalmente o rosto da modelo. A foto foi tão imprevisível e marcante que colocou a Comme des Garçons no radar da moda mundial e alterou o estilo do próprio Kawakubo, que passou a adotar roupas desconstruídas e ousadas que desafiam os cânones da alta-costura e as formas tradicionais do corpo.





Carrie Mae Weems, “Série Mesa de Cozinha”, Nova York, 1990


Nascida em 1953 no Oregon, a fotógrafa e artista multimídia produziu um ensaio com 20 fotografias em que ela própria é personagem diante de uma mesa transformada em palco da vida de uma mulher. Ao redor da mesa, sob a luz de uma luminária suspensa, Weems abordou temas conceituais profundos como maternidade, racismo, sexismo, gênero, identidade e classe social. As fotos deste ensaio de 1990 deram visibilidade para o trabalho de Weems, que em 2014 seria a primeira mulher negra a ter sua obra apresentada em uma retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York.





Corinne Day, “O 3º Verão do Amor”, revista The Face, 1990


A britânica Corinne Day (1965-2010) atuava como modelo, fotógrafa e documentarista quando realizou este ensaio
com Kate Moss, na época uma modelo desconhecida de 16 anos, para a revista londrina The Face. As fotos foram um sucesso e provocaram alterações nos padrões da produção de moda ao rejeitar a maquiagem, os cabelos penteados e o glamour tradicional, introduzindo luz natural e imperfeições que criaram um estilo polêmico, seguido por outros fotógrafos como Craig McDean, Glen Luchford e David Sims. O novo estilo passou a ser chamado de forma pejorativa de “heroin chic” e rompeu drasticamente com o padrão de beleza anterior. 





Peter Lindbergh, “Os anos 1990”, Vogue britânica, 1990


Fotógrafo de moda e cineasta, o alemão Peter Lindbergh (1944-2019) foi responsável por lançar e consagrar super-modelos como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Christy Turlington, que nesta foto sintetizam o estilo de Lindbergh: uso de matizes em preto e branco, sem excesso de retoques e com pouca maquiagem. A foto, feita à luz do dia no Meatpacking District de Nova York, famoso por suas lojas de luxo e sua vida noturna agitada, foi feita para a primeira Vogue britânica da década de 1990. O fotógrafo dispensou os figurinos de grife e cada modelo posou com suas roupas cotidianas. A foto foi capa da revista e inspiração para George Michael gravar também em 1990 o videoclipe de “Freedom' 90” com as cinco modelos em cena e direção de David Fincher.






Rineke Dijkstra, “Kolobrzeg", Polônia, 1992


O portfólio “Beach Portraits”, com centenas de adolescentes anônimas de maiô e biquini nas praias cidades da Europa, na década de 1990, trouxe prestígio à fotógrafa Rineke Dijkstra, nascida em 1959 na Holanda, e há quem destaque em sua obra referências à tradição dos mestres da pintura holandesa, como Vermeer e Rembrandt. A série fotográfica nas praias teve início como uma encomenda para um jornal holandês e terminou impulsionando o trabalho de Rineke Dijkstra. Na imagem, a modelo demonstra timidez e vulnerabilidade, em evidente situação de desconforto. A iluminação com flash na maioria das fotos da série destaca cada personagem e traz um equilíbrio entre figura e fundo que remete à composição clássica de retratos muito conhecidos na história da arte.





Steven Meisel, “Atitude Anglo-Saxônica”, Vogue britânica, 1993


Nascido em Nova York, em 1954, Steven Meisel é um dos mais influentes fotógrafos de moda e de retratos de celebridades, com trabalhos marcantes para a revista Vogue, edições da Itália e do Reino Unido, para as quais fotografou muitas capas e os principais editoriais das últimas três décadas. Esta foto foi a estreia da modelo Stella Tennant, que vivia em uma fazenda de criação de cabras na Escócia. A editora de moda Isabella Blow acrescentou à beleza original da modelo um estilo andrógino com cabelos curtos, maquiagem com contorno preto nos olhos e um piercing no nariz, na época um acessório usado apenas pelos punks mais radicais. Quando a revista foi lançada, Stella Tennant surgiu como novo padrão de beleza, o estilo passou a ser imitado por modelos e fotógrafos influentes e ela ganhou exclusividade com a Versace.





