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17 de setembro de 2026

Fotografias que mudaram padrões

 




 

Fashion is about who you want to be, not who you are.

(Moda é sobre quem você quer ser e não sobre quem você é.)

–– Richard Avedon.  


Um dos mais importantes teóricos da fotografia, e também um dos pensadores da cultura mais influentes desde a segunda metade do século 20, o francês Roland Barthes nunca concluiu sua tese de doutorado. Uma parte dela foi publicada em 1967 no livro “O Sistema da Moda” – análise minuciosa a partir de revistas para tentar decifrar a moda como um sistema de significados, um código retórico de imagens e palavras que estabelecem gostos de consumo e tendências culturais. “O Sistema da Moda” não propõe uma história da indumentária e muito menos uma sociologia da moda ou uma psicologia da moda. O que Barthes apresenta é uma semiótica da moda, um estudo sobre a linguagem e os sentidos do que seja a moda e do que seja “estar na moda”.

Alguns dos pressupostos de Barthes, que deram à moda um verniz de assunto nobre e universitário, poderiam servir como epígrafe para uma retrospectiva em formato de reportagem fotográfica feita recentemente pelo jornal The New York Times em sua revista “T” (abreviação para The New York Times Style Magazine – veja link para a reportagem no final desta página). Um dos editores da revista, Nick Haramis, convidou um time de especialistas, que incluiu fotógrafos, estilistas, designers de moda, jornalistas e modelos, para elaborar uma lista com as fotografias de moda mais influentes do último século. Tendo como critérios para a seleção as questões de impacto e de originalidade, a proposta partiu de um desafio potencialmente impossível: nomear as imagens que mudaram padrões sobre beleza, estilo e comportamento.










Fotografias que mudaram padrões: no alto da página,
a capa do álbum “Homogenic”, de Björk, lançado em 1997,
com fotografia de Nick Knight que teve direção de arte
do estilista Alexander McQueen. Acima, a
fotografia
original de Björk antes da pós-produção. A foto, na verdade,
é uma repetição, com poucas alterações, de outra
foto que Knight e McQueen haviam produzido,
também em 1997, para a revista Visionaire,
com a modelo Devon Aoki (uma das imagens
que estão nesta seleção de 25 fotografias).

Abaixo, a 
capa desdobrável de julho de 2005
da Vogue Itália com
fotografia de Steve Meisel









Nomes de referência


Como em toda lista, as imagens selecionadas estão sujeitas aos mais variados questionamentos e podem levar a argumentos sobre rejeições e dúvidas diante de outras fotografias igualmente marcantes que não foram incluídas. As possíveis ressalvas também servem para confirmar que esta não é uma lista definitiva e sim um conjunto mais ou menos memorável para reforçar alguns nomes como referência e apresentar um acervo de imagens e mensagens que provocaram polêmicas e rupturas em sua época e que foram normalizadas, realmente adotadas como norma ou diluídas pela profusão de imitadores que veio depois. A lista não está restrita à publicidade nem a editoriais de moda, desde que a foto tenha de alguma forma inspirado o mundo da moda ou promovido alterações importantes nos critérios sobre estilo e comportamento.

A lista das 25 fotografias marcantes que mudaram padrões sobre beleza e estilo, segundo os critérios da reportagem, inclui imagens muito conhecidas que vêm de fotojornalismo, fotos autorais sobre temas diversos, fotos que se tornaram capas de disco, ou que foram produzidas com esta finalidade, e até um registro feito por um paparazzo. Pelos critérios de votação, em que cada convidado escolhia 10 fotografias sem ordem de classificação, houve o caso do fotógrafo Steven Meisel, que aparece selecionado com mais de uma fotografia.

Na lista, a fotografia mais antiga é de 1951, de Irving Penn, e a mais recente é de Deana Lawson, de 2009. No conjunto de imagens selecionadas, as décadas mais lembradas são a de 1990, com sete fotografias, seguida dos anos 1970, com seis, e dos anos 1980, com cinco imagens selecionadas. Os perfis dos fotógrafos e as análises sobre cada fotografia, reproduzidas a seguir, em ordem cronológica, foram feitos por mim. E, sendo uma revista norte-americana, nenhuma surpresa pela maioria dos fotógrafos e das cenas registradas serem dos Estados Unidos.

 



Irving Penn, “Manga larga, Sunny Harnett”, Nova York, 1951


O norte-americano Irving Penn (1917-2009), um dos nomes mais importantes da fotografia de moda do século 20, muitas vezes copiado e tomado como referência por sua trajetória de excelência, trabalhou por mais de 60 anos para a revista Vogue e ficou conhecido tanto por seus enquadramentos inesperados como pelas perspectivas e enquadramentos incomuns que trouxeram mudanças radicais em relação à tradição centralizada que sempre dominou as fotos do mundo da moda. Nesta foto de 1951, a modelo Sunny Harnett tem o rosto cortado na altura dos olhos e o destaque vai para os detalhes da roupa.




