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5 de fevereiro de 2026

A trilha da arte urbana até Banksy






O novo define-se em resposta ao que já está estabelecido;
ao mesmo tempo, o estabelecido tem de se reconfigurar em
resposta ao novo. A tradição não serve para nada quando não
é mais contestada e de algum modo modificada. Uma cultura
que é apenas
preservada, na verdade não é cultura alguma.

–– Mark Fisher em “Realismo Capitalista: Não há alternativa?”







Grafites, murais, cartazes e outras possibilidades nas formas de expressão da arte urbana ganham uma retrospectiva importante com a mostra “Arte urbano. De los orígenes a Banksy”, aberta ao público na Fundação Canal de Madri (link para a exposição no final desta postagem). Como as obras originais estão em paredes e muros de diversas cidades, ou em muitos casos sobrevivem apenas como lembrança em fotografias, a curadoria estabeleceu um suporte único para todas as peças, que são apresentadas em serigrafia sobre papel. Há também fotografias que registram as obras em seu espaço original e registros sobre os artistas em ação nas ruas e nas redes sociais da internet, que transformaram radicalmente a circulação da arte urbana.

Com curadoria de Patrizia Cattaneo Moresi, a exposição propõe um passeio internacional por um fenômeno nascido fora das instituições, na rua e para a rua, que tem questionado radicalmente os limites da arte tradicional. A arte urbana redefiniu a relação entre criação artística, espaço público e sociedade, mantendo uma tensão entre o ilegal e o legitimado, entre rebelião e reconhecimento institucional, sem perder de vista as tensões que continuam a definir o movimento. É uma exposição ambiciosa que lança luzes sobre uma interface fundamental da arte contemporânea, cobrindo um percurso de seis décadas com uma amostragem de mais de 60 obras de alguns de seus artistas mais influentes e consagrados, entre eles Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Bigtato, Blek le Rat, JR, Invader, Suso33, El Xupet Negre, PichiAvo, Ozmo, Wedo Goás e Os Gêmeos. Banksy está em destaque.







A trilha da arte urbana até Banksy: no alto
da página,
Choose your weapon (Escolha
sua arma), grafite de 2010 de
Banksy nas
ruas de Londres, com a silhueta do artista
em autorretrato e o
ícone de um cachorro
inspirado no
“lobo vermelho” que surgiu
nos
anos 1980 em um grafite criado por
Keith Haring. Acima, uma visitante anônima
em uma das salas dedicadas
exclusivamente
às obras
de Banksy na exposição em Madri.

Abaixo, a inscrição pioneira Taki 183 que ganhou
as ruas de Nova York, em fotografia do final dos
anos 1960, e um retrato do autor,
Demétrius, que
se tornou uma celebridade depois d
a repercussão
d
e uma reportagem sobre ele, publicada em 1971
n
o The New York Times. O artista, porém, nunca
revelou seu nome completo e preferiu o anonimato

















A decisão da curadoria pela apresentação das obras em serigrafias sobre papel contorna várias questões de ordem técnica e jurídica, porque garante uma qualidade de reprodução que mantém as características visuais dos trabalhos originais, com um repertório variado de épocas, técnicas, mídias e materiais, e porque seria quase impossível garantir a autorização de todos os artistas para uma exposição presencial das obras no suporte original. Um problema adicional quanto à arte de rua refere-se exatamente à vida efêmera de muitas obras, além da questão da atribuição de autoria, porque muitos artistas permanecem na condição de rebeldes ou arautos da contestação, fora dos padrões convencionais do mercado de arte, produzindo seus trabalhos à revelia do espaço público e privado, muitas vezes na clandestinidade, sob pseudônimos ou assinando obras coletivas.