David LaChapelle, “Tupac Shakur: Solitário II”, 1996


Nascido em Connecticut, em 1963, David LaChapelle foi contratado por Andy Warhol, quando estava no começo da carreira, e ficou conhecido por suas fotografias de produção irreverente, de cores intensas, em cenários surreais que muitas vezes misturam temas religiosos ou renascentistas, trabalhando com frequência para grifes do primeiro time e para uma variedade de publicações, da Vanity Fair à Interview, Vogue, The Face e Rolling Stone. Neste retrato de 1996, sob encomenda para a revista Details, o rapper Tupac Shakur, recém-libertado da prisão por abuso sexual, e que seria assassinado em Las Vegas em setembro daquele ano, mostra a tatuagem “Thug Life” (Vida de bandido) deitado dentro da banheira, em uma pose provocante, com a nudez coberta apenas por muitas joias de ouro.
 




Nick Knight, “Devon Aoki”, revista Visionaire, 1997


O britânico Nick Knight, nascido em 1958 em Londres, atua como fotógrafo de moda e como professor na University of the Arts de Londres, sendo um pioneiro no uso de manipulações digitais e entusiasta de recursos tecnológicos de ponta como escaneamento 3D e intervenções por Inteligência Artificial. Nesta foto, produzida para a revista Visionaire, a modelo Devon Aoki veste uma criação de Alexander McQueen. Em um de seus olhos, uma lente de contato; na testa, um alfinete gigante indica um corte profundo com flores, tudo adicionado em pós-produção. A mistura de fragilidade e estranheza levou Björk a contratar Knight e McQueen para recriar a imagem com ela própria como modelo para a capa do disco “Homogenic”, lançado também em 1997.
 

 



Steven Meisel, “Febre de transformação”, Vogue italiana, 2005


Na foto da capa da revista e no ensaio editorial de Steven Meisel, as modelos estão em ambiente de hospital ou em camas de quartos luxuosos com bandagens e curativos, e algumas se contorcem em agonia ou êxtase em cenas de lipoaspiração, injeções faciais, cirurgias estéticas e implantes. O que era provocativo e chocante em 2005, hoje soa como quase banal: as intervenções no corpo deixaram de ser segredo ou exceção e se tornaram símbolos de status. O que talvez pudesse parecer estranho e incomum em 2005, na atualidade se tornou procedimento corriqueiro em nome da beleza.






Deana Lawson, “Binky & Tony Forever”, 2009


Nascida em Nova York, em 1979, Deana Lawson segue a pauta identitária da estética negra em temas como família, sexualidade e espiritualidade com detalhes de composição que fogem aos padrões tradicionais da fotografia de moda. Embora não produza com frequência fotos para revistas do mundo da moda ou para o mercado publicitário, seu trabalho como fotógrafa e artista visual já foi pauta de diversas reportagens em revistas como a Vogue ou a Vanity Fair. A foto de 2009 expressa o que Lawson chamou de “uma cena de amor de jovens negros” e faz parte de um projeto mais amplo que registra momentos de beleza na vida cotidiana que tenham relação com questões políticas e históricas da diáspora negra. Em 2016, esta foto estampou a capa do disco de jazz experimental “Freetown Sound”, de Blood Orange.


por José Antônio Orlando.

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Fotografias que mudaram padrões. In: Blog Semióticas, 17 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/fotografias-que-mudaram-padroes.html (acesso em .../.../…).


 Para acessar a fotorreportagem da  T  Magazine,  clique aqui








Fotografias que mudaram padrões: acima,
Diane Arbus em autorretrato em Nova York, 1968.