Robert Frank, “Rodeio”, Nova York, 1954


Nascido na Suíça e radicado nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra,
Robert Frank (1924-2019) conseguiu uma bolsa da Fundação Guggenheim para viajar por 30 estados do país fotografando pessoas comuns. Seu primeiro trabalho, depois da guerra, foi como fotógrafo de moda para a Harper’s Bazaar e outras revistas, mas ele não se ajustava às limitações das pautas e partiu para a fotografia documental, registrada em sua obra-prima “The Americans” – livro de 1958 que virou obra de referência e inclui a foto do cowboy anônimo de chapéu, jeans e botas e couro encostado na cesta de lixo na cidade grande. 





Melvin Sokolsky, “Bolha no Sena” para a Harper's Bazaar, 1963


Nascido em Nova York, Melvin Sokolsky (1933-2022) dedicou-se a fotografias de moda e de publicidade. Em 1963, produziu um editorial de moda de 12 páginas para a
revista Harper’s Bazaar que tornou-se um acontecimento: inspiradas em um detalhe da pintura monumental “O Jardim das Delícias Terrenas” (1490), do holandês Hieronymus Bosch, as fotos apresentavam a modelo Simone D'Aillencourt, vestindo peças da coleção do estilista Philippe Venet, dentro de uma bolha de plástico, em vários cenários das ruas de Paris.





Diane Arbus, “Jovem com bobes em casa”, Nova York, 1966


Fotógrafa e escritora, Diane Arbus (1923-1971) começou trabalhando para revistas de moda, produzindo editorias e anúncios publicitários com o marido, Allan Arbus, mas terminou abandonando a parceria para fotografar as ruas de Nova York. Ficou conhecida por seus registros sobre pessoas anônimas e marginalizadas. Na fotografia de 1966, feita com uma câmera Rolleyflex, muito próxima do personagem, a impressão é que estamos presenciando a conversa.








Ed van der Elsken, “Zwitserland”, Alpes Suíços, 1967


O fotógrafo e cineasta holandês Ed van der Elsken (1925-1990)
trabalhou com Henri Cartier-Bresson e Robert Capa na Agência Magnum, em Paris, e viajou por diversos países. Seu foco principal eram as pessoas comuns em cenas urbanas e os marginalizados, abrangendo da Segunda Guerra até os anos 1980. Nesta foto enigmática de 1967, publicada em um editorial sobre viagens da revista Avenue, de Amsterdã, a jovem com a perna engessada contempla a paisagem na janela com uma sensualidade que era incomum para a época. Sofia Coppola reproduz esta imagem nos fotogramas iniciais do filme de 2003 "Lost in Translation" (Encontros e Despedidas).




Ron Galella, “Jackie ao Vento”, Nova York, 1971 

Chamado de “padrinho da cultura dos paparazzi dos Estados Unidos”, Ron Galella (1931-2022) era considerado o paparazzo mais controverso de todos, com várias desavenças e processos judiciais movidos por celebridades como Jacqueline Kennedy Onassis, Marlon Brando, Elvis Presley ou o casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, entre outros. Ele dizia que a foto da ex-primeira dama passeando em Nova York era sua “Mona Lisa”, depois de permanecer como uma presença incômoda durante anos na vida cotidiana de Jackie.





Helmut Newton, “Yves Saint Laurent, Rue Aubriot”, 1975


O fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) ficou conhecido por seus estudos de nu feminino que são associados, com muita frequência, aos mais variados fetiches. Depois da Segunda Guerra, ele fixou residência na Austrália, mas seguiu durante décadas trabalhando para revistas de moda, especialmente para a Vogue francesa. Nesta foto emblemática, a modelo Vibeke Knudsen está inteiramente vestida, em uma pose em estilo andrógino, para o catálogo da Saint Laurent, em uma rua deserta do centro histórico de Paris, tarde da noite ou de madrugada.





Robert Mapplethorpe, “Patti Smith”, Nova York, 1975


Patti Smith e o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) foram amantes, no final da década de 1960, quando moravam no lendário Chelsea Hotel e iniciavam suas carreiras, e depois foram amigos muito próximos. Nesta foto, produzida para a capa de “Horses”, álbum de estreia de Patti Smith, é notável a complexidade da composição por trás de um retrato aparentemente simples. No contraste suave entre preto e branco, a luz ilumina somente metade do rosto de Patti e os punhos da camisa foram cortados. Uma fita pende do seu pescoço até a cintura, como se fosse uma gravata desfeita e o paletó masculino está jogado sobre o ombro. Patti declarou, em uma entrevista, que a foto “tem um pouco de Baudelaire, um pouco de garoto católico, um pouco de Frank Sinatra e muito de Robert”.






Joseph Szabo, “O Beijo”, Nova York, 1977

Nascido em Ohio, em 1944, Joseph Szabo concluiu seu mestrado em Belas Artes no Pratt Institute, no Brooklyn, e começou a trabalhar como professor em uma escola pública de ensino médio em Long Island. Suas fotos mais conhecidas registram seus alunos em situações cotidianas e junto de outros adolescentes e jovens suburbanos, namorando ou passeando por Nova York, segundo ele próprio com inspiração nas célebres fotos dos libertinos e modernos parisienses nas décadas de 1920 e 1930 feitas pelo húngaro Brassaï. As atitudes rebeldes presentes em suas fotos foram reproduzidas por diversos anúncios publicitários e estilistas de moda.