Diálogo irônico



Todas as questões referentes à arte urbana têm convergência no caso singular de Banksy, figura central na arte contemporânea – o artista mais popular e polêmico das últimas décadas que mantém em sigilo sua verdadeira identidade, no melhor estilo dos super-heróis da ficção. Não é por acaso que uma das galerias da exposição é dedicada exclusivamente a Banksy, descrito no dossiê de imprensa da Fundaão Canal como “um artista essencial para compreender a dimensão mediática e simbólica da arte urbana no século 21”. Além da estratégia do artista sobre o anonimato e o mistério em torno de sua figura, as obras de Banksy são uma síntese da arte urbana em seu diálogo irônico com a mídia e com questões políticas. Com a internet e as redes sociais, suas obras não ficam restritas a um local específico de uma cidade: elas dão a volta ao mundo em questão de horas.








A trilha da arte urbana até Banksy: uma amostra
de outro
s pioneiros que marcaram época nas ruas
de Nova York. N
o alto, Shadowman, grafite de 1982
do canadense
Richard Hambleton. Acima, grafite e
retrato de Keith Haring em uma sala da exposição.

Abaixo, Jailbirds (Pássaros na prisão), um grafite
em acrílico de
Jean-Michel Basquiat que retrata
o espancamento que levou à morte do artista de rua
Michael Stewart pela polícia de Nova York, em setembro
de 1983, porque
ele estava pichando uma estação de
metrô.
Stewart, Basquiat, Hambleton e Keith Haring
participavam do mesmo grupo de grafiteiros






Banksy fornece um paradigma: as primeiras obras do artista surgem em Bristol, na Inglaterra, que se supõe ser sua cidade natal, no começo da década de 1990, e desde então sua trajetória se confunde com a popularização da arte urbana, que deixou de ser algo clandestino e passou a ocupar grandes museus e exposições de primeiro nível. Banksy também é a expressão de um paradoxo: alguns dos seus trabalhos mais conhecidos, como “Girl with Balloon” ou “Love is in the Air”, foram vendidos por milhões de dólares em leilões internacionais, à revelia do artista, que se recusa a vender suas obras, mantendo sua postura anti-capitalista. No entanto, a maioria de suas obras surgem em espaços públicos ou privados, feitas sem autorização, o que as torna ilegais. Algumas foram apagadas ou destruídas, horas depois de serem descobertas. Outras foram removidas e depois vendidas.



Conquista da visibilidade



O recorte histórico da exposição deixa de fora os antecedentes da arte do grafite em murais e pichações políticas que atravessaram diversos períodos da história da arte, da Antiguidade Clássica à Arte Moderna. As origens, nomeadas no título da exposição, são situadas somente a partir dos primeiros grafites que surgiram no contexto da contracultura no metrô de Nova York e outras grandes cidades, na segunda metade da década de 1960, e o percurso do que se convencionou chamar arte urbana ou “street art”, arte das ruas, segue a trilha das obras que surgem nos espaços públicos e que gradativamente alcança reconhecimento em museus e valorização pelo mercado tradicional. O percuso vai da informalidade das ruas para os museus e galerias de arte, ganhando o status de arte contemporânea que tem, como ápice, o fenômeno global que Banksy representa na atualidade.






A trilha da arte urbana até Banksy: acima, grafite do
artista Caper com o coletivo R 2 F (Ready to Fascinate)
criado em 1987, em Londres, inaugurando um estilo
que gerou uma legião de fãs e imitadores mundo afora.

Abaixo, I Love Beef, em técnica mista de estêncil
(molde recortado), spray e tinta acrílica, criação de
2012 de Blek le Rat, pseudônimo de Xavier Prou,
um dos pioneiros do grafite em Paris, com atuação
a partir de 1980. Ele justifica o nome artístico com a
escolha de “rato” por considerar que é um dos únicos
animais realmente livres nas cidades e por inspiração
do herói de histórias em quadrilhos Blek le Roc, com
“Rat” 
formando um anagrama para a palavra “Art”