Abaixo, Ron Galella perseguindo Jackie Onassis
nas ruas em 1971 (Ron Galella Collection)









28 de abril de 2026

O olhar de Gisèle Freund

 







Eu via a fotografia como uma maneira maravilhosa para as 

pessoas se entenderem. Eu realmente acreditava nesta utopia: 

que conhecer os outros, compreender suas diferenças, poderia 

ser uma linguagem de paz entre os seres humanos, e meu papel 

seria contribuir para chegar à paz mundial por meio da fotografia. 

–– Gisèle Freund, depoimento a Rauda Jamis em 1991.   



Nenhum outro fotógrafo fez tantos retratos de escritores no século 19 como Félix Nadar em seus estúdios em Paris. Aclamado como um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, Nadar também registrou em seu panteão os mais célebres artistas, os cientistas, as autoridades da política e as grandes celebridades de seu tempo. No século 20, vários fotógrafos poderiam disputar o título de recordista em retratos que coube a Nadar no Oitocentos, porque houve no último século a popularização dos equipamentos e são muitos nomes em destaque no fotojornalismo. Entre os candidatos, Gisèle Freund por certo seria uma forte concorrente ao título, considerando a variedade e a importância de seus retratos e o peso das personalidades que ela fotografou.

Um bom fotógrafo precisa ler cada rosto como se fosse um livro” – uma frase de Gisèle Freund sempre citada, poderia ser o título de duas exposições recentes sobre seus célebres retratos. A primeira, no Museu Nacional em Cracóvia, na Polônia, reuniu uma seleção de 280 retratos de intelectuais e artistas com o título Gisèle Freund: Cenas fotográficas e retratos”, incluindo fotografias inéditas descobertas nos últimos anos em acervos particulares. A segunda exposição, “Gisèle Freund: Uma escrita do olhar”, aberta na França, no Pavillon Populaire em Montpellier, um espaço de referência da fotografia, também apresenta retratos e imagens inéditas da fotógrafa.







O olhar de Gisèle Freund: no alto, a fotógrafa em
autorretrato em seu estúdio em Paris, em 1975.

Acima,
Virginia Woolf em Londres, em 1939.
Abaixo,
Simone de Beauvoir em Paris, em 1948;
e
Victoria Ocampo em 1944 em Buenos Aires.
Todas as fotografias desta postagem
foram feitas por
Gisèle Freund










Na exposição de Montpellier está reunida pela primeira vez uma seleção de 150 retratos surpreendentes, mas não são retratos de celebridades da literatura e das artes e sim retratos de anônimos, pessoas comuns em cenas cotidianas. Este retratos de personagens desconhecidos incluem manifestantes nas marchas do antinazismo na Alemanha dos anos 1930, desempregados à beira-mar na Inglaterra do pós-guerra, operários e camponeses em peregrinações religiosas no México ou trabalhadores indígenas explorados em situações extremas semelhantes à escravidão, em flagrantes que Gisèle Freund fotógrafou durante visitas a acampamentos improvisados nas minas de estanho gerenciadas por ingleses na Argentina.


Temas de sociologia e estética



Sejam semblantes de pessoas famosas ou desconhecidas, os retratos surgem sempre belos e cativantes, em cada detalhe da composição, revelando o olhar humanista da fotógrafa e sua preocupação com as questões sociais. Nascida em 1908 em Berlim, na Alemanha, e morta por um ataque cardíaco aos 91 anos em Paris, no ano 2000, Gisèle Freund aliou seu trabalho marcante como fotojornalista à pesquisa teórica, sendo a primeira mulher a defender uma tese de doutorado na Universidade de Paris, em 1936, e não por acaso foi a primeira tese sobre fotografia apresentada na Sorbonne, tendo na banca de avaliação ninguém menos que Walter Benjamin, um dos grandes teóricos da fotografia – que ela conhecia desde a Alemanha e com quem partilhava ideais socialistas e a ascendência judaica.