Cindy Sherman, “Fotografia sem título nº 21”, Nova York, 1978


A fotógrafa Cindy Sherman também é a modelo nesta fotografia de 1978, da série de retratos sem título em que a ela interpreta diferentes atrizes promovendo filmes fictícios. Nascida em 1954 em Nova Jersey, Cindy especializou-se em criar personas fictícias para criticar estereótipos de gênero, papéis sociais e hábitos de consumo. Embora ela tenha colaborado com publicações de moda em editoriais de sátira, seu foco central é a reflexão sobre identidade e representação visual, como neste retrato da jovem que tem os arranha-céus emoldurando seu rosto preocupado e seu olhar fixo em algo fora do enquadramento da fotografia.








Guy Bourdin, “Mulher com um retrato de John Travolta”, 1979


O francês Guy Bourdin (1928-1991) ficou conhecido por suas fotos publicadas em revistas como a Vogue e a Harper’s Bazaar, mas também conquistou reconhecimento por sua obra experimental e fora dos padrões do mercado da moda e da publicidade. Influenciado pelas experiências estéticas dos mestres do surrealismo, especialmente por Man Ray, Bourdin criou fotos ousadas por seus enredos enigmáticos, eróticos, com cores fortes e provocantes – como nesta imagem, feita para um anúncio publicitário da marca francesa de calçados Charles Jourdan, em que a modelo está reclinada sobre o sofá em uma pose provocante e tem uma foto emoldurada de John Travolta entre suas pernas. Madonna reproduz a pose e a cena no videoclipe de "Hollywood", sob a direção de Jean-Baptiste Mondino.





Nan Goldin, “O Abraço”, Nova York, 1980


Nascida em 1953 em Washington, Nan Goldin tinha 20 anos quando começou a fotografar a si e a seus amigos anônimos, artistas, músicos e drag queens em situações cotidianas de intimidade. Seu diário visual resultaria nas imagens confessionais de uma exposição, apresentada pela primeira vez em 1979 e como fotolivro em 1986, com o título “A Balada da Dependência Sexual” – uma coleção de centenas de fotos que causaram polêmica e a consagraram como uma das fotógrafas e artistas visuais mais importantes de sua geração. Nesta fotografia, a luz do flash projeta a sombra das figuras e dissolve as fronteiras entre documento e autobiografia.





Richard Avedon, “Brooke Shields para Calvin Klein Jeans”, 1980


Talvez Richard Avedon (1923-2004) tenha feito uma concessão ao fotografar Brooke Shields em cores para uma campanha da Calvin Klein Jeans em 1980, já que ele sempre foi conhecido por suas fotos em preto e branco para editoriais de moda, anúncios de publicidade e retratos de celebridades. Na foto, ela tinha apenas 15 anos e a exposição do anúncio na mídia e em outdoors intensificou as controvérsias sobre a sexualização de menores na mídia – Brooke Shields já estava no centro da polêmica, por seu papel de criança coagida à prostituição quando tinha 12 anos no filme de 1978 “Pretty Baby”, de Louis Malle. Não é a foto mais marcante na trajetória de Avedon, mas foi um divisor de águas na publicidade, destacando um estilo de campanhas com foco na provocação e no erotismo que traria fama e fortuna para fotógrafos e publicitários que vieram depois, como o italiano Oliviero Toscani e suas fotos polêmicas criadas
para a grife Benetton. No Brasil houve um episódio semelhante em 1987, com a campanha publicitária “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criada por Washington Olivetto para a marca de lingerie Valisére; Patricia Lucchesi, atriz dos anúncios, na época tinha 12 anos.





Jean-Paul Goude, “Grace Jones, Azul-Preto sobre Marrom”, 1981

Nascido em 1938 na França, o fotógrafo, designer e cineasta Jean-Paul Goude conheceu a jamaicana Grace Jones nos anos 1970, quando ele era um respeitado diretor de arte da revista “Esquire” e ela se apresentava no Les Mouches, um bar e discoteca que era um reduto da comunidade LGBT em Nova York. Eles se tornaram um casal inseparável. Goude passou a produzir seu estilo estético e a apresentou a artistas como Andy Warhol e Keith Haring. “Ela se tornou minha obsessão”, declarou Goude em entrevista recente. Foram muitas colaborações entre os dois, de videoclipes a shows e capas de álbum. Esta imagem foi a capa de “Nightclubbing”, quinto disco de Grace Jones, lançado em 1981. O corte de cabelo geométrico, a maquiagem, o smoking Armani e a pele pintada com pigmento azul brilhante mudaram o visual de Grace Jones e da beleza negra desde então.





Andy Warhol, “Jean-Michel Basquiat”, Nova York, 1982


Multiartista, produtor cultural e principal referência da Pop Art, Andy Warhol (1928-1987) trabalhou em todas as mídias e todas as formas da arte em seu tempo, o que inclui o universo da moda através de seu estúdio The Factory, que misturava arte, música e publicidade. Também produziu milhares de fotografias de celebridades, algumas delas com câmeras Polaroid, que revelam e imprimem a imagem segundos após o clique fotográfico. Este retrato em Polaroid foi feito após o primeiro encontro do jovem e desconhecido Basquiat, aos 21 anos, com o marchand de arte suíço Bruno Bischofberger. O marchand levou o trabalho de Basquiat para a Europa e o transformou em uma lenda das artes plásticas.