Das primeiras “tags” grafitadas, quase sempre em forma de assinatura, em praças e estações de metrô, primeiro no Bronx, no Harlem ou no Brooklyn, bairros na época marcados pela desigualdade e pela exclusão. Tomado inicialmente como forma de protesto e de denúncia, o grafite avança com o passar dos anos para obras mais elaboradas. É quando passa a ser adotado o termo italiano “graffiti”, plural de “graffito”, que vem do verbo “graffiare”, significando arranhar ou riscar. O significado literal refere-se aos rabiscos feitos com carvão ou objetos afiados, que no contexto da arte urbana foram sendo substituídos por pincéis e por tinta em spray, por conta da urgência e da pressa da ação clandestina, até começarem a conquistar espaços de maior visibilidade a partir do começo dos anos 1980.



Entre o legal e o ilegal



Um dos pioneiros da arte urbana foi Demétrios, um entregador e office-boy de descendência grega em Nova York, que não tinha pretensões de artista e apenas escrevia seu pseudônimo Taki 183 pelas ruas. O pseudônimo saiu de seu nome de nascimento “Dimitraki” e o número 183 veio de seu endereço na 183rd Street, em Manhattan. Em 1971, as inscrições de Taki 183 eram tão conhecidas e geravam tanta curiosidade que foram tema de uma reportagem investigativa de grande repercussão no The New York Times, mas o artista decidiu permanecer no anonimato e nunca revelou seu nome completo. O sucesso de Taki 183 estimulou centenas de imitadores – e alguns acabaram ficando conhecidos pela originalidade, entre eles Joe 136, Barbara 62, EEL 159, YANK 135 e LEO 136.




























A trilha da arte urbana até Banksy
: acima, o mural
As Mouras de Fene, do galego Edgar Goás Blanco,
mais conhecido como Wedo Goás, na província de
Corunha, Espanha, representando seres míticos do
f
olclore local – mural que foi eleito como o melhor
do mundo em 2025 pela plataforma Street Art Cities

Abaixo, mural gigante de 2017 dos brasileiros Otávio e
Gustavo Pandolfo, mais conhecidos como Os Gêmeos,
em fotografia de Martha Cooper;
e Medusa, mural que
foi pintado em Lisboa, Portugal, por uma dupla da
Espanha, Pichi e Avo (que assinam como PichiAvo)











Uma questão inevitável sobre o grafite e as pichações são as fronteiras entre arte e vandalismo, entre o legal e o ilegal, com o argumento equivocado de que grafite é arte e as inscrições das pichações são vandalismo. No dossiê de imprensa da exposição, a curadoria defende que as fronteiras dependem do contexto, já que tomar uma intervenção das ruas e transferi-la para um museu implica em uma “recontextualização”. Ao sair das ruas, a obra perde seu significado original e adquire outro, condicionado pelo novo ambiente. O que acontece com as obras de Banksy aconteceu com nomes pioneiros como Keith Haring e Samo, pseudônimo de Jean-Michel Basquiat, que ganharam destaque no começo dos anos 1980, também em Nova York, conseguindo a proeza de atravessar a fronteira entre a rua e o museu e formando uma forte influência para outros artistas no mundo inteiro.

 


 



A trilha da arte urbana até Banksy: no alto, o mural
Você vale mais do que muitos pardais,
pintado com
t
inta acrílica sobre PVC por Ozmo, pseudônimo da
artista italiana Gionata Gesi,
em 2016, representando
uma pirâmide social
com seis andares: na base estão
trabalhadores e manifestantes, seguidos
de banquetes
da elite
; nos andares de cima, estão os militares; depois,
os
religiosos; depois, políticos; e por cima, o dinheiro.
A composição inclui a frase “Na arte confiamos”.

Acima, outro mural de Ozmo, criado em 2022, em plena
pandemia de Covid, com o tema bíblico
da criação do
mundo, em
160 metros quadrados em uma parede de
mármore no Cava Galleria Ravaccione, em Carrara,
na
Itália, região famosa pela extração de mármore
que é feita desde os tempos da Roma Antiga.