O olhar de Gisèle Freund: no alto, Walter Benjamin
em 1938, em Paris. Acima, James Joyce, também
em Paris, em 1939. Abaixo, uma visitantes anônima
diante dos retratos de James Joyce na exposição em
homenagem a Gisèle Freund em Cracóvia, na
Polônia, em fotografia de Mateusz Szczypiński








A tese de Gisèle Freund, um estudo sociológico e histórico sobre a fotografia desde os primórdios, com o argumento de que a história da técnica não pode ser separada de uma história social e política, ganhou sua primeira edição em livro ainda em 1936, com o título “Fotografia Francesa no Século 19: um ensaio de sociologia e estética”, pela Maison des Amis des Livres, o que a aproximou dos editores Christian Bourgois e Adrienne Monnier, referências nos círculos da literatura modernista. Bourgois e Monnier tiveram grande importância na trajetória da Gisèle Freund, apresentando seu trabalho a Jean Paulhan, diretor da Nouvelle Revue Française, e a diversos artistas e intelectuais. Muitos deles ela viria a fotografar em retratos que, desde então, se tornariam definitivos.

A tese transformada em livro seria revista e ampliada pela autora, ganhando nova edição em 1974 com o título “Fotografia e Sociedade” (publicada em português em 1989 pela Editora Vega, de Lisboa), somando-se a outros livros e fotolivros publicados por ela que se tornaram obras de referência, entre eles “México Pré-Colombiano” (1954), James Joyce em Paris” (1965), “No País dos Rostos – 30 anos de arte e literatura através da câmera” (1968), O Mundo e Minha Câmera” (1974), “Memórias do Olho” (1977), “Poesia do Retrato: Fotografias de Escritores e Artistas” (1989), “Fotografia como Documento Social” (1997) e “Retrato: Entrevistas com Gisèle Freund por Rauda Jamis” (1991). Entre as homenagens que recebeu estão o prêmio pela carreira, em 1978, da Associação de Fotografia Alemã, e o Grande Prêmio das Artes do Ministério da Cultura da França, em 1980, pelo conjunto de sua obra. Em 1983, recebeu a Chevalier de la Légion d'honneur, a mais alta decoração da França, e em 1991 tornou-se a primeira fotógrafa a ter a retrospectiva de sua obra no Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Georges Pompidou.








O olhar de Gisèle Freund: no alto, Samuel Beckett
em Paris, em 1964. Acima,
Tennessee Williams em
Paris, em 1959. Abaixo, Pierre Bonnard trabalhando
de terno e gravata, em seu estúdio em Le Cannet,
no Sul da França, fotografado em 1946 por
Gisèle Freund; e outros dois mestres da vanguarda
do modernismo em seus respectivos ateliês em Paris:
Henri Matisse, em 1948; e Jean Cocteau em 1939












A fotógrafa também atuou como professora e conferencista na França e em outros países, apresentando em diversas ocasiões cursos e aulas-espetáculo muito concorridas com projeções de seus retratos famosos e contextualização dos percalços das fotografias e dos intelectuais fotografados, incluindo destaques sobre a história da fotografia e questões técnicas sobre equipamentos, enquadramentos, composições e edições dos retratos. A trajetória de vida e trabalho de Gisèle Freund passaria também pela América Latina, a partir da Segunda Guerra Mundial. Em Berlim, no início da década de 1930, ela estudava sociologia e era aluna de Theodor Adorno, Max Horkheimer e Karl Mannheim na Escola de Frankfurt. Quando Adolf Hitler chegou ao poder, em 1933, ela refugiou-se em Paris, onde começou a trabalhar como fotógrafa e foi contratada por revistas de prestígio da época como Life, Weekly Illustrated, Regards e Paris-Match.

















O olhar de Gisèle Freund: no alto, a fotógrafa
em autorretrato com a câmera no México, em 1950.