Hans Feurer, “Susan Hess para Comme des Garçons”, 1983


O fotógrafo suíço Hans Feurer (1939-2024) era um nome de referência no mundo da moda quando produziu esta foto para um catálogo do estilista japonês Rei Kawakubo e sua grife Comme des Garçons em 1983. A silhueta do vestido preto perde a forma e esconde o corpo da modelo Susan Hess, que usa luvas pretas e calça tênis; na pose do salto, um lenço de cor clara cobre totalmente seu rosto. A foto foi tão imprevisível e marcante que colocou a Comme des Garçons no radar da moda mundial e alterou o estilo do próprio Kawakubo, que passou a adotar roupas desconstruídas que desafiam os cânones da alta-costura e as formas tradicionais do corpo.





Carrie Mae Weems, “Série Mesa de Cozinha”, Nova York, 1990


Nascida em 1953 no Oregon, a fotógrafa e artista multimídia produziu um ensaio com 20 fotografias em que ela própria é personagem diante de uma mesa transformada em palco da vida de uma mulher. Ao redor da mesa, sob a luz de uma luminária suspensa, Weems abordou temas conceituais profundos como maternidade, racismo, sexismo, gênero, identidade e classe social. As fotos da série deram visibilidade para o trabalho de Weems, que em 2014 seria a primeira mulher negra a ter sua obra apresentada em uma retrospectiva no Museu Guggenheim de Nova York.





Corinne Day, “O 3º Verão do Amor”, revista The Face, 1990


A britânica Corinne Day (1965-2010) atuava como modelo, fotógrafa e documentarista quando realizou este ensaio
com Kate Moss, na época uma modelo desconhecida de 16 anos, para a revista londrina The Face. As fotos foram um sucesso e provocaram alterações nos padrões da produção de moda ao rejeitar a maquiagem, os cabelos penteados e o glamour tradicional, introduzindo luz natural e imperfeições que criaram um estilo polêmico, seguido por outros fotógrafos como Craig McDean, Glen Luchford e David Sims. O novo estilo passou a ser chamado de forma pejorativa de “heroin chic” e rompeu drasticamente com o padrão de beleza anterior. 





Peter Lindbergh, “Os anos 1990”, Vogue britânica, 1990


Fotógrafo de moda e cineasta, o alemão Peter Lindbergh (1944-2019) foi responsável por lançar e consagrar super-modelos como Naomi Campbell, Linda Evangelista, Tatjana Patitz, Cindy Crawford e Christy Turlington, que nesta foto sintetizam o estilo de Lindbergh: uso de matizes em preto e branco, sem excesso de retoques e com pouca maquiagem. A foto, feita à luz do dia no Meatpacking District de Nova York, famoso por suas lojas de luxo e sua vida noturna agitada, foi feita para a primeira Vogue britânica da década de 1990. O fotógrafo dispensou os figurinos de grife e cada modelo posou com suas roupas cotidianas. A foto foi capa da revista e inspiração para George Michael gravar também em 1990 o videoclipe de “Freedom' 90” com as cinco modelos em cena e direção de David Fincher.






Rineke Dijkstra, “Kolobrzeg", Polônia, 1992


O portfólio “Beach Portraits”, com centenas de adolescentes anônimas de maiô e biquini nas praias cidades da Europa, na década de 1990, trouxe prestígio à fotógrafa Rineke Dijkstra, nascida em 1959 na Holanda, e há quem destaque em sua obra referências à tradição dos mestres da pintura holandesa, como Vermeer e Rembrandt. A série fotográfica nas praias teve início como encomenda para um jornal holandês e terminou impulsionando o trabalho de Rineke Dijkstra. Na imagem, a modelo demonstra timidez e vulnerabilidade, em evidente situação de desconforto. A iluminação com flash na maioria das fotos da série destaca cada personagem e traz um equilíbrio entre figura e fundo que remete à composição clássica de retratos muito conhecidos na história da arte.





Steven Meisel, “Atitude Anglo-Saxônica”, Vogue britânica, 1993


Nascido em Nova York, em 1954, Steven Meisel é um dos mais influentes fotógrafos de moda e de retratos de celebridades, com trabalhos marcantes para a revista Vogue, edições da Itália e do Reino Unido, para as quais fotografou muitas capas e os principais editoriais das últimas três décadas. Esta foto foi a estreia da modelo Stella Tennant, que vivia em uma fazenda de criação de cabras na Escócia. A editora de moda Isabella Blow acrescentou à beleza original da modelo um estilo andrógino com cabelos curtos, maquiagem com contorno preto nos olhos e um piercing no nariz, na época um acessório usado apenas pelos punks mais radicais. Quando a revista foi lançada, Stella Tennant surgiu como novo padrão de beleza, o estilo passou a ser imitado por modelos e fotógrafos influentes e ela ganhou exclusividade com a Versace.