Abaixo, grafites e pichações anônimas nos muros
medievais de Zamora, em Castela e Leão, norte da
Espanha, que provocaram polêmica quando surgiram,
em 2019, mas não foram removidos pelas autoridades









Controvérsias e preconceitos



Com a valorização do grafite, paredes, trens e fachadas tornam-se enormes telas, com novos artistas surgindo em cidades de vários países, fazendo uso de cores e estilos dos mais variados para expressar mensagens de afirmação de identidade e de conflitos sociais. No recorte que a exposição selecionou, as mensagens em tons de política e de inconformismo são compartilhadas pela maioria dos artistas, com a intenção decorativa em segundo plano. Os grandes nomes da arte urbana destacam, na ocupação do espaço público, o questionamento sobre assuntos muitas vezes desconfortáveis. Para a maioria dos artistas selecionados na exposição em Madri, a rebeldia surge em primeiro plano, como estratégia fundamental, mas sem abrir mão de uma expressão poderosa em nível visual e conceitual.

Com seus temas de identidade, liberdade e rebeldia, a arte urbana que nasceu nas ruas passou a ocupar, cada vez com mais frequência, os espaços nobres de museus e galerias, expandindo as fronteiras da arte moderna, da Pop Art e da arte contemporânea para a interface do humor e da crítica social. Tal passagem enfrentou e enfrenta resistência e não está livre de controvérsias, de preconceitos e juízos de valor elitizados que ainda consideram como Grande Arte somente as formas convencionais de inspiração figurativa e renascentista. Mesmo com as controvérsias ou, em muitos casos, a criminalização sob a acusação de vandalismo, as obras selecionadas na exposição permitem uma avaliação de conjunto sobre a evolução da arte urbana na expansão de técnicas, na diversidade dos processos e nas mensagens mutantes do seu diálogo com o mundo em que vivemos.


por José Antônio Orlando.


Como citar:

ORLANDO, José Antônio. A trilha da arte urbana até Banksy. In: Blog Semióticas, 5 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/02/a-trilha-da-arte-urbana-ate-banksy.html (acesso em .../.../…).




Para uma visita virtual à  exposição na Fundação Canal,  clique aqui.







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A trilha da arte urbana até Banksy: acima,
A
natomia de Asto, grafite de 2011 do francês
Rud
y Dougbe, mais conhecido como Pro176.

Abaixo, grafite de 2016 da série Nightmare
(Pesadelo), do galês Charles Uzzell-Edwards,
mais conhecido como Pure Evil; seguido de
Matrix, grafite do norte-americano Poem One,
que tem atuação na arte de rua desde a década
de 1980;
um grafite de 2025, Choque natural,
criação do artista da Suiça conhecido por Bigtato;
e o cartaz com Banksy na abertura da 
exposição na Fundação Canal em Madri

















Sobre grafite e arte urbana, veja também:




   Semióticas A arte do grafite

   https://semioticas1.blogspot.com/2011/07/a-arte-do-grafite.html


   Semióticas A guerra de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2012/11/banksy-guerra-e-grafite.html


   Semióticas A imitação de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2015/03/a-imitacao-de-banksy.html


   Semióticas A retrospectiva de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2016/07/a-retrospectiva-de-banksy.html


   Semióticas A noite do Natal de Banksy

   https://semioticas1.blogspot.com/2019/12/a-noite-do-natal-de-banksy.html


   Semióticas Aventuras da percepção

   https://semioticas1.blogspot.com/2013/04/aventuras-da-percepcao.html


   Semióticas Cenas de Sinequismo

   https://semioticas1.blogspot.com/2017/02/cenas-de-sinequismo.html


   Semióticas – Vida de artista

   https://semioticas1.blogspot.com/2011/10/vida-de-artista.html







 

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