Acima, três referências da literatura da América Latina:
o jovem Jorge Luis Borges em Buenos Aires, em 1943;
Julio Cortázar fumando em seu apartamento em Paris,
em 1966; e Pablo Neruda em visita a Paris, em 1965.

Abaixo, o brasileiro Candido Portinari pintando
um retrato do poeta cubano Nicolás Guillén
em Montevidéu, no Uruguai, em 1947; e o compositor
de tango Enrique Santos Discépolo debaixo de um
retrato de Carlos Gardel em Buenos Aires, em 1970










Retratos da América Latina



Em Paris, às vésperas da Segunda Guerra, Gisèle Freund tornava-se um nome conhecido por seus retratos de escritores e intelectuais como André Malraux, Colette, André Gide, James Joyce, Samuel Beckett, Marcel Duchamp, André Breton, Henri Matisse, Jean Cocteau, Jean-Paul Sartre, Walter Benjamin e Virginia Woolf, com inovações técnicas como o uso da câmera Leica (com filmes de 35 mm para 36 fotografias) e filmes positivos coloridos Kodachrome e Agfacolor, uma novidade da época, na qual ela se tornaria pioneira. Em 1937, Adrienne Monnier organizou o casamento de Gisèle com Pierre Blum, para que ela tivesse nacionalidade francesa. Em 1940, quando os nazistas ocuparam a França e prenderam Pierre Blum, ela fugiu de Paris e buscou abrigo na Argentina, a convite da escritora Victoria Ocampo, permanecendo no exílio em Buenos Aires até 1947.












O olhar de Gisèle Freund: no alto, Frida Kahlo
nos jardins de sua casa
no México, em 1948.
Acima, Frida em 1951, fotografada durante a
segunda temporada de Gisèle Freund no México

A
baixo, Diego Rivera em seu ateliê pintando
“História do Mundo", em 1951; e Eva Perón
em Buenos Aires em 1950. Também abaixo,
uma menina indígena na Patagônia, em 1942;
uma mulher indígena recolhendo pedras com
as mãos em uma mina de estanho gerenciada
por ingleses no norte da Argentina, em 1942;
e camponeses em uma peregrinação religiosa
na Cidade do México em 1952












Além da Argentina, Gisèle Freund passou temporadas no Uruguai, no Chile, no Brasil e no México, antes de seu retorno à Europa com o fim da guerra, sempre fotografando artistas e escritores e também a paisagem local com um olhar atento para as questões sociais. Ela fotografou personalidades como Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Octavio Paz, Alejo Carpentier, Juan Perón e Eva Perón, Victoria Ocampo, Angélica Ocampo, María Rosa Oliver, Joaquín Torres García, Frida Kahlo e Diego Rivera, Rufino Tamayo e José Clemente Orozco, entre outros. Em 2022, a editora La Fábrica publicou o fotolivro “Gisèle Freund: In the Oh-So-Distant South” (No Sul tão Distante), reunindo uma seleção de 100 personalidades em retratos feitos durante a permanência da fotógrafa na América Latina.

Na Argentina, Gisèle Freud foi contratada pela revista Sur, dirigida por Victoria Ocampo, e colaborou em outras publicações. Seu trabalho como fotojornalista ganharia fôlego a partir de 1947 – quando, de volta à Europa, ela tornou-se colaboradora associada da Agência Magnum, com sede em Paris. Em 1948, atuando como correspondente internacional da Magnum, ela retornou para nova temporada no México e viajou a trabalho pelos países da América Latina. Em 1954, no entanto, a parceria com a Magnum terminou de forma dramática com sua demissão, depois de ter sido denunciada nos Estados Unidos como comunista e nomeada “persona non grata” pelos relatórios do Comitê de Atividades Antiamericanas liderado pelo senador Joseph McCarthy.