David LaChapelle, “Tupac Shakur: Solitário II”, 1996


Nascido em Connecticut, em 1963, David LaChapelle foi contratado por Andy Warhol, quando estava no começo da carreira, e ficou conhecido por suas fotografias de produção irreverente, de cores intensas, em cenários surreais que muitas vezes misturam temas religiosos ou renascentistas, trabalhando com frequência para grifes do primeiro time e para uma variedade de publicações, da Vanity Fair à Interview, Vogue, The Face e Rolling Stone. Neste retrato de 1996, sob encomenda para a revista Details, o rapper Tupac Shakur, recém-libertado da prisão por abuso sexual, e que seria assassinado em Las Vegas em setembro daquele ano, mostra a tatuagem “Thug Life” (Vida de bandido) deitado dentro da banheira, em uma pose provocante, com a nudez coberta apenas por muitas joias de ouro.
 




Nick Knight, “Devon Aoki”, revista Visionaire, 1997


O britânico Nick Knight, nascido em 1958 em Londres, atua como fotógrafo de moda e como professor na University of the Arts de Londres, sendo um pioneiro no uso de manipulações digitais e entusiasta de recursos tecnológicos de ponta como escaneamento 3D e intervenções por Inteligência Artificial. Nesta foto, produzida para a revista Visionaire, a modelo Devon Aoki veste uma criação de Alexander McQueen. Em um de seus olhos, uma lente de contato; na testa, um alfinete gigante indica um corte profundo com flores, tudo adicionado em pós-produção. A mistura de fragilidade e estranheza levou Björk a contratar Knight e McQueen para reproduzir a imagem com ela própria para a capa do disco “Homogenic”, lançado também em 1997.
 

 



Steven Meisel, “Febre de transformação”, Vogue italiana, 2005


Na foto da capa da revista e no ensaio editorial de Steven Meisel, as modelos estão em ambiente de hospital ou em camas de quartos luxuosos com bandagens e curativos, e algumas se contorcem em agonia ou êxtase em cenas de lipoaspiração, injeções faciais, cirurgias estéticas e implantes. O que era provocativo e chocante em 2005, hoje soa como quase banal: as intervenções no corpo deixaram de ser segredo ou exceção e se tornaram símbolos de status. O que talvez pudesse parecer estranho e incomum em 2005, na atualidade se tornou procedimento corriqueiro em nome da beleza.






Deana Lawson, “Binky & Tony Forever”, 2009


Nascida em Nova York, em 1979, Deana Lawson segue a pauta identitária da estética negra em temas como família, sexualidade e espiritualidade com detalhes de composição que fogem aos padrões tradicionais da fotografia de moda. Embora não produza com frequência fotos para revistas do mundo da moda ou para o mercado publicitário, seu trabalho como fotógrafa e artista visual já foi pauta de diversas reportagens em revistas como a Vogue ou a Vanity Fair. A foto de 2009 expressa o que Lawson chamou de “uma cena de amor de jovens negros” e faz parte de um projeto mais amplo que registra momentos de beleza na vida cotidiana que tenham relação com questões políticas e históricas da diáspora negra. Em 2016, esta foto estampou a capa do disco de jazz experimental “Freetown Sound”, de Blood Orange.


por José Antônio Orlando.

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Fotografias que mudaram padrões. In: Blog Semióticas, 17 de setembro de 2026. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2026/09/fotografias-que-mudaram-padroes.html (acesso em .../.../…).


 Para acessar a fotorreportagem da  T  Magazine,  clique aqui








Fotografias que mudaram padrões: acima,
Diane Arbus em autorretrato em Nova York, 1968.

Abaixo, Ron Galella perseguindo Jackie Onassis
nas ruas em 1971 (Ron Galella Collection)









16 de junho de 2025

Crônica do Bloomsday

 




A história, disse Stephen, é um pesadelo do qual estou tentando acordar.  

 .......................................... James Joyce em “Ulisses”.   
 
   

............................................

O argentino Jorge Luis Borges, uma referência da literatura do século 20, ficaria cego, gradualmente, a partir dos 55 anos, devido a uma condição hereditária, provavelmente glaucoma ou uma doença degenerativa da retina. Apesar da perda da visão, Borges continuou a produzir obras literárias até o fim da vida, quando morreu em Genebra, na Suíça, em 1986, aos 88 anos. Ele sempre soube que perderia a visão, pois o destino da cegueira era hereditário: seu pai, seu avô e seu bisavô também ficaram cegos. Lembro de Borges porque a data de hoje, dia 16 de junho, remete a outra referência incontornável da literatura universal: é a data do Bloomsday, em que os amantes da literatura, e da literatura de James Joyce, em especial, celebram Leopold Bloom, protagonista de “Ulisses”, romance de Joyce que se passa em 16 de junho de 1904.

O fascínio de Borges por Joyce, e mais ainda por “Ulisses”, por certo vem de algumas coincidências existenciais e da força capital que o tempo e a eternidade, em seus componentes de circularidade e repetição, têm na literatura de Borges e também em James Joyce. Borges menciona o autor irlandês muitas vezes em seus escritos e dedicou a ele diversos artigos e ensaios. Quando se consulta as versões on-line do Catálogo Bibliográfico Completo e do Catálogo de Artigos na Imprensa, organizados pela La Maga: Associación Borgesiana de Buenos Aires, é possível encontrar muitos textos de Borges em que Joyce é o tema central ou está citado no argumento das abordagens sobre outros autores.









Crônica do Bloomsday: no alto e acima, James Joyce
fotograf
ado por Giséle Freund para uma reportagem da
revista Time
em 1939, no apartamento em que morou
de 1935 até 1939, na Rue Edmond Valentin, em Paris.
Joyce, que era supersticioso e não gostava de ser
fotografado, concordou, aconselhado por sua editora
Sylvia Beach, depois de saber que o sobrenome de
casada de Giséle Freund era Blum, em conexão óbvia
com Leopold Bloom, personagem de “Ulisses”.

Abaixo, James Joyce fotografado por Alex Ehrenzweig
em 1915, na época em que o escritor se mudou com a
família para Zurique, na Suíça, para escapar dos conflitos da
Primeira Guerra Mundial; e uma vista da O'Connel Bridge,
sobre o rio Liffey, em Dublin, capital da República da Irlanda,
terra natal de James Joyce, em fotografia de 1905











Páginas de 'Ulisses'


Os artigos de Borges trazem referências muito poéticas sobre suas leituras da obra de Joyce – com destaque para os que foram publicados na revista semanal El Hogar, na qual Borges foi colunista entre 1936 e 1939. Na seção “Libros y autores extranjeros: Guía de lecturas”, Borges publicava artigos, resenhas e traduções fragmentadas de autores de outros idiomas além do espanhol. Joyce já havia sido abordado por ele em textos publicados em outros periódicos, os primeiros deles em Proa, revista literária fundada pelo próprio Borges em 1922, ano da publicação do “Ulisses” de Joyce. Os longos artigos em Proa, com os títulos “El ‘Ulises’ de Joyce” e “La última hoja del ‘Ulises’”, foram publicados na mesma edição, em janeiro de 1925, apenas três anos após a primeira edição do romance pela Shakespeare & Company, com sede em Paris.






Crônica do Bloomsday: acima, James Joyce
fotograf
ado por Giséle Freund em 1939. Abaixo, Joyce
nas duas vezes em que foi a reportagem de capa da
revista Time, em janeiro de 1934 e em maio de 1939








Sobre Joyce, na El Hogar, Borges publicou “Joyce e Yeats” (em outubro de 1936); “James Joyce” (em fevereiro de 1937); “Ulysse”, sobre a tradução do romance de Joyce para o francês (em fevereiro de 1938); e “El último libro de Joyce”, sobre o lançamento de “Finnegans Wake” (em junho de 1939), que deixou Borges fascinado pela variedade de fios narrativos "mágicos" e pela fusão de palavras do inglês com outras línguas. Na mesma época, Borges publicaria artigos sobre Joyce na Sur, revista fundada em 1931 por sua amiga muito próxima, a escritora Victoria Ocampo. Na Sur, Joyce foi o tema dos artigos de Borges “Joyce e los neologismos” (em novembro de 1939) e “Fragmento sobre Joyce” (em fevereiro de 1941).


Obra de muitas gerações


Os dois artigos mais poéticos de Borges sobre Joyce estão na El Hogar. No primeiro, em fevereiro de 1937, Borges escreveu: “Mais do que a obra de um só homem, ‘Ulisses’ parece de muitas gerações” – concluindo com uma confissão muito pessoal e definitiva: “A delicada música da prosa de Joyce em ‘Ulisses’ é incomparável.” O segundo artigo, publicado em junho de 1939, aborda “Finnegans Wake”, mas faz citações a “Ulisses”, em tom de profunda melancolia, quase que anunciando o horror da Segunda Guerra Mundial, que já se desenhava no horizonte, com as tropas da Alemanha Nazista ocupando a Polônia em 1º de setembro de 1939 e invadindo mais 11 países nos meses seguintes, transformando o conflito local em uma guerra mundial.






Crônica do Bloomsday: acima, James Joyce
fotograf
ado por Giséle Freund. Abaixo, o casal
Joyce e Nora Barnacle na época em que
se conheceram em Dublin, em 1904;
e James Joyce em fotografias de 1921
e de 1937 em Zurique, na Suíça










Às vésperas da Segunda Guerra, Joyce foi viver na França. “Ulisses” trouxe fama internacional, mas não impediu que ele vivesse angustiado e com destino de navegador errante por diversos países e endereços. É quase inevitável associar a trajetória do escritor à jornada que remonta a referências da Antiguidade Clássica do personagem de Homero, do qual ele se apropriou em "Ulisses". Em uma carta a sua amada Nora Barnacle, ele definiu a si mesmo como “um homem solitário, insatisfeito, orgulhoso”. Diziam os amigos que, em público, Joyce era silencioso, lacônico, distante, com hábitos simples e rígidos na vida cotidiana que o levavam a comer sempre o mesmo prato, no mesmo restaurante, no mesmo horário, todos os dias.


Pavor de raios e trovões


Joyce também tinha problemas nos olhos e fez várias cirurgias que não foram suficientes para evitar o avanço do glaucoma. Seu drama com o avanço da cegueira é um dos temas de “Pomes Pennyeach” (Poemas, um tostão cada), publicado em 1927. Também era supersticioso, além de ter pavor incontrolável diante de raios e trovões, e teologia era um dos assuntos que, invariavelmente, despertavam seu interesse. Talvez por tudo isso certas críticas negativas provocassem nele imensa tristeza – críticas negativas tais como a de Virgina Woolf, que classificou “Ulisses” como “uma catástrofe memorável; imenso em atrevimento, terrível como um desastre” e recusou publicá-lo na The Hogarth Press. No artigo de junho de 1939 na El Hogar, Borges escreveu: “James Joyce, agora, vive num apartamento em Paris, com a sua mulher e os seus dois filhos. Vai sempre com os três à ópera, é muito alegre e muito conversador. Está cego.”