   




Uma escrita do olhar


No ensaio para o fotolivro “In the Oh-So-Distant South”, Juan Bonet destaca que a demissão de Gisèle Freund, na época a única mulher atuando na Magnum, foi motivada por uma decisão de Robert Capa, como estratégia para salvar a si mesmo e aos outros sócios fundadores da agência (David Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e William Vandivert) das investigações do FBI e da perseguição pelo macarthismo. O rompimento com a Magnum, contudo, não interrompeu a trajetória de Gisèle Freund, que continuou atuando como fotojornalista de forma obstinada, registrando, em compromissos e viagens por vários países, retratos de escritores e artistas em suas vidas cotidianas, quase sempre no lugar em que moravam ou em seus ambientes de trabalho.








O olhar de Gisèle Freund: quatro escritores em
raras fotografias em cores na década de 1930.

No alto, Colette, em retrato de 1935 em Paris.
Acima, Victoria Sackville-West em 1939 em
Londres. Abaixo, em Paris, André Malraux
em 1935; Paul Valéry em 1938;
e André Gide em retrato de 1939
















No dossiê de imprensa para a exposição “Uma escrita do olhar”, apresentada no Pavillon Populaire, os curadores Gilles Mora e Lorraine Audric destacam trechos de depoimentos da fotógrafa extraídos de publicações sobre sua obra e de entrevistas que demonstram como ela transitou com desenvoltura entre as questões políticas e ideológicas do fotojornalismo engajado e da reportagem sociológica. Alguns trechos evidenciam sua ironia e senso de humor, quando ela diz que, observando grupos de turistas, descobriu que “um em cada dois franceses, norte-americanos e japoneses são fotógrafos” – ou sobre o próprio ato de fotografar, quando ela aponta que nunca, de forma alguma, a lente da câmera é um olho imparcial porque, na verdade, “a câmera permite toda distorção possível diante da realidade: o caráter da imagem é determinado pelo ponto de vista do fotógrafo e pelas exigências de seus clientes”.

Em outros depoimentos, em tom sempre muito confessional, ela lamenta que o primeiro inventor da fotografia, Nicéphore Niépce, tenha morrido na miséria, e reconhece seu fascínio incondicional pelos retratos feitos por Nadar. Pelo olhar de Gisèle Freund, Nadar surge como um artista iluminado, definido como o primeiro a redescobrir o rosto humano por meio da câmera. “A lente de Nadar conseguia estabelecer uma relação íntima com a fisionomia", ela ressalta, "porque Nadar não estava em busca apenas da harmonia ou da beleza exterior de um rosto. Ele procurava, acima de tudo, trazer à tona a expressão característica de cada pessoa”. Pelo visto, as impressões de Gisèle Freund sobre o talento extraordinário de Nadar talvez possam servir à perfeição para definir as qualidades dos incontáveis retratos que ela própria registrou para a posteridade.


por José Antônio Orlando.


Como citar:


ORLANDO, José Antônio. O olhar de Gisèle Freund. In: Blog Semióticas, 28 de abril de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/04/o-olhar-de-gisele-freund.html (acesso em .../.../…). 



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O olhar de Gisèle Freund: acima, personagens
anônimos em uma manifestação antifascista
nas ruas de Frankfurt, Alemanha, no dia 1º de
maio de 1931, fotografia em destaque na
exposição em homenagem a Gisèle Freund
Pavillon Populaire em Montpellier na França.

Na faixa está escrita a frase: "A fotografia
também é uma arma na luta de classes"
.


Abaixo, uma raridade: a primeira fotografia
colorida feita por Gisèle Freund na América do
Sul, a bordo do navio em que ela viajava para
Buenos Aires, em 1942: um barco soltando
fumaça sobre as águas cristalinas da
Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro.


Também abaixo, Jean-Paul Sartre com
Simone de Beauvoir nas ruas de Paris,
em 1966; e Gisèle Freund em autorretrato
em montagem da fotógrafa para a capa do
fotolivro “O Mundo e Minha Câmera”












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