         




Crônica do Bloomsday
: um fotógrafo anônimo
encontrou
James Joyce e Nora Barnacle a caminho
do casamento oficial no cartório, em Dublin, em 1931,
acompanhados de
Fred Monro, advogado de Joyce,
que recomendou sobre a importância do
registro oficial de casamento.

Abaixo, James Joyce em família em 1924,
em Paris, com os filhos Giorgio Joyce e Lucia Joyce
e a esposa Nora Barnacle; um encontro de Joyce
também em 1924 com três amigos e conselheiros,
o poeta e literário Ezra Pound, o escritor e jornalista
Ford Maddox Ford e o advogado John Quinn
no escritório que Pound mantinha em Paris;
dois retratos de James Joyce em 1928 feitos por
Berenice Abbott; e uma página datilografada
de
"Ulisses" com as inúmeras correções
feitas a caneta pelo autor















      


James Joyce nasceu em Dublin em 2 de fevereiro de 1882, o mais velho de 10 crianças em uma família que passou rapidamente da riqueza à pobreza. Apesar das dificuldades, teve educação privilegiada como bolsista em uma escola jesuíta e no University College de Dublin. Sua estreia como autor foi aos 17 anos, quando publicou na Fortnightly Review o ensaio “The New Drama”, estudo sobre a obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Três anos depois, aos 20 anos, foi para Paris, com a intenção de estudar medicina, mas acabou trocando as ciências médicas pela dedicação à literatura e à leitura de seus autores preferidos naquela época, Dante, Shakespeare, Homero e Aristóteles.


As confissões eróticas


Em 1903, ele regressaria a Dublin, por causa da doença da mãe, que faleceu logo depois. No verão de 1904, ainda em Dublin, Joyce conheceu seu grande amor, Nora Barnacle, que se tornou sua companhia inseparável. Joyce tinha 22 anos; Nora, 20. A data da primeira vez que fizeram sexo é o dia 16 de junho de 1904, escolhida para a trama de “Ulisses”, sendo Nora sua inspiração para a personagem Molly Bloom. Pouco tempo depois, Joyce e Nora fogem de Dublin e saem em uma longa viagem pelo continente. Passaram alguns meses em Pula, na atual Croácia, e no ano seguinte foram morar em Trieste, na Itália, onde viveram até 1915, com Joyce no trabalho ocasional como professor de inglês. Tiveram dois filhos, registrados com nomes italianos, Giorgio e Lucia, e estiveram separados apenas por breves períodos em que Joyce viajou a Dublin. As cartas de Joyce para Nora, cheias de confissões eróticas, foram escritas nestas ocasiões.




            


Crônica do Bloomsday: acima, James Joyce e sua
filha Lucia Joyce, em fotografia da década de 1920.

Abaixo, Joyce em Zurique, em 1915, e uma cena
do filme “
Nora”, lançado no ano 2000, com direção
e roteiro de
Pat Murphy, que tem no elenco
Ewan McGregor no papel de James Joyce
e
Susan Lynch como Nora Barnacle



         



O primeiro livro de poemas de Joyce, “Música de Câmara”, foi publicado em Londres em 1907. “Dublinenses”, seleção de 15 contos com ambientação em Dublin, teve primeira edição em 1914, no início da Primeira Guerra, época em que começou a escrever os rascunhos para “Ulisses”. A participação da Itália na guerra levou o casal a fugir novamente, em 1915, de Trieste para várias cidades da Suíça, até fixarem residência em Zurique, onde permanecem até 1919. Em Zurique, Joyce publica dois livros: “Retrato do artista quando jovem”, em 1916, e “Exílados”, em 1918.

"Retrato do artista quando jovem" pode ser definido como um romance 
de formação (Bildungsroman), pontuado de referências autobiográficas, sobre o amadurecimento existencial do personagem que iria retornar em "Ulisses", Stephen Dedalus, alter ego do autor, em sua trajetória da infância à idade adulta. O segundo livro trazia uma peça de teatro, a única que escreveu – uma reflexão sobre a formação de um triângulo amoroso entre um artista de vanguarda, Richard Rowan, um jornalista, Robert Hand, e a mulher de Richard, Bertha, que vai relatando ao marido cada passo das investidas do rival. "Exilados" (também traduzida para o português como "Exílios") remete, entre simetrias e alusões, a “Os mortos”, último conto de “Dublinenses”, e também a “Ulisses”.






Crônica do Bloomsday: acima, Joyce em 1914,
na época em que morava em Trieste, na Itália,
fotografado por seu irmão Stanislaus, tendo ao fundo
Nora e os dois filhos do casal, Lucia e Giorgio.

Abaixo, Joyce em Paris, em fotografia de 1939
de Gisèle Freund, discutindo o lançamento do que
viria a ser seu último livro, “Finnegans Wake”,
com as editoras da Shakespeare and Company,
Sylvia Beach e Adrienne Monnier; e Joyce
na entrada da editora em Paris, em 1922,
com Sylvia Beach, fotografados por Noel Riley.

Também abaixo, Joyce homenageado em 1935
por Jacques-Emile Blanche em um retrato pintado
em óleo sobre tela. No final da página, a e
státua
instalada sobre o túmulo de James Joyce no
Cemitério Fluntern, em Zurique, na Suíça.


                

  






Fluxos de consciência


Ulisses”, a obra magna de Joyce, foi editada e lançada por sua amiga Sylvia Beach na Shakespeare & Company em 2 de fevereiro de 1922, dia do aniversário de 40 anos do autor. Repleto de referências à obra de Homero e de alusões a Shakespeare, à Bíblia e a outros clássicos, o romance recria um dia na cidade de Dublin, aquele dia 16 de junho de 1904, narrando a vida cotidiana de Leopold Bloom, um vendedor de anúncios publicitários. Ao longo de 24 horas, que a narração divide em 18 episódios, Bloom é comparado ao herói grego Ulisses, experimentando encontros, desencontros e reflexões em fluxos de consciência que elevam o trivial do cotidiano a um nível épico. O enredo, que segue a estrutura da "Odisseia" de Homero, apresenta como personagens centrais Leopold Bloom, seu amigo Stephen Dedalus, jovem intelectual, e Molly Bloom, esposa de Leopold, que está envolvida em um caso extraconjugal. 

Um dos motores da narrativa é a interação entre Leopold e Stephen, que o influencia em relação à arte e ao pensamento, sintetizando o encontro de duas gerações e duas formas distintas de entender o mundo. A relação entre Leopold e Stephen, complexa e multifacetada, surge como uma jornada de descoberta mútua e uma busca de sentido espiritual. Leopold Bloom é um homem de meia-idade, enquanto Stephen é um jovem escritor e artista, ambos vivendo em Dublin. A narrativa os une através de uma série de encontros fortuitos, com Bloom vendo em Stephen um filho substituto e Stephen encontrando em Bloom um pai ausente, em aproximações com a relação entre Odisseu e Telêmaco na mitologia grega. Em contraponto, Molly Bloom traz um paralelo irônico com a Penélope da “Odisseia”, a esposa fiel do Ulisses de Homero.





A edição de “Ulisses” em inglês, considerada pelas autoridades oficiais uma obra pornográfica, foi proibida na Inglaterra, nos Estados Unidos e nos países anglo-saxônicos, o que contribuiu para Joyce se tornar o assunto principal dos círculos intelectuais e terminar reconhecido como o autor mais célebre de sua época. O livro se tornaria uma referência para toda a literatura modernista, mas só teve autorização para publicação nos Estados Unidos em 1933. Na Inglaterra, só foi publicado em 1936. Na Irlanda, terra natal do autor, nunca foi oficialmente proibido, mas a censura alfandegária impediu sua ampla circulação até a década de 1960. O leitor brasileiro também teve que esperar durante décadas pela primeira edição do livro de James Joyce, o que só aconteceu em 1966, com a tradução feita por Antônio Houaiss para publicação pela Civilização Brasileira.






“Ulisses” teve mais duas edições no Brasil. Em 2005, Bernardina da Silveira Pereira fez a segunda tradução, publicada pela Editora Objetiva. A terceira tradução foi feita por Caetano Galindo e publicada em 2012 pela Companhia das Letras em parceria com a Penguin Classics, que teve revisão e nova edição em 2022. Há, também, uma nova edição com 18 tradutores, um para cada capítulo, anunciada pela Ateliê Editorial. Além das traduções integrais, fragmentos de “Ulisses” foram traduzidos por outros autores, entre eles Pagu, Erasmo Pilotto, Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari.

O livro lendário de Joyce também mereceu análises dos principais nomes da intelectualidade no Brasil desde o primeiro momento. O primeiro foi Mário de Andrade, que escreveu sobre sua leitura de “Ulisses” no artigo “Da fadiga intelectual”, publicado na Revista do Brasil, em junho de 1924. Meses depois, em dezembro, Gilberto Freyre publicou no Diário de Pernambuco um artigo com o título “Ulisses”, no qual descreve o romance de James Joyce como uma surpresa, uma “reportagem taquigráfica de flagrantes mentais”.

Joyce e
stava aclamado como escritor quando morreu em Zurique, em 1941, prestes a completar 59 anos. Nora, desde então, passou a viver reclusa, na solidão, e também morreu em Zurique, 10 anos depois, em 1951. Para concluir, vale lembrar que depois de tantos textos e de tantas análises, de Borges e de tantos leitores, anônimos ou célebres, o melhor mapa de leitura de "Ulisses" talvez ainda seja o esquema elaborado pelo próprio Joyce para ajudar um amigo, o escritor e tradutor italiano Carlo Linati, no entendimento e na interpretação de sua obra monumental. E há uma questão com a qual a maioria dos leitores e dos críticos concordam: a literatura nunca mais seria a mesma depois daquele dia 16 de junho de 1904.


por José Antônio Orlando

Como citar:

ORLANDO, José Antônio. Crônica do Bloomsday. In: Blog Semióticas, 16 de junho de 2025. Disponível em: https://semioticas1.blogspot.com/2025/06/cronica-do-bloomsday.html (acesso em .../.../…).

 